Por que chegamos a Jair Bolsonaro? Uma disquisição histórico-filosófica

                                             Leonardo Boff

Há um sem número de excelentes análises do anti-fenômeno Jair Messias Bolsonaro, predominando as de ordem sociológica, histórica e econômica. Creio que devemos cavar mais a fundo para captar a irrupção deste Negativo em nossa história.

A reflexão ocidental, devido aos limites culturais de nosso arraigado individualismo, quase não desenvolveu categorias analíticas para analisar totalidades históricas. A de Hegel em sua Filosofia da História, vem eivada de preconceitos,inclusive sobre o Brasil e dispõem de poucas categorias aproveitáveis. Arnold Toynbee em seus 10 volumes sobre a história mundial trabalha com um esquema fecundo mas limitado: desafio e resposta (challenge and response) com o inconveniente de não conferir relevância aos conflitos de todo tipo, inerentes à história.A Escola francesa dos Annales,em suas variações (Lefbre,, Braudel, Le Goff) incluí várias ciências mas não nos ofefeceu uma leitura da história como totalidade.Não deixam de ser inspiradoras as categorias desenvolvidas por Ortga  Gasset no seu famoso estudo sobre Esquemas de las crisis y otros ensayos(1942).

Temos que tentar pensar por nós mesmos e nos perguntar numa atitude fillosofante, vale dizer, que busca causas mais profundas que aquelas meramente analíticas das ciências: por que o Brasil chegou a este sinistro personagem histórico, como chefe de estado, que desafia qualquer compreensão pssicológica,ética e política?

De antemão devemos dizer que todo existente não é fortuito, pois é fruto de um pré-existente, de larga duração, que cabe à razão desentranhar. Ademais há que pensá-lo sempre dialeticamente:junto ao negativo e sombrio acompanham sempre como acólitos, as dimensões  positivas e portadoras de alguma luz. Não nos é concedido ter apenas luz ou trevas. Todas as realidades são crepusculares, mesclando luz e sombras. Mas o nosso foco nesta reflexão se concentra nas sombras, pois são elas as que nos causam problemas.

Vou lança mão de algumas categorias: a das sombras recalcadas, a teoria do caos destrutivo e generativo, a compreensão transpssoal do karma no diálogo entre Toynbee e do filósofo japonês Daisaku Ikeda e os princípios do thánatos e do eros, associados à condition humaine de seres sapiens e simultaneamente demens.

            As quatro sombras reprimidas pela consciência coletiva

A consciência brasileira é dominada por quatro sombras que nunca até o presente foram reconhecidas e integradas. Entendo a categoria “sombra” no sentido psicanalítico da escola de C.G.Jung e discípulos,tornada categoria amplamente aceita pelas demais escolas. Sombra seriam os conteúdos sombrios e negativos que uma cultura com seu consciente/inconsciente coletivos se recusa a assimilar e assim os recalca e se esforça por afasta-los da memória coletiva. Tal repressão impede um processo de individuação nacional coerente e sustentado.  

A primeira comparece a sombra do genocídio indígena.Segundo Darcy Ribeiro haveria uma população de cerca 5-6 milhões de indígenas com centenas de línguas, fato único na história mundial. Eles foram praticamene dizimados.Restaram os 900 mil atuais. Lembremos o massacres de Mem de Sá em 31 de maio de 1580 que liquidou com  os Tupiniquim da Capitania de Ilhéus. Por um quilômetro e meio ao longo da  praia numa distância de alguns metros uns de outros, jaziam centenas de  corpos de indígenas assassinados, relatados como glória ao rei de Portugal.

Pior ainda foi a guerra declarada oficialmente por D.João VI, mal chegado ao Brasil, fugindo das tropas de Napoleão, que dizimou os Botocudos (Krenak) no vale do Rio Doce, por acharem que eram incivilizáveis e incatequisáveis. Essa guerra oficial manchará para sempre a memória nacional. Ailton Krenak, cujos antepassados sobreviveram, nos  lembra essa vergonhosa guerra oficial de um imperador impiedoso,tido por bom.

O atual governo de uma ignorância supina em antropologia, considera os povos indígenas originários como sub-humanos que devem ser forçados a entrar nos nossos códigos culturais para serem humanos e civilizados. O descuido que mostrou por   suas reservas invadidas e pelo abandono face à Covid-19 beira a um genocídio,passível de ser levado ao Tribunal Internacional Penal por crimes contra a humanidade.

A  segunda  sombra é nosso passado colonial. Não ocorreu uma descoberta do Brasil mas uma pura e simples invasão, destruindo o idílio inicial pacífico descrito por Pero Vaz de Caminha. Deu-se um encontrão profundamente desigual de civilizações. Logo se iniciou o processo de ocupação e violência em função das riquezas aqui existentes. Todo processo colonialista é violento. Implica invadir terras, submeter os povos, obriga-los a falar a língua do invasor, incorporar suas formas de organização social e a completa submissão desumanizadora dos dominados. Desse processo de submetimento surgiu o complexo do vira-lata, achar que é bom só o que vem de fora ou de cima, de abaixar sempre  a cabeça e abandonar qualquer veleidade de autonomia e de projeto próprio.

A mentalidade de boa parte dos estratos dirigentes se consideram ainda de certa forma coloniais, por mimetizarem os estilos de vida e a assumiram os valores de seus  patrões que foram variando ao longo de nossa historia. Hoje se constituiu uma expressão humilhante para toda a nação, o fato do atual chefe de estado fazer uma viagem especial aos USA, saudar a bandeira norte-americana e prestar  um rito explícito  de vassalagem ao presidente Donad Trump, extravagante, ego-centrado e tido por notáveis analistas estadounidentes o mais estúpido da história política daquele país.

A terceira sombra, a mais perversa de todas, foi a da escravidão. O jorrnalista e historiador Laurntino Gomes em seus dois volumes sobre A Escravidão (2019/2020) nos narra o inferno desse processo de inumanidade. O Brasil foi campeão do escravagismo. Só ele importou, a partir de 1538, cerca de 4,9 milhões de africanos que foram escravizados aqui. Das 36 mil viagens transatlânticas, 14.910 destinavam-se aos portos brasileiros.

Estas pessoas escravizadas eram tratadas como mercadorias, chamadas “peças”. A primeira coisa que o comprador fazia para “traze-las bem domesticadas e disciplinadas” era castigá-las, “haja açoites, haja correntes e grilhões”. A história da escravidão foi escrita pela  mão branca, apresentando-a como branda, quando, na verdade, foi crudelíssima e vem prolongada hoje contra a população negra, mulata (54,4% da população) e pobre, como o tem mostrado irrefutavemente Jessé Souza em A Elite do Atraso:da escravidão a Bolsonaro (2020). Feita a abolição em 1888 não se lhes fez aos escravos nenhuma compensação,foram largados ao deus-dará e compõem hoje a maioria das favelas. Nunca se lhes reconheceu a mínima humanidade. A classe dominante, transferindo o ódio ao escravo z eles, se acostumou a humilhá-los, a ofendê-los até perderem o senso de sua dignidade.

Essa sombra pesa enormemente na consciência coletiva e é a mais recalcada, na afirmação mentirosa de aqui aqui não há racismo nem discriminação. No atual governo  isso foi desmascarado pela violência sistemática contra esta população estimulada pelo próprio chefe de estado que tem conduzido uma política necrófila. Esta sombra por sua desumanidade evocou pessoas sensíveis como o poeta Castro Alvez. Ressoarão para sempre seus versos em Vozes d’Africa:

         “Ó Deus, onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes/ Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito/ Que esbalde, desde então, corre o infinito… /Onde estás, Senhor Deus” Esse grito continua hoje tão lancinante com outrora.

Jessé Souza, em sua obra já referida, mostrou de forma convincente como a classe dominante, para impedir qualquer avanço das maiorias marginalizadas, projetou sobre elas toda a carga de negatividades que acumulou face aos escravos, a essa “massa damnata” com requintes de exclusão, discriminação e verdadeiro ódio que nos espanta e nos revela níveis inacreditáveis de desumanização.

A quarta sombra é a constituição de um Brasil só para poucos. Raymundo Faoro (Os donos do poder) e o historiador e acadêmico José Honório Rodrigues (Conciliação e reforma no Brasil  1982) nos têm narrado a violência com que o povo foi tratado para estabelecer uma ordem, fruto da conciliação entre as classes opulentas sempre com a exclusão intencionada do povo.

Escreve José Honório Rodrigues:”A maioria dominante foi sempre alienada, anti-progressista, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo; negou-lhes seus direitos, arrasou sua vida e tão logo a viu crescer ela lhe negou pouco a pouco sua aprovação, conspirou para colocá-la de novo na periferia no lugar que julga que lhe pertence”(Reconciliação e Reforma o Brasil, 1982, p.16). Não foi o que exatamente a maioria dominante e seus aliados fizeram com Dilma Rousseff primeiro e depois com o candidato Lula? Mudam as estratégias mas nunca seus propósitos de um Brasil só para eles.

Nunca houve um projeto nacional que incluisse a todos. Projetou-se um Brasil para poucos. Os outros que se lasquem. Assim surgiu não uma nação, mas como mostrou detalhadamente Luiz Gonzaga de Souza Lima, num livro que seguramente será um clássico, A Refundação do Brasil: rumo a uma civilização biocentrada ((2011) foi fundada  a Grande Empresa Brasil, desde os inícios internacionalizada em função de atender aos mercados mundiais ontem e até  os tempos atuais.Assim temos um Brasil profundamente cindido entre poucos ricos e as grandes maiorias pobres, um dos países mais desiguais do mundo, o que significa, um país violento e cheio de injustiças sociais. Machado de Assis já havia observado que há dois Brasis, o oficial (este de poucos) e o real (das grande maiorias excluídas).

Uma sociedade montada numa bifurcação, sobre uma injustiça social perversa nunca  criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca conseguiu ser civilizado. E quando os filhos e filhas da pobreza conseguiram acumular uma força política de base suficiente para chegarem ao poder central e atenderem demandas básicas das populações  humilhadas e ofendidas, logo os descendentes da Casa Grande e a nova burguesia nacional se organizaram para impossibilitar este tipo de governo de inclusão social. Deram-lhe  um golpe vergonhoso, parlamentar, midiático e jurídico para desta forma garantirem os níveis de acumulação considerados dos mais altos do mundo e manterem os pobres ao lugar que lhes cabe, na periferia e na marginalidade pobre e miserável.

O escritor Luiz Fernando Veríssimo num twitter de 6 de setembro de 2020 bem resumiu: “O ódio está no DNA da classe dominante brasileira,que historicamente derruba,pelas armas se for preciso,toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua sigla”.É esta classe de abastados que nem elite é, porque esta supõe certo cultivo de humanidade e de cultura, sustenta o atual governo  ultra-direitista e fascistóide por não lhes ameaçar a forma abusiva de acumulação, antes o ministro da Fazenda,Guedes, discípulo da escola de Viena e de Chicago comparece como o grande demolidor da soberania nacional. O presidente nada sabe e entende o que seja soberania nacional.

                      O caos destrutivo e generativo

Outra categoria que nos poderia fazer  entender melhor nossa atual situação sombria é aquela do caos em sua dupla função destrutiva e construtiva.

Tudo começou com a observação de fenômenos aleatórios como a formação das nuvens e particularmente o que se veio chamar de efeito borboleta (pequenas modificações iniciais, como farfalhar das asas de uma borboleta no Brasil que pode, no fim, provocar uma tempestade em Nova York em razão da inter dependência de todos os fatores. Além disso faz-se a constatação da crescente complexidade que está na raiz da emergência de formas de vida cada vez mais altas (cf.J.Gleick Caos: criação de uma nova ciência,1989). O universo se originou de um tremendo caos inicial o big bang. A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos.

O sentido originário é o  seguinte: o caos possui uma dimensão  destrutiva: põe fim a um certo tipo de ordem que chegou ao seu climax. Mas por detrás do caos destrutivo se escondem dimensões construtivas de uma nova ordem. E vice-versa, por detrás da ordem se escondem dimensões de caos de tal forma que a realidade é dinâmica e flutuante sempre em busca de um  equilíbrio. Ilya Progrine (1917-2993), prêmio Nobel de Química em 1977, estudou particularmente as condições que permitem a emergência da vida. Segundo este grande cientista,  sempre que existir um sistema aberto, sempre que houver uma situação de caos, (longe do equilíbrio) e vigorar uma não-lineariedade dos fatores é a conectividade entre as partes que gera uma nova ordem (cf. Order out of Chaos,1984). Foi neste contexto que irrompeu a vida como um imperativo cósmico.

Inegavelmente vivemos no Brasil numa situação de gravíssimo caos.No contexto do Covid-19 que está dizimando quase 200 mil vidas,temos um Presidente totalmente omisso e sem qualquer preocupação com o destino cruel de seu povo,um negacionista com uma estupidez e arrogância, própia de pessoas autoritárias com sinais de insanidade mental. Um chefe de estado deve ser uma pessoa de síntese (sim-bólico) e não de divisão (dia-bólico) e viver pessoalmente as virtudes éticas e cívicas que quer ver nos cidadãos.Este faz exatamente o contrário, incentiva ódios, mente descaradamente e perde todo o sentido da dignidade do cargo que ocupa.

As autoridades que têm poder como o Congresso Nacional, o MPF,o STF e outras revelam-se  omissas, assistindo inertes e irresponsáveis o genocídio que está ocorrendo. Creio que a história  será implacável para com as omissões destas autoridades que nada fizeram face a tanto descaso do destino de milhões de famílias que choram seus mortos. O atual presidente cometeu tantos casos de grave irresponsabilidade que mereceria juridica e eticamente um impeachment ou uma pura simples destituição por um acerto de lideranças apoiadas por multidões nas ruas.

Consola-nos o fato de que há oculto  dentro desse caos humanitário uma ordem mais alta e melhor. Quem vai desentranhá-la e fazer superar o caos?

Precisamos constituir uma frente ampla de forças progressistas e opostas às pivatizações e da neo-colonização do país para desentranhar a nova ordem, abscôndita no caos atual mas que  quer nascer. Temos que fazer esse parto mesmo que doloroso. Caso contrario, continuaremos reféns e vítimas daqueles que sempre pensaram corporativamente só em si, de costas e, como agora, contra o povo.

                           A interpretação ocidental do Karma transpessoal

Por fim valho-me de uma categoria, oriunda do Oriente que relida à luz das novas ciências da Terra e da vida nos podem trazer elementos esclarecedores. Trata-se da categoria do Karma, objeto de um de um longo diálogo  de três dias entre o historiador Arnold Toynbee e o filósofo japonês Daisaku Ikeda (cf. (cf. Elige la vida, Emecé. Buenos Aires, 2005).

karma é um termo sânscrito originalmente significando força e movimento, concentrado na palavra “ação” que provoca sua correspondente “re-ação”. Uma interpretação transpessoal parece importante, porque, como já assinalei acima, não dispomos no ocidente de  categorias conceptuais que deem conta de um sentido de devir histórico, de toda uma comunidade e de suas instituições nas suas dimensões positivas e negativas.

Cada pessoa é marcada pelas ações que praticou em vida. Essa ação não se restringe à pessoa mas conota todo o seu ambiente. Trata-se de uma espécie de conta-corrente ética cujo saldo está em constante mutação consoante as ações boas ou más  feitas, vale dizer, os “debitos e os créditos”. Mesmo depois da morte, a pessoa, na crença budista, carrega esta conta para que com mais  renascimentos possa ter, até zerar a conta negativa.

O grande historiador e pensador Toynbee dá-lhe outra versão,nos quadros do paradigma ocidental, que me parece esclarecedora e nos ajuda entender um pouco também a nossa história. A história é feita de redes relacionais dentro das quais está inserida a cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. Há um funcionamento kármico na história de um povo e de suas instituições consoante os níveis de bondade e justiça ou de maldade e injustiça que produziram ao largo do tempo. Assim refletiu Toynbee.

Este seria uma espécie de campo mórfico que permaneceria impregnando tudo. Não se requer a hipótese dos muitos renascimentos, como na tradição oriental pressupõe, porque a rede de vínculos garante a continuidade do destino de um povo (p.384). As realidades kármicas impregnam as instituições, as paisagens, configuram as pessoas e deixam seus sinais na cultura de um povo. Esta força kármica atua nos processos socio-históricos, marcando os fatos benéficos ou maléficos. C.G.Jung em sua psicologia arquetípica notara, de alguma forma,  tal fato.

Apliquemos esta lei kármica à nossa situação sob a regência nefasta de Bolsonaro. Não será difícil reconhecer que somos portadores de um pesadíssimo karma, em grande escala, derivado do genocídio indígena, da super-exploração da força do trabalho escravo, pela colonização predatória, pelas injustiças perpretadas contra grande parte da população, negra, mestiça e pobre pela burguesia endinheirada e insensível, jogada na periferia, com famílias destruídas e corroídas pela fome e pelas doenças.

Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso:”a sociedade moderna (nós incluídos) só pode ser curada de sua carga kármica, através de uma revolução espiritual no coração e na mente (p.159), na linha da justiça compensatória e de políticas sanadoras com instituições justas como vem apregoando insistentemente o Papa Francisco em suas encíclicas sociais e ecológicas, Laudato Si e Fratelli tutti. Sem esta justiça mínima a carga kármica não se desfará.

Mas ela sozinha não é suficiente. Faz-se mister  o amor, a solidariedade e uma compaixão universal, especialmente  para com as vítimas. É a proposta central e paradigmática da Fratelli tutti. do Papa Francisco. O amor será o motor mais eficaz porque ele, no fundo “é a última realidade”(p.387). Uma sociedade incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruirá uma história tão marcada pelo karma negativo e desumano, realizado, estranhamente, dentro de uma cultura cunhada pelo cristianismo, diuturnamente traído. Eis o desafio que a atual crise sistêmica nos suscita.

Não apregoaram outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus,Buda, Isaías, São Francisco, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? Só o karma do bem redime a realidade da força kármica do mal. E se o Brasil não fizer essa reversão kármica permanecerá de crise em crise, destruindo seu próprio futuro como o está fazendo, entre mentiras, fake news, ironia e zombaria, o necrófilo e insano presidente deste país.

          A função iluminadora dos princípios thanatos e demens

Estas são expressões bem conhecidas no Ocidente e não se necessita de maiores explanações. Vale lembrar que se trata de princípios  e não simplesmente de dimensões acidentais. Princípio é aquilo que faz ser todos os seres ou sem o qual o seres não irrompem na realidade. Assim foi desenvolvido por Sigmund Freud o princípio do thánatos que acompanha o do eros que convivem em cada ser humano. O thánatos emerege como aquela pulsão que leva à violência, à destruição e, no termo, à morte. Temos a ver com o Negativo na condição humana ao lado do Positivo  e do Luminoso, estes assim o cremos, irão finalmente triunfar.

É conhecida a troca de cartas entre Freud e Einstein sobre a possibilidade da superação violência e da guerra, ainda nos idos de 1932. Freud respondeu que é impossível diretamente  superar   o thánatos, somente reforçando o princípio do eros através de laços emocionais e pelo trabalho humanizador da cultura. (cf.Obras completas III:3,215). Mas termina com uma frase desoladora:”esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que podemos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Ambos os princípios para Freud possuem algo de eterno e deixa em aberto qual princípio escreverá a última  página da vida. Mas o princípio do thánatos pode em momentos da história impregnar todo um povo e  inundar a consciência de seus líderes produzindo tragédias político-sociais.

Estes comportamentos mostram igualmente o princípio demens  presente junto com o sapiens no ser humano. Vivemos numa civilização mundializada que está sob o domínio do demens. Basta lembrar os 200 milhões de mortos nas guerras dos últimos dois séculos e do princípio de auto-destruição já montado com armas nucleares, químicas e biológicas, capazes de pôr fm à vida humana e à nossa civilização, tornando tais armas ineficazes e ridículas pelo Covid-19.

Esse princípio de demência se mostra claro pelos assassinatos intencionados de negros, pobres e outros com outra opção sexual e um perverso feminicídio. Tudo isso é chancelado por um presidente com claros sintomas de psicopatia, vergonhosamente tolerado por aquelas autoridades que poderiam e deveriam por crimes de responsabilidade social, denunciá-lo, fazê-lo renunciar ou democraticamente submetê-lo a um impeachment jurídico. Talvez elas mesmas sejam já infectadas pelo vírus do demens, o que explicaria sua leniência e culposa omissão.

Conclusão: o oculto e o reprimido saíram dos  porões e uma luz se acendeu

O sentido de nossa disquisição possui este significado: tudo o que estava oculto e reprimido em nossa sociedade saiu dos porões onde por séculos se havia ocultado na vã tentativa de negá-lo ou torná-lo aceitável socialmente, até de pintá-lo roseamente, como o fazem vários ministros indignos que chegam ver um ganho na escravidão e no estado colonial. Mas basta um pouco de luz para desfazer esta densa escuridão. Agora se tornou visível e solar. Não há mais como escamoteá-la.

Somos uma sociedade contraditória onde encontramos, ao mesmo tempo  brilhantismo na ciência, na literatura, nas artes plásticas ,na música e na riquíssima cultura popular, geralmente feita à revelia de toda a opressão e do mainstream e em tantos outros campos. E ao mesmo tempo, somos uma sociedade que internalizou o opressor, se fez eco da voz dos donos, conservadora e até atrasada quando comparada com países semelhantes ao nosso. Num certo sentido somos cruéis e sem piedade para com nossos semelhantes atingidos pelas maldades perpetradas pelos estratos ultra-endinheirados e faltos de qualquer sentido de compaixão para com os milhões caídos na estrada sem que nenhum samaritano se compadeça deles. Passam ao largo sem vê-los e o que é pior, desprezando-os como se não fossem da mesma nação ou   da mesma família humana.

Esses ainda se confessam cristãos sem terem nada a ver com  a mensagem do Mestre de Nazaré. Os ateus éticos e humanitários estão maia próximos do Deus de Jesus, da ternura dos humildes e defensor dos humilhados e ofendidos, do que estes cristãos meramente culturais que usam o nome de Deus para defender suas nefastas políticas individualistas ou corporativas, de um Brasil só para eles. Eles estão longe de Deus por negarem os filhos e filhas de Deus, chamados pelo Juiz supremo de “meus irmãos e irmãs menores” sob os quais ele mesmo se escondia.

Tem muito  de verdade o que escreveu a filósofa Marilena Chaui:”A sociedade brasileira é uma sociedade autoritária,uma sociedade violenta, possui uma economia predatória de recursos humanos e naturais, convivendo com naturalidade com a injustiça, a desigualdade e a ausência de liberdade e com os espantosos índices das várias  formas institucionais – formais e informais – de extermínio físico e psíquico e de exclusão social e cultural”( 500 anos -cultura e política no Brasil n.38 p.32-33).  O sonho idílico de Darcy Ribeiro de o Brasil se tornar  a Roma tardia e tropical se esvanece nas “vastas sombras” como diz o Papa Francisco nas Fratelli tutti (cap.I). Celso Furtado, entristecido, no final  da vida escreveu todo um livro: Brasll: a construção interrompida (1993).

Todas estas nuvens escuras se condensaram nos últimos anos e ganharam seus sacerdotes e acólitos que as assumem conscientemente,querendo levar o Brasil aos tempos pré-modernos. Se os levassem pelo menos à Idade Média que tinha suas grandezas desde as majestosas catedrais às grandes sumas teológicas. O Brasil deste projeto retrógrado e irrealizável se tornou uma grotesca farsa e uma irrisão internacional.

O conjunto destas sombras vastas e o domínio do Negativo se adensaram na figura do atual chefe de estado e de seu governo, associado ao seu projeto. Ele é a consequência desta anti-história e sua mais perversa corporificação. Representa o que de pior ocorreu em nossa história e consciente o inconscientemente tenta dar-lhe o acabamento final. Mas não o conseguirá porque jamais na história os mecanismos de morte e de ódio lograram realizar seu intento, sequer Hitler com todo o seu poderia militar e científico conseguiu lançar ao fundamentos de um Reino de Mil Anos como sonhava.

Os processos históricos não são cegos e  sem destino. Eles guardam um Logos secreto que vai conduzindo o rumo das coisas em consonância com o processo da cosmogênese e gera, do meio do caos, ordens superiores com novas possibilidades e horizontes insuspeitados. Qual será nosso lugar, como povo e como nação, no conjunto de todos esses processos? Eles marcam a direção mas quem tem que percorrê-la e construi-la somos todos nós. Não nos é permitido preguiçosamente pisar nas pegadas já feitas, Temos que fazer as nossas pegadas. E também não podemos chegar tarde demais, porque desta vez o caminho não tem volta.

Oxalá estejamos atentos ao que a história, apesar do reacionarismo e protofascismo de Bolsonaro e de seus seguidores, nos exigirá. Como outrora dizia Platão:”todas as coisas grandes procedem do caos”.As nossas poderão ter  a mesma origem.

Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor e escreveu:Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

Sartre, prisioneiro de guerra:comovente texto sobre o Natal

Recebi de um amigo e colega de teologia da PUC-SP Fernando Altemeyer Junior este texto, conhecido, mas pouco divulgado de J.P.Sartre. Prisioneiro na segunda guerra mundial, a pedido de alguns padres, também prisioneiros, foi solicitado a escrever uma meditação, a mais ampla possível para que todos pudessem entendê-la. Ateu professo e generoso, acedeu ao convite. Entrou no espírito do Natal e lhes entregou este comovente texto que nos ilumina até os dias de hoje. Posto em dúvida, ele o reconheceu como seu em 1962, explicando o contexto em que foi elaborado. Agradecemos ao incansável pesquisador e professor Fernando Altemeyer Junior o acesso a este texto em português e no originqal francês. Lboff

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Estamos em 1940, na Alemanha, num campo de prisioneiros franceses. Alguns padres pedem a Jean-Paul Sartre, recluso há alguns meses com eles, que redija uma pequena meditação para a véspera de Natal. Sartre, ateu, aceita o pedido. Oferece aos seus camaradas “Barjoná ou filhos do trovão”, procurando unir crentes e não crentes.
“Como hoje é Natal, tendes o direito de exigir que vos seja mostrado o presépio. Ei-lo. Eis a Virgem, eis José e eis o Menino Jesus. O artista colocou todo o seu amor neste desenho, mas vós talvez o considereis ingénuo. Vede, as personagens têm belos ornamentos, mas estão rígidas, dir-se-ia que são marionetes. Não eram certamente assim. Se fordes como eu, que tenho os olhos fechados… Mas escutai: só tendes de fechar os olhos para me ouvir e eu vos direi como os vejo dentro de mim. A Virgem está pálida e observa o menino. O que falta pintar no seu rosto é um maravilhamento ansioso, que só aparece uma única vez numa figura humana. Pois Cristo é o seu filho, a carne da sua carne e o fruto das suas entranhas. Ela carregou-o nove meses e dar-lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á o sangue de Deus. E em certos momentos a tentação é tão forte que esquece que é Deus. Ela aperta-o nos seus braços e diz: “Meu pequeno!”. Mas noutros momentos permanece perturbada e pensa: “Deus está ali”, e sente-se tomada por um horror religioso por este Deus mudo, por este menino terrificante. Pois todas as mães se detêm por instantes diante desse fragmento rebelde da sua carne que é o seu filho e sentem-se exiladas diante dessa nova vida que foi feita com a sua vida e que povoam de pensamentos estranhos. Mas nenhum filho foi mais cruelmente e mais rapidamente arrancado da sua mãe, porque Ele é Deus e está além de tudo o que ela pode imaginar. E é uma dura provação para uma mãe ter vergonha de si e da sua condição humana diante do seu filho. Mas penso que deve ter havido outros momentos, rápidos e escorregadiços, nos quais sente ao mesmo tempo que o Cristo é seu filho, o seu pequeno, e que é Deus. Ela observa-o e pensa: “Este Deus é meu filho! Esta carne divina é a minha carne. É feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Parece-se comigo. É Deus e parece-se comigo”. E nenhuma mulher teve da sorte o seu Deus só para si. Um Deus pequenino que se pode tomar nos braços e cobrir de beijos, um Deus quente que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que vive. E é nesses momentos que eu pintaria Maria, se eu fosse pintor, e tentaria representar a expressão de terna audácia e de timidez com a qual ela avança o dedo para tocar a doce pelezinha deste menino-Deus, de quem sente sobre os joelhos o peso morno e que lhe sorri. E eis tudo para Jesus e para a Virgem Maria. E José? José, não o pintaria. Mostraria apenas uma sombra ao fundo da granja e dois olhos brilhantes. Pois não sei o que dizer de José e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar e sente-se um pouco em exílio. Creio que sofre sem o admitir. Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto ela já está perto de Deus. Pois Deus rebentou como uma bomba na intimidade desta família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de claridade. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceita

Jean-Paul Sartre – Trad.: Rui Jorge Martins

En français par m. l´Abbé Pierre-Hervé Grosjean:

“Nous sommes en 1940, en Allemagne, dans un camp de prisonniers français. Des prêtres prisonniers demandent à Jean-Paul Sartre, prisonnier depuis quelques mois avec eux, de rédiger une petite méditation pour la veillée de Noël. Sartre, l’athée, accepte. Il offre à ses camarades ces quelques lignes magnifiques.
« Vous avez le droit d’exiger qu’on vous montre la Crèche. La voici. Voici la Vierge, voici Joseph et voici l’Enfant Jésus. L’artiste a mis tout son amour dans ce dessin, vous le trouverez peut-être naïf, mais écoutez. Vous n’avez qu’à fermer les yeux pour m’entendre et je vous dirai comment je les vois au-dedans de moi. La Vierge est pâle et elle regarde l’enfant. Ce qu’il faudrait peindre sur son visage, c’est un émerveillement anxieux, qui n’apparut qu’une seule fois sur une figure humaine, car le Christ est son enfant, la chair de sa chair et le fruit de ses entrailles. Elle l’a porté neuf mois. Elle lui donna le sein et son lait deviendra le sang de Dieu. Elle le serre dans ses bras et elle dit : « mon petit » ! Mais à d’autres moments, elle demeure toute interdite et elle pense : « Dieu est là », et elle se sent prise d’une crainte religieuse pour ce Dieu muet, pour cet enfant, parce que toutes les mères sont ainsi arrêtées par moment, par ce fragment de leur chair qu’est leur enfant, et elles se sentent en exil devant cette vie neuve qu’on a faite avec leur vie et qu’habitent les pensées étrangères. Mais aucun n’a été plus cruellement et plus rapidement arraché à sa mère, car Il est Dieu et Il dépasse de tous côtés ce qu’elle peut imaginer. Et c’est une rude épreuve pour une mère d’avoir crainte de soi et de sa condition humaine devant son fils. Mais je pense qu’il y a aussi d’autres moments rapides et glissants où elle sent à la fois que le Christ est son fils, son petit à elle et qu’il est Dieu. Elle le regarde et elle pense : « ce Dieu est mon enfant ! Cette chair divine est ma chair, Il est fait de moi, Il a mes yeux et cette forme de bouche, c’est la forme de la mienne. Il me ressemble, Il est Dieu et Il me ressemble ». Et aucune femme n’a eu de la sorte son Dieu pour elle seule. Un Dieu tout petit qu’on peut prendre dans ses bras et couvrir de baisers, un Dieu tout chaud qui sourit et qui respire, un Dieu qu’on peut toucher et qui vit, et c’est dans ces moments-là que je peindrais Marie si j’étais peintre, et j’essayerais de rendre l’air de hardiesse tendre et de timidité avec lequel elle avance le doigt pour toucher la douce petite peau de cet enfant Dieu dont elle sent sur les genoux le poids tiède, et qui lui sourit. Et voilà pour Jésus et pour la Vierge Marie. Et Joseph. Joseph ? Je ne le peindrais pas. Je ne montrerais qu’une ombre au fond de la grange et aux yeux brillants, car je ne sais que dire de Joseph. Et Joseph ne sait que dire de lui-même. Il adore et il est heureux d’adorer. Il se sent un peu en exil. Je crois qu’il souffre sans se l’avouer. Il souffre parce qu’il voit combien la femme qu’il aime ressemble à Dieu. Combien déjà elle est du côté de Dieu. Car Dieu est venu dans l’intimité de cette famille. Joseph et Marie sont séparés pour toujours par cet incendie de clarté, et toute la vie de Joseph, j’imagine, sera d’apprendre à accepter. Joseph ne sait que dire de lui-même : il adore et il est heureux d’adorer ».

Le texte dérange les partisans de Sartre et sa compagne Simone de Beauvoir essayera de réfuter l’origine de ce texte. Mais Sartre confirmera en être l’auteur, en 1962, dans la note suivante : « si j’ai pris mon sujet dans la mythologie du Christianisme, cela ne signifie pas que la direction de ma pensée ait changé, fût-ce un moment pendant la captivité. Il s’agissait simplement, d’accord avec les prêtres prisonniers, de trouver un sujet qui pût réaliser, ce soir de Noël, l’union la plus large des chrétiens et des incroyants ».

[Extrait de « Barjona ou le Fils du tonnerre », le texte se trouve intégralement dans l’ouvrage Les Ecrits de Sartre, M. Contat et M. Rybalka, NRF 1970].

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  • O Brasil é o retrato de um país iníquo e aporofóbico: Maria Inez Padula Anderson

O presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem – de forma proativa e deliberada – desconfiança e insegurança da população em relação à vacina”, lamenta a professora do Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária – DMIFC, da UERJ Foto: Pixabay

Por: João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin | 22 Dezembro 2020– IHU

Enquanto alguns países já iniciaram a vacinação contra a covid-19 de forma emergencial, ainda é “difícil” fazer projeções acerca de quando e como o processo de imunização será iniciado no Brasil e se todos os brasileiros serão imunizados, diz Maria Inez Padula Anderson ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Todas as informações – que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde – só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica. Agora, as polêmicas em torno do processo de elaboração da proposta, do seu conteúdo e colaboradores, revelam mais do mesmo: incertezas, falta de clareza e – segundo consta – irresponsabilidade, na medida em que a última versão não sofreu revisão ou considerações de profissionais de saúde convidados para esta tarefa”, avalia, ao comentar o Plano Nacional de Vacinação.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Maria Inez lamenta a falta de “protagonismo” e a “ausência quase completa de transparência e clareza das ações do Ministério da Saúde no que tange à pandemia” e critica as ações do governo no enfrentamento da crise sanitária. “A política governamental em relação à covid-19 pode ser considerada, no mínimo, desastrosa, inclusive em relação aos processos e operações que envolvem o sistema de vacinação“, avalia. Se não bastasse ter qualificado a pandemia como “gripezinha“, menciona, agora que o país enfrenta uma segunda onda, com quase 200 mil brasileiros e brasileiras mortos, o presidente “alardeia que a pandemia está no ‘finalzinho'”.

De acordo com Maria Inez, “o programa de imunização começou a ser pensado tardiamente, insuficientemente e incompetentemente”. Se a vacinação iniciar em fevereiro de 2021, diz, “até o final do próximo ano, existe a possibilidade de termos atingida a imunidade de rebanho – quando a vacinação cobriu mais de 60% da população, diminuindo o risco da transmissão e consequentemente de novos casos”. Para Inez, a situação do país é “profundamente lamentável”, considerando especialmente o histórico de atuação do Programa Nacional de Imunizações – PNI, criado em 1973.

Maria Inez Padula Anderson (Foto: Blog Medicina da Família)

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Maria Inez Padula Anderson é graduada em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, onde leciona nos cursos de mestrado e doutorado em Saúde Coletiva e no Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária – DMIFC. Ela também leciona no curso de mestrado profissional em Atenção Primária à Saúde na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

IHU On-Line – Na pandemia, o Sistema Único de Saúde – SUS se revelou de extrema importância. Mas, agora, diante do atual cenário, qual imagina ser o futuro do SUS? Ele sai fortalecido ou sai sob ameaças dessa experiência?

Maria Inez Padula Anderson – A maioria da população brasileira reconhece que o SUS tem sido fundamental na defesa da vida no atual cenário da saúde, graças à ação exemplar dos seus profissionais, a começar pelo trabalho incansável das equipes multiprofissionais nas unidades básicas de saúde. Este reconhecimento é um claro sinal de valorização que deixará o SUS mais fortalecido diante das ameaças que se vê na contingência de enfrentar. Por outro lado, o SUS público, universal e gratuito, como todas as políticas que pretendem reduzir ou minorar a enorme desigualdade social no Brasil, sofre, desde o seu nascimento, com iniciativas de desmonte, a começar pelo subfinanciamento crônico.

Neste sentido, quanto mais valorizado ele for e quanto mais sua visibilidade positiva atingir a camada da população melhor favorecida financeiramente, mais organizadas serão as políticas de desmonte e de destruição da sua imagem; mais intensa será a propaganda, apontando para uma suposta superioridade da saúde privada, dos planos de saúde (ações que, avalio, estão na base dos movimentos que atuam para a desvalorização e do insucesso do SUS).

O SUS público, universal e gratuito sofre, desde o seu nascimento, com iniciativas de desmonte, a começar pelo subfinanciamento crônico – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – A pandemia atingiu também as contas de hospitais particulares e planos de saúde. Em que medida isso poderá representar um recuo sobre as lógicas de ‘privatizar a saúde no Brasil’? Ou seria esse mais um capítulo para atualizar a tese da privatização?

Maria Inez Padula Anderson – Em uma situação de pandemia, especialmente uma inédita, como é o caso do coronavírus, todos os serviços de saúde necessitam passar por um reajuste e uma adaptação visando dar suporte às novas demandas criadas. No caso do coronavírus, foi necessário adaptar e redimensionar praticamente todos serviços e unidades de saúde, desde a prevenção e assistência, em todos os níveis do sistema: das unidades de Atenção Primária aos Centros de Terapia Intensiva.

Naturalmente, este processo fere a lógica de planejamento e de previsão de lucros que envolve o setor privado, hospitais e planos de saúde. E, possivelmente, deve ter havido algum impacto nos lucros, de um modo geral bastante generosos, obtidos por este setor. Mas, vale lembrar que os planos de saúde operam com 55% de todos os recursos investidos em saúde no Brasil e atendem somente a 25% da população. O SUS, que atende a 100% da população, mesmo aquelas que têm planos de saúde, através de uma gama muito mais abrangente de serviços de saúde, em unidades básicas, ambulatórios de especialidade, hospitais, centros de diagnóstico e tratamento, com um dos maiores sistemas de transplante de órgãos do mundo, com o maior sistema público de vacinação do mundo, de oferta de medicamentos de forma gratuita e, além disso, ainda realiza vigilância sanitária, epidemiológica, com controle da qualidade da água, dos alimentos, da análise e liberação de medicamentos e intervenções em saúde, utiliza 45% dos recursos disponibilizados para a saúde.

A tese de que o SUS é pouco eficiente, é equivocada tecnicamente e, em alguns aspectos, chega a ser criminosa. O SUS faz muito, com muito pouco – Maria Inez Padula Anderson Tweet

Ou seja, para a Saúde Pública, aquela onde o lucro não faz parte da lógica de funcionamento, e que atende a todas e todos, os recursos financeiros são menos da metade do total de recursos em saúde do país. O orçamento para Saúde Pública brasileira é muito inferior ao dos chamados países desenvolvidos, mas também é inferior ao de muitos países da própria América Latina. São menos de cinquenta reais por pessoa por mês; são menos de dois reais por dia. Países europeus investem quatro a cinco vezes mais em saúde pública. Ou seja, a tese de que o SUS é pouco eficiente, é equivocada tecnicamente e, em alguns aspectos, chega a ser criminosa. O SUS faz muito, com muito pouco.

Se estes argumentos não bastarem para sensibilizar e orientar a nação brasileira e, especificamente, gestores da saúde e políticos em favor do fortalecimento do SUS, com um investimento que seja compatível e adequado às suas responsabilidades, o que será?

Os planos de saúde operam com 55% de todos os recursos investidos em saúde no Brasil e atendem somente a 25% da população – Maria Inez Padula Anderson  Tweet

IHU On-Line – Uma das referências do SUS é o Programa Nacional de Imunizações – PNI, que tem quase 70 anos. Em que consiste esse programa e o que faz dele uma referência mundial?

Maria Inez Padula Anderson – O Programa Nacional de Imunizações – PNI, criado em 1973, tem por objetivo a vacinação da população brasileira, de forma gratuita, e para todas as classes sociais, focando as doenças imunopreveníveis – aquelas passíveis de ser controladas, eliminadas e/ou erradicadas por vacinas. Para tanto, o PNI atua de forma coordenada e sistemática em conjunto com os serviços públicos de saúde, especialmente, da Atenção Primária à Saúde, ou por meio de equipes volantes em regiões de difícil acesso, em todo o território nacional.

Os números são impressionantes: são mais de 300 milhões de doses anuais distribuídas em vacinas, soros e imunoglobulinas. De forma gratuita, são disponibilizados pela rede pública mais de 40 produtos nesta área, incluindo 28 vacinas e 17 tipos de soro com imunoglobulinas. São 18 vacinas que fazem parte do calendário de vacinação, protegendo contra 19 doenças, muitas incapacitantes como a poliomielite, e outras que podem levar à morte, como a meningite. O calendário inclui as vacinas: BCG (previne as formas graves de tuberculose); hepatite B; penta (previne difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções causadas pelo vírus da gripe); poliomielite; pneumocócica (previne a pneumonia, otite, meningite e outras doenças causadas pelo pneumococo); rotavírus (previne diarreia por rotavírus); meningocócica C (previne meningite causada pela neisseria meningitidis); febre amarela; tríplice viral (previne sarampo, caxumba e rubéola); DTP (previne a difteria, tétano e coqueluche); hepatite A; tetra viral (previne sarampo, rubéola, caxumba e varicela/catapora); varicela atenuada (previne varicela/catapora).

Há, ainda, doze vacinas especiais para grupos em condições clínicas específicas, como pessoas com o vírus HIV e outras, disponíveis nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais – CRIE. O Calendário Nacional de Vacinação contempla crianças, adolescentes, adultos, idosos, gestantes e indígenas. Através da sua história e atuação, o PNI tem como resultados a erradicação da varíola e da poliomielite, no país, além da redução dos casos e mortes de todas as outras doenças acima citadas.

O PNI deve ser considerado, assim como o próprio SUS, um patrimônio da população brasileira. Por tudo isso, o PNI tem reconhecimento internacional e faz do Brasil um exemplo a ser seguido no mundo.

O programa de imunização começou a ser pensado tardiamente, insuficientemente e incompetentemente – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Como a senhora tem acompanhado as discussões, especialmente dentro de instâncias do governo, acerca da construção de um programa de imunização que operacionalize a aplicação das vacinas contra a covid-19? O que isso tem revelado sobre como o Brasil tem vivido a pandemia?

Maria Inez Padula Anderson – A política governamental em relação à covid-19 pode ser considerada, no mínimo, desastrosa, inclusive em relação aos processos e operações que envolvem o sistema de vacinação. Desde o princípio, o governo desacredita a pandemia. O próprio presidente da República, de forma irresponsável, a caracterizou como “gripezinha”, além de promover o uso de medicamentos sem comprovação científica, realizar encontros com aglomeração e desvalorizar o uso de máscaras e isolamento social. Agora, em plena segunda onda, próximo a 200 mil brasileiros e brasileiras mortos, alardeia que a pandemia está no “finalzinho”. Naturalmente, essa postura afeta e se reflete nas ações do Ministério da Saúde, que seriam fundamentais na coordenação de todo o processo de combate à pandemia e proteção da população. Ficamos mais de dois meses sem ministro da Saúde em plena pandemia e, anteriormente, o ministro que buscava coordenar, de forma mais racional e cientificamente embasada, a atuação contra a pandemia, foi demitido em abril de 2020, quando a situação já dava mostras de muita gravidade.

O programa de imunização começou a ser pensado tardiamente, insuficientemente e incompetentemente, somente após muita pressão de grupos científicos, mas, especialmente, após iniciativas estaduais de vacinação, caracterizando um movimento mais afinado a interesses políticos do que humanitários. Ou seja, estamos em uma situação desfavorável a nível internacional, quando podíamos estar à frente, com o exemplo da experiência de sucesso e histórico do PNI. Agora, para agravar ainda mais a situação, o presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem – de forma proativa e deliberada – desconfiança e insegurança da população em relação à vacina. Retrato de um Brasil golpista, necrófito, negacionista, iníquo e aporofóbico, que temos que superar, urgentemente.

A via judicial se impôs pela ausência quase completa de transparência e clareza das ações do Ministério da Saúde no que tange à pandemia – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Qual a sua avaliação sobre a proposta de programa de vacinação levada pelo Ministério da Saúde ao Supremo Tribunal Federal – STF? E, aliás, o que representa essa proposta ter vindo a público apenas pelas vias judiciais? Essa proposta levada ao STF ainda está envolta em polêmicas. Uma delas é a de que os técnicos que auxiliaram na construção do documento não tiveram acesso a uma versão final. O que isso revela sobre a visão desse governo acerca da gestão da saúde pública e universal?

Maria Inez Padula Anderson – Muito da resposta a estas duas perguntas está colocada no que respondi acima e anteriormente. A via judicial se impôs pela ausência quase completa de transparência e clareza das ações do Ministério da Saúde no que tange à pandemia. Todas as informações – que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde – só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica. Agora, as polêmicas em torno do processo de elaboração da proposta, do seu conteúdo e colaboradores, revelam mais do mesmo: incertezas, falta de clareza e – segundo consta – irresponsabilidade, na medida em que a última versão não sofreu revisão ou considerações de profissionais de saúde convidados para esta tarefa.

Você pergunta o que isso revela sobre a visão desse governo acerca da gestão da saúde pública e universal. Penso que isso revela uma visão de mundo desse governo – não só acerca da gestão pública: uma visão sobre o que é realidade, sobre o que é a ciência e sobre o significado de respeito aos processos de construção coletiva. Também, revela incompetência técnica.

IHU On-Line – No Brasil, dada a atual conjuntura, teremos vacinas para todos? E em quanto tempo?

Maria Inez Padula Anderson – No atual contexto, sem o protagonismo do Ministério da Saúde, com atraso e retardo no início das ações de forma organizada junto aos estados e municípios, é difícil responder a esta pergunta com precisão. Tudo o que podemos e viermos a conseguir de positivo, só poderá ser através da atuação, mais uma vez, do SUS, o único que conseguirá desenvolver ações de forma coordenada em todos os níveis de governo, possibilitando acesso universal, a todos e todas, às vacinas.

Aparentemente, ao longo de 2021, iniciando em fevereiro, podemos conseguir ter um plano de vacinação e executar as operações correspondentes, começando com os grupos mais vulneráveis (como deve ser) e, processualmente, ao restante da população. Avalia-se que, até o final do próximo ano, existe a possibilidade de termos atingido a imunidade de rebanho – quando a vacinação cobriu mais de 60% da população, diminuindo o risco da transmissão e consequentemente de novos casos. A situação atual é profundamente lamentável, pois o Brasil, através de seus laboratórios públicos e recursos tecnológicos, poderia e deveria estar produzindo vacinas em escala para todo o Brasil e para apoiar países de economia mais pobre.

Saúde não é mercadoria, não pode ser um bem de consumo, pois saúde não se vende e não se compra – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – A corrida mundial pela vacina contra a covid-19 tem se configurado como uma nova geopolítica. Como a senhora analisa esse cenário globalmente? Quais os riscos de a vacina ser algo apenas para países ricos e intermediários, como o Brasil?

Maria Inez Padula Anderson – O mundo é desigual e, na grande maioria dos países, a economia é baseada em princípios capitalistas, que permitem a manutenção desta desigualdade (e, lucram com ela), uma vez que colocam o dinheiro e a economia fria no centro das políticas e da gestão. Lucro e benefícios para quem pode pagar, e para quem paga mais, costumam ser a tônica. Assim, não diria que a corrida mundial contra a covid-19 é uma nova geopolítica. Penso que ela a coloca em evidência, mais uma vez e, neste momento, de forma trágica. Talvez até, neste contexto, esteja havendo iniciativas vinculadas à Organização Mundial da Saúde, à Organização Pan-Americana da Saúde, com a promessa de participação de países como Canadá, que atuou e tem potencial para vacinar cinco vezes a sua população, e Cuba, que está desenvolvendo sua vacina no sentido de apoio, com venda ou distribuição gratuita a países de economia mais pobre.

Podemos aprender muito com esta pandemia: sobre a humanidade, sobre os políticos, sobre os gestores, sobre os sistemas, sobre os valores da sociedade. Para mim, como médica, ela reafirma que saúde não é mercadoria, não pode ser um bem de consumo, pois saúde não se vende e não se compra. No Brasil, o direito à saúde está na nossa constituição, assim como o dever do Estado em prover suas condições. Precisamos mudar. Não podemos continuar neste processo de desvalorização da saúde pública. As pessoas, de todas as classes sociais, precisam entender que sem a saúde pública, sem um SUS forte, entraremos, cada vez mais, em um processo autodestrutivo para todos, para o país e para a economia.

As pessoas, de todas as classes sociais, precisam entender que sem a saúde pública, sem um SUS forte, entraremos, cada vez mais, em um processo autodestrutivo para todos, para o país e para a economia – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Vários especialistas apontavam, antes da pandemia, uma série de ações de ataque ao SUS por parte do governo Bolsonaro. Mas, nesses episódios das vacinas, em que medida podemos afirmar que também o Programa Nacional de Imunizações está sendo desvertebrado?

Maria Inez Padula Anderson – O desmonte do SUS, naturalmente, afeta todos os seus serviços, inclusive o PNI. A política do atual governo reforça a iniciada em 2016, a partir do golpe de estado. Esta orientação, para a área da saúde, visa o desmonte do SUS como política pública. Para tanto uma medida de impacto foi tomada neste sentido através da Emenda Constitucional 95, também conhecida como PEC da morte, que congela recursos da saúde e da educação para a população brasileira, por 20 anos. Já registramos aumento das taxas de mortalidade infantil e piora de vários indicadores de saúde, naturalmente, afetando os mais pobres por causa desta brutal medida.

Ricardo Barros, ministro do governo Temer, que teve sua vida política financiada pelos planos de saúde, declarou: “O SUS não cabe no orçamento”. Vale lembrar que, desde o início da sua existência, o SUS é subfinanciado. Agora, temos a ameaça de corte da ordem de 40 bilhões de reais no orçamento do SUS para 2021. É triste. Mas, acima de tudo, é revoltante e vergonhoso ter políticos e gestores públicos de saúde, que deveriam defender e cuidar da saúde da população brasileira, atuando de forma praticamente lobista, voltados para os interesses privados e seus próprios interesses.

Podemos aprender muito com esta pandemia: sobre a humanidade, sobre os políticos, sobre os gestores, sobre os sistemas, sobre os valores da sociedade – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – A senhora é médica de família e doutora em Saúde Coletiva. Como avalia, para além da situação de pandemia, a realidade dos programas e estratégias de saúde da família no Brasil hoje?

Maria Inez Padula Anderson – A Estratégia Saúde da Família – ESF tem recebido justo reconhecimento nacional e internacional por suas contribuições tanto para a melhoria dos indicadores de saúde – a exemplo da redução das taxas de mortalidade infantil – quanto da organização do sistema de saúde. Para tanto, as equipes multiprofissionais da Estratégia focalizam de modo integrado as necessidades de saúde de uma população específica, desenvolvendo ações abrangentes que incluem as de promoção, proteção e recuperação da saúde das pessoas, suas famílias e respectivas comunidades.

Apesar destas evidências de sucesso, o custo-efetividade vem, desde 2019, sob a batuta do Ministério da Saúde à época, sofrendo um desmonte progressivo da ESF, a partir da promoção de outras formas de organização e, mais gravemente, outra lógica de concepção de assistência à saúde – passando para um movimento mais pontual, centrado na doença e não nas pessoas. Ou seja, uma concepção mais atrasada e antiquada de atuação sobre o processo saúde-adoecimento.

Além disso, há uma nova forma de financiamento da Atenção Primária que se contrapõe à equidade alcançada pela anterior. Esta nova lógica, que perpassa modelos e formas de financiamento, é mais palatável aos grupos interessados na privatização da Atenção Primária, área mais abrangente de serviços de saúde e que, até o momento, é preponderantemente pública. Há poucas semanas, o governo havia editado uma medida que dava início formal ao processo de privatização. A população reagiu, de modo intenso, através de manifestações na mídia. A repercussão fez o governo voltar atrás, pelo menos provisoriamente, mas a ameaça é concreta.

É revoltante e vergonhoso ter políticos e gestores públicos de saúde, que deveriam defender e cuidar da saúde da população brasileira, atuando de forma praticamente lobista, voltados para os interesses privados e seus próprios interesses – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Qual foi o papel da atenção básica na pandemia e como dimensionar esse papel daqui por diante?

Maria Inez Padula Anderson – Com base no modelo de atuação Estratégia Saúde da Família, como expresso anteriormente, com ações abrangentes, cobrindo ações de prevenção de adoecimentos, educação e promoção e assistência e reabilitação em saúde, com capacidade resolutiva para mais de 80% dos problemas de saúde, podemos afirmar que o papel da Atenção Primária foi fundamental para evitar uma situação ainda mais trágica.

Apesar do desmonte progressivo, podemos afirmar que, de um modo geral, as equipes da ESF, com os agentes comunitários de saúde, foram as principais responsáveis pelo primeiro atendimento como também pelo acompanhamento das pessoas com sintomas clínicos, ao lado do desenvolvimento de ações educativas em relação ao afastamento social e demais cuidados individuais necessários em cada caso. Além disso, desempenharam papel fundamental no campo da vigilância sanitária e demais medidas de saúde pública para prevenir a disseminação da doença e, por fim, estimular a comunidade a aderir às medidas de proteção em benefício de todos.

Por tudo isso, é fundamental cuidar, ampliar e fortalecer especialmente as equipes de saúde da família, com os Núcleos de Apoio à Saúde da Família, pela sua capacidade resolutiva e trabalho em equipe multiprofissional. É preciso prover infraestrutura físico-funcional adequada, incluindo mais pessoal – muitos afastados e adoecidos – por causa da pandemia. São mais de 46 mil equipes já existentes e espalhadas em todo território nacional – com força de cobertura atual para mais de 180 milhões de brasileiras e brasileiros.

O SUS é mais do que um patrimônio da população brasileira. É um patrimônio da humanidade. Precisamos, todas e todos, cuidar dele – Maria Inez Padula Anderson Tweet

IHU On-Line – Quais foram os maiores avanços em termos de saúde pública e universal no Brasil nos últimos anos? E quais os maiores retrocessos? Que caminhos podemos construir para superar esses retrocessos e avançarmos ainda mais?

Maria Inez Padula Anderson – Em termos de avanço, podemos citar: melhoria do acesso aos serviços de saúde, desde os mais simples aos mais sofisticados. Todo ser humano, em solo brasileiro, tem direito e pode acessar qualquer nível do sistema e qualquer serviço público de saúde existente em território nacional, sem dispender nenhum recurso financeiro.

A equidade impressa nesta lógica, aliada aos avanços no campo da prevenção de doenças transmissíveis, universalização do tratamento da Aids, transplantes de órgãos, dispensação de medicamentos de alto custo, vigilância sanitária e epidemiológica, representam um avanço em termos de sistemas universais de saúde, não encontrando equivalência em qualquer outro país do mundo.

Por último, desejo destacar a implantação e desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde de qualidade, através da Estratégia Saúde da Família, elemento essencial para dar concretude ao conceito de universalidade e equidade que todo sistema de saúde deve buscar.

Atualmente estamos sob o comando de um governo e de uma lógica ultraliberal, que ameaça de forma mais contundente o SUS e todos os avanços alcançados até agora. Os caminhos para superar os retrocessos e avançarmos ainda mais incluem a necessidade de a população brasileira assumir as rédeas do seu destino como nação e saber do seu potencial de construir um mundo melhor, através dos bons exemplos que temos no campo da saúde, especificamente do SUS. Neste sentido, a sociedade organizada, as instituições de saúde e educação, a população brasileira, têm que conhecer mais e eleger melhor, cobrar de forma mais efetiva dos políticos e gestores que defendam a saúde da população brasileira. Para isso precisamos do SUS. Sem o SUS é a barbárie, como assinalou Drauzio Varella.

O SUS é mais do que um patrimônio da população brasileira. É um patrimônio da humanidade. Precisamos, todas e todos, cuidar dele. Ele cuida de todas e todos nós. O Brasil precisa do SUS.

La Navidad de Jesús y nuestraNavidad bajo la COVID-19

Leonardo Boff

La Navidad del año 2020 tal vez sea la más parecida al verdadero Nacimiento de Jesús bajo el emperador romano Cesar Augusto.

Este emperador había mandado hacer un censo de todo el imperio. La intención no era solo, como entre nosotros, contabilizar cuantos habitantes había. Era esto, pero con el propósito de cobrar un impuesto a cada habitante, que sumado al de todas las provincias se destinaba a mantener encendida la pira de fuego permanentemente y sustentar los sacrificios animales al emperador, que se presentaba y así era venerado, como dios. Tal imposición a todos los habitantes del imperio provocó revueltas entre los judíos.

Este hecho fue usado más tarde por los fariseos para tender una trampa Jesús: ¿debía pagar o no el impuesto al Cesar? No se trataba del impuesto común, sino de aquel que cada persona del imperio debía pagar para alimentar los sacrificios al emperador-dios.

Para los judíos esto significaba un escándalo pues adoraban a un único Dios, Yavé, ¿cómo iban a poder pagar un impuesto para venerar a un falso dios, el emperador de Roma? Jesús se dio cuenta de la celada. Si aceptaba pagar el impuesto seria cómplice de adoración a un dios humano y falso, el emperador. Si se negaba, se indispondría con las autoridades imperiales negándose a pagar el tributo en homenaje al emperador-dios.

Jesús dio una respuesta sabia: “Dad al Cesar lo que es del Cesar y a Dios lo que es de Dios”. En otras palabras, dad al Cesar, un hombre mortal y un falso dios, lo que es de César: el impuesto para los sacrificios, y a Dios, el único verdadero, lo que es de Dios: la adoración. No se trata de la separación entre la Iglesia y el Estado, como comúnmente se interpreta. La cuestión es otra: ¿cuál es el Dios verdadero? Denle a él lo que le corresponde, la adoración. Y al Cesar, el falso dios, lo que es del César: la moneda del impuesto. No mezclen a dios con Dios.

Pero volvamos al tema: La Navidad de 2020 se asemeja a la navidad de Jesús, como nunca antes en la historia. La familia de José y María encinta es hija de la pobreza como la mayoría de nuestro pueblo. Las hospederías estaban llenas, como aquí los hospitales están llenos de gente contaminada por el virus. Como pobres, José y María tal vez no eran capaces de pagar los gastos, así como entre nosotros quien no es atendido por el SUS no tiene cómo pagar los costes de un hospital particular. María estaba a punto de dar a luz. A la pareja no le quedó más solución que refugiarse en un establo de animales, como hacen hoy tantos pobres que no tienen donde dormir y se acuestan bajo las marquesinas o en un rincón de cualquier ciudad. Jesús nació fuera de la comunidad humana, entre animales, como tantos de nuestros hermanos y hermanas menores nacen en las periferias de las ciudades, fuera de los hospitales, en sus pobres casas.

Después de su nacimiento, el Niño fue amenazado muy pronto de muerte. Un genocida, el rey Herodes, mandó matar a todos los niños menores de dos años. ¿Cuántos niños en nuestro contexto son muertos por los nuevos Herodes vestidos de policías que matan a niños sentados a la puerta de sus casas? El llanto de las madres es el eco del llanto de Raquel en uno de los textos más conmovedores de todas las Escrituras: “En la Baixada (en Ramá) se oyó una voz, mucho llanto y muchos gemidos: es la madre llora a sus hijos muertos y no quiere ser consolada porque los perdió para siempre” (cf.Mt 2,18).

Por temor a ser descubierto y muerto, José tomó a María y al niño, atravesaron el desierto y se refugiaron en Egipto. Cuántos hoy, bajo amenaza de muerte por las guerras y por el hambre, tratan de entrar en Europa y en Estados Unidos. Muchos mueren ahogados, la mayoría es rechazada, como en la catoliquísima Polonia, y son discriminados; se llega a arrancar a los niños de los padres y se los encierra en jaulas, como pequeños animales. ¿Quién les enjugará las lágrimas? ¿Quién les quitará la saudade de sus padres queridos? Nuestra cultura se muestra cruel con los inocentes y con los inmigrantes forzados.

Después que murió el genocida Herodes, José tomó a María y al Niño y fueron a esconderse en un pueblecito, Nazaret, tan insignificante que ni siquiera consta en la Biblia. Allí el Niño “crecía y se fortalecía lleno de sabiduría” (Lc 2,40). Aprendió la profesión del padre, José, un fac-totum constructor de tejados y cosas de la casa, un carpintero. Era también un campesino que trabajaba el campo y aprendía a observar la naturaleza. Allí estuvo escondido hasta cumplir treinta años, cuando sintió el impulso de salir de casa y empezar la predicación de una revolución absoluta: “El tiempo de espera acabó. El gran cambio (Reino) está llegando. Cambien de vida y crean en la buena noticia” (cf.Mc 1,14): una transformación total de todas las relaciones entre los humanos y con la propia naturaleza. 

Conocemos su fin trágico. Pasó por el mundo haciendo el bien (Mc 7,37; Hechos 10,39), curando a unos, devolviendo la vista a los ciegos, dando de comer a las multitudes y compadeciéndose siempre del pueblo pobre y sin rumbo en la vida. Los religiosos confabulados con los políticos lo prendieron, lo torturaron y lo asesinaron, crucificándolo.

Salgamos de estas “densas sombras” como dice el Papa Francisco en la Fratelli tutti. Volvamos la mirada clara al nacimiento de Jesús. Él nos muestra la forma como Dios quiso entrar en nuestra historia: anónimo y escondido. La presencia de Jesús no apareció en la crónica de Jerusalén ni mucho menos en la de Roma. Debemos aceptar esta forma escogida por Dios. Se realizó la lógica inversa a la nuestra: “todo niño quiere ser hombre; todo hombre quiere ser grande; todo grande quiere ser rey. Solo Dios quiso ser niño”. Y así sucedió. 

Aquí resuenan los bellos versos del poeta portugués Fernando Pessoa:

“Él es el Eterno Niño, el Dios que faltaba.

Él es tan humano que es natural,

Él es lo divino que ríe y juega.

Es un niño tan humano que es divino”

Tales pensamientos traen a mi memoria a una persona de excepcional calidad espiritual. Fue ateo, marxista, de la Legión Extranjera. De repente sintió una conmoción profunda y se convirtió. Escogió el camino de Jesús, en medio de los pobres. Se hizo Hermanito de Jesús. Llegó a una profunda intimidad con Dios y lo llamaba siempre “el Amigo”. Vivía la fe según el código de la encarnación y decía: “Si Dios se hizo gente en Jesús, gente como nosotros, entonces hacía pipí, lloriqueaba pidiendo el pecho, hacía pucheros si tenía el pañal mojado”. Al principio le habría gustado más María, y después, crecidito, más José, cosa que los psicólogos explican en el proceso de la realización humana.

Fue creciendo como nuestros niños, observaba a las hormigas, tiraba piedras a los burros y, travieso, levantaba el vestidito a las niñas para verlas furiosas, como imaginó irreverentemente Fernando Pessoa en su bello poema sobre Jesús Niño.

Ese hombre, amigo del Amigo, “imaginaba a María acunando a Jesús para que durmiera porque de tanto jugar fuera se excitaba mucho y le costaba cerrar los ojos; lavaba los pañales en el balde; cocinaba la papa para el Niño y comidas mas fuertes para el trabajador, el buen José”.

Ese hombre espiritual italiano que vivió, muchas veces amenazado de muerte, en tantos países de América Latina y varios años en Brasil, Arturo Paoli, se alegraba interiormente con tales cavilaciones, porque las sentía y vivía como conmoción del corazón, de pura espiritualidad. Y lloraba con frecuencia de alegría interior. Era amigo del Papa que lo mandó a buscar con un coche a su pequeña ciudad a unos 70 km de Roma para pasar la tarde juntos y hablar de la liberación de los pobres y de la misericordia divina. Murió a los 103 años como un sabio y santo.

No olvidemos el mensaje principal de Navidad: Dios está entre nosotros, asumiendo nuestra condition humaine, alegre y triste. Es un niño quien nos va a juzgar, no un juez severo. Y este niño solo quiere jugar con nosotros y no rechazarnos nunca. Finalmente, el sentido más profundo de la Navidad es este: nuestra humanidad, un día asumida por el Verbo de la vida, pertenece a Dios. Y Dios, por peores que seamos, sabe que venimos del polvo y tiene con nosotros una misericordia infinita. Él nunca puede perder, ni va a dejar que un hijo o una hija suya se pierdan. Así que a pesar de la Covid-19 podemos vivir una discreta alegría en la celebración familiar. Que la Navidad nos dé un poco de felicidad y mantenga en nosotros la esperanza del triunfo de la vida sobre la Covid-19.

Leonardo Boff es teólogo, filósofo y escritor y ha escrito Encarnación: la humanidad y la jovialidad de nuestro Dios, Vozes 2015 y Sal Terrae. 

Traducción de M.ª José Gavito Milano