Universidade pra quê? A força e o futuro da UERJ

Universidade pra quê? A força e o futuro da UERJ

Jornal do Brasil  11/08/2017:
Ana Karina Brenner *, Bruno Deusdará **, Guilherme Leite Gonçalves *** e Lia Rocha *** 

A universidade moderna nasceu de um projeto destinado a desenvolver as qualidades humanas e a cultura por meio de um programa de formação, que combinava ensino e pesquisa com base no conhecimento científico. Esse projeto, no entanto, tinha um vício de origem: era inacessível às classes populares; servia apenas à reprodução das elites. Sofria, assim, de um mal-estar que, dentre outras, produziu as revoltas estudantis de 1968. A partir desse momento, as políticas universitárias se voltaram para articular formação e inclusão social, conhecimento científico e igualdade.

A UERJ é resultado de um amadurecimento histórico dessa nova universidade. Criada em 1950, destaca-se pelo pioneirismo: primeira universidade pública do Brasil a oferecer ensino superior noturno, permitindo a qualificação dos trabalhadores; segunda instituição universitária a possuir um hospital das clínicas voltado para o ensino; primeira a implantar o sistema de cotas para negros, indígenas e estudantes oriundos de escolas públicas.

Nos últimos 10 anos, o número de cursos de doutorado quase dobrou, passando de 23 para 43. Em 2016, a UERJ possuía 26.767 estudantes presenciais, dos quais 9.900 cotistas e ainda 7.266 alunos de Educação à Distância. Além do Hospital Universitário Pedro Ernesto e da Policlínica Piquet Carneiro, ela conta com 714 projetos, 253 cursos e 34 programas de extensão, que levam à sociedade conhecimento e tecnologias de ponta, envolvendo cerca de 3 milhões de pessoas, entre profissionais, estudantes e comunidade atendida.

Nos últimos anos, a UERJ conquistou o regime de trabalho de Dedicação Exclusiva, assegurando um plano de carreira com capacidade de atrair os melhores quadros acadêmicos. Tal regime é estruturante da carreira docente, garantidor da qualidade da pesquisa, do compromisso com a formação de estudantes e pesquisadores, e do desenvolvimento tecnológico a partir da fixação de docentes em uma única instituição.

Hoje, no entanto, todo esse patrimônio corre risco.

Ciência, formação e igualdade social não fazem parte da agenda do PMDB. A Universidade lhe é estranha. Em seu programa para o Brasil, “Uma ponte para o futuro”, ela é tratada tão somente como encargo ou despesa, desconsiderando sua importância como investimento na construção e preservação do patrimônio científico e tecnológico de uma nação. Ao assim concebê-la, atribui à educação superior a responsabilidade de produzir desajuste fiscal quando é, na verdade, potencial de desenvolvimento econômico e de geração de emprego. Mas, então, qual é o projeto do PMDB para a Universidade?

Desde o golpe parlamentar, em 2016, o Governo Temer tem realizado significativos cortes em políticas sociais, entre elas o ensino superior. Só o MEC sofreu corte de R$ 4,3 bilhões. Asim, 15% dos gastos de custeio e 40% das despesas de capital, aprovados pelo Congresso para as universidades federais, ficaram congelados. No Rio de Janeiro ocorre fato semelhante. Para dar apenas um exemplo, no final de 2016, o Governo Pezão reduziu o orçamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro em mais de 30%.

Em agosto de 2017, professores e servidores técnico-administrativos da UERJ  encontram-se com quatro meses de salários atrasados(mesma situação das outras universidades estaduais UEZO e UENF). Também atrasadas estão as bolsas de estudantes e residentes. O confisco de salários e bolsas é um confisco do orçamento da universidade, e mina as condições de reprodução das forças necessárias ao trabalho e à continuidade do patrimônio intelectual, científico e democrático adquirido ao longo das décadas. Um exemplo dos efeitos nefastos dessa crise é a saída forçada de alguns docentes do regime de dedicação exclusiva. Obrigados a acumular atividades paralelas, muitos desses profissionais não retornarão ao regimede DE após esse período.

O resultado da política universitária de Pezão e Temer, cujo não pagamento dos salários da UERJ é a expressão mais vil, são vários: evasão de estudantes, fuga de cérebros, destruição da pesquisa de ponta, eliminação do legado intelectual, extermínio da formação e da cultura. Em outras palavras, a depredação do resultado de décadas de investimento material e humano.

Nós, da Universidade, entendemos todavia que docência, pesquisa, cultura e formação se relacionam com o futuro. Nossa resistência é a garantia de que o projeto de universidade pública, de qualidade, gratuita, cada vez mais plural e inclusiva, permaneça. UERJ Resiste!

* Professora da Faculdade de Educação da UERJ, 

** Professor do Instituto de Letras da UERJ,

*** Professor da Faculdade de Direito da UERJ, 

**** Professora do Instituto de Ciências Sociais da UERJ e Presidente da ASDUERJ

Para Entender a Venezuela: dois testemunhos do outro lado

Todas as coisas possuem  sempre dois lados. Em direito se diz: “audiator et altera pars”: que se escute também a outra parte. Isso vale em todas as questões que envolvem destinos pessoais e de todo um povo.  A questão da Venezuela é complexa e polêmica. Dificilmente poder-se-á emitir um juizo equilibrado tantos são os fatores a serem considerados. Entre nós, no Brasil, a versão dominante, propagada pela grande mídia, sob forte influência dos USA é muito negativa e tem  suas razões.  Há violência e repressão popular que são inaceitáveis, sob qualquer ponto de vista. Mas não é a única versão. Há outras versões que apresentam lados positivos que importa também considerar, embora ganham pouco espaço na mídia nacional e internacional. No propósito de mostrar a complexidade da questão venezuela e o que significaram as transformações que Hugo Chavez introdiuziu naquele país, importa ouvir os dois testemunhos que publicaremos logo abaixo. Curiosamente um vem de uma religiosa que trabalha no meio do povo e que por isso seu testemunho ganha especial credibilidade. Não emitimos nenhuma opinião. Apenas mostraremos um dos lados, pouco conhecido, para que cada um possa fazer o seu juizo na base desta e de outras informações. LBoff

                                       Para entender a Venezuela

                                                    Marcelo Zero

Antecedentes

Não possível se entender a atual crise da Venezuela e tampouco o regime chavista sem se compreender como era esse país antes da “revolução bolivariana” e qual o seu significado geopolítico para os EUA.

A Venezuela está sentada na maior reserva provada de petróleo do mundo. São 298,3 bilhões de barris, ou 17,5% de todo o petróleo do mundo. Este petróleo está a apenas 4 ou 5 dias de navio das grandes refinarias do Texas. Em comparação, o petróleo do Oriente Médio está entre 35 a 40 dias de navio dos EUA, maior consumidor de óleo do planeta.

Essas imensas reservas começaram a ser exploradas no governo de Juan Vicente Gómez (1908-1935).

A renda gerada pela produção e exportação de hidrocarbonetos possibilitou a construção de uma infraestrutura viária e portuária, assim como permitiu a implantação de aparelho de Estado centralizado, que substituiu uma administração fragmentada e difusa.

Contudo, essa consolidação do Estado Nacional venezuelano embasou-se apenas na exportação de petróleo para o mercado norte-americano, o que levou à Venezuela a desenvolver “relações privilegiadas” com os EUA. Tal vinculação econômica e política marcou profundamente a política externa da Venezuela, bem como sua política interna.

Na década de 50 do século passado, a Venezuela já havia se convertido no segundo produtor e no primeiro exportador mundial de petróleo. No entanto, essa notável afluência econômica, obtida numa relação de estreita dependência com os EUA, não se refletia na diminuição de suas graves desigualdades sociais, na diversificação de sua estrutura produtiva e na implantação de um regime democrático estável. Tampouco numa política externa que combatesse seu alto grau de dependência.

Na realidade, esse processo econômico e político marcado por tal profunda dependência resultou em três grandes consequências que têm de ser levadas em consideração em qualquer análise séria sobre a Venezuela:

-Um sistema político formalmente democrático, porem profundamente oligárquico.

-Uma política externa avessa à integração regional e a uma articulação com outros países periféricos.

Uma estrutura social marcada pela desigualdade e a pobreza.

O sistema político oligárquico

Em 1957, foi celebrado o Pacto de Punto Fijo, articulado pelos EUA, pelo qual os partidos tradicionais e conservadores aceitaram alternar-se no poder, sem permitir a entrada de novos partidos. O objetivo, para os EUA, era garantir alguma estabilidade política na Venezuela, diante de sua importância como fornecedora de petróleo.

A realização de eleições presidenciais periódicas apenas entre os dois partidos conservadores (Ação Democrática-AD, de orientação socialdemocrata, e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente-COPEI, de tendência democrata-cristã), fez com que a Venezuela fosse apresentada como um exemplo raro de “democracia na América do Sul”.

Trata-se, é claro, de uma grosseira falácia. A bem da verdade, o sistema político gerado pelo Pacto de Punto Fijo era muito semelhante à política do “café-com-leite” da República Velha brasileira: por trás de uma fachada de democracia, escondia-se um sistema fortemente oligárquico.

Avalia-se que cerca de 50% da população teria sido excluída do exercício do voto desde os anos 60. Como o registro eleitoral era facultativo e como as zonas de inscrição estavam situadas apenas nas zonas mais prósperas do país, a população mais pobre não participava, na prática, de quaisquer decisões eleitorais. Além disso, o federalismo venezuelano era profundamente autoritário. Cabia ao Presidente da República nomear todos os governadores e prefeitos biônicos, muitos dos quais hoje militam na oposição venezuelana. Apenas em 1989 foram realizadas as primeiras eleições para prefeitos e governadores. Não bastasse, eram comuns as prisões de jornalistas, em razão da publicação de matérias que desgostassem o governo de plantão.

A política externa satélite dos interesses estratégicos do EUA

A “estabilidade” democrática, ainda que conservadora, formal e excludente, a afluência econômica proporcionada pelo petróleo e as relações privilegiadas com os EUA, mesmo que eventualmente contraditórias, fizeram com que Venezuela se isolasse do restante da América do Sul e dos demais países em desenvolvimento.

Na década de 60, esse relativo isolamento foi exacerbado pela aplicação, no plano das relações externas venezuelanas, da chamada Doutrina Betancourt, criada em homenagem ao ex-presidente Rómulo Betancourt. De acordo com essa doutrina, a Venezuela deveria restringir o estabelecimento ou a manutenção de relações diplomáticas apenas a países que tivessem governos eleitos democraticamente conforme regras constitucionais estáveis.

Criada para agradar os EUA, pois justificava o isolamento diplomático de Cuba, a doutrina Betancourt, porém, complicou as relações com vários vizinhos da Venezuela aliados de Washington, inclusive o Brasil. Assim, durante vários anos, a Venezuela recusou-se manter relações diplomáticas com o Brasil, que vivia uma ditadura. Por uma ironia da história, a “cláusula democrática”, que hoje o Brasil do golpe tenta impor à Venezuela no Mercosul, já foi usada contra nós pelos venezuelanos conservadores.

Após levar um “puxão de orelhas” de Washington, a Venezuela flexibilizou sua cláusula democrática e passou a usá-la apenas contra Cuba, contemplando os interesses dos EUA.

Esse isolacionismo da Venezuela, que privilegiava somente suas relações bilaterais com os EUA, fez até que aquele país aderisse tardiamente ao GATT, à Comunidade Andina e a outros organismos regionais e multilaterais, numa demonstração de total falta de iniciativa própria no cenário mundial.

Tal isolacioanismo dependente da Venezuela só começou a ser parcialmente revisto ao final da década de 80, quando a relativa abundância de petróleo no mercado internacional, que fez diminuir o preço dessa commodity, somada à crise da dívida, que viria a atingir aquele país ao final do decênio, produziu uma modesta mudança na estratégia de sua política externa. De fato, a política externa isolacionista, baseada na noção de uma suposta superioridade político-democrática, na afluência econômica do petróleo e nas relações privilegiadas com os EUA, principal comprador dessa commodity, passou a ser substituída progressivamente por uma estratégia de inserção no cenário externo mais realista, na qual o Caribe e a América do Sul passaram a ter lugar de destaque.

Contudo, mesmo com essa mudança modesta e parcial, a Venezuela continuou a orbitar em torno dos interesses estratégicos do EUA na região, constituindo-se, junto com a Colômbia, no seu aliado mais fiel.

A estrutura social marcada pela desigualdade e a pobreza

Antes do “cruel e ditatorial” governo bolivariano, a Venezuela, o país com a maior reserva de óleo do mundo, tinha 70% de sua população abaixo da linha da pobreza e 40% do seu povo na pobreza extrema. Isso diz tudo sobre os governos anteriores.

Antes do governo de Chávez, em 1998, 21% da população estavam subnutridos. É isso mesmo. No país que, como Celso Furtado escreveu em 1974, tinha tudo para se tornar a primeira nação latino-americana realmente desenvolvida, 1 em cada 5 habitantes passava fome. Essa era a Venezuela dos Capriles, dos López e da “oposição democrática”.

Em relação à saúde pública, é preciso ressaltar que a mortalidade infantil era de 25 por mil, em 1990, quase o dobro da brasileira de hoje (13,8 por mil). Em relação à educação, apenas 70% das crianças concluía o ensino primário e o acesso às universidades era restrito às elites e à pequena classe média.

Além disso, o Estado de Bem Estar venezuelano tinha alcance mínimo. Com efeito, na era pré-Chávez, apenas 387.000 idosos venezuelanos tinham aposentadorias ou pensões. A maioria simplesmente vivia à míngua.

Desse modo, a Venezuela chegava ao fim do século XX com uma contradição gritante e insustentável: apesar das grandes riquezas derivadas da exportação de petróleo, o país convivia com problemas sociais muito graves.

Em 1989, no contexto de uma crise econômica, manifestações populares se multiplicaram por todo o país.

Uma delas, o “Caracazo”, foi duramente reprimida pelo Estado, cujas forças mataram indiscriminadamente entre 1000 e 3000 pessoas. Em muitas ocasiões, as manifestações estudantis foram também reprimidas, tendo sido ordenado o fechamento da Universidade Central da Venezuela, que durou três anos, em 1968.

Durante vários meses, as favelas de Caracas foram cercadas por forças militares e submetidas a toque de recolher.

Entretanto, isso não comoveu muito a “comunidade internacional”, que hoje chora as cerca de 100 vítimas dos embates nas ruas da Venezuela. Afinal, eram apenas pobres e excluídos sendo submetidos a um regular massacre na América Latina. Em todo caso, já estava claro, na época, que o modelo econômico, social e político plasmado no Pacto de Punto Fijo tinha atingido seu limite.

Pois bem, a eleição de Hugo Chávez, em 1998, se insere justamente no colapso do Pacto de Punto Fijo: para uma população desprovida de sistemas públicos includentes (saúde, educação, moradia, etc.), a plataforma política de Chávez surgiu como proposta sem precedentes na história do país, o que explica, em grande parte, a sua popularidade nas camadas historicamente excluídas do povo venezuelano.

Embora o chavismo não tenha alterado, de forma significativa, a estrutura produtiva da Venezuela, que permaneceu estreitamente dependente das exportações do petróleo, Chávez implodiu as arcaicas estruturas sociais e políticas da Venezuela, bem como a política externa de alinhamento automático aos EUA.

A desigualdade, medida pelo índice de Gini, foi reduzida em 54%. A pobreza despencou de 70,8%, em 1996, para 21%, em 2010, e a extrema pobreza caiu de 40%, em 1996, para 7,3%, em 2010.

O chavismo implantou as chamadas misiones, projetos sociais diversificados e amplos que beneficiam cerca de 20 milhões de pessoas, e passou a criar um verdadeiro Estado de Bem Estar Social na Venezuela. Hoje, 2,1 milhões de idosos recebem pensão ou aposentadoria, ou seja, 66% da população da chamada terceira idade.

Na Venezuela pós-chavismo, a desnutrição é de apenas 5%, e a desnutrição infantil 2,9%. Após o chavismo, a Venezuela tornou-se o segundo país da América Latina (o primeiro é Cuba) e o quinto no mundo com maior proporção de estudantes universitários.

Em relação à saúde pública, é preciso ressaltar que a mortalidade infantil diminuiu de 25 por mil, em 1990, para apenas 13 por 1000, em 2010. Atualmente, 96% da população já tem acesso à água potável. Em 1998, havia 18 médicos por 10.000 habitantes, atualmente são 58. Os governos anteriores ao de Chávez construíram 5.081 clínicas ao longo de quatro décadas, enquanto que, em apenas 13 anos, o governo bolivariano construiu 13.721, um aumento de 169,6%. Barrio Adentro, o programa de atenção primária à saúde que recebe a ajuda de mais de 8.300 médicos cubanos, salvou cerca de 1,4 milhões de vidas.

Nove anos após as grandes inundações de 1999, que destruíram centenas de e milhares de lares, o governo de Chávez deu início a um ambicioso programa de habitações populares. Já foram construídas e entregues 2 milhões de casas. Trata-se, proporcionalmente, do maior programa de habitação popular da América Latina.

Esses amplos e inegáveis avanços sociais fizeram daquele nosso país irmão um modelo de cumprimento dos Objetivos do Milênio da ONU.

No campo da política externa, Chávez rompeu com o paradigma anterior de país periférico e dependente e investiu na integração regional e no eixo estratégico da geoeconomia e geopolítica Sul-Sul, com destaque para as relações bilaterais com o Brasil, o que acabou conduzindo à adesão da Venezuela como membro pleno do Mercosul, algo que nos beneficia muito.

A Venezuela chavista tornou-se uma grande parceira do Brasil, comprando vorazmente nossos produtos e recompensando-nos com elevados superávits comerciais e com forte apoio político à integração do nosso subcontinente. Chávez era, sobretudo, um grande amigo do Brasil.

Ademais, Chávez estabeleceu relações próximas com Rússia, China e Cuba e passou a apoiar experiências políticas que divergiam da ordem mundial dominada pelos interesses dos EUA. Em contraste com o isolacionismo anterior, Chávez fundou a ALBA e criou a Petrocaribe, objetivando fornecer petróleo a preços convidativos para os países daquela região. Isso explica porque a OEA, apesar dos esforços febris dos EUA e do Brasil, não consegue aprovar uma resolução forte contra o governo de Maduro.

Mas o principal mérito do chavismo foi ter implodido o conservador e excludente modelo político venezuelano, baseado no Pacto de Punto Fijo. Com Chávez, assim como com Lula, Morales, Rafael Correa e outros, aqueles que não tinham voz e vez passaram a se fazer ouvir e a se fazer cidadãos. Passaram a comer, a se educar, a morar. Deixaram de ser invisíveis, miseráveis anônimos, e passaram a ser sujeitos da história.

O chavismo, entretanto, foi além e organizou e mobilizou as massas destituídas da Venezuela, bem como passou a dominar setores importantes do aparelho de Estado, como as Forças Armadas e o poder judiciário. Isso acabou privando as oligarquias venezuelanas de seus principais instrumentos de intervenção política. São esses fatores que ajudam explicar a radicalidade do atual processo político venezuelano.

A Reação

Com todos sabem, a reação das oligarquias ao chavismo não tardou. Além do conhecido golpe de 2002, que quase resultou na execução de Chávez, houve também o processo conhecido como “paro petrolero”, a suspensão das atividades da PDVSA, a estatal do petróleo da Venezuela.

A suspensão das atividades da PDVSA, controlada então pelas oligarquias venezuelanas, resultou numa contração do PIB de 18%, entre 2002 e 2003, inflação, carestia de produtos básicos, desemprego, aumento do risco país, etc.

No país com a maior reserva de petróleo do mundo, houve até falta de gasolina. O governo brasileiro, ao final de 2002, enviou navio tanque com gasolina para suprir parcialmente a carência de combustíveis na Venezuela.

O “paro petrolero” forçou o chavismo a intervir na PDVSA, dominando-a, assim como o golpe de 2002 forçou o chavismo a controlar mais fortemente as forças armadas.

Entretanto, essas ações antidemocráticas e destrutivas, das quais participaram as atuais das oposições venezuelanas, como López, Capriles e Ledezma são eloquentes da falta de compromisso real das oligarquias venezuelanas com a democracia. O “paro petrolero”, em particular, evidencia que tais oligarquias não têm pruridos em arruinar a economia do país, desde que isso signifique uma oportunidade para voltar a controlar o poder perdido.

Desde então, o processo político venezuelano permanece bastante radicalizado.

Ainda assim, há de se constatar que o chavismo manteve seus compromissos democráticos. Desde a ascensão de Chávez e a implosão do Pacto de Punto Fijo, foram realizadas nada menos que 21 eleições, inclusive a de um referendo revogatório. Todas elas limpas e internacionalmente auditadas.

Ademais, na Venezuela há partidos de oposição que funcionam regularmente e imprensa livre, mesmo após a cassação da concessão do canal RCTV, que articulou o golpe de Estado de 2002.

A crítica de que o chavismo controla setores do aparelho de Estado, como o poder judiciário, por exemplo, não deixa de ser curiosa. Na Venezuela, como em quase toda a América Latina, os setores estratégicos do aparelho de Estado sempre foram fortemente controlados pela direita. No entanto, tal controle nunca foi questionado como algo antidemocrático. Ao contrário, o caráter de classe desses segmentos estatais sempre foi considerado como parte intrínseca e natural do modus operandi dos sistemas políticos do subcontinente. O controle só se torna um “problema” quando passa a ser exercido, ainda que parcialmente, pela esquerda.

Assim sendo, não se pode falar em quebra da ordem democrática na Venezuela, apesar da radicalização do processo político e dos graves problemas institucionais que acometem o país vizinho. A última vez em que houve realmente quebra da ordem democrática na Venezuela foi no golpe militar de 2002.

Desdobramentos Recentes

A situação da Venezuela atual é muito próxima da existente no período 2002-2003.

Com a morte de Chávez, em 2013, a oposição radicalizada da Venezuela, considerou que poderia derrotar facilmente o sucessor na revolução bolivariana.

Entretanto, a vitória de Maduro sobre Capriles, ainda que por pequena margem, frustrou as expectativas da oposição. Pouco tempo depois, os setores mais radicalizados da oposição venezuelana, liderados por Leopoldo López, iniciaram o processo denominado de “la salida”, que consiste na utilização de manifestações violentas de rua, com a formação de barricadas, as chamadas “guarimbas”, incêndio de edifícios públicos e até mesmo de atos terroristas com o intuito de derrubar o governo eleito. Trata-se de uma estratégia que teve êxito na chamada “revolução colorida da Ucrânia”, diretamente financiada e estimulada pelos EUA.

Essas manifestações, muito concentradas nos bairros do leste de Caracas e algumas outras poucas municipalidades dominadas pela classe média e pelas classes afluentes da Venezuela são amplificadas por uma mídia nacional e internacional comprometida com os interesses conservadores. De um modo geral, as informações sobre as manifestações são produzidas com o auxílio das agências de inteligência e propaganda norte-americanas, que as repassam às agências internacionais de notícias, como a Reuters. A partir daí, elas se disseminam para o mundo inteiro, gerando uma percepção falaciosa do processo político venezuelano.

Entre 2013 e 2016, esse processo político radicalizado pela oposição de direita acabou provocando a morte de pelos menos 46 pessoas, a maioria chavistas ou de pessoas sem afiliação política, bem como danos milionários a equipamentos públicos. Tais “guarimbas” foram e são financiadas desde o exterior. Com efeito, há uma conexão clara da direita venezuelana, particularmente dos setores ligados a Leopoldo López, com a extrema direita da Colômbia, principalmente com Álvaro Uribe e seus grupos de extermínio.

São essas conexões e os reiterados atos de violência que levaram à prisão de López e Antonio Ledezma na Venezuela. Caracterizá-los como presos políticos que tivessem cometido “crimes de consciência”, como faz a imprensa brasileira, é desconhecer a realidade de uma direita que não tem, de fato, qualquer compromisso com a democracia e os direitos humanos e que aposta sistematicamente na violência como arma política preferencial.

Concomitantemente, foi iniciado um processo econômico que visa produzir carestia, desabastecimento e inflação, tal com o ocorreu, por exemplo, no Chile de Allende ou mesmo na própria Venezuela dos anos 2002 e 2003.

De fato, a este respeito é necessário que a crise econômica da Venezuela tem dois aspectos claros: um natural e outro artificial.

O natural, por assim dizer, tange ao fato óbvio de que a economia venezuelana, apesar dos esforços de chavismo para diversificá-la, ainda é muito dependente das exportações do petróleo e tem agricultura e indústria débeis.

A arrecadação tributária da Venezuela é muito baixa, apenas 13,5% do PIB, bem abaixo da brasileira, por exemplo, que está em cerca de 35% do PIB. Assim, o gasto público depende estreitamente da renda petroleira. Com a grande queda dos preços dessa commodity a partir de 2012, a economia da Venezuela passou enfrentar dificuldades reais graves, particularmente problemas cambiais.

Entretanto, há também aspectos artificialmente induzidos na crise econômica venezuelana. Há uma guerra econômica em curso.

Entre os instrumentos utilizados dessa guerra econômica estão: 1) o desabastecimento programado de bens essenciais; 2) a inflação induzida; 3) o boicote a bens de primeira necessidade; 4) o embargo comercial disfarçado; e 5) o bloqueio financeiro internacional.

O desabastecimento é produzido pela especulação cambial e pelo boicote político. O governo fornece aos importadores e comerciantes dólares cotados, pelo câmbio oficial, a apenas 10 bolívares. Entretanto, no câmbio negro, o dólar chega a ser cotado a milhares de bolívares. Na semana passada, cegou a 16 mil bolívares por dólar.

O que acontece é que muitos importadores simplesmente não importam o que deveriam. Fazem os contratos, mas importam apenas uma fração e depositam dólares no exterior. Além disso, boa parte (cerca de 35%) dos alimentos comprados são contrabandeados para o exterior, principalmente para a Colômbia, onde são vendidos com muito lucro. Outra parte é vendida no mercado interno, mas a preços excessivos, gerando carestia e inflação.

Ressalte-se que as importações de alimentos na Venezuela totalizaram US$ 7,7 bilhões em 2014, sendo que em 2004 elas foram de apenas US$ 2,1 bilhões. Ou seja, nesse período elas cresceram 259%. E, no caso de medicamentos importados, em 2014 as importações foram de US$ 2, 4 bilhões, enquanto que, em 2004, elas somaram apenas 608 milhões. Um aumento de 309%.

Portanto, a falta de alimentos, medicamentos, kits de higiene, peças sobressalentes para transporte e outros produtos, bem como as longas filas, não podem ser explicadas porque o setor privado não conseguiu receber uma quantidade suficiente de dinheiro para as importações. Esse dinheiro foi simplesmente desviado. Dessa forma, os depósitos em dólares de empresas venezuelanas no exterior cresceram 233% em apenas cinco anos.

Outro fator da guerra econômica tange à inflação induzida pela especulação. Em 2016, a economista venezuelana Pasqualina Curcio estimou, com base nas reservas e na liquidez monetária, que taxa real de câmbio deveria ser de 84 bolívares por dólar. No entanto, no câmbio negro o dólar já chegava a 1.212 bolívares por dólar.   Essa discrepância dilatada e sem base real alimenta um índice inflacionário inteiramente especulativo.

Além de tudo isso, Venezuela sofre, desde 2013, com uma espécie de bloqueio financeiro não oficial. Ele consiste em tornar cada vez mais difícil e caro para a República e, especialmente, PDVSA, o acesso ao crédito no mercado internacional e em obstaculizar as transações financeiras. Nesta área, as armas são invisíveis: tratam-se principalmente da publicação de níveis elevados de índice de risco país e do retardamento das transações financeiras costumeiras. Observe-se que, mesmo com a crise, a Venezuela vem cumprindo estritamente as suas obrigações financeiras, de modo que tais obstáculos não têm base racional e real.

No entanto, o fato concreto é que essa guerra econômica vem ajudando a radicalizar ainda mais o processo político venezuelano.

Nos últimos 4 meses, morreram mais de 100 pessoas nos conflito de ruas. Houve linchamentos de chavistas, inclusive de um que foi queimado vivo, atentados terroristas, incêndios de prédios públicos, inclusive de uma maternidade. Houve também, é claro, a morte de manifestantes da oposição pelas forças de segurança. A violência se generalizou.

Ao mesmo tempo, o impasse institucional entre o Poder Executivo e a Asamblea Nacional, dominada pela oposição congregada na MUD, agravou-se, sem quaisquer iniciativas de ambos os lados para um diálogo sério e construtivo.

Assim sendo, a Venezuela de hoje está à beira de uma guerra civil de proporções calamitosas e consequências imprevisíveis.

Ante tal impasse, o governo chavista optou pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, prontamente rejeitada pela oposição.

A oposição logo alegou que a convocação era inconstitucional e que visava perpetuar o poder de Maduro.

Bom, em primeiro lugar, tal convocação não é inconstitucional. A convocação da Assembleia Constituinte pelo presidente da república está prevista clara e explicitamente no artigo 348 da Constituição da Venezuela.

Em segundo lugar, a Assembleia Constituinte não substitui a Asamblea Nacional (o parlamento unicameral da Venezuela), como foi afirmado falsamente, a qual continuará a funcionar e a cumprir suas funções legislativas.

Em terceiro lugar, a convocação de assembleias constituintes é um mecanismo frequentemente usado em países democráticos como solução pacífica para impasses políticos e institucionais como o que acomete a Venezuela atual.

Em quarto lugar, a convocação teve apoio expressivo da população. O número de votantes para a assembleia (mais de 8 milhões) foi superior aos votos que teriam sido obtidos pelo plebiscito informal que a oposição convocou uma semana antes contra a assembleia ( cerca de 7,2 milhões de votos). Observe-se que esse plebiscito é que foi, sim, inteiramente ilegal. Não fosse o clima de violência criado pela oposição, as barricadas que impediram o acesso aos centros de votação e o boicote ostensivo das empresas de transporte, que fizeram locaute no dia da votação, a participação eleitoral poderia ter sido bem superior.

Em quinto lugar, os objetivos estratégicos da Assembleia Constituinte são bem mais amplos do que o suposto desejo de perpetuar Maduro no poder. A Assembleia visa essencialmente constitucionalizar as misiones sociais, bem como estabelecer as bases jurídicas e institucionais de uma economia pós-petroleira. A preocupação fundamental é impedir retrocessos sociais, como os que ocorrem atualmente no Brasil, e criar mecanismos econômicos que levem a Venezuela a ampliar a base produtiva de sua economia, de modo a superar definitivamente a sua dependência dos hidrocarbonetos.

Há de se enfatizar, além disso, que o texto que sairá dessa Assembleia só terá valor jurídico se for aprovado pela população em referendo.

Tal constatação minimiza a crítica da oposição de que o sistema de votação estabelecido para a Assembleia Constituinte criava um “jogo de cartas marcadas”. Na realidade, dos 545 membros da Assembleia, dois terços (364) foram eleitos em base territorial, e um terço (181) com base em setores organizados da sociedade civil, como estudantes, agricultores, sindicatos de trabalhadores, organizações empresariais, representantes das comunidades indígenas, etc. Embora se possa argumentar que tal sistema gera uma distorção na proporcionalidade do voto, é necessário se entender que tal distorção é menor do que a distorção na proporcionalidade que se verifica em muitos países democráticos que adotam o voto distrital.

No Reino Unido, por exemplo, o Partido Liberal tem sido frequentemente prejudicado, pois o percentual de cadeiras que recebe é sempre inferior ao seu percentual de votos. O partido foi sub-representado em todas as eleições para a Câmara dos Comuns no pós-1945: com uma média de 12,4% dos votos, obteve uma média de 1,9% das cadeiras. A diferença mais acentuada ocorreu em 1983, quando recebeu 25,4% dos votos e elegeu apenas 3,5% dos representantes.

Entretanto, as distorções também se dar entre os partidos principais. Por exemplo, nessas ultimas eleições britânicas, os conservadores tiveram apenas 2,4% a mais de votos entre os eleitores que o Partido Trabalhista (42,4% x 40,0%). Contudo, conseguiram eleger 55 representantes a mais que os trabalhistas (317×262). Pela proporcionalidade do voto, tal diferença deveria ter resultado em apenas 15 cadeiras a mais.

Na França moderna, nas duas eleições em que um partido obteve mais de 50% de cadeiras, ele o fez por intermédio de maiorias manufaturadas por distorções: em 1968, os gaullistas (atual RPR) receberam 38% dos votos e 60% das cadeiras; em 1981, o Partido Socialista, com 37% dos votos, ficou com 57% das cadeiras.

Assim sendo, caracterizar a convocação da Assembleia Constituinte como um “golpe” ou uma “ruptura da ordem democrática” é algo de evidente má-fé. Pode-se não concordar com tal convocação, mas não se pode denominá-la de “golpe”. Golpe foi que aconteceu no Brasil.

A alternativa à Assembleia Constituinte parece ser uma guerra civil aberta. Ao menos, a Assembleia Constituinte cria uma oportunidade para que se estabeleça um diálogo que supere o atual impasse político e institucional daquele país.

Lamentável, em todo esse processo, é a posição do governo golpista e sem voto do Brasil. Desde que assumiu ilegitimamente o poder, esse governo fez da suspensão da Venezuela do Mercosul e da derrubada do governo chavista a sua diretriz principal em política externa, atuando como braço auxiliar dos EUA no subcontinente. Ao fazê-lo, o governo golpista apequenou o Brasil e retirou qualquer possibilidade do nosso país atuar como mediador de conflitos na região, como vinha fazendo nos governos do PT.

O empenho do Brasil contra a Venezuela foi de tal ordem que a suspendeu duas vezes do Mercosul. Com efeito, antes da última decisão de utilizar a cláusula democrática do Protocolo de Ushuaia, a Venezuela já estava suspensa, na prática, do Mercosul desde dezembro do ano passado, sob a escusa, sem embasamento jurídico, de que o país não havia internalizado todas as normas do bloco, situação que se verifica em todos os Estados Partes. Assim, a decisão de utilizar a cláusula democrática representa mera peça propagandística contra o governo legitimamente eleito da Venezuela.

Além de empenhado nos retrocessos socais e políticos internos, o governo do Brasil está empenhado também em forçar retrocessos na região.

Nosso principal produto de exportação é hoje o golpe.

Este material foi distribuido pelo Centro de Estudos do Movimento dos Sem Terra- São Paulo

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                      Opinião de uma religiosa, educadora popular

Democracia participativa, protagónica y propositiva.

Las otras democracias no entienden, menos las representativas

Jacquelin Jiménez,rscj Educadora popular

Hermana del Sagrado Corazón de Jesús

Y aquí estuvo otra vez el chavismo!  Esas y esos a quienes les volvió el alma al cuerpo, que estaban desnutridos y se fortalecieron, gracias al presidente Chávez.

Se hizo presente la confianza de esas lumpen que no habían estudiado y ahora miran de frente a sus opresores históricos; apareció la fe de esos que fueron empobrecidos y hoy  creen que pueden dirigir un país porque saben el valor del trabajo; se presentó a la fiesta de la corresponsabilidad  esos obreros, campesinos, pescadores, amas de la vida y amos de casa,  que están convencidos que salvan la patria al cruzar cualquier obstáculo para participar, decidir, elegir, implicarse en los asuntos políticos de esta tierra nuestra.

El chavismo se supera a sí mismo, más allá de las cotidianidades contradictorias, más acá de la necesidad  impuesta por la industria al quitar del mercado la harina de maíz o el arroz. El pueblo, esos que los ciudadanos de las zonas ricas de Venezuela no quieren reconocer y llaman hordas chavistas, tuvo que volver a recorrer con valentía las calles de nuestros campos y parroquias para recordar sobre qué hombros se sostiene este país, aún con la amenaza de ser quemados o golpeados por los antichavistas. En franca hostilidad  el chavismo se hizo presente, votó, y legitimó la convocatoria a Constituyente que había hecho el presidente Nicolás Maduro hace tres meses.

A quienes se creen todo lo que los informativos internacionales dicen de este país, como si habitáramos en guerra, como si no estuviéramos celebrando un cierre más de año escolar, como si no fuéramos a nuestros trabajos con esperanza de mundo mejor, como si no comiéramos cada día aún con lo encarecido de los insumos por parte del capital perverso, le decimo una y otra vez:  La disputa de poder diaria que nos ocupa en este gran país con tensiones,  con nuestras convicciones e historia de vivir viviendo con el gobierno chavista, es una disputa sin igual pues la damos sin balas, con todos los sentidos y afectos colectivos que hemos creado. Damos la pelea seguros de que el poderoso dominador, clasista, blanco, rico, no  es más fuerte que quienes deseamos vivir dignamente, en equidad sin menos precio de la piel, y sin fobia de ninguna naturaleza.

Aconteció este 30 de julio – contra todo pronóstico extranjero, con amenazas del gobierno norteamericano, con gobiernos vecinos que se creen nuestros capataces para reconocernos- la fuerza de la ética comprometida con la responsabilidad comunitaria y el desafío para un gobierno que debe honrar  la fidelidad de este pueblo.

El chavismo estuvo otra vez por aquí en 8.089.320 voluntades por la paz, por la búsqueda de justicia, por el sentido de pertenencia a este país que no dejaremos, aún con el moderno bloqueo de alimentos y medicinas al que nos han sometido. Y estamos seguras que algunos se quedaron en casa o no pudieron ir a votar porque el antichavismo les puso barricadas en sus barrios, les amenazó, les intimidó, pero eso no lo dice la prensa internacional. Esos que acusan de dictador al presidente Nicolás, en sus reductos de resistencia como le dicen, no dejan salir a sus vecinos de sus casas a votar, a comprar insumos, o ir al médico. Si nuestro gobierno actúa ante manifestación con bombas lacrimógenas es represión. Si lo hacen otros gobiernos es dispersión…. Eso es un mínimo ejemplo del uso de las palabras para encubrir verdades.

También ha habido muertes en los enfrentamientos de los opositores más radicales con la guardia nacional. Enfrentamientos, no manifestaciones. Ellos disparan, lanzan bombas y explosivos caseros contra la guardia: Violencia genera violencia. Disparo genera disparo…¿ Cómo defender ese tipo de protesta?

Más allá de las cifras de las votaciones de este 30 de julio, celebramos que votamos en paz, que el chavismo de base no pagó con la misma moneda de la violencia fascista opositora en nuestros barrios, que fue el ambiente de convivencia el que nos movilizó, y que nuestras energías se renuevan y nos reagrupamos en más poder popular. Para la recelosa  visión  única del mundo occidentalizado, que nos impuso una sola manera de hacer democracia, votar por sectores organizados, votar por cada municipio de nuestras ciudades, votar  sin mediar partidos si no la iniciativa propia de haberte postulado, como yo lo hice, no es posible. No, no es posible para este  mundo. Sin embargo, nosotras y nosotros estamos pariendo otro mundo, con dolor, con alegría,  con esperanza.

Fonte: <30 de julio, democracia participativa y protagónica.doc>

 

 

 

La “democrazia” degli Spudorati

E’ difficile tacere dopo aver assistito alla funesta e vergognosa sessione della camera dei deputati che ha votato contro l’ammissibilità di un processo eseguito dallo STF contro il presidente Temer per crimine e corruzione passiva.
Quello che la sessione ha mostrato è stata la vera natura della nostra democrazia che nega se stessa se noi la misuriamo con gli attributi minimi di ogni democrazia che sono il rispetto della sovranità popolare l’osservanza dei diritti fondamentale dei cittadini, la ricerca di un minimo di giustizia nella società e l’incentivo alla partecipazione al bene comune oltre a una etica pubblica riconoscibile. Così com’è essa appare come una farsa e con la negazione di se stessa.
Nemmeno arriva a essere una democrazia a bassissima intensità, essa si è rivelata questa volta, – con nobili eccezioni – un covile di denunciati per crimini, di corrotti e di ladri di strada, che arraffano anche gli spiccioli dei cittadini.
Come avrebbero potuto votare a favore dell’ammissibilità di un processo di un presidente attraverso il Supremo Tribunale Federale se circa il 40 per cento degli attuali deputati rispondono a vari tipi di processi presso la Corte Suprema? E’ in vigore un accordo segreto tra criminali accusati come tali nello stile delle “famiglie” della mafia.
Mai nella mia lunga e faticosa vita ho sentito dire che qualche candidato per finanziare la sua campagna abbia venduto il sitio o si è disfatto di qualche bene ma sempre ha fatto ricorso agli impresari e ad altri arricchiti per finanziare la loro miliardaria elezione. Il CAIXA2 ha preso la cittadinanza e le mazzette favolose sono andate crescendo di campagna in campagna a misura che aumentavano gli scambi di laute prebende.
Questa volta, il palazzo del Planalto si è trasformato in un covile grande tipo Ali-Baba che a cielo aperto distribuiva benefici, prometteva sussidi di milioni o addirittura offriva alti benefici per comprare voti a proprio favore. Soltanto questo fatto meriterebbe una investigazione sulla corruzione aperta e scandalosa agli occhi di coloro che hanno conservato un minimo di etica e di decenza, sopratutto di gente del popolo che è rimasta profondamente spaventata e piena di vergogna.
Effettivamente nessun brasiliano meritava una così grande umiliazione al punto che tanti hanno provato vergogna di essere brasiliani.
I parlamentari inclusi i senatori rappresentano prima di tutto gli interessi corporativi di coloro che hanno finanziato le loro campagne elettorali e solo dopo gli interessi dei cittadini che li hanno eletti.
Abbiamo avuto la distanza temporale sufficiente per poter percepire con chiarezza il senso del golpe parlamentare fatto con la complicità del sistema giudiziario, massiccio appoggio dei media privati: smontare le conquiste sociali a favore della popolazione più povera è sempre stata, dai tempi della colonia a dire del nostro maggiore storico mulatto, Capistrano di Abreu, “ castrata e ricastrata, sanguinante e dissanguata”. E anche allineare il Brasile alla logica imperiale degli USA, anziché di una politica estera “attiva e coraggiosa”.
Le classi oligarchiche (Jessé Souza, ex presidente esonerato dall’IPEA dall’attuale presidente, ci dà il numero esatto, 71.440, miliardari con una rendita mensile generalmente che raggiunge i 600.000 mila reais al mese per la finanziarizzazione dell economia), mai hanno accettato che qualcuno venendo dal piano di sotto e rappresentante dei sopravissuti alla storica tribolazione dei figli e delle figlie della povertà, mai hanno accettato che i figli della povertà occupassero il centro del potere. Sono rimasti spaventati notando la presenza di costoro negli areoporti nei supermercati, luoghi esclusivamente riservati a loro. Dovevano essere deportati al posto che gli spetta e da cui non avrebbero mai dovuto uscir fuori: la periferia e la favela. Non soltanto li vogliono lontani dai loro spazi. Vanno ancora più in là: li odiano, li umiliano e diffondono questo disumano sentimento con tutti i mezzi. Non è il popolo che odia, lo conferma Jessé de Souza, ma i ricchi che li sfruttano e con tristezza e per obbligo legale pagano loro miserabili salari perché pagare, se sempre hanno lavorato gratis come anticamente?
Storici del livello di José Honorio Rodriguez, tra gli altri ha dimostrato che tutte le volte i discendenti e occupanti della Casa Grande percepiscono politiche sociali di trasformazione delle condizioni di vita dei poveri e emarginati fanno un colpo di stato per la paura di perdere il livello scandaloso della loro accumulazione, considerata una delle più alte del mondo. Non difendono i diritti di tutti ma i privilegi di alcuni, cioè i loro.
Il paese mostra segni di stanchezza e di tristezza. Questa sofferenza non sarà vana, è una notte che si porta un’ aurora di speranza che dobbiamo sorpassare questa crisi in direzione di una società, parole di Paulo Freire, “meno malvagia” e dove “non sia così difficile l’amore”.

*Leonardo Boff, columnist del JB è autore de A grande trasformaçᾶo,2015.

Traduzione di Romano Baraglia e Lidia Arato.

The auspicious meeting of Pachamama and Gaia

I want to introduce a book that will be published soon in Brazil: Pachamama and the Human Being, (La Pachamama y el ser humano, Ediciones Colihue, 2012) by Eugenio Raúl Zaffaroni, well known in Brazil’s judicial circles. Zaffaroni is a distinguished Argentinean magistrate, a member of the Supreme Court from 2003 to 2014; and professor emeritus at the University of Buenos Aires.

Pachamama and the Human Being is among the best eco-philosophical contributions written of late. It is in the lineage of the 2015 encyclical, Laudato Si, on the Caring for the Common Home, by Pope Francis, also Argentinean. With admirable scientific and philosophical data, Zaffaroni addresses the question of integral ecology, especially social violence, and in particular, violence against animals.

The most important aspect of his book is its critique of the dominant paradigm, that arose with the founding fathers of the XVI and XVII century modernity that abruptly introduced a profound division between the human being and nature. The natural contract, present from time immemorial in the Occidental and Oriental culures, suffered a fatal and lethal blow.

The Earth stopped being The Magna Mater of ancient times, the Pachamama of the nations of the Andes… the Gaia of the contemporaries, something alive and a generator of life, and was transformed into an inert thing (the res extensa of Rene Descartes): a collection of resources at the disposal of the unlimited voracity of human beings. The formulation by Descartes is classic: the human being is the maître et possesseur of nature, namely, the human being is master and lord of nature. The human being can do with nature what the human being pleases. And humans have done exactly that.

Modern culture was built on the understanding that the human being is dominus, lord and owner of everything. Things do not have intrinsic value. Contrary to what later will be affirmed by the Earthcharter, and with powerful strength by Pope Francis’ encyclical letter, things have value only because they can serve human beings.

This is the project of power, understood as a capacity to dominate everything, based on who holds the most power. In this case, it was the Europeans, who carried out the program of subjugating nature, the invasion and conquest of the world, the colonization of whole nations, the genocide, ecocide and destruction of ancestral cultures. And they did it using the brutal strength of their weapons: the sword and the Cross. And now they accomplish it with weapons capable of extinguishing the human species.

Zaffaroni studies the emergence of this aspect of civilization, and does so with a great bibliographical wealth. Courageously and with great critical freedom, he faces the conceited coryphaeus of modern thinking like Friedrich Hegel, Herbert Spencer, Charles Darwin and Martin Heidegger. I will concentrate on his criticisms of the Hegel of the Geist, (spirit). With his philosophy-ideology Hegel became the main exponent of ethnocentrism. Spencer with his biologism enshrined the White race as superior and considered all other races inferior, which wound up legitimizing colonialism and all types of prejudice.

Zaffaroni touches the question of the animal, understood as a subject of rights. He writes: “in our judgment, the juridical value of the crime of mistreatment of animals is none other than recognition of the right of the animal itself not to be object of human cruelty, for which it is necessary to recognize the character of the animal as a subject of rights”. The author is harsh in demonstrating that “we have turned out to be the biological champions of intra-species destruction and the greatest inter-species predators”. His proposal is clear: “Only by substituting the knowledge of the dominus for the frater we can regain human dignity” and experience brotherhood and sisterhood with all other beings.

Latin America was the first to inaugurate an ecological constitutionalism, including the rights of nature and of Mother Earth in the Constitutions of Ecuador and Bolivia. Previously, and also for the first time, it was Mexico that introduced social rights in her Constitution of 1917. Zaffaroni eulogizes the creative potentialities inherent in the Andean vision of “good living and coexisting” (sumak kawsay) – the harmony of the human being with nature; and as also seen in Gaia – the Earth as a living, self-regulating super organism, always producing and reproducing life. Pachamama and Gaia are two paths that encounter each other “in a happy coincidence of the center and the periphery of planetary power”. Both are carriers of the hope for an Earth Common Home, where all beings are included. They will liberate us from the apocalyptic threats of the end of our civilization and of life.

Zaffaroni brings us a brilliant and convincing perspective, a severe criticism on the one hand, but also one filled with hope on the other. He deserves to be read, studied, and that his vision of an holistic ecology that profoundly integrates all the elements of nature and of the universe be incorporated into our understanding.

Leonardo Boff Theologian-Philosopher Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.