Em Mato Grosso o campo jorra sangue

Queremos mostrar nossa solidariedade aos familiares dos assassinados da Gleba Taquaruçu, Município de Colniza-MT no dia 20 de abril do corrente ano de 2017. Nos unimos às palavras dos bispos Dom Adriano Ciocca Vasino e de Dom Pedro Casaldáliga,denunciando a violência no campo e a impunidade reinante. Não deixamos de nos solidarizar também com os familiares do soldado francês morto em Paris. Todos somos iguais em dignidade e em humanidade e merecemos o mesmo reconhecimento por maiores que sejam as distâncias: Lboff

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A Prelazia de São Félix do Araguaia, em reunião com suas/seus agentes de pastoral, seu bispo dom Adriano Ciocca Vasino e o bispo emérito dom Pedro Casaldáliga, na cidade de São Félix do Araguaia – MT, manifesta sua dor, indignação e solidariedade com as famílias assassinadas na Gleba Taquaruçu, município de Colniza – MT, no dia 20 de abril.

Este massacre acontece num momento histórico de usurpação do poder político através de um golpe institucional, com avanços tão graves na perda de direitos fundamentais para o povo brasileiro que coloca o governo do atual presidente Temer numa posição de guerra contra os pobres, isso refletido de forma concreta nos projetos, como as Medidas Provisórias 215 e 759, que violam direitos dos povos do campo e comunidades tradicionais, como também no acirramento do cenário de violações contra as/os defensores de direitos humanos. Diversos políticos expõem abertamente seus discursos de ódio e incitação à violência contra as comunidades que lutam pelos seus direitos. Vivemos um clima de “Terra sem lei”, uma verdadeira guerra civil em nosso país.
Como consequência, o ano de 2016 foi o mais violento dos últimos 13 anos, apontando para uma perspectiva desoladora no campo. E esta situação de Colniza, onde assassinaram inclusive crianças, nos expõe diante dos objetivos de ruralistas que não temem nada para conseguir as terras que buscam.

As famílias de agricultores da Gleba Taquaruçu vêm sofrendo violência desde o ano de 2004. Neste período, em decisão judicial, a Cooperativa Agrícola Mista de Produção Roosevelt ganha reintegração de posse concedida pelo juiz de Direito da Comarca de Colniza, como anunciada na Nota da Comissão Pastoral da Terra, de 20 de abril deste ano. Em 2007, ao menos 10 trabalhadores foram vítimas de tortura e cárcere privado e, neste mesmo ano, três agricultores foram assassinados.

Como estão, neste momento, as famílias que vivem em Colniza? O município já foi considerado o mais violento do país. Sabemos que na região existem outros conflitos de extrema gravidade, como o da fazenda Magali, desde o ano 2000, e o conflito na Gleba Terra Roxa, desde o ano de 2004. A população teme que outros massacres possam acontecer.

Clamamos justiça e que os autores desses crimes sejam processados e punidos. A conseqüente impunidade no campo, fruto da omissão dos órgãos públicos, perpetua a violência.

Na semana em que lamentamos o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1997, que vitimou 19 lutadoras e lutadores do povo, somos surpreendidos por outro massacre no campo, que quer amedrontar, calar as vozes e submeter a dignidade do povo brasileiro.

Temos a certeza que o massacre ocorrido jamais roubará os sonhos e as esperanças do povo.  E jamais calará a voz das comunidades que lutam.

O sangue dos mártires será sempre semente de JUSTIÇA e VIDA!
São Félix do Araguaia, 21 de abril de 2017.
Obs: Segundo informe da CUT, entre os mortos estão idosos e crianças. Há ainda 20 desaparecidos.

22 de abril: Dia da Mãe Terra

No dia 22 de abril de 2009 realizou-se a 63ºAssembleia da Onu, cujo objeto de discussão era se convinha chamar a Terra de Mãe Terra. Caso fosse aprovada a ideia, o dia 22 de abril não seria mais simplesmente o Dia da Terra, como a patir de vários anos se havia introduzido, mas o Dia da Mãe Terra. O Presidente da Bolívia Evo Morales Ayma, em nome das nações indígenas, fez o  discurso mais de ordem política, provocando grande aplauso da platéia. A mim coube a tarefa de fazer a fundamentação filosófica-ecológica desta proposta. O discurso recebeu ampla acolhida de forma que, por unanimidade, se tomou a resolução de celebrar sempre o dia 22 de abril como o Dia da Mâe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si: como cuidar da Casa Comum assumiu esta expressão Mãe Terra. Publico aqui o discurso proferido nesta 63º Assembleia Geral da Onu de  22/04/2009 para reforçar esta compreensão verdadeiramente revolucionária, pois transforma nossa visão da Terra, como mãe e correspondenteemente os comportamentos face a ela. Eis o texto do discurso feito aos 192 representantes dos povos que compõem a Assembleia da ONU. É excusado dizer que os dados correspondem àquela data, pois hoje são outros com uma natueza muito mais grave.

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No de 2000 a Carta da Terra nos fazia esta severa advertência:: «Estamos num momento crítico da história da Terra, na qual a humanidade deve escolher o seu futuro…A escolha nossa é: ou formamos uma aliança global para cuidar da Teerra e cuidarnos uns dos outros ou arriscamos a nossa própria destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo).

Se a crise econômico-financeira é preocupante, a crise da insustentabilidade da Terra se apresenta ameaçadora. Os cientistas que acompanham o estado da Terra, especialmente a Global Foot Print Network têm falado do Earth Overshoot Day, do dia em que foram ultrapassados os limites da Terra. E isso ocorreu exatamente no dia 23 de setembro de de 2008, uma semana após o estouro da crise econômico-financeira nos EUA. A Terra ultrapassou em 40% sua capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. Neste momento necessitamos mais de uma Terra para atender a nossa subsistência.

Como garantir a sustentabilidade da Terra já que esta é a premissa para resolver as demais crises: a social, a alimentária, a energética e a climática? Agora já não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos devemos nos salvar juntos.

Como asseverou recentemente com muita propriedade o Secretário Geral desta Casa, Ban Ki-Moon: ”não podemos deixar que o urgente comprometa o essencial”. O urgente é resolver o caos econômico, mas o essencial é garantir a vitalidade e a integridade do planeta Terra. É decisivo superar a crise financeira, porém o imprescindível e essencial é: como vamos salvar a Casa Comum e a Humanidade que é parte dela? Esta é a razão para termos adotado a resolução sobre o Dia Internacional da Mãe Terra que, a partir de agora, se celebrará no dia 22 de abril de cada ano.

Dado o agravamento da situação ambiental, especialmente do aquecimento global, temos que atuar juntos e rápido. Não temos tempo a perder nem nos é permitido errar. Caso contrário, há o risco de que a Terra possa continuar mas sem nós.

Em nome da Terra, nossa Mãe, de seus filhos e filhas sofredores e dos demais membros da comunidade de vida, quero agradecer a esta 63º Assembleia Geral da ONU por haver sabiamente aprovado esta resolução.

Neste contexto, me permito fazer uma breve apresentação do fundamento que sustenta a ideia da Terra como nossa Mãe.

Desde da mais alta ancestralidade, as culturas e religiões sempre têm testemunhado a crença na Terra como Grande Mãe, Magna Mater, Inana e Pachamama.

Os povos originários de ontem e de hoje tinham e têm clara consciência de que a Terra é geradora de todos os viventes. Somente um ser vivo pode produzir vida em suas mais diferentes formas. A Terra é, pois, nossa Mãe universal.

Durante séculos e séculos prevaleceu esta visão até a emergência recente do espírito científico no século XVI. A partir de então, a Terra já não é mais considerada como Mãe, senão como uma realidade sem espírito, entregue ao ser humano para ser submetida, mesmo com violência. A mãe-natureza que devia ser respeitada se transformou em natureza-selvagem que deve ser dominada. A Terra se viu convertida num baú cheio de recursos naturais, disponíveis para a acumulação e o consumo humano.

Neste novo paradigma não se coloca a questão dos limites de suporte do sistema-Terra nem dos bens e serviços naturais não renováveis. Pressupunha-se que os recursos seriam infinitos e que poderíamos ir crescendo ilimitadamente na direção do futuro. O que efetivamente é uma grande ilusão.

A preocupação principal era e é: como ganhar mais no tempo mais rápido possível e com um investimento menor? A realização histórica deste propósito fez surgir um arquipélago de riqueza rodeado por um mar de miséria.

O PNUD de 2007-2008 o confirma: os 20% mais ricos do mundo absorvem 82,4% de todas as riquezas da Terra enquanto os 20% mais pobres têm que se contentar com apenas 1,6%. Estes dados provam que uma ínfima minoria monopoliza o consumo e controla os processos econômicos que implicam pilhagem da natureza e grande injustiça social.

Entretanto, a partir dos tardios anos 70 do século passado se tem imposto a constatação de que um planeta pequeno, velho e limitado como a Terra já não pode suportar um projeto ilimitado. Faz-se urgente outro modelo que tenha como eixo a Terra, a vida e o bem viver planetário no quadro de um espírito de colaboração, de responsabilidade coletiva e de cuidado.

Agora a preocupação central é: como viver e produzir em harmonia com a Terra, com os seres humanos, como o universo e com a Última Realidade, distribuindo equitativamente os benefícios entre todos e alimentando solidariedade para com as gerações presentes e futuras? Como viver mais com menos?

Foi neste contexto que se resgatou a visão da Terra como Mãe. Já não é mais a percepção dos antigos mas uma constatação empírica e científica. Foi mérito dos cientistas e sábios como Vladimir Vernadsky, James Lovelock, Lynn Margulis e José Lutzenberger nos anos 70 do século passado, ter demostrado que a Terra é um superorganismo vivo que se autoregula. Ela articula permanentemente o físico, o químico e o biológico de forma tão sutil e equilibrada que, sob a luz do sol, propicia a produção e a manutenção de todas as formas de vida. Por milhões de anos o nível do oxigênio, essencial para a vida, se mantem em 21%, o nitrogênio, decisivo para o crescimento, em 79% e o nível de sal dos oceanos em 3,4%. E assim todos os elementos necessários para a vida. Não é que sobre a Terra haja vida. A Terra mesma é viva, chamada de Gaia, a deusa grega para significar a Terra viva.

Que toda a Terra está cheia de vida no-lo comprova o conhecido biólogo Edward O. Wilson. Escreve ele: ”Num grama de terra ou seja, em menos de um punhado, vivem cerca de dez bilhões de bactérias pertencentes até a seis mil espécies diferentes”. Efetivamente, a Terra é Mãe fecunda.

A Terra existe já há 4, 4 bilhões de anos. Num momento avançado de sua evolução, de sua complexidade e de sua auto-organização, começou a sentir, a pensar e a amar. Foi quando emergiu o ser humano. Com razão nas línguas ocidentais homo/homem vem de húmus, terra fecunda. E em hebraico Adam se deriva de adamah, terra cultivável. Por isso, o ser humano é a própria Terra que anda, que sente, que pensa e que ama, como dizia o poeta indígena e cantador argentino Atahualpa Yupanqui.

A visão dos astronautas confirma a simbiose entre Terra e Humanidade. De suas naves espaciais testemunhavam de forma comovedora: ”daqui, contemplando este resplandecente planeta azul-branco, não se percebe nenhuma diferença entre Terra e Humanidade. Formam uma única entidade”. Mais que como povos, nações e etnias devemos nos entender como criaturas da Terra, como filho e filhas da Mãe comum.

Entretanto, olhando a Terra mais de perto, nos damos conta de que ela se encontra crucificada. Possui o rosto do terceiro e quarto mundo, porque vive sistematicamente agredida. Quase a metade de seus filhos e filhas padecem fome e sede e são condenados a morrer antes do tempo. A cada quatro segundos, consoante dados da própria ONU, morre uma pessoa estritamente de fome.

Por isso, são expressões de amor à Mãe Terra, as políticas sociais de muitos países, como por exemplo, de meu pais, o Brasil, sob o governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, particularmente o programa Fome Zero e Bolsa Família Em seis anos se devolveu vida e dignidade a 50 milhões de pessoas que antes viviam na pobreza e na fome.

Temos que baixar a Terra da cruz e ressuscitá-la. Para esta tarefa gigantesca somos inspirados por um documento precioso: a Carta da Terra. Nasceu da sociedade civil mundial. Em sua elaboração envolveu mais de cem mil pessoas de 46 países. Em 2003 uma resolução da UNESCO a apresentou “como um instrumento educativo e uma referência ética para o desenvolvimento sustentável”. Participaram ativamente de sua concepção Mikhail Gorbachev, Maurice Strong e Steven Rockfeller e eu mesmo entre otros. A Carta entende a Terra como dotada de vida e como nosso Lar Comum. Apresenta pautas concretas que podem salvá-la, cuidando-a com compreensão, com compaixão e com amor, como cabe a toda mãe. Oxalá, um dia, esta Carta da Terra, possa ser apresentada, discutida e enriquecida por esta Assembleia Geral. Caso seja aprovada, teríamos um documento oficial sobre a dignidade da Terra junto com a declaração sobre a dignidade da pessoa humana.

Mas cabe fazer uma advertência. Para sentir a Terra como Mãe não é suficiente a razão dominante que é funcional e instrumental. Necessitamos enriquecê-la com a razão sensível, emocional e cordial, pois ai se enraíza o sentimento profundo, se elaboram os valores, se cultivam o cuidado essencial, a compaixão e os sonhos que nos inspiram ações salvadoras. Nossa missão, no conjunto dos seres, é a de ser os guardiães e cuidadores desta sagrada herança que recebemos do universo: a Terra, nossa Mãe.

Para terminar permito-me fazer uma sugestão: que se coloque na cúpula interna da Assembleia uma destas imagens belíssimas e plásticas da Terra vista a partir de fora da Terra. Suspensa no transfundo negro do universo, ela evoca em nós sentimentos de reverência e de mútua pertença. Ao contemplá-la, tomamos consciência de que ai está o nosso Lar Comum.

Pediria ainda que fosse aprovada uma recomendação de que no dia 22 de abril, dia Internacional da Mãe Terra, se fizesse um momento de silêncio em todos os lugares públicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nos parlamentos para que nossos corações entrem em sintonia com o coração de nossa Mãe Terra.

Concluo. Tal como está, a Terra não pode continuar. É urgente que mudemos nossas mentes e nossos corações, nosso modo de produção e nosso padrão de consumo, caso quisermos ter um futuro de esperança. A solução para a Terra não cai do céu. Ela será o resultado de uma coalizão de forças em torno a uma consciência ecológica integral, uns valores éticos multiculturais, uns fins humanísticos e um novo sentido de ser. Só assim honraremos nossa Casa Comum, a Terra, nossa grande generosa Mãe.

Muito obrigado.

Prof. Dr.Dr.Leonardo Boff

Representante do Brasil na Assembleia da ONU  e  membro da Comissão da Carta da Terra.

Discurso proferido no dia 22 de Abril de 2009 na 63º Assembleia Geral da ONU.

 

 

A perda de capilaridade social e a desafeição dos católicos:Pedro Ribeiro de Oliveira

A perda de capilariddade social e a desafeição dos católicos. Desafios da Igreja no Brasil em tempos de Papa Francisco. Entrevista especial com Pedro Ribeiro de Oliveira

Pedro Ribeiro de Oliveira é um de nossos melhores sociólogos da religião, formado na conhecida escola de pensamento do eminente cientista social e sociólogo da religião da universidade de Louvain, na Bélgica. Este mestre formou dezenas de especialistas na área, vindos da Africa, da Ásia e da América Latina. Ele mesmo trabalhou por longos períodos nesses continentes. Vários cientistas sociais e sociólogos da religião brasileiros foram seus alunos. Pedro Ribeiro de Oliveira é leigo, engajando na articulação Fé e Política e um arguto analista da situação da Igreja e do cristianismo em geral no Brasil. E o faz como cabe a um cientista fazê-lo: com objetividade, serenidade e equilíbrio nos juízos. Não é sem razão que  Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) requisita com frequência sua assessoria. Publicamos este texto pois ajudará a muitos interessados no caminho da Igreja no Brasil sob o pontificado do bispo de Roma, o Papa Francisco a terem uma avaliação bem fundada e equilibrada. Publicamos a entrevista dada à e  Patricia Fachin em 21 Abril 2017 e publicada pela IHU-on line:Lboff

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 “Nos dois primeiros anos do pontificado de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo menos no Brasil) apenas fez de conta que estava em sintonia com ele, porque sua linha pastoral continuou a mesma de outros tempos”, diz o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira à IHU On-Line. Contudo, pontua, depois da publicação de três documentos pontifícios de “grande impacto”, “é cada vez mais clara a mudança de rumo que Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil”.

Um exemplo dessa modificação, segundo o sociólogo, pode ser visto “na posição política da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB desde a visita da presidência da CNBB ao Papa, em 2016: ela ganhou coragem e voltou a pronunciar-se sobre o momento político sem poupar críticas a Temer e seu governo, mostrando sua distância em relação à atitude dos dois cardeais que foram visitá-lo no palácio da Alvorada”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Pedro Ribeiro de Oliveira sugere uma “refundação” das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs para alavancar o projeto de uma Igreja em saída e comenta a atuação do laicato na instituição. “O problema do laicato é que nós somos e queremos ser Igreja, isto é, membros de pleno direito como são os ministros ordenados – bispos, presbíteros e diáconos –, mas esses parecem não levar a sério a definição da Igreja como Povo de Deus”, avalia. Para ele, “muitos leigos e leigas se submetem a uma Igreja clerical, desde que o clero abençoe seu estilo de vida (no caso dos ricos) ou os console em seu sofrimento (no caso dos pobres)” e, portanto, “movimentos de santificação pessoal convivem bem com o clericalismo, enquanto as CEBs e Pastorais sociais não se submetem a ele”.


Pedro Oliveira na Unisinos, em 2012 (Foto: Acervo IHU)

Pedro Ribeiro de Oliveira é doutor em Sociologia, professor aposentado dos PPGs em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas. É membro do ISER-Assessoria, da Equipe de Formação da Prelazia de São Félix do Araguaia e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por quais razões o senhor afirma que a Igreja perdeu a “capilaridade social” que teve à época da ditadura?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Para explicar a capilaridade social, uso a comparação com as raízes da árvore: elas penetram no solo, absorvem a umidade e a fazem chegar até o alto da copa. Nas raízes reside o segredo do vigor da planta: à medida que elas perdem a capilaridade, a árvore seca. A Igreja católica teve grande capilaridade social até meados do século passado, quando as associações piedosas – Apostolado da Oração, Congregação Mariana, Liga Católica, Vicentinos, Irmandades etc. – congregavam grande quantidade de fiéis. A modernização esvaziou aquelas associações, mas a Igreja recuperou a capilaridade social por meio das dezenas de milhares de Comunidades Eclesiais de Base – CEBs presentes nas zonas rurais e periferias urbanas. Dinamizadas pelas Pastorais Sociais – como a Pastoral da Terra, Operária, Indigenista, da Juventude e outras – elas penetravam o tecido social brasileiro e funcionavam como artérias de ligação entre as bases populares e os dirigentes eclesiásticos. Se uma liderança de CEB sofria ameaças por sua luta em defesa dos Direitos Humanos, logo essa informação chegava ao conhecimento da CNBB, que se mobilizava em sua defesa. No sentido inverso, quando a CNBB propunha uma campanha em favor dos pobres ou da ordem democrática, podia contar com a mobilização de toda a rede de comunidades espalhadas pelo País para pressionar o governo militar, o Congresso e a sociedade.

A perda dessa capilaridade social deveu-se à orientação imprimida à Igreja pelos pontificados de S. João Paulo II e de Bento XVI, no sentido de conter o avanço das reformas decorrentes do Concílio Vaticano II. Eles implementaram o projeto de restauração identitária, que fez a Igreja refluir para o campo propriamente religioso e perder muito da sua incidência nas lutas de transformação social.

IHU On-Line – Como o senhor caracteriza esse projeto de restauração identitária? Ele ainda se mantém na Igreja, direcionada pela CNBB, diante da atual conjuntura nacional?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Esse conceito refere-se a um conjunto de medidas que reforçam a centralidade romana em detrimento da presença diversificada no mundo. As medidas mais importantes foram: (i) nomeação de bispos alinhados a essa orientação centralizadora para as dioceses mais importantes, (ii) a adoção do Código de Direito Canônico, reformado pela Cúria, como norma pastoral para todas as dioceses, (iii) a adoção do Catecismo da Igreja como norma doutrinal, (iv) o retorno do modelo de seminário exclusivo para a formação do clero, (v) normas litúrgicas para coibir inovações posteriores ao Concílio e (vi) apoio a Movimentos Religiosos de santificação pessoal.

Essas medidas são verdadeiramente estratégicas, porque configuram uma instituição eclesiástica monolítica: centralizada no Papa e nos padres (paróquias), retira a autonomia do bispo (tanto na sua diocese quanto nas Conferências episcopais) e privilegia leigas e leigos interessados apenas em sua salvação. É certo que a renúncia de Bento XVI tirou a força do projeto de restauração identitária, mas aquelas medidas enrijeceram de tal forma a Igreja católica, que acabaram por impedir não só a renovação iniciada durante o Concílio Vaticano II como também as propostas pastorais de Francisco.

IHU On-Line – O papa Francisco tem insistido no discurso de que a Igreja deve ser pastoral e uma “Igreja em saída”. Na prática, o que isso significa?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Sua proposta é clara como um cristal bem lapidado: se a missão da Igreja é levar ao mundo todo a Boa-notícia do Reinado de Deus, seu movimento deve ser para fora dos templos e sacristias. O espaço principal de atuação do Povo de Deus é o lugar onde vivem as pessoas, independentemente de sua confissão religiosa. Os cristãos e cristãs devem anunciar com alegria o Evangelho e colaborar com o projeto de construção do Reino de Deus na história. Francisco é enfático: antes correr o risco de se sujar por ter ido às praças e ruas, do que definhar por não sair da sacristia. Em suma, trata-se de juntar-se aos movimentos sociais, respeitando sua laicidade, para que “não haja família sem casa, camponês sem terra, trabalhador sem direitos”. É o que ensina e faz o Papa.

Infelizmente, o projeto de colocar a Igreja em saída tem sido interpretado de maneira a perder seu caráter inovador. Tomo como exemplos dessa deturpação os eventos religiosos de massa destinados a encher as ruas e praças de católicos, ou o padre que leva o confessionário para a praia alegando que assim a Igreja vai onde estão os turistas. É um pouco ridículo, mas assim é…

IHU On-Line – Como essas propostas de Francisco têm repercutido na Igreja brasileira? Quais são as estruturas sociais e eclesiais que potencializam ou inibem uma Igreja em movimento?

Pedro Ribeiro de Oliveira – O setor eclesial mais afinado com a proposta de Igreja em saída é o de quem se identifica com as CEBs e Pastorais Sociais. Nele estão bispos, padres, religiosas, leigos e leigas. Esse setor tem certa influência na Igreja devido a sua capilaridade social, embora seja numericamente pequeno. Mas está havendo mudança. Nos dois primeiros anos do pontificado de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo menos no Brasil) apenas fez de conta que estava em sintonia com ele, porque sua linha pastoral continuou a mesma de outros tempos. Passados dois anos e três documentos pontifícios de grande impacto, é cada vez mais clara a mudança de rumo que Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil. Constato, por exemplo, a mudança na posição política da CNBB desde a visita da presidência da CNBB ao Papa, em 2016: ela ganhou coragem e voltou a pronunciar-se sobre o momento político sem poupar críticas a Temer e seu governo, mostrando sua distância em relação à atitude dos dois cardeais que foram visitá-lo no palácio da Alvorada.

Tudo indica um significativo avanço do projeto de Francisco entre os bispos e no laicato

Não sei avaliar exatamente a correlação de forças entre os setores identificados com o projeto de Igreja em saída e os setores identificados com a restauração identitária, mas tudo indica um significativo avanço do projeto de Francisco entre os bispos e no laicato. Ainda não vejo igual avanço entre os padres, que parecem se contentar ao ver igrejas cheias, ainda que seja para “missas de cura e libertação”. É claro que na sociedade a figura e a mensagem de Francisco têm grande aceitação, mas isso pouco representa em termos de força transformadora na Igreja católica. Nessa conjuntura, ainda não são muitos os bispos e padres que ousam seguir o exemplo de Francisco na construção de uma “Igreja pobre para os pobres”. É preciso mais criatividade de quem apoia o projeto de Francisco para desempatar esse jogo…

IHU On-Line – Quais são os potenciais de ressurgimento das CEBs no atual contexto?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Prefiro falar de refundação das CEBs, porque em sua maioria elas perderam o antigo vigor, mas não morreram. Prova disso é a preparação do 14º Encontro Intereclesial, previsto para janeiro de 2018, em todas as regiões do país. Realisticamente, temos que considerar o nítido envelhecimento de seus membros e a sua perda de prestígio na Igreja, porque as celebrações das CEBs não enchem igreja como os cultos de louvor, cura e libertação.

Refundar as CEBs significa retomar e atualizar a intuição teológica que lhes deu origem, ou seja: (i) celebração dominical na comunidade local conduzida por seus animadores e animadoras, (ii) incentivo à leitura bíblica na ótica do oprimido (como faz o CEBI, por exemplo), (iii) coordenação pastoral colegiada, desde as bases comunitárias até os organismos paroquiais e diocesanos, e (iv) articulação com Pastorais sociais que façam a mediação entre o campo eclesial e o sócio-político. Uma refundação assim está em total sintonia com o projeto de Francisco, mas requer ousadia do bispo para governar a diocese segundo o Evangelho, sem deixar-se prender pelas proibições do Direito Canônico.

IHU On-Line – O papa tem estimulado a participação dos leigos na Igreja e tem chamado atenção para que eles não sejam clericais. Como os leigos têm atuado no Brasil? Que avaliação faz do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB? Eles são muito clericais? Qual é a origem desse clericalismo?

Pedro Ribeiro de Oliveira – O problema do laicato é que nós somos e queremos ser Igreja, isto é, membros de pleno direito como são os ministros ordenados – bispos, presbíteros e diáconos –, mas esses parecem não levar a sério a definição da Igreja como Povo de Deus. Parecem ainda acreditar que são os representantes de Cristo, como se Ele não tivesse ressuscitado e precisasse de mediadores para se fazer presente na história humana. Daí o clericalismo, tão criticado por Francisco. Lembro que ser contra o clericalismo não é negar a importância do presbítero e do bispo como agentes da unidade eclesial, mas sim opor-se aos privilégios que cercam os clérigos como se fossem dotados de poderes divinos.

É claro que muitos leigos e leigas se submetem a uma Igreja clerical, desde que o clero abençoe seu estilo de vida (no caso dos ricos) ou os console em seu sofrimento (no caso dos pobres). Clericalismo e conservadorismo caminham de braços dados. Movimentos de santificação pessoal convivem bem com o clericalismo, enquanto as CEBs e Pastorais sociais não se submetem a ele.

A Igreja católica do Brasil somente retomará o rumo libertador depois do susto que ela tiver, ao constatar no censo demográfico de 2020 o grande aumento da desafeição dos católicos

Se a Igreja quer mesmo ser Povo de Deus atuante na história humana, tem que suprimir o clericalismo. Francisco tem dito isso, mas sabe que não é fácil passar do ideal à prática. Penso que uma medida eficiente para promover essa mudança é fechar os seminários e colocar os vocacionados na pastoral, oferecendo-lhes a formação na ação. Esse modelo foi implementado por D. Helder Câmara, quando arcebispo de Olinda e Recife. Os vocacionados viviam como qualquer jovem leigo, sendo acompanhados por professores e professoras que ensinavam a Teologia a partir da reflexão sobre sua experiência de vida, utilizando para isso os sábados e os períodos de férias. Com um custo muito inferior ao dos atuais seminários – que são viveiros do clericalismo – a Igreja poderá formar presbíteros, diáconos e diaconisas seguindo o método “ver, julgar, agir e celebrar”. E assim formar agentes da unidade eclesial para as necessidades do mundo atual.

IHU On-Line – Como avalia os quatro anos do pontificado de Francisco? Quais diria que são as três questões mais positivas do pontificado e os seus três desafios?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Ele retomou a proposta de aggiornamento de João XXIII atualizando-a e fundamentando-a com a Teologia do Concílio Vaticano II. A isso chama de projeto de Igreja em saída. Mas a oposição clerical adotou a estratégia da inércia: fazer de conta que as normas dadas por João Paulo II e Bento XVI ainda estão em vigor.

Penso que o projeto de Francisco só conseguirá avançar sob duas condições. A primeira é fazer seu sucessor na mesma linha pastoral. Por isso está dando formato mais universalista ao colégio de cardeais. A segunda condição é conquistar o apoio efetivo das bases da Igreja. Esta condição é mais complicada, porque depende de bispos com ousadia para substituir as velhas estruturas curiais e paroquiais por estruturas participativas, padres que abandonem o clericalismo e leigos e leigas com coragem e competência para assumir sua missão na Igreja e no Mundo. Francisco dá exemplo de liberdade e criatividade, mas ainda tem sido pouco seguido.

Não sei definir quais seriam as questões mais e menos positivas de seu pontificado. Mas com certeza seu maior desafio é o de convencer a Igreja católica que o mundo está em estado de guerra: guerras localizadas, étnicas, contra a droga ou o terrorismo, mas todas mortíferas, dentro do quadro maior da guerra da espécie humana contra a Terra, nossa casa comum. Francisco já abordou esse tema por várias vezes, mas ainda não conseguiu convencer as bases da Igreja que não basta falar de paz nos corações enquanto a violência está solta pelo mundo, produzindo miséria, refugiados, mutilações e mortes. De Roma ele percebe a realidade global, mas as Igrejas locais continuam olhando para dentro delas mesmas e, no máximo, o que ocorre na sua vizinhança. Imagino o grau de angústia do Papa!

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Pedro Ribeiro de Oliveira – Sim. Não creio que de um momento para o outro a Igreja católica do Brasil retome o rumo libertador que a caracterizou nas décadas de 1970 e 80. Acredito que isso só acontecerá depois do susto que ela tiver, ao constatar no censo demográfico de 2020 o grande aumento da desafeição dos católicos.

Uma elite amoral e mesquinha se revela nas delações da Odebrecht

Precisava vir alguém de fora, de uma jornalista Carla Jiménez do jornal espanhol El Pais (17/04/2017) para nos dizer as verdades que precisamos ouvir. Seguramente a grande maioria concorda com o conteúdo e os termos desta catilinária contra corruptos e corruptores que tem caracterizado nos últimos tempos o Brasil. Formou-se entre nós, praticamente, uma sociedade de ladrões e de bandidos que assaltaram o país, deixando milhões de vítimas, gente humilde de povo, sem saúde, sem escola, sem casa, sem trabalho e sem espaços de encontro e lazer. E o pior, sem esperança de que esse rumo possa facilmente ser mudado. Mas tem que mudar e vai mudar. È crime demasiado. Nenhuma sociedade minimamente humana e honesta pode sobreviver com semelhante câncer que vai corroendo as forças vitais de um nação. Enganam-se aqueles que eu, pelo fato de defender as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluidos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados, tenha defendido o partido. A mim não interessa o partido mas a causa dos empobrecidos que constituem o eixo fundamental da Teologia da Libertação,  a opção pelos pobres contra a pobreza e pela justiça social, causa essa tão decididamente assumida pelo Papa Francisco. É isso que conta e por tal casusa lutarei a vida inteira como cristão e cidadão.Estou convencido de que o  Brasil poderá ser,  quando bem governado, a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro. Creio que  a revelação de tais crimes, sua punição, o resgate dos bilhões de reais ou de dólares roubados e devolvidos aos cofres públicos,nos deem duras lições. Que todos vigiemos para que nunca se esqueça e nunca mais aconteça. O texto foi tirado do IHU de 18de abril de 2017: Lboff

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Eis o artigo

O Brasil saltou de uma transmissão política em preto e branco para alta definição de uma semana para outra com a lista de Fachin. Tudo se conhecia mais ou menos por meio de vazamentos em um ou outro veículo de comunicação. Mas ouvir a voz dos corruptores e vê-los em vídeo relatando seus crimes por horas a fio é mais doloroso. É como se a própria mãe estivesse contando que na verdade você é filha do irmão do seu pai, ou de um ladrão de bancos, ou de um estuprador. O impacto é violento, ainda que você desconfie que a verdade da sua vida era outra.

Depreende-se das horas de gravação da delação da Odebrecht uma elite hipócrita, amoral e mesquinha que enxerga o Brasil como uma S.A. para seu usufruto, e não como a sociedade que deveria ser. Tudo ainda precisará de provas concretas, mas o mundo revelado por Emílio e Marcelo Odebrecht tem corrupção a la Casas Bahia ou a la galeria Lafayette, dependendo do freguês. Um ministro da Fazenda, Guido Mantega, que determinava os destinos do dinheiro público depois de supostamente negociar milhões de doação com uma fornecedora do Governo, anotando valores a pagar ao partido num papelzinho, segundo Marcelo Odebrecht. Um irmão do ex-presidente Lula que teria recebido mesada de 6.000 reais por ser simplesmente irmão do ex-presidente, segundo outro. Um governador, Aécio Neves, que teria cobrado 3% de empreiteiras numa obra bilionária em Minas Gerais, e teria levado milhões para defender a participação da Odebrecht no setor elétrico.

Tem até o ex-relator do impeachment no Senado, Antonio Anastasia – que discursava indignado sobre o crime das pedaladas fiscais de Dilma Rousseff no ano passado – e que agora terá de provar que não é criminoso, apesar da acusação de que teria recebido caixa 2 de baciada da Odebrecht. O presidente da República, Michel Temer, que diz não ter negociado propina, mas que recebeu em seu escritório um representante da empresa ao lado de dois dos nomes do seu partido que negociaram esses recursos ilícitos – um deles, Eduardo Cunha, comparado ao traficante Marcola, pelo também acusado Renan Calheiros –, segundo o denunciante. Hipócritas. Hipócritas. Hipócritas.

Doação de seis milhões de reais aqui, 50 milhões acolá, 2,5 milhões ali. De onde vem tanto dinheiro? Só a Odebrecht pagou 10,6 bilhões entre 2006 e 2014, segundo ela. É pornográfico imaginar quanto ela ganhou em troca nesses projetos de obras públicas, e quanto outros defensores da moral e dos bons costumes de Brasília ganhavam em nome de supostas campanhas políticas. E estamos falando de apenas um setor específico. Imagine um pente fino nos planos de saúde, a indústria de carne, as agências de publicidade, o setor automotivo. Sem ilusões de que quem não está na lista de Fachin é inocente. Ou podemos confiar na sensibilidade social do ministro da Saúde, o deputado Ricardo de Barros, que não deixa de lembrar em todas as suas entrevistas a quais interesses serve na hora de falar sobre o assunto que hoje administra?

Elite criminosa

O que é a pedalada fiscal hoje, se não cosquinhas perto da monstruosidade que o topo da pirâmide política e econômica promove no Brasil. Que fatiaram o país e o dividiram entre os partidos políticos, tal qual o boi nos cartazes do açougue, segundo as investigações. Cada pedaço pertence a um partido, a uma facção da legenda, e, confirmando-se as acusações da Lava Jato, seu trabalho parlamentar fica reduzido ao de um despachante, ou corretores de influência, cobrando uma fração do sucesso dos negócios com o Governo, pelo que consta até aqui. As diretorias da Petrobras era do PT, PP e PMDB. A Câmara, da turma do Temer e do Eduardo Cunha. O Senado, de Eunício Oliveira e Renan Calheiros, segundo delação de Delcídio do Amaral. As hidrelétricas de Furnas, do PSDB de Aécio, segundo Marcelo Odebrecht. O metrô de São Paulo, do PSDB paulista, segundo as investigações. E assim por diante. Está tudo ali, para quem quiser ver. Definitivamente, a propinocracia brasileira tem muitos reis.

Políticos que mentem descaradamente sem mexer um músculo do rosto. Vaidosos, gravaram vídeos no início da Lava Jato usando frases como “ninguém aguenta mais a corrupção do PT”, com lama até a cintura. Garantiram suas aposentadorias com dinheiro desviado e agora acreditam ter legitimidade para decidir o destino da velhice de todos os brasileiros que fizeram o verdadeiro papel de palhaços neste teatro.

Uma elite corruptora com representantes como Marcelo Odebrecht… Um executivo preparado para assumir os negócios da família que quis provar ser melhor que o pai da maneira mais irresponsável, comprando fatias de mercado. Análise freudiana à parte, deu aos executivos do grupo a prerrogativa de corromper seus políticos do entorno para conseguir obras públicas. E como prêmio, pagava bônus anuais milionários. “Vira uma bola de neve”, afirma Fernando Reis, ex-presidente da Odebrecht Ambiental, explicando por que deu propinas de 6 milhões de reais ao pastor Everaldo. “Tudo distorcido”, confessa Reis agora. E por que não questionou? Por que não se demitiu? Por que não denunciou?

Em determinado trecho da sua delação, Marcelo fala sobre um diálogo com Graça Foster, ex-presidente da Petrobras. “Sempre fui aberto com Graça… fui franco quando me perguntou… ”, diz ele. Na conversa, admitia que pagara por fora para o PMDB e para o PT por uma obra da petroleira. “Se não tivesse o PT no meio, eu não falaria”, querendo mostrar coerência e, quiçá, lealdade aos nomes que estavam ocultos. Mas o que é ser aberto, senhor Marcelo? Qual é o critério de correção, de lealdade, de franqueza que passa na cabeça de um homem que estruturou um setor que distribuiu bilhões em propinas ao longo de oito anos [ou será mais tempo]? É esse o modus operandi dos empresários bilionários deste país?

Que elite mais desgraçada. Jogam o Brasil na bacia das almas para 2018, entre um lunático como Jair Bolsonaro e um novato na política executiva, João Doria Jr., que insiste no discurso que o grande problema da corrupção brasileira é só o PT. Por favor, pare de repetir isso, prefeito. Seu padrinho e amigo há 38 anos, o governador tucano Geraldo Alckmin, é um dos políticos campeões em caixa 2, segundo a Odebrecht, usando o irmão da primeira dama de São Paulo como receptor. E sendo seu partido o terceiro mais celebrado pela Odebrecht, com 152 milhões de reais em recursos ilícitos, ao que consta das delações, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo. Ao PT coube a maior fração, 408,7 milhões, porque estava com a máquina pública federal. Vários governadores tucanos parecem ficar à vontade com quinhões obscuros nas gestões estaduais.

Lula, por outro lado, mais do que os crimes a que responde, feriu de golpe a esquerda no Brasil. Ajudou a segregá-la, a estigmatizar suas bandeiras sociais e contribuiu diretamente para o crescimento do que há de pior na direita brasileira. Se embebedou com o poder. Arvorou-se da defesa dos pobres como álibi para deixar tudo correr solto e deixou-se cegar. Martelou o discurso de ricos contra pobres, mas tinha seu bilionário de estimação. Nada contra essa amizade. Mas com que moral vai falar com seus eleitores?

Saiam todos, por favor. Vocês são maus exemplos a seguir. Despertam ojeriza. Dediquem o que resta de suas vidas a entregar tudo, a detalhar tudo, a terminar de contar o que falta para que o Brasil se estabeleça como uma sociedade mais sadia, menos tóxica. Nenhum país merece que a riqueza seja comandada por quem não tem um mínimo de solidariedade com o país e vive da mesquinharia que alimenta a miséria. Acordão? Só se for para admitir crimes. Ambicionem entrar para a história como os que ajudaram a mudar o rumo, sem violentar a esperança alheia. Uma mensagem que cabe ao Judiciário, inclusive, que como disse o ministro Luís Roberto Barroso ao citar o direito penal, “deixou erguer um país de ricos delinquentes, que vivem de fraudes às licitações, lavagem de dinheiro entre outros crimes”. Vistam a carapuça. Deixem a Justiça atuar e paguem pelos seus crimes. É o melhor que vocês podem fazer para justificar a própria existência.