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Pentecostes: vem Espírito de vida e salva-nos!

31/05/2020

Todos nos sentimos perdidos, investigadores, médicos e médicas, epidemioilogistas, biólogos e todos os saberes que instauramos, todos não conhecemos o covid-19 nem sabemos como enfrentá-lo eficazmente com uma vacina. Oxalá não seja o que alguns biólogos, há muito, temem: o NBO (Next Big One) “o próximo grande” vírus que fará desaparecer a espécie humana.

Além do covid-19 e dos vários vírus já conhecidos, estamos enfrentando tempos ecologicamente ameaçadores, como o aquecimento global, a sexta extinção em massa, a erosão da biodiversidade e outras.

Além de usarmos os meios científicos que nos estão deixando desamparados, temos uma referência de uma outra ordem que não é contra a inteligência mas vai além de seu alcance que a inteligência espiritual que capta o Espírito Criador.Ela não está fora de nossa realidade quando entendida holisticamente.

Este Espírito Criador responde pelo surgimento do universo com suas bilhões de galáxias e trilhões de estrelas e planetas, aquele que existia antes do antes e que fez surgir aquele ínfimo ponto, carregado de energia e que, explodindo (big bang), deu origem ao universo. Ele continua presidindo todo o processo da cosmogênico, o nosso planeta e a cada um de nós pois é o Spiritus Creator, o Pneuma, o Sopro de Vida. Nas línguas medio-orientais ele é sempre feminino, ligado à mulher que gera.

Nesses momentos de crise é ocasião de invocá-lo e suplicar-lhe: “Tu que és Fonte de Vida, salve nossas vidas, as vidas dos mais desvlidos, as vidas de toda a humanidade”.

Ele, diz o Gênesis logo no início, pairava sobre o “touwabou” (em hebraico), o caos originário; dele tirou todas as coisas e as colocou em sua devida ordem, no céu e na terra e por fim ,nós seres humanos, homens e mulheres.

Alargando o horizonte, releva reconhecer que sua criação está ameaçada para além dos efeitos letais co covid-19. A ameaça não vem de algum meteoro rasante como há 65 milhões de anos que exterminou os dinossauros depois de viverem por mais de cem milhões de anos por sobre a Terra. O meteoro rasante atual se chama homo sapiens e demens, duplamente demens (inteligente e demente e duplamente demente). Por sua relação agressiva para com a Terra e com todos os seus ecossistemas pode eliminar a vida humana, destruir nossa civilização e afetar gravemente toda a biosfera.

É num contexto assim que refletiremos sucintamente e invocaremos a ação sanadora e recriadora do Espírito Santo. Nossas fontes referenciais são os textos dos dois Testamentos judaico-cristãos e a experiência humana, cujo espírito é animado pelo Espírito Criador, chamado pela liturgia de “luz beatíssima”.

Pensar o Espírito Santo nos obriga a ir além das categorias clássicas com as quais se elaborou o discurso ocidental, tradicional e convencional da teologia. Deus, Cristo, a graça e a Igreja foram pensadas dentro de categorias metafísicas da filosofia grega: de substância, de essência e de natureza. Portanto, por algo estático e sempre já circunscrito de forma imutável. Este paradigma foi feito oficial pela teologia cristã.

Entretanto, pensar o Espírito implica assumir outro paradigma, o do movimento, da ação, do processo, da emergência, da história e do novo e do surpreendente. Este não pode ser apreendido com a terminologia substancialista mas com a do vir-a-ser.

Este paradigma nos aproxima da moderna cosmologia e da física quântica. Estas veem todas as coisas em gênese, emergindo a partir de um fundo de Energia Inominável, Misteriosa e Amorosa que está antes do antes, no tempo e no espaço zero. Ela sustenta o universo e todos os seres nele existentes e penetra de ponta a ponta o cosmos e nos penetra totalmente. Essa Energia de Fundo, chamada também de o Abismo Originador de todo o ser, é a melhor metáfora do Espírito Criador que é tudo isso e ainda mais.

Redizer o terceiro artigo do Credo cristão: ”Creio no Espírito Santo” nestes novos moldes, significa uma diligência nova, cientes de que ficamos sempre aquém daquilo que deveríamos dizer sobre o Espírito Criador.

Finalmente, cabe reconhecer que tocamos no mistério. Este não se opõe ao conhecimento pois o mistério é o ilimitado de todo conhecimento. Este sempre conhece mais e mais, mas em todo o conhecimento permanece o mistério. Este é, por natureza limitado. Este mistério se revela mas também se vela. A missão dos que o acolhem e se entregam à sua reflexão sistemática como os teólogos e as teólogas, também os que se dedicam à filosofia (como F. Hegel, cuja categoria central é o Espírito Absoluto) é buscar incessantemente esta revelação.

É próprio do Espírito esconder-se dentro dos processos evolucionários e da história. É próprio do ser humano descobri-lo. Ele “sopra onde quer e não sabemos nem de onde vem nem para onde vai” (cf. Jo,38). Isso não nos exime da tarefa de des-ocultá-lo.

É o que esperamos ardentemente que este Espírito se manifeste e inspire os espíritos de nossos pesquisadores para que descubram uma vacina que salve nossas vidas. E quando através da pesquisa deles, Ele irrompe surpreendentemente, nos alegramos e celebramos, ebrios de gratidão por sua ação mediada pelo espírito humano.

Neste domingo, dia 31 de maio, celebramos a festa de Pentecostes, uma das maiores das Igrejas cristãs. É uma festa sem fim, pois o Espírito está permanente em ação, se prolonga ao longo e ao largo de toda a história e nos alcança até nos dias em que sofremos, nos angustiamos e tememos a letalidade do coronavírus. O Spiritus Creator nunca abandonou sua criação, mesmo nas 15 grandes dizimações pelas quais ela passou. E não nos vai abandonar agora. Veni Creator Spiritus et salva nos”.

Leonardo Boff é ecoteólogo e escreveu O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres, Vozes 2013.

 

 

Curta de Adriana Miranda O GRÃO selecionado no Festival Cono Sul-Chile

30/05/2020

No almoço de despedida com a equipe que realizou a série O tempo da Terra, num ambiente de celebração e de comunhão de ideias, surgiu a primeira sementinha que depois brotou no curta O GRÃO, dirigido por Adriana Miranda. Adriana é filha de minha companheira Márcia Miranda. Toda sua produção, de exímia criatividade e de particular qualidade, nasce de dentro dela, de seu amor pela natureza e pelo propósito de fortalecer as necessárias transformações sociais e ecológicas. Já ganhou prêmios por sua produção artística. Apresentamos agora O GRÃO que foi premiado como The Best Short Documental no festival internacional de Buenos Aires, em fevereiro de 2020. Agora entre muiitos está entre os sete curtas selecionados do Festival del Cine del Cono Sur, en Valparaiso, no Chile. Vejam o expressivo símbolo deste festiva e o trailer do filme. Ficamos felizes pela belaz das imagens e pela mensagem de esperança que transmite.

Leonardo Boff

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Texto da Adriana Miranda

Escrevo pra trazer uma pequena boa noticia, que nos traz inspiração e estímulo, em meio a tanta coisa ruim que vem acontecendo, principalmente se pensarmos em nossa realidade de Brasil. Mais do que nunca, iniciativas positivas se fazem urgentes.

Nosso curta GRÃO, embrião dos documentários longa metragem GRAO e EMPATE, está entre os selecionados para o Festival Internacional de Cine del Cono Sur de 2020! Mais um reconhecimento para este filme que representa esperança. Eu só tenho a agradecer a todos que participaram, à equipe maravilhosa que apostou comigo, aos nossos apoiadores e, sobretudo, àqueles que acreditam e nos inspiram, como nossa personagem Miraci, que luta dia após dia pela construção de um mundo melhor para todos.

É o que me motiva a seguir acreditando que o Brasil é muito mais do que temos visto.

Abaixo o link do depoimento gravado para o festival

https://bit.ly/2TDHK2c

trailer do filme

https://vimeo.com/396818274

esses podemos divulgar 😃

obrigada

bjooo

Adriana Miranda

21.9 9911 8598

vimeo.com/mayufilmes

www.linkedin.com/in/adrianamiranda/

 

 

Cuidar del espíritu y de sus expresiones en tiempos de la Covid-19

30/05/2020

       Cuidar del espíritu y de sus expresones en tiempos de la Covid-19

Leonardo Boff*

Tratamos anteriormente en este blog de cómo cuidar de nuestro cuerpo y cómo cuidar de nuestra psique en el contexto de la Covid-19. Como somos cuerpo-mente-espíritu, falta abordar cómo cuidar de esta última dimensión, la más excelente de todas, el espíritu. Lo mismo que hicimos con el concepto de cuerpo y de psique, vamos a hacerlo ahora con el concepto de espíritu. Nos proponemos ampliar su concepción, pues somos herederos de una interpretación que empobrece su realidad. Nos ayudan las ciencias de la vida y la nueva cosmología, que en el proceso evolutivo no solo toman en consideración sus aspectos físicos y determinísticos sino que incluyen las emergencias más importantes del proceso cosmogénico que son la vida, la subjetividad y la conciencia refleja.
Todas estas dimensiones revelan el universo en su exterioridad, que la física y la astrofísica captan, pero también en su interioridad, que las ciencias de la vida intentan descifrar.

             Qué es el espíritu en la nueva cosmología

Entender el espíritu como una sustancia invisible e inmortal es decir media verdad y limitar su amplitud. No dice nada sobre su enraizamiento en el universo ni habla de su lugar en el conjunto de todas las relaciones, ya que todo es relación y no existe nada fuera de la relación. El espíritu como sustancia invisible e inmortal parece existir en sí y para sí mismo, fuera del conjunto de seres.
Hoy podemos afirmar que el espíritu posee la misma ancestralidad que las energías y la materia originaria. Él estaba ya presente en el momento inicial del universo, hace 13.700 millones de años. Esto se volvió más convincente cuando se descubrió que la materia no posee solamente masa y energía, sino que tiene también una tercera dimensión: es portadora de información. La información nace del juego de relaciones que todos los seres mantienen entre sí, dejando uno marcas en el otro.
Cuando los dos primeros hadrones (primera formación de la materia) o enseguida los top quarks (las partículas menores de materia subatómica) se encontraron, ocurrió un intercambio de energía y de materia. Cada cual se modificó. Quedaron marcas de ese encuentro. Estas marcas se van acumulando forjando las informaciones.
Todos los seres son productores y portadores de informaciones, inscritas en su código genético. Éstas se van almacenando y organizando más y más a medida que el universo avanza y adquiere una complejidad mayor.

A nivel humano se alcanza un estadio elevadísimo de complejidad hasta el punto de aparecer la información como conciencia refleja. Aquí es donde la Energía de fondo, poderosa y amorosa, que sostiene todas las cosas se ha manifestado más. Es la mejor expresión de lo que llamamos Dios, que siempre está actuando dentro del proceso evolutivo. Al emerger el ser humano se ha manifestado de manera más densa y especial.

El Génesis lo expresa en el lenguaje simbólico de la época: “Dios formó al hombre del polvo de la tierra y sopló en su nariz el soplo de la vida y el hombre se convirtió en un ser vivo” (Gn 2:7). El “soplo de la vida” es el espíritu. Estaba en el universo, pero no de forma consciente. Ahora, por la acción del soplo divino se volvió consciente de sí mismo.

Este espíritu está en cada parte de nuestro «cuerpo» (el código genético presente en cada célula) pero se organiza en órdenes a partir del cerebro, cuyo número de neuronas asciende a cifras de miles de millones con billones de sinapsis (conexiones) entre ellas.

Es importante resaltar que esta conciencia pertenece de modo propio al universo, en nuestro caso a nuestra galaxia, a nuestro sistema solar, al planeta Tierra y, finalmente, a cada persona humana. La conciencia posee su prehistoria hasta irrumpir en nosotros como conciencia de la conciencia. Nosotros no tenemos espíritu como no tenemos cuerpo. Somos ser humano-espíritu así como somos ser humano-cuerpo, ser-humano psique, como ya señalábamos anteriormente en este blog.
¿Cómo se revela el ser humano-espíritu o el espíritu humano? Es aquel momento de la conciencia en que él se da cuenta de sí mismo, se siente parte de un Todo mayor y se abre al Infinito. El espíritu es el ápice de la autoconciencia.
Y cuál es la singularidad del espíritu? Reside en su capacidad de crear unidad, de hacer una síntesis de las informaciones y formar un cuadro coherente; es la capacidad de discernir en las partes el Todo y en el Todo las partes, pues comprende que hay un hilo conductor, un eslabón que une y re-une todas las cosas. Ellas no están dejadas ahí arbitrariamente; se articulan en órdenes de las más diferentes formas. Constituyen un Todo orgánico, sistémico y estructurado siempre en redes de relaciones.

Este Todo no es algo establecido de una sola vez. Es un Todo dinámico. Pasa por fases caóticas y desordenadas para enseguida reordenarse y adquirir nuevamente equilibrio y armonía. Espíritu, por lo tanto, es la capacidad presente en el universo de crear síntesis de las relaciones y unidades sistémicas a partir de estas relaciones.

El espíritu es un principio cosmológico, es decir, pertenece a la estructura y a la dinámica del universo y permite entender el universo tal como es, pues esta es su función como principio. Por eso se dice que el universo es espiritual, pensante, consciente, porque él es relativo, panrelacional y autoorganizativo. En su debido grado, todos los seres participan del espíritu.

La diferencia entre el espíritu de una selva y el espíritu del ser humano no es de principio sino de grado. En ambos funciona el mismo principio pero de forma diferente. En nosotros creando unidades significativas y alta capacidad de relación. De modo autoconsciente. En la selva, el principio se revela por la unidad de la floresta como una totalidad dinámica, no simplemente como un amontonamiento de árboles, sino como selva. Pero de un modo no autoconsciente, o con una conciencia propia de la selva, conectada a su vez con todo el universo, con sus energías y con las fuerzas directivas de la vida y de la Tierra.
Formulada esta explicación inicial, cabe preguntar:

¿Cuáles son las características distintivas del ser humano-espíritu o del espíritu humano?

La primera y más inconfundible de todas ellas es su dimensión transpersonal, llamada también de trascendencia. Dimensión transpersonal o trascendencia significa aquí que el ser humano no está encerrado y limitado a su propia realidad. Él siempre desborda y traspasa cualquier límite. Trascendencia es estar abierto en totalidad a sí mismo, al otro, al mundo y al Infinito. Es su apertura total que va más allá de los límites corporales.

Por eso, se dice que el ser humano-espíritu habita las estrellas, es decir, con su espíritu atraviesa los espacios infinitos y supera todos los límites temporales que se le antojen. Por ser un ser de trascendencia, el ser humano-espíritu es pan-relacional. Puede entablar relaciones con todos los tipos de seres. Para él no hay horizontes cerrados. Cada horizonte se abre a otro y a otro, y así indefinidamente.

Esta es la razón por la que afirmamos que el ser humano es un proyecto infinito y está devorado por un deseo nunca saciable, a no ser en la comunión con el Infinito real que le es adecuado. Es la Última Realidad, Dios.

Esa capacidad de trascendencia liga al ser humano-espíritu con el Todo. El ser humano se siente sumergido en él y se percibe parte de él. Ese Todo no está en ningún lugar, porque engloba todos los lugares.

Es propio del ser humano-espíritu interrogarse sobre la naturaleza de ese Todo que lo envuelve. Todos los nombres de cualquier lengua y cultura terminan diciendo: es el Ser o simplemente el Espíritu absoluto, es aquello que las religiones llaman Dios.
Lo extraordinario del hombre/mujer-espíritu es poder entrar en comunión con la Suprema Realidad, agradecerle la grandeza del universo y el don de la vida. Alabarlo por su magnanimidad y amor, por haber creado todas las cosas y seguir diciendo en cada momento: ¡fiat, hágase, renuévese, exista! Sin esa palabra todo volvería a la nada. Por eso cabe celebrar la vida y danzar delante del Creador.

Pero también, a causa del caos que puede manifestarse en el universo, en la Tierra y en la vida, llorar delante de él y preguntar: ¿Por qué, oh Dios? ¿Por qué permites la muerte de tantos por la Covid-19, por qué la destrucción avasalladora de un tsunami o de un terremoto o, como relata la crónica cotidiana, la muerte de un joven dentro de casa por una bala de la policía irresponsable o por una bala perdida en un tiroteo entre policías y bandidos? ¿Por qué?

Ante estos muchos “por qués”, todos nos volvemos un poco como el Job bíblico que cuestiona, critica, se rebela ante de Dios para, finalmente, callar reverente ante el misterio, porque Dios es mayor que nuestra razón y puede ser de una forma que no podemos comprender. A pesar de esos absurdos, descubre que Dios es el supremo amante de la vida (Sab 11, 26) que no permitirá que el luto, las lágrimas y la desgracia tengan la última palabra. Es el espíritu que confía y cree. Al final Job recupera la plenitud de la vida.

Otra característica del ser humano-espíritu es su libertad. Libertad es la capacidad de autodeterminación personal. Siempre hay elementos determinantes venidos de los distintos enraizamientos que presenta la existencia: de origen, de clase, de color, de inteligencia etc., pero el ser humano puede enfrentarse por sí mismo (auto) a estos condicionamientos. Puede asumirlos, rechazarlos y modificarlos. En él reside una fuerza que le permite sobreponerse a ellos. Estos lo limitan (no hay libertad sin límites), pero no lo pueden aprisionar. Incluso esclavizado con cadenas de hierro es un ser libre, pues esa es su esencia en cuanto espíritu.

La historia humana es la historia de expansión de la libertad, a pesar de todos los retrocesos, historia de romper amarras, de conquistar espacios de autodeterminación y de plasmación de su vida y su destino. En la historia que conocemos, la libertad, si bien intrínseca al ser humano, nunca es simplemente concedida, sino conquistada en un proceso de liberación. Liber-ación es la acción que crea libertad. Paulo Freire, tan injustamente calumniado por enemigos de la inteligencia, pero un gran educador, nos dejó esta lección: nadie libera a nadie; nos liberamos siempre juntos.

Toda creatividad, todo el universo de las artes, de la ciencia y de la técnica, de la música y de la danza tienen como base la libertad. Sin libertad la comunicación se transforma en farsa y la palabra esconde más de lo que revela.

Pero, principalmente, la libertad hace al ser humano un ser ético, responsable de sus actos y de las consecuencias de sus actos, que decide sobre el bien y el mal para él y para los otros. La libertad le permite ser un ángel bueno o un malhechor y criminal.

Sólo un ser libre puede donarse totalmente a otro o a una causa, como en este momento dramático del imperio de la Covid-19, cuando los trabajadores de la salud, de la medicina y la enfermería y otros trabajadores clave entregan sus vidas, se arriesgan a contaminarse para tratar de salvar la vida de otros. Si la tan gastada palabra “héroe” tiene valor, ha de aplicarse aquí, no a los héroes de la guerra que se hacen héroes matando. Aquí, en los hospitales, están los verdaderos héroes de la vida porque salvan vidas.

Hay valores como estos por los cuales vale la pena dar la vida. Morir así es digno. Por cómo ejercemos nuestra libertad, si elegimos el bien o si nos rendimos al mal, seremos juzgados por nuestra propia conciencia ante el Señor de la historia. Este juicio define nuestro destino final y el marco final de nuestra existencia, siempre bajo el arco de la infinita misericordia de Dios.

Otra característica singular del hombre-espíritu es su capacidad de amar. El amor irrumpe como una fuerza cósmica, cantada por Dante Alighieri en la Divina Comedia y por todos los grandes espíritus. El amor es tan excelente que para los cristianos define la naturaleza íntima de Dios: Dios es amor (1 Jn 4,8).

El médico Paes Campos, en su libro Quem cuida do cuidador (Vozes, 2005) lo ha dicho muy bien: «El acto de cuidar es la materialización de un sentimiento de amor». Eso es lo que están haciendo todos los que trabajan abnegadamente en los hospitales en este momento del coronavirus. Amar es hacer don de sí mismo al otro, y entregarse incondicionalmente a él o a ella, es hacer lo imposible para estar junto a la persona amada, es sentirla dentro, es no entender más la vida sin él o sin ella, es experimentar el infierno cuando, por cualquier razón, el amor ya no existe o no tiene vuelta atrás. Sin el amor desaparece todo el brillo, toda la alegría y el sentido de la vida. Amar es decir: tú no puedes desaparecer ni morir.

El ser humano-espíritu puede también odiar, rechazar, torturar bárbaramente, bestializarse completamente cuando se deja llevar por la ira incontrolable y el deseo de destrucción, como en los sótanos de tortura de nuestro régimen dictatorial pasado. Esta sombra forma también parte de la realidad de su espíritu, como el espíritu malo. Hemos visto personas insensibles y sin ninguna empatía con las víctimas del coronavirus,empezando con nuestro Presidente Jair Bolsonaro. Son inhumanas y crueles.

Pero el ser humano-espíritu también puede perdonar. Es otra característica suya. Perdonar no es olvidar la herida que todavía sangra, es no ser rehén de ella ni seguir aferrado al pasado. Perdonar es esforzarse por ver al ofensor con compasión, benevolencia y amor. Es liberarse para el mañana y para nuevas experiencias.

Junto con el perdón viene la capacidad de com-pasión, una de las características más nobles del espíritu. Compasión, tan necesaria en esta tiempo triste del coronavirus, que produce un océano de sufrimiento en el que están sumergidas miles de personas en nuestro país y en toda la Tierra, es asumir el lugar del otro, no dejar que los familiares y amigos sufran solos, ofrecerles un hombro, más que hablar es guardar silencio, reverente y compasivo, llorar juntos y ponerse solidariamente a su lado en el mismo camino. Todo esto puede el ser-humano-espíritu

Pero también la ausencia de generosidad y de compasión puede asumir formas apocalípticas. Tres días antes de suicidarse, el 27 de abril de 1945, Hitler escribió en su diario: “Al final de todo, me viene el arrepentimiento de haber sido tan generoso con los judíos…” (Johnson, P., Tempos modernos, Río, 1990, p. 345; Madrid, 2007). Generosidad siniestra, por no haber conseguido dar una solución final a los judíos (Endlösung) –envió a las cámaras de gas a seis millones– y no haber podido mandar exterminar a 30 millones de eslavos como había decidido. Aquí el espíritu se revela como la perversión suprema. Lo antihumano es también parte de lo humano, complejo y misterioso.

Otra característica del ser humano-espíritu es la de ser el eterno interrogador, atormentado permanentemente por preguntas últimas. Sólo él las hace porque es portador de autoconciencia, inteligencia y percepción del Todo: ¿Quién creó el universo?, ¿Por qué los miles de millones de galaxias con sus incontables estrellas y planetas? Ellas no están ahí por sí mismas. Alguien las puso en la existencia y las sustenta. ¿Por qué estoy aquí? ¿Por qué y para qué nací? ¿Cuál es mi lugar y mi misión en este conjunto indescifrable de seres? ¿Cómo debo comportarme ante el otro y la naturaleza? Terminada mi jornada en este pequeño planeta ¿adónde voy? ¿Qué puedo finalmente esperar?

Las respuestas no están codificadas en ningún manual, aunque todos los textos sagrados e innumerables filosofías se esfuercen por ofrecer respuestas apaciguadoras. Pero ninguna de ellas sustituye nuestra propia tarea existencial de formular una respuesta personal que compromete todo el ser.

Puede que las personas más escépticas y descreídas consigan rehuir estas indagaciones por un tiempo, pero como pertenecen a la estructura de nuestro espíritu, surgen de nuevo cuando menos se espera, especialmente cuando muere un ser querido, y no hay cómo evitarlas porque tienen la fuerza intrínseca de volver una y otra vez. No sin razón los ateos son las personas que más hablan de Dios, aunque sea para negarlo. Negación que no consigue matar la pregunta existencial. Repunta de nuevo con el vigor de un brote después de una lluvia en tierra reseca.

Finalmente, una característica básica del espíritu es su capacidad de síntesis. Como la naturaleza del ser humano-espíritu es relacional, le cabe a él hacer la síntesis entre el cielo y la Tierra, entre lo inmanente y lo Trascendente, entre la exterioridad y la interioridad.

Así como la psique necesita un Centro para ordenar todas las energías y pulsiones que la habitan, el espíritu se siente herido o escindido si no logra una Síntesis, no teórica, sino vital-existencial, que dé dirección a su vida. Por eso cada persona posee consciente o inconscientemente una cosmovisión, es decir, una lectura del mundo, una interpretación del curso de la historia, una visión de conjunto. El espíritu no aguanta una esquizofrenia existencial que separa, opone, desune y atomiza la realidad. Él necesita un marco ordenador de todas sus experiencias, ideas y sueños

Mucho más se podría decir del ser humano-espíritu, pero nos bastan estas referencias para fundamentar nuestro intento de pensar la realidad a la luz del paradigma del cuidado y de lo que nos sugieren las ciencias.

Cuidar del espíritu es vivir la dimensión humano-espiritual

Como se deriva de las reflexiones hechas, el espíritu es una realidad tan sutil y sujeta a tantos percances –justamente por ser lo mejor y más alto de nosotros– que debemos cuidarlo celosamente y preocuparnos de preservarlo con todo su carácter infinito

Cuidar del espíritu conlleva cultivar la espiritualidad. Necesitamos liberar la espiritualidad de su encuadre dentro de la religión. No existe, por cierto, religión sin espiritualidad; la religión nace de una profunda experiencia espiritual, pero puede existir espiritualidad independiente de la religión.

Cuidar de la espiritualidad es cultivar una actitud de apertura permanente ante cualquier realidad. Es estar disponible al nudo de relaciones que es uno mismo. Es vivir concretamente la transcendencia, es decir, no dejarse atrapar por ninguna de las realidades concretas, lo que no significa no comprometerse ni asumir responsabilidades con seriedad, sino saber ir más allá de ellas. No hundirse con ellas cuando fracasan ni apegarse a ellas cuando triunfan.

La espiritualidad pide silencio. Silencio no es no decir nada, sino abrir espacio para que pueda ser oída otra palabra que viene de lo más profundo de nosotros mismos, de la conciencia, de una persona, tal vez anónima, del propio Dios que nos puso en este mundo.

El cuidado del espíritu implica no colocar trabas en el encuentro con el otro. Vivir espiritualmente es acogerlo. Dice la leyenda griega, confirmada por las Escrituras judeocristianas, que un matrimonio mayor y pobre al acoger a un miserable, descubrió que había hospedado a Dios escondido en la figura del pobre. El cuidado del espíritu lleva a cultivar la bondad, los buenos deseos, la solidaridad, la compasión y el amor. Estos son los valores que constituyen la sustancia de la espiritualidad, que nos acompañan a lo largo de la vida y que llevamos más allá de la muerte.

A veces este espíritu de cuidado se hace a través de una conversación sincera con un amigo, al oír una música que nos llega a lo más profundo del alma, con la lectura de algún libro, de un encuentro especial con una persona sabia, viendo una película, vídeo o teatro. O simplemente oyendo con atención lo que piensa de la vida el tendero de la esquina, el taxista, el vendedor ambulante, y oyendo las quejas del mendigo de la calle.

Cuidar del espíritu es abrirse al misterio del mundo y al misterio mayor que es Dios. La espiritualidad no puede reducirse a leer y pensar sobre Dios, hay que sentirlo en el corazón, poder dialogar con él y escuchar su voz que viene de todas las cosas, pero especialmente de los llamamientos de nuestra conciencia. Es importante dar el paso de la cabeza al corazón, porque es el corazón el que siente, venera y ama a Dios.

El resultado de este cuidado se hace sentir pronto a través de una vida más serena, de una paz que ningún ansiolítico o droga puede producir. Es vivir la vida como quien se siente en la palma de la mano de Dios. Entonces, ¿por qué temer? ¿Qué mayor disfrute puede existir que verse libre de los miedos y sentirse acompañado por una mirada amorosa?

Cuidar del espíritu implica también cuidar del ambiente social, cuidar de los otros para que la atmósfera que nos rodea no se vuelva inhumana, obsesionada por la búsqueda del placer, del consumo y por el descontrol de los instintos, dañinos para la persona y para los demás. Superar los odios y las fake news tan difundidas por las midias digitales y tan funestas a las personas, a las instituciones, a las políticas, como ocurre actualmente en Brasil y también en otras partes del mundo.

En este campo hay mucho que hacer, empezando cada cual consigo mismo, haciendo su revolución molecular, y al mismo tiempo rechazando entrar en los «esquemas de este mundo» según el apóstol Pablo (Rm 12,2) y reforzando todas aquellas iniciativas que representan alternativas y semillas de una nueva forma de habitar la Casa Común.

El cuidado en su núcleo esencial exige otro tipo de paradigma de civilización en el cual no impera el capital material y la acumulación de bienes sino en el que el capital humano-espiritual será un eje central, capaz de dar un rostro más humano y fraterno a la convivencia humana, con los otros y con la naturaleza.

Pemítanme terminar con una afirmación que se ha vuelto casi banal, pero que no ha perdido verdad y actualidad: el mundo nuevo, después del coronavirus o más tarde, será más espiritual o no será. Razón de más para comenzar a ser más espirituales, es decir, más sensibles, cooperativos, amorosos y cuidadosos, en fin, más humanos.

*Leonardo Boff ha escrito Espiritualidad: un camino de realización, Mar de Ideias, Rio 2016; Experimentar a Dios: la transparencia de todas las cosas, Vozes 2011; Anselm Grün/Leonardo Boff, Lo Divino en nosotros, en la persona y en el universo Vozes 2017.

Traducción de Mª José Gavito Milano

 

 

FREI BETTO: ÉTICA EM TEMPOS DE PANDEMIA

29/05/2020

Não precisamos apresentar a Frei Betto, muitas vezes presente neste blog. Suas análises são sempre aderentes à realidade, suas reflexões sobre tantos temas, possuem seriedade, numa aura de espiritualidade, tão ausente no mundo de hoje. O covid-19 suscitou muitas indagações, de toda ordem,mas especialmente aquela sobre a ética. Aqui temos um texto claro, simples, essencial, por todos compreensível o que significa  viver eticamente no contexto da pandemia. Não deixem de ler no final o belo poema de um autor cubano que nos mostra o valor da vida e a presença de Deus em nossa vida. Lboff

Etica em tempos de pandemia

A pandemia causada pelo coronavírus veio nivelar a humanidade. E suscitar sérias questões éticas. Não faz distinção de classe, como a anemia e o raquitismo, que resultam da fome; ou de gênero, como as doenças da próstata.

Trata-se, agora, de enfrentar um inimigo invisível que exige urgente mobilização global para deter o seu avanço. E é em momentos de crise como este que as pessoas se revelam.

A questão ética fundamental que a pandemia levanta é quanto ao valor da vida humana. Para o capitalismo, em si tem valor zero, a menos que revestida de adereços com valor de mercado e robustecida por bens patrimoniais e financeiros. Prova disso é o descaso humano em nossas cidades, cujas calçadas se enchem de pessoas maltrapilhas que sobrevivem da caridade alheia. Não têm valor nenhum e, ao cruzar com elas, muitos evitam se aproximar, receiam o mau cheiro e o assédio.

Suponhamos que um deles ganhe uma fortuna na loteria e, pouco depois, apareça a bordo de um reluzente Mercedes Benz. Imediatamente passará a ter valor social e ser reverenciado pelo respeito e pela inveja de quem o observa. Portanto, eis o patamar antiético ao qual o sistema capitalista nos conduz: valemos pelo que portamos e não pelo simples fato de sermos humanos.

Agora, o espectro da morte nos nivela. A devastação letal provocada ocupa praticamente todo o noticiário. Somos todos obrigados a redimensionar nossos critérios, valores e hábitos. Até as nações mais ricas descobrem que o dinheiro não é suficiente para evitar a pandemia. Só a ciência é capaz de detê-la, mas andava muito ocupada em descobrir, nos laboratórios, como aumentar os lucros das empresas farmacêuticas, enquanto faltavam recursos para combater a fome e o aquecimento global.

A Itália nos mostrou como a pandemia coloca sérios dilemas éticos. Médicos e enfermeiros tiveram que optar entre um e outro paciente, devido à falta de recursos suficientes. E nossos parentes e amigos infectados devem padecer sozinhos nos hospitais, sem que possamos consolá-los, exceto pelo celular quando ainda não entraram no respiradouro.

Os falecidos, não temos direito de pranteá-los no velório e nem mesmo cumprir seus últimos desejos, como ser enterrados ou cremados com tal roupa ou símbolo religioso. Como se fossem anônimos, são descartados tal como ocorria na Idade Média com os infectados pela peste. Estão proibidos de rituais fúnebres. Assim, o Covid-19 rouba-lhes a dignidade. E nos apunhala ao nos obrigar a ficar afastados de quem somos mais próximos. É uma tríplice morte: a individual, do paciente; a familiar, dos ausentes; a social, causada pela interdição de velório, enterro e culto religioso.

Outra dimensão ética suscitada pela pandemia é o conflito entre solidariedade e competitividade. Todos conhecemos gestos meritórios de solidariedade visando a aplacar o nosso isolamento e favorecer o socorro às vítimas, como o da jovem do apartamento 404 que, todos os dias, prepara a refeição da idosa do 302, obrigada a dispensar a cozinheira; o empresário que distribui quentinhas aos moradores das ruas de sua vizinhança; o universitário que se apresentou como voluntário em um hospital disposto a carregar macas e limpar enfermos. Ou como o do bombeiro carioca Elielson dos Santos que, do topo da escada Magirus, oferece músicas com seu trompete a moradores do Rio.

Há que ressaltar também a solidariedade entre países que enviaram recursos a outros povos, especialmente Cuba, que deslocou centenas de médicos para reforçar o socorro na Itália, na Espanha, na França e em muitos outros países.

No entanto, falou mais alto a competitividade, valor supremo do capitalismo. O chinês Jack Ma, fundador da plataforma de vendas online Alibaba e um dos homens mais ricos do mundo, ofereceu gratuitamente kits de testes para diagnosticar Covid-19 e respiradores a 50 países, inclusive Cuba. Porém, a transportadora aérea era de bandeira usamericana, e a Casa Branca, desprovida do mínimo senso humanitário, valeu-se do genocida bloqueio imposto à ilha do Caribe para impedir que a carga chegasse a seu destino.

Em nome de caprichos políticos, sacrifica-se a vida de nações. Algo semelhante ocorreu com o governo da Bahia, que comprou equipamentos da China no valor de R$ 42 milhões. Ao passar de navio pelos EUA, a encomenda foi apropriada pelo governo da nação imperial.

As implicações éticas suscitadas pela pandemia se assemelham às de situações de guerra. O governo Bolsonaro, monitorado pelo FMI, havia aplicado ao Brasil rigoroso ajuste fiscal coroado pelo teto de gastos e os juros elevados. Desde a posse alegava não ter dinheiro e precisar promover reformas, como a da Previdência, para poupar recursos.

Dinheiro nunca falta quando se trata de pagar os juros da dívida pública e saciar o voraz apetite dos bancos. Desde que assumiu o Ministério da Economia, Guedes transferiu para os bancos R$ 433 bilhões, dinheiro do povo sonegado da educação, da saúde, do saneamento etc. O que vale mais, o lucro dos bancos ou a vida de milhões de brasileiros?

O combate à pandemia exigiu medidas urgentes e, como por milagre, apareceu R$ 1,3 trilhão! Recursos há, mas não vontade política de quem qualificou a pandemia de “gripezinha” e demonstrou não se importar com a morte em proporções geométricas.

Deixo à nossa reflexão o poema “Esperanza”, do cubano Alexis Valdés:

Cuando la tormenta pase

Y se amansen los caminos

y seamos sobrevivientes

de un naufragio colectivo.

Con el corazón lloroso

y el destino bendecido

nos sentiremos dichosos

tan sólo por estar vivos.

Y le daremos un abrazo

al primer desconocido

y alabaremos la suerte

de conservar un amigo.

Y entonces recordaremos

todo aquello que perdimos

y de una vez aprenderemos

todo lo que no aprendimos.

Ya no tendremos envidia

pues todos habrán sufrido.

Ya no tendremos desidia

Seremos más compasivos.

Valdrá más lo que es de todos

Que lo jamás conseguido

Seremos más generosos

Y mucho más comprometidos

Entenderemos lo frágil

que significa estar vivos

Sudaremos empatía

por quien está y quien se ha ido.

Extrañaremos al viejo

que pedía un peso en el mercado,

que no supimos su nombre

y siempre estuvo a tu lado.

Y quizás el viejo pobre

era tu Dios disfrazado.

Nunca preguntaste el nombre

porque estabas apurado.

Y todo será un milagro

y todo será un legado

y se respetará la vida,

la vida que hemos ganado.

Cuando la tormenta pase

te pido Dios, apenado,

que nos devuelvas mejores,

como nos habías soñado.

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

Una lectura de ciego de la encíclica ecológica Laudato Si

28/05/2020

Un ciego capta con las manos o con su bastón las cosas más relevantes que encuentra a su paso. Pues vamos a intentar hacer así una lectura de ciego de la encíclica ecológica del Papa Francisco, Laudato Si: sobre el cuidado de la Casa Común, cuyos 5 años (24/05/2015) acabamos de celebrar. ¿Cuáles son sus puntos relevantes?

Para empezar, no se trata de una encíclica verde que se restringe al ambiente, predominante en los debates actuales. Propone una ecología integral que abarca lo ambiental, lo social, lo político, lo cultural, lo cotidiano y lo espiritual.

Quiere ser una respuesta a la generalizada crisis ecológica mundial porque nunca hemos maltratado y herido nuestra Casa Común como en los dos últimos siglos» (n.53). Hemos hecho de la Casa Común «un inmenso depósito de basura» (n.21). Más aún: «Las previsiones catastróficas ya no pueden ser miradas con desprecio e ironía… nuestro estilo de vida, por ser insostenible, solo puede desembocar en catástrofes» (n.161). La exigencia es «una conversión ecológica global» (n.5;216) que implica «nuevos estilos de vida» (lo repite 35 veces) y «cambiar el modelo de desarrollo global» (n.194).

Hemos llegado a esta emergencia crítica por causa de nuestro exacerbado antropocentrismo, por el cual el ser humano «se constituye como dominador absoluto» (n.117) de la naturaleza, desgarrado de ella, olvidando que «todo está interligado y que por eso no puede declararse autónomo de la realidad» (n.117;120). Ha utilizado la tecnociencia como instrumento para forjar «un crecimiento infinito… lo que supone la mentira de la disponibilidad infinita de los bienes del planeta, que lleva a estrujarlo hasta el límite y más allá del límite» (n.106).

En la parte teórica, la encíclica incorpora un dato de la nueva cosmología y la física cuántica: que todo en el universo es una relación. Como en un ritornello insiste en que «todos somos interdependientes, todo está interconectado y todo está relacionado con todo» (cf. nn.16, 86,117,120) lo que da una gran coherencia al texto.

Otra categoría que constituye un verdadero paradigma es la del cuidado. Este es en realidad el verdadero título de la encíclica. El cuidado, por ser la esencia de la vida y del ser humano, según la fábula romana de Higino, tan bien estudiada por Martin Heidegger en Ser y Tiempo, es recurrente a lo largo del texto de la encíclica. Ve en San Francisco «el ejemplo por excelencia del cuidado» (n.10). «Corazón universal… para él cualquier criatura era una hermana unida a él por lazos de cariño, sintiéndose llamado a cuidar de todo lo que existe» (n.11).

Es interesante observar que el Papa Francisco une la inteligencia intelectual, apoyado en los datos de la ciencia, a la inteligencia sensible o cordial. Debemos leer con emoción los números y relacionarnos con la naturaleza «con admiración y encanto (n.11)… prestar atención a la belleza y amarla porque nos ayuda a salir del pragmatismo utilitarista» (n.215). Es importante «escuchar tanto el grito de la Tierra como el grito de los pobres» (n.49).

Consideremos este texto, cargado de inteligencia. emocional: «Todo está relacionado y todos los seres humanos caminamos juntos, como hermanos y hermanas, en una maravillosa peregrinación, entrelazados por el amor que Dios tiene a cada una de sus criaturas y que nos une también con tierno cariño al hermano Sol, a la hermana Luna, al hermano río y a la Madre Tierra» (n.92). Es importante «fomentar una cultura del cuidado que impregne toda la sociedad» (n. 231), ya que de esta manera «podemos hablar de una fraternidad universal» (n.228).

Por último, a la ecología integral le es esencial la espiritualidad. No se trata de derivarla de ideas, sino «de las motivaciones que dan origen a una espiritualidad para alimentar la pasión por el cuidado del mundo… No es posible comprometerse en grandes cosas sólo con doctrinas sin una mística que nos anime, sin una moción interior que impulse, motive, anime y dé sentido a la acción personal y comunitaria» (n.216). Nuevamente evoca aquí la espiritualidad cósmica de San Francisco (n.218).

Para concluir, es importante destacar que con esta encíclica, amplia y detallada, el Papa Francisco se coloca, como lo han reconocido notables ecologistas, a la vanguardia de la discusión ecológica mundial. En muchas entrevistas se ha referido a los peligros que corre nuestra Casa Común, pero su mensaje es de esperanza: «Caminemos cantando. Que nuestras luchas y nuestra preocupación por este planeta no nos quiten la alegría de la esperanza» (n.244).

*Leonardo Boff es ecoteólogo y ha escrito: Francisco de Asís y Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2014.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Uma leitura de cego da encíclica ecológica Laudato Si

25/05/2020

               Uma leitura de cego da encíclica Laudato Si

Leonardo Boff

Um cego capta com as mãos ou com seu bastão as coisas mais relevantes que encontra pela frente. Pois assim tentaremos fazer uma leitura de cego acerca da encíclica ecológica do Papa Francisco, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum, cujos 5 anos (24/05/2015) acabamos de celebrar. Quais são seus pontos relevantes?

Antes de tudo, não se trata de uma encíclica verde que se restringe ao ambiente, predominante nos debates atuais. Propõe uma ecologia integral que abarca o ambiental, o social, o político, o cultural, o cotidiano e o espiritual.

Quer ser uma resposta à generalizada crise ecológica mundial porque “nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum, como nos últimos dois séculos”(n.53); fizemos da Casa Comum “um imenso depósito de lixo (n.21). Mais ainda:”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia… nosso estilo de vida insustentável só pode desembocar em catástrofes”(n.161). A exigência é de “uma conversão ecológica global”(n.5;216)) que implica “novos estilos de vida”(repete 35 vezes) e “converter o modelo de desenvolvimento global”(n.194).

Chegamos a esta emergência crítica por causa de nosso exacerbado antropocentrismo, pelo qual o ser humano”se constitui um dominador absoluto”(n.117) sobre a natureza, desgarrado dela, esquecendo que “tudo está interligado e por isso ele “não pode se declarar autônomo da realidade”(n.117;120). Utilizou a tecnociência como instrumento para forjar “um crescimento infinito…o que supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta que leva a espremê-lo até ao limite para além dele”(n.106).

Na parte teórica, a encíclica incorpora um dado da nova cosmologia e da física quântica: que tudo no universo é relação. Como num ritornello insiste que “todos somos interdependentes, tudo está interligado e tudo está relacionado com tudo “(cf. nn.16, 86,117,120) o que confere grande coerência ao texto.

Outra categoria que constitui um verdadeiro paradigma é o do cuidado. Este, na verdade, é o verdadeiro título da encíclica. O cuidado, por ser da essência da vida e do ser humano, segundo a fábula romana de Higino, tão bem explorada por Martin Heidegger em Ser e Tempo é recorrente em todo o texto da encíclica. Vê em São Francisco “o exemplo por excelência do cuidado”(n.10).“Coração universal…para ele qualquer criatura era uma irmã unida a ele por laços de carinho, sentindo-se chamado a cuidar de tudo o que existe”(n.11).

É interessante observar que o Papa Francisco une a inteligência intelectual, apoiado nos dados da ciência, à inteligência sensível ou cordial. Devemos ler com emoção os números e relacionarmo-nos com a natureza “com admiração e encanto (n.11)…prestar atenção à beleza e amá-la pois nos ajuda a sair do pragmatismo utilitarista”(n.215). Importa “ouvir tanto o grito da Terra quanto o grito dos pobres”(n.49).

Consideremos este texto, carregado de inteligência. emocional:”Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos, como irmãos e irmãs, numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma de suas criaturas e que nos une também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio, e à Mãe Terra”(n.92). Importa “incentivar uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade”(n.231), pois assim “podemos falar de uma fraternidade universal”(228).

Por fim, é essencial à ecologia integral a espiritualidade. Não se trata de derivá-la de ideias, mas “das motivações que dão origem “a uma espiritualidade para alimentar a paixão pelo cuidado do mundo…Não é possível empenhar-se em coisas grandes, apenas com doutrinas sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216). Novamente evoca aqui a espiritualidade cósmica de São Francisco (n.218).

Concluindo, releva enfatizar que com esta encíclica, ampla e detalhada, o Papa Francisco se coloca, como notáveis ecologistas o reconheceram, na vanguarda da discussão ecológica mundial. Em muitas entrevistas, referiu-se aos riscos que corre nossa Casa Comum. Mas sua mensagem é de esperança:”caminhemos cantando, que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta, não nos tirem a alegria da esperança”(n.244).

Leonardo Boff é ecoteólogo e escreveu:Francisco de Assis e Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2014.

 

 

 

 

Cuidar do espírito em tempos do covid-19

25/05/2020

Cuidar do espírito e de suas expressões em tempos do covid-19

Tratamos anteriormente nest blog como cuidar de nosso corpo e como cuidar de nossa psiqué no contexto do covid-19. Como somos corpo-mente-espírito, falta abordar como cuidar desta última dimensão, a mais excelente de todas, do espírito. Como fizemos com o conceito de corpo e de psiqué, faremos com o conceito de espírito. Propomo-nos a alargar sua compreensão. Pois, somos herdeiros de uma interpretação que empobrece a sua realidade. Socorrem-nos as ciências da vida e a nova cosmologia que no processo de evolução não apenas tomam em consideração seus aspectos físicos e as constantes cosmológicas, mas incluem as emergências mais notáveis do processo cosmogênico que são a vida, a subjetividade e a consciência reflexa.

Todas estas dimensões revelam o universo em sua exterioridade que a física e astrofísica captam mas também sua interioridade que as ciências da vida tentam decifrar.

Que é o espírito a partir da nova cosmologia

Entender o espírito como uma substância invisível e imortal é dizer meia-verdade e limitar sua amplitude. Nada refere sobre o seu enraizamento no universo nem seu lugar no conjunto de todas as relações já que tudo é relação e nada existe fora da relação. O espírito como substância imortal parece existir em si e para si mesmo, fora do conjunto dos seres.

No entanto, hoje nos é permitido asseverar que o espírito possui a mesma ancestralidade que as energias e a matéria originária. Ele estava presente já no primeiro momento em que o universo surgiu há 13,7 bilhões de anos. Isso se tornou mais convincente quando se descobriu que a matéria não possui apenas massa e energia. Ela possui também uma terceira dimensão, a informação. A informação nasce do jogo de relações que todos os seres entretém entre si, um deixando marcas no outro.

Quando os dois primeiros hádrions (primeira formação de matéria) ou em seguida os topquarks (as partículas menores de matéria subatômica) se encontraram, ocorreu uma troca de energia e de matéria. Cada qual se modificou. Ficaram marcas deste encontro. Estas marcas vão se acumulando, forjando as informações.

Todos os seres são produtores e portadores de informações, inscritas em seu código genético. Estas vão se estocando e se organizando mais e mais na medida em que o universo avança e ganha maior complexidade.

No nível humano se alcança um patamar elevadíssimo de complexidade a ponto de a informação aparecer na forma de consciência reflexa. É aqui que a Energia de Fundo, poderosa e amorosa que sustenta todas as coisas, mais se manifestou. Ela é a melhor expressão daquilo que chamamos Deus que sempre está atuando dentro do processo da evolução. Emergindo o ser humano manifestou-se mais densamente e de forma especial.

O Gênesis o expressa, na linguagem simbólica da época: “Deus formou o ser humano do pó da terra e soprou nas suas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivo” (Gn 2,7). O “sopro da vida” é o espírito. Ele estava no universo, mas não de forma consciente. Agora pela ação pelo sopro divino, ele se tornou auto-consciente.

Este espírito está em cada parte de nosso “corpo” (o código genético presente em cada célula) mas se organiza em ordens a partir do cérebro cujos neurônios sobem a cifras de bilhões em número com trilhões de sinapses (conexões) entre eles.

É importante enfatizar que esta consciência, de um modo próprio, pertence ao universo, no nosso caso, à nossa galáxia, ao nosso sistema solar, ao planeta Terra e por fim a cada pessoa humana. A consciência possui sua pré-história até irromper em nós como consciência da consciência. Nós não temos espírito como não temos corpo. Somos homem-espírito bem como homem-corpo, homem-psiqué, coisa que já assinalamos anteriormente neste blog.

Como se revela o homem-espírito ou o espírito humano? Ele vem à tona no momento em que a consciência se dá conta de si mesma, se sente inserida num Todo maior e se abre ao Infinito. O espírito é o ápice da autoconsciência.

Qual é a singularidade do espírito? Reside em sua capacidade de criar unidade, de fazer uma síntese das informações acumuladas e formar um quadro coerente; é a capacidade de discernir nas partes o Todo e o Todo nas partes, pois compreende que há um fio condutor, um elo que une e re-une todas as coisas. Estas não estão jogadas ai arbitrariamente. Elas se articulam em ordens das mais diferentes formas. Constituem um Todo orgânico, sistêmico, sempre estruturado em redes de relações.

Esse Todo não é algo estabelecido uma vez por todas. Ele é dinâmico. Passa por fases caóticas e desordenadas para em seguida se reordenar e ganhar novamente equilíbrio e harmonia. Espírito, portanto, é a capacidade presente no universo de criar sínteses das relações e unidades sistêmicas a partir destas relações.

O espírito é um princípio cosmológico, quer dizer, pertence à estrutura e à dinâmica do universo e que permite entender universo assim como é, pois esta é a função enquanto princípio. Por isso, diz-se que o universo é espiritual, pensante, consciente, porque ele é reativo, panrelacional e auto-organizativo. Em seu devido grau, todos os seres participam do espírito.

A diferença entre o espírito de uma floresta e o espírito do ser humano não é de princípio mas de grau. O princípio é o mesmo e funciona em ambos mas de modo diferente. Em nós o princípio cria unidades significativas e alta capacidade de relação. Mas no modo auto-consciente. Na floresta o princípio se revela pela unidade da floresta como uma totalidade dinâmica, não simplesmente como um amontoado de árvores, mas como floresta. Mas de um modo não auto-consciente, ou com uma consciência própria da floresta, já que ela também vem conectada com todo o universo, com suas energias e com as forças diretivas da vida e da Terra.

             Características do homem-espírito

Formulada esta compreensão inicial, cabe perguntar: qual são as características distintivas do homem-espírito ou do espírito humano?

A primeira e mais inconfundível delas é sua dimensão transpessoal, chamada também de transcendência. Dimensão transpessoal ou transcendência significa aqui o fato de o espírito humano não ser fechado e limitado em sua própria realidade corporal. Ele sempre desborda e transborda qualquer limite. Transcendência é estar aberto em totalidade, para si mesmo, para o outro, para o mundo e para o Infinito. É sua abertura total que vai além dos limites corporais.

Por isso, diz-se que o homem-espírito habita as estrelas. Quer dizer, com seu espírito atravessa os espaços infinitos e ultrapasse todos os limites espacio-temporais que se lhe antolharem. Por ser um ser de transcendência, o homem-espírito é pan-relacional. Pode entabular relações com todos os tipos de seres. Para ele não há horizontes que se fecham. Cada horizonte se abre a outro e a outro e assim indefinidamente.

Eis aqui a razão porque afirmamos que o ser humano é um projeto infinito e é devorado por um desejo nunca saciável, mas saciável na comunhão com o Infinito real que lhe é adequado. É a Última Realidade, Deus.

Essa capacidade de transcendência liga o homem-espírito ao Todo. Ele se sente mergulhado nele e se percebe parte dele. Esse Todo não está em nenhum lugar, porque engloba todos os lugares.

É próprio do homem-espírito se interrogar sobre a natureza desse Todo que o envolve. Todos os nomes de qualquer língua e cultura terminam por dizer: é o Ser ou simplesmente é o Espírito absoluto, é aquilo que as religiões chamam de Deus.

O extraordinário do homem-espírito é poder entrar em comunhão com esta Suprema Realidade. Agradecer-lhe pela grandeur do universo e pelo dom da vida. Louvá-lo por sua magnanimidade e amor por ter criado todas as coisas e continuar dizendo a cada momento: “ fiat, faça-se, renova-se e exista! Sem essa palavra, tudo voltaria ao nada. Por isso cabe celebrar a vida e dançar diante do Criador.

Mas também, por causa do caos que pode se manifestar no universo, na Terra e na vida, chorar diante dele e perguntar: Por que, ó Deus? Por que permites a morte de tantos pelo Covid-19, por que a avassaladora destruição de um tsunami ou de um terremoto e mesmo, como se relata, na crônica cotidiana, da morte de um jovem dentro de casa, por uma bala da polícia irresponsável ou mesmo por bala perdida numa troca de tiros entre polícia e bandidos? Por que?

Face a estes muitos “por ques” todos nos fazemos um pouco o Jó bíblico que questiona, critica, se rebela diante de Deus para por fim se calar, reverente, face ao mistério porque Deus é maior do que nossa razão e que pode ser de uma forma que não podemos compreender. Apesar desses “absurdos” descobre que Deus “e o soberano amante da vida”(Sab 11,24) que não permitirá que o luto, a lágrima e a desgraça tenham a última palavra. É o espírito que confia e crê. No final Jó resgata a plenitude da vida.

Outra característica do homem-espírito é sua liberdade. Liberdade é a capacidade de auto-determinação pessoal. Sempre há determinações vindas dos vários enraizamentos que a existência apresenta, de lugar, de classe, de tipo de família, de língua,de forma de nosso corpo, de nível de inteligência etc. Mas o ser humano, por si mesmo (auto), pode confrontar-se com estas determinações. Pode assumi-las, rejeitá-las e modificá-las. Preside nele uma força que lhe permite sobrepor-se a estas determinações. Elas o limitam (não há liberdade sem limites) mas não o podem aprisionar. Mesmo escravizado sob ferros, é um livre, pois essa é sua essência enquanto espírito.

A história humana é a história da expansão da liberdade, apesar de todos os retrocessos, história do rompimento de amarras, de conquistas de espaços, de autodeterminação e de plasmação de sua vida e destino. Na história que conhecemos, a liberdade, embora intrínseca ao ser humano, nunca é simplesmente concedida, mas conquistada num processo de libertação. Libertação é aquela ação que cria a liberdade. Paulo Freire, tão injustamente caluniado pelos inimigos da inteligência, mas o grande educador, nos deixou esta lição: “ninguém liberta ninguém; nos libertamos sempre juntos”.

Toda criatividade, todo o universo das artes, da ciência e da técnica, da música, da dança têm por base a liberdade. Sem liberdade a comunicação se transforma em farsa e a palavra mais esconde do que revela.

Mais que tudo, é a liberdade que torna o ser humano um ser ético, responsável pelos atos e suas consequências, que decide do bem e do mal para si para os outros. A liberdade lhe permite ser um anjo bom ou um malfeitor e criminoso. Só um ser livre pode doar-se totalmente ao outro ou a uma causa, como neste momento dramático do império do Covid-19, quando os operadores da saúde, da medicina e da enfermagem e de outros operadores entregam suas vidas, arriscam-se à contaminação para tentar salvar a vida de outros. Se a tão desgastada palavra “herói” tem valor, ela se aplica aqui, não para aqueles heróis de guerra, que se fazem heróis por matar. Aqui nos hospitais estão os verdadeiros heróis da vida porque salvam vidas.

Há valores, como estes vividos por eles, pelos quais vale a pena dar a vida. Morrer assim é digno. É pela qualidade do exercício de nossa liberdade, se optamos pelo bem ou se nos entregamos ao mal que seremos julgados pela nossa própria consciência diante do Senhor da história. Esse julgamento define nosso destino derradeiro e o quadro final de nossa existência, sempre sob o arco da infinita misericórdia de Deus.

Outra característica singular do homem-espírito é sua capacidade de amar. O amor irrrompe como uma força cósmica, decantada por Dante Alighieri em sua Divina Comédia e por todos os grandes espíritos. O amor é tão excelente que para os cristãos define a própria a natureza íntima de Deus: “Deus é amor”(1 Jo 4,16).

O médico Paes Campos, em seu livro Quem cuida do cuidador (Vozes, 2005) disse muito bem:”O ato de cuidar é a materialização de um sentimento de amor” (p. 59). É o que estão fazendo todos aqueles que estão trabalhando abnegadamente nos hospitais, nesse momento do coronavírus. Amar é fazer de si mesmo dom ao outro, é entregar-se incondicionalmente ao outro, é senti-lo dentro; amor é fazer o impossível para estar junto da pessoa amada, é não entender mais a vida sem o amado ou a amada, é experimentar o inferno quando, por qualquer razão, o amor já não existe e não tem mais volta, Sem o amor desaparece todo o brilho, toda a alegria e todo o sentido da vida. Amar então é dizer: você não pode desaparecer nem  morrer.

Mas o homem-espírito pode também odiar, rejeitar, torturar barbaramente, se bestializar completamente quando tomado de ira incontrolável e de vontade destrutiva como nos porões de tortura de nosso regime ditatorial já passado. Essa sombra faz parte também da realidade do espírito, como o mau espírito. E temos assistido pessoas insensíveis e sem empatia face às vítimas do Coronavírus. São desumanas.

O homem-espírito pode também perdoar. Eis outra sua característica. Perdoar não significa esquecer a ferida que ainda sangra mas consiste em não fazer-se refém dela e permanecer aferrado ao passado. Perdoar é esforçar-se em ver o ofensor com compaixão, benevolência e amor. É liberar-se para o amanhã e para novas experiências.

Junto com o perdão vem a capacidade de com-paixão, característica das mais nobres do espírito. Com-paixão, tão necessária nesta época triste da presença do Codiv-19, que produz um oceano de sofrimento em que estão mergulhadas milhares de pessoas em nosso país e  em toda a Terra. Com-paixão é assumir a paixão do outro, é colocar-se no lugar do   outro, não deixá-lo que os familiares e amigos sofram sós, oferecer-lhes um ombro, mais que falar é guardar um silêncio reverente e compassivo, chorar junto e pôr-se solidariamente no mesmo caminho, lado a lado. Tudo isso, pode o homem-espírito.

Mas também a ausência da generosidade e da compaixão pode assumir formas apocalípticas. Três dias antes de se suicidar a 27 de abril de 1945, Hittler escreveu em seu diário:”No fim de tudo, me vem o arrependimento de ter sido tão generoso para com os judeus…”(P. Johnson, Tempos modernos, Rio 1990, p 345), por não ter tido a possibilidade de dar uma solução final a eles (Endlösung) isto é, mandando-os todos eles às câmaras de extermínio (mandou 6 milhões) e de não ter podido matar 30 milhões de eslavos como havia determinado. Aqui o espírito se revela como a suprema perversão. O anti-humano também é parte do humano, complexo e misterioso.

Outra característa do homem-espírito, o de ser o eterno interrogador. Ele permanentemente vem atormentado por perguntas últimas. Só ele as faz porque é portador de autoconsciência, inteligência e percepção do Todo: quem criou o Universo, por que as bilhões de galáxias com suas incontáveis estrelas e planetas? Elas não estão aí por si mesmas. Alguém as pôs na existência e as sustenta. Por que estou aqui? Por que nasci e para que? Qual é o meu lugar e a minha missão neste conjunto indecifrável de seres? Como me comportar diante do outro e da natureza? Terminada a minha jornada nesse pequeno planeta, para onde vou? Que posso, finalmente, esperar?

As respostas não estão codificadas em nenhum manual, embora textos sagrados e filosofias sem conta se esforcem para trazer respostas apaziguadoras. Mas nenhuma delas substitui a nossa própria tarefa existencial de formular uma resposta pessoal que empenha todo o ser.

Mesmo  pessoas mais céticas e descrentes podem, por algum tempo, se furtar a estas indagações. Mas elas, como pertencem à estrutura de nosso espírito, quando menos se espera, especialmente quando um ente querido morre,elas emergem sem podermos recalcá-las, porque possuem uma força intrínseca de sempre se proporem. Não é sem razão que são os ateus aqueles que mais falam de Deus, mesmo que seja para negá-lo. A negação não consegue matar a pergunta existencial. Ela sempre reponta com o vigor do broto depois das chuvas sobre chão ressequido.

Por fim, uma característica básica do espírito é sua capacidade de síntese. Como a natureza do espírito é relacional cabe a ele fazer a síntese entre o céu e a Terra, entre o imanente e o transcendente, entre a exterioridade e a interioridade.

Como o psiqué precisa de um Centro para ordenar todas as energias e pulsões que a habitam, assim o espírito sente-se perdido ou cindido ao meio se não lograr uma Síntese, não teórica, mas vital-existencial, que dê direção à sua vida. Por isso cada um possui, consciente o inconscientemente, uma cosmovisão, quer dizer, uma leitura do mundo, uma interpretação do curso da história, uma visão de conjunto. O espírito não aguenta uma esquisofrenia existencial que separa, opõe, desune e atomiza a realidade. Ele precisa de um quadro ordenador de todas as suas experiências, ideias e sonhos.

Muito mais caberia dizer do homem-espírito. Mas bastem-nos estas referências para fundamentar nosso intento de pensar tal realidade à luz do cuidado e do que as ciências nos sugerem.

     Cuidar do espírito é viver a dimensão humano-espiritual

Como se deriva das reflexões feitas, o espírito é uma realidade tão sutil e sujeita a tantos percalços – exatamente por ser o melhor e mais alto de nós mesmos – que nós devemos cuidá-lo zelosamente e nos preocuparmos para preservá-lo com todo o seu caráter infinito.

Cuidar do espírito comporta cultivar a espiritualidade. Precisamos libertar a espiritualidade de seu enquadramento na religião. Não existe, por certo, religião sem espiritualidade; ela nasce de uma profunda experiência espiritual. Mas pode existir espiritualidade independente da religião.

Cuidar da espiritualidade é cultivar a permanente atitude de abertura face a qualquer realidade. É estar disponível ao nó de relações que ele mesmo é. É viver concretamente a transcendência, quer dizer, não se deixar prender por nenhuma das realidade determinada, o que não significa não engajar-se e assumir com seriedade responsabilidades. Mas saber estar para além delas. Nem afundar-se com elas quando fracassam. nem apegar-se a elas quando triunfam.

Espiritualidade pede silêncio. Silêncio não é não dizer nada, mas criar o espaço para que outra palavra possa ser ouvida, que nos vem do profundo de nós mesmos, vinda da consciência, de uma pessoa, quem sabe até anônimia,do próprio Deus que nos colocou neste mundo.

O cuidado do espírito implica não colocar entraves no encontro com o outro. Viver espiritualmente é acolhê-lo. Diz a lenda grega, confirmada pelas Escrituras judaico-cristãs, que um casal idoso e pobre ao acolher um miserável, descobriu ter hospedado o Deus escondido na figura do pobre. O cuidado do espírito leva cultivar a bondade, a bem-querença, a solidariedade, a compaixão e o amor. Estes são os valores que constituem a substância da espiritualidade que nos acompanham ao longo da vida e que os levamos para além da morte.

Às vezes este espírito de cuidado emerge através uma conversação sincera com o amigo, ao ouvir uma música que nos vai ao profundo da alma, através da leitura de algum livro, de um encontro especial de uma pessoa sábia,  da assistência de algum filme, vídeo ou teatro. Ou simplesmente ouvindo com atenção o que pensa da vida o pipoqueiro da esquina, o vendedor ambulante, as queixas do esmoler da rua.

Cuidar do espírito é abrir-se ao mistério do mundo e ao mistério maior que é Deus. Espiritualidade não se resume em ler e pensar sobre Deus mas falar a Deus ou permitir que Ele fale à nossa consciência, em senti-lo no coração, poder dialogar com ele e auscultar sua voz que vem por todas as coisas, mas especialmente, dos chamados de nossa consciência. Importa fazer a passagem da cabeça ao coração. Porque é o coração que sente, venera e ama a Deus.

O resultado deste cuidado se faz logo sentir por uma vida mais serena, por uma paz que nenhum ansiolítico ou droga pode conceder. É levar a vida com quem se sente na palma da mão de Deus. Então por que temer? Existe um desfrute maior do que ver-se livre dos medos e sentir-se acompanhado por um olhar amoroso?

Cuidar do espírito envolve também cuidar do ambiente social, cuidar dos outros para que a atmosfera envolvente não se faça tão desumana, obsessiva na busca do prazer, do consumo e do descontrole dos instintos, danosos para a pessoa e para os outros.

Neste campo, há muito que fazer, começando cada um consigo mesmo, fazendo sua revolução molecular e, ao mesmo tempo, se recusando a entrar nos “esquemas deste mundo”segundo o Apóstolo Paulo (Rom 12,2) e reforçando todas aquelas iniciativas que representam alternativas e sementes de um novo tipo de habitar a Casa Comum.

O cuidado em seu núcleo essencial exige um outro tipo de paradigma civilizacional no qual não o capital material e a acumulação de bens impera, mas o capital humano-espiritual será um dos eixos centrais, capaz de criar um rosto mais humano e fraterno ao convívío humano, com os outros e com toda a natureza.

Seja-nos permitir terminar com uma afirmação que se tornou quase banal mas que não perde em verdade e atualidade: o novo mundo, depois do coronavírus ou mais tarde, ou será mais espiritual ou não será. Razão a mais para começarmos a ser mais espirituais, vale dizer, mais sensíveis, cooperativos, amorosos e cuidadosos, finalmente, mais humanos.

Leonardo Boff escreveu Espiritualidade: um caminho de realização, Mar de Ideias, Rio 2016; Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas, Vozes, 2011; Anselm Grün/Leonardo Boff, O Divino em nós, na pessoa e no universo Vozes 2017.

 

 

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