Una lectura de ciego de la encíclica ecológica Laudato Si

Un ciego capta con las manos o con su bastón las cosas más relevantes que encuentra a su paso. Pues vamos a intentar hacer así una lectura de ciego de la encíclica ecológica del Papa Francisco, Laudato Si: sobre el cuidado de la Casa Común, cuyos 5 años (24/05/2015) acabamos de celebrar. ¿Cuáles son sus puntos relevantes?

Para empezar, no se trata de una encíclica verde que se restringe al ambiente, predominante en los debates actuales. Propone una ecología integral que abarca lo ambiental, lo social, lo político, lo cultural, lo cotidiano y lo espiritual.

Quiere ser una respuesta a la generalizada crisis ecológica mundial porque nunca hemos maltratado y herido nuestra Casa Común como en los dos últimos siglos» (n.53). Hemos hecho de la Casa Común «un inmenso depósito de basura» (n.21). Más aún: «Las previsiones catastróficas ya no pueden ser miradas con desprecio e ironía… nuestro estilo de vida, por ser insostenible, solo puede desembocar en catástrofes» (n.161). La exigencia es «una conversión ecológica global» (n.5;216) que implica «nuevos estilos de vida» (lo repite 35 veces) y «cambiar el modelo de desarrollo global» (n.194).

Hemos llegado a esta emergencia crítica por causa de nuestro exacerbado antropocentrismo, por el cual el ser humano «se constituye como dominador absoluto» (n.117) de la naturaleza, desgarrado de ella, olvidando que «todo está interligado y que por eso no puede declararse autónomo de la realidad» (n.117;120). Ha utilizado la tecnociencia como instrumento para forjar «un crecimiento infinito… lo que supone la mentira de la disponibilidad infinita de los bienes del planeta, que lleva a estrujarlo hasta el límite y más allá del límite» (n.106).

En la parte teórica, la encíclica incorpora un dato de la nueva cosmología y la física cuántica: que todo en el universo es una relación. Como en un ritornello insiste en que «todos somos interdependientes, todo está interconectado y todo está relacionado con todo» (cf. nn.16, 86,117,120) lo que da una gran coherencia al texto.

Otra categoría que constituye un verdadero paradigma es la del cuidado. Este es en realidad el verdadero título de la encíclica. El cuidado, por ser la esencia de la vida y del ser humano, según la fábula romana de Higino, tan bien estudiada por Martin Heidegger en Ser y Tiempo, es recurrente a lo largo del texto de la encíclica. Ve en San Francisco «el ejemplo por excelencia del cuidado» (n.10). «Corazón universal… para él cualquier criatura era una hermana unida a él por lazos de cariño, sintiéndose llamado a cuidar de todo lo que existe» (n.11).

Es interesante observar que el Papa Francisco une la inteligencia intelectual, apoyado en los datos de la ciencia, a la inteligencia sensible o cordial. Debemos leer con emoción los números y relacionarnos con la naturaleza «con admiración y encanto (n.11)… prestar atención a la belleza y amarla porque nos ayuda a salir del pragmatismo utilitarista» (n.215). Es importante «escuchar tanto el grito de la Tierra como el grito de los pobres» (n.49).

Consideremos este texto, cargado de inteligencia. emocional: «Todo está relacionado y todos los seres humanos caminamos juntos, como hermanos y hermanas, en una maravillosa peregrinación, entrelazados por el amor que Dios tiene a cada una de sus criaturas y que nos une también con tierno cariño al hermano Sol, a la hermana Luna, al hermano río y a la Madre Tierra» (n.92). Es importante «fomentar una cultura del cuidado que impregne toda la sociedad» (n. 231), ya que de esta manera «podemos hablar de una fraternidad universal» (n.228).

Por último, a la ecología integral le es esencial la espiritualidad. No se trata de derivarla de ideas, sino «de las motivaciones que dan origen a una espiritualidad para alimentar la pasión por el cuidado del mundo… No es posible comprometerse en grandes cosas sólo con doctrinas sin una mística que nos anime, sin una moción interior que impulse, motive, anime y dé sentido a la acción personal y comunitaria» (n.216). Nuevamente evoca aquí la espiritualidad cósmica de San Francisco (n.218).

Para concluir, es importante destacar que con esta encíclica, amplia y detallada, el Papa Francisco se coloca, como lo han reconocido notables ecologistas, a la vanguardia de la discusión ecológica mundial. En muchas entrevistas se ha referido a los peligros que corre nuestra Casa Común, pero su mensaje es de esperanza: «Caminemos cantando. Que nuestras luchas y nuestra preocupación por este planeta no nos quiten la alegría de la esperanza» (n.244).

*Leonardo Boff es ecoteólogo y ha escrito: Francisco de Asís y Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2014.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Uma leitura de cego da encíclica ecológica Laudato Si

Uma leitura de cego da encíclica Laudato Si

Leonardo Boff

Um cego capta com as mãos ou com seu bastão as coisas mais relevantes que encontra pela frente. Pois assim tentaremos fazer uma leitura de cego acerca da encíclica ecológica do Papa Francisco, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum, cujos 5 anos (24/05/2015) acabamos de celebrar. Quais são seus pontos relevantes?

Antes de tudo, não se trata de uma encíclica verde que se restringe ao ambiente, predominante nos debates atuais. Propõe uma ecologia integral que abarca o ambiental, o social, o político, o cultural, o cotidiano e o espiritual.

Quer ser uma resposta à generalizada crise ecológica mundial porque “nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum, como nos últimos dois séculos”(n.53); fizemos da Casa Comum “um imenso depósito de lixo (n.21). Mais ainda:”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia… nosso estilo de vida insustentável só pode desembocar em catástrofes”(n.161). A exigência é de “uma conversão ecológica global”(n.5;216)) que implica “novos estilos de vida”(repete 35 vezes) e “converter o modelo de desenvolvimento global”(n.194).

Chegamos a esta emergência crítica por causa de nosso exacerbado antropocentrismo, pelo qual o ser humano”se constitui um dominador absoluto”(n.117) sobre a natureza, desgarrado dela, esquecendo que “tudo está interligado e por isso ele “não pode se declarar autônomo da realidade”(n.117;120). Utilizou a tecnociência como instrumento para forjar “um crescimento infinito…o que supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta que leva a espremê-lo até ao limite para além dele”(n.106).

Na parte teórica, a encíclica incorpora um dado da nova cosmologia e da física quântica: que tudo no universo é relação. Como num ritornello insiste que “todos somos interdependentes, tudo está interligado e tudo está relacionado com tudo “(cf. nn.16, 86,117,120) o que confere grande coerência ao texto.

Outra categoria que constitui um verdadeiro paradigma é o do cuidado. Este, na verdade, é o verdadeiro título da encíclica. O cuidado, por ser da essência da vida e do ser humano, segundo a fábula romana de Higino, tão bem explorada por Martin Heidegger em Ser e Tempo é recorrente em todo o texto da encíclica. Vê em São Francisco “o exemplo por excelência do cuidado”(n.10).“Coração universal…para ele qualquer criatura era uma irmã unida a ele por laços de carinho, sentindo-se chamado a cuidar de tudo o que existe”(n.11).

É interessante observar que o Papa Francisco une a inteligência intelectual, apoiado nos dados da ciência, à inteligência sensível ou cordial. Devemos ler com emoção os números e relacionarmo-nos com a natureza “com admiração e encanto (n.11)…prestar atenção à beleza e amá-la pois nos ajuda a sair do pragmatismo utilitarista”(n.215). Importa “ouvir tanto o grito da Terra quanto o grito dos pobres”(n.49).

Consideremos este texto, carregado de inteligência. emocional:”Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos, como irmãos e irmãs, numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma de suas criaturas e que nos une também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio, e à Mãe Terra”(n.92). Importa “incentivar uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade”(n.231), pois assim “podemos falar de uma fraternidade universal”(228).

Por fim, é essencial à ecologia integral a espiritualidade. Não se trata de derivá-la de ideias, mas “das motivações que dão origem “a uma espiritualidade para alimentar a paixão pelo cuidado do mundo…Não é possível empenhar-se em coisas grandes, apenas com doutrinas sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216). Novamente evoca aqui a espiritualidade cósmica de São Francisco (n.218).

Concluindo, releva enfatizar que com esta encíclica, ampla e detalhada, o Papa Francisco se coloca, como notáveis ecologistas o reconheceram, na vanguarda da discussão ecológica mundial. Em muitas entrevistas, referiu-se aos riscos que corre nossa Casa Comum. Mas sua mensagem é de esperança: “caminhemos cantando, que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta, não nos tirem a alegria da esperança”  (n.244).

Leonardo Boff é ecoteólogo e escreveu:Francisco de Assis e Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2014.

Cuidar do espírito em tempos do covid-19

Cuidar do espírito e de suas expressões em tempos do covid-19

Tratamos anteriormente nest blog como cuidar de nosso corpo e como cuidar de nossa psiqué no contexto do covid-19. Como somos corpo-mente-espírito, falta abordar como cuidar desta última dimensão, a mais excelente de todas, do espírito. Como fizemos com o conceito de corpo e de psiqué, faremos com o conceito de espírito. Propomo-nos a alargar sua compreensão. Pois, somos herdeiros de uma interpretação que empobrece a sua realidade. Socorrem-nos as ciências da vida e a nova cosmologia que no processo de evolução não apenas tomam em consideração seus aspectos físicos e as constantes cosmológicas, mas incluem as emergências mais notáveis do processo cosmogênico que são a vida, a subjetividade e a consciência reflexa.

Todas estas dimensões revelam o universo em sua exterioridade que a física e astrofísica captam mas também sua interioridade que as ciências da vida tentam decifrar.

Que é o espírito a partir da nova cosmologia

Entender o espírito como uma substância invisível e imortal é dizer meia-verdade e limitar sua amplitude. Nada refere sobre o seu enraizamento no universo nem seu lugar no conjunto de todas as relações já que tudo é relação e nada existe fora da relação. O espírito como substância imortal parece existir em si e para si mesmo, fora do conjunto dos seres.

No entanto, hoje nos é permitido asseverar que o espírito possui a mesma ancestralidade que as energias e a matéria originária. Ele estava presente já no primeiro momento em que o universo surgiu há 13,7 bilhões de anos. Isso se tornou mais convincente quando se descobriu que a matéria não possui apenas massa e energia. Ela possui também uma terceira dimensão, a informação. A informação nasce do jogo de relações que todos os seres entretém entre si, um deixando marcas no outro.

Quando os dois primeiros hádrions (primeira formação de matéria) ou em seguida os topquarks (as partículas menores de matéria subatômica) se encontraram, ocorreu uma troca de energia e de matéria. Cada qual se modificou. Ficaram marcas deste encontro. Estas marcas vão se acumulando, forjando as informações.

Todos os seres são produtores e portadores de informações, inscritas em seu código genético. Estas vão se estocando e se organizando mais e mais na medida em que o universo avança e ganha maior complexidade.

No nível humano se alcança um patamar elevadíssimo de complexidade a ponto de a informação aparecer na forma de consciência reflexa. É aqui que a Energia de Fundo, poderosa e amorosa que sustenta todas as coisas, mais se manifestou. Ela é a melhor expressão daquilo que chamamos Deus que sempre está atuando dentro do processo da evolução. Emergindo o ser humano manifestou-se mais densamente e de forma especial.

O Gênesis o expressa, na linguagem simbólica da época: “Deus formou o ser humano do pó da terra e soprou nas suas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivo” (Gn 2,7). O “sopro da vida” é o espírito. Ele estava no universo, mas não de forma consciente. Agora pela ação pelo sopro divino, ele se tornou auto-consciente.

Este espírito está em cada parte de nosso “corpo” (o código genético presente em cada célula) mas se organiza em ordens a partir do cérebro cujos neurônios sobem a cifras de bilhões em número com trilhões de sinapses (conexões) entre eles.

É importante enfatizar que esta consciência, de um modo próprio, pertence ao universo, no nosso caso, à nossa galáxia, ao nosso sistema solar, ao planeta Terra e por fim a cada pessoa humana. A consciência possui sua pré-história até irromper em nós como consciência da consciência. Nós não temos espírito como não temos corpo. Somos homem-espírito bem como homem-corpo, homem-psiqué, coisa que já assinalamos anteriormente neste blog.

Como se revela o homem-espírito ou o espírito humano? Ele vem à tona no momento em que a consciência se dá conta de si mesma, se sente inserida num Todo maior e se abre ao Infinito. O espírito é o ápice da autoconsciência.

Qual é a singularidade do espírito? Reside em sua capacidade de criar unidade, de fazer uma síntese das informações acumuladas e formar um quadro coerente; é a capacidade de discernir nas partes o Todo e o Todo nas partes, pois compreende que há um fio condutor, um elo que une e re-une todas as coisas. Estas não estão jogadas ai arbitrariamente. Elas se articulam em ordens das mais diferentes formas. Constituem um Todo orgânico, sistêmico, sempre estruturado em redes de relações.

Esse Todo não é algo estabelecido uma vez por todas. Ele é dinâmico. Passa por fases caóticas e desordenadas para em seguida se reordenar e ganhar novamente equilíbrio e harmonia. Espírito, portanto, é a capacidade presente no universo de criar sínteses das relações e unidades sistêmicas a partir destas relações.

O espírito é um princípio cosmológico, quer dizer, pertence à estrutura e à dinâmica do universo e que permite entender universo assim como é, pois esta é a função enquanto princípio. Por isso, diz-se que o universo é espiritual, pensante, consciente, porque ele é reativo, panrelacional e auto-organizativo. Em seu devido grau, todos os seres participam do espírito.

A diferença entre o espírito de uma floresta e o espírito do ser humano não é de princípio mas de grau. O princípio é o mesmo e funciona em ambos mas de modo diferente. Em nós o princípio cria unidades significativas e alta capacidade de relação. Mas no modo auto-consciente. Na floresta o princípio se revela pela unidade da floresta como uma totalidade dinâmica, não simplesmente como um amontoado de árvores, mas como floresta. Mas de um modo não auto-consciente, ou com uma consciência própria da floresta, já que ela também vem conectada com todo o universo, com suas energias e com as forças diretivas da vida e da Terra.

             Características do homem-espírito

Formulada esta compreensão inicial, cabe perguntar: qual são as características distintivas do homem-espírito ou do espírito humano?

A primeira e mais inconfundível delas é sua dimensão transpessoal, chamada também de transcendência. Dimensão transpessoal ou transcendência significa aqui o fato de o espírito humano não ser fechado e limitado em sua própria realidade corporal. Ele sempre desborda e transborda qualquer limite. Transcendência é estar aberto em totalidade, para si mesmo, para o outro, para o mundo e para o Infinito. É sua abertura total que vai além dos limites corporais.

Por isso, diz-se que o homem-espírito habita as estrelas. Quer dizer, com seu espírito atravessa os espaços infinitos e ultrapasse todos os limites espacio-temporais que se lhe antolharem. Por ser um ser de transcendência, o homem-espírito é pan-relacional. Pode entabular relações com todos os tipos de seres. Para ele não há horizontes que se fecham. Cada horizonte se abre a outro e a outro e assim indefinidamente.

Eis aqui a razão porque afirmamos que o ser humano é um projeto infinito e é devorado por um desejo nunca saciável, mas saciável na comunhão com o Infinito real que lhe é adequado. É a Última Realidade, Deus.

Essa capacidade de transcendência liga o homem-espírito ao Todo. Ele se sente mergulhado nele e se percebe parte dele. Esse Todo não está em nenhum lugar, porque engloba todos os lugares.

É próprio do homem-espírito se interrogar sobre a natureza desse Todo que o envolve. Todos os nomes de qualquer língua e cultura terminam por dizer: é o Ser ou simplesmente é o Espírito absoluto, é aquilo que as religiões chamam de Deus.

O extraordinário do homem-espírito é poder entrar em comunhão com esta Suprema Realidade. Agradecer-lhe pela grandeur do universo e pelo dom da vida. Louvá-lo por sua magnanimidade e amor por ter criado todas as coisas e continuar dizendo a cada momento: “ fiat, faça-se, renova-se e exista! Sem essa palavra, tudo voltaria ao nada. Por isso cabe celebrar a vida e dançar diante do Criador.

Mas também, por causa do caos que pode se manifestar no universo, na Terra e na vida, chorar diante dele e perguntar: Por que, ó Deus? Por que permites a morte de tantos pelo Covid-19, por que a avassaladora destruição de um tsunami ou de um terremoto e mesmo, como se relata, na crônica cotidiana, da morte de um jovem dentro de casa, por uma bala da polícia irresponsável ou mesmo por bala perdida numa troca de tiros entre polícia e bandidos? Por que?

Face a estes muitos “por ques” todos nos fazemos um pouco o Jó bíblico que questiona, critica, se rebela diante de Deus para por fim se calar, reverente, face ao mistério porque Deus é maior do que nossa razão e que pode ser de uma forma que não podemos compreender. Apesar desses “absurdos” descobre que Deus “e o soberano amante da vida”(Sab 11,24) que não permitirá que o luto, a lágrima e a desgraça tenham a última palavra. É o espírito que confia e crê. No final Jó resgata a plenitude da vida.

Outra característica do homem-espírito é sua liberdade. Liberdade é a capacidade de auto-determinação pessoal. Sempre há determinações vindas dos vários enraizamentos que a existência apresenta, de lugar, de classe, de tipo de família, de língua,de forma de nosso corpo, de nível de inteligência etc. Mas o ser humano, por si mesmo (auto), pode confrontar-se com estas determinações. Pode assumi-las, rejeitá-las e modificá-las. Preside nele uma força que lhe permite sobrepor-se a estas determinações. Elas o limitam (não há liberdade sem limites) mas não o podem aprisionar. Mesmo escravizado sob ferros, é um livre, pois essa é sua essência enquanto espírito.

A história humana é a história da expansão da liberdade, apesar de todos os retrocessos, história do rompimento de amarras, de conquistas de espaços, de autodeterminação e de plasmação de sua vida e destino. Na história que conhecemos, a liberdade, embora intrínseca ao ser humano, nunca é simplesmente concedida, mas conquistada num processo de libertação. Libertação é aquela ação que cria a liberdade. Paulo Freire, tão injustamente caluniado pelos inimigos da inteligência, mas o grande educador, nos deixou esta lição: “ninguém liberta ninguém; nos libertamos sempre juntos”.

Toda criatividade, todo o universo das artes, da ciência e da técnica, da música, da dança têm por base a liberdade. Sem liberdade a comunicação se transforma em farsa e a palavra mais esconde do que revela.

Mais que tudo, é a liberdade que torna o ser humano um ser ético, responsável pelos atos e suas consequências, que decide do bem e do mal para si para os outros. A liberdade lhe permite ser um anjo bom ou um malfeitor e criminoso. Só um ser livre pode doar-se totalmente ao outro ou a uma causa, como neste momento dramático do império do Covid-19, quando os operadores da saúde, da medicina e da enfermagem e de outros operadores entregam suas vidas, arriscam-se à contaminação para tentar salvar a vida de outros. Se a tão desgastada palavra “herói” tem valor, ela se aplica aqui, não para aqueles heróis de guerra, que se fazem heróis por matar. Aqui nos hospitais estão os verdadeiros heróis da vida porque salvam vidas.

Há valores, como estes vividos por eles, pelos quais vale a pena dar a vida. Morrer assim é digno. É pela qualidade do exercício de nossa liberdade, se optamos pelo bem ou se nos entregamos ao mal que seremos julgados pela nossa própria consciência diante do Senhor da história. Esse julgamento define nosso destino derradeiro e o quadro final de nossa existência, sempre sob o arco da infinita misericórdia de Deus.

Outra característica singular do homem-espírito é sua capacidade de amar. O amor irrrompe como uma força cósmica, decantada por Dante Alighieri em sua Divina Comédia e por todos os grandes espíritos. O amor é tão excelente que para os cristãos define a própria a natureza íntima de Deus: “Deus é amor”(1 Jo 4,16).

O médico Paes Campos, em seu livro Quem cuida do cuidador (Vozes, 2005) disse muito bem:”O ato de cuidar é a materialização de um sentimento de amor” (p. 59). É o que estão fazendo todos aqueles que estão trabalhando abnegadamente nos hospitais, nesse momento do coronavírus. Amar é fazer de si mesmo dom ao outro, é entregar-se incondicionalmente ao outro, é senti-lo dentro; amor é fazer o impossível para estar junto da pessoa amada, é não entender mais a vida sem o amado ou a amada, é experimentar o inferno quando, por qualquer razão, o amor já não existe e não tem mais volta, Sem o amor desaparece todo o brilho, toda a alegria e todo o sentido da vida. Amar então é dizer: você não pode desaparecer nem  morrer.

Mas o homem-espírito pode também odiar, rejeitar, torturar barbaramente, se bestializar completamente quando tomado de ira incontrolável e de vontade destrutiva como nos porões de tortura de nosso regime ditatorial já passado. Essa sombra faz parte também da realidade do espírito, como o mau espírito. E temos assistido pessoas insensíveis e sem empatia face às vítimas do Coronavírus. São desumanas.

O homem-espírito pode também perdoar. Eis outra sua característica. Perdoar não significa esquecer a ferida que ainda sangra mas consiste em não fazer-se refém dela e permanecer aferrado ao passado. Perdoar é esforçar-se em ver o ofensor com compaixão, benevolência e amor. É liberar-se para o amanhã e para novas experiências.

Junto com o perdão vem a capacidade de com-paixão, característica das mais nobres do espírito. Com-paixão, tão necessária nesta época triste da presença do Codiv-19, que produz um oceano de sofrimento em que estão mergulhadas milhares de pessoas em nosso país e  em toda a Terra. Com-paixão é assumir a paixão do outro, é colocar-se no lugar do   outro, não deixá-lo que os familiares e amigos sofram sós, oferecer-lhes um ombro, mais que falar é guardar um silêncio reverente e compassivo, chorar junto e pôr-se solidariamente no mesmo caminho, lado a lado. Tudo isso, pode o homem-espírito.

Mas também a ausência da generosidade e da compaixão pode assumir formas apocalípticas. Três dias antes de se suicidar a 27 de abril de 1945, Hittler escreveu em seu diário:”No fim de tudo, me vem o arrependimento de ter sido tão generoso para com os judeus…”(P. Johnson, Tempos modernos, Rio 1990, p 345), por não ter tido a possibilidade de dar uma solução final a eles (Endlösung) isto é, mandando-os todos eles às câmaras de extermínio (mandou 6 milhões) e de não ter podido matar 30 milhões de eslavos como havia determinado. Aqui o espírito se revela como a suprema perversão. O anti-humano também é parte do humano, complexo e misterioso.

Outra característa do homem-espírito, o de ser o eterno interrogador. Ele permanentemente vem atormentado por perguntas últimas. Só ele as faz porque é portador de autoconsciência, inteligência e percepção do Todo: quem criou o Universo, por que as bilhões de galáxias com suas incontáveis estrelas e planetas? Elas não estão aí por si mesmas. Alguém as pôs na existência e as sustenta. Por que estou aqui? Por que nasci e para que? Qual é o meu lugar e a minha missão neste conjunto indecifrável de seres? Como me comportar diante do outro e da natureza? Terminada a minha jornada nesse pequeno planeta, para onde vou? Que posso, finalmente, esperar?

As respostas não estão codificadas em nenhum manual, embora textos sagrados e filosofias sem conta se esforcem para trazer respostas apaziguadoras. Mas nenhuma delas substitui a nossa própria tarefa existencial de formular uma resposta pessoal que empenha todo o ser.

Mesmo  pessoas mais céticas e descrentes podem, por algum tempo, se furtar a estas indagações. Mas elas, como pertencem à estrutura de nosso espírito, quando menos se espera, especialmente quando um ente querido morre,elas emergem sem podermos recalcá-las, porque possuem uma força intrínseca de sempre se proporem. Não é sem razão que são os ateus aqueles que mais falam de Deus, mesmo que seja para negá-lo. A negação não consegue matar a pergunta existencial. Ela sempre reponta com o vigor do broto depois das chuvas sobre chão ressequido.

Por fim, uma característica básica do espírito é sua capacidade de síntese. Como a natureza do espírito é relacional cabe a ele fazer a síntese entre o céu e a Terra, entre o imanente e o transcendente, entre a exterioridade e a interioridade.

Como o psiqué precisa de um Centro para ordenar todas as energias e pulsões que a habitam, assim o espírito sente-se perdido ou cindido ao meio se não lograr uma Síntese, não teórica, mas vital-existencial, que dê direção à sua vida. Por isso cada um possui, consciente o inconscientemente, uma cosmovisão, quer dizer, uma leitura do mundo, uma interpretação do curso da história, uma visão de conjunto. O espírito não aguenta uma esquisofrenia existencial que separa, opõe, desune e atomiza a realidade. Ele precisa de um quadro ordenador de todas as suas experiências, ideias e sonhos.

Muito mais caberia dizer do homem-espírito. Mas bastem-nos estas referências para fundamentar nosso intento de pensar tal realidade à luz do cuidado e do que as ciências nos sugerem.

     Cuidar do espírito é viver a dimensão humano-espiritual

Como se deriva das reflexões feitas, o espírito é uma realidade tão sutil e sujeita a tantos percalços – exatamente por ser o melhor e mais alto de nós mesmos – que nós devemos cuidá-lo zelosamente e nos preocuparmos para preservá-lo com todo o seu caráter infinito.

Cuidar do espírito comporta cultivar a espiritualidade. Precisamos libertar a espiritualidade de seu enquadramento na religião. Não existe, por certo, religião sem espiritualidade; ela nasce de uma profunda experiência espiritual. Mas pode existir espiritualidade independente da religião.

Cuidar da espiritualidade é cultivar a permanente atitude de abertura face a qualquer realidade. É estar disponível ao nó de relações que ele mesmo é. É viver concretamente a transcendência, quer dizer, não se deixar prender por nenhuma das realidade determinada, o que não significa não engajar-se e assumir com seriedade responsabilidades. Mas saber estar para além delas. Nem afundar-se com elas quando fracassam. nem apegar-se a elas quando triunfam.

Espiritualidade pede silêncio. Silêncio não é não dizer nada, mas criar o espaço para que outra palavra possa ser ouvida, que nos vem do profundo de nós mesmos, vinda da consciência, de uma pessoa, quem sabe até anônimia,do próprio Deus que nos colocou neste mundo.

O cuidado do espírito implica não colocar entraves no encontro com o outro. Viver espiritualmente é acolhê-lo. Diz a lenda grega, confirmada pelas Escrituras judaico-cristãs, que um casal idoso e pobre ao acolher um miserável, descobriu ter hospedado o Deus escondido na figura do pobre. O cuidado do espírito leva cultivar a bondade, a bem-querença, a solidariedade, a compaixão e o amor. Estes são os valores que constituem a substância da espiritualidade que nos acompanham ao longo da vida e que os levamos para além da morte.

Às vezes este espírito de cuidado emerge através uma conversação sincera com o amigo, ao ouvir uma música que nos vai ao profundo da alma, através da leitura de algum livro, de um encontro especial de uma pessoa sábia,  da assistência de algum filme, vídeo ou teatro. Ou simplesmente ouvindo com atenção o que pensa da vida o pipoqueiro da esquina, o vendedor ambulante, as queixas do esmoler da rua.

Cuidar do espírito é abrir-se ao mistério do mundo e ao mistério maior que é Deus. Espiritualidade não se resume em ler e pensar sobre Deus mas falar a Deus ou permitir que Ele fale à nossa consciência, em senti-lo no coração, poder dialogar com ele e auscultar sua voz que vem por todas as coisas, mas especialmente, dos chamados de nossa consciência. Importa fazer a passagem da cabeça ao coração. Porque é o coração que sente, venera e ama a Deus.

O resultado deste cuidado se faz logo sentir por uma vida mais serena, por uma paz que nenhum ansiolítico ou droga pode conceder. É levar a vida com quem se sente na palma da mão de Deus. Então por que temer? Existe um desfrute maior do que ver-se livre dos medos e sentir-se acompanhado por um olhar amoroso?

Cuidar do espírito envolve também cuidar do ambiente social, cuidar dos outros para que a atmosfera envolvente não se faça tão desumana, obsessiva na busca do prazer, do consumo e do descontrole dos instintos, danosos para a pessoa e para os outros.

Neste campo, há muito que fazer, começando cada um consigo mesmo, fazendo sua revolução molecular e, ao mesmo tempo, se recusando a entrar nos “esquemas deste mundo”segundo o Apóstolo Paulo (Rom 12,2) e reforçando todas aquelas iniciativas que representam alternativas e sementes de um novo tipo de habitar a Casa Comum.

O cuidado em seu núcleo essencial exige um outro tipo de paradigma civilizacional no qual não o capital material e a acumulação de bens impera, mas o capital humano-espiritual será um dos eixos centrais, capaz de criar um rosto mais humano e fraterno ao convívío humano, com os outros e com toda a natureza.

Seja-nos permitir terminar com uma afirmação que se tornou quase banal mas que não perde em verdade e atualidade: o novo mundo, depois do coronavírus ou mais tarde, ou será mais espiritual ou não será. Razão a mais para começarmos a ser mais espirituais, vale dizer, mais sensíveis, cooperativos, amorosos e cuidadosos, finalmente, mais humanos.

Leonardo Boff escreveu Espiritualidade: um caminho de realização, Mar de Ideias, Rio 2016; Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas, Vozes, 2011; Anselm Grün/Leonardo Boff, O Divino em nós, na pessoa e no universo Vozes 2017.

 

 

Covid-19: o cooperamos y nos solidarizamos o no tendremos ningún futuro

Una pregunta siempre presente en las búsquedas humanas es: ¿cuál es nuestra esencia específica? La historia conoce innumerables respuestas, pero la más contundente, convergencia de varias ciencias contemporáneas como la nueva biología evolutiva, la genética, las neurociencias, la psicología evolutiva, la cosmología, la ecología, la fenomenología y otras es esta: la cooperación y la solidaridad.

Michael Tomasello, considerado genial en el área de la psicología del desarrollo infantil de 1 a 3 años, sin intervención invasiva, reunió en un volumen lo mejor de ese campo con el título: Por qué cooperamos (Warum wir kooperieren, Berlim, Suhrkamp 2010). En su ensayo inicial afirma que la esencia de lo humano está en el “altruismo” y la “cooperación”. «En el altruismo uno se sacrifica por el otro. Es la empatía. En la cooperación muchos se unen para el bien común» (pág. 14). Es la solidaridad.

Una de las especialistas principales en psicología y evolución de la Universidad de Stanford, Carol S. Dweck, afirma: «Mas que la excepcional grandeza de nuestro cerebro y nuestra inmensa capacidad de pensar, nuestra naturaleza esencial es ésta: la aptitud para ser seres de cooperación y de relación» (Por qué cooperamos, op.cit 95).

Otra, especialista de la misma ciencia, famosa por sus investigaciones empíricas, Elizabeth S. Spelke, de Harvard, afirma: nuestra marca, por naturaleza, que nos diferencia de cualquier otra especie superior como los primates (de los cuales somos una bifurcación) es “nuestra intencionalidad compartida” que propicia todas las formas de cooperación, comunicación y participación en tareas y objetivos comunes” (op.cit. 112). Discurre junto con el lenguaje, que es esencialmente social y cooperativo, un rasgo específico de los humanos, tal como lo entienden los biólogos chilenos H. Maturana y F. Varela.

Otro especialista, este neurobiólogo del conocido Instituto Max Plank, Joachim Bauer, en su libro El gen cooperativo (Das kooperative Gen, Hoffman und Campe, Hamburgo 2008) y especialmente en el libro Principio-humanidad: por qué cooperamos por naturaleza (2006) apoya la misma tesis: el ser humano es esencialmente un ser cooperativo. Refuta rotundamente al zoólogo inglés Richard Dawkins, autor del libro El gen egoísta (1976/2004). Y afirma «que su tesis no tiene ninguna base empírica; por el contrario, representa el correlato del capitalismo dominante que parece así legitimarlo» (Op.cit.153). También critica la superficialidad de otro libro suyo Dios, una ilusión (2007).

Sin embargo, dice Bauer, está científicamente comprobado que «los genes no son autónomos y de ninguna manera ‘egoístas‘ sino que se agregan con otros en las células de todo el organismo» (El gen cooperativo, 184). Además dice: «Todos los sistemas vivos se caracterizan por la cooperación permanente y la comunicación molecular hacia adentro y hacia fuera» (Op.cit.183). Es notorio para la bioantropología que la especie humana dejó atrás a los primates y se convirtió en ser humano cuando comenzó de manera cooperativa a recoger y a comer lo que recogía.

Una de las tesis axiales de la física cuántica (W.Heisenberg) y de la cosmogénesis (B.Swimme) consiste en afirmar la cooperación y la relación de todos con todos. Todo está relacionado y nada existe fuera de la relación. Todos cooperan unos con otros para coevolucionar. Tal vez la formulación más bella la encontró el Papa Francisco en su encíclica Laudato Sì: sobre el cuidado de la Casa Común: «Todo está relacionado, y todos nosotros, los seres humanos, caminamos juntos como hermanos y hermanas, en una maravillosa peregrinación… que nos une también, con tierno afecto, al hermano sol, a la hermana luna, al hermano río y a la Madre Tierra» (n.92).

Un brasilero, profesor de filosofía de la ciencia en la UFES de Vitória, Maurício Abdala, escribió un convincente libro El principio de cooperación (Paulus 2002), en línea con las reflexiones anteriores.

¿Por qué decimos todo esto? Para mostrar lo antinatural y perverso que es el sistema imperante del capital con su individualismo y su competición sin ninguna cooperación. Es el que está llevando a la humanidad a un fatal callejón sin salida.  Con esta lógica, el coronavirus nos habría contaminado y exterminado la gran mayoria. La cooperación y la solidaridad de todos con todos es lo que nos está salvando.

De aquí en adelante tenemos que decidir si obedecemos a nuestra naturaleza esencial, la cooperación y la empatia a nivel personal, local, regional, nacional y mundial, cambiando nuestra forma de habitar la Casa Común, o comenzamos a prepararnos para lo peor, en un camino sin retorno.

Si no escuchamos esta lección que la Covid-19 nos está dando y volvemos, con más furia aún a lo de antes, para recuperar el atraso, podemos estar en la cuenta regresiva de una catástrofe todavía más letal en un umbral apocalíptico. ¿Quién nos garantiza que no podrá ser el temido NBO (Next Big One), aquel próximo y último virus avasallador e inatacable que pondrá fin a nuestra especie? Grandes nombres de la ciencia como Jacquard, de Duve, Rees, Lovelock y Chomsky entre otros nos advierten sobre esta emergencia trágica.

Solo me queda recordar las últimas palabras del viejo Martin Heidegger en su última entrevista a Der Spiegel, que sería publicada 15 años después de su muerte, refiriéndose a la lógica suicida del proyecto científico-técnico de la modernidad: “Nur noch ein Gott kann uns retten” = “Solo un Dios podrá salvarnos”.

Es lo que espero y creo, pues Dios se ha revelado como “el apasionado amante de la vida” (Sabiduría 11,24).

*Leonardo Boff es ecoteólogo, filósofo y ha escrito: Opción Tierra: la solución de la Tierra no cae del cielo, Record 2009, Sal Terrae 2010.

Traducción de Mª José Gavito Milano