Na Grécia a dignidade venceu a cobiça

Há momentos na vida de um povo em que ele deve dizer Não, para além das possíveis consequências. Trata-se da dignidade, da soberania popular, da democracia real e do tipo de vida que se quer para toda a população.

Há cinco anos que a Grécia se debate numa terrível crise econômico-financeira, sujeita a todo tipo de exploração, chantagem e até terrorismo por parte do sistema financeiro, especialmente de origem alemã e francesa. Ocorria uma verdadeira intervenção na soberania nacional com a pura e simples imposição das medidas de extrema austeridade excogitadas, sem consultar ninguém, pela Troika (Banco Central Europeu, Comissão Européia e o FMI).

Tais medidas implicaram uma tragédia social, face à qual o sistema financeiro não mostrava nenhum sentido de humanidade. “Salve-se o dinheiro e que sofra ou morra o povo”. Efetivamente desde que começou a crise ocorreram mais de dez mil suicídios de pequenos negociantes insolventes, centenas de crianças deixadas nas portas dos mosteiros com um bilhete das mães desesperadas:”não deixem minha criancinha morrer de fome”. Um sobre quatro adultos estão desempregados, mais da metade dos jovens sem ocupação remunerada e o PIB caiu 27%. Não passa pela cabeça dos especuladores que atrás das estatíticas se esconde uma via-sacra de sofrimento de milhões de pessoas e a humilhação de todo um povo. Seu lema é “a cobiça é boa”. Nada mais conta.

Os negociadores do novo governo grego de esquerda, do Syriza, com o primeiro ministro Alexis Tsipras e seu ministro da fazenda um acadêmico e famoso economista da teoria dos jogos Yanis Varoufakis que quiseram negociar as medidas de austeridade duríssimas encontraram ouvidos moucos. A atitude era de total submissão:”ou tomar ou deixar”. O mais duro era o ministro das Finanças alemão Wolfgang Sträuble:”não há nada para negociar; apliquem-se as medidas”. Nem pensar numa estratégia do ganha-ganha, mas pura e simplesmente do ganha-perde. A disposição era de humilhar o governo de esquerda socialista, dar uma lição para todos os demais países com crises semelhantes (Italia, Espanha, Portugal e Irlanda).

A única saída honrosa de Tsipras foi convocar um referendo: consultar o povo sobre se diria um Não (OXI) ou um Sim (NAI). Qual a posição face à inflexibilidade férrea da austeridade que aparece totalmente irracional por levar uma nação ao colapso, exigindo uma cobrança da dúvida reconhecidamente impagável. O própro Governo propôs a consulta e sugeriu o Não. Os credores e os governos da França e da Alemanha fizeram ameaças, praticaram um verdadeiro terroismo nas palavras do ministro Varoufakis e falsificaram as informações como se o referundo fosse para ficar na zona do Euro ou sair, quando na verdade não se tratava nada disso. Apenas era de aceitar ou rejeitar o “diktat” das instituições financeiras européias. A Grécia quer ficar dentro da zona do Euroa.

A vitória de domingo dia 5 de julho foi espetacular para o Não: 61% contra 38% do Sim. Primeira lição: os poderosos não podem fazer o que bem entendem e os fracos não estão mais dispostos a aceitar as humilhações. Segunda lição: a derrota do Sim mostrou claramente o coração empedernido do capital bancário europeu. Terceiro, trouxe à luz a traição da Unidade Européia a seus próprios ideais que era a integração com solidariedade, com igualdade e com assistência social. Renderam-se à lógica perversa do capital financeiro.

A vitória do Não representa uma lição para toda a Europa: se ela quer continuar a ser súcuba das políticas imperiais norteamericanas ou se quer construir uma verdadeira unidade européia sobre os valores da democracia e dos direitos. O insuspeito semanário liberal Der Spiegel advertia que através da Sra. Merkel, arrogante e inflexível, a Alemanha poderia, já pela terceira vez, provocar uma tragédia européia. Os burocratas de Bruxelas perderam o sentido da história e qualquer referência ética e humanitária. Por vingança o Banco Central Europeu deixou de subministrar dinheiro para os bancos gregos continuarem a funcionar e os obrigou a fechar.

Uma lição para todos, também para nós: quando se trata de uma crise radical que implica os rumos futuros do país, deve-se voltar ao povo, portador da soberania política e confiar nele. A partir de agora os credores e as inflexíveis autoridades do zona do Euro terão pela frente não um governo que eles podem aterroizar e manpular, mas um povo unido que tem consciência de sua dignidade e que não se rede à avidez dos capitais. Como dizia um cartaz:”Se não morremos de amor, por que vamos morrer de fome”?

Na Grécia nasceu, pela primeira vez, a democracia mas de cunho elitista. Agora, nesta mesma Grécia, está nascendo uma democracia popular e direta. Ela será um complemento à democracia delegatícia. Isso vale também para nós no Brasil.

Um prognóstico, quiçá uma profecia: não estaria nascendo, a partir da Grécia, a era dos povos? Face às crises globais serão eles que irão às ruas, como entre nós e na Espanha e tentarão formular os parâmetros políticos e éticos do tipo de mundo que queremos para todos. Já não confiamos no que vem de cima. Seguramente o eixo estruturador não será a economia capitalista desmoronando, mas a vida: das pessoas, da natureza e da Terra. Isso realizaria o sonho do Papa Francisco em sua encíclica: a humanidade “cuidando da Casa Comum”.

Leonardo Boff é colunista do Jornal do Brasil on Line e ecoteólogo

El Papa Francisco: celoso cuidador de la Casa Común

Tiempo atrás escribimos que el Papa Francisco por causa del patrono que le inspiró el nombre – Francisco de Asís – tendría todo a su favor para ser el gran promotor de una propuesta ecológica mundial. Debía ser él, pues lamentablemente nos faltan líderes con autoridad y con palabras y gestos convincentes que despierten a la humanidad, especialmente a las élites dirigentes, ante las amenazas que afectan el destino común de la Tierra y de la Humanidad y a la responsabilidad colectiva y diferenciada de salvaguardarlo para todos.

Y este deseo se realizó plenamente con la publicación de la encíclica “Laudato si’: cuidar de la Casa Común”. Nos ofrece un texto de gran amplitud – la ecología integral – de rara belleza intelectual y espiritual, uniendo lo que era tan caro a san Francisco de Asís y también a Francisco de Roma: el comportamiento de cuidado con la hermana y madre Tierra y un amor preferencial a los condenados de la Tierra.

Esta conexión atraviesa todo el texto como un hilo conductor. No hay verdadera ecología, de ninguna expresión, sea ambiental, social, mental o integral, si no rescata a la humanidad humillada de los millones de empobrecidos de nuestra historia, aquellos en los cuales la Tierra como madre es más agredida y ofendida. El Papa Francisco aparece como celoso cuidador de la Casa Común. Se muestra extremadamente coherente con la marca registrada de la Iglesia de la liberación latinoamericana con su correspondiente teología que es la opción preferencial por los pobres, contra la pobreza y a favor de la justicia social y de su liberación. Lo opuesto a la pobreza no es la riqueza, es la injusticia de proporciones estructurales y mundiales. La forma más adecuada para enfrentar esta antirrealidad es la ecología integral que articula “tanto el grito de la Tierra como el grito del pobre” (n.49).

La ecología es más que un mero administrar los bienes y servicios escasos de la naturaleza. Representa un nuevo estilo de vivir, un arte nuevo de habitar diferentemente la Casa Común de tal forma que todos puedan caber en ella. No solamente los humanos, lo que configuraría el antropocentrismo duramente criticado por la encíclica (nn.115-121), sino todos los seres vivos e inertes, especialmente la gran comunidad de vida que sufre dura erosión de la biodiversidad por causa del predominio de la tecnocracia. Este es otro nombre para identificar al principal causante de la crisis ecológica globalizada: la furia productivista y consumista, digamos nosotros con una palabra que el Papa no usa, del capitalismo salvaje que busca acumular de forma ilimitada a costa de la devastación de la naturaleza, del empobrecimiento de las personas y del riesgo de una mega catástrofe ecológicosocial. Este sistema impone a todos un comportamiento, como enfatiza el Papa, que “parece “suicida” (n. 55).

Esta vinculación entre el Gran Pobre (la Tierra) y los pobres, como lo vieron muy pronto los teólogos de la liberación, se justifica porque vivimos tiempos de extrema urgencia: la huella ecológica de la Tierra ha sido ya sobrepasada en más del 30%. La Tierra necesita de un año y medio para reponer lo que nosotros con nuestro consumo le sustraemos durante un año.

Este dato nos plantea la cuestión de nuestra supervivencia colectiva. Tenemos que cambiar si queremos evitar el abismo. Por eso la pregunta central que la encíclica plantea es: ¿cómo debemos relacionarnos con la naturaleza y con la Madre Tierra? La respuesta es con el cuidado, la fraternidad universal, el respeto a cada ser pues posee valor intrínseco y con la aceptación de la interrelación de todos con todos.

En este particular, Francisco de Roma fue a buscar inspiración en un ejemplo vivo y no teórico, en Francisco de Asís. Explícitamente dice: ”creo que Francisco es el ejemplo por excelencia del cuidado por todo lo que es débil y de una ecología integral vivida con alegría y autenticidad” (n.10).

Todos los biógrafos de su tiempo (Celano, San Buenaventura, citados por la encíclica) dan testimonio de “el tiernísimo afecto que nutría hacia todas las criaturas”; “les daba el dulce nombre de hermanos y hermanas de quienes adivinaba los secretos, como quien goza ya de la libertad y de la gloria de los hijos de Dios”. Liberaba pajaritos de las jaulas, cuidaba de cada animalito herido y llegaba a pedir a los jardineros que dejasen un rinconcito libre sin cultivar para que allí pudiesen crecer las malas hierbas, pues todas “ellas también anuncian al hermosísimo Padre de todos los seres”.

El Papa advierte que esto no es “romanticismo irracional, porque tiene consecuencias en las opciones que determinan nuestro comportamiento” (n.11). Si no usamos el lenguaje del encantamiento, de la fraternidad y de la belleza en relación con el mundo, ”nuestras actitudes serán las del dominador, del consumidor o del mero explotador de recursos, incapaz de poner un límite a sus intereses inmediatos” (n. 11).

Aquí se transparenta otro modo-de-estar en el mundo, diferente del de la modernidad tecnocrática. En esta, el ser humano está sobre las cosas como quien las posee y domina. El modo-de-estar de Francisco es situarse junto con ellas para convivir como hermanos y hermanas en casa. Él intuyó místicamente lo que hoy sabemos por la ciencia: que todos somos portadores del mismo código genético de base; por eso nos une un lazo de consanguinidad, haciéndonos parientes, primos y hermanos y hermanas a unos de otros; de aquí la importancia de respetarnos y de amarnos mutuamente y jamás usar violencia entre nosotros y contra los demás seres, nuestros hermanos y hermanas. Este modo de ser podrá abrirnos un camino de superación de la crisis ecológica global.

Leonardo Boff, columnista del JB online y ecoteólogo

Traducción de Mª José Gavito Milano

Que mudanças o Papa pode introduzir na Igreja?

Há poucas semanas dei uma entrevista por e-maisl à jornalista Aline Rodrigues Imécio  da  Revista Epoca. Por razões alheias a ela, a revista não foi publicada. Como são muitos que me fazem perguntas semelhantes aquelas que ela me fez, publico-a aqui. Talvez possa interessar a alguns já que o Papa está nestas semanas intencionsalmente peregrinando pelos países mais pobres da América Latina: o Equador, a Bolívia e o Paraguai.

1-) A partir da posse do Papa Francisco assistimos a algumas mudanças no comportamento tradicional de um Papa. Francisco escolheu dormir em um aposento simples na Casa de Santa Marta, utiliza um crucifixo de latão, recusou o carro oficial do Vaticano dentre outros privilégios. O senhor considera que o Papa Francisco pode ser capaz de mudar a imagem da Igreja católica ou pelo menos a imagem que temos do Papa tradicional?

R/ Cabe lembrar que o Papa vem de fora, não vem da velha cristandade européia, agônica e sem futuro pela frente. O modelo de Igreja européia é ter um Papa como uma espécie de faraó ou imperador romano,  com todos os hábitos, paramentos e títulos que herdou dos imperadores romanos, desde  a “mozzeta” (capinha sobre os ombros), símbolo do absoluto poder imperial até a vida nos palácios e os hábitos que os palácios impõem. O bispo de Roma, assim que ele gosta de se chamar que é o título mais antigo, despaganziou a figura do Papado. Não vive no palácio mas numa casa de hóspedes, Santa Marta. Renunciou a todos os símbolos do poder. A famosa “mozzeta” ele a  deu de presente ao secretário para que a levasse para sua casa. Isso decepcionou os europeus em geral e irritou os conservadores, como se o Papa tivesse perdido a dignidade do cargo. O que orienta o Papa é a Tradição de Jesus que é anterior aos evangelhos (estes começaram  ser  escritos 40 anos após execução de Cristo na cruz, chegando até os anos 90 com o evangelho de São João). A Tradição de Jesus que se encontra nas entrelinhas dos quatro evangelhos é o Jesus histórico que suscitou uma grande esperança no povo, pregando o Reino de Deus (crime de lesa majestade porque o único Reino é o de César em Roma), contando estórias cheias de lições, priviligiando os pobres e os considerados pecadores públicos, libertando as pessoas dos formalismos para torná-las livres e disponíveis para o amor incondicional e a inclusão de todos com uma abertura total a Deus, chamado de “Paizinho”(Abba). Pois esses são os parâmetros que regem a conduta do Papa. Ele certamente inaugurará uma nova dinastia de Papas que virão do Terceiro Mundo, onde vivem quase 80% dos cristãos. O Cristianismo hoje é uma religião do Terceiro Mundo, embora sua origem foi do Primeiro Mundo. Essa Igreja do Terceiro Mundo era considerada periférica, mas é a única que demonstra vitalidade, cresce e apresenta-se como uma força moral e política na definição dos destinos da humanidade.

2-) Outra característica bastante presente em Francisco, e que se mostrou ausente em Bento XVI, é a questão do carisma com o público. Ratzinger, por ter um comportamento mais tradicionalista- embora tenha surpreendido com sua renúncia- e fechado não se mostrou um Papa muito próximo aos fiéis, enquanto Francisco faz esforços para que a todo momento esteja perto dos católicos e tentando compreender o que eles esperam da doutrina católica, prova disso foi a proximidade com os brasileiros na última Jornada Mundial, no Rio de Janeiro.  Diante disso, minha pergunta é: o senhor acredita que o fato deste Papa ser mais midiático, estar mais perto do povo, pode fazer com que o catolicismo ganhe mais adeptos ao longo do tempo?

R/ O Papa Francisco deixou claro que não quer saber de proselitismo. Ele quer conquistar as pessoas pela sedução da beleza, da compaixão e do amor sem distinções que se derivam da mensagem de Jesus. Seu primeiro escrito leva esse título:”A alegria do Evangelho”. Em razão disso faz duras críticas à visão doutrinária e dogmática da Igreja que apenas afasta os fiéis e esconde o que há de melhor na prática de Jeus e de sua mensagem: uma mensagem de alegria para todo o povo, como diz o evangelista Lucas.  Evangelho em grego significa “boa notícia”. Para muitos o evangelho e a Igreja se tornaram um pesadelo, tudo menos uma alegria. Ele quer recuperar esse dado originário. Como Cardeal em Buenos Aires já vivia o que mostra hoje: habitava  num pequeno apartamento e não no palácio, fazia sua comida, renunciou ao carro oficial, andava de ônibus ou de metrô e subia as favelas sozinho para se entreter com o povo, entrando nas casas e comendo o que lhe ofereciam. Era a simplicidade completa. Desde jovem, no Colégio Maior havia feito o voto de pobreza, no sentido de dar centralidade aos pobres e viver com os pobres. Por isso escolheu o nome de Francisco para remeter-se a São Francisco de Assis, o poverello e fratello, simples e irmão de todas as criaturas até do lobo de Gubbio.

3-) Existem algumas doutrinas da Igreja Católica que estão bastante ligadas às tradições e que são alvo de muitas críticas. A não aceitação da relação entre homossexuais, o divórcio e o celibato são algumas delas. Porém, o Papa Francisco, desde que assumiu seu pontificado, têm tocado nessas questões. Disse por exemplo, que o celibato pode mudar por não ser um dogma de fé, vem discutindo uma melhor integração dos divorciados na IgrejaCatólica e já disse que  os homossexuais não podem ser julgados ou marginalizados. O senhor acredita que, essas declarações podem sinalizar umtipo de mudança à essas visões mais tradicionalistas da Igreja Católica? Sesim, de que maneira ele poderia fazer isso?

R/  O Papa Francisco recupera na Igreja o bom senso, perdido em grande parte pelo doutrinalismo e tradicionalismo. Essa visão doutrinalesca comete verdadeiros escândalos como se fez na Afria quando o Vaticano exigia que os bispos proibissem a camisinha, em países onde a população está até diminuindo por causa da AIDS. Esta atitude coloca os princípios acima da vida, o que é um erro teológico e uma desumanidade. Este Papa coloca o ser humano no centro, com seus problemas, buscas, desvios e esperanças. A Igreja deve acompanhar a cada grupo. Nas suas palavras “nao deve ter um guarda de alfândega que deixa passar a uns e impede a outros”. A Igreja não deve ser um castelo fehado,mas “uma casa aberta para todos, que permite entrar  a todos, pouco importa seu estado moral ou doutrinal”. Mais ainda: “ela é como um hospital de campanha” que tenta salvar os feridos, pouco importa se não ateus, muçulmanos ou cristãos. Ele se apresenta como um homem plenamente humano, solidário com todos os demais humanos, para além de sua ideologia e religião. Se são humanos, logo são meus irmãos e irmãs, especicalmente, os pobres e os feitos invisíveis na sociedade. Isso pertence à Tradição de Jesus que é antes um modo de viver, mais uma espirtualidade que um conjunto de verdades, espiritualidade feita de valores humanitários de solidariedade, cuidado e amor. Essa é a grande revolução na Igreja e da igreja: deslocar o centro: da Igreja para o mundo e do mundo para os pobres. Isso custa muito aos cardeais e bispos que, vaidosos, se consideram ilegitimamente “príncipes da Igreja”. Estes resistem pois o poder é sempre tentador pelas vantagens pessoiais que confere. O Papa sabe bem distinguir o que é mera disciplina que pode mudar como o celibato, ou a relação com os homoafetivos dos quais disse que “eles trazem qualidades e virtudes que enriquecem a Igreja”. Quando e onde se ouviu isso antes? Está aberto a dar a comunhão aos divorciados porque eles são os que mais precisam e dar uma benção a sua união, pois o amor deles, conta diante de Deus. Como não deve contar para  a Igreja que prega que o nome verdadeiro de Deus é “amor”?

4-) Com as tendências à Reforma da Igreja, o Papa Francisco tem despertado antipatia de alguns membros da Cúria Romana, dizem que a pressãopode ser tamanha, que o ex-porta voz de Bergoglio na Argentina, Guilhermo Marcó, disse que não seria uma novidade que Francisco, assim como Bento XVI, renunciasse. O senhor acredita que às pressões da Cúria Romana a Francisco possam ser tamanhas ao ponto de ele sentir o desejo de renunciar?

R/ Essas pessoas não conhecem quem é Bergoglio ou o Papa Francisco. Ele é terno e fraterno como São Francisco de Assis para tcom todos especialmente com os mais discriminados. Mas é um jesuita. E como tal é um homem de exímia formação, de estratégia e de sabedoria no manejo do poder. Não sem razão mandou diretamente para a prisão o núncio apostólico em Santo Domingo quando se comprovou inequivocamente que era um pedófilo obstinado. Foi chamado a Roma e o Papa logo o encarcerrou. O mesmo fez com aquele alto funcionáro (arcebispo creio) do Banco Vaticano que veio da Suiça com um aviãozinho com cerca de 30 milhões de euros, dinheiro de lavagem dos mafiosos e de alguns cardeais. Do aeroporto foi direto para a prisão. Esse Papa não é de se intimidar. Sofre ameaças de morte, o que já lhe foi comunicado. Ele  sorridentemente respondeu: eu não pedi a Deus que me fizesse Papa. Então que Ele me proteja. E se me matarem, é sinal que Deus me chamou e vou contente para cair em seus braços de Pai amoroso. Aqui se nota a fé profunda, como total despojamento e a determinação deste Papa que conheceu o que foi a bárbara repressão dos militares argentinos.

5-) Dentre as reformas que Francisco pode fazer, o senhor acredita que ele possa dar mais espaço para as mulheres na cúpula da Igreja?

R/ Ele disse várias vezes: não é possível não dar mais espaço às mulheres. Elas são mais da metade da Igreja e têm direito de participar nas decisões sobre o caminho que a Igreja deve tomar. Aventa-se a idéia até de que possa fazer cardeiais a algumas mulheres notáveis por seu engajamento  na Igreja. Cardeal é um título e não precisa a ordenação sacerdotal prévia, como era o Cardeal Richilieu ou o Cardealo Mazarino na França que eram grandes políticos e leigos. E eu acrescentaria um argumento em favor das mulheres. Elas são mais da metade da humanidade e da Igreja. E são as mães e as irmãs da outra metade feita dos homens. Logo a importância delas é fundamental. Finalmente elas nunca trairam Jesus, enquanto os Apóstolos fugiram e Pedro o negou. Foram as primeiras testemunhas do fato maior da fé cristã que é a ressurreição de Jesus. Foram apóstolas dos apóstolos.

6-) No ano passado, o Papa Francisco manifestou interesse em ler o livro do senhor “Igreja: Carisma e Poder”, em que a discussão hierárquica da Igreja é discutida.  Que tipo de mudança o senhor acredita que isto possa representar?

R/ Aquilo que o Papa vem dizendo sobre a Igreja, seus equívocos, as críticas que faz aos conservadores, chamando-os de gente de “quarta-feira de cinzas” , gente “azeda como os vinagre”, tristes como se fossem ao próprio enterro, é muito mais grave do que eu escrevi no livro “Igreja: carisma e poder” em 1982 e ajuzado pela ex-Inquisição em 1984 em Roma. Eu tentei aplicar os princípios da Teologia da Libertação para as relações internas da Igreja. E ai me dei conta como ela, enquanato instituição, é absolutista, autoritária, não respeita os direitos humanos para defender sempre a “santidade da instiuição” (veja a ocultação dos pedófilos enquanto pode até ter que reconhecer que os haviam não somente entre padres, mas também entre bispos e até entre dois cardeais). Se ele tivesse dito naquele tempo seria condenadomuito mais que eu. Agora vivemos em tempos de verdade e de liberdade. Esse Papa ama a transparência, renunciou a excepcionalidade da Igreja como se somente ela é a portadora legítima da mensagem de Jesus. Em ecumenismo já definiu a linha: caminhemos juntos com nossas diferenças mas todos a serviço do povo e do mundo. Esse recíproco reconhecimento e a missão comum como serviço aos demais é o passo que faltava dar e ele, com bom senso apenas, deu.

7-) Por fim, o que  o senhor espera do Papa Francisco e da Igreja Católica para os próximos anos?

R/ Se não o liquidarem (cuidado com os mafiosos que foram na Calábria todos excomungados pelo Papa e eles são vingativos e se associam à gente da Cúria Romana) eu creio que virá uma grande retomada da significação ética, religiosa e política do Cristianismo  que é maior que a Igreja. Já lhe foi sugerido e eu o fiz por carta que convocasse uma Assembléia de todas as Igrejas cristãs para ver como podem enfrentar a globalização que é perversa para os pobres e ao mesmo tempo abre um espaço novo para o encontro dos povos e a possibilidade de entrarem em contacto com a mensgem cristã. Ele nos respondeu que quer fazer isso, mas somente depois de colocar a Igreja internamente em ordem, com a reforma da Cúria, quer dizer, com as instâncis de poder e de condução da Igreja. Isso não é faicl, pois os católicos são uma inteira China, um bilhão e duzentos milhões de fiéis. Como  coordenar essa imensa mole de fiéis? Somente com a decentralização, com um pequeno corpo de peritos em poder religioso que supervisionam as comunidades para manter um mínimo de unidade na diversidade. Para isso aIgreja deve se descodentalizar, se desclericalizar (fazer o celibato optativo), dar mais espaço às mulheres (quem sabe até o acesso ao sacerdócio como fizeram várias igrejas cristãs muito próxima como é a anglicana), se  despatriarcalizar no sentido de só homens terem acesso ao poder religioso e incluir mais os leigos e leigas não na simples participação, coisa que já fazem, mas nas decisões concretas sobre que caminhos tomar neste mundo globalizado. Depois disso viria um encontro com todas as religiões e caminhos espirituais para que juntos mantenham a chama sagrada que arde dentro de cada pessoa que as impulsiona para fazer o bem, amar a verdade e superar todas as divisões e exclusões. Isso seria a glória. E no fundo é isso que todos esperam dos cristãos e das pessoas religiosas e creio que corresponde ao que Jesus, no fundo, queria quando andou entre nós.

 

A encíclica Lodato si’ e os pobres da Terra nas palavras do monge Marcelo Barros

Marcelo Barros é um monge beneditino que fundou uma abadia em Goiás Velho, aberta a todos que quissesem vivenciar a espiritualidade, especialmente, gente do povo. Coordenou a Pastoral da Terra do Estado, trabalhou com indígenas e com a população negra, sendo ele mesmo afrodescendente assumido. Foi assesor de Dom Helder em questões ecumênicas. É também exímio teólogo e escritor. Tudo isso nos credita para publicar o texto que segue.

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“Nos Estados Unidos, congressistas republicanos e seus candidatos à presidência tinham feito pressão para que o Papa não a publicasse sua encíclica sobre a ecologia. Há alguns meses, grandes empresários e donos de mineradoras, espalhadas por todos os continentes, fizeram um retiro espiritual no Vaticano para mostrar ao Papa que as mineradoras são ecológicas e só extraem minérios da Terra. Não a destroem.

Mesmo alguns cardeais norte-americanos, mais ligados aos senhores do mundo do que aos pobres, expressaram seus receios. Tentaram impedir que, ao falar de Ecologia Ambiental, o papa pusesse o dedo na chaga e tocasse na Ecologia Social. No entanto, toda pressão, de dentro da própria Igreja e de fora, foi inútil. A encíclica saiu, poética e profética. Começa por retomar o Cântico das Criaturas de São Francisco para confirmar: “a nossa casa comum é como uma irmã, com a qual compartilhamos a existência e é como uma mãe que nos acolhe nos braços” (n. 1). A partir daí, formula o convite insistente a todos para renovar o diálogo sobre o modo como estamos construindo o futuro do planeta” (n. 14).

No método latino-americano do “ver, julgar, agir e celebrar”, o Papa tratou da Ecologia a partir da realidade social do mundo, da injustiça do sistema econômico excludente dos pobres e da cultura da indiferença que infesta a humanidade. Isso mostra que é importante ler a encíclica Lodato Si’ a partir da realidade do mundo dos pobres, da luta pela defesa da terra, vivida pelos lavradores sem terra e pelos índios, maiores vítimas da injustiça eco-social provocada pelsos que oprimem a Terra e a natureza.

O Brasil é um dos países onde as contradições entre um modelo de desenvolvimento predatório e a responsabilidade com a Terra, nossa casa comum, se manifestam de modo mais forte. Conforme dados divulgados pelo jornalista Washington Novaes, no Brasil, mais de 1,26 milhão de quilômetros quadrados de 1.440 municípios de oito Estados nordestinos e do norte de Minas Gerais já mostram algum nível de desertificação. O processo de degradação do solo é muito forte, juntamente com a perda da cobertura vegetal, da biodiversidade e da capacidade de produção da agropecuária.

Como mostra o Papa em sua encíclica, toda vez que a vulnerabilidade da Terra não é respeitada, os que mais sofrem são os pobres. Nas áreas brasileiras que estão em processo de desertificação, a presença de “pobres e indigentes é superior à proporção em outras regiões do país. Na verdade, Caatinga e Cerrado têm 85% dos pobres no País (Cf. Eco 21, abril de 2015).

Essa realidade afeta a segurança alimentar dos pobres da Terra e o abastecimento doméstico de água. No Ceará, pela falta d’água, pequenos agricultores perderam de 80% a 90% das safras de milho e feijão (Cf. Remabrasil, 6/5).

A leitura da encíclica do Papa Francisco deve nos fazer lembrar dos povos indígenas do Brasil, ameaçados em sua existência como os nossos ecossistemas mais preciosos. Atualmente, o Brasil tem 820 mil índios, uma pequena parcela da população brasileira, mas com a qual temos uma imensa dívida histórica, social e ecológica. E assim como a Terra e toda a natureza, em todas as regiões do Brasil, em um ano, os assassinatos de índios cometidos por madeireiros e grilheiros de terra teve o aumento de 42% (138 casos).

No mesmo período e pelo mesmo motivo, os suicídios de índios adolescentes e jovens atingiu 135 registros, um recorde em três décadas. É a partir dessa realidade que, nós, brasileiros, principalmente cristãos/ãs das diversas Igrejas, somos chamados a ler e interpretar a encíclica do bispo de Roma sobre a ecologia. Ele nos propõe aprofundar uma educação e espiritualidade ecológica (n. 202 ss), ou seja, nos formar para a aliança entre o ser humano e o ambiente (n. 209). Isso não se fará sem uma verdadeira “conversão ecológica” (n. 216).

Um documento dos missionários combonianos do Nordeste afirma: “Sabemos quanto o sistema capitalista, ecocida e suicida, herdou da cultura religiosa cristã. Por outro lado, temos a inspiração radicalmente evangélica de São Francisco e o testemunho vivo de muitos e muitas mártires que nos relançam em defesa da vida. Precisamos igualmente de um profundo e humilde processo de conversão e purificação. Uma nova escuta da Revelação, a partir do encontro fecundo entre a Palavra bíblica, o livro da criação e a sabedoria dos povos e das religiões”.

Ler a encíclica a partir dos empobrecidos e da realidade do nossos país nos convoca para o que o Papa chama de “Ecologia integral”. Agora, temos de tirar as consequências: a partir das bases, reelaborar uma maneira de viver e expressar a fé que seja libertadora, pluralista (isso é, aberta à colaboração com outras tradições espirituais) e holística, ou seja, baseada em uma justiça eco-social que una o cuidado com a libertação e com a vida dos oprimidos à comunhão efetiva e espiritual ao universo, sacramento de uma presença da qual somos testemunhas e colaboradores. Como diz o cântico de entrada da Missa de Pentecostes: “O Espírito de Deus, o universo todo encheu, tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor” ( do livro da Sabedoria 1, 7)”.

Leonardo Boff é colunista semanal do Jornal do Brasil on Line e ecoteólogo