Weltweites Chaos: das Gespenst der totalen Herrschaft

„Weltweites Chaos: das Gespenst der totalen Herrschaft“ lautet der Titel des jüngsten Buches von Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2016), unserem angesehensten Analysten für internationale Politik. Der Autor, der in Deutschland lebt, hatte Zugang zu den sichersten Informationsquellen, zu zahlreichen Archiven, denen er sein weit reichendes Wissen über die Geschichte hinzufügt. Das Buch zählt 643 dicht beschriebene Seiten, die mit Flüssigkeit und Eleganz geschrieben sind, sodass es sich an vielen Stellen liest wie ein historischer Roman.

Vor allem aber ist Moniz Bandeira ein akribisch genauer Forscher und gleichzeitig ein Kämpfer gegen den Imperialismus der USA, deren Eingeweide er mit einem chirurgischen Skalpell auseinander nimmt. Nicht ohne Grund sperrte man ihn von 1969 – 1970 ins Gefängnis und auch nochmals 1973 durch den Furcht erregenden Nachrichtendienst der Marine (Centro de Informaciones de la Marina, Cenimar), weil er sich im Kontext des Kalten Krieges kritisch gegenüber dem hauptsächlichen Unterstützer der brasilianischen Diktatur, den USA, geäußert hatte.

Das ihm zur Verfügung stehende Material erlaubt es ihm, die gegenwärtige imperialistische Logik im Untertitel seines Buches anzuprangern: „Stellvertreterkriege, Terror, Chaos und humanitäre Katastrophen“. Diejenigen, die immer noch voll Bewunderung für die nordamerikanische Demokratie sind und sich an ihren imperialistischen Plänen auszurichten suchen (wie die brasilianischen Neoliberalen), finden hier reichhaltiges Material für eine kritische Betrachtung und für ein differenzierteres Verständnis der Welt.

Zwei Themen leiten die Machtzentralen der USA mit ihren zahllosen Organen innerer und äußerer Sicherheit: „eine Welt und nur ein Reich“ oder „nur ein Plan“ und „eine Vision totaler Herrschaft (das ganze Spektrum von Dominanz/Überlegenheit)“. D. h. die US-amerikanische Außenpolitik ist inspiriert vom (illusorischen) „Exzeptionalismus“ der alten „offenkundigen Bestimmung“, eine Variation des „auserwählten Volkes Gottes, der überlegenen Rasse“, die gerufen ist, weltweit Demokratie, Freiheit und Rechte (jeweils gemäß der imperialistischen Interpretation dieser Begriffe) zu verbreiten und sich selbst (anmaßenderweise) als „die unentbehrliche und notwendige Nation“ anzusehen, als „Anker der globalen Sicherheit“ oder „die einzige Macht“.

Bereits im 18. Jahrhundert hatten Edmund Burke (1729-1797) und im 19. Jahrhundert der Franzose Alexis de Tocqueville (1805-1859) die Vorahnung, dass der US-amerikanische Präsident mehr Macht haben würde als ein absolutistischer Monarch und dass dies zu einer militärischen Demokratie (S. 55) degenerieren würde. Tatsächlich wurde mit George W. Bush als Ergebnis des Angriffs auf die „Twin Towers“ eine wahre militärische Demokratie errichtet mit dem Ausrufen des Kriegs gegen den Terror und des Patriot Act, der grundlegende Bürgerrechte außer Kraft setzte, das Habeas Corpus unterminierte und Folter erlaubte. Dies ist gewiss ein terroristischer Zustand

Mehrere US-amerikanische Wissenschaftler, zitiert von Moniz Bandeira (S. 470), bestätigten: „Dies ist keine Demokratie mehr, sondern eine Beherrschung durch die Wirtschaftselite, der sich der Präsident unterwerfen muss. Entscheidungen werden durch den militärisch-industriellen Komplex (der Kriegsmaschinerie) getroffen, durch Wall Street (Financiers), durch machtvolle Business Organisationen und eine kleine Zahl von sehr einflussreichen Nordamerikanern. Um die „Vision totaler Herrschaft“ zu gewährleisten, werden 800 Militärbasen weltweit aufrechterhalten, deren Mehrzahl mit nuklearem Equipment ausgestattet ist, und 16 Sicherheitsbehörden mit 107 035 zivilen und militärischen Kräften. Wie Henry Kissinger sagte: „Die Mission der USA besteht darin, Demokratie zu propagieren, notfalls mithilfe von Gewalt“ (S. 443). Unter dieser Logik gab es von 1776 bis 2015, d. h. in den 239 Jahren der Existenz der USA, 218 Kriegsjahre und lediglich 21 Jahre Frieden (S. 472).

Es bestand die Hoffnung, dass Barack Obama dieser gewalttätigen Geschichte eine neue Richtung verleihen würde. Dies war eine Illusion. Obama änderte lediglich die Namen, doch hielt den Geist des Exzeptionalismus aufrecht sowie die Folterungen in Guantanamo und an anderen Orten außerhalb der USA, wie zu Zeiten von Präsident Bush. Dem Ewigen Krieg gab er den Namen Operation Übersee-Kontingent. Durch die (sträflicherweise) persönliche Entscheidung autorisierte er hunderte von Dronen-Angriffen durch unbemannte Flugzeuge, um die wichtigsten arabischen Oberhäupter zu töten (S. 476).

Mit einiger Enttäuschung sagte Bill Clinton: „Die Vereinigten Staaten haben seit 1945 keinen einzigen Krieg gewonnen“ (S. 312). In der Stille der Nacht flohen sie aus dem Irak (S. 508).

Das Buch von Moniz Bandeira behandelt mit minimalen Details die Kriege in der Ukraine, der Krim und den Islamischen Staat von Syrien und benennt die Namen der Hauptakteure und Daten.

Die Konklusion ist erschütternd: „Wo auch immer die USA mit dem speziellen Ziel, Demokratie zu bringen, intervenieren, beinhaltet dieses spezielle Ziel Bombardierungen, Zerstörung, Terror, Massaker, Chaos und humanitäre Katastrophen … Sie kommen, um ihre eigenen Bedürfnisse zu verteidigen, ihre ökonomischen und geopolitischen Interessen; und ihre imperialistischen Interessen“ (S. 513).

Die Menge an dargestellten Informationen werden diesem Anspruch gerecht, auch nach Abstrich gewisser Einschränkungen, die immer einmal gemacht werden müssen.

Leonardo Boff Theologe und Philosoph  von der Erdcharta Kommission

übersetzt von Bettina Gold-Hartnack

 

 

 

 

 

 

Reflexão para o dia de finados: a passagem pela clínica de Deus

               A passagem pela clínica de Deus

                      Entrevista a João Vitor Santos
                             IHU n. 493 1/11/2016
A morte é um acabar de nascer. Como dizia José Marti: ‘morrer é fechar os olhos para ver melhor’, ver Deus e as realidades bem-aventuradas que desde sempre Ele nos preparou”. É assim que o teólogo Leonardo Boff apresenta seu entendimento sobre a morte.
“A vida se estrutura dentro de duas linhas: numa, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo até acabar de nascer. É o momento da morte.
Na outra, a vida começa a morrer, pois lentamente o capital vital vai se consumindo ao longo da vida até acabar de morrer”, explica. Nessa sua perspectiva, está incrustado o conceito de ressurreição. “No cruzamento das duas linhas se dá a passagem para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: a vida que chega, na morte, àplena realização de suas potencialidades”.
Assim, o teólogo se propõe a olhar a experiência do Cristo para ampliar o entendimento sobre a morte.
“Como todos os humanos, ele temeu a morte porque amava esta vida”, pontua. “Mas Jesus superou o momento da desesperança. Triunfou uma entrega serena ao Mistério sem nome”, completa, ao lembrar que a resposta à en- trega foi a ressurreição. O teólogo ainda recupera a história de São Francisco de Assis para falar da cosmologia da morte. Lembra que o frei não toma a morte como algo sinistro, “mas uma irmã que nos conduz aonosso destino derradeiro e benaventurado”. Para Francisco, “morrer é entrar também em comunhão com a Mãe Terra”. Foi, segundo Boff, por isso que ele pediu que o colocassem nu sobre a terra, num “arquetípico de uma profunda comunhão coma irmã e Mãe Terra”.
Na entrevista a seguir, concedida por e- -mail à IHU On-Line, Boff ainda lembra como a atual vida moderna, presa ao material, tende a entender a morte como perda, uma desgraça. O que, para ele, é uma pers- pectiva reducionista diante da potência de vida que há na humanidade. Por isso, pro- voca: “precisamos é acolher a morte como parte da vida. Não como uma desgraça, mas como a passagem alquímica para outro estágio do mistério da vida”.
Leonardo Boff é teólogo. Sobre o tema da morte, escreveu dois livros publicados pela Editora Vozes: Vida para além da morte (1973) e A ressurreição de Cristo – a nossa ressurreição na morte (1974), além de artigos para congressos de médicos e psicanalistas. Durante 22 anos, foi professor de Teologia Sistemática no Instituto Franciscano de Petrópolis e, posteriormente, professor de Ética e de Ecologia Filosófica na Universidade do Rio de Janeiro. Sua bi-bliografia é composta por cerca de 100 livros que tratam de temas ligados à teologia, à mística, espiritualidade, filosofia, ética e ecologia.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – A morte pode ser entendida como um fim da vida?
Leonardo Boff – Não considero a morte como o fim da vida. Morrer é um acabar de nascer. A vida vai para além da morte. Por isso meu livro sobre o tema não se intitu- la: “Vida depois da morte”, mas “Vida para além da morte”. A vida se estrutura dentro de duas linhas:
Numa, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo até acabar de nascer. É o momento da morte. Na outra, a vida começa a morrer,no momento mesmo em que nascemos, pois lentamente o capital vital vai se consumindo ao longo da vida até acabar de morrer.
No cruzamento das duas linhas se dá a passagem para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: a vida que chega, na morte, à plena realização de suas potencialidades, ao irromper para dentro de Deus. Mas não de qualquer jeito, pois somos imperfeitos e pecadores. Passaremos pela clínica de Deus na qual amadureceremos até chegar à nossa plenitude. É o juízo purificador. Outros chamam de purgatório.
Em todos os casos não vivemos para morrer, como diziam os existencialistas. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor.
IHU On-Line – Como podemos relacionar morte e juízo final? Em que medida esse temor ao juízo se transforma no medo da morte, limitando uma compreensão mais ampla?
Leonardo Boff – Para a pessoa que morre, o mundo se acabou. Deixou-o para trás. Começa outro tipo de mundo. Depois do tempo vem a eternidade. Mas entre um e outro há o juízo, não medido pelo tempo do relógio, sempre igual, mas pelo tempo existencial, próprio de cada pessoa. Por esse juízo nos é concedida a oportunidade de uma visão global de nossa vida, dentro da corrente da vida universal e de nosso lugar dentro do universo. E também dentro do plano de Deus.
Nessa cisão entre o tempo e a eternidade se cria a oportunidade de uma “de-cisão” derradeira, uma adesão ao projeto de Deus sobre nossa existência. Creio que será sempre positiva, tal é a intensidade da visão de amor e de atração da divina realidade.
A pessoa pode custar em desfazer-se de laços desordenados que não o alinhavam à lógica global do universo e de Deus. Mas o fará, pois fomos criados para sermos companheiros do infinito Amor. Morrer é voltar à casa a qual sempre pertencemos e que, depois de um penoso caminhar, purificados, chegaremos felizes a ela.
IHU On-Line – Como o conceito de morte pode nos evocar co- munhão? E como compreender o conceito de ressurreição a partir da morte?
Leonardo Boff – Morrer é penetrar no coração do universo, onde todas as coisas são um, quer dizer, onde todas as teias de relação, que constituem a realidade universal, encontram o seu nó de origem e de sustentação. É a possibilidade de comunhão de tudo com tudo e a iden- tificação de nosso lugar e de nossa importância para o todo e no todo. Nós mesmos nos tornamos cósmicos.
Esse é o conceito teológico de res-surreição. Não se trata da reanimação de um cadáver como o de Lázaro1 que, no final, acabou novamente morrendo. Trata-se da superação da morte e do ter que morrer.
Ressurreição comporta a realização de todas as potencialidades escondidas dentro de cada pessoa. Somos um projeto infinito, somos seres feitos de utopias e de sonhos. Agora eles podem vir à tona e conhecer uma ridente e plena concretização. Aí surge aquilo que São Paulo2 diz ao se referir, na Epístola aos Coríntios3, à ressurreição de Jesus: é irrupção do “novissimus Adam”, do ser novo, que recém acabou de nascer. Ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs. Conosco acontecerá o mesmo,

1 O entrevistado se refere ao texto de João 11, 38-57. (Nota da IHU On-Line)
2 Paulo de Tarso (3–66 d.C.): nascido em Tarso, na Cilícia, hoje Turquia, era origina- riamente chamado de Saulo. Entretanto, é mais conhecido como São Paulo, o Apóstolo. É considerado por muitos cristãos como o mais importante discípulo de Jesus e, depois de Jesus, a figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente. Paulo de Tarso é um apóstolo diferente dos demais. Primeiro porque, ao contrário dos outros, Paulo não conheceu Jesus pessoalmente. Antes de sua conversão, se dedicava à perseguição dos primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém. Em uma dessas missões, quando se dirigia a Damasco, teve uma visão de Jesus envolto numa grande luz e ficou cego. A visão foi recuperada após três dias por Ananias, que o batizou como cristão. A partir deste encon-tro, Paulo começou a pregar o Cristianismo. Ele era um homem culto, frequentou uma escola em Jerusalém, fez carreira no Templo (era fariseu), onde foi sacerdote. Era educado em duas culturas: a grega e a judaica. Paulo fez muito pela difusão do Cristianismo entre os gentios e é considerado uma das principais fontes da doutrina da Igreja. As suas Epístolas formam uma seção fundamental do Novo Tes- tamento. Afirma-se que ele foi quem verdadeiramente transformou o cristianismo numa nova religião, superando a anterior condição de seita do Judaísmo. A IHU On-Line 175, de 10-04-2006, dedicou sua capa ao tema Paulo de Tarso e a contemporaneidade, disponível em http://bit.ly/ihuon175, assim como a edi- ção 286, de 22-12-2008, Paulo de Tarso: a sua relevância atual, disponível em http:// bit.ly/1o5Sq3R. Também são dedicadas ao religioso a edição 32 dos Cadernos IHU em formação, Paulo de Tarso desafia a Igreja de hoje a um novo sentido de realidade, dis- ponível em http://bit.ly/ihuem32, e a edição 55 dos Cadernos Teologia Pública, São Paulo contra as mulheres? Afirmação e de- clínio da mulher cristã no século I, disponí- vel em http://bit.ly/ihuteo55. (Nota da IHU On-Line)

3 Primeira Carta aos Coríntios, 15, 1-57. (Nota da IHU On-Line)

cada um conforme a sua identidade que é singular e única. Mas todos res- suscitaremos, pois essa é a mensagem derradeira da ressurreição de Jesus. Não é apenas algo que ocorreu somente com ele. É o Messias que ressuscita. E segundo a tradição judaica ele não ressuscita sozinho mas com a sua comunidade. E a comunidade é a humana e também a cósmica.
IHU On-Line – O que a história do Cristo ensina e inspira a pensar sobre a morte?
Leonardo Boff – Jesus morreu
não porque todos morrem. Ele foi
sentenciado e condenado à morte.
A morte lhe foi imposta. A forma
como ele acolheu a morte nos é
inspiradora.
Como todos os humanos, ele temeu a morte porque
amava esta vida e seus amigos e
amigas com quem compartilhava
uma comunidade de destino. Mas
como diz a Epístola aos Hebreus,
“Jesus dirigiu preces e súplicas entre clamores e lágrimas àquele que
o podia salvar da morte” (5,8). O
texto continua dizendo “e foi atendido por sua piedade”. Exegetas 59 de renome como Bultmann4 e Har-nack5 afirmam que aqui havia um “não” (ouk): “e não foi atendido embora fosse Filho de Deus” (5, 8). Isso é coerente com a sequência do texto e com a história real de Jesus. Ele não foi libertado, ao contrário, sofreu a execução. A mesma angústia face à morte mostrou no jardim das Oliveiras:

4 Rudolf Karl Bultmann (1884-1976): foi um teólogo alemão. Em 1912 começou a tra- balhar como docente na área de Bíblia – Novo Testamento em Marburg; em 1916, tornou-se professor em Breslau; em 1920 foi para Gies- sen e, em 1921, transferiu-se para Marburg, onde criou um seminário seminal com Martin Heidegger, Friedrich Gogarten onde aplicavam as categorias de sua filosofia da existência à mensgem crista e à igreja. Lá viveu e trabalhou até o final de sua vida. Ocupou-se com muitos temas da teologia, filologia e arqueologia. Levantou questões importantes que dominaram a discussão te- ológica do século passado e são relevantes até hoje, como, por exemplo, o problema da de- mitologização. (Nota da IHU On-Line)

5 Adolf von Harnack (1851-1930): teólogo alemão, além de historiador do cristianismo. Suas duas obras mais conhecidas são o Lehr- buch der Dogmengeschichte (“Manual de his- tória do dogma”, em três volumes) e a série de palestras Das Wesen des Christentums (“A essência do cristianismo”), texto clássico da teologia liberal. Harnack recebeu diver- sas condecorações, entre outros, em 1902 a Ordem Pour le Mérite para as Ciências e as Artes, da qual foi chanceler de 1920 até a sua morte em 1930. (Nota da IHU On-Line)

“Pai, afasta de mim este cálice”. O texto diz que suou sangue. Médicos afirmam que condenados à morte, diante do pavor, suam sangue. Mas a maior expressão, de quase desespero, manifestou no alto da cruz, clamando em sua língua materna conservada na versão de São Marcos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste (Mc 15, 34)?6” E o texto termina de uma forma aterradora: “Dando um imenso grito, Jesus expirou” (Mc 15,37).
Superação da desesperança
Mas Jesus superou o momento da desesperança. Triunfou uma entrega serena ao Mistério sem nome, embora sempre o chamasse na linguagem da ternura infantil de Abba, “meu querido paizinho”: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. A resposta desta entrega confiante, para além de toda a tentação da desesperança, foi a sua ressurreição. O Pai o ressuscitou inaugurando uma nova humanidade, finalmente, redimida.
Qual a lição? Temeu a morte como todos a temem. Bebeu o cálice do temor e do pavor até ao fundo. Gritou ao céu. Mas, por fim, resignado e livre, acolheu o desígnio misterioso- do Pai, aceitando a morte. Bem diz no evangelho de João. “Ninguém me tira a vida, eu a dou por mim mesmo”.
Essa doação e entrega pode nos inspirar. A morte per- tence à vida e devemos integrá-la. Nós não sucumbimos à morte, mas nos transfiguramos através da morte, como foi o caso de Jesus. Em outras palavras: a palavra derradeira pronunciada por Deus sobre o nosso destino não é a morte, mas a vida em plenitude, a vida ressuscitada.
IHU On-Line – Como a experiência de São Francisco7 pode nos inspirar a pensar sobre a morte? Em que medida é possível afirmar que essa experiência atualiza a do próprio Cristo?

6 Sobre esse tema, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU possui diversos textos publicados disponíveis seu sítio. Destacamos, O grito de Jesus na cruz e o silêncio de Deus, artigo de Francine Bigaouette, Alexander Nava e Carlos Arthur Dreher, publicado em Cadernos de Teologia Pública, número 89, disponível em http://bit.ly/2dUWJBN. (Nota da IHU On-Line)

7 São Francisco de Assis (1181-1226): frade católico e leigo, fundador da “Ordem dos Frades Menores”, mais conhecidos como Franciscanos. Foi canonizado em 1228 pela Igreja Ca- tólica. Por seu apreço à natureza, é mundial- mente conhecido como o santo patrono dos animais e do meio ambiente. Sobre Francisco de Assis confira a edição 238 da IHU On-Li- ne, de 01-10-2007, intitulada Francisco. O santo, disponível para download em http:// bit.ly/1NLAtl7 e a entrevista com a medieva- lista italiana Chiara Frugoni, intitulada Uma outra face de São Francisco de Assis, na re- vista IHU On-Line número 469, de 03-08- 2015, disponível em http://bit.ly/2erAzUq. (Nota da IHU On-Line)

Leonardo Boff – São Francisco viveu uma experiência singular da morte. Como se havia reconciliado com todas as coisas, chamando- as com o doce nome de irmãos e irmãs, o mesmo fez com a morte. Ela é irmã que nos leva para a Casa do Pai. Não é uma figura sinistra que nos vem arrebatar a vida. Mas uma irmã que nos conduz ao nosso destino derradeiro. Morrer é ir ao encontro do Pai, sem medo, pois Ele é pura bondade, misericórdia e amor. Morrer é cair em seus braços para o abraço infinito da paz e do amor.
Em São Francisco não há angústia como notamos em Jesus, pois seguramente tinha diante dos olhos o fato da ressurreição. Há acolhida e total entrega. Morrer é entrar também em comunhão com a Mãe Terra. Pediu que o desnudassem e o colocassem, nu, sobre a terra. Isso é arquetípico e de uma profunda comunhão coma irmã e Mãe Terra que ele cantou no “Cântico ao Irmão Sol”8. Somos Terra, dela viemos e para ela vamos, entregando o cor- po que ela nos deu.
8 Cântico das Criaturas (em italiano: Cantico delle creature; em latim: Laudes Creaturarum), também conhecido como Cântico do Irmão Sol, é uma canção religiosa cristã composta por Francisco de Assis. Escrita no dialeto úmbrio do italiano, acredita-se que esteja entre as primeiras obras escritas no idioma. Ao contrário de outras canções re- ligiosas da época, o Cântico das Criaturas é quase infantil na maneira em que louva Deus agradecendo-o por criações como o “Irmão Fogo” e a “Irmã Água”. A letra é uma afir- mação da teologia pessoal de Francisco de Assis. Ele frequentemente se referia aos ani- mais como irmãos e irmãs da Humanidade, rejeitava qualquer tipo de acúmulo material e confortos sensuais, em troca da “Senhora Pobreza”. Francisco teria composto a maior parte do cântico no fim de 1224, enquanto se recuperava de uma doença em San Da- miano, em uma pequena cabana construída para ele por Clara de Assis e outras mulheres pertencentes à sua ordem. De acordo com a tradição, ela teria sido cantada pela primeira vez por São Francisco e pelos irmãos Angelo e Leo, dois de seus companheiros originais, no leito de morte de Francisco, com o verso final que louva a “Irmã Morte” tendo sido acres- centado apenas alguns minutos anteriormen- te. (Nota da IHU On-Line)
Talvez, a única semelhança seja a total e serena entrega ao Pai, no supremo momento, como final- mente e depois de muita luta, o fez Jesus. Por isso que os franciscanos, guardando a tradição de São Fran- cisco, sempre que um frade falece, fazem festa na comunidade, com comes e bebes, pois celebram a entrada do confrade no Reino da Trindade.
IHU On-Line – No livro Vida para além da morte (Petrópolis: Vozes, 1973), apresenta uma perspectiva de que o purgatório pode se constituir na terra, em vida, a partir das dores e sofrimentos a que se é submetido. Gostaria que recuperasse essa ideia e refletis- se como essa perspectiva pode contribuir para dissociar a ideia de morte e dor.
Leonardo Boff – A categoria “purgatório” é tardia na reflexão teológica. Como Jacques Le Goff9 o mostrou, ela surgiu no mundo medieval no contexto das hierarquias da nobreza e das correspondents ofensas que podem ocorrer con- tra elas. Para cada ofensa, o seu merecido castigo. O purgatório foi incorporado à teologia, a partir de algumas referências de Santo Agos- tinho10, que insinuava o fato de que não se pode chegar a Deus imper- feitos. Temos que nos aperfeiçoar para sermos adequados ao mundo da absoluta perfeição divina na eternidade. O purgatório cumpriria essa função de purgação.
A tendência da moderna teologia ecumênica é dispensar o purgatório como construção teológica e não mais como doutrina oficial. A vida, vivida com virtudes, superando di- ficuldades e padecimentos, mas principalmente, vivendo amor e a compaixão fazem com que vamos nos purificando. A grande purifi- cação viria no momento do juízo quesedáentreofimdotempoe o começo da eternidade. No juízo nos damos conta de nossos benfei- tos e malfeitos, de qual foi o nosso projeto fundamental. Somos colo- cados diante de Deus-amor e bon- dade e de nossa missão no desígnio do Mistério dentro da história e do próprio universo. É o momento de fazermos um ato de amor e de total entrega a Deus. Alguns o farão com dificuldades, dada a sua adesão a um tipo de vida que não se alinhava ao propósito do Criador. Mas face a tanta bondade, amor e misericórdia do Deus-Trindade, nos rendemos em arrependimento e ação de graças. Sairemos purificados.
E então participaremos do mun- do para o qual fomos destinados desde toda a eternidade. Bem dis- se o Papa Francisco: para Deus não há condenação eterna. Há miseri- córdia. Seguramente se revelará a justiça no juízo. Mas passamos pelo juízo e, transfigurados, goza- remos e cantaremos, cantaremos e celebraremos, celebraremos e co- mungaremos a vida infinita, terna e eterna do Deus-comunhão-de- -divinas Pessoas.

9 Jacques Le Goff (1924): medievalista francês, formado em história e membro da Escola dos Annales. Presidente, de 1972 a 1977, da VI Seção da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), foi diretor de pesquisa no grupo de antropologia histórica do Ocidente medieval dessa mesma institui- ção. Entre outras altas distinções, Le Goff re- cebeu a medalha de ouro do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), pela primeira vez atribuída a um historiador. Boa parte de sua obra está ao alcance do leitor brasileiro, como por exemplo, Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente (Lisboa: Estampa, 1980); Mercadores e banqueiros da Idade Média (Lisboa: Gradiva, 1982); e A civiliza- ção no Ocidente Medieval (Lisboa: Estampa, 1984). Le Goff concedeu a entrevista Roma, alimento e paralisia da Idade Média à edi- ção 198 da revista IHU On-Line, de 02-10- 2006, disponível em http://bit.ly/ihuon198. Entre seus livros, destacamos O nascimento do purgatorio (Lisboa: Estampa, 1995) (Nota da IHU On-Line)

10 Santo Agostinho (Aurélio Agostinho, 354-430): bispo, escritor, teólogo, filósofo, foi uma das figuras mais importantes no desenvolvimento do cristianismo no Ocidente. Ele foi influenciado pelo neoplatonismo de Plo- tino e criou em diálogo com São Jerônimo, os conceitos de pecado original e guerra justa. (Nota da IHU On-Line)

IHU On-Line – Muitas pessoas que se anunciam católicos – e por vezes até professam sua fé no ca- tolicismo – acabam buscando refe- rência em outras religiões quando confrontadas pela experiência da morte. Como compreender esses movimentos? Em que medida isso revela os limites do catolicismo na construção que faz da morte?
Leonardo Boff – A teologia oficial que entrou nos catecismos é mais devedora da cosmovisão grega do que da leitura cristã da vida e da morte. Ainda se manejam os con- ceitos antropologicamente pobres de corpo e alma ao invés de captar o ser humano como o faz a visão originária e bíblica: o ser humano em suas várias situações existenciais. Um dos maiores reducionismos da encarnação da fé cristã na cultura greco- -latina foi praticamente o abandono da mensagem revolucionária da ressurreição. Ela ficou como uma espécie apologetic, de milagre para mostrar que Jesus era Deus, quando na verdade, mostrava a verdadeira leitu- ra cristã sobre o destino humano, chamado à transfiguração.
Em seu lugar entrou o tema fácil de origem platônica, da imortalidade da alma, entregando o corpo ao pó da terra. A ressurreição ficou algo para o fim do mundo. Como não sabemos quando ele acontecerá, o tema ressurreição perdeu relevância existencial.
Graças a Deus que a moderna teologia ecumênica resgatou a centralidade da ressurreição e permitiu uma nova leitu- ra do destino final do ser humano. Ressuscitaremos no fim do mundo, vale dizer, no momento em que para cada um o mundo acabou e se inicia a eternidade. Quer dizer, ressuscitaremos na morte. Vamos inteiros com toda nossa realidade, purificada pelo juízo, ao seio do Pai e Mãe de infinita bondade.
Entretanto, essa ressurreição não é completa. Nem a de Jesus é complete. Apenas o núcleo pessoal ressuscitou. Enquanto nossa Casa Comum, o inteiro universo também não participa da ressurreição, vivemos uma ressurreição ainda por completar. No final, tudo será transfigurado. Será como o corpo da Trindade.
IHU On-Line – Em que medida a morte, numa perspectiva escatológica11, pode suscitar uma reflexão sobre a esperança cristã?
Leonardo Boff – Se entendermos a escatologia não como algo que acontece no termo da história, mas como a presença antecipada dos bens do Reino, como o perdão, a graça e, especialmente, a ressurreição na morte, podemos nos encher de alegria e de desafogo existencial. Morrer é atender a um chamado de Deus. E vamos felizes ao encontro dele. Na passagem se dá a nossa transfiguração. Não morremos, nos transfiguramos. Nietzsche12 comentava
11 Escatologia (do grego antigo εσχατος, “último”, mais o sufixo -logia): parte da teo- logia e filosofia que trata dos últimos eventos na história do mundo ou do destino final do gênero humano, comumente denominado como fim do mundo. Em muitas religiões, o fim do mundo é um evento futuro profetiza- do no texto sagrado ou no folclore. De forma ampla, escatologia costuma relacionar-se com conceitos tais como Messias ou Era Mes- siânica, a pós-vida, e a alma. (Nota da IHU On-Line)

12 Friedrich Nietzsche (1844-1900): fi- lósofo alemão, conhecido por seus concei- tos além-do-homem, transvaloração dos valores, niilismo, vontade de poder e eterno retorno. Entre suas obras figuram como as mais importantes Assim falou Zaratustra (9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998), O anticristo (Lisboa: Guimarães, 1916) e A genealogia da moral (5. ed. São Paulo: Centauro, 2004). Escreveu até 1888, quando foi acometido por um colapso nervoso que nunca o abandonou até o dia de sua morte. A Nietzsche foi dedicado o tema de capa da edição número 127 da IHU On-Line, de 13-12-2004, intitulado Nietzsche: filósofo do martelo e do crepúsculo, disponível para do- wnload em http://bit.ly/Hl7xwP. A edição 15 dos Cadernos IHU em formação é intitu- lada O pensamento de Friedrich Nietzsche, e pode ser acessada em http://bit.ly/HdcqOB. Confira, também, a entrevista concedida por Ernildo Stein à edição 328 da revista IHU On-Line, de 10-05-2010, disponível em http://bit.ly/162F4rH, intitulada O biologis- mo radical de Nietzsche não pode ser mini- mizado, na qual discute ideias de sua confe- rência A crítica de Heidegger ao biologismo de Nietzsche e a questão da biopolítica, parte integrante do Ciclo de Estudos Filosofias da diferença – Pré-evento do XI Simpósio Inter- nacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana. Na edição 330 da revista IHU On-Line, de 24-05-2010, leia a entrevista Nietzsche, o pensamento trágico e a afirma- ção da totalidade da existência, concedida pelo Prof. Dr. Oswaldo Giacoia e disponível para download em http://bit.ly/nqUxGO. Na edição 388, de 09-04-2012, leia a entrevista O amor fati como resposta à tirania do sen- tido, com Danilo Bilate, disponível em http:// bit.ly/HzaJpJ. (Nota da IHU On-Line

que os cristãos andam tão tristes como se não tivesse havido redenção nem tivesse eclodido a ressurreição. Temos mil razões para vi- vermos felizes e serenos, mesmo dentro das maiores dificuldades, pois o fim é bom e significa a plenificação de todos os nossos sonhos e desejos, a irradiação total da vida.
IHU On-Line – Quais caminhos são necessários percorrer para dissociar a ideia de morte da ideia de perda – de alguém – e associar a ideia de integração com o todo da criação, quase que como uma perspectiva cosmológica de povos originais?
Leonardo Boff – O que precisamos é acolher a morte como parte da vida. Não como uma desgraça, mas como a companheira que nos conduz à Casa Paterna. Ela significa uma espécie de passagem alquímica para outro estágio do mistério da vida. Os mortos não são ausentes. São apenas invisíveis. E podem ser invocados e senti-los como compa nheiros em nossa caminhada.
É o conteúdo concreto do que está no Credo13: “creio na comunhão dos santos”. Isso não tem nada a ver com os santos e santas que estão nos altares. Mas tem a ver com todos e todas que estão em Deus, onde cremos que estarão nossos entes queridos. Ficamos tristes com a partida. Mas podemos ficar alegres com a chegada deles na suprema felicidade.

13 Credo também chamado de Símbolo é a profissão de fé cristã expressa no Símbolo Apostólico e no Símbolo Niceno-Constanti- nopolitano. (Nota da IHU On-Line)

IHU On-Line – Em que medida a lógica desses nossos tempos nos levam a falar da morte de uma maneira exterior a nós mesmos? Quais as implicações dessa perspectiva?
Leonardo Boff – Para os modernos, vítimas da cultura materialista e consumista do capital, a morte significa a maior desgraça. Pois para a maioria tudo acaba no pó cósmico. Então não vale a pena fazer qualquer sacrifício em função de uma vida que vai para além da morte. Tudo se realiza aqui. Esta visão é pequena e equivocada e não corresponde aos impulsos do coração, aos sonhos que nos habitam, de querer vida e mais vida, e a eternidade da vida.
Por isso existe nos países ricos como nos Estados Unidos todo um disfarce da morte, uma indústria de preparação dos cadáveres para que pareçam vivos e sejam colocados até de pé. Estimo que esta visão é pobre demais para se adequar com aquilo que de fato ocorre em nossa interioridade, em nossos anelos mais profundos. Ela é contra vida, pois a vida comporta a morte.O futuro é da vida que chama à vida e não da morte. Por isso de-vemos sempre defender a vida em sua dignidade, a partir daqueles condenados a ter menos vida. Estes serão os primeiros a herdar a vida no Reino da Trindade.■

Outras referências a textos de Leonardo Boff

—  Ecologia integral. A grande novidade da Laudato Si’. “Nem a ONU produziu um texto desta natureza’’. Entrevista especial com Leonardo Boff, publicada nas Notícias do Dia de 18-7- 2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eq6Hwb.

  • —  O amor e a misericórdia são categorias centrais da teologia e prática de Francisco. Entre- vista com Leonardo Boff, publica na revista IHU On-Line número 465, de 18-5-2015, dispo- nível em http://bit.ly/2eqOV9l.
  • —  Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada. Entrevista com Leonardo Boff, publicada em Notícias do Dia de 16-10-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eZz17B.
  • —  “Com Francisco, diálogo contínuo embora a distância”. Entrevista com Leonardo Boff, pu- blicada em Notícias do Dia de 17-9-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2dtYRAB.
  • —  Ser mais com menos: eis o futuro da humanidade. Entrevista com Leonardo Boff, publicada em Notícias do Dia de 24-6-2009, no sítio do Instituto Humanitas Unisnos – IHU, disponível em http://bit.ly/2e80cdZ.
  • —  Apoio ao Papa Francisco contra um escritor nostálgico. Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 07-1-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eTJoXy.
  • —  Realmente não existem verdades absolutas a não ser Deus. Artigo de Leonardo Boff, Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 28-7-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2f4xWcg.
  • —  Como reproduzimos a cultura do capital. Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 20-4-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http:// bit.ly/2eMbAhe.

 

La vita come imperativo cosmico

Attraverso i secoli gli scienziati hanno cercato di spiegare l’universo mediante leggi fisiche espresse in equazioni matematiche. L’universo era rappresentato come una macchina immensa che funziona sempre in modo stabile. La vita e la coscienza non avevano posto in questo paradigma. Erano tema delle religioni.

Ma tutto è cambiato quando dagli anni ’20 del secolo scorso, l’astronomo Hubble ha dimostrato che lo stato naturale dell’universo non è la stabilità, ma il cambiamento. L’universo ha cominciato ad espandersi dalla esplosione di un punto estremamente piccolo ma immensamente caldo e pieno di energia: il big bang. Da lì si formarono i quark e i leptoni, le particelle elementari che, una volta combinate, hanno dato origine ai protoni e ai neutroni, alla base degli atomi. E da loro, tutte le cose.

Espansione, auto-organizzazione, complessità e emergere di ordini sempre più sofisticati sono le caratteristiche dell’universo. E la vita?

Non sappiamo come appare la vita. Quello che possiamo dire è che la Terra e l’intero universo hanno lavorato miliardi e miliardi di anni per creare le condizioni per la nascita di questa bella creatura che è la vita. È fragile, perché può facilmente diventare malata e morire. Ma è anche forte, perché fino ad oggi nulla, né i vulcani, né i terremoti, né le meteore o le decimazioni di massa di epoche passate, sono stati in grado di estinguerla completamente.

Perché la vita potesse emergere era necessario che l’universo fosse stato dotato di tre qualità: ordine, proveniente del caos, complessità, originata da esseri semplici e informazioni, per le connessioni di tutti con tutti. Ma mancava ancora un dato: la creazione di mattoni con cui costruire la casa della vita. Questi mattoni sono stati forgiati nel cuore delle grande stelle rosse che ardevano da diversi miliardi di anni. Sono gli acidi e gli altri elementi chimici che permettono tutte le combinazioni e tutte le trasformazioni. Quindi non c’è vita senza la presenza di carbonio, idrogeno, ossigeno, azoto, ferro, fosforo ed i 92 elementi della scala periodica di Mendeleev.

Quando questi vari elementi si uniscono, formano quello che noi chiamiamo la molecola, la parte più piccola della materia vivente. L’unione con altre molecole crea gli organismi e gli organi che compongono gli essere viventi, dai batteri agli esseri umani.

È stato merito di Ilya Prigorine, premio Nobel per la Chimica del 1977, avere dimostrato che la vita risulta dalle dinamiche di auto-organizzazione intrinseche del proprio universo. Ha inoltre rivelato che c’è una fabbrica che produce continuamente la vita. Il motore centrale di questa fabbrica della vita è formato da un insieme di 20 aminoacidi e 4 basi azotate.

Gli aminoacidi sono un agglomerato di acidi combinati che permettono alla vita di nascere. Essi sono costituiti da quattro basi di azoto che agiscono come una sorta di quattro tipi di cemento che uniscono i mattoni formando case le più diverse. E’ la biodiversità.

Quindi abbiamo lo stesso codice genetico di base che istituisce l’unità sacra della vita, dai micro-organismi agli esseri umani. Siamo tutti, infatti, cugini e cugine, fratelli e sorelle, come dice il Papa nella sua enciclica sulla ecologia integrale (n.92), perché veniamo formati dagli stessi 20 aminoacidi e quattro basi azotate (adenina, timina, guanina e citosina).

Ma c’era bisogno di una culla che accogliesse la vita: l’atmosfera e la biosfera con tutti gli elementi essenziali per la vita: carbonio, ossigeno, metano, acido solforico, azoto e altro.

Date queste premesse, ecco che 3,8 miliardi di anni fa, è successo qualcosa di portentoso. Forse dal mare o da una palude primitiva in cui gorgogliavano tutti gli elementi come una specie di zuppa, improvvisamente, sotto l’azione di un grande fulmine dal cielo, irruppe la vita.

Misteriosamente lei è lì da 3,8 miliardi di anni: su questo piccolo pianeta Terra, in un sistema solare di quinta grandezza, in un angolo della nostra galassia, a 29.000 anni luce dal centro di essa, è capitato il fatto più singolare della evoluzione: l’irruzione della vita. Lei è la madre originale di tutti i viventi, la vera Eva. Da lei discendono tutti gli altri esseri viventi, anche noi umani, un sub-capitolo del capitolo della vita: la nostra vita cosciente.

Infine, oserei dire con il biologo, anche premio Nobel, Christian de Duve e con il cosmologo Brian Swimme, che l’universo sarebbe incompleto senza la vita. Ogni volta che si raggiunge un certo livello di complessità, la vita emerge come un imperativo cosmico, in qualsiasi parte dell’universo.

Dobbiamo superare l’idea comune che l’universo è solo una cosa fisica e morta con un pizzico di vita per completare il quadro. Si tratta di una conoscenza scarsa e falsa. L’universo sembra essere pieno di vita e per questo esiste, come la accogliente culla della vita, in particolare la nostra.

*Leonardo Boff ha scritto insieme a M. Hathaway Il Tao della Liberazione, premiato nel 2010 negli Stati Uniti con la medaglia d’oro della nuova scienza e della cosmologia.

Traduzione di S. Toppi e M. Gavito

El desorden mundial: el espectro de la dominación total

Es el último título de Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2016), nuestro más respetado analista de política internacional. El autor ha tenido acceso a las fuentes de información más seguras, a múltiples archivos, a lo que se une un vasto conocimiento histórico. Son 643 páginas densas, pero escritas con tal fluidez y elegancia que da la impresión de estar leyendo una novela histórica.

Moniz Bandeira es ante todo un minucioso investigador y, al mismo tiempo, un militante contra el imperialismo estadounidense, cuyas entrañas corta con un bisturí de cirujano. No sin razón fue preso entre 1969 y 1970 , y de nuevo en 1973, por el temible Centro de Informaciones de la Marina (Cenimar), por oponerse críticamente, en el contexto de la guerra-fría, al principal soporte de la dictadura: Estados Unidos.

Los materiales de que dispone le permiten denunciar la lógica imperial presente en el subtítulo: “guerras por procuración, terror, caos y catástrofes humanitarias”. Quien alimenta todavía admiración por la democracia norteamericana y procura alinearse con los designios imperiales (como hacen los neoliberales brasileros), encontrará aquí un vasto material para reflexión crítica y datos para una lectura del mundo más diferenciada.

Dos lemas orientan el centro de poder del estado norteamericano con sus innumerables órganos de seguridad interna y externa: “un mundo y un solo imperio” o “un solo proyecto y el espectro de la dominación total (full-spectrum dominance/superiority)”. Es decir, la política externa norteamericana se inspira en el (ilusorio) “excepcionalismo” del viejo “destino manifiesto”, una variante “del pueblo elegido por Dios, raza superior”, llamada a difundir en todo el mundo la democracia, la libertad y los derechos (siempre según la interpretación imperial que prestan a estos términos) y a considerarse (pretendidamente) “la nación indispensable y necesaria”, “ancla de la seguridad global” o el “único poder” (lonely power).

Ya en el siglo XVIII Edmund Burke (1729-1797) y en el siglo XIX el francés Alexis Tocqueville (1805-1859) presentían que el presidente norteamericano tenía más poderes que un monarca absolutista y que eso degeneraría en una military democracy (p. 55). Efectivamente, con George W. Bush a raíz de los atentados a las Torres Gemelas”, se instauró una verdadera democracia militar, con la declaración de la war on terror y la publicación del patriotic act que suspendió los derechos civiles básicos hasta el habeas corpus y dio permiso para las torturas. Esto, ciertamente, configura un estado terrorista.

Como varios científicos norteamericanos, citados por Moniz Bandeira (p. 470), afirmaron: “ya no hay una democracia sino una economic élite domination a la cual debe someterse el presidente. Las decisiones son tomadas por el complejo industrial-militar (la máquina de guerra), por Wall Street (las finanzas), por poderosas organizaciones de negocios y por un pequeño número de norteamericanos muy influyentes. Para garantizar el “espectro de la dominación total” mantienen 800 instalaciones militares en el mundo, la mayoría con ojivas nucleares y 16 agencias de seguridad con 107.035 agentes civiles y militares. Como afirmó H. Kissinger: “la misión de América es llevar la democracia, si es necesario mediante el uso de la fuerza” (p.443). En esta lógica, de 1776 a 2015, o sea, en los 239 años de existencia de los EUA, 218 han sido años de guerra y sólo 21 años de paz (p. 472).

Se esperaba que Barack Obama diese otro rumbo a esta historia violenta. Ilusiones. Cambió solo los nombres, pero mantuvo todo el espíritu excepcionalista y las torturas en Guantánamo y en otros lugares fuera de Estados Unidos como en tiempos de Bush. A la perpetual war le dio el nombre de Oversee Contingency Operation. Por decisión personal (penal), autorizó cientos de ataques con drones y con aviones no pilotados, matando a los principales líderes árabes (p. 476).

Con cierta decepción, Bill Clinton constató: “Los Estados Unidos no han vencido ninguna guerra desde 1945” (p. 312). De Irak huyeron en silencio en la oscuridad de la noche (p. 508).

El libro de Moniz Bandeira entra en detalles mínimos sobre la Guerra en Ucrania, en Crimea y en el Estado Islámico en Siria, con nombres de los actores principales y fechas.

La conclusión es avasalladora: “Dondequiera que intervienen Estados Unidos con el specific goal of bringing democracy, el objetivo específico de llevar la democracia, esta se compone de bombardeos, destrucción, terror, masacres, caos y catástrofes humanitarias… entran para defender sus necesidades e intereses económicos y geopolíticos, sus intereses imperiales” (p.513).

La cantidad de informaciones presentadas sustentan esta afirmación, no obstante las limitaciones que siempre podrán ser aducidas.