Boa notícia: haverá casados padres

No dia 17 de junto de 2019 o Vaticano emitiu um documento que recomendava ao Sínodo Pan-amazônico a realizar-se em outubro em Roma,  que se considere a ordenação sacerdotal a homens casados, mais idosos e respeitados, especialmente indígenas, para as regiões mais afastadas da Amazônia. O Papa não quer uma Igreja que visita mas uma Igreja que permanece. Essa reivindicação é antiga e foi proposta pela CNBB ao Papa João Paulo II, nos anos 80 de século passado. Ele a interpretou como uma espécie de provocação; por causa disso sempre manteve relativa distância da CNBB.

Fontes eclesiásticas sérias fornecem os seguintes dados: na Igreja entre 1964-2004 70 mil sacerdotes deixaram o ministério. No Brasil sobre 18 mil padres, 7 mil fizeram o mesmo. As CEBs e os ministérios laicais visam a suprir a carência de padres. Por que não acolher os padres já casados e permitir-lhes assumir seu ministério ou então ordenar casados?

Seguramente, no Sínodo Pan-amazônico esta sugestão será acatada. Refere-se também que haverá “um ministério oficial para as mulheres” que não sabemos qual será. Em fim, teremos casados padres, antigo desiderato de muitas Igrejas.

Desde o início do cristianismo a questão do celibato foi polêmica. Desenharam-se duas tendências: uma que permitia padres casados e outra que preferia padres celibatários. Para todos era claro que o celibato não é nenhum dogma de fé. Mas uma disciplina eclesiástica, particular da Igreja ocidental. Todas as demais Igrejas católicas (ortodoxa, siríaca, melquita, etíope etc) e as cristãs não conhecem essa disciplina. Enquanto disciplina, pode ser abolida dependendo, ultimamente, da decisão do Papa.

Jesus se refere a três tipo de celibatários, chamados de eunucos ou castrados (eunoûxoi em grego ). Do último diz:”há castrados que assim se fizeram a si mesmos, por amor do Reino dos céus; quem puder entender que entenda”(Evangelho de Mateus 19,12). Reconhece que “nem todos são capazes de entender isso mas somente aqueles a quem foi dado”(Mt 19,11). Curiosamente na Primeira Epístola a Timóteo, se fala que “o epíscopo seja marido de uma só mulher…deve saber governar bem a sua casa e educar os filhos na obediência e castidade (1 Timóteo 3, 2-4).

Resumindo uma longa e sinuosa história do celibato constata-se que ele inicialmente não existia como lei e se existia era pouco observado. Assim que o Papa Adriano II (867-872) bem como Sérgio III (904-911) eram casados. Entre o século 10. ao século 13. dizem os historiadores, era comum que o sacerdote convivesse com uma companheira. No Brasil colônia era também muito frequente. Outrora, os párocos do campo geravam filhos e os preparavam para serem subdiáconos, diáconos e padres, pois não havia instituições que os preparassem.

Menção à parte merece a não observância do celibato por parte de alguns Papas. Houve uma época de grande decadência moral, chamada de “a era pornocrática” entre 900-1110. Bento IX (1033-104), sagrado Papa com 12 anos, já “cheio de vícios”. O Papa João XII (955-964) sagrado com 18 anos vivia em orgias e em adultérios. Famosos ficaram os Papas da Renascença como Paulo III, Alexandre VI, com vários filhos e Leâo X que com pompa casava os filhos dentro do Vaticano (Ver Daniel Rops, A história da Igreja de Cristo, Porto 1960). Finalmente celebrou-se o Concílio de Trento (1545 e 1563) que impõs como obrigatória a lei do celibato para todos os que ascedessem à ordem presbiteral. E assim permanece até os dias de hoje. Foram criados seminários, onde, desde pequenos, os candidatos são preparados para o sacerdócio, numa perspectiva apologética de enfrentamento da Reforma Protestante e mais tarde, das heresias e dos “erros modernos”.

Somos a favor que haja, como em todas as demais Igrejas, padres casados e padres celibatários, Não como a imposição de uma lei e pré-condição para o ministério, mas por opção. O celibato é um carisma, um dom do Espírito para quem puder vivê-lo sem demasiados sacrifícios. Jesus bem entendeu: é uma “castração”com o vazio que isso representa em afetividade e intimidade homem e mulher. Mas essa renúncia é assumida por amor ao Reino de Deus, a serviço dos outros, especialmente dos mais pobres. Portanto, esta carência é compensada por uma superabundância de amor. Para isso precisa-se de um encontro íntimo com Cristo, cultivo da espiritualidade, da oração e do auto-controle. Realisticamente observa o Mestre:”nem todos são capazes de entender isso” (Mt 19,11). Há os que o entendem. Vivem jovialmente seu celibato opcional, sem se endurecerem, guardando a jovialidade e a ternura essencial, tão solicitada pelo Papa Francisco.

Agora poderemos, finalmente, nos alegrar, por termos também homens casados, bem integrados familiarmente, que poderão ser padres, acompanhando a vida religiosa dos fiéis. Será um ganho para eles e para as comunidades católicas.

Leonardo Boff escreveu O coordenador leigo e a celebração da Ceia do Senhor, Vozes 1982.

La Terra come baule di risorse infinite o come Casa Comune viva?

Con eventi e convegni sull’ecologia si celebra in tutto il mondo e anche tra di noi la Settimana del Semi Ambiente. Logicamente, il semi ambiente non ci soddisfa, perché vogliamo l’ambiente per intero.

Il Papa nella sua enciclica “Laudato si’ – Sulla cura della Casa Comune” (2015) ha superato questo riduzionismo e ha proposto una ecologia integrale che comprenda l’ambiente, il sociale, il politico, il mentale, il quotidiano e lo spirituale. Come affermano grandi esponenti del discorso ecologico: con questo documento, rivolto all’umanità e non solo ai cristiani, Papa Francesco si pone alla testa del dibattito ecologico mondiale. Nella sua esposizione dettagliata segue l’indicazione metodologica della Chiesa della Liberazione e della sua teologia: vedere, giudicare, agire e celebrare.

Basa le sue affermazioni (il vedere) con i dati più certi della Terra e delle scienze della vita; fa una rigorosa analisi critica (giudicare) di ciò che lui chiama il “paradigma tecnocratico” (n.101), produttivista, meccanicista, razionalista, consumista e individualista, il cui “stile di vita non può che portare al disastro” (n.161). Giudicare implica una lettura teologica in cui l’essere umano emerge come custode e guardiano della casa comune (l’intero capitolo II). Mette come filo conduttore le tesi di fondo della cosmologia, della fisica quantistica e dell’ecologia: il fatto che “tutto è collegato e tutti noi esseri umani camminiamo insieme come fratelli e sorelle in un meraviglioso pellegrinaggio… che ci unisce anche con tenero affetto a fratello Sole, sorella luna, fratello fiume e Madre Terra” (n.92). Propone pratiche alternative (agire) con chiedendo urgentemente una “radicale conversione ecologica” (n.5) nel nostro modo di produrre e consumare, “gioendo con poco” (n.222) “con sobrietà consapevole” (n.223) “nella convinzione che tanto meno, tanto più” (n.222). Si sottolinea l’importanza di “una passione per la cura del mondo”, “una vera e propria mistica che ci incoraggia” (celebrare) ad assumere le nostre responsabilità per il futuro della vita.

Attualmente c’è una feroce battaglia tra due visioni riguardanti la Terra e la natura che influenzano la nostra comprensione e le nostre pratiche. Queste visioni sono presenti in quasi tutti i dibattiti.

La visione predominante, che è il cuore del paradigma della modernità, considera la natura come qualcosa destinata a noi, i cui beni e servizi (il sistema preferisce chiamarli “risorse”, gli andini “beni della natura”) sono disponibili per il nostro uso e benessere. L’essere umano è nella posizione tipica di Adamo di chi è considerato “padrone e signore” (Descartes) della natura, al di fuori e al di sopra di essa. Considera la Terra una realtà senza scopo (res extensa), una sorta di baule pieno di beni e servizi infiniti che sostengono anche un progetto di sviluppo/crescita infinito. Da questa attitudine di “dominus” (signore) è sorto il mondo scientifico-tecnico che tanti benefici ci ha portato, ma che allo stesso tempo ha creato una macchina di morte che, con armi chimiche, biologiche e nucleari può distruggere tutti noi e mettere in pericolo la biosfera.

L’altra visione, contemporanea, che ha più di un secolo ma che non è mai riuscita a diventare egemonica, comprende che siamo parte della natura e che la Terra è viva e si comporta come un super organismo vivente, autoregolato, che combina fattori fisico-chimici ed ecologici così sottilmente articolati che mantiene sempre e riproduce la vita. L’essere umano fa parte della natura e di quella parte della Terra che in un processo di altissima complessità ha cominciato a sentire, a pensare, ad amare e a venerare. La nostra missione è prenderci cura di questo grande “Ethos” (in greco significa casa) che è la casa comune: siamo il “frater” (fratello) di tutti. Dobbiamo produrre per soddisfare le esigenze umane, ma in linea con i ritmi di ogni ecosistema, avendo sempre cura che i beni e i servizi possano essere utilizzati con una sobrietà condivisa, in vista delle generazioni future.

In una tavola rotonda con rappresentanti di diversi saperi, si discutevano i modi di proteggere la natura. C’era un capo pataxo del sud di Bahia che ha parlato per ultimo e ha detto: “Non capisco il vostro discorso, tutti vogliono proteggere la natura; io sono natura e proteggo me stesso”. Ecco la differenza: tutti parlavano della natura come di chi è al di fuori di essa, nessuno se ne sentiva parte. L’indigena si sentiva natura. Proteggerla è proteggere se stesso, che è natura.

Questo dibattito è ancora in corso. Il futuro indica verso la seconda visione, quella di guardare la Terra come Gaia, Pachamama, Grande Madre e Casa Comune. Ci stiamo lentamente rendendo conto che siamo natura e difenderla significa difendere noi stessi e la nostra stessa vita. Altrimenti, la prima visione, quella della Terra e della natura come un baule di “risorse infinite”, può condurci ad un cammino senza ritorno.

*Leonardo Boff ha scritto: “Como avere cura della Casa Comune”, Vozes 2018.

Traduzione di M. Gavito & S. Toppi

El respeto es todo

Una de las heridas que más sufre el mundo, también entre nosotros, es seguramente la falta de respeto.

El respeto exige, en primer lugar, reconocer al otro como otro, distinto de nosotros. Respetarlo significa decir que tiene derecho a existir y a ser aceptado tal como es. Esta actitud no convive con la intolerancia que expresa el rechazo del otro y de su modo de ser.

Así un homoafectivo o alguien de otra condición sexual como los LGBT no deben ser discriminados, sino respetados, en primer lugar por ser personas humanas, portadoras de algo sagrado e intocable: una dignidad intrínseca a todo ser con inteligencia, sentimiento y amorosidad; y seguidamente, garantizarle el derecho a ser como es y a vivir su condición sexual, racial o religiosa.

Con acierto dijeron los obispos del mundo entero, reunidos en Roma en el Concilio Vaticano II (1962-1965), en uno de sus más bellos documentos “Alegría y Esperanza” (Gaudium et Spes): «Cada uno debe respetar al prójimo como “otro yo”, sin excepción de nadie» (n.27).

En segundo lugar, el reconocimiento del otro implica ver en él un valor en sí mismo, pues al existir lo hace como único e irrepetible en el universo y expresa algo del Ser, de aquella Fuente Originaria de energía y de virtualidades ilimitadas de donde procedemos todos (la Energía de Fondo del Universo, la mejor metáfora de lo que significa Dios). Cada uno lleva en sí un poco del misterio del mundo, del cual es parte. Por eso entre el otro y yo se establece un límite que no puede ser transgredido: la sacralidad de cada ser humano y, en el fondo, de cada ser, pues todo lo que existe y vive merece existir y vivir.

El budismo, que no se presenta como una fe sino como una sabiduría, enseña a respetar a cada ser, especialmente al que sufre (la compasión). La sabiduría cotidiana del Feng Shui integra y respeta todos los elementos, los vientos, las aguas, los suelos, los distintos espacios. De igual modo, el hinduismo predica el respeto como no-violencia activa (ahimsa), que encontró en Gandhi su arquetipo referencial.

El cristianismo conoce la figura de San Francisco de Asís que respetaba a todos los seres, llamandolos de hermanos y hermanas: la babosa del camino, la abeja perdida en el invierno en busca de alimento, las plantitas silvestres que el Papa Francisco en su encíclica “sobre el cuidado de la Casa Común”, citando a San Francisco, manda respetar porque, a su modo, también alaban a Dios (n.12).

Los obispos, en el documento antes mencionado, amplían el espacio del respeto afirmando: «El respeto debe extenderse a aquellos que en asuntos sociales, políticos y también religiosos, piensan y actúan de manera diferente a la nuestra» (n.28). Tal llamamiento es de actualidad para nuestra situación brasilera, atravesada de intolerancia religiosa (invasión de terreiros de candomblé), intolerancia política con apelativos irrespetuosos a personas y a actores sociales o de otra lectura de la realidad histórica.

Hemos visto escenas de gran falta de respeto por parte de alumnos contra profesoras y profesores, usando violencia física además de la simbólica con nombres que ni siquiera podemos escribir. Muchos se preguntan: ¿qué madres tuvieron esos alumnos? La pregunta correcta es otra: ¿qué padres han tenido? Corresponde al padre y as veces, con la ausencia del padre, compete a las madres ser tambien padres, con  la misión, no siempre facil, de enseñar el respeto, imponer límites y trasmitir valores personales y sociales sin los cuales una sociedad deja de ser civilizada.

Actualmente, con el eclipse de la figura del padre, surgen sectores de una sociedad sin padre y por eso sin sentido de los límites y del respeto. La consecuencia es el recurso fácil a la violencia, hasta letal, para resolver desavenencias personales, como a veces hemos visto.

Armar a la población como pretende el actual Presidente Jair Bolsonaro, además de ser irresponsable, sólo favorece la falta peligrosa de respeto y el aumento de la ruptura de todos los límites.

Por último, una de las mayores expresiones de falta de respeto es hacia la Madre Tierra, con sus ecosistemas superexplotados, con la espantosa deforestación de la Amazonia y con la excesiva utilización de agrotóxicos que envenenan suelos, aguas y aires. Esta falta de respeto ecológico puede sorprendernos con graves consecuencias para la vida, la biodiversidad y para nuestro futuro como civilización y como especie.

Leonardo Boff es ecoteólogo, filósofo y escritor, ha escrito Cómo cuidar de la Casa Común, Vozes 2018.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Um marxista valoriza a encíclica ecológica do Papa Francisco: Michael Löwy

Michel Löwy é mundialmente um dos principais intelectuais do marxismo atual e um destacado impulsionador do ecossocialismo anticapitalista. Diretor de pesquisa emérito do Centre National da Recherche Scientifique e professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Nascido no Brasil, viveu como professor e pesquisador na França.  Como poucos conhece a Teologia da Libertação. Notável é seu livro “A guerra dos deuses: religião e política na América Latina (Vozes 2000). Ultimamente nos brindou com outro brilhante livro: O que é Cristianismo de Libertação (Fundação Perseu Abramo 2016).  Junto com outros fundou a corrente  do Ecosocialismo, sendo autor do Manifesto do movimento. É de um marxismo ético e libertário, mostrando os laços da tradição judaica com a cristã no sentido de uma libertação integral.

“A encíclica Laudato Si’ é uma contribuição de extraordinária importância para o desenvolvimento, em escala planetária, de uma consciência ecológica. Para o Papa Francisco, os desastres ecológicos e a mudança climática não são simplesmente o resultado de comportamentos individuais, mas dos atuais modelos de produção e de consumo”, afirma Michael Löwy   na entrevista que reproduzimos, dada  a  entrevista a Juanjo Sánchez e Evaristo Villar, publicada pela revista Éxodo e reproduzida por Rebelión, 13-06-2019. e agora por IHU on line de 14 de junho de 2019. Por sua clareza e entusiasmo pela mensagem ecológica do Papa Francisco que revela neste escrito e em outros, publicamo-la aqui no blog: Lboff

Eis a entrevista.

Michael, estávamos preparando um novo número da revista ÉXODO, quando chegou em nossas mãos seu esplêndido livro sobre o Cristianismo de libertação. O tema que escolhemos é a profunda crise em que a política está submergida e a necessidade de uma mudança radical da mesma. Esta crise não existe somente na Europa. Como se vive no Brasil?

A principal força da esquerda no Brasil, o Partido dos Trabalhadores, não conseguiu uma conscientização efetiva das classes populares. Tomou algumas medidas importantes para melhorar a condição dos pobres, mas não enfrentou a estrutura oligárquica do país, o poder dos latifundiários e do capital financeiro. Além disso, foi contagiado com a tradicional corrupção dos políticos brasileiros. Mas, a vitória da extrema direita fascista (Jair Bolsonaro) não pode ser explicada só pelos erros dos dirigentes do PT. É parte de um processo planetário de ascensão da extrema direita.

No Brasil, a utilização massiva de fake news, o apoio de igrejas neopentecostais reacionárias e a demagogia anticorrupção permitiram que um partidário da ditadura militar (1964-1985) vencesse as eleições. Bolsonaro é homofóbico, sexista, partidário do extermínio da esquerda e um grande admirador de alguns dos piores torturadores do regime militar: o coronel Brilhante Ustra. Entre suas vítimas, morto sob tortura em 1971, está meu amigo Luis Eduardo Merlino, jovem militante marxista.

A resistência a seu governo já começou a se organizar. Tem em sua liderança jovens mulheres. Seu símbolo é Marielle Franco, jovem vereadora municipal do Rio de Janeiro, socialista, negra, lésbica, assassinada por bandidos há um ano. Apesar de tudo, não podemos esquecer que 45% dos eleitores votaram em Fernando Haddad (PT), o candidato comum de toda a esquerda. Muitos dos que votaram em Bolsonaro já começaram a mudar de opinião. Ficaram conhecidos os escândalos de corrupção que afetam ele e sua família.

Em seu livro, escreve sobre a radicalização introduzida pelo cristianismo de libertação. Acredita que nossa situação atual precisa de uma radicalização anticapitalista? Que mudanças seriam necessárias para uma nova política?

A atual situação na América Latina está marcada por uma terrível ofensiva da ultradireita que tomou o poder na maioria dos países, mediante eleições ou golpes de estado pseudoparlamentares. Existe alinhamento com Trump e o imperialismo estadunidense, neoliberalismo sem freios, destruição do meio ambiente, repressão dos movimentos sociais.

Na resistência que começa a se desenvolver, os cristãos de libertação estão tendo um papel essencial. O objetivo imediato é a defesa das liberdades democráticas e as conquistas populares. Também a oposição às medidas antissociais e antiecológicas de corte neoliberal. Neste movimento de resistência, há correntes que se dão conta que é necessário combater a raiz destes males: o sistema capitalista. O capitalismo é um sistema intrinsecamente perverso que exige sacrifícios humanos para o ídolo “Mercado”.

Precisamos de alternativas antissistêmicas e ecossocialistas. Os cristãos da libertação estão e estarão sem dúvidas no coração desta luta, inspirados pelos escritos de Leonardo Boff, de Frei Betto e da encíclica Laudato Si’, do papa Francisco.

Há condições para esta radicalização social e política? Que obstáculos e que possibilidades enxerga?

O principal obstáculo é o poder ideológico do sistema. Este se difunde através de seu controle dos meios de comunicação, do papel nefasto de muitas igrejas neopentecostais, da influência social da religião do mercado, da alienação consumista e da passividade resignada de amplos setores populares.

É preciso acrescentar como obstáculo as opções de amplos setores da esquerda por políticas de conciliação de classes, de compromissos com a oligarquia, de concessões aos latifundiários e ao capital financeiro em prol da “governabilidade”.

As possibilidades vêm das lutas das organizações populares que desenvolvem formas de conscientização e radicalização sociopolítica. Isto é muito visível em amplos setores da juventude.

Na relação do cristianismo de libertação com a Modernidade europeia se constata uma diferença. Em seu livro, você afirma que o decisivo para este cristianismo não é a modernização, mas a mudança de sociedade e a libertação dos empobrecidos. É “o ponto de vista dos vencidos” que Walter Benjamin reivindicava. Pode expressar o significado desta diferença?

A modernização é concebida como desenvolvimento industrial e crescimento do PIB. Este é o pensamento sobre a modernização imperante nas classes dominantes na América Latina, mas também em setores da esquerda tradicional. Desde seu início, o cristianismo da libertação se posiciona criticamente frente a esta ideologia da modernização, apresentando uma visão muito mais radical do ponto de vista dos explorados e oprimidos, dos pobres, dos negros e indígenas, dos trabalhadores do campo e da cidade. Sua perspectiva não é o desenvolvimento, mas, sim, a libertação, rompendo com as estruturas opressivas do sistema dominante. Para esses cristãos, os pobres são o sujeito histórico desta transformação, os atores de sua própria libertação.

O cristianismo da libertação não conhecia os escritos de Walter Benjamin, mas existe uma evidente “afinidade eletiva” entre a obra dos teólogos da libertação e a concepção benjaminiana da história, a partir da perspectiva dos vencidos e sua proposta de uma aliança da teologia com o marxismo. Sem esquecer seu texto sobre O capitalismo como religião (1921), que tem muito em comum com a denúncia da idolatria do mercado, realizada pelos teólogos da libertação.

A crítica ao capitalismo e a necessidade de superá-lo é um elemento central no cristianismo de libertação. Essa crítica perdeu ou ganhou vigência? Não se tornou também infinitamente mais complexa esta tarefa?

A crítica do capitalismo como sistema intrinsecamente perverso, realizada pelo cristianismo da libertação, me parece mais atual que nunca. Entre outras razões, pela crise ecológica e a mudança climática que ameaçam diretamente a sobrevivência da humanidade neste planeta.

Do ponto de vista ecossocialista, o capitalismo não é só um sistema de exploração, conforme concebe tradicionalmente o pensamento marxista, mas também de destruição do meio ambiente e dos equilíbrios ecológicos. Superar o capitalismo é um imperativo categórico por razões de justiça elementar. É um sistema absurdo no qual algumas dezenas de multimilionários possuem mais riqueza que a metade da humanidade.

Também precisa ser superado porque se trata de uma questão de sobrevivência para a humanidade: o capitalismo não pode existir sem expansão, sem limites. Por isso, a destruição das condições de vida no planeta pertence a sua lógica interna.

Acabar com o capitalismo é uma tarefa complexa e difícil, mas não temos outra saída a não ser levar adiante esta luta antissistêmica. Como dizia Brecht, quem luta pode perder, mas quem não luta, já perdeu.

A crítica ao capitalismo no cristianismo de libertação também se realiza como crítica à idolatria. Essa crítica foi assumida nas igrejas de diversos continentes?

A crítica do cristianismo da libertação à idolatria do capital e do mercado é profundamente radical. Acopla a crítica dos profetas do Antigo Testamento aos cultos idólatras, com suas exigências de sacrifícios humanos, e a crítica marxista ao fetichismo da mercadoria. Marx denuncia o Capital como Baal ou Moloch, ídolos para os quais são realizados sacrifícios de vidas humanas. Enrique Dussel, filósofo e teólogo da libertação, analisou este tema de forma muito interessante em seu livro As metáforas teológicas de Marx.

Nos anos setenta do século XX, esta crítica esteve presente nos documentos e no ensino de importantes setores das igrejas latino-americanas, em especial no Brasil. Aparece também, mas de forma mais limitada, em outros países do Sul (Filipinas, Coreia do Sul) e da Europa (França). Mas, com o pontificado de João Paulo II esta vertente anticapitalista nas igrejas latino-americanas foi condenada, marginalizada e reprimida pelo Vaticano. Não se pode esquecer a tentativa de silenciar Leonardo Boff e a denúncia pelo Santo Ofício (Ratzinger) da teologia da libertação como perigoso erro. Com a eleição de um Papa latino-americano, Bergoglio, esta situação está começando a mudar.

Chama a atenção que você tenha um interesse tão grande na análise da religião, dada sua trajetória marxista e trotskista. Você considera que o cristianismo de libertação é uma fonte importante de inspiração e impulso para a esquerda transformadora? Distancia-se de outros intelectuais, dirigentes e militantes das esquerdas que não lhe concedem relevância?

Tenho muito respeito pela figura de Trotsky, mas minha principal referência política, desde minha juventude no Brasil até hoje, tem sido Rosa Luxemburgo. Esta grande pensadora e lutadora marxista, mártir do socialismo, assassinada há cem anos por paramilitares alemães, é autora do ensaio Igreja e socialismo. Nele apresenta um argumento original: nós, os socialistas, somos os verdadeiros herdeiros dos primeiros cristãos, dos Padres da Igreja, críticos implacáveis da injustiça social e do poder corruptor do dinheiro. As Igrejas que se alinharam com a burguesia contra o movimento operário traíram esta mensagem inicial do cristianismo.

O que ocorreu na América Latina a partir dos anos sessenta do século XX é algo novo: o cristianismo da libertação – do qual também participam setores do clero, das ordens religiosas e até bispos – se situou abertamente no campo dos oprimidos e suas lutas de emancipação. Sem o cristianismo da libertação não é possível explicar o surgimento de um novo movimento operário e campesino no Brasil, a partir dos anos setenta do século XX, as revoluções centro-americanas, dos anos oitenta, e o levante zapatista em Chiapas, em 1994.

Com algum atraso, a esquerda latino-americana percebeu a importância desse fenômeno, ainda que sejam mantidas resistências em certos setores mais dogmáticos, em nome do ateísmo científico.

A esquerda deve tratar com respeito as convicções religiosas e considerar os militantes cristãos de esquerda como parte essencial do movimento de emancipação dos oprimidos. A teologia da libertação também nos ensina a importância da ética no processo de conscientização e a prioridade do trabalho de base com as classes populares, em seus bairros, igrejas, comunidades rurais e escolas.

Além disso, os cristãos radicais são um componente essencial dos movimentos sociais do Sul e das associações europeias de solidariedade com as lutas nos países empobrecidos. Estes cristãos trazem uma contribuição importante para a elaboração de uma nova cultura internacionalista.

Chamou a nossa atenção a valorização muito positiva que você faz em seu livro de personagens que deram grande importância à religião como, por exemplo, os marxistas Walter Benjamin e José Carlos Mariátegui. Que aspectos dos escritos destes dois autores sobre esta questão têm maior atualidade?

Walter Benjamin, judeu de cultura alemã, e José Carlos Mariátegui, peruano, representam duas visões dissidentes no campo do marxismo tradicional. Ambos pertencem a universos geográficos, culturais e históricos muito diferentes, e cada um ignorava os escritos do outro. Walter Benjamin não conhecia nada sobre o marxismo latino-americano e Mariátegui conhecia bem a cultura marxista europeia, mas não lia alemão. Apesar desta distância, têm muitos elementos comuns. Ambos compartilham uma crítica romântica da civilização ocidental moderna e uma rejeição do dogma do progresso na história.

Há também outras convergências: uma adesão pouco ortodoxa às ideias comunistas, simpatia por Trotsky, grande interesse pela obra de Georges Sorel, verdadeira fascinação pelo surrealismo e uma visão “religiosa” do socialismo. Esta afinidade é ainda mais assombrosa porque, como destacamos, não há nenhuma influência de um sobre o outro. Eles contribuíram para repensar em novos termos o curso da história, a relação entre passado, presente e futuro, as lutas emancipadoras dos oprimidos e a revolução.

Uma de suas heresias mais notáveis em relação ao marxismo clássico é efetivamente a reflexão sobre a dimensão “religiosa” do socialismo. Walter Benjamin em suas Teses Sobre o conceito de história (1940) propõe uma aliança entre a teologia messiânica e o materialismo histórico: só juntos poderão vencer a seu adversário, o fascismo. Por sua parte, José Mariátegui, em seu ensaio O homem e o mito, escrevia o seguinte: “A emoção revolucionária (…) é uma emoção religiosa. Os motivos religiosos se deslocaram do céu para a terra. Não são divinos, são humanos, são sociáveis”. Penso que Mariátegui e Walter Benjamin nos ajudam a entender o cristianismo da libertação, tanto no passado como em seu possível futuro.

Uma parte de seu livro aborda as relações entre cristianismo de libertação, ecossocialismo e anticapitalismo. O que pensa da posição do Papa Francisco no âmbito da ecologia?

A encíclica Laudato Si’ é uma contribuição de extraordinária importância para o desenvolvimento, em escala planetária, de uma consciência ecológica. Para o Papa Francisco, os desastres ecológicos e a mudança climática não são simplesmente o resultado de comportamentos individuais, mas dos atuais modelos de produção e de consumo.

Bergoglio não é um marxista e a palavra capitalismo não aparece na encíclica. Mas, fica muito claro que para ele os dramáticos problemas ecológicos de nossa época são o resultado das “engrenagens da atual economia globalizada”, engrenagens que constituem um sistema global. É, segundo suas palavras, “um sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso”.

Quais são, segundo o papa Francisco, estas características “estruturalmente perversas”?. Antes de tudo, é um sistema no qual predominam “os interesses limitados das empresas” e “uma questionável racionalidade econômica”, uma racionalidade instrumental que tem por único objetivo maximizar o lucro. Afirma este Papa: “o princípio de maximização do lucro, que tende a se isolar de qualquer outra consideração, é uma distorção conceitual da economia: se aumenta a produção, interessa pouco que se produza à custa dos recursos futuros ou da saúde do meio ambiente”.

Esta distorção, esta perversidade ética e social, não é própria de um ou outro país, mas, sim, de um “sistema mundial, onde primam uma especulação e uma busca da renda financeira que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente. Assim se manifesta que a degradação ambiental e a degradação humana e ética estão intimamente unidas”. São citações textuais. Penso que fica claro seu pensamento quando relaciona capitalismo, destruição ambiental e ecologia.