POR DILMA: SOBRE VENCEDORES E VENCIDOS,UMA REFLEXÃO OPORTUNA E IMPORTUNA!

Ivone Gebara, é uma religiosa, cônega de Santo Agostinho, conhecida filósofa e teóloga da libertação que vive nos meios pobres e a partir daí elabora suas reflexões, especialmente sobre questões ligadas à mulher, à família e  desafios  sociais que afetam a vida dos marginalizados. Publicamos aqui uma reflexão singular sobre o impeachment imposto à  presidenta Dilma. E o faz com leveza e humor sem perder a profundide necessária, conferindo a este triste fato contra a  nossa jovem república um ar de espiritualidade que permite suportar os revezes da vida e convida a dar a volta por cima. O artigo foi publicado no dia 6 de setembro no IHU dos jesuitas de Novo Hamburgo: lboff

Assim começa o  artigo:

“Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ou vir
E se ela for de samba
Há de querer ficar”

Não chore presidenta Dilma porque tem muita gente no bom samba da dignidade que se recusa a calar sua voz, se recusa a parar de gingar, se recusa a parar de pensar, de escrever, de analisar o momento presente e de cantar, e cantar… Liberdade, liberdade, liberdade. A vida brasileira está confusa e atirar pedras ou lamentar o leite derramado não resolve a situação! Convencer os outros de que há uma única culpada de nossos atuais problemas é no mínimo assustador e incompreensível. O ser humano habituou-se a encontrar ‘bodes expiatórios’ que levam a culpa sem coletivizá-la e sem tornar a responsabilidade social e política uma responsabilidade comum assumida.

Não chore ainda não presidenta, não vale chorar porque os que se julgam vencedores e creem em sua vitória estão alegremente atribulados e acuados. Mas qual é mesmo essa vitória tão grande? Uma lei expressa em palavra inglesa, ‘impeachment’ pareceu mudar os rumos da vida de muitos e a sua? É ela que os tornou vitoriosos? É ela que nos tornou vencidos com você?

Depois de nosso orgulho de ter você como primeira presidenta, de saber de suas lutas e fraquezas como as de todas nós, com você estamos ouvindo novos impropérios sobre a incapacidade das mulheres de fazer política original e eficaz. Não nos deram muito tempo e nem muitos espaços…

Não chore presidenta… Tem muita gente sentindo a mesma raiva que você deve estar sentindo, mas reunindo forças de vida por que “tanto menino novo nasceu” nessa semana, tanto “jovem se apaixonou pela vida”, “tanto velho dançou nas praças”, “tantas andorinhas estão cantando”, tanta “flor nasceu no campo”,… Embora, o som do violão esteja fraco…

Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir
Olé, Olé, Olá…

Depois de uma noite de quase insônia na qual pedaços da fala da presidenta Dilmaexplicando e se defendendo em meio à fala acusatória de alguns senadores povoavam involuntariamente meus pensamentos, decidi levantar-me para não aumentar mais minha angústia. A música do Chico Buarque “Olé, Olé, Olá” estranhamente fazia um fundo musical insistente na minha tristeza. Passei do quarto para meu pequeno escritório e, não sei bem porque olhando minha estante de livros tomei em minhas mãos um velho livro sobre ‘a oração de Jesus’ escrito em 1973, pleno período de governo militar, pelo saudoso amigo Padre José Comblin. Folheei o livro e algumas palavras que faziam as vezes de pequenos subtítulos começaram a desfilar sob meus olhos…

Solidão, abandono, derrota, vencedores, vencidos, reconhecimento… Li um e outro parágrafo como se quisesse buscar neles a calma necessária para começar o dia. Sentia-me atravessada pelo dia e noite de julgamento de nossa presidenta e depois pelo dia doveredito final. Mal conseguia imaginar as noites que ela passou depois das perguntas ardilosas e armadilhas que os juízes senadores lhe estendiam. Parecia-me aviltante que ela tivesse que repetir várias vezes a mesma informação porque as excelências presentes só tinham em vista a pergunta que queriam lhe fazer em público. Mal ouviam o que ela dizia atentos aos seus celulares, às câmaras de televisão e a buscar um ou outro olhar de cumplicidade entre os seus pares. Sob o pretexto de julgar seus atos políticos se mostravam ao público como justos e justiceiros defendendo o pobre povo brasileiro contra a primeira mulher presidenta de nossa história!

Minha tribulação aumentou com essas lembranças e por isso resolvi escrever convencida que cantar, escrever, cozinhar ‘parecem com não morrer’ sobretudo diante da confusão do momento político e das trevas que sem querer invadem a alma.

Espontaneamente pensei que apenas fazer de novo críticas aos opositores de Dilma, à sua superficialidade democrática e humanista não aliviariam meu coração. Da mesma forma, cantar as glórias da presidenta não me parecia o melhor caminho. Provavelmente muitas amigas e amigos estariam fazendo as mesmas constatações e não tinha mais vontade de beber de novo da mesma massacrante situação vivida que parecia não me levar a nenhuma saída. Também fazer análises políticas a partir da conjuntura nacional e internacional não era o meu forte…

Lembrei-me então do que havia lido no livro de José Comblin e me voltou a ideia de que nem sempre os vitoriosos, os que têm o êxito imediato são de fato os construtores da história da dignidade humana. O êxito talvez gere a boa consciência do dever cumprido, da vitória aparente da legalidade, do bom resultado obtido pelo desempenho social, da vitória sobre os adversários… Entretanto, o êxito ou a vitória não levam à reflexão, a interiorização e análise de nossos comportamentos e sentimentos. Que insensatos /as somos! Inebriamo-nos facilmente com nossa própria imagem acreditando ser o centro do mundo. Esquecemos que a vitória de Pilatos, do Império Romano, dos doutores da lei e até do povo acusador na realidade foi o golpe mortal à liberdade. E por isso foi um golpe também contra os acusadores.

Condenar Jesus à crucifixão e à morte foi uma vitória daqueles a quem a integridade das ações de Jesus molestava no imediato. A História tem nos ensinado embora não tenhamos aprendido que não há uma relação lógica de coerência entre os atos humanos realizados e os resultados obtidos e, sobretudo os considerados vitoriosos ou exitosos. Provavelmente Hitler e seus aliados mais próximos sentiram-se vitoriosos quando as câmaras de gás e os fornos crematórios conseguiram eliminar milhares de seres humanos…

Estupenda vitória! Limpeza étnica realizada! Missão cumprida! Também os ditadores sanguinários da América Latina vibraram de alegria quando torturaram e mataram milhares dos chamados ‘inimigos da pátria’… Afinal conseguiram o que esperavam, ou seja, eliminar os ‘vermes’ que buscavam a liberdade do povo. E quantas guerras vitoriosas foram glorificadas apenas porque as armas que mataram vidas significaram o sucesso das empresas produtoras de artefatos bélicos? A história humana é de fato eivada de uma mistura imensa de sentimentos, palavras, ações salvíficas e cruéis que levam à vida e à morte num movimento sem fim.

Quase sempre pensamos que a vitória é o resultado do sucesso provisório de nossa ideologia, de nossa empresa, de nossa competência ou de nosso sonho por mais extravagante que seja ele. Mas a história também acaba por desmentir a vitoria dos vencedores… Só que não a história imediata cheia de conflitos passionais, tecida de mentiras vestidas de verdade, de encobrimentos e acusações mútuas, de golpes de luva de pelica sob a qual se escondem alfinetes envenenados. Também não a história oficial dos Impérios que se sucedem e escrevem suas vitórias ensinadas e aprendidas nas escolas. Mas a história que desmente as grandes vitórias das guerras de uns contra os outros é a pequena história dos pequenos amores e das pequenas ações de justiça e solidariedade que sustentam a dignidade da vida. Essas pequenas histórias irrompem cada dia de diferentes maneiras…

Num campo de concentração um decide dar a vida no lugar de outro, a outra dá a sua porção de alimento à colega grávida, a lavadeira entrega seu salário para comprar o remédio para a filha da vizinha, um homem ajuda um marginal que matou seu filho, mulheres denunciam a violência infantil…

Estas e outras tantas pequenas histórias são as narrativas muitas vezes desconhecidas das pequenas vitórias da vida. Histórias ocultas, de personagens desconhecidos e insignificantes mantêm a chama da dignidade humana!

Para além das polarizações da história imediata na qual cada indivíduo espera convencer o outro ou atirá-lo num covil de leões famintos, para além do reducionismo da realidade limitada e perspectivista que apenas meus olhos são capazes de ver, há um tênue fio de contradição que se instaura em todas as posições. É ele que nos fará pensar e buscar a de novo a liberdade… É ele que convidará as novas gerações a analisar os fatos passados e perceber que é esse fio obscuro e incômodo, talvez enredado a muitos outros o portador da novidade que nos fará reviver com dignidade.

É a contradição e o paradoxo de nossos atos que nos convida ao pensamento e a novas ações. É ele que revela a fragilidade de nossos pensamentos e de nossos atos e nos remete à limitada condição humana. É a suspeita em relação as nossas próprias verdades e interpretações, aos poderes que utilizamos aos abusos que deles fazemos que conduzem a História para frente. São esses incômodos no pensamento e nas emoções, na consciência e no coração que emergem sem querer e que persistem apesar dos pesares… São eles que desmentem a vitória dos vencedores imediatos e a tragédia vivida pelos vencidos que não são apenas os “outros” partidos, mas o povo vivendo em condições sub-humanas. São eles que restauram de novo a história da dignidade humana e nos fazem esperar de novo apesar dos medos que nos acompanham sempre.

No presente, os vencidos parecem cabisbaixos mesmo quando gritam sua dor e decepção nas praças públicas. Sentem-se feridos e abandonados até por quem antes parecia estar de seu lado…

Os vencidos são deixados aos seus próprios problemas e os que eram próximos deles até negam conhecê-los, os que antes os aconselhavam para serem ‘ganhadores’ desviam-se de seus caminhos, orgulhosos de serem também indiretamente vitoriosos, pois afirmam que seus sábios conselhos não foram seguidos. Facilmente, em meio à derrota, desenvolvem outras vitórias, alinham-se aos moralmente corretos, fazem teoria ‘clara e distinta’, explicam as razões dos vencidos, querem ser bons e justos sem perder a aura de sua moralidade. Escondem-se usando mil e um pretextos e não aderem mais à causa que os movia e os fazia brilhar no provisório palco da história. Hipócritas! Sepulcros caiados!

Os vencidos parecem desamparados… Nem suas velhas esperanças os sustentam visto que os vencedores parecem ter se apropriado delas… Apropriaram-se de seus feitos, de sua linguagem, de suas vestes, de seus amigos e de suas leis. Desnudaram os vencidos de suas crenças, roubaram a ‘bandeira nacional’ de todos e fizeram dela a veste de alguns privilegiados sedentos de glória e poder.

Porém, os vencidos por incrível que pareça não são apenas os que perderam uma partida de futebol, ou perderam as eleições, ou um trabalho, ou um lugar ao sol… Somos todos nós como humanidade buscando o sentido de sua vida embora só saibamos considerar a nossa individualidade.

Em tudo isso, ainda resta a contradição, o paradoxo, aquela experiência que nos mostra que no fundo todos nós somos menores que nossas vitórias e bem maiores que nossas derrotas. Todos nós somos de alguma maneira, vencidos e vencedores. Todos nós temos que recomeçar nossa busca comum de dignidade para além dos fracassos experimentados. Nosso futuro se chama hoje…

Por isso, querida presidenta Dilma, “não chore ainda não”, não choremos porque temos razões para não chorar… Olé, Olé, Olá…

Uma santa que não acreditava em Deus

Tudo é político mas o político não é tudo. Há outras dimensões na vida que merecem a nossa atenção e que nos levam a refletir sobre a condição humana, mesmo de pessoas  que consideramos santas.Quero me referir  à noite escura que a recém canonizada Madre Teresa de Calcultá viveu e sofreu desde 1948 até a sua morte em 1997. Temos os testemunhos recolhidos pelo postulador de sua causa, o canadense Brian Kolodiejchuk num livro Come Be My Light (Venha, seja a minha luz).

Como é notório, Madre Teresa vivia em Calcutá recolhendo moribundos das ruas para que morressem humanamente dentro de uma casa e cercados de pessoas. Fazia-o com extremo carinho e completa abnegação. Tudo indicava que o fazia a partir de uma profunda experiência de Deus.

Qual não é a nossa surpresa, quando viemos saber de seu profundo desamparo interior, verdadeira noite sem estrelas e sem esperança de um sol nascente. Essa paixão dolorosa durou por quase 50 anos até a sua morte. Já em agosto de 1959 escrevia a um de seus diretores espirituais:”Em minha própria alma sinto uma dor terrível. Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que Ele verdadeiramente não existe”.

Numa outra ocasião escreveu:”Há tanta contradição em minha alma: um profundo anelo de Deus, tão profundo que me faz mal; um sofrimento contínuo e com ele o sentimento de não ser querida por Deus, rejeitada, vazia, sem fé, sem amor, sem cuidado; o céu não significa nada para mim, parece-me um lugar vazio”.

Sabemos que muitos místicos testemuham esta experiência de obscuridade. Constatamo-lo em São João da Cruz, em Santa Teresa D’Avila, em Santa Teresa de Lisieux, entre outros. Esta última, tão meiga e expressão da mística das coisas cotidianas, escreveu em seu Diário de uma Alma:” Não creio na vida eterna; parece-me que depois desta vida mortal, não existe nada: tudo desapareceu para mim, não me resta senão o amor”.

Conhecida é a noite escura de São João da Cruz, tão bem expressa em seu poema “La noche oscura”. Ele distingue duas noites escuras: uma, a noite dos sentidos pela qual a alma vive sem consolos espirituais e numa severa secura interior. A outra é a noite do espírito “oscura y terrible” na qual a alma já não consegue crer em Deus, chega a duvidar de sua existência e se sente condenada ao inferno.

Especialmente a modernidade, centrada em si mesma e perdida dentro imenso aparato tecnológico que criou, vive também esta ausência de Deus que Nietzsche qualificou como “a morte de Deus”. Não que Deus tenha morrido, porque então ele não seria Deus. Mas é o fato de que nós o matamos, vale dizer: ele não é mais um centro de referência e de sentido. Vivemos errantes, sós e sem esperança.

Dietrich Bonhöffer, teólogo mártir do nazismo, captou esta experiência, aconselhando-nos a viver “como se Deus não existisse” (etsi Deus non daretur). Mas vivendo no amor, no serviço aos demais e no cultivo da solidariedade e do cuidado essencial. Pois esses são os valores sob os quais Deus se esconde. Quem os vive, mesmo sem o saber, está em Deus.

Suspeitamos que Jesus conheceu esta noite terrível. No Jardim das Oliveiras sentiu-se tão só e angustiado que chegou a suar sangue, expressão suprema do pavor. No alto da cruz, grita ao céu:”Pai, por que me abandonaste?” Não obstante essa ausência de Deus, se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Despojou-se de tudo. A resposta veio na forma da ressurreição como a plenitude da vida.

A noite escura de Madre Teresa a ponto de dizer:”Deus verdadeiramente não existe” nos deixa uma interrogação teológica. Ela descompõe todas as nossas representações de Deus. “Deus ninguém jamais viu”atestam as Escrituras. Portanto, não há como descrevê-lo. E quando o tentamos é apenas  o “nosso saber não sabendo, toda ciência transcendendo” no dizer de São João da Cruz. Crer em Deus não é aderir a uma doutrina ou dogma. Crer é uma atitude e um modo de ser no mundo com os outros, no amor, na solidariedade e no perdão; é aderir à uma esperança que é “a convicção das realidades que não se veem”(Hebreus 11,1), porque o invisível é parte do visível. Crer é a coragem de amar o invisível pois ele esconde o sentido secreto e último de todas as coisas. Crer é uma aposta no dizer de Pascal que conheceu também a sua noite escura, uma aposta que a vida vale mais que os bens materiais, que a luz tem mais direito que as trevas e que ao sentido cabe a última página da vida e da história.

Simone Weil, a judia que, na última guerra, se converteu ao cristianismo mas não se deixou batizar em solidariedade a seus irmãos condenados às câmaras de gás, nos dá uma pista de compreensão sobre onde encontrar Deus mesmo no meio da mais absoluta escuridão como aquela de Madre Teresa e de tantos homens e mulheres espirituais que vem um tormento interior: “Se quiseres saber se alguém crê de Deus, não repare como fala de Deus mas como fala do mundo”, se fala na forma da solidariedade, do amor e da compaixão. Deus não pode ser encontrado fora destes valores. Quem os vive está na direção dele e junto dele mesmo que o negue .

Madre Teresa de Calcutá, em sua noite escura, mas cheia de amor aos moribundos, estava em comunhão com o Deus abscôndito. Agora que já se transfigurou viverá em plena luz e saboreará a presença de Deus face a face na mais profunda intimidade e na comunhão sem fim.

Leonardo Boff é teólogo e articulista do JB on line

En que se narra la condena de una gobernanta digna e inocente por una banda de corruptos de la mente y de las finanzas

Escribiendo en estilo de los auctores medievales: “En de que se narra que una gobernanta digna e inocente es condenada por una banda de corruptos de la mente y de las finanzas”: Había una vez una nación grande por su extensión y por su pueblo alegre y, sin embargo, injustamente tratado. Mayoritariamente sufría la miseria en las grandes periferias de las ciudades y en el interior profundo. Durante siglos había sido gobernado por la pequeña élite del dinero que nunca se interesó por el destino del pueblo pobre. Al decir de un historiador mulato, el pueblo fue socialmente «capado y recapado, sangrado y resangrado».

Pero lentamente esos pobres se fueron organizando en movimientos de todo tipo, acumulando poder social y alimentando un sueño de otro Brasil. Consiguieron transformar el poder social en poder político. Ayudaron a fundar el Partido de los Trabajadores. Uno de sus miembros, superviviente de la gran tribulación y tornero mecánico, llegó a ser presidente. A pesar de las presiones y concesiones que sufrió por parte de los adinerados nacionales y transnacionales, consiguió abrir una brecha significativa en el sistema de dominación que le permitió hacer políticas sociales humanizadoras. Una parte de la población equivalente a Argentina entera salió de la miseria y del hambre. Miles de personas consiguieron su casita, con luz y energía. Negros y pobres tuvieron acceso, imposible antes, a la enseñanza técnica y superior. Pero sobre todo, sintieron recuperada su dignidad, siempre negada. Se vieron parte de la sociedad. Hasta podían comprar a plazos un utilitario o ir en avión a ver a sus parientes distantes. Esto irritó a la clase media, pues veía sus espacios ocupados. De ahí nació discriminación y odio contra ellos.

Y sucedió que el año 13 del gobierno Lula-Dilma Brasil ganó respetabilidad mundial. Pero la crisis de la economía y de las finanzas, por ser sistémica, nos alcanzó, provocando dificultades económicas y desempleo que obligó al gobierno a tomar fuertes medidas. La corrupción endémica en el país se densificó en Petrobras, implicando a altos estratos del PT, pero también de los principales partidos políticos. Un juez parcial, con rasgos de justiciero, enfocó prácticamente solo al PT. Especialmente los medios de comunicación conservadores consiguieron crear el estereotipo del PT como sinónimo de corrupción. Lo cual no es verdad, pues confunde la pequeña parcela con el todo correcto. Pero la corrupción condenable sirvió de pretexto a las élites adineradas, sus aliados históricos, para tramar un golpe parlamentario, ya que mediante las elecciones jamás triunfarían. Temiendo que ese curso vuelto hacia los más pobres se consolidase, decidieron liquidarlo. El método usado antes con Vargas y Jango, fue retomado ahora con el mismo pretexto «de combatir la corrupción», en realidad para ocultar su propia corrupción. Los golpistas usaron el Parlamento el 60% del cual está bajo acusación de delitos e irrespetaron a los 54 millones de votantes que eligieron a Dilma Rousseff.

Es importante dejar claro que detrás de este golpe parlamentario se anidan los intereses mezquinos y antisociales de los dueños del poder, mancomunados con la prensa que deforma los hechos y se hizo siempre socia de todos los golpes, juntamente con los partidos conservadores, con parte del Ministerio Público y de la Policía Militar (que sustituye a los tanques) y una parcela de la Corte Suprema que, indignamente, no guarda imparcialidad. El golpe no es sólo contra la gobernanta, sino contra la democracia de carácter participativo y social. Se trata de volver al neoliberalismo más descarado, atribuyendo casi todo al mercado que es siempre competitivo y nada cooperativo (por eso es conflictivo y anti-social). Para eso decidió demoler las políticas sociales, privatizar la sanidad, la educación y el petróleo y atacar las conquistas sociales de los trabajadores.

Contra la Presidenta no se identificó ningún crimen. De errores administrativos tolerables, hechos también por los gobiernos anteriores, se derivó la irresponsabilidad gubernamental contra la cual se aplicó un impeachment. Por un pequeño accidente de bicicleta, se condena a la Presidenta a muerte, castigo totalmente desproporcionado. De los 81 senadores que van a juzgarla más de 40 están imputados o investigados por otros delitos. La obligan a sentarse en al banco de los reos, donde deberían estar los que la condenan. Entre ellos se encuentran 5 ex-ministros.

La corrupción no es sólo monetaria. La peor es la corrupción de las mentes y los corazones, llenos de odio. Los senadores pro impeachment tienen la mente corrompida, pues saben que están condenando a una inocente. Pero la ceguera y los intereses corporativos prevalecen sobre los intereses de todo un pueblo.

Aquí es apropiada la dura sentencia del Apóstol Pablo: ellos aprisionan la verdad con la injusticia. Es lo que atrae la ira de Dios (Romanos 1,18). Los golpistas llevarán en la cabeza durante toda su vida la señal de Caín que asesinó a su hermano Abel. Ellos asesinaron la democracia. Su memoria será maldita por el crimen que cometieron. Y la ira divina pesará sobre ellos.

Leonardo Boff es teólogo, filosofo y miembro de la Iniciativa de la Carta de la Tierra

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Golpe de 1964 e golpe de 2016: a mesma natureza de classe

Entre o golpe de 1964 e o golpe de 2016 há uma conaturalidade estrutural. Ambos são golpe de classe, dos donos do dinheiro e do poder: o primeiro usa os militares, o outro o parlamento. Os meios são diferentes mas o resultado é o mesmo: um golpe com a ruptura democrática e violação da sobernia popular.

Vejamos o golpe de 1964. René Armand Dreifuss em sua monumental tese na Universidade de Glasglow: “1964: a conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe” (Vozes 1981), um livro de 814 páginas das quais 326 são de documentos originais, deixou claro: “o que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar”(p.397).
O assalto ao poder de Estado foi tramado pelo general Golbery de Couto e Silva utilizando-se de quatro instituições que difundiam a ideia do golpe: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), o Grupo de Levantamento de Conjuntura (GLC) e a Escola Superior de Guerra (ESG). O objetivo manifesto era: “readequar e reformular o Estado” para que fosse funcional aos interesses do capital nacional e transnacional. Eis o caráter de classe do golpe.

O assalto ao Estado se deu em 1964 e severamente em 1968 com repressão, tortura e assassinatos. O regime de Segurança Nacional passou a ser o Regime de Segurança do Capital.

Para o golpe de 2016 temos uma minuciosa investigação do sociólogo e ex-presidente do IPEA Jessé Souza “A radiografia do golpe” (Leya 2016). Semelhante ao golpe de 1964, Jessé desvela os mecanismos que permitiram a elite do dinheiro a ser a “mandante” do golpe, realizado em seu nome pelo parlamento. Portanto, trata-se de um golpe de classe e parlamentar.

Jessé enfatiza além disso “que todos os golpes, inclusive o atual, são uma fraude bem perpetrada dos donos do dinheiro, que são os reais ‘donos do poder”. Quem compõe essa elite? “A elite do dinheiro é antes de tudo a elite financeira, que comanda os grandes bancos e fundos de invetimento e que lidera outras fracções de endinheirados como a do agronegócio, da indústria (FIESP) e do comércio, secundada pelos meios de divulgação que distorcem e fraudam sistematicamente a realidade social como se fosse “terra arrasada e país falido” (é exagero), escondendo os intersses corporativos por trás da fraude golpista.

O motor de todo o processo, reafirma Jessé, é a voracidade da elite do dinheiro de se apropriar da riqueza coletiva sem peias, secundada por  outros sócios como a mídia ultra-conservadora, o complexo jurídico-policial do Estado e parcela do STF (pense-se em Gilmar Mendes).

O processo de impeachment foi parar no Senado. Este promoveu a destituição da Presidente Dilma por crime de responsabilidade fiscal. Os principais juristas e economistas, além de notáveis testemunhas nas oitivas e os relatórios oficiais de várias instituições, negaram rotundamente a existência de irresponsabilidade. A maioria dos senadores nem se deu ao respeito de ouvir as oitivas de especialistas altamente qualificdos pois já haviam tomado previamente a decisão de depôr a presidenta.

O áudio vazado entre Romero Jucá, ministro do planejamento e o ex-diretor das Transpetro Sergio Machado, revela a tramóia: “botar o Michel, num grande acordo nacional com o Supremo e com tudo; aí pára tudo…e estanca a sangria da Lava Jato.” Um dos motivos do golpe, entre outros, era também livrar do braço da justiça os 49 senadores, sobre 81, indiciados ou metidos em corrupção. Desta forma, com execeção dos valorosos defensores de Dilma, esse tipo de políticos, sem moral, decidiram depor uma mulher honesta e inocente.

Condenar sem crime é golpe. Golpe de classe e parlamentar. Golpe signfica violar a constituição e trair a soberania popular por força da qual Dilma Rousseff se elegeu com 54 milhões de votos.

Ontem em 1964 e hoje em 2016, seja por via militar seja por via parlamentar, funciona a mesma lógica: as elites economico-financeiras e a casta política conservadora praticam a rapinagem de grande parte da renda nacional (Jessé aponta 71.440 pessoas, apenas 0,05% da população) contra a vida e o bem-estar da maioria do povo, submetido à pobreza. Boa parte do Congresso é cúmplice deste golpe. Nele majoritariamente vigora a mesma intencionalidade estrutural de garantir o status quo que favorece seus privilégios e seus ganhos.

O projeto do PMDB “Uma ponte para o futuro” de um deslavado neoliberalismo de enrubecer, revela o propósito do golpe: reduzir o Estado, arrochar salarios, liquidar com a política de valorização do salário, cortar gastos com os programas sociais, privatizar empresas estatais, especialmente o Pré-Sal, desvincular despesas obrigatórias da saúde e da educação, reduzir ao mínimo tudo o que tem a ver com a cultura, direitos humanos, mulheres e minorias. O ministério é constituído por brancos e em grande parte acusados de corrupção. Não há mulheres nem negros e representantes das minorias.

Temos a ver com um espantoso retrocesso politico-social, agravando a desigualdade, nossa perversa chaga social, e esvaziando as conquistas sociais de treze anos dos governos Lula-Dilma,

Há resistência e oposição multitudinária nas ruas, de fortes grupos sociais e de intelectuais que não aceitam um presidente conspirador e sem credibilidade. A ação violenta da polícia aponta para traços claros de um Estado terrorista, que através da polícia militar, pode vir a substituir o exército na repressão e controle das manifestações públicas e pacíficas.

A solução seria eleições gerais e mediante a soberania popular se escolheria um novo presidente que de fato representasse o país.

Leonardo Boff é filósofo, ex-professor de ética da UERJ.