Josimo e Adelaide: assassinatos e narrativas no coração do conflito

Padre Josimo foi meu aluno de teologia em Petrópolis. Sempre recatado mas seus olhos brilhavam. Como estudante já frequentava as comunidades periféricas e pobres da cidade. Como padre foi morar em São Sebastião do Tocantins, no Bico do Papagaio, região de conflito social. Adelaide era uma religiosa das Irmãs do Amor Divino,nascida em Garibaldi no Rio Grande do Sul. Sempre comprometida com os pobres e fazendo sua catequese nos meios populares. Não a conheci mas suas co-irmãs falam dela como apoiava os ameaçados de morte. Na rodoviária de Eldorado do Pará foi assassinada em 14 de abril de 1985, pelas 15 horas, viveu sua Páscoa; Josimo, em 10 de maio de 1986, pelas 12:30 horas foi alvejado e duas hora depois partiu.São nossos mártires pela causa dos pobres, pelas suas vidas ameaçadas e por seus direitos. O solo nestas regiões do Norte está cheia de sangue de camponeses e camponesas assassinados, de religiosas e religiosas, como a Irmã Adelaide e a Irmã Doroty Stang e de padres. De seu nasce deverá despontar um dia, que só Deus sabe quando ocorrer, o sol da justiça, da equidade e da fraternidade LBoff

Ricardo Rezende Figueira[1]

Introdução

Josimo Moraes Tavares e Adelaide Molinari, quando foram assassinados, tinham como realidade circundante, a disputa fundiária e política e a transição da ditadura para a chamada Nova República. Estavam imersos em um contexto de conflito social de grande proporção e muitas expectativas. Foram capazes de compreendê-lo? Cada um, no seu jeito e na sua forma de se relacionar com o mundo, deu sua resposta e a interpretaram, posteriormente, os seus amigos ou inimigos e a igreja local, com seus respectivos filtros. E, para alguns, ambos se tornaram símbolos da resistência em tempos sombrios ou, para outros, pode ter havido tentativa de criminalizá-los ou de tirá-los de seu contexto.

Os fatos e as suas narrativas

Era meados dos anos 1980. Josimo, com olhos vivos, ou, melhor, dirá Pedro Casaldáliga, o então bispo de São Félix do Araguaia, “os olhos profundos, cansados de ver demais” (1993: 11), tinha 33 anos. De baixa estatura, sorriso fácil, o bigode e a barba desalinhados, uma certa timidez, óculos grandes – mal assentados -, Josimo se vestia com roupas simples, escrevia poemas, cantava, utilizava sandálias de borracha, não levantava a voz ou perdia o controle nas emoções, com a paciência de quem sabia que a luta era grande. Eu o conheci. Era o padre que morava no Bico do Papagaio, em São Sebastião do Tocantins, extremo norte do então estado de Goiás, hoje Tocantins, a 514 km de Conceição do Araguaia, onde eu residia. Ele era estimado pelos mais pobres, especialmente por quebradoras de coco e posseiros; e odiado por alguns que representavam a oligarquia local.

Conheci Josimo nas celebrações, em encontros e reuniões da Comissão Pastoral da Terra do Araguaia-Tocantins no antigo norte de Goiás, em Porto Nacional e Miracema do Tocantins, e na intimidade da casa paroquial, primeiro em Wanderlândia, depois em São Sebastião do Tocantins. Conheci-o em celebrações vivas de rezas e de missas, com uma leitura mais contemporânea da bíblia; como organizador de resistência sindical e política. Envolvido com a questão da negritude e preocupado com as luta das mulheres.

Em Curionópolis, no Sul do Pará, a mais ou menos 375 km ao norte de Conceição do Araguaia, vivia uma freira, irmã Adelaide Molinari, 47 anos. Ela se vestia, como as demais freiras de sua comunidade, com o hábito simplificado e sem o véu – uma camisa gris, uma saia preta e uma sandália de couro. Conforme uma senhora, que a teria conhecido, a freira seria “maravilhosa”, “amiga”, “carinhosa”, “agradável”, “meiga”, “doce”, “boníssima conselheira” e jamais a viu “alterar a voz” (PLETSCH e FERNANDES, 2014 72-73). Não a conheci pessoalmente. Conheci as irmãs de sua comunidade e a admiração que têm ainda por sua memória.

Josimo não foi criado pelo pai, Bartolomeu, que se separou da esposa quando ele tinha três anos. Sua mãe era Olinda Morais Tavares, sempre magra e frágil de corpo. Olinda, mal nasceu, com três dias, foi doada pela mãe, sem o pai saber, para ser criada por uma família ligada ao comércio das castanhas em área rural de Marabá. Quando o pai soube, havia sido registrada como filha na outra família. E Olinda só conheceu a própria mãe com 12 anos. Queria ser freira e, contra a sua vontade, com apenas 13 anos, casaram-na. Teve uma filha que morreu ainda menina, Ana Maria, e Josimo, que nasceu na beira do rio Taurizinho, em Marabá, enquanto ela lavava as roupas em um Sábado Santo, 4 de abril de 1953. Não tinha lavado na véspera, por ser Sexta-Feira da Paixão, que não era dia de trabalho, explicou (MENDONÇA, 08/05/1988).

Adelaide nasceu em 2 de fevereiro de 1938, na área rural de Garibaldi, Rio Grande do Sul, a terceira, entre 11 irmãos, filha de Salvador e Cecília, pequenos agricultores que a criaram e lhe deram segurança e estabilidade. Uma família religiosa de tradições conservadoras. Com 16 anos, com apoio dos pais, ela foi morar com as irmãs Filhas do Amor Divino e acabaria por ingressar na vida religiosa feminina.

Ele foi para o seminário menino ainda, fez seus estudos no sudeste, tornou-se aluno de Leonardo Boff, foi ordenado sacerdote em Xambioá, local conhecido pela repressão à guerrilha do Araguaia. Trabalhou em Wanderlândia e foi transferido para São Sebastião do Tocantins. Foi preso pela polícia, caluniado, desprezado pela cor da pele, pelas opções, incompreendido por parte do clero de sua diocese, Tocantinópolis, e era ameaçado. Ela, religiosa das Filhas do Amor Divino, trabalhava na diocese de Marabá e morava em uma casa com outras religiosas. Ambos, próximos aos pobres, participavam de alguma forma de suas lutas, animavam suas celebrações, sabiam das dores dessa gente, conheciam suas histórias e se compadeciam.

Quando se lê o que as suas companheiras irmãs Zoeli e Angelita (PLETSCH e FERNANDES, 2014) escreveram sobre ela, a dimensão do conflito é menos clara na sua vida. Teve certo contato com a teologia da libertação ao se preparar para a vinda à missão no Pará e se inseriu entre os mais sofridos, mas sem a liderança de um Josimo na resistência e na organização fora do espaço claramente eclesial. Não há informações de que tenha participado da Comissão Pastoral da Terra ou de luta sindical ou partidária, mas esteve especialmente nas ações inter eclesiais e tinha preocupação com a educação. Por exemplo, as duas religiosas que escreveram o livro sobre Adelaide, registraram que, minutos antes do crime, em 14 de abril de 1985, na rodoviária de Eldorado do Carajás, “Arnaldo Delcídio Ferreira se aproximou e conversava com ela sobre possibilidades da criação de uma escola itinerante para os filhos dos posseiros, da região (PLETSCH; FERNANDES, 2014: p. 71)”. Ora, Adelaide foi, por um tempo, vizinha de Arnaldo, sindicalista ameaçado e em situação de conflito pela terra, tornou-se sua amiga ou conhecida e não se recusou em ir ao lote em disputa para sua atividade de catequese e manifestou a preocupação com o estudo das crianças da área em conflito. Também, ao saber que queriam expulsar algumas mulheres que vendiam refeição para trabalhadores na beira da estrada, km 16, a 35 km do garimpo de Serra Pelada, conforme o depoimento de irmã Lourdes Follman, foi até o local para rezar o terço e a ação violenta da polícia não se deu. Algumas pessoas viram nisso um pequeno milagre. Sobre o encontro com Arnaldo, as autoras prosseguiram com a informação

Jovens comentavam sobre a beleza de outro jovem, desconhecido, elegante e bem trajado, calçando tênis ponteira de metal brilhante, com um pacote na mão, que bebia recostado no balcão do restaurante. Ele tinha um objetivo insuspeitável: ceifar a vida da religiosa[2] missionária. De repente, voltou-se em direção aos dois em diálogo, desembrulhou o pacote e empunhou o inesperado conteúdo: um revólver. As pessoas se assustaram e a Irmã Adelaide viu e clamou: “Paz, paz, não faça isso meu irmão!” (…) O tiro perfurou e atravessou o corpo de Arnaldo e atingiu a veia jugular da Irmã e derrubou-a na dureza do piso de cimento (PLETSCH; FERNANDES, 2014: p. 71).

O fato se deu em local público, com muitas testemunhas, na pequena e pobre rodoviária de Eldorado do Carajás, no sul do Pará. A religiosa caiu ensanguentada, sob o olhar assustado e perplexo das pessoas que estavam ali e do próprio lavrador também baleado, Arnaldo. Conforme uma testemunha, ao se aproximar, ela percebeu que a freira ainda respirava.

A dona Rita já tinha vindo com um lençol e ajoelhada, tentava estancar o sangue que jorrava com força. Logo apareceu um homem meio misterioso que se prontificou a ajudar. Sentou-se no banco traseiro do carro que acabava de chegar. Meu pai e eu colocamos a Irmã Adelaide, neste carro, com a cabeça sobre os joelhos daquele homem misterioso. Sem demora, ele percebeu que o motorista não era muito prático e pediu para dirigir. Foi então que eu passei ao banco traseiro e segurei a cabeça da Irmã, no meu colo. No quilômetro 11, perto da casa do mandante do crime, o senhor Aloysio Ribeiro Vieira, saiu a última golfada de sangue quente, da fenda aberta pela bala assassina. Eu rezava pela sua eterna vida, agradecendo tudo o que ela foi e fez por nós. Fiquei toda ensanguentada com aquele sangue sagrado e fecundo, derramado por uma causa justa e tinha convicção de estar sustentando a cabeça de alguém que passou pelo mundo fazendo somente o bem (PLETSCH e FERNANDES, 72-73).

Josimo foi atingido, em área privada ao contrário de Adelaide, ao subir o primeiro lance dos degraus de uma escada, em um prédio da igreja católica em Imperatriz, no sul do Maranhão. Ia para o escritório da Comissão Pastoral da Terra e trazia consigo uma bolsa com poucas roupas e o poema Páscoa Paz, que havia escrito há pouco e enviaria aos amigos pelo correio. Dois tiros foram desferidos pelo pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa que o chamou, antes, pelo nome. Ele se curvou levemente para trás para ver quem o chamava e um projétil, de baixo para cima, da arma Taurus, calibre 7,65, raspou seu ombro direito e alojou-se na parede interna do edifício. Outro projétil perfurou o rim e o pulmão e saiu pelo peito. O sangue jorrou, molhou a camisa, a calça e manchou os degraus e o corredor do prédio.

Adelaide, em 14 de abril de 1985, pelas 15 horas, viveu sua Páscoa; Josimo, em 10 de maio de 1986, pelas 12:30 horas foi alvejado e duas hora depois partiu. Ele era ameaçado de morte; ela conversava com um ameaçado. As histórias de Josimo e de Adelaide se entrecruzaram rapidamente em Belém, no Pará, em 18 de abril de 1986. Ela, pelo testemunho de irmã Lourdes Follmann, da comunidade das Filhas do Amor Divino, e o padre Josimo, que foi falar sobre si e sobre o Bico do Papagaio.

Irmã Loudes tinha morado com a irmã Adelaide e as demais freiras da casa, em Curionópolis e vinha depor no tribunal contra o Estado brasileiro, por ser responsável pela concentração das terras, pelos crimes no campo e trazia como prova a tentativa de assassinato sofrida pelo Arnaldo Delcídio Ferreira e o assassinato da religiosa. Arnaldo seria assassinado oito anos depois de Adelaide, em 2 de maio de 1993. [3]

 Foi meu último encontro com Josimo. Como eu coordenava a Comissão Pastoral da Terra Araguaia-Tocantins, e nós do Regional da CPT estávamos apreensivos com sua situação, sugeri que viesse a Belém para um Tribunal da Terra, onde simbolicamente seriam julgados os crimes do latifúndio e eu havia sido convidado para presidir o “júri”.[4] Queria saber do Josimo o que tinha acontecido, o que podia ser feito para protegê-lo e, quem sabe, conseguir espaço na imprensa para denunciar o atentado. Entre as minhas anotações da época encontrei algumas observações como as que seguem.

Em um dos auditórios do Fórum do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, na praça Felipe Patroni, local onde se realizavam os tribunais de júri na cidade, o ar condicionado mal conseguia mitigar o calor externo e o calor exalado pelos que se aglomeravam no espaço. Ali estavam pessoas vindas da área rural e urbana, sindicalistas, agentes de pastoral, defensores dos direitos humanos e advogados para um evento de três dias: o Tribunal da Terra: Terra, Morte e Impunidade.[5]

No meio daquela movimentação de testemunhas, de vítimas, dos advogados, do corpo de jurados, do público, da imprensa, retiramo-nos para conversar e almoçar: Josimo, Lourdes Lúcia Goi – a Lourdinha -, João Roberto Ripper e eu. Como Josimo era orientado a não viajar sozinho, Lourdinha, do sul do país, como as irmãs Lourdes Follman e Adelaide, tinha vindo com ele do Bico do Papagaio, onde ela também morava e trabalhava. Ripper, fotógrafo, residia no Rio de Janeiro e estava sempre presente nas manifestações sociais da região. Encontramos, não distante do evento, um restaurante pequeno e barato da Cidade Velha, próximo de um mercado do século XVII, conhecido como Ver-O-Peso, às margens da baia do Guajará. Do teto do restaurante, dependurados, ventiladores estridentes espantavam as moscas.

Josimo abriu uma pasta, tirou algumas fotos e as mostrou. Eram da porta do Jeep Toyota, de cor azul, da paróquia de São Sebastião, com as marcas de cinco perfurações. Ele dirigia o veículo quando, em 15 de abril, três dias antes, emparelharam um carro ao jeep e desfecharam os tiros. As balas atingiram a porta do veiculo, atravessaram a primeira placa de metal da porta, mas foram retidas pela segunda. Sobreviveu por pouco. Apesar da insistência das irmãs Béatrice kruch (Bia) e Marie Madeleine Hausser (Mada), com as quais trabalhava, Josimo se recusava a sair da paróquia mesmo temporariamente. Dizia não querer “privilégio”. Não via como sair, se o povo permanecia tendo as casas queimadas e os filhos mortos.

“-Josimo, você sabe que vai morrer.”. Eu lhe disse e ele confirmou.

Um momento de silêncio tomou conta da mesa.

“-E aí?” Insisti.

“-Fugir não vou. Não posso.”

Conversamos, não era fugir, era um deslocamento estratégico, mas ele parecia firme na sua decisão. Falei sobre um dos momentos de maior ameaça que o padre francês Aristide Camio tinha sofrido em São Geraldo do Araguaia, antes de ser preso pelo exército com o padre François Gouriou e treze posseiros. Havia informação que alguns pistoleiros teriam sido contratados para matá-lo e tinham um prazo de 15 dias para executar a tarefa. Preocupados, nos reunimos com ele e com sua equipe em Conceição do Araguaia, para convencê-lo a sair da área pelo menos por um período. Não conseguimos. Ele argumentou que estaria mais seguro entre os próprios lavradores. E durante duas semanas circulou entre as comunidades rurais, sempre acompanhado pelos posseiros que o protegeram. Josimo ouviu em silêncio. Depois respondeu que faria o mesmo. Contudo, viajou sozinho para Imperatriz em 10 de maio, menos de um mês depois. Ripper pediu ao Josimo que mostrasse as imagens do carro perfurado pelas balas e o fotografou com as fotos na mão.

São muitos anos, a memória falha. Liguei para diversas pessoas que estiveram naquele evento do Tribunal. Através do jornalista paraense Paulo Roberto Ferreira tive acesso a uma foto que registrou uma coletiva da imprensa em Belém. E uma foto pode revelar algo. Aparecem na foto, falando com um grupo numeroso de jornalistas, um advogado vindo de São Paulo e dois representantes nacionais da Central Única dos Trabalhadores. Em pé, três outros advogados, Josimo e eu. Ele, no fundo, com uma camisa branca, de manga curta, com uma mão ajeitando os óculos. A foto revela que nem os jornalistas, nem os que concediam a entrevista, percebiam a importância de Josimo naquele local e naquele momento. É um personagem secundário, no fundo da sala. Será que o ouviram? Aparentemente a imprensa não publicou nada naqueles dias a respeito do padre preto e pobre, que veio a Belém conversar sobre as ameaças que sofria e do o atentado que havia sobrevivido. A imprensa daria espaço para Josimo depois de 10 de maio.

A caminho de Belém ou vindo de Belém, contou Emanuel Wanbergue, o Mano,[6] o padre Josimo passou por Marabá. Mano tentou, inutilmente, convencê-lo a sair da região. Nove dias depois do almoço que tivemos em Belém, em uma Assembleia da Diocese em Tocantinópolis, Josimo foi interpelado pela equipe de agentes de pastoral sobre as ameaças e sobre os tiros que desferiram contra ele. O clima era tenso e ele manteve a mesma posição.  Disse que não sairia e as anotações que foram feitas no decorrer da reunião, por uma das pessoas presentes, vão se transformar no seu testamento espiritual.

quero que vocês entendam que o que vem acontecendo não é fruto de nenhuma ideologia ou facção teológica, nem por mim mesmo, ou seja, pela minha personalidade. Acredito que o porquê de tudo isso se resume em três pontos principais:

– Por Deus ter me chamado com o dom da vocação sacerdotal e eu ter correspondido.

– Pelo senhor bispo, D. Cornélio, ter me ordenado sacerdote.

– Pelo apoio do povo e do vigário de Xambioá, então Pe. João Caprioli, que me ajudaram a vencer nos estudos.

O discípulo não é maior do que o Mestre. “Se perseguirem a mim, hão de perseguir vocês também.” Tenho que assumir. Agora estou empenhado na luta pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a seu favor? Eu pelo menos nada tenho a perder. Não tenho mulher, filhos e nem riqueza sequer, ninguém chorará por mim. Só tenho pena de uma pessoa: de minha mãe, que só tem a mim e mais ninguém por ela. Pobre. Viúva. Mas vocês ficam aí e cuidarão dela. Nem o medo me detém. É hora de assumir. Morro por uma justa causa. Agora quero que vocês entendam o seguinte: tudo isso que está acontecendo é uma consequência lógica resultante do meu trabalho na luta e defesa pelos pobres, em prol do Evangelho que me levou a assumir até as últimas consequências.

A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados e despejados de suas terras. Deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar. É hora de se levantar e fazer a diferença! Morro por uma causa justa (Comissão Pastoral da Terra, 1986: 17-18).

Os crimes do latifúndio no Pará cresciam. A morte campeava como “morte matada”, advertia Casaldáliga. Em 1985, fizemos um levantamento sobre as informações de mortes violentas na Diocese de Conceição do Araguaia, em função dos conflitos pela posse e uso da terra ou do trabalho escravo. E o número de casos conhecidos era superior aos dos anos anteriores, apesar ou justamente em função da mudança política pela qual passávamos.

Havia acabado a ditadura, o aparelho do Estado, aparentemente não estaria mais a serviço dos fazendeiros para reprimir, prender, torturar, impedir o funcionamento das delegacias sindicais e dos sindicatos, dos movimentos sociais como tinha sido até então. Possivelmente era uma reação dos fazendeiros, preocupados com o novo governo que prometia realizar a Reforma Agrária desde a campanha de Tancredo Neves? José Sarney, ao tomar posse como presidente, manteve Nelson Ribeiro, como titular do Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário (MIRAD) e reafirmou as promessas de Tancredo Neves. O Ministro, que tinha boas relações com a Igreja Católica, abriu o Ministério para receber as reivindicações do campo e recebeu o Josimo e lavradores do Bico do Papagaio mais de uma vez.

O latifúndio se organizou de forma autônoma, talvez sem as amarras burocráticas que sua associação de classe, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), representava, e criou a União Democrática Ruralista (UDR). Seu presidente era um jovem fazendeiro goiano, médico e deputado, Ronaldo Caiado (PEREIRA, 1986:77-87). O tesoureiro Nacional da UDR era Jairo Andrade, dono de muita terra no Sul do Pará, com fama de violento e com acusações, por anos sucessivos de utilizar mão de obra escrava. Um de seus filhos, Tarley, foi morto em uma discussão com posseiros em uma área em disputa.

Os leilões de gado, realizados em diversos lugares do país pela UDR, nutriram de recursos financeiros a nova organização, que nasceu sob o signo do discurso intolerante e radical contra a reforma agrária. A espiral crescente das mortes poderia ser a resposta dos proprietários que, por se imaginarem em situação de maior vulnerabilidade frente aos posseiros, se armaram, contrataram coletivamente os pistoleiros e os “profissionalizaram”.

A partir de 1985 foram criadas, a serviço dos latifundiários, as firmas de segurança Sapucã, em Manaus, e o Grupo Solução, em Goiânia, coordenado por coronéis e, em Marabá, o grupo de Sebastião Pereira da Silva, ou Sebastião da Teresona, acusado de matar mais de 50 pessoas, assustava. [7] Grupos como Sapucã e Solução, eram coordenados por oficiais da polícia.

A violência deixava de ser aleatória, tornava-se seletiva e crescente, denunciavam os agentes de pastoral e as lideranças sindicais. Em algumas circunstancias, a morte poderia ser precedida por violência, como foi o caso de Leonilde Resplandes da Silva: além de ter o marido e o cunhado assassinados, pelo grupo de Sebastião da Teresona, ela, com 13 anos, foi violentada e seu corpo foi carbonizado (FIGUEIRA, 1986: 113). Não bastava matar, era necessário desfigurar, impedir o sepultamento, criar o horror para os sobreviventes que sequer podiam, às vezes, prantear e sepultar seus mortos. Isso foi levado ao presidente José Sarney, em 30 de abril de 1986. Com cinco bispos – o de Goiânia, de Goiás, de Tocantinópolis, de Porto Nacional e de Miracema do Note (ALDIGHIERI: 1993, p. 197; PINHO: 1986, p 69) -, estive na audiência e tratamos dos processos de desapropriação que não tinham desfecho, da violência do campo e do atentado sofrido pelo Josimo. Ele nos ouviu, prometeu proteger o padre e demonstrou ter informações sobre a existência das firmas de segurança e, por meio dele, soubemos do Grupo Solução, de Goiânia. A audiência foi inútil. Os tiros, desferidos dez dias depois em Imperatriz, estouraram em Brasília e levaram o Ministro da Reforma Agrária a Tocantinópolis para o enterro. Nelson Ribeiro chorou, como choramos todos. Logo que saÍ da audiência com o presidente em 30 de abril, fui direto ao MIRAD e, mesmo sem ter marcado audiência, Nelson Ribeiro me recebeu e propus que renunciasse. Disse para ele que Sarney não tinha compromisso com a reforma agrária. Ao cobrarmos a sua assinatura nos processos de desapropriação, o presidente apontou a altura dos processos que tinha recebido do Mirad e afirmou que não assinava nada sem ler. Ora, ele não teria tempo para ler todos os processos. Se não confiava no ministro da pasta, ele o mantinha apenas para amortecer os conflitos. Durante o funeral, Hamilton Pereira, poeta e, na época trabalhava no Secretariado Nacional da CPT, de cima de um caminhão, quando fazia seu discurso, sugeriu o mesmo ao ministro. Pouco depois, Nelson Ribeiro renunciou.

Escrevi, pouco depois de 10 de maio de 1986, um artigo em um pequeno livro dedicado ao padre Josimo e organizado pelo padre Carmelo Scampa:

O chão do Bico do Papagaio é (…) convulsionado por enormes violências contra os posseiros e Josimo foi testemunha dos despejos, das torturas, dos assassinatos, das casas queimadas. Diante de seus olhos em lágrimas se descortinou esse quadro de grave injustiça social, onde os bandos de pistoleiros agem impunemente e o poder policial e judiciário tem sido mais que omisso. A credibilidade do poder público despencou no morro abaixo da corrupção e da prepotência.

A oligarquia rural da região se armou até os dentes, desencadeou conflitos e a espiral dos atos violentos foi aumentando cada ano e em 1985 foram 1050 famílias ameaçadas de despejo, 200 despejadas, 37 casas queimadas, 2 trabalhadores torturados, 20 ameaçados de morte e 8 assassinados (FIGUEIRA, s/d: 2).

De fato, o Bico do Papagaio era um barril de pólvora, como o era, o sul do Pará.  Entre São Geraldo do Araguaia e Conceição do Araguaia, a CPT diocesana tinha registrado o assassinato, no decorrer de 1985, de 22 posseiros nos conflitos fundiários e 21 trabalhadores assassinados em situação de trabalho escravo. Era o maior número de mortes conhecidas por tais razões pela CPT local em um mesmo ano (FIGUEIRA, 1986: 11-114).  Conforme Airton dos Reis Pereira, citando dados da CPT do Pará, no estado:

o maior número de assassinatos de trabalhadores rurais, religiosos e advogados registrados no sul e sudeste paraense ocorreu na década de 1980, que acumulou uma cifra de 349 mortes. Os anos compreendidos entre 1983 e 1987 são avaliados como os mais violentos dessa década. Estes cinco anos abrigaram 245 assassinatos, com destaque para o ano de 1985, que, sozinho, contabilizou 108 mortes (PEREIRA: 2015: 233).

E esse ambiente de violência, de luta apela terra e pela liberdade, provocava desespero, depressão, doenças e suicídios. Na área rural do município de Conceição do Araguaia houve dois casos que revelavam o tamanho do problema. João Jurandir Barbosa, lavrador, se suicidou em 7 de abril, em Alacilândia, depois de ter sido preso duas  vezes com outros três posseiros, acusados de “invadir” a fazenda Ingá. Carmem Lúcia, esposa do lavrador Sebastião da Silva de Jesus, residente no Lote 20, Gleba Jocon, em abril, teria enlouquecido e se suicidou por causa das perseguições dos pistoleiros e da polícia contra seu marido. O ambiente tenso podia também levar a atitudes precipitadas como aquela da posseira Marly de Fátima, em Xinguara, em 20 de dezembro. Angustiada, em função de diversos assassinatos na região, se jogou do caminhão, quando um pneu estourou, pensando ser tiro e quebrou o pescoço. Teve morte imediata (FIGUEIRA, 1986: 112-114).

Entre os presentes no Tribunal da Terra era possível ver, além de sindicalistas, lavradores de áreas de conflito de várias regiões do estado, representantes de organizações sociais, de Belém, os advogados Egídio Sales Filho e José Carlos Castro, de São Paulo, Luiz Eduardo Greenhalgh, os três tinham atuado em defesa dos padres franceses e dos posseiros de São Geraldo do Araguaia de 1982 a 1984, e, na década seguinte, em casos de assassinatos de lavradores do sul do Pará – Expedito, Brás e Ronan, João, Paulo e José Canuto (FIGUEIRA, 1986; 2008).  Na multidão estavam jornalistas do estado como Paulo Roberto Ferreira e Miguel Chikaoka.

Recordo-me que um dia, em 1979, o bispo de Conceição do Araguaia dom José Patrício Hanrahan foi surpreendido pela visita do temido Curió, que conhecíamos de nome. Poucos dias antes, um helicóptero militar pousou na praça em frente à casa paroquial de Wanderlândia e, não sabíamos ainda, a ação era coordenada justamente por ele. Os soldados invadiram a casa paroquial, onde morava Josimo. Nem ele nem o pároco estavam, sequestraram e ameaçaram de morte o missionário leigo italiano Nicola Arpone e o levaram para Brasília. Curió tinha vindo, explicou ao bispo, em nome do presidente Figueiredo, em sinal de paz. O presidente confiava na igreja e compreendia que a instituição tinha seus motivos para ter reticência em relação ao governo militar. Mas veria que ele falava a verdade. Eu estava presente na audiência, por convite de dom José Patrício, e intervim: “Curió, a confiança não se dá, se conquista. Se vocês do governo confiam na igreja, por que sequestraram Nicola Arpone, em Wanderlândia?”. Utilizei o pronome na segunda pessoal do plural, “vocês”, me referindo ao exército em geral. Talvez ele tenha imaginado que já sabíamos de sua participação. O militar , após uma pequena pausa, respondeu: “Foi um erro”.

O clima não melhoraria nem no Pará, nem no atual Tocantins, apesar das promessas. Em janeiro de 1980, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil no final de sua tradicional Assembléia anual, soltou um documento de grande repercussão, A Igreja e o Problema da Terra, onde distinguia “a terra de negócio da terra de trabalho” e no mesmo ano, João Paulo II veio ao Brasil e cobrou a Reforma Agrária e afirmou que “sobre toda propriedade privada pesa uma hipoteca social”.[8] Em setembro de 1981, dois anos depois do sequestro de Arpone, Dom Cornélio Chizzini, bispo de Tocantinópolis, denunciou o clima de violência na região por parte de grileiros e seus jagunços contra as famílias de posseiros e as ameaças que pesavam contra o padre Josimo. Conforme publicou o jornal da arquidiocese de São Paulo:

“Há mais ou menos 20 dias – conta o bispo – um certo José Luiz, medidor de terras, espalhou a noticia de que iria mandar matar o vigário da região de Wanderlândia, Josimo Morais. Conforme testemunho dos moradores dali, ele teria até oferecido dinheiro para que alguém do local! Executasse o serviço”

No início de fevereiro, um agente de pastoral da terra também de Wanderlândia, foi violentamente espancado, quando estava numa farmácia. Fatos como este dão conta de que embora com menos freqüência, as agressões se repetem. (O São Paulo, 6 a 12/03/1981: p. 7).

O bispo reclamou da atuação do Grupo de Terras Araguaia Tocantins, o GETAT, que era omisso e encorajava a violência contra os posseiros. Depois Josimo foi transferido pela diocese de Wanderlândia para São Sebastião, sem ser consultado. Saia de uma área central da região, de uma cidade servida pela rodovia Belém-Brasília e era lançado em um canto mais pobre, distante do asfalto e de cidades maiores. A primeira impressão era de que estava sendo exilado, pois sofria restrições por parte de alguns padres da equipe diocesana. Josimo conversou conosco da CPT. Contudo, tinha um aspecto positivo. Na nova paróquia trabalhavam as irmãs Bia, Mada, Nicole e Lourdinha, um grupo de mulheres corajosas e firmes. Certamente lhe ofereceriam apoio. Posteriormente se incorporariam à equipe Noeli e os irmãos Domingos e Carlinhos Furlan. A equipe se dividia entre São Sebastião, Buriti e Centro dos Mulatos[9].

Ambos, Josimo e Lourdes Follman foram testemunhas de acusação contra o latifúndio e contra o estado brasileiro no Tribunal simulado em Belém. O primeiro havia sobrevivido a um atentado. A segunda trazia as informações sobre o assassinato de irmã Adelaide Molinari, na rodoviária de Eldorado do Carajás, no ano anterior.

            No Bico do Papagaio, nova área onde atuava Josimo, houve queima de casas e ameaças de morte contra lavradores e contra a equipe paroquial; houve a prisão de Josimo e de Lourdinha e ambos e mais duas freiras e um camponês foram denunciados pelo Ministério Público como responsáveis pela demolição de um posto telefônico em Buriti e parte das irmãs foi acusada de portar metralhadoras[10]. Em 3 de abril de 1986, o juiz Geraldo da Silva Melo ouviu os réus, sob a acusação de destruir o bem público[11] e os réus eram Josimo Moraes Tavares,  32 anos; as religiosas  Lourdes Lúcia Goi, a Lourdinha, 38 anos, Marie Madeleine Hausser, a Mada, 49 anos, Beatrice Kruch, a Bia, 45 anos, e  Hermílio Ferreira dos Santos, lavrador, 46 anos.  O jovem advogado, vindo de Petrópolis, para trabalhar com a equipe, Pedro Dalcero, no mesmo dia, contestou a acusação e solicitou “a suspensão do processo” e ponderou que, o que havia acontecido, era, por parte da prefeitura, “um esbulho possessório” contra o terreno da igreja.

Na audiência judicial, Josimo reconheceu que havia sido anteriormente preso naquela comarca e que respondia um processo. As acusações contra ele não procediam e se davam pelo “inconformismo de certos indivíduos para com as atividades do interrogado e [eram] referentes a seus trabalhos religiosos que muitas vezes contrariam principalmente os ricos e poderosos”. Lourdinha reconheceu em Buriti, quando umas cem pessoas demoliram as paredes em construção do posto, mas não presenciou a ação; Mada e Bia não estavam em Buriti quando o fato ocorreu; não participaram nem incentivaram o povo a fazê-lo. No dia seguinte, Josimo completou 33 anos, 12 dias depois sobreviveu à emboscada e aos cinco tiros e, no mês seguinte, o matador de aluguel, desferiu os tiros fatais.

Em 1993, foram apontados como mandantes do crime, Geraldo Paulo Vieira, Adailson Vieira, Osmar Teodoro da Silva, Guiomar Teodoro da Silva, Nazaré Teodoro da Silva e Osvaldino Teodoro da Silva e João Teodoro da Silva. Só em 1988,

Adailson Vieira, Geraldo Paulo Vieira (pai do Adailson) e Guiomar Teodoro da Silva foram julgados e condenados. Os dois primeiros foram condenados a 19 anos de reclusão e Guiomar, a 14 anos e 3 meses. João Teodoro da Silva faleceu antes de ser levado a julgamento. Geraldo morreu alguns meses depois da sentença. Osmar Teodoro da Silva ficou foragido durante anos, sendo capturado pela polícia somente em 2001, depois de ter sido alvo do programa Linha Direta, na TV Globo. Em setembro de 2003, ele foi condenado, por unanimidade, a 19 anos de reclusão.

Geraldo Rodrigues da Costa, o executor do crime, foi condenado, em 1988, a 18 anos e 6 meses de reclusão. Conseguiu fugir da penitenciária por três vezes, mas, depois da última fuga, nunca mais fora encontrado. Há informações de que faleceu durante fuga após um assalto na cidade de Guaraí, Tocantins. (UNISINOS, s/d)[12]

            Quanto ao assassino de irmã Adelaide Molinari, José de Ribamar Rodrigues Lopes, o Zé da Bomba, foi preso, tornou-se réu confesso, fugiu e se escondeu no Rio de Janeiro, passou a viver maritalmente com uma professora de faculdade de Serviço Social. Conforme escreveram as companheiras de comunidade de Adelaide, “foi finalmente julgado, quase 20 anos após o acontecimento, e absolvido por um júri popular, marcado por várias irregularidades, poucos meses antes de esgotar o tempo regulamentar de julgamento” (PLETSCH; FERNANDES, 2014, p 24). E as duas autoras do livro têm uma visão particular sobre o fato. Talvez se lembraram de Jesus que perdoou os dois ladrões e os que zombavam dele (Marcos 15:27). Ora, talvez tenham achado que, se Jesus perdoou, por que irmã Adelaide não teria perdoado e convertido o seu próprio assassino e, mais ainda, por que ela não teria ajudado o criminoso a ser absolvido? E a explicação foi robustecida por José Almeida Araújo, um amigo das freiras e vereador em Eldorado do Carajás: enquanto a justiça humana buscava os culpados e queria punir, o criminoso fugiu, o processo desapareceu e reapareceu, mas foi “esquecido”, o autor intelectual morreu antes de ser julgado, a audiência judicial não obteve resultado e o julgamento foi rápido e atropelado. Apesar de a Promotora ter sido enfática, as sete mulheres do corpo de Júri o absolveram. “Aí se manifesta a suave, mas firme influência de Irmã Adelaide, que não possibilitou a condenação a alguém, por sua causa. Permitiu que Ribamar fosse capturado, preso e julgado, para encerrar o Processo Judicial e nunca mais voltar a ele” (PLETSCH; FERNANDES, 2014, p 87). Nem todos concordam. Alguns acham que a impunidade se deu, não porque irmã Adelaide favoreceu a impunidade, mas porque a policia, o Ministério Público e o Poder Judiciário foram relapsos, além de o júri ter se dado onde o bom senso avisava que era inadequado. Como condenar uma pessoa acusada de ser assassino de aluguel em uma cidade pequena onde todos se conhecem? Onde possíveis mandantes estão na região? Para complicar, o corpo de jurado ficou exposto e não foi sequer garantida a sua incomunicabilidade no decorrer do julgamento. O acusado deveria ter sido julgado em Belém, como se deu nos casos dos assassinos de João Canuto e Expedito Ribeiro de Souza.

            Sobre Josimo há, por exemplo, textos como os de Moisés Pereira da Silva (s/d)[13] e o de Mário Aldighieri (1993). Para Moisés Silva (s/d: p 11-12), o que diferenciou o trabalho do padre Josimo do padre Aristide Camio, francês preso em São Geraldo do Araguaia, ou de Nicola Arpone, sequestrado pelo Curió em Wanderlândia, foi propor como reação camponesa “a organização política”. Aldighieri (1993) concluiu sua dissertação, com a afirmação: Josimo continuava “vivo após a morte”. E, prosseguiu: “Ele se torna um ideal, uma força propulsora para muitos outros, torna-se um símbolo da luta e da causa revolucionária.”

O assassinato de irmã Adelaide tem menos publicações. Em geral, quem tratou do problema – advogados, grupos de direitos humanos e imprensa -, compreendeu que a freira teria morrido por acidente. O alvo era o sindicalista Arnaldo Delcídio e, assim, por exemplo, quando o Correio do Tocantins (7 a 13/05/1993) noticiou seu assassinato, explicou que o Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Eldorado de Carajás era a mesma pessoa que havia sido baleada enquanto conversava com a irmã Adelaide e que a bala era destinada a ele, não a ela (PEIXOTO, 2014: p. 242). As autoras do livro sobre Adelaide, contudo, comentamos antes, divergiram disso e o bispo que sucedeu ao Dom Alano Pena na diocese de Marabá, dom Vital Corbellin, parece que concordou com as religiosas no prefácio da obra.[14] Um dos advogados de acusação, que mora na região há muitos anos e atua na Comissão Pastoral da Terra, José Batista Afonso, se surpreendeu quando soube da posição das duas religiosas. Para ele, as evidências no decorrer do processo, indicavam que o destinatário da ação criminosa do pistoleiro era Arnaldo. Se o alvo fosse a freira, porque José da Bomba atirou em Arnaldo e não nela? E as irmãs não apresentaram indícios de que irmã Adelaide fosse ameaçada ou que havia razões para matá-la.

 Na apresentação do livro, as autoras da obra não escreveram sobre o conflito fundiário existente, o clima de injustiça social, o assassinato do advogado Gabriel Pimenta ou os assassinatos de camponeses por pistoleiros que agiam sozinhos ou em grupo, como os que eram subordinados ao Sebastião da Teresona, a presença temida do major Curió na prefeitura da cidade onde viviam; sequer escreveram a respeito da perseguição sofrida no decorrer da ditadura por agentes pastorais, com as prisões e espancamento de padres e freiras pelo exército, e o processo militar movido contra o bispo das dioceses de Marabá e Conceição do Araguaia, respectivamente Dom Alano Pena, e Dom Estevão Cardoso de Avelar. O texto fala não sobre uma tentativa de assassinato e um assassinato violento, mas sobre a “morte súbita” da freira e ao seu “martírio por uma causa em favor do povo”, e insiste em sua santidade (PLETSCH; FERNANDES, 2014, p 11). Esse ambiente se reflete também na seleção de depoimentos sobre ela. Além de “um homem misterioso” que entrou no carro e conduziu com segurança o corpo da freira, aparecem outros momentos quando algo raro se deu. Uma senhora de Eldorado do Carajás declarou:

Logo depois da inesperada morte da Irmã Adelaide, aconteceu um fenômeno estranho. Era um dia de sol quente e, de repente, o firmamento se encobriu com uma fumaça branca, como que o céu estivesse se alegrando ou se comovendo. Isto perdurou até o final daquela inesquecível tarde de domingo (PLETSCH; FERNANDES, 2014, p 72).

Ou, contaram as autoras do livro que, enquanto velavam o corpo, “Num dado momento, durante a noite, fez-se um estranho silêncio e as pessoas, como que num ímpeto espontâneo, se aproximaram mais da Irmã Adelaide. Alguém exclamou: ‘Parece que ela está sorrindo’!”

            Trata-se de um livro que apontou para os aspectos do inefável e do sagrado. Por que o céu não se manifestaria naquele 14 de abril, quando Adelaide teve sua “morte súbita” se, quando Jesus morreu, o céu também se manifestou (Mateus 27, 45-47)? Houve um homem “misterioso” por ocasião da morte da irmã Adelaide. Seria um anjo (Ibidem, p 71)? A bíblia relatou que, após a morte de Jesus, anjos apareceram como “um jovem” ou como “homens” (Marcos 16,5; Mateus 28, 2; João 20,12). E dois homens vestidos de branco apareceram no dia da ascensão (Atos 1, 10-11).

Sobre o resultado do julgamento, o texto também contém momentos surpreendentes. A Irmã Adelaide, conforme depoimento selecionado, seria aquela que “perdoa completamente” e, observavam as autoras do livro: “Misericórdia é isto: não dar ao outro, o castigo que merece, mas dar-lhe o perfeito perdão que não merece e ainda, a paz como recompensa”. E citaram José Almeida Araújo, um vereador do PSB de Eldorado do Carajás:

Em relação à justiça humana, que busca culpados para punir, NADA deu certo: o Processo Judicial foi perdido; o acusado pelo assassinato desapareceu; o mandante do crime morreu; o Processo Judicial, encontrado bem mais tarde, ficou “esquecido”; a Audiência terminou sem resultado; o processo do Julgamento correu rápido demais e perdeu força; as sete mulheres Juradas absolveram; o depoimento da Promotora Regina Taveira, apesar de ser forte para arrebentar, não surtiu efeito.

Aí se manifesta a suave, mas firme influência de Irmã Adelaide, que não possibilitou a condenação a alguém, por sua causa. Permitiu que Ribamar fosse capturado, preso e julgado, para encerrar o Processo Judicial e nunca mais voltar a ele”. Isto é prática da justiça excessiva, exercida por ela?  (PLETSCH; FERNANDES, 2014, p 87-88)

 Seria este o mundo da Adelaide Molinari em vida e em morte, ou este seria o mundo de suas irmãs religiosas preocupadas com um processo de declaração de santidade da freira?

Houve outras centenas de assassinados na Amazônia em função da luta pela terra, proteção do meio ambiente e contra o trabalho escravo. Alguns mortos são anônimos, outros, lideranças sindicais, indígenas, políticas, advogados ou agentes de pastoral. As narrativas sobre eles, sua vida e seus valores, são e foram diversas. Umas narrativas são de louvação e podem abordar ângulos distintos; outras podem ser depreciativas. No caso do padre Josimo, por exemplo, foi depreciativa quando o presidente da UDR, logo que foi anunciado o assassinato, repetiu um ditado “Quem planta ventos, colhe tempestade”. Isso é, o morto era causador de sua própria morte. Mais tarde, no transcorrer do júri, o advogado de defesa dos acusados do crime buscou também desqualificar o morto. Algo parecido se deu com a irmã Dorothy Stang. Outros, os aliados, fizeram interpretações positivas e podem reconhecer nele um herói ou, sendo cristão, um mártir, e realizar romarias como se deu com os padres Josimo Moraes Tavares e João Bosco Burnier e com a irmã Dorothy Stang. As romarias podem adquirir um símbolo que vai além do próprio homenageado, mas à causa pela qual morreu. Por exemplo, a romaria realizada em Ribeirão Cascalheira, onde o padre João Bosco foi assassinado é a “Romaria dos Mártires da Caminhada”, um elogio ao Burnier e a outros mártires da Amazônia, mas não só os da Amazônia; a romaria da irmã Dorothy é a “Romaria da Floresta”.  Nestes casos foram valorizadas as dimensões da luta pela terra, pela reforma agrária, pelo meio ambiente, pela democracia. No caso da diocese de Marabá há três romarias. Uma, reverencia irmã Adelaide e tem seu nome, “Romaria Caminhada da Irmã Adelaide”; outra reverencia o casal assassinado José Cláudio e Maria do Espírito Santo, é a romaria dos “Mártires da Floresta”; e a terceira, a “Romaria das Menininhas”, segundo os romeiros, ou a “Romaria da Libertação”, segundo a coordenação do evento. É em memória de algumas crianças assassinadas com a mãe e o padrasto, por policiais.

O teor da romaria varia conforme a conjuntura, as lideranças religiosas que estão na área e como assumem o projeto. A “Romaria da Terra e da Água Padre Josimo” conta com o apoio e a organização da Comissão Pastoral da Terra, da Diocese de Tocantinópolis e, eventualmente, o apoio de outra diocese, da Cáritas e de movimentos sindicais e populares do Bico do Papagaio.

Normalmente o teor das romarias dos assassinados tem uma dimensão celebrativa e lúdica, mas também de denúncia e reivindicação. Lembrar Padre Josimo, é lembrar a sua luta e as lutas atuais, o combate ao trabalho escravo, o fim da violência, pode-se inserir questões como da mulher ou da juventude, etc. A romaria da irmã Adelaide é assumida especialmente pelas Filhas do Amor Divino e pela paróquia e pode ter o apoio do poder municipal e do governo Estadual que, através da Secretaria do Turismo anuncia o evento[15]. Certamente as irmãs que estiverem na região por ocasião do evento e o padre da paróquia poderão acentuar o lado místico e milagroso da freira, uma santidade que parece estar acima e além dos conflitos. É interessante observar que enquanto a romaria dos “Mártires da Floresta” é assumida pela Comissão Pastoral da Terra, a de irmã Adelaide não.

De qualquer modo, Josimo e Adelaide, certamente amaram os pobres e dedicaram suas vidas aos trabalhadores mais esquecidos. Os dois fazem lembrar uma famosa frase atribuída a dom Helder Câmara: “Quando alimentei os pobres chamaram-me santo, mas quando perguntei por que há gente pobre, chamaram-me comunista”. A frase caberia perfeitamente na história de Josimo Moraes Tavares, de Dorothy Stang, Expedito Ribeiro de Souza e João Canuto, assassinados no Pará. Quanto a Adelaide, não tenho, com as narrativas que tive acesso, a informações se ela se perguntava a si mesma e perguntava aos outros “por que há gente pobre?”. Contudo, as estruturas sócio políticas que levaram tantos à morte, persistiram e exigem respostas.

Referências bibliográficas

ALDIGHIERI, Mário. Josimo: a terra, a vida. São Paulo. CPT/Edições Loyola, 1993

CASALDÁLIGA, Pedro. Josimo, um padre-povo. In ADIGHIERI, Mário.  Josimo: a terra, a vida. São Paulo: Ed. Loyola, 1993, p. 11-12.

CIMI – Conselho Indigenista Missionário . Mandantes do assassinato de padre Josimo são julgados nesta quarta-feira, 15 de setembro.  In https://cimi.org.br/2010/09/30928/. 15/09/2010. Acesso 03/09/2020.

CORREIO DO TOCANTINS. “Madeireiro é acusado como mandante do assassinato de Arnaldo Delcídio”. In O Jornal de Carajás. Marabá, Pará, 7-13 maio 1993.

LIMA, Alex Costa.  Padres e posseiros de são Geraldo do Araguaia: o Caso do Cajueiro. Orientador Airton dos Reis Pereira – 2020. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Campus Universitário de Marabá, Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia, Marabá, 2020.

FIGUEIRA, Ricardo Rezende. Rio Maria: canto da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

FIGUEIRA, Ricardo Rezende. Josimo: “Mártir da Pastoral da Terra”. In Voz do Norte: padre Josimo / organizado Pe. Carmelo Scampa. Goiânia: Universidade Católica de Goiás, s/d: 1-3.

FIGUEIRA, Ricardo Rezende. A Justiça do Lobo: posseiros e padres do Araguaia. Petrópolis: Vozes, 1986.

FSP. “Entenda o caso do assassinato do padre Josimo”.In Folha de S. Paulo. 19/03/2004 – 21h07

MENDONÇA, Mirian Furtado. Entrevista com dona Olinda Morais Tavares (mãe do padre Josimo). In Manuscrito. Tocantinópolis, 08/05/1988.

O São Paulo.  Em Goiás, posseiros ainda sofrem ataques. In O São Paulo, 6 a 12/03/1981: p 7.

PEIXOTO, Rodrigo Corrêa Diniz. “A Guerra que veio de pois da guerrilha”. In Acervo, Rio de Janeiro. V. 27, no. 1. Jan/Jun 2014: p 239-253.

PEREIRA, Airton dos Reis. “A Prática da pistolagem nos conflitos de terra no sul e no suldeste do Pará. (1980-1995)”. In Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, vol. 8, n. 1, jan.-jun., 2015.

PEREIRA, Hamilton. “A Guerra Civil no Campo”. In Pe. Josimo: a velha violência da Nova República. Goiânia, Comissão Pastoral da Terra, 1986: 77-87.

PINHO, Aloísio Hilário de. Comunicado. In CPT. Padre Josimo: a velha violência da Nova República. Goiânia: CPT, 1986: 68-69.

PLETSCH, Zoeli Maria; FERNANDES, Angelita. Sangue fecundo : amor divino escrito com sangue fecundo. Passo Fundo : Berthier, 2014.

SILVA, Moisés Pereira da. “O Padre Josimo Moraes Tavares e as lutas de classe nos conflitos  Agrários do Araguaia-Tocantins (1970-1986)”.  In https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/113/o/Mois__s_Pereira_da_Silva.pdf. s/d. Acesso em 03/09/2020.

UNISINOS. “Padre Josimo Tavares: 27 anos de martírio”. In: UNISINOS http://www.synod.va/content/sinodoamazonico/pt/testemunhos-da-amazonia/padre-josimo-tavares–27-anos-de-martirio.pdf.  s/d (data provável 2013) Acesso em 03/09/2020.


[1] Padre, antropólogo, professor de Direitos Humanos no Brasil e em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro; coordena o Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo no Núcleo de Políticas Públicas em Direitos Humanos onde ministra aula na Pós-Graduação.

Agradeço as pessoas com as quais conversei na tentativa de recompor as memórias de fatos ocorridos há mais de três décadas e ouvir narrativas com filtros diferentes ou convergentes com os meus: Adilar Daltoé, Airton Pereira, Aton Fon, Emmanuel Wanberg (Mano), Girolamo Domenico Treccani, irmãs Angelita Fernandes, Béatrice kruch (Bia) e Marie Madeleine Hausser (Mada), João Roberto Ripper, José Batista Afonso, Lourdes Lúcia Goi, Osnera Silva Vieira, Patrick O’Sullivan, Paulo Roberto Ferreira, Ricardo Dias e Xavier Plassat.

[2] O negrito não está no original.

[3] E, no final de 1988, eu estaria trabalhando em Rio Maria, Pará, com algumas irmãs da comunidade Filhas do Amor Divino: Lourdes Follman e as autoras do livro sobre Angelita, Angelita e Zoeli.

[4] Conforme lembranças de Adilar Daltoé e Patrick O’Sullivan, entre o atentado de 15 de abril e 10 de maio de 1986, nós da coordenação da CPT Regional Araguaia-Tocantins nos reunimos com Josimo e tentamos convencê-lo sair, mesmo que temporariamente, do Bico do Papagaio.

[5] Promovido pelo Movimento Nacional de Defesa dos Direitos Humanos Norte II e as entidades organizadoras eram a CPT Norte II, a CUT-PA, SPDDH, MMCC, CBB e CEDENPA. Coordenador da CPT Emanuel Wamberg, o Mano,  Girolino Treccani secretario executivo a CPT

[6] Mano coordenava a CPT Norte II, que abrangia o Pará e o Amapá

[7] Sebastião só terá problema ao assassinar Menasses Viturbino da Silva e seu filho Menasses Junior, 13 anos, “ocorrida na Transcoqueiro, em Belém, em 04 de setembro de 1985, não pelos crimes de trabalhadores rurais, como o caso das Chacinas das fazendas Ubá, Surubim, Fortaleza entre outras”. (PEREIRA, 2015: 235)

[8] Sobre a Função social da propriedade no ensino social da Igreja, veja,  Encliclopédia Digital, a página da Teológia Latinoamaricana. http://theologicalatinoamericana.com/?p=1393. Acesso em 03/06/2020.

[9] Hoje, Vila Tocantins, no atual município de Esperantina.

[10] Na época, acusações estapafúrdias como esta não eram raras. Em 1980, lavradores, em um confronto, mataram o fazendeiro Fernão Leitão Dinis, no atual município de São Geraldo do Araguaia. Dois prefeitos, um deles, de Conceição do Araguaia, anunciaram para a imprensa que o culpado era a Igreja católica que distribuiria metralhadoras para os lavradores. Contudo, no corpo do morto havia fragmentos de objetos metálicos. Os trabalhadores utilizaram “por fora” ou “bate-bucha”, isso é, uma arma que “funciona com pólvora, esfera de chumbo e bucha de palha comprimidas na base do cano, em outras regiões também é conhecida como espingarda soca-soca” (LIMA, 2020: p 87).

[11] Artigo 163, parágrafo único, inciso III, do Código Penal: é indispensável a demonstração do dolo específico de destruir, inutilizar ou deteriorar o patrimônio da União, Estado, Município, empresa concessionária de serviços públicos ou sociedade de economia mista.

[12] Veja também: CIMI, 15/09/2010; FSP, 19/03/2004.

[13] Ele também fez uma Dissertação de Mestrado em História sobre o tema, concluída em 2011, na Universidade Federal de Goias: “Padre Josimo Moraes Tavares e a  atuação da  Comissão Pastoral da Terra (CPT) nos Conflitos Agrários do Araguaia-Tocantins (1970-1986).

[14] Osnera Silva Vieira, que escreveu sobre romarias e entrevistou as irmãs, compreendeu que o alvo eram os dois. O pistoleiro atingiu o sindicalista e a freira, não por acidente. Era sua intenção atingir ambos. (Conversa telefônica estabelecida em 06/09/2020.

[15] “34ª Caminhada da Irmã Adelaide”. In Secretaria do Turismo /Governo do Estado do Pará.  http://www.setur.pa.gov.br/eventos/34a-caminhada-da-irma-adelaide. Acesso em 06/09/2020.

Existe indignação na esperança? Aprendendo sobre a coragem de agir!

Estamos vivendo um momento de nossa política republicana no qual somos bombardeados por notícias que, se por um lado nos deixam atordoados, por outro nos dão a sensação de que uma nova normalidade, baseada numa ética deturpada quando comparada àquela necessária para a convivência humana saudável, se agiganta e se instala,  produzindo em muitos de nós uma sensação parecida com a de derrota.

Nestes tempos mais difíceis é que vozes de sabedoria se fazem ainda mais necessárias. Há, sim, outras formas de convivência, e é legítimo nos indignarmos frente às estruturas que já há muito tempo imperam e que não respondem às necessidades de um planeta diverso, porém limitado. Indignação é motor, que empurra para outras realidades que só se concretizam na ação.

Por isso este episódio é tão necessário. Leonardo Boff é uma voz que ecoa uma mensagem de transformação. Uma voz que desde a década de 1970 tem, nas asas da Teologia da Libertação, inspirado novos fazeres políticos e alimentado a criação de movimentos sociais que, vivos e atuantes ainda hoje, são necessários no enfrentamento de forças que se organizam numa lógica de acumulação, exploração e individualismo. 

Numa conversa acolhedora e cheia de um conteúdo que promove esperança, o Prof. Leonardo Boff, um intelectual que fala ao coração, deixa claro os caminhos que podemos e devemos percorrer, juntos, para transformar nossa esperança em realidade.

Esperamos que você se inspire com este episódio tanto quanto a gente. E que ele te ajude com a energia que gera movimento e ação, energia necessária e fundamental para a construção de uma convivência planetária mais solidária e fraterna. Nas palavras do Prof. Leonardo Boff, fratelli tutti – todos irmãos.

Dicas do episódio (todas do Prof. Boff)

Todos os livros são de autoria de Leonardo Boff.

Livro Cuidar da Terra, Salvar a Vida: como evitar o fim do mundo.
Livro Brasil: Concluir a refundação ou prolongar a dependência?
Livro Covid-19. A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade. Advertências da Pandemia.
Livro Ecologia. Grito da Terra, Grito dos Pobres.

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Frateli tutti: Politics as Tenderness and Affection

The new encyclical of Pope Francis, signed at the tomb of Francis of Assisi, in the city of Assisi, on October 3rd, will be a landmark document in the social doctrine of the church.  Its themes are vast and detailed, always aiming to highlight values, and to strongly criticize liberalism.  It will certainly be analyzed by Christians and non-Christians since it is directed to all people of good will.  Here I will point out that which I consider innovative in light of previous teachings of Popes.  

In the first place it needs to be clear that the Pope presents a paradigm alternative to our forms of living in our Common Home, subject as it is to multiple threats.  He describes the “dark clouds” which he equates, as he himself has asserted in various pronouncements, to a gradual third world war.  Actually there is no common plan for humanity (n.18).  But a thread is evident throughout the encyclical:  “the realization that no one is saved alone; we can only be saved together” (n. 32).  That is the new plan, expressed in these words:  “I offer this social encyclical as a modest contribution to reflection in the hope that in the face of present-day attempts to eliminate or ignore others, we may prove capable of responding with a new vision of fraternity and of social friendship” (n.6)

We must understand this alternative well.  We have arrived at and are still within the paradigm which is at the base of modernity.  It is anthropocentric.  It is the reign of the lord:  the human being as the lord and master of nature and of the Earth which only have meaning to the extent that they are valuable to him.  He has changed the face of the Earth and he has brought many advantages, but he has created the essential of autodestruction.  Actually it is the impass of the “dark clouds”.  Faced with this cosmic vision, the encyclical Fratelli tutti proposes a new paradigm:  that of brother and of frater, a universal fraternity and one of social friendship.  It moves the center: from an individualistic and technological-industrial civilization to a civilization of solidarity, of preservation and of care for all life.  That is the natural intention of the Pope.  In that about face is our salvation; we will overcome the apocalyptic vision of the threat of the end of the species by a vision of hope that we can and must change course.

To do this we need to feed hope.  The Pope says: “I invite everyone to renewed hope that speaks to us of something deeply rooted in every human heart, independently of circumstances and of the historical conditions in which we live” (n.55).  Here resounds the hope principle, which his more than the virtue of hope, but a principle, an interior mover to project new dreams and visions, so well formulated by Ernst Bloch.  He emphasizes: “the statement that as human beings we are brothers and sisters, which is not an abstraction but a concept that becomes concrete and enfleshed, puts before us a series of challenges that displaces us, forcing us to see things in a new light and to develop new responses” (n.128).  As is inferred, we are dealing with a new route, with a paradigmatic change of course.

Where to begin?  Here the Pope reveals his basic stance with frequent references to social movements:  “We shouldn’t hope for anything from the powers that be because it is always the same story or worse; begin by yourselves”.  For that reason he suggests:   “We can start from below and, case by case, act at the most concrete and local levels, and then expand to the farthest reaches of our countries and our world” (n.78).  The Pope now encourages ecological discussion.  Our local experience needs to develop “in contrast to” and “in harmony with” the experiences of others living in diverse contexts  (n. 147).

There are long reflections about the economy and politics but he says:  “politics must not be subservient to the economy, nor should the economy be subject to the dictates of an efficiency-driven paradigm of technocracy ” (n.177).  He makes a bruising critique of the market.  The marketplace, by itself, cannot solve every problem, however much  we are asked to believe this dogma of neoliberal faith.  Whatever the challenge, this impoverished and repetitive school of thought always offers the same recipes.  Neoliberalism simply reproduces itself by resorting to the magic theories of “spillover” or “trickle” – without using the name – as the only solution to societal problems” (n.168).  Globalization brings us closer but not more as brothers (n.12).  It only creates partners but not brothers and sisters (n. 101).

In the parable of the Good Samaritan there is a rigorous analysis of the various players who come on the scene and it applies to political economy culminating with the question:  “with whom do you identify (with the wounded person on the road, with the priest, with the Levite or with the stranger, the Samaritan, despised by the Jews)?  This is a blunt, direct and resolute question.  With which of these do you identify” (n.64)?  The Good Samaritan is a fitting model of social and political love (n.66).

The new paradigm of fraternity and of social love is displayed in publicly rendered love, in the care for the weakest, in the manner of dialogue and encounter, in habitual tenderness and affection.  In terms of the culture of encounter, I take the liberty of citing the Brazilian poet Vinicius de Moraes in his Samba of Blessing in his world of 1962 “Encontro Au bon Gourmet”  where he says:  “Life is the art of encounter although there can be so many divergencies in life” (n.215).  Politics is not to be reduced to disputes over power and to the separation of powers.  Surprisingly he says:  “Even in politics there is a place for tender loving care: for the youngest, the most  debilitated, the poorest; they must touch us and they have the “right” to fill us, body and soul; yes, they are our sisters and brothers and we must love them and trust them as such: (194).  And if someone asks what tenderness is, here is the response:  “love that is close and concrete; it is a movement that comes from the heart and reaches the eyes, the ears, the hands” (n. 196).  Here we recall the words of Gandhi, one of the inspirations of the Pope, alongside Saint Francis, Martin Luther King, and Desmond Tutu:  politics is a gesture of love for people, of care of common things.

Together with tenderness comes politeness which we would translate as courtesy, recalling the prophet Courtesy who proclaimed to all passersby on the streets of Rio de Janeiro “Courtesy begets courtesy” and “God is Courtesy” in the style of Saint Francis.  And politeness is defined as: “a state of mind which is not sharp, rude or hard, but rather pleasant and delicate, which strengthens and encourages; a person who has this quality helps others so as to alleviate their burdens” (n.223).  This is a challenge to bishops and priests:  to create a revolution of tenderness.  Solidarity is one of the foundations of human and social life.  It finds concrete expression in service which can take a variety of forms in an effort to care for others:  in great part it is caring for human vulnerability” (n.115).  That solidarity showed itself absent and is only efficacious in the struggle against COVID -19.  Solidarity avoids the bifurcation of humanity into ‘my world’ and the ‘others’ that is ‘them’.  Many are no longer considered human beings with an inalienable dignity, and become only “them” (n.27).  The Pope concludes with a profound wish:  “that we will think no longer in terms of ‘them’, but only ‘us’” (n.35).

So that that challenge of a dream of universal fraternity and of social love can be enfleshed he calls upon all religions “to make a rich contribution to building fraternity and defending justice in society” (n.271).

Finally he evokes the figure of the little brother of Jesus Charles de Foucauld who wanted to be “definitively the universal brother” among the Muslim population in the desert of north Africa  (n.287).  Making this his proposal Pope Francis observes:  “Only by identifying oneself with the least can one be a brother of all; may God inspire that dream in each one of us. Amen” (n.288).

We stand before a man, Pope Francis, who in following his inspiring source, Francis of Assisi, also made himself a universal man, embracing all and identifying himself with the most vulnerable and invisible of our cruel world.  He ignites the hope that we can and must nourish the dream of fraternity of universal love without borders.  

He has done his part.  Now it is up to us to not leave the dream as only a dream but that it be a seed of a new form of life together, as sisters and brothers and the environment, in the same Common Home.  Will we have the time and wisdom to make that leap?  The “dark clouds” will certainly continue.  But we have a lamp in this encyclical of hope of Pope Francis.  It does not dispel all the clouds.  But it is sufficient to discern well the road to be traveled by all.

Leonardo Boff is an ecotheolgian, philosopher and Brazilian writer who wrote Francis of Assisi and Francis of Rome, published by Editora May de Ideias, Rio, 2015.

Despojarse de todo para ganar todo: el muñeco de sal

En los últimos tiempos hemos dedicado nuestras reflexiones casi exclusivamente al Covid-19, a su contexto, que es la superexplotación de la Tierra viva y de la naturaleza por el capitalismo globalizado, incluida la China.  Ellas se defendieron enviándonos una gama de virus (zika, ébola, fiebre aviaria y porcina y otros) y ahora este que ataca a toda la humanidad, exceptuando a otros seres vivos. La carrera desenfrenada de acumulación desigual ha entrado en crisis y todos hemos tenido que parar, entrar en aislamiento social, evitar aglomeraciones y usar las incómodas mascarillas. Acogemos estas limitaciones en solidaridad de unos con otros y con los que están sufriendo en todo el mundo.

Esta grave situación nos da la ocasión no sólo pensar en lo que vendrá después de la pandemia sino de volvernos sobre nosotros mismos, sobre las cuestiones cotidianas como la construcción continuada de nuestra identidad y el moldeado de nuestro sentido de ser. Es una tarea nunca terminada incluso bajo el confinamiento social. Dos provocaciones, entre otras muchas, están siempre presentes y tenemos que explicarlas: la aceptación de los propios límites y la capacidad de desapegarse. 

Todos vivimos dentro de un arreglo existencial que por su propia naturaleza es limitado en posibilidades y nos impone innumerables barreras: de profesión, de inteligencia, de salud, de economía, de tiempo y otras. Hay siempre un desfase entre ente el deseo y su realización. Y a veces nos sentimos impotentes ante hechos que no podemos cambiar, como la presencia de una persona con sus altibajos o de un enfermo terminal. Tenemos que resignarnos frente a esta limitación intransferible.  

No por eso tenemos que vivir tristes o sin posibilidad de crecer. Hay que ser resignados, creativamente resignados. En vez de crecer hacia fuera, podemos crecer hacia dentro a medida que creamos un centro donde las cosas se unifican y descubrimos cómo de todo podemos aprender. Bien decía la sabiduría oriental: “si alguien siente profundamente a otro, este lo percibirá aunque esté a miles de kilómetros de distancia”. Si te modificas en tu centro, nacerá en ti una fuente de luz que irradiará a los otros.

La otra tarea consiste en la búsqueda de la autorrealización. Esta, esencialmente, es la capacidad de desapegarse. El budismo zen pone como test de madurez personal y de libertad interior la capacidad de desapegarse y de despedirse. Si observamos bien, el desapego pertenece a la lógica de la vida: nos despedimos del vientre materno, después de la infancia, de la juventud, de la escuela, de la casa paterna, de los parientes y de las personas amigas. En la edad adulta nos despedimos de trabajos, profesiones, del vigor del cuerpo y de la lucidez de la mente que irreversiblemente van disminuyendo hasta cesar, y ahí nos despedimos de la propia vida. En estas despedidas crecemos en nuestra identidad pero a costa de dejar atrás un poco de nosotros mismos.

¿Cuál es el sentido de este lento despedirse del mundo? ¿Mera fatalidad irreformable de la ley universal de la entropía? Esa dimensión es irrefutable, pero ¿no guardará un sentido existencial a ser buscado por el espíritu? Si en realidad somos un proyecto infinito y un vacío abismal que clama por plenitud, ¿no será que este desapegarse significa crear las condiciones para que un Mayor venga a llenarnos? ¿No será el Ser Supremo, hecho de amor y de misericordia, que nos va quitando todo para que podamos ganar todo, en el más allá, cuando nuestra búsqueda finalmente descansará, como el cor inquietum de San Agustín?

Al perder, ganamos y al vaciarnos quedamos plenos. Dicen que esta fue la trayectoria de Jesús, de Buda, de Francisco de Asís, de Gandhi, de Madre Teresa, de Hermana Dulce y yo creo que también del Papa Francisco, el mayor de los humanos de hoy.

Tal vez una historia de los maestros espirituales antiguos nos aclare el sentido de la pérdida que produce una ganancia.

«Había una vez un muñeco de sal. Después de peregrinar por tierras áridas llegó a descubrir el mar, que nunca había visto antes, y por eso no podía entenderlo. El muñeco de sal preguntó: “¿Quién eres?” Y el mar respondió: “Soy el mar”. El muñeco de sal volvió a preguntar: “¿Qué es el mar?” Y el mar dijo: “Yo soy el mar”. “No entiendo”, dijo el muñeco de sal, “pero me gustaría mucho entenderte; ¿cómo lo hago?” El mar simplemente respondió: “Tócame”.

Entonces el muñeco de sal tocó tímidamente el mar con la punta del pie. Notó que el mar empezaba a ser comprensible, pero pronto se dio cuenta de que las puntas de sus pies habían desaparecido. “Oh, mar, mira lo que me has hecho”, dijo. Y el mar respondió: “Tú diste algo de ti mismo y yo te di comprensión; tienes que darte todo para comprenderme totalmente”.

Y el muñeco de sal comenzó a entrar despacio mar adentro, lenta y solemnemente, como quien va a hacer lo más importante de su vida. Y a medida que entraba se iba diluyendo y entendiendo al mar cada vez más. Y el muñeco seguía preguntando: “¿qué es el mar?”. Hasta que una ola lo cubrió por completo. Todavía pudo decir, en el último momento, antes de diluirse en el mar: “Soy yo”».

Se desapegó de todo y ganó todo: el verdadero yo.

*Leonardo Boff es autor de Tiempo de Trascendencia (2009) y Saudade de Dios (2019) Sal Terrae.

Traducción de Mª José Gavito Milano