Lula y Bolsonaro: confrontación de dos proyectos de Brasil

 

La salida del expresidente Lula de la prisión bajo la presidencia de Bolsonaro ha suscitado una confrontación dramática entre dos proyectos de Brasil. Más que opuestos, son antagónicos. Sin forzar los términos, parece la actualización de la visión del mundo de los gnósticos que leían la historia como una lucha entre el bien y el mal o según “La Ciudad de Dios” de San Agustín, entre el amor y el odio.

Efectivamente el proyecto de Bolsonaro se funda en la difusión del odio a los homoafectivos, a los LGBTI, a los negros a los quilombolas (esclavos negros fugitivos), a los pobres en general y en la exaltación de dictaduras hasta el punto de ensalzar a torturadores notorios. Lula afirma que en su corazón no hay odio sino el amor que lo llevó y lleva a implementar políticas sociales de inclusión de millones de marginados garantizándoles los mínimos vitales.

Hay que reconocer que este escenario proyecta una visión poco dialéctica, escindiendo la historia entre la sombra y la luz, pero infelizmente así es, aunque rechace este tipo de dualismo.

Todo esto sucede en un contexto de ascenso mundial del conservadurismo, del fundamentalismo político y religioso y de la exacerbación de la lógica del capital que se expresa en un neoliberalismo ultra radical, hecho opción axial del gobierno Bolsonaro. Observemos que este radicalismo neoliberal formulado por las escuelas de Viena y de Chicago, de donde viene Paulo Guedes, sustenta que “no hay derechos fuera de las leyes del mercado y que la pobreza no es un problema ético sino una incompetencia técnica, pues los pobres son individuos que, por culpa propia, perdieron la competición con los otros”. De ese presupuesto teórico se deriva que no hay por qué ocuparse de políticas para los pobres. Es un gobierno de ricos para ricos.

Por el contrario, Lula afirma la centralidad de la justicia social a partir de las grandes mayorías víctimas del orden y de la cultura del capital. Propone una democracia social y participativa con la inclusión de esas mayorías. Quiso realizar este proyecto con un presidencialismo de coalición de partidos, lo que considero su gran equivocación, en vez de apoyarse en los movimientos sociales, de donde vino, como lo hizo con éxito el presidente de Bolivia, Evo Morales Ayma, recientemente depuesto por un golpe clasista y racista.

En Brasil, el racismo y la intolerancia, que siempre estaban ahí pero recogidos en el armario, han irrumpido explícitamente. Se ocultaban bajo el nombre de “cordialidad del brasilero”. Pero, como bien observó Sérgio Buarque de Hollanda (en Raizes do Brasil) esta cordialidad puede significar tanto llaneza y amor, como violencia y odio, puesto que ambas se albergan en el corazón, por eso “cordial”.

Surfeando en esta onda nacional e internacional se eligió a Jair Bolsonaro y se detuvo y condenó al ex-presidente Lula, mediante el lawfare (utilización de la ley para perjudicar el interrogado) por el cuerpo judicial que llevaba adelante el Lava Jato.

Jair Bolsonaro, incluso después de elegido, utiliza con frecuencia las “fake news”, la mentira directa, y gobierna con sus hijos de forma autoritaria y a veces burda.

Lula aparece como un reconocido carismático que habla al corazón de las masas desesperanzadas, proponiendo una democracia social, el Estado de derecho y la urgencia de recuperar lo que ha sido desmantelado.

Todo depende de en qué estilo se dará esta confrontación. Bolsonaro evita la confrontación directa, pues sabe de sus pocas luces. Se la ha confiado a los ministros de Justicia, Sérgio Moro,coma y de Hacienda, Paulo Guedes, mejor pertrechados.

Lo que Lula, a mi modo de ver, necesita es evitar una confrontación en el mismo nivel de Bolsonaro. Es importante sacar a la luz lo que Bolsonaro oculta y no puede usar: la crudeza de los hechos, la tragedia que asola a las grandes mayorías humilladas y ofendidas. No cabe un discurso de respuesta a Bolsonaro, pues él mismo es autodestructivo, sino hablar de forma positiva al corazón de las masas destituidas, denunciando objetivamente las maldades perpetradas por medidas excluyentes, contrarias a los derechos y a la propia vida.

Para resumir un largo razonamiento: sería inteligente asumir la actitud del mejor hombre que ha dado Occidente, el pobre y humilde Francisco de Asis. Con sentido realista sabía que la realidad es contradictoria, compuesta de lo dia-bólico (lo que divide) y de lo sim-bólico (lo que une). No recalca el lado oscuro de nuestra realidad, sino que fortalece de tal forma el lado luminoso para que este inunde la mente y el corazón. Proclama: “donde haya odio, que lleve yo amor/ donde haya discordia, que yo lleve unión/ donde haya desesperación que lleve yo esperanza/ donde haya tinieblas, que lleve yo la luz.

Esta opción supone la convicción de que ningún gobierno puede perdurar asentado en el odio, en la mentira y en el desprecio a los humildes de la Tierra. La verdad, la recta intención y el amor desinteresado pronunciarán la última palabra. No Caín sino Abel, no Judas sino Jesús, no Brilhante Ustra sino Vladimir Herzog.

*Leonardo Boff es teólogo, filósofo y escritor y escribió: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2019.

Traducción de María José Gavito Milano

Coletivo Bereia: checar informações,verdadeiras,imprecisas,enganosas e falsas

Vivemos todos num tempo novo o das mídias digitais sociais. Nelas tudo pode ocorrer, fake news, falsificações, distorções, campanhas difamatórias e também a comunicação de realidades boas que ocorrem e são notificiadas por estes meios. Precisamos de discernimento, especialmente face às fake news que podem se multiplicar aos milhares até aos milhões. É difícil checar se essa informação é falsa, segura e verdadeira. Um coletivo chamado Bereia, altamente qualificado, se propõe a ajuda realizar este checagem em benefício dos interessados. Com isso poderemos não ser mais vítimas de falsidades e de meias verdades etc. Aconselho seguirem esse Coletivo Bereia e através de seu link no final deste texto, entrar em comunicação com  ele e se assegurar da qualidade das informações: Lboff

                                  Proposta Bereia

                           Bereia – Informação e Checagem de Notícias.
Separar o Joio. Guardar o trigo

Uma iniciativa de organizações, profissionais, pesquisadores e estudantes de comunicação vinculados ao contexto da fé cristã.

Os de Bereia dedicaram-se a avaliar se tudo correspondia à verdade. – Atos 17:11

Conhecer e comunicar a verdade é urgente em um tempo marcado pela chamada “pós-verdade” (prática de formação da opinião pública nos quais os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais) e pela ampla circulação de fake news (notícias falsas), de desinformação e de informação manipulada, em especial com objetivos políticos. Nesse sentido, a verdade liberta pessoas e grupos das amarras de conteúdos mentirosos, caluniosos e promotores de intolerância em todas as suas formas.

O nome Bereia tem um caráter simbólico e faz parte de uma narrativa bíblica do Novo Testamento. Conforme o livro de Atos dos Apóstolos 17.10-15, a mensagem de Paulo e seus companheiros foi bem recebida na sinagoga judaica de Bereia, localizada na Grécia, na região da Macedônia. O texto registra um elogio aos bereanos, homens e mulheres, que mantiveram não apenas uma abertura em ouvir as Escrituras, mas de examiná-la.

Os judeus que moravam em Bereia tinham a mente mais aberta que os de Tessalônica e ouviram a mensagem de Paulo com grande interesse. Todos os dias, examinavam as Escrituras para ver se Paulo e Silas ensinavam a verdade. Como resultado, muitos judeus creram, assim como vários gregos de alta posição, tanto homens como mulheres” (Novo Testamento).

Nesse espírito e a partir da iniciativa da organização Paz e Esperança Brasil, um grupo de jornalistas se reuniu e criou o Coletivo Bereia, responsável por este site (Bereia – Informação e Checagem de Notícias) e pelas contas associadas nas redes sociais. Importantes parcerias institucionais foram estabelecidas no processo de construção dessa proposta. Hoje, Bereia conta com o apoio das seguintes organizações: Agência Latino Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), Associação Católica de Comunicação – Brasil (SIGNIS), Associação Mundial para a Comunicação Cristã – América Latina (WACC-AL, na sigla em inglês), Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (GP Comunicação e Religião – INTERCOM) e Paz e Esperança Brasil.

Objetivo

Checar fatos publicados diariamente em mídias religiosas e em mídias sociais brasileiras que abordem conteúdos sobre religiões e suas lideranças no Brasil e no exterior. Bereia oferecerá pluralidade de pontos de vista e transparência, com base em sua política editorial, para que o/a leitor/a tenha condições de avaliar se a informação está correta e contextualizada com a realidade dos fatos. Não serão checadas opiniões ou material analítico, apenas material informativo (notícias).

Métodologia de Checagem

Diariamente, a equipe do Bereia acompanha sites e portais (agências) de notícias gospel. Acompanha também pronunciamentos e declarações de políticos e autoridades cristãs de expressão nacional (líderes da Bancada Religiosa e Ministros de Estado) veiculados pelas mídias noticiosas, pelas mídias sociais destas personagens e/ou expostos no Parlamento. Será verificado se os conteúdos veiculados são informativos (verdadeiros) ou desinformativos (imprecisos, enganosos, inconclusivos e falsos).

Para isso, adotamos um protocolo com cinco passos de checagem:

  1. Identificação de matérias e pronunciamentos ou declarações veiculados em mídias e expostos no Parlamento que, pelas características do título e da chamada, demandam verificação (afirmações absolutas, ufanismo, casos inusitados) por representarem relevância (interesse público, ou que afetem o maior número de pessoas possível) relacionada à presença de grupos religiosos no espaço público e/ou tenham tido destaque nas mídias noticiosas.
  2. Pesquisa sobre a fonte original (quando existir).
  3. Pesquisa sobre o que foi publicado sobre o assunto/tema.
  4. Pesquisa em fontes oficiais e alternativas (incluindo pessoas, grupos, instituições/organizações/associações/movimentos sociais citados) para confirmação, identificação de lacunas e de distorções ou para refutação do conteúdo. Tudo será relatado no texto a ser produzido pela equipe do Bereia com a devida indicação do acesso dos leitores/as a estas fontes.
  5. Contextualização do conteúdo checado, com busca de referencial bibliográfico e contato com especialistas, quando for o caso.
  6. Classificação do conteúdo como Verdadeiro, Impreciso, Enganoso, Inconclusivo ou Falso:

VERDADEIRO – A notícia, o pronunciamento ou a declaração são corretas e coerentes com os fatos apurados.

IMPRECISO – A notícia, o pronunciamento ou a declaração oferecem conteúdos verdadeiros, mas não oferecem dados comprováveis, não consideram diferentes perspectivas e não contextualizam a situação em questão. Isto pode levar o público a julgamentos errôneos sobre determinados casos, pessoas, grupos, instituições/organizações/associações/movimentos sociais. É desinformação e necessita de complementações e contextualização.

ENGANOSO –A notícia, o pronunciamento ou a declaração oferecem conteúdos de substância verdadeira, mas a apresentação deles é desenvolvida para confundir. Os títulos e imagens que não correspondem ao que é exposto na íntegra, teores distorcidos que instigam julgamentos negativos de uma pessoa, de um grupo ou de instituição/organização/associação/movimentos sociais, ou invocam sensacionalismo para conquista de audiência. Representa desinformação e necessita de correções, substância e contextualização.

INCONCLUSIVO – A notícia, o pronunciamento ou a declaração oferecem conteúdos de substância informativa mas não apresentam todos os elementos necessários para serem classificados como verdadeiros. Além disso, trazem evidências na redação para serem avaliados como desinformação. São matérias que demandam cuidado, atenção e acompanhamento em torno da conclusão.

FALSO – A notícia, o pronunciamento ou a declaração não oferecem informações, não têm substância factual, caracterizando-se como boato, conteúdo fabricado para parecer informação. Os dados disponíveis sobre a situação em questão contradizem objetivamente o que é apresentado. É desinformação.

Política Editorial

Será checado apenas conteúdo que se apresente como informação (conteúdo noticioso baseado em fatos e apresentação de ideias organizadas e ordenadas baseadas em dados) que tenha relevância (interesse público, ou que afetem o maior número de pessoas possível) relacionada à presença de grupos religiosos no espaço público e/ou tenham tido destaque nas mídias noticiosas. Nesse sentido, não será verificado material opinativo na forma de artigos, editoriais, resenhas.

Bereia entende como desinformação: informação comprovadamente falsa, inconclusiva, enganosa e imprecisa, que é criada, apresentada e divulgada para obter vantagens econômicas ou para enganar deliberadamente, podendo prejudicar o interesse público.

A checagem e a classificação do conteúdo são realizadas por um/a jornalista e um/a estagiário/a e são revisadas por um/a editor/a. Se necessário, o Conselho Editorial será consultado. O objetivo é a transparência no serviço oferecido: as classificações serão apresentadas de forma clara e objetiva. Caso haja algum erro, ele será corrigido e isto será explicitado no material disponível no site, sendo disponível o acesso ao material original e ao corrigido.

Bereia espera que os/as leitores/as participem ativamente desta proposta. Primeiramente, verificando a própria atuação do Coletivo por meio do acesso às fontes de checagem que serão divulgadas a partir do compromisso estabelecido com a transparência. Também, indicando conteúdos para que Bereia realize a checagem. Para isso haverá espaços específicos oferecidos aos/às leitores/as.

No que disser respeito ao conteúdo, Bereia é apartidário, não realiza militância, e não defenderá, seja com checagens específicas, seja com a produção de textos, qualquer discurso, teologia, ideologia ou tendência político-partidária. Como um serviço jornalístico ético e transparente, Bereia apresentará perspectivas diversas sobre os fatos apurados.

RECURSOSO FINANCEIROS

Bereia dispõe de pequeno recurso financeiro alcançado com apoiadores-simpatizantes para criação do website e funcionamento inicial. O principal aporte se dará pela atuação de voluntários da equipe de mineração de dados e na checagem dos fatos e pela adesão de doadores.

Bereia é transparente quanto à abertura do recebimento de doações para a realização deste serviço. A aceitação de doações não implica influência de doadores/as sobre os conteúdos checados. Os recursos serão geridos pela Diretoria e pelo Conselho Fiscal do Paz e Esperança Brasil, organização responsável institucionalmente por esta iniciativa.

Conselho Editorial

Conheça as pessoas que colaboram para garantir que o conteúdo publicado seja claro e verdadeiro.

Ver perfis

https://twitter.com/coletivobereia/status/1195077824903892992?s=20

 

Lula e Bolsonaro: o confronto de dois projetos

A liberação do ex-presidente Lula da prisão em tempos do presidente Bolsonaro suscitou um confronto dramático entre dois projetos de Brasil. Mais que opostos, eles são antagônicos. Sem forçar os termos, parece a atualização da visão do mundo dos gnósticos que liam a história como luta entre o bem e o mal ou segundo “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho, entre o amor e o ódio.

Efetivamente o projeto de Bolsonaro se funda na difusão de ódio aos homoafetivos, aos LGBTI, aos negros e aos pobres em geral e na exaltação de ditaduras ao ponto de magnificar notórios torturadores. Lula afirma que nele não há ódio mas amor que o levou e leva a implementar políticas sociais de inclusão de milhões de marginalizados garantindo-lhes os mínimos vitais.

Há que se reconhecer que este cenário projeta uma visão pouco dialética, cindindo a história entre a sombra e a luz Mas infelizmente assim é, embora rejeite este tipo de dualismo.

Tudo isso acontece num contexto de ascenso mundial do conservadorismo, do fundamentalismo político e religioso e da exacerbação da lógica do capital que se expressa num neoliberalismo ultra radical, feito opção axial do governo Bolsonaro. Observemos que este radicalismo neoliberal formulado pela escola de Viena e de Chicago, donde vem Paulo Guedes, sustenta que “não há direitos fora das leis do mercado e que a pobreza não é um problema ético mas uma incompetência técnica, pois os pobres são indivíduos que, por culpa própria, perderam a competição com os outros”. Desse pressuposto teórico, se deriva que não há porquê ocupar-se com políticas para os pobres. É um governo de ricos para ricos.

Contraditoriamente, Lula afirma a centralidade da justiça social a partir das grandes maiorias vitimadas pela ordem capitalista. Propõe uma democracia social e participativa com a inclusão dessas maiorias. Quis realizar este projeto com um presidencialismo de coalizão de partidos, o que considero seu grande equívoco, ao invés de apoiar-se nos movimentos sociais, donde veio, como o fez com sucesso o presidente da Bolívia, deposto por um golpe classista e racista, Evo Morales Ayma.

No Brasil, o racismo e a intolerância que sempre estavam aí mas recolhidos no armário irromperam explicitamente. Eles se ocultavam sob o nome de “cordialidade do brasileiro”. Mas como bem observou Sérgio Buarque de Hollanda (em Raizes do Brasil) esta cordialidade pode significar tanto lhaneza e amor, quanto violência e ódio, posto que ambos se albergam no coração, por isso “cordial”.

Surfando nesta onda nacional e internacional se elegeu Jair Bolsonaro e se condenou e prendeu o ex-presidente Lula, mediante a lawfare, pelo corpo judiciário que levava avante a Lava Jato.

Jair Bolsonara, mesmo depois de eleito, utiliza-se com frequência dos fake news, da mentira direta e governa com os filhos de forma autoritária e por vezes boçal.

Lula comparece como um reconhecido carismático que fala ao coração das massas desesperançadas, propondo uma democracia social, o Estado de direito e a urgência de resgatar o que foi desmantelado.

Tudo depende em que estilo se dará este confronto. Bolsonaro evita o confronto direto, pois sabe de suas poucas luzes. Confiou-o aos ministros da Justiça, Sérgio Moro e o da Fazenda, Paulo Guedes,  melhor apetrechados.

O que Lula, ao meu ver, precisa evitar é o confronto no mesmo patamar de Bolsonaro. Importa por à luz o que Bolsonaro oculta e não pode usar: a crueza dos fatos, a tragédia que assola as grandes maiorias humilhadas e ofendidas. Não cabe um discurso de resposta a Bolsonaro pois ele mesmo é autodestrutivo. Mas de forma positiva falar ao coração das massas destituídas, denunciando objetivamente as maldades perpetradas por medidas excludentes, contrárias aos direitos e à própria vida.

Para resumir um longo arrazoado: inteligente seria assumir a atitude do melhor homem que o Ocidente gerou: o pobre e humilde Francisco de Assis. Realisticamente sabia que a realidade é contraditória, composta do dia-bólico (o que divide) e do sim-bólico (o que une). Não recalca o lado escuro de nossa realidade. Mas fortalece de tal forma o lado luminoso para que ele inunde a mente e o coração. Proclama: “onde houver ódio, que eu leve o amor/onde houver discórdia, que eu leve a união/ onde onde houver desespero que eu leve a esperança/ onde houver trevas, eu leve a luz.”

Esta opção supõe a convicção de que nenhum governo pode perdurar assentado no ódio, na mentira e no desprezo dos humildes da Terra. A verdade, a reta intenção e o amor desinteressado pronunciarão a palavra final. Não Caim mas Abel, não Judas mas Jesus, não Brilhante Ustra mas Vladimir Herzog.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

 

 

Inteligência Artificial, potência e terror: Antonio Martins

Um dos grandes desafios que a inteira humanidade deverá enfrentar proximamente e já está em algumas áreas enfrentando é a novíssima realidade da Intelêngia Artificial. Ela pode implicar numa grande libertação, passando  do regime da necessidade para o regima da liberdade. Mas pode significar também um terror e uma ameaça ao fim da espécie humana. Trata-se de uma forma de inteligência que supera em muito a humana. Ela poderá ocupar nossas mentes e tomar decisões superiores àquelas que nós comumente tomamos. Se grupos inimigos da vida se apropriarem deste tipo de inteligência poderão provocar um armagedom que significará não só a eliminação de toda a vida no planeta Terra. Esta continuará a girar ao redor do sol, mas sem nós.

Entre as muitas publicações nesta área escolhemos esta de um especialista, Antonio Martins, publicada no dia 27 de julho de 2019. Ela numa linguagem esclarecedora nos inicia neste mundo que simultaneamente è “potência e terror” .

Inteligência Artificial, potência e terror

      Antonio Martins

“Quando até os defensores icônicos do capitalismo manifestam incertezas e receios com os rumos do sistema e o futuro do mundo, vale a pena estar muito atento. Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, Eric Schmidt, ex-executivo-chefe da Google e Alphabet e Daniel Huttenlocher, reitor da área tecnológica da Universidade de Cornell acabam de publicar uma análise sobre as perspectivas e riscos da Inteligência Artificial (IA). Sóbrio, o texto, que estará na edição impressa de agosto da revista The Atlantic (mas já pode ser acessado online) não é alarmista na forma – e não sugere, nem de longe, ação de resistência. Chega a dizer que o advento da IA é “irrefreável” e pode ser “uma das revoluções mais significativas – e de maior alcance – na história da humanidade”. Mas quais os seus sentidos? Ao tentar responder a esta pergunta, os autores não escondem seu temor”.

“Kissinger, Schmidt e Huttenlocher são claros. O desenvolvimento da IA equivale a “transferência crescente de decisões, de seres humanos para máquinas”. Ao processar um volume de informações imensamente maior que o cérebro humano, os sistemas dotados de Inteligência Artificial podem “descobrir associações entre dados e ações, oferecendo soluções que são, para nós, difíceis ou impossíveis”. O resultado, nas palavras dos próprios autores, é que “este processo cria novas formas de automação e, com o tempo, poderá produzir formas inteiramente novas de pensamento”.

“Este passo já foi dado, em domínios aparentemente banais. Computadores programados para jogar xadrez haviam se tornado superiores aos campeões mundiais há vinte anos (vale ler a história dos confrontos Garry Kasparov x Deep Blue). Recentemente, porém, um passo muito mais espantoso foi dado. Máquinas associadas à Inteligência Artificial foram induzidas a aprender sozinhas a jogar xadrez. Ao invés de orientado por grandes jogadores (como sempre ocorrera antes) seu processo de aprendizado baseou-se em conhecer as regras; e desenvolver, por si, estratégias próprias. O método é rudimentar: tentativa e erro. Mas a capacidade de processar informações, descobrir e desenvolver padrões, é tão colossal que o AlphaZero, programa que realizou a proeza, tornou-se – em apenas 24 horas – capaz de vencer qualquer ser humano quando os mais sofisticados programas para jogar xadrez criados até então”1.

“O que acontece quanto ferramentas deste tipo são transportadas de tabuleiros inofensivos para as relações humanas, tão complexas e desiguais? Kissinger, Schmidt e Huttenlocher lembram que algumas aplicações podem, teoricamente, resultar em grandes ganhos – relacionados, por exemplo, à saúde e longevidade. Mas chamam atenção para ao menos duas aplicações em que os desequilíbrios resultantes podem ser catastróficos”.

“A primeira é a guerra – inclusive nuclear. Um armagedom foi evitado até agora, dizem eles, graças ao princípios do equilíbrio do terror e da dissuasão. As potências atômicas com capacidade de dizimar seus possíveis adversários (e o mundo) hesitam em fazê-lo por saberem que a consequência inevitável será sua própria, e idêntica, devastação. Mas e quando a Inteligência Artificial for aplicada à gestão dos arsenais atômicos? Que inusitadas estratégias – incluindo simulações, chantagens, emboscadas – os sistemas tentarão, reciprocamente, desenvolver para liquidar os do inimigo? Quais as consequências (não para as máquinas, mas para bilhões de humanos e o próprio planeta) de um passo em falso capaz de desencadear a grande avalanche”?

“A segunda consequência são as relações humanas – em especial a Educação. O advento de assistentes pessoais (como o Alexa e o Google Home) e a popularidade do celular entre as gerações mais jovens permitem antever um futuro, breve e aterrador, em que “a principal fonte de interação e conhecimento não serão os país, membros da família, amigos ou professores – mas ‘companheiros’ digitais”.

“Ocorre que os algoritmos de IA, embora ampliem o repertório de informações, também “estreitam as escolhas e multiplicam o poder de suprimir ideias novas ou desafiadoras”. Podem além disso, admitem os autores, “diminuir a capacidade inquisitiva”, já que a busca de conhecimento será progressivamente transferida para máquinas; abrir possibilidades muito mais vastas para o terrorismo de Estado e de grupos (pense na sabotagem digital das redes de infraestrutura); enfraquecer os sistemas democrático por meio de métodos como os da Cambridge Analytica”.

“Nos breves parágrafos propositivos do texto, Kissinger, Schimdt e Huttenlocher são muito menos profícuos e instigantes que nos trechos de alerta. Partidários da hegemonia capitalista, eles parecem descrer da possibilidade de ação transformadora sobre o mundo. Falam em trivialidades como “exigir envolvimento humano em ações onde há apostas altas em jogo (como a interpretação de exames médicos); fazer simulações e testes para testar a adequação da IA aos valores humanos; desenvolver um novo campo de escrutínio – a “ética de IA”. Parecem desconsiderar que vivemos sob um sistema em cuja essência estão a disputa, a rivalidade e a violência”.

“Ainda assim, o texto lança uma provocação perturbadora e indispensável. A Inteligência Artificial é um dos múltiplos campos em que o desenvolvimento das forças produtivas desafiará, muito em breve, relações sociais, comportamentos e visões de mundo consolidadas há séculos (pense também, por exemplo, na edição genética, nas nanotecnolgias, nas armas autônomas). Se o ambiente político e o controle do poder continuarem a se deteriorar, o resultado pode ser a desumanização radical. Reflita sobre isso quando se julgar desanimado pelos reveses da democracia brasileira. O desafio é mais vasto do que, às vezes, supõe nosso vão pessimismo”.

“Em 2015, outro programa – o AlphaGo – tornou-se, pela primeira vez, capaz de vencer seres humanos também no Go, outro jogo de lógica e estratégia, com variáveis e alternativas imensamente superiores às do xadrez”

Fontes.

https://outraspalavras.net/blog/inteligencia-artificial-potencia-e-terror/

https://www.alainet.org/es/node/201147