A dimensão política da fé hoje

Em função das próximas eleições municipais, faz-se mais uma reflexão sobre a relevância da fé cristã face à política, seja social, seja partidária.

A fé não é um ato ao lado de outros. Mas é uma atitude que engloba todos os atos, toda a pessoa, o sentimento, a inteligência, a vontade e as opções de vida. E uma experiência originária de encontro com o Mistério que chamamos Deus vivo e com Jesus ressuscitado. Esse encontro muda a vida e a forma de ver todas as coisas. Pela atitude de fé  vemos que tudo está ligado e religado a Deus, como Aquele Pai/Mãe que tudo criou, tudo acompanha e tudo atrái para que todos possam viver com espírito fraterno, com cuidado de uns para com outros e da natureza; Esse amor social constitui  a mensagem central da nova encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti. A fé não é só boa para a eternidade mas também para este mundo.

 Neste sentido, a fé engloba também a política com P maiúsculo (política social) e com p minúsculo (política partidária). Sempre se pode perguntar: em que medida a política, seja social, seja partidária, é instrumento para a realização dos bens do Reino como o amor social, a fraternidade sem fronteiras,  a justiça pessoal e social, a solidariedade e a tolerância; em que medida a política cria as condições para as pessoas abrirem-se à cooperação e não se entre-devorarem pela competição mas à comunhão uns com os outros e com Deus. Essa é chamada pela recente encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti “a Política Melhor” que inclui o coração e até  a ternura e a gentileza como de forma surpreendente vem dito lá.

A fé como uma bicicleta

A fé não fica apenas como experiência pessoal de encontro com Deus e com Cristo no Espírito. Ela se traduz concretamente na vida. Ela é como uma bicicleta, possui duas rodas mediante as quais  se torna concreta: a roda da religião e a roda da política.

 A roda da religião  se realiza pela meditação, pela oração, pelas celebrações, pela leitura da Bíblia, também a popular, pelas romarias, pelos sacramentos, numa palavra, pelo culto.

Muitos reduzem a religião somente a essa roda. Especialmente as redes de tv católicas. Essas são, geralmente, de um cristianismo meramente devocional, de missas, santos, rosários e de ética familiar. Quase nunca se fala de justiça social, do drama dos milhões de desempregados, do grito dos oprimidos e do grito da Terra. Neste campo precisa-se de um compromisso, de assumir um lado, para escapar do cinismo face à realidade com tantas iniquidades. Por esse tipo de cristianismo fica difícil entender por que Jesus foi preso, torturado, julgado e condenado à morte de cruz. Esse tipo de cristianismo é cômodo. Jesus teria morrido de velho e cercado de seguidores.

Mais grave é o tipo de fé proclamada pelas igrejas neopentecostais com suas televisões e programas multitudinários. Aí não se escuta nunca a mensagem do Reino de amor, de justiça, de fraternidade e de perdão. Nunca se ouve a palavra fundamental do Jesus histórico:”Felizes os pobres porque vosso  é o Reino de Deus…ai de vós ricos, porque já tendes a vossa consolação”(Lc 6,20.24). Em seu lugar volta-se a um tipo de leitura do Antigo Testamento (raramente a tradição profética) onde se ressaltam os bens materiais. Pregam não o evangelho do Reino, mas o evangelho da Prosperidade material. Logicamente, a maioria é pobre e precisa de uma infraestrutura material básica. É a fome real que martiriza milhões de fiéis. Mas “não só de pão vive o homem” disse o Mestre. O ser humano tem no fundo outro tipo de fome: fome de reconhecimento negado às mulheres, aos mais humildes, aos negros, aos homoafetivos, aos LGBT, fome de beleza, de transcendência, ínsita na natureza humana, por fim, fome de um Deus vivo que é de ternura e de amor aos mais invisíveis. Tudo isso, essência da mensagem do Jesus histórico, não  se ouve nas palavra dos pastores. Estes, a maioria deles, são lobos em pele de ovelha, pois exploram em proveito próprio a fé singela dos mais humildes. E o pior são politicamente conservadores e até reacionários, agem como se partidos fossem, normalmente, apoiando políticos de conduta duvidosa, interferem, como é o caso atual no Brasil, na agenda do governo, apontando nomes para os altos cargos. Não respeitam a Constituição que prescreve a laicidade do estado. O atual presidente, outrora católico, por conveniência se aproveita destas igrejas neopentecostais como base de apoio de seu governo de viés reacionário, autoritário e fascistoide.

 Ao lado deles, há um grupo de católicos saudosistas do passado, conservadores que se opõem até ao Papa, ao Sínodo Pan-Amazônico, usando de verdadeiras mentiras, fake news e outros ataques por seus youtubers. Podem ser católicos conservadores, mas  nunca cristãos na herança de Jesus, pois nessa herança não cabe o ódio, a mentira e a calúnia que eles propagam.  

A fé possui uma segunda  roda,  da  política; é o seu lado prático. A fé se expressa pela prática da justiça, da solidariedade, da denúncia  das opressões, pelo protesto e pela prática da solidariedade sem fronteiras, do amor social e da fraternidade universal,como enfatiza o Papa na Fratelli tutti (n.6). Como se vê, política aqui é sinônimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em cima das duas rodas para poder andar corretamente.

Entre aqueles que vivem uma ética de solidariedade, de respeito e de busca da verdade, estão muitos que se confessam ateus. Admiram a figura de Jesus por sua profunda humanidade e coragem ao denunciar as mazelas sociais de seu tempo e, por isso, de sofrer perseguições e ser crucificado. Bem enfatiza o Papa Francisco: prefiro estes ateus éticos do que cristãos indiferentes ao sofrimento humano e às clamorosas injustiças mundiais. Quem busca a justiça e a verdade está na direção do caminho que termina em Deus, pois sua verdadeira realidade é de amor e de verdade. Mais valem tais valores que as muitas orações se nelas não está presente a justiça, a verdade e o amor. Quem é surdo diante dos padecimentos humanos, não tem nada a dizer a Deus e suas orações não são ouvidas por Ele.

Para as Escrituras judaico-cristãs a roda da política (ética) emerge  mais importante que a roda da religião institucional (culto, cf. Mt 7,21-22; 9,13; 12,7; 21,28-31; Gl 5,6; Tg 2,14 e os profetas do AT). Sem a ética, a fé é vazia e inoperante. São as práticas e não as prédicas que contam para Deus.  Não adianta dizer “Senhor, Senhor”e com isso organizar toda uma celebração e uma aeróbica religiosa; mais importante é fazer a vontade do Pai que é amor, misericórdia, justiça e perdão, coisas todas práticas, portanto, eticas (cf. Mt 7,21).

 Por ética em política se entende a dimensão de responsabilidade, a vontade de construir relações de participação e não de exclusão em todos os âmbitos da vida social. É ser transparente e abominar a corrupção. Hoje os problemas, como a  fome, o desemprego, a deterioração geral das condições de vida e a exclusão de grandes maiorias, são de natureza social e política, portanto, ética. Então a fé deve mostrar sua força de mobilização e de transformação (Fratelli tutti n.166)

Política social (P) e política partidária (p)

Como acenamos acima, há dois tipos de política: uma escrita com P maiúsculo e outra com p minúscula: a Política social (P) e a política partidária (p). 

 Política social (P): é tudo o que diz respeito ao bem comum da sociedade; ou então é a participação das pessoas na vida social.  Assim por exemplo a organização da saúde, da rede escolar, dos transportes, a abertura e a manutenção de ruas, de água e esgoto etc tem a ver com  política social, bem como lutar para conseguir um posto de saúde no bairro, se unir para trazer a linha de ônibus até no alto do morro: tudo isso é Política social. Definindo de forma breve podemos dizer: política social ou Política com P maiúsculo significa a busca comum do bem comum.

 Política partidária (p): significa a luta pelo poder de estado, para conquistar o governo municipal, estadual e federal. Os partidos políticos existem em função de se chegar ao poder de estado, seja para mudá-lo (processo libertário), seja para exercê-lo assim como se encontra constituído (governar  o status quo existente). O partido,como a palavra já o diz, é parte e parcela da sociedade não toda sociedade. Cada partido tem por trás interesses de grupos ou de classes que elaboram um projeto, visando toda a sociedade. Se chegarem ao poder de estado (governo) vão comandar as políticas  públicas conforme o seu programa e sua visão particular dos problemas.

Com referência à política partidária, é importante a pessoa de fé considerar os seguintes pontos:

  • Qual é o programa do partido?
  • Como o povo entra neste programa? se foi discutido nas bases; se atende aos reclamos reais e urgentes do povo; se prevê a participação popular, mediante seus movimentos e organismos; se estes foram ouvidos na sua concepção, implementação e controle.  
  • Quem são os candidatos que representam o programa? Que biografia têm, se sempre mantiveram uma ligação orgânica com as bases, se são verdadeiramente aliados e representantes das causas da justiça e da transformação social com mais justiça e direitos ou se querem manter as relações sociais assim como são, com as contradições e até iniquidades que encerram.

Nos dias atuais, face à ascensão do pensamento conservador e facistóide no Brasil e outros países do mundo, faz-se necessária a participação de cristãos conscientes e engajados para recuperar a democracia que está sob risco de demolição, os direitos pessoais e sociais e também os direitos da natureza, devastada pela cobiça do capital brasileiro e mundial, responsáveis, entre outros, pelas grandes queimadas da Amazônia e do Pantanal.

Bastam estes simples critérios para se perceber o perfil do partido e dos candidatos, de direita (se querem manter inalterada a relação de forças que favorece os que estão no poder),de esquerda (se visam mudanças substanciais para superar estruturas perversas que marginalizam as grandes maiorias) ou de centro (os partidos que se equilibram entre a esquerda e a direita, procurando sempre vantagens para si e para os grupos que representam).

Para os cristãos, impõe-se analisar até que ponto tais programas se afinam com o projeto de Jesus e dos apóstolos, como ajudam na libertação dos oprimidos e marginalizados e em que sentido abrem espaço à participação de todos. Mas releva enfatizar: a decisão partidária é assunto de cada consciência e um cristão sabe que direção tomar.

Dada a conjuntura de exclusão social devido à lógica do neoliberalismo, da financeirização da economia e do mercado, a fé aponta para uma política partidária que deve revelar uma dimensão popular e libertária, de baixo para cima e de dentro para fora como o Papa Francisco tem proclamado aos movimentos sociais populares e na encíclica Fratelli tutti (n.141-151). Essa política pretende  outro tipo de democracia: não apenas a democracia representativa/delegatícia mas uma democracia participativa pela qual o povo com suas organizações ajuda a discutir, a decidir e a encaminhar as questões sociais.

Por fim, releva inaugurar uma democracia socio-ecológica que incorpore como cidadãos com direitos a serem respeitados: a Terra, os ecossistemas e os seres da criação com os quais mantemos relações de interdependência. Somos todos “tutti fratelli” segundo as duas encíclicas do Papa Francisco, “Laudato Sì: sobre o cuidado da Casa Comum” e a recente de 2020 Fratelli tutti.

A política partidária, tem a ver com o poder que para ser forte quer sempre mais poder. Nisso há um risco, o risco do totalitarismo da política, de politizar todas as questões, de ver somente a dimensão política da vida. Contra isso devemos dizer que tudo é político, mas a política não é tudo. A vida humana, pessoal e social, comparece com outras dimensões, como a afetiva, a estética,a lúdica e a religiosa.

Conclusão: a memória perigosa de Jesus

Os cristãos podem e  devem participar da política em todos os níveis, em P maiúsculo e em p minúsculo. Sua atuação se inspira no sonho de Jesus que implica um impulso de transformação das relações sociais e ecológicas, corajosamente apresentadas na encíclica Fratelli tutti. Nunca, entretanto, deve esquecer que somos herdeiros da memória perigosa e libertária de Jesus.  Por causa de seu compromisso com o projeto do Reino de amor, justiça, de intimidade filial com o Pai e especificamente, de sua compaixão pelos humilhados e ofendidos, foi levado à morte na cruz. Se ressuscitou foi para, em nome do Deus da vida, animar a insurreição contra uma política social e partidária que penaliza os mais pobres, elimina os profetas, persegue os pregadores de uma justiça maior e reforçar a todos que querem  uma sociedade nova com  uma relação de fraternidade e  de cuidado  para com a natureza, para com todos os seres, amados como irmãos e irmãs  e para com o Deus de ternura e de bondade.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes, Petrópolis 2018.

Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência

Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência Há cinquenta anos o autor acompanha o curso político-social do Brasil, assessorando movimentos sociais e vários tipos de comunidades de base cristãs, unindo a tudo isso um estudo acurado dos principais intérpretes de nossa história. Agora, reúne nesta obra suas reflexões provocadas pela atual crise que atinge…

La Covid-19 nos obliga a pensar: ¿qué es lo esencial?

Como afirmó el renombrado filósofo alemán Jürgen Habermas, en una entrevista sobre la Covid-19: ”Nunca supimos tanto de nuestra ignorancia decomo ahora”. La ciencia es indispensable para sobrevivir y explicar la complejidad de las sociedades modernas, pero ella no puede ser arrogante y pretender, como ciertos cientificistas postulan, que podría resolver todos los problemas. A decir verdad,  lo que no sabemos es infinitamente más que lo que sabemos. Todo saber es finito y perfectible. Eso se está comprobando ahora con ocasión de la búsqueda desenfrenada de una vcuna eficaz contra la Covid-19. No sabemos cuándo va a estar disponible, ni cuándo desaparecerá la epidemia.

Tal hecho tiene como efecto el ocaso de un horizonte de vida y de esperanza  y causa aquello que tan bien escribió en su twitter la jueza y escritora (“La vida no es justa”) Andréa Pachá: “La pandemia ha hecho muchos estragos. Algunos físicos, concretos y definitivos. Otros sutiles, pero devastadores. Nos sustrajo el deseo de ir, de jugar, de hacer planes, incluso aquellos sólo utópicos e idealizados, que jamás se realizarían, pero que alimentaban el alma”. 

Constatamos que hay un profundo abatimiento colectivo, melancolía, depresión y hasta rabia contra una epidemia acerca de la cual conocemos muy poco y poco podemos hacer. Todos nos sentimos rodeados por el fantasma de la contaminación, de la intubación y de la muerte.
El hecho es que vivimos no bajo una emergencia extraordinaria como el tsunami del Japón, que afectó las centrales  nucleares, una de las cuales continúa emitiendo radioactividad, afectando desde las costas de la India, de Tailandia, de Indonesia hasta las costas de California, o las grandes quemas de la Amazonia, del Pantanal y de los bosques de California. Con la Covid-19 estamos delante de una emergencia extrema, que afecta a todo el planeta, consecuencia de una profunda erosión ecológica causada por la voracidad de las grandes empresas que buscan exclusivamente el lucro material con el derribo de las selvas, el extractivismo, la expansión de monoculturas como la de la soja o la cría de ganado y la excesiva urbanización del mundo entero.

Esa intrusión del ser humano en la natureza, sin ningún sentido de respeto a su valor intrínseco, tenida como un mero medio de producción y no como algo vivo del cual somos parte y no dueños ni señores, negándonos a respetar sus límites de soportabilidad, ha producido la destrucción de los hábitats de miles de virus en animales y en plantas que se han transladado hacia otros animales y hacia el ser humano. 

Tenemos que incorporar nuevos conceptos: la zoonosis (enfermedad que viene del mundo animal: aves, cerdos, vacas, murciélagos) y la transferencia zoonótica: una afección animal transmisible al ser humano. A partir de ahora entrarán en nuestro  vocabulario no sólo científico.

Uno de los mayores especialistas en virus,  David Quammen (Montana USA), nos advierte en su video “Spillover: the next human pandemic” (2015)”: es inevitable que vuelva a haber una gran pandemia. Puede matar a decenas de miles, centenas de miles, o millones de personas, según las  circunstancias y la forma como reaccionemos, pero  aparecerán cualquiera de estas cosas. Será con seguridad un agente zoonótico. Tendrá origen en animales no humanos. Será ciertamente un virus”. Observemos la gravedad de esta advertencia de un notable científico. 

Frente a esta emergencia extrema aumentada por la escasa movilidad nacional e internacional, el aislamiento social, el distanciamiento entre las personas y el uso de la máscarilla nos propician plantear las cuestiones más fundamentales de nuestras vidas: ¿al final, qué es lo que cuenta en última instancia? ¿Qué es definitivamente esencial? ¿Cuáles son las razones que nos llevaron a tal situación de emergencia extrema? ¿Qué debemos y podemos hacer después de que pase la pandemia, si pasa? Estas preguntas son impostergables. 

Entonces descubrimos que no hay mayor valor que la vida, nuestra vida y la de toda la comunidad de vida. Ella surgió hace 3,8 miles de millones de años y la humana hace cerca de 8-10 millones de años. Pasó por varias devastaciones pero siempre se mantuvo su existencia.  Y junto con la vida, los medios de vida sin los cuales ella no se sustenta: el agua, el suelo, la atmósfera, la biosfera, los climas, el trabajo y la naturaleza que nos ofrece todo lo que necesitamos para vivir y sobrevivir. Y la comunidad humana que nos acoge y nos ofrece las bases del orden social y espiritual que nos mantiene cohesionados como humanos. De nada vale la acumulación de bienes materiales, la apropiación individual, la pura y simple competición.

Lo que nos salva como seres vivos y sociales es la solidaridad, la cooperación, la generosidad y el cuidado de unos a otros y del ambiente. 
Estos son los valores humano-espirituales, contrarios a aquellos de la cultura del capital material, sobre la cual la Covid-19 representa una especie de rayo que la está reduciendo a pedazos. No podemos volver a ella para no provocar a la Madre Tierra y a la naturaleza que, si no cambiamos nuestra relación de respeto y de cuidado, nos enviarán otros virus, tal vez todavía más letales o hasta el último (The Big One) que diezmaría a la especie humana.

Este tiempo de recogimiento forzado es tiempo de reflexión y de conversión ecológica, tiempo de decidir qué tipo de Casa Común queremos para el futuro.Tenemos que crecer en solidaridad y en amor a todo lo que es creado, especialmente a los humanos, nuestros hermanos y hermanas. 
Seremos  “el homo solidarius”, el principio de una nueva era, la era de la biocivilización, en la cual la vida en su diversidad tendrá centralidad y todo lo  demás estará al servicio de ella. La vida vale por sí misma. Juntos en la Casa Común gozaremos de la alegre celebración de la vida.

*Leonardo Boff es ecoteólogo y filósofo y ha escrito “Covid-19: el contraataque de la Tierra contra la Humanidad” que saldrá publicada próximamente por la editorial Vozes.

Traducción de M°José Gavito Milano

Creer en tiempos de pandemia

La humanidad, bajo el ataque del coronavirus, está experimentando mucho sufrimiento. La invasión de ese virus, que se ha llevado ya a más de un millón de personas, suscita toda una gama de interrogaciones: ¿qué significa el hecho de haber afectado solamente a los seres humanos y haber excluido a nuestros animales de compañía, como perros, gatos y otros? Estar en aislamiento social, no poder abrazar ni besar a las personas queridas y no poder reunirse amigablemente produce padecimientos de todo tipo y hasta revueltas.

En este contexto hay personas, incluso sin ninguna vinculación religiosa, que acogen un Sentido mayor de la vida y del mundo, luchan por la justicia, por el derecho y por una mejoría mínima de nuestra sociedad, y hasta las que creen en Dios se preguntan: ¿cuál es el sentido de este abatimiento planetario? Se ha producido un apagón. Gente de fe puede incluso no creer más en Dios. Otros, entre tanto, encuentran en la fe un soporte existencial que vuelve menos pesada esta situación de confinamiento y de ausencia de los otros a su alrededor. Y trata de sacar lecciones de vida.

Vamos a reflexionar sobre la fe en su sentido más corriente, antes de cualquier confesión religiosa o de doctrinas y de dogmas, la fe en su densidad humana.

Hay un dato existencial previo a la aparición de la fe: la bondad fundamental de la vida. Por muy contradictoria que sea la realidad, por muy absurdo que sea el ataque de la Madre Tierra a la humanidad a través del Covid-19, estamos convencidos de que vale más la pena vivir que morir. Doy un ejemplo tomado de la vida cotidiana: un niño se despierta en la noche, sobresaltado por una pesadilla o por la oscuridad. Grita llamando a su madre. Ésta en un gesto de magna mater, lo toma en sus brazos y le susurra suavemente: querido, todo está bien, mamá está aquí, no tengas miedo. Y el niño, entre sollozos, recupera la confianza y poco después se adormece de nuevo.

En el mundo no todo está bien. Pero admitámoslo: la madre no le está mintiendo al niño. A pesar de todas las contradicciones, predomina la confianza en que un orden mayor subyace y prevalece sobre la realidad. Evita que predomine el absurdo. Trae paz al niño y serenidad a la madre.

Creer es decir  “sí y amén” a la realidad. El filósofo L. Wittgestein podía decir en su Tractatus Logico-Philosophicus (n.7): “Creer es afirmar que la vida tiene sentido”. Este es el significado original y bíblico de la fe -he’emin o amén- que equivale a estar seguro y confiado. De esto se deriva Amén: “así es”. Tener fe es estar seguro del significado de la vida. Este es un hecho antropológico básico: ni siquiera pensamos en ello, porque siempre estamos dentro de él, pues inconscientemente admitimos que vale la pena vivir y realizar un propósito. 

Creer, según palabras de Pascal, es una apuesta de que la luz vence a las tinieblas, de que la muerte no puede aprisionar el sentido de la vida y de que, en el fondo, en todo debe haber algún sentido secreto y que, por lo tanto, vale la pena seguir en este mundo. Creer no resuelve todos los problemas. Como dijo el Papa Benedicto XVI en su incompleta encíclica Lumen Fidei: la fe no es una luz que disipe todas nuestras tinieblas, sino una lámpara que guía nuestros pasos y esto basta para el camino.

Hay muchos que se confiesan agnósticos y ateos pero afirman el sentido de la vida, se comprometen con la necesaria justicia social y ven en el amor, la solidaridad y la compasión los mayores bienes del ser humano. Los que no viven tales valores están lejos de Dios, aunque lo tengan con frecuencia en sus labios.

El obispo pastor, poeta y profeta Dom Pedro Casaldáliga, recientemente fallecido, expresó en pequeños versos dónde está Dios: en la paz, en la justicia y en el amor. Se refería indirectamente a los que amenazaban y mataban a campesinos e indígenas y se confesaban cristianos y católicos.

         “Donde tú dices ley

        Yo digo Dios.

        Donde tú dices paz, justicia, amor

        Yo digo Dios.

        Donde tú dices Dios

        Yo digo libertad, justicia y amor”

         Escondido tras estos valores, paz, justicia y amor, está Dios. Ellos son su verdadero nombre.

Simone Weil, la judía francesa que se convirtió al cristianismo pero no quiso bautizarse en solidaridad con sus hermanos y hermanas judíos, condenados a las cámaras de gas, nos da una pista de comprensión: “Si quieres saber si alguien cree en Dios, no mires como habla de Dios sino como habla del mundo”. Si habla en forma de amor, justicia y libertad, está hablando de Dios. Quien vive tales valores se sumerge en esa Realidad que llamamos Dios y expresa una fe en Dios.

La fe entendida de esta manera impone límites e incluso condena toda indiferencia hacia los sufrientes, familiares y amigos de las víctimas de Covid-19. Uno puede proclamar “Dios por encima de todo” pero si no tiene compasión y solidaridad hacia todos aquellos este Dios es un ídolo y está lejos del Dios vivo y verdadero, atestiguado por las Escrituras judeocristianas.

Creer es aceptar que hay otro lado de la realidad que no vemos pero que acogemos como parte de nosotros y nos acompaña en las tareas cotidianas. Creer es afirmar que lo Invisible es parte de lo visible. Intuimos su presencia y en él vivimos y somos.

*Leonardo Boff es teólogo, filósofo y ha escrito entre otros libros: “Covid-19: la Madre Tierra contra-ataca a la humanidad”, Vozes 2020 y “Experimentar a Dios hoy”, Sal Terrae 2013.

Traducción de María José Gavito Milano

Adolfo Pérez Esquivel:40 anos de Prêmio Nobel da Paz

Adolfo Pérez Esquivel, um entranhável amigo, barbaramente torturado sob a ditadura militar argentina, foi contemplado, para surpresa dele, com o prêmio de maior ressonância mundial, o Nobel da Paz. Ele, humilde, em seu espírito franciscano, não quis receber para si este prêmio. Recebeu-o em nome da ONG Serpaj que ele pessoalmente anima e que se propõe defender em todos os lugares os direitos humanos; em nome dos irmãos e irmãs indígenas, dos camponeses, dos invisíveis que ninguém defende, dos religiosos e religiosas como a Irmã Dorothy Stang, pelas Mães e Avós da Praça de Maio em Buenos Aires,em fim de todos aqueles, que, arriscando suas vidas, se empenham na defesa da dignidade humana. Por onde anda, sua saudação é aquela de São Francisco “Paz e Bem”. Não obstante os movimentos sociais e políticos adversos, testemunha a fé e a esperança de que os seres humanos podem sonhar e construir um mundo de iguais e de irmãos e irmãs, um mundo no qual não seja tão difícil o amor, a fraternidade, a solidariedade e a compaixão. Publicamos aqui a Carta que escreveu, passados 40 anos do Prêmio Nobel da Paz, para nos dar coragem de jamais esmorecermos nesse compromisso pelos direitos fundamentais de todos os seres humanos. LBoff

A 40 años de recibir el Premio Nobel de la Paz

Queridos hermanos y hermanas un fraterno abrazo de Paz y Bien que tanto necesita el mundo y nuestro país.

Han pasado 40 años desde el día que me otorgaron el Premio Nobel de la Paz, cuando el país vivía en el dolor y la resistencia bajo la  dictadura militar, hacía poco que me habían liberado de la prisión y de la libertad vigilada.

 Cuando el embajador de Noruega me da la noticia el primer sorprendido fui yo, no esperaba  premio alguno, le dije al embajador que no podía recibirlo a título personal, el trabajo no es de una persona, sino de miles de hombres y mujeres en toda Latinoamérica que luchamos juntos por alcanzar y construir un mundo de iguales,  que lo asumía en nombre de todos los pueblos de América Latina, de los hermanos y hermanas indígenas, campesinos, religiosos y religiosas, organizaciones sociales de derechos humanos, de las queridas Madres y Abuelas de Plaza de Mayo y organismos de DDHH  que luchan día a día por un mundo más justo y fraterno.

Ese año 1980  es asesinado Monseñor Oscar Romero en El Salvador, da su vida para dar Vida y esperanza su pueblo y a la Iglesia. Estos años continúan siendo caminos entre dolores y esperanzas, pero hay que seguir andando, como decía el querido “pelao” Angelelli, tenemos que aprender a vivir como si “fuéramos eternos”, a pesar de nuestras pequeñeces y errores,  saber que lo que sembramos recogemos, siempre afirmé que nadie puede sembrar con los puños cerrados, hay que abrir la mano para que la semilla vuelva  a la Madre Tierra y de su fruto.

Hoy a 40 años el mundo se encuentra en zozobra, camina entre  angustias y esperanzas frente a la Pandemia del Covid 19 que ha cobrado miles de vidas y pone al descubierto las desigualdades sociales, económicas y políticas, el aumento del hambre, el desempleo, la pobreza. El daño que el ser humano ha hecho a la Madre Tierra en su afán mercantilista de aquellos que  privilegian el capital financiero sobre la vida y continúan su explotación y daños a nuestra Casa Común.

Vivimos en un mundo dónde sobran los alimentos y dónde  aumentan los hambrientos. Desigualdad   que viola  los DDHH y derechos de los Pueblos.

Son tantos los recuerdos y vivencia del caminar por nuestro continente y el mundo que no alcanzan las palabras. Sólo agradecer y decirles gracias…tomar fuerzas para continuar al servicio  de miles de rostros que nos cuestionan e interpelan y reclaman un lugar digno en la vida y sabe que otro mundo es posible si hay fuerza y unidad en la diversidad.

Violeta Parra nos ha regalado esa canción que debemos llevar en nuestra mente y corazón: “Gracias a la Vida que me ha dado tanto…”.

En este caminar de luchas y esperanzas, agradezco a cada uno y una el compartir caminos de un nuevo amanecer y agradecer a mi familia, a los compañeros/as del Serpaj en América Latina, a tantos amigos, amigas militantes de la vida en el mundo que nos acompañan, a las organizaciones de cooperación, a las Iglesias, a la Comisión Provincial por la Memoria , a la Facultad de Ciencias Sociales de la UBA, a mis alumnos/as. Quiero transmitirles que la Universidad Nacional de Buenos Aires, junto con el Serpaj hemos decidido que el Premio Nobel de la Paz, condecoraciones, obras de arte, biblioteca, archivos, se constituya La Casa de los Premios Nobel Latinoamericanos en la antigua sede del Serpaj en la calle México y Bolivar de la CABA, La UBA será  Custodia de todo lo señalado en nombre de los pueblos de éste continente como testimonio de quienes dedicaron sus vidas a la investigación científica, a la literatura y a la Paz.

Un fuerte abrazo y mucha fuerza y esperanza

Adolfo Pérez Esquivel                              

Buenos Aires, 13 de octubre del 2020