UMA LIÇÃO PARA TODAS AS CIDADES COSTEIRAS DO BRASIL

Publicamos aqui a entrevista do professor Rualdo Menegat, professor da UFRS, especialista em gestão ambiental e que previu os desastres ocorridos com as enchentes ocorridas no mês de maio/junho do corrente ano no Rio Grande do Sul.Sua entrevista é didática e sugere formas de enfrentamento de enchentes especialmente nas cidades costeiras, fornecendo instrumentos de análise,criação de consciência social ambiental, participação da sociedades e educação nas escolas,tipos de construção de diques e tantas outras informações. Serão inspirações para os tomadores de decisões nos municipios e estados e gestores ambientais. Vale ler, divulguar e aplicar os ensinamentos deste especialista:LBoff

Entrevista com Rualdo Menegat

14 Junho 2024- IHU

A entrevista é de Luís Gomes, publicada por Sul21, 13-06-2024.

Resultado de uma parceria iniciada em 1994 entre a UFRGS — sob coordenação de Menegat –, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, o Atlas Ambiental de Porto Alegre traz um mapeamento de todo o ambiente natural e construído da Capital gaúcha, incluindo o sistema de proteção contra inundações. A obra, pioneira no mundo (disponível aqui), inspirou mais de 60 publicações similares no Brasil e no mundo. É a partir dessa experiência que o professor observou o desastre ambiental que atingiu o Rio Grande do Sul e Porto Alegre no mês de maio. E deixa claro: era possível imaginar.

“Eu imaginei isso em 2004. Em 2022, eu fiz uma conferência, na Conferência Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre, em que eu mostrei exatamente a criticidade do nosso território em termos de dois fenômenos importantes que aconteceram agora. Um, o da convergência das águas fluviais que convergem para o Delta do Jacuí, estou falando do Rio Jacuí, que recebe o Antas-Taquari, o Rio dos Sinos, o Rio Caí e o Gravataí, e que eles poderiam, no caso de uma grande chuva, convergir com muita água pro Delta do Jacuí, que, por sua vez, encontra uma bacia, o Guaíba, que está conectada com a Laguna dos Patos e o Oceano Atlântico, e que pode, devido a uma maré de tempestade em Rio Grande, não ter escoamento. Eu mostrei isso na conferência”, diz o professor.

Ele também destaca que, durante o período de elaboração do Atlas, em 1996, um dos primeiros especialistas em mudanças climáticas do mundo, o professor Vittorio Canuto, do Goddard Institute, da Nasa, em Nova York, veio a Porto Alegre para uma conferência que reuniu mais de mil pessoas.

“A gente já vinha trabalhando, com segurança, sobre informações do aquecimento global. No ano de 2004, se abateu no Rio Grande do Sul o primeiro furacão do Atlântico Sul, o furacão chamado Catarina, que aterrissou no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, na região de Torres, e sul de Santa Catarina. Quando eu medi por imagens de satélite o diâmetro do Catarina e vi que ele tinha 600 km, pensei que, se ele desviasse a sua rota — o furacão é como um peão no solo, tem uma certa ergodicidade, pode variar levemente seu caminho –, poderia ter vindo um pouco mais para o sul, 60 km, então ele teria aterrissado exatamente em Porto Alegre e na região metropolitana. Ali eu me deparei com a possibilidade de catástrofes extremas, de desastres produzidos por tempos severos em Porto Alegre”, afirma.

O De Poa, parceria do Sul21 com a Cubo Play, é um programa de entrevistas sobre temas que envolvem ou se relacionam com a cidade de Porto Alegre. Todas as quintas-feiras, conversamos com personagens ilustres ou que desenvolvem trabalhos importantes para a cidade. Semanalmente disponível nas plataformas da Cubo Play e do Sul21.

Eis a entrevista.

Professor, como coordenador desse esforço de fazer um mapeamento completo da cidade do ponto de vista ambiental, como é que o senhor avalia o que aconteceu em Porto Alegre em maio?

Bom, uma tristeza imensa. Em primeiro lugar, não há como fugir da tristeza, porque grande parte do que aconteceu era, de certa maneira, previsível. E também porque nós portalegrense e a Região Metropolitana sabemos o quanto é sensível a nossa região a inundações. Quer dizer, temos como notória a inundação de 1941, mas temos também é de 1984. Temos as mais recentes também, em 2015.

O ano passado.

O ano passado. Não é novidade inundar e, não por acaso, os nossos ancestrais de 41 e dos anos que se seguiram nos legaram um impressionante sistema de proteção contra inundações e contra alagamentos. Esse sistema, então, ele se demonstrou razoável para essa inundação que aconteceu agora em 2024. Ou seja, ele não foi sobrepassado, a água ficou no nível inferior ao dos diques externos, que é de 6 metros. Então, ele teria resistido. Em geral, teria evitado que, pelo menos, de 70% a 80% da cidade fosse atingida. E não aconteceu isso. Então, isso é muito dolorido, porque muitas coisas a gente não consegue prever na natureza, mas aprendemos com os eventos que passaram e isso é fundamental para continuar com resiliência num lugar sensível como Porto Alegre. Isso sim foi muito dramático para poder, digamos, acomodar do ponto de vista técnico, nós somos técnicos.

Professor, a gente conversava antes de começar o programa que o senhor teve um alerta de que poderia acontecer algo dessa magnitude há cerca de 20 anos. Eu queria que contasse para nós quando começou a perceber que uma enchente dessa proporção poderia, de fato, acontecer em Porto Alegre, não só em modelos hipotéticos?

Isso é muito interessante porque, quando fizemos o Atlas em 1998, trouxemos para Porto Alegre um primeiro expert internacional sobre mudanças climáticas, que era o professor Vittorio Canuto, do Goddard Institute, da Nasa, em Nova York. Ele fez a primeira conferência pública sobre esse tema ali na auditório da PUC, reunimos mil pessoas em 1996 para discutir mudança do clima. O Vittorio Canuto é um especialista, publicou nada menos do que 34 papers na Nature, um cara desse nível. Então, a gente já vinha trabalhando, com segurança, sobre informações do aquecimento global. No ano de 2004, se abateu no Rio Grande do Sul o primeiro furacão do Atlântico Sul, o furacão chamado Catarina, que aterrissou no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, na região de Torres, e sul de Santa Catarina.

Quando eu medi por imagens de satélite o diâmetro do Catarina e vi que ele tinha 600 km, pensei que, se ele desviasse a sua rota — o furacão é como um peão no solo, tem uma certa ergodicidade, pode variar levemente seu caminho –, poderia ter vindo um pouco mais para o sul, 60 km, então ele teria aterrissado exatamente em Porto Alegre e na região metropolitana. Ali eu me deparei com a possibilidade de catástrofes extremas, de desastres produzidos por tempos severos em Porto Alegre.

Eu procurei então avaliar os riscos da nossa Capital, os riscos não só produzidos pelo vento, mas, como nós sabemos também, um furacão é como uma mangueira muito grossa, de 10 km a 15 km de espessura, jorrando água numa região, borrifando uma região de água. Logo ali eu vi aqui o maior problema seria um alagamento interno da cidade e também uma inundação ao seu redor. Avaliei as possibilidades de evacuação da cidade previamente à vinda de um furacão, com as previsões. Tudo isso avaliei e avaliei como era frágil a nossa infraestrutura em termos de evacuação.

Eu percebi ali que a nossa infraestrutura estava muito concentrada no Humaitá e Navegantes, onde temos a ponte, temos o entroncamento da Freeway com a BR-116 e com a 386. É um entroncamento muito delicado, concentramos demasiadamente a nossa infraestrutura. Até depois foi colocado uma segunda ponte sobre o Delta do Jacuí e também um estádio de futebol imenso. Então, isso tudo mostrou que somos muito vulneráveis. Nós construímos uma infraestrutura vulnerável em relação à sensibilidade do território, seja agora com o aquecimento global, com um furacão, ou também com grandes enchentes. Essa inundação mostrou como Porto Alegre é facilmente isolável do ponto de vista infra estrutural, nós ficamos isolados, o que dificulta abastecimento, dificulta a própria capacidade de responder à emergência que se cria.

Com a sua trajetória de estudar o tema, quando a gente vê, em maio de 2024, colunas de jornais dizendo ninguém poderia imaginar o que iria acontecer. O que passa pela sua cabeça?

Ah, me passa que há falta de informação. Eu imaginei isso em 2004. Em 2022, eu fiz uma conferência, na Conferência Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre, em que eu mostrei exatamente a criticidade do nosso território em termos de dois fenômenos importantes que aconteceram agora. Um, o da convergência das águas fluviais que convergem para o Delta do Jacuí, estou falando do Rio Jacuí, que recebe o Antas-Taquari, o Rio dos Sinos, o Rio Caí e o Gravataí, e que eles poderiam, no caso de uma grande chuva, convergir com muita água pro Delta do Jacuí, que, por sua vez, encontra uma bacia, o Guaíba, que está conectado com a Laguna dos Patos e o Oceano Atlântico, e que pode, devido a uma maré de tempestade em Rio Grande, não ter escoamento. Eu mostrei isso na conferência.

Conferência com a participação da Prefeitura?

Claro, quem fez a abertura da conferência foi o prefeito Sebastião Melo. Ele estava lá fazendo a abertura da conferência. Estavam lá os técnicos da Prefeitura todos. Também foi conversado sobre a elevação do nível do mar nos próximos 100 anos e como Porto Alegre, é um tema que a gente não realiza muito do ponto de vista cultural, está no nível do mar. O Guaíba é parte do sistema costeiro interior, que nós chamamos também de mar de dentro, em que o Guaíba é parte do sistema de lagos e lagoas. Incluindo a Lagoa do Casamento, a Laguna dos Patos e a Lagoa Mirim. É um sistema fantástico de vasos comunicantes, ele é muito crítico também porque você não faz modelos fáceis sobre isso. Tem que incluir uma série de dados, variáveis e etc. O que torna um lugar muito bonito, é um lugar fantástico do mundo esse que nós habitamos na área, porque temos essa patrimônio hidrológico.

Mas, ao mesmo tempo, muito sensível. Isso representa uma oportunidade e também um perigo. Então, nós não soubemos administrar, gerir e culturalizar esse perigo. Dizer ao portoalegrense que nós pertencemos à região costeira e, portanto, estamos no nível do mar, e que se sobe o nível do mar, como está previsto para o presente século em até 60 centímetros, alguns mais pessimistas falam em 1 metro, nós teremos problemas em Porto Alegre. Como sabemos, toda cidade demora muito para se capacitar pra esses fenômenos, então nós temos que prever agora, para nossos netos lá na frente poderem ter resolvidas essas questões básicas, pela demora que a cidade tem natural. É complexo todo o sistema de gestão para responder isso. Veja que os ancestrais lá de 1941 demoraram 40 anos para construir todo o sistema de diques, que ainda não foi concluso. Ainda tem coisas sempre para ir melhorando o sistema. Falta proteger a zona sul, tem uma parte aqui na zona norte faltando melhor definir com casa de bombas. Enfim, isso é um sistema que tem que estar sempre melhorando. Para mim, não se coloca essa ideia de que não sabíamos, que é surpreendente. Nada surpreendente, ao contrário.

Qual foi a resposta do poder público para todos esses avisos que o senhor deu ao longo das últimas décadas?

Bom, isso é uma coisa importante, porque nós podemos dividir um desastre como esse em duas partes nítidas. Uma parte é o perigo. Quando se diz que pode haver uma precipitação de 800 milímetros numa região, isso representa um perigo, não necessariamente um risco. Veja se 800 milímetros de água caírem no Oceano Atlântico, não causa riscos, exceto se tiver uma embarcação ou plataformas de petróleo ali, mas, não tendo, às vezes nem ficamos sabendo, só os meteorologistas. Agora 800 milímetros de água caem no Planalto Meridional, ali no nordeste do Rio Grande do Sul, isso representa então uma grande ameaça para toda aquela região e também para os moradores da bacia hidrográfica.

Aí então nós vamos analisar um segundo aspecto, que é o risco. O risco é calculado em termos da vulnerabilidade, ou seja, quanto uma população, uma infraestrutura, uma lavoura, equipamentos, podem ser avariados, danificados, até levar a fatalidades, diante desse perigo. Então, nós analisamos a vulnerabilidade do sistema humano frente ao perigo, e isso então resulta no cálculo do risco. O risco é calculável, o risco é um número. Esse número é dado em termos econômicos, é o tamanho da perda e o tamanho da probabilidade de ter fatalidades.

Bom, para então enfrentar o risco, nós temos a capacidade de responder. O que que é a capacidade? São infraestruturas. Por exemplo, um dique de proteção contra inundação melhora a nossa capacidade de diminuir o risco. Nós diminuímos o risco. Sem o dique nós temos um risco elevadíssimo, de 80% em caso de uma precipitação dessas de haver uma inundação terrível, com o dique o nosso risco quase fica reduzido a 10%, a 5%. Outra função importante para diminuir o risco é também a gestão ambiental. Por quê? Porque os serviços ecossistêmicos são naturalmente elementos que diminuem a velocidade das águas, como matas ripárias, banhados. Eles também diminuem o volume das águas, à medida que facilitam a infiltração. Então, políticas e programas fortes de gestão ambiental são fundamentais para diminuir o risco.

E como te parece que está a nossa cidade e também a região metropolitana quanto a isso?

Nós vamos ver que, do ponto de vista da gestão ambiental, há um apagão em Porto Alegre. Um apagão assustador. Esse apagão é muito fácil de ser visto quando nós vamos visitar as comunidades, por exemplo, dos morros de Porto Alegre. Os arroios de Porto Alegre estão atulhados de resíduos, de uma maneira tão indigna, tão indigna, porque, além da deterioração ambiental, há também a deterioração social, a produção de doenças, é um aspecto. São pessoas que estão morando ali, é como se estivessem confinadas no porão de um navio. Nós não olhamos isso, a gente só olha o Arroio Dilúvio e não se fala dos outros arroios porque estão em grande parte, aqui no Centro, todos soterrados de alguma maneira. Mas, agestão ambiental de Porto Alegre não tem gestão dos arroios, não tem gestão correta dos resíduos, não tem gestão do ar que respiramos. Nós nem sabemos o grau da contaminação do ar, porque não há simplesmente medição.

Então, essa situação de não gestão do território leva ao caos do território. E, diante então de um evento como esse que a gente enfrentou, esse caos do território faz-se observar. Por quê? Os bueiros ficaram totalmente entupidos por quantidade de resíduos, os resíduos todos foram trazidos pela chuva para se concentrarem no meio da água, no meio da inundação. Essa água da inundação ficou completamente contaminada. Nós já vamos ter trabalhos científicos avaliando essa contaminação. As lamas que vieram junto com as águas também são contaminadas. Então, veja como que a falência da gestão ambiental, o apagão da gestão ambiental, faz agora durante uma crise uma inundação desse tipo aumentar enormemente a exposição a poluentes que vão trazer grandes problemas para a saúde da população exposta, etc, etc. Então, a gestão ambiental é o tema de casa número um para enfrentar as mudanças climáticas.

E quais são as medidas que tem que começar agora, já, do ponto de vista da gestão ambiental, que não dá para esperar o mês que vem, não dá para esperar o ano que vem. O que dá para começar agora?

Agora, já, é arroios e resíduos. Porto Alegre já foi referência internacional na gestão de resíduos. Aqui se começou, com a Marli Medeiros, na década de 80, que morava aqui na Bom Jesus, ela começou a fazer reciclagem para trazer renda para a população da comunidade dela. E com ela essa cidade aprendeu a fazer reciclagem, que em seguida se tornaram programas pioneiros da Prefeitura de Porto Alegre no início dos anos 1990. Depois só cresceu e depois Curitiba foi fazer programa de reciclagem, depois de Porto Alegre. E Porto Alegre agora começou essa reciclagem de resíduos, para onde são destinados? Por que que não temos programas de compostagem para resíduos orgânicos? Enfim, perdemos totalmente a mão nessa questão da gestão de resíduos, os arroios estão assoreados por resíduos. É por ali que tem que começar, porque essa questão trará dignidade também para as pessoas. As pessoas devem querer também melhorar o seu ambiente, elas fazem parte da gestão.

O segundo aspecto é a educação ambiental. Todo programa de gestão ambiental tem que ser participativo. Não existe a gestão ambiental de gabinete. Essa ideia de que vamos resolver aqui, contratar uma consultoria ali, terceirizar. Não se terceiriza a gestão ambiental, porque ela precisa do cidadão e da cidadã. Se cada um de nós não tem consciência da sensibilidade do lugar em que mora, nós moramos em um lugar sensível, um lugar que tem muitos riscos e um lugar que tem que estar sempre pronto em termos de facilitar o escoamento d’água, ter os sistemas funcionando, isso depende de cada um de nós. Eu acho que essa ideia de uma Prefeitura mínima, uma Prefeitura que já não faz mais nada, a Secretaria de Meio Ambiente foi incorporada junto com outra Secretaria de Urbanismo. São incompatíveis, porque uma secretaria tem um papel de criticar certas práticas urbanísticas, faz parte do procedimento técnico. Nós técnicos trabalhamos com críticas.

E hoje é uma secretaria de licenciamento.

Exatamente. Tu vê, a gestão das nossas praças e é só uma gestão de capina, poda indiscriminada. A praça ali perto da minha casa foi podada de tal maneira, com morte de pássaros. Então, não há sensibilidade ambiental ali. A educação ambiental, portanto, é fundamental. Nós tínhamos um programa de educação ambiental fantástico em Porto Alegre, que derivou do Atlas Ambiental. Logo que concluímos o Atlas Ambiental, em 1998, nós começamos um poderoso programa de educação ambiental. Lá na universidade, nós fizemos cursos para uso do Atlas em sala de aula. Nós formamos 600 professores municipais, em edições anuais, cursos anuais, para uso do Atlas em sala de aula, para ensinar as crianças de Porto Alegre o belíssimo lugar em que vivemos, como cuidar. E tu sabe que o Atlas tem ali, por exemplo, todo o sistema de proteção contra inundações.

Na época, eram dezenove casas de bomba, hoje são 23, mas todas as casas de bomba estão ali nominadas, mapeadas, localizadas. Então, é uma obra fantástica para você introduzir todo o temário que estamos discutindo aqui. Bom, esse programa foi pioneiro também, é um programa que me orgulho muito, não só por ter trabalhado com a rede municipal de ensino, mas também porque nós inovamos a maneira de fazer educação ambiental nas escolas por meio da implantação de laboratórios de inteligência do ambiente urbano.

O que que é um laboratório? O laboratório é um grupo de crianças e professores da comunidade escolar que vai construir uma espécie de um mini museu do bairro dentro da escola. É uma sala onde você vai encontrar coleções de rochas do bairro, mapas do bairro, maquete do bairro, tudo feito pelas crianças e pela comunidade escolar. Então, os pais e mães das crianças podem ir lá na escola e visitar esse mini museu e ele é explicado pelas crianças. Isso produz uma apropriação do lugar, um conhecimento fantástico, uma educação ambiental profunda, porque ela cria algo fundamental para enfrentar catástrofes, que é inteligência social do lugar. É a ideia de que cada lugar de Porto Alegre tem sua inteligência e que sabe responder a um desastre ambiental, seja uma chuva forte como a que ocorreu aqui, uma inundação, sejam chuvas mais leves. Veja que nós já tivemos torrentes aqui em Porto Alegre exatamente ali no Arroio Moinho, em que houve fatalidade, uma enxurrada muito grande nos morros. Então, nós precisamos ter inteligência social do lugar.

Esse trabalho de educação ambiental foi se enfraquecendo ao longo dos anos?

Ele não só enfraqueceu ao longo dos últimos 10 anos, como ele foi eliminado na gestão do prefeito Marchezan. Em 2018, ele eliminou. Nós tínhamos uma rede de 32 laboratórios de inteligência do ambiente urbano, um programa internacionalmente conhecido na América Latina e no mundo, porque ele é sensacional. Ele é um sistema de educação muito interessante, porque realmente faz com que a comunidade escolar se torne um centro de saberes locais. Induz a comunidade a conhecer verdadeiramente o lugar em que vive e a escola, com isso, se abre para a sua comunidade, ela passa a ser um equipamento querido da comunidade. Porque a escola passa a se interessar verdadeiramente pela cultura que está ali. E isso, em 2018, foi completamente encerrado. Uma pena muito grande, ficamos todos muito tristes, porque a comunidade de professores e professoras da rede municipal é impressionante. Houve um momento em que eu tinha dúvidas se não colocaria meu filho para estudar na escola municipal, tão fantástica que era a rede municipal de Porto Alegre.

O senhor falou há pouco sobre assoreamento de arroios. A gente recebeu várias perguntas depois do que aconteceu em Porto Alegre sobre de que maneira essa falta de cuidado com os rios, com as margens, com o próprio depósito de resíduos ao longo dos nossos rios e do Guaíba contribuiu para a enchente. O senhor consegue fazer uma avaliação do que poderia ter sido feito para minimizar o impacto?

Veja que a inundação em Porto Alegre não aconteceu por sobrepassagem da água nos diques externos, ela aconteceu por entrada da água pelas comportas do sistema nas casas de bomba. O que que acontece ali? Quando a água começou a escoar de volta para Guaíba e para o Gravataí, veio consigo muitos resíduos, que foram então entupindo, foram obstaculizando os dutos, os bueiros, etc. Isso gerou então alagamento na cidade. Se você estiver lembrado, nós tivemos um pico de cheia, depois baixou um pouco, tivemos um segundo pico de cheia e um terceiro. Esse terceiro foi ocasionado pela quantidade de chuva que caiu no nosso território.

Foi naquela quinta-feira que choveu muito em Porto Alegre.

Choveu muito em Porto Alegre. E aí, então, os bueiros estavam todos lotados de resíduos, trazidos pelas águas da inundação. Se a cidade estivesse com um sistema de cuidado em relação a resíduos e seus arroios, desassoreando, limpando, a quantidade de resíduos que teria voltado com a inundação para o Guaíba e o Gravataí teria sido muito menor. Porque, no momento crítico de emergência, podem acontecer ainda elementos intercorrentes, como uma grande chuva no próprio território onde está a crise de emergência. O que foi o caso dessa chuvarada da quinta-feira. E isso levou de novo ao desespero de pessoas, de novo trouxe muitas consequências difíceis para uma população que já estava no meio de uma crise severa. Isso é uma clara demonstração do que que significa uma cidade que não fez devidamente seu tema de casa com a gestão ambiental, como isso aumenta os riscos e aumenta os impactos negativos, as dificuldades também daí de resgate e etc.

Professor, a gente falou das medidas de curto prazo, da educação ambiental, falamos agora da questão dos resíduos. E olhando mais para o futuro de uma cidade que é suscetível a grande concentração de chuvas, a furacões, a fortes ventos, como aconteceu em 2016, à elevação do nível do mar, que o senhor disse que vai acontecer nas próximas décadas. O que a gente pode fazer do ponto de vista de gestão ambiental e também de preparação para esses eventos ao longo das próximas décadas, que devem ser feitos ou então nós vamos continuar sofrendo quem sabe até eventos piores do que esse que a gente acompanhou agora em maio?

Eu acho essa questão central. E o que é central ali não são só medidas técnicas. Não temos bala de prata, não há bala de prata. Nós vimos que muitos propuseram abrir um canal ali na restinga da Laguna dos Patos com o Oceano Atlântico. Essas ideias de balas de prata são só ideias que custam muito caro e que não vão funcionar. O que funciona realmente é a cultura da coisa. Nós temos que ter uma cultura de que nós moramos num lugar sensível e de que as coisas podem acontecer. Então, essa consciência nós precisamos dela e essa consciência a gente cria com cultura, com educação e com medidas.

Medidas que vão deixar a população sempre ativa em relação a essa cultura. Ativa, por exemplo, nós em Porto Alegre devemos ter um dia ou uma semana de preparação, de treinamento, em relação a inundações e a tempos severos. O que que é treinar? Bom, são as escolas ou locais de trabalho olharem onde estão, verem quais são os seus riscos. E para isso nós temos o Atlas, temos materiais hoje incríveis para que nessa semana sempre recorrentemente sobre a nossa situação de riscos, de alertas, sobre o que fazer. Não é possível no caso de uma emergência, durante o desastre, que as populações, por exemplo, ali da zona norte, não soubessem para onde ir em caso de evacuação. Isso não existe nos sistemas de prevenção de desastre. Os sistemas de prevenção de desastres tem protocolos muito bem elaborados, com toda experiência internacional. A ONU publicou esses protocolos ainda em 2000, na gestão do Kofi Annan. Temos tudo isso, há uma ciência de desastres.

E a gente não tinha nada aqui?

Não tinha nada disso. Não tinha planos de prevenção, não tinha mapas de riscos bem definidos, não tinha a preparação da população, nós não tínhamos também uma defesa civil apropriada, capacitada para enfrentar isso. Isso não quer dizer que eles não fizeram um esforço fantástico que nós vamos agradecer a vida inteira. O socorro é quando nada deu certo. O socorro deve ser evitado com a evacuação das pessoas. A evacuação das pessoas não é socorro, é um processo que tu faz com antecedência, com calma, com consciência. Então, não há planejamento de nada. Isso é um aspecto fundamental, nós temos que criar capacidade de enfrentamento às emergências climáticas.

Veja, a emergência climática, os tempos severos, não são uma fatalidade. Eu acho que esse é o pior recado político, social, cultural, que nós podemos passar para as gerações futuras, de que não tem saída. Não tem saída porque não se capacitaram, não tem saída porque negligenciaram, não tem saída porque houve muito descaso. Não foi pouco descaso, muito descaso. A falta de manutenção do dique representa, do meu ponto de vista, a mesma coisa que trancar os coletes salva-vidas numa sala. Esse é o tamanho do descaso. E passar para as gerações futuras a ideia de que nós não temos saída na área, é esse o recado que passa o descaso. E não, nós podemos enfrentar desde que a gente reconheça a sensibilidade e nos tornemos capazes, do ponto de vista de uma inteligência social do lugar.

Então, nós temos que construir uma inteligência social do lugar, de cada lugar, de cada bairro de Porto Alegre. E essa inteligência social não é só uma consciência do que se fazer, é um plano, mas ela é também equipamentos. Você falou, por exemplo, da subida do nível do mar. Ele está subindo, daqui a 60 anos já deverá alcançar uma cota de 60 centímetros. Isso é fundamental, porque, com 60 centímetros, a água já ultrapassaria o nosso dique se fosse uma enxurrada como a que aconteceu.

Fonte:Instituo Humanitas Unisinos (IHU) 14/6/2024

O caos atual destrutivo e o caos generativo como saída salvadora

                           Leonardo Boff

Inegavelmente vivemos uma conjunção de crises de toda ordem. São tantas que nem precisamos citá-las. Numa palavra, estamos vivendo uma situação de grande caos.

Já há muitos anos, cientistas vindos das ciências da vida e do  universo começaram a trabalhar com a categoria do caos. Este se apresenta como destrutivo de uma ordem dada e como generativo de uma nova ordem escondida dentro da destrutiva que forceja por nascer.

Realizemos este percurso: inicialmente pensava-se que o universo era estático e regulado por leis determinísticas. Até o próprio Einstein comungava inicialmente desta visão.

Mas tudo começou a mudar quando um cosmólogo amador Hubble em 1924 comprovou que o universo não era estático mas se encontrava em expansão e em rota de fuga, para uma direção por nos indecifrável. Mais tarde, cientistas perceberam uma onda de baixíssima intensidade e permanente,vindo de todas as partes. Seria o último eco do big bang ocorrido por  volta de 13,7 bilhões de anos atrás. Aqui estaria a origem do universo.

Neste contexto da evolução que se mostra não linear mas que dá saltos para frente e para cima, ganhou centralidade o conceito de caos. O big bang representaria um incomensurável caos. A evolução teria surgido para pôr ordem  nesse caos originário, criando ordens novas: a miríade de corpos celestes, as galáxias, as estrelas e os planetas.

O fenômeno do caos resultou da observação de fenômenos aleatórios como a formação das nuvens e particularmente o que se veio chamar de efeito borboleta. Quer dizer: pequenas modificações iniciais, como farfalhar das asas de uma borboleta no Brasil, podem provocar, no final um efeito totalmente diferente como uma tempestade sobre Nova York.

Isso porque todos os elementos estão interligados, tudo está relacionado com tudo e podem complexificar-se de forma surpreendente. Fez-se a constatação da crescente complexidade de todos os fatores que estão na raiz da emergência da vida e em  ordens de vida cada vez mais altas (cf. J.Gleick Caos: criação de uma nova ciência,1989).

O sentido é este: dentro do caos  se escondem virtualidades de um outro tipo de ordem. E vice-versa, por detrás da ordem se escondem dimensões de caos. Ilya Progrine (1917-1993), prêmio Nobel de Química em 1977, estudou particularmente as condições que permitem a emergência da vida a partir do caos.

Segundo este grande cientista,  sempre que exisitir um sistema aberto, sempre que houver uma situação de caos (portanto, fora  do equilíbrio) e se constatar a conectividade entre as partes, gera-se uma nova ordem (cf. Order out of Chaos,1984). No caso, a nova ordem emergente seria a vida ou uma forma nova de organizar a sociedade.

Ainda segundo Ilya Prigogine, existem no seio da vida estruturas dissipativas, num duplo sentido: elas demandam muita energia e assim  dissipam esta energia em forma de rejeitos; por outro lado estas estruturas dissipam a entropia e fazem dos rejeitos, base para outras formas de vida. Nada se perde. Tudo se recompõe e gera a possibilidade de novas formas de vida e eventualmente de sociedades.Isso indefinidamente,como processo da evolução.

Tentemos aplicar esta compreensão ao destrutivo caos atual. Ninguém pode dizer que ordem pode surgir,escondida dentro desse caos.  Apenas sabemos que uma ordem diferente, dadas certas condições socio-históricas, pode irromper. Quem vai desentranhá-la e assim  superar o caos destrutivo?

O que de certo podemos dizer é que a atual ordem caótica imperante no mundo não oferece nenhum subsídio para superar o caos. Ao contrário, ao levá-lo avante, pode nos conduzir a um caminho sem retorno. O resultado final seria o abismo. Bem notava Albert Einstein:”a ideia que criou crise (diríamos o caos), não será a mesma que nos tirará dela; temos que mudar”.

Quando a humanidade se confronta com fundamentais situações caóticas que podem ameaçar sua existência – creio que estamos dentro delas – não lhe resta outro caminho  senão mudar. Estimo que para esta mudança não nos resta outro caminho melhor senão consultar a nossa própria natureza humana. Embora contraditória (sapiente e demente) ela se caracteriza por ser um projeto infinito, carregado de potencialidades.Dentro destas potencialidades podem se identificar elementos de uma ordem diferente e melhor.

Esta se fundará,necessariamente, numa nova relação para com a natureza, afetiva e respeitosa,sentindo-se parte dela; no amor que pertence ao nosso DNA; na solidariedade que permitiu o salto da animalidade para a humanidade; na fraternidade universal,baseada no mesmo código genético, presente em todos os seres vivos; no cultivo do mundo do espírito que também pertence à essência do ser humano. Este nos torna cooperativos e compassivos e nos revela que somos um nó de relações voltadas em todas as direções até para com Aquele Ser que faz ser todos os seres. Assim sairíamos do caos destrutivos rumo ao caos generativo.

Esses seriam alguns elementos, entre muitos outros aqui não referidos, que poderiam fundar uma nova ordem e forma de habitar amigavelmente o planeta Terra, tido como Casa Comum, a natureza incluída. E assim estaríamos salvos  por ter superado o caos destrutivo rumo um caos generativo com um outro horizonte de vida e de futuro civilizatório.

Leonardo Boff é ecoteólogo e filósofo e escreveu Cuidar da Casa Comum: pistas para protelar o fim do mund

Apokalyptische Zeiten, sind es die unseren?

Ich bin nicht apokalyptisch. Was apokalyptisch ist, sind unsere Zeiten. Die Anhäufung von Tragödien in der Natur, die verheerenden Kriege mit dem Völkermord an Tausenden unschuldiger Kinder, der Zusammenbruch der Ethik, die Erstickung des Anstands in den politischen Beziehungen, die Erstickung grundlegender menschlicher Werte, die Offizialisierung der Lüge in den virtuellen Medien, die Diktatur der materialistischen Kultur des Kapitals mit der daraus folgenden Verbannung der dem Menschen innewohnenden spirituellen Dimension lassen uns denken: Könnte es sein, dass die biblischen Propheten Recht haben, wenn sie von apokalyptischen Zeiten schreiben? Wir wissen aus der Exegese, dass Prophezeiungen nicht den Anspruch erheben, künftiges Unglück vorherzusagen. Sie zielen darauf ab, Tendenzen aufzuzeigen, die, wenn sie nicht gestoppt werden, zu den vorhergesagten Unglücken führen werden.

Ein erschreckender Text in der jüdisch-christlichen Bibel hat mich schon immer beeindruckt. Welche Art von Erfahrung hat den Autor dazu gebracht, das zu schreiben, was er geschrieben hat? Ich glaube, dass vielen Menschen heute etwas Ähnliches durch den Kopf geht. In dem Text heißt es:

Der Herr sah, dass die Bosheit der Menschen auf der Erde groß war und dass alle Absichten ihres Herzens immer nur böse waren. Und es reute den Herrn, dass er den Menschen auf Erden gemacht hatte, und es bekümmerte ihn in seinem Herzen. Und der Herr sprach: Ich will den Menschen, den ich geschaffen habe, vom Erdboden vertilgen und mit dem Menschen auch das Vieh und die Kriechtiere und die Vögel des Himmels; denn es reut mich, dass ich sie gemacht habe“ (Gen 6, 5-8). Würde das Böse, das in der weiten Welt wütet, diese Überlegung nicht rechtfertigen?

Ich würde auch den apokalyptischen Text des Evangelisten Matthäus hinzufügen: „Und ihr werdet hören von Kriegen und Kriegslärm. Seht zu, dass ihr euch nicht erschreckt; denn es muss geschehen, aber es ist noch nicht das Ende. Denn es wird sich ein Volk gegen das andere erheben und ein Königreich gegen das andere; es wird Hungersnöte und Erdbeben geben an verschiedenen Orten; aber das alles ist erst der Anfang der Leiden“ (Mt 24,6-8). Treten ähnliche Phänomene nicht auch auf planetarischer Ebene auf?

Es scheint, dass die vier Reiter der Apokalypse mit ihren zerstörerischen Hyänen frei herumlaufen: Das erste weiße Pferd nimmt die Gestalt Christi an, um so viele Menschen wie möglich zu täuschen. Jesus antwortete ihnen: „Seht zu, dass euch niemand verführt! Denn es werden viele kommen in meinem Namen und sagen: Ich bin der Christus, und werden viele verführen“ (Mt 24, 4-5). Johannes stellt in seinem ersten Brief fest, dass es „[…] in der Tat viele Antichristen gibt […] Sie sind von uns ausgegangen, aber sie waren nicht von uns; wenn sie von uns gewesen wären, wären sie bei uns geblieben […]“ (Jh 2,18-19). Heute wimmelt es in unserer Mitte von Christusverkündern, die Scharen in ihren Tempeln versammeln und das Gegenteil von dem predigen, was Christus gepredigt hat: Hass, Verleumdung und Verteufelung des Nächsten.

Das andere Feuerpferd symbolisiert den Krieg, in dem sie sich gegenseitig die Kehle aufschlitzen. Heute gibt es etwa 18 Kriegsschauplätze mit einer großen Dezimierung von Menschenleben.

Das dritte schwarze Pferd symbolisiert Hungersnot und Pest. Wir wurden von der Plage des Coronavirus heimgesucht, jetzt von Dengue, von der Grippe, die Millionen von Menschen krank macht.

Und schließlich das grünliche Pferd, dessen Farbe den Tod symbolisiert (die Farbe eines Leichnams), der heute auf unzählige Arten und Weisen Millionen erntet (Offb 6,1-8).

Heute brauchen wir kein Eingreifen Gottes, um dieser unheilvollen Geschichte ein Ende zu setzen. Wir selbst haben das Prinzip der Selbstzerstörung mit chemischen, biologischen und atomaren Waffen geschaffen, die die gesamte Menschheit und auch die Natur mit ihren Tieren, Reptilien und Vögeln der Lüfte dezimieren.

Dies sagte einst Michail Gorbatschow, und ich hörte es persönlich zusammen mit der großen argentinischen Sängerin Mercedes Soza (la Negra) bei einem Treffen zur Erdcharta, das er koordinierte. Eine solch beängstigende Rede eines Staatschefs, der über Hunderte von Atomsprengköpfen und alle Arten von tödlichen Waffen verfügt, erinnert mich an das, was einer der größten Historiker des letzten Jahrhunderts, Arnold Toynbee, in seiner Autobiographie als Reaktion auf den Abwurf der Atombombe auf Hiroshima gestand: „[…] Ich habe erlebt, wie das Ende der menschlichen Geschichte zu einer realen Möglichkeit wurde, die nicht durch einen Akt Gottes, sondern durch den Menschen in die Tat umgesetzt werden kann“ (Experiência, Vozes 1970, S.422). Ja, das Schicksal des Lebens liegt in unserer Hand. Sollte es zu einer Eskalation kommen und strategische Atomsprengköpfe zum Einsatz kommen, würde dies das Ende der menschlichen Spezies und des Lebens bedeuten.

Neben der nuklearen Bedrohung, die manche angesichts des Krieges Russlands mit der Ukraine und der Drohung Putins, taktische Atomwaffen einzusetzen, für unmittelbar bevorstehend halten, gibt es noch den Notfall des Klimawandels. Bei uns [in Brasilien] im Rio Grande do Sul, in Europa, in Afghanistan und anderswo hat es verheerende Überschwemmungen gegeben, die ganze Städte von der Landkarte verschwinden ließen. Der neuseeländische Wissenschaftler James Renwick von der University of Victoria stellt fest: „Der Klimawandel ist die größte Bedrohung, der die Menschheit je ausgesetzt war, und hat das Potenzial, unser soziales Gefüge und unsere Lebensweise zu zerstören. Er hat das Potenzial, Milliarden von Menschen zu töten, durch Hunger, Kriege um Ressourcen und die Vertreibung der Betroffenen“.

Was können wir erwarten? Alles. Unseren Untergang aufgrund unserer Trägheit oder den Einbruch eines neuen Bewusstseins, das sich für das Überleben entscheidet, mit Sorgfalt und einer emotionalen Verbindung zu Mutter Erde. Der bekannte Ökonom und Ökologe Nicolas Georgescu-Roegen vermutete, dass „das Schicksal des Menschen vielleicht darin besteht, ein kurzes, aber fieberhaftes, aufregendes und extravagantes Leben zu führen, anstatt ein langes, vegetatives und eintöniges. In diesem Fall werden andere Spezies ohne spirituelle Ansprüche, wie Amöben [Parasiten], eine Erde erben, die noch lange Zeit in der Fülle des Sonnenlichts gebadet wird“ (The Promethean Destiny, N. York: Pinquin Books 1987, S. 103).

Christen sind optimistisch: Sie glauben an diese Botschaft aus der Offenbarung: „Und ich sah einen neuen Himmel und eine neue Erde; denn der alte Himmel und die alte Erde waren vergangen, und das Meer war nicht mehr. Und ich sah auch die heilige Stadt, das neue Jerusalem, von Gott aus dem Himmel herabkommen, bereit wie eine geschmückte Braut für ihren Mann. Und ich hörte eine gewaltige Stimme, die vom Thron herabkam und sagte: „Siehe, das Zelt Gottes bei den Menschen! Er wird bei ihnen wohnen, und sie werden sein Volk sein, und er wird der Gott bei ihnen sein, ihr Gott. Und er wird abwischen alle Tränen von ihren Augen, und der Tod wird nicht mehr sein, noch Leid, noch Geschrei, noch Schmerz wird mehr sein; denn das Erste ist vergangen“ (Offb 21,1-4).

Wir müssen wie Abraham sein, der „gegen alle Hoffnung an die Hoffnung geglaubt hat“ (Röm 4,18), denn „die Hoffnung enttäuscht nicht“ (Röm 5,4). Das ist es, was uns bleibt: die zuversichtliche Hoffnung und, im positiven Sinne, die ständige Hoffnung [o esperançar].

Leonardo Boff Öcotheologe Philosoph shrieb Die Erde ist uns anvertraut, Butxo&Berker 2010.

Autor von: O homem: Satã ou Anjo bom, Record 2008; Sol da esperança, Mar de Ideias, Rio 2007.

Tempi apocalittici, i nostri?

Leonardo Boff

Non sono apocalittico. Ad essere apocalittici sono i nostri tempi. L’accumulo di tragedie che accadono nella natura, le guerre di grande devastazione con il genocidio di migliaia di bambini innocenti, il collasso dell’etica, il soffocamento della decenza nelle relazioni politiche, l’asfissia dei valori umani fondamentali, l’ufficializzazione della menzogna nei mezzi di comunicazione virtuale, la dittatura della cultura materialista del capitale con il conseguente esilio della dimensione spirituale, insita nell’essere umano, ci inducono a pensare: sarà che i profeti biblici abbiano ragione quando scrivono di tempi apocalittici? Sappiamo esegeticamente che le profezie non pretendono anticipare le disgrazie future. Mirano a evidenziare le tendenze che, se non fermate, porteranno alle disgrazie annunciate.

Sono sempre rimasto impressionato da un testo spaventoso, incluso nella Bibbia giudaico-cristiana. Che tipo di esperienza ha portato il suo autore a scrivere ciò che ha scritto? Credo che qualcosa di simile stia attraversando la mente di molte persone oggi. Il testo dice: «Il Signore vide che la malvagità degli uomini era grande sulla terra e che ogni intimo intento del loro cuore non era altro che male, sempre. E il Signore si pentì di aver fatto l’uomo sulla terra e se ne addolorò in cuor suo. Il Signore disse: “Cancellerò dalla faccia della terra l’uomo che ho creato e, con l’uomo, anche il bestiame e i rettili e gli uccelli del cielo, perché sono pentito di averli fatti» (Genesi 6, 5-8). Il male che imperversa nel vasto mondo non giustificherebbe questa considerazione?

Aggiungerei anche il testo apocalittico raccolto dall’evangelista San Matteo: «E sentirete di guerre e di rumori di guerre. Guardate di non allarmarvi, perché deve avvenire, ma non è ancora la fine. Si solleverà infatti nazione contro nazione e regno contro regno; vi saranno carestie e terremoti in vari luoghi: ma tutto questo è solo l’inizio dei dolori» (Vangelo di Matteo 24, 6-8). Fenomeni simili non si verificano attualmente a livello planetario?

Sembra che i quattro cavalieri dell’Apocalisse, con le loro iene distruttrici, siano sciolti: Il primo cavallo bianco assume la figura di Cristo per ingannare il maggior numero di persone. «Gesù rispose loro: “Badate che nessuno vi inganni! Molti infatti verranno nel mio nome, dicendo: “Io sono il Cristo”, e trarranno molti in inganno» (Vangelo di Matteo 24, 4-5). San Giovanni nella sua Prima Epistola sostiene che ci sono «[…] di fatto molti anticristi […] Sono usciti da noi, ma non erano dei nostri; se fossero stati dei nostri, sarebbero rimasti con noi […]» (Vangelo di Giovanni 2,18-19). Oggi, in mezzo a noi, pullulano quelli che annunciano Cristo, radunano moltitudini nei loro templi e predicano il contrario di ciò che Cristo ha predicato: l’odio, la diffamazione e la satanizzazione del prossimo.

L’altro cavallo di fuoco simboleggia la guerra, nella quale si tagliavano la gola a vicenda. Oggi ci sono circa 18 luoghi di guerra con grande decimazione di vite umane.

Il terzo cavallo nero simboleggia la carestia e la peste. Siamo stati visitati dalla peste del coronavirus, ora dal dengue, dall’influenza che porta malattie a milioni di persone.

Infine il cavallo verdastro, il cui colore simboleggia la morte (il colore di un cadavere) che oggi miete milioni e milioni di persone in innumerevoli modi diversi (Apocalisse 6, 1-8).

Oggi non abbiamo bisogno dell’intervento di Dio per porre fine a questa storia sinistra. Noi stessi abbiamo creato il principio dell’autodistruzione con armi chimiche, biologiche e nucleari che decimano tutta l’umanità e anche la natura con i suoi animali, rettili e uccelli del cielo. E non rimarrà nessuno a raccontare la storia.

Questo lo disse una volta Michail Gorbachev, e l’ho sentito di persona insieme alla grande cantante argentina Mercedes Soza (la Negra) in occasione di un incontro sulla Carta della Terra, che lui stava coordinando. Un discorso così spaventoso da parte di un capo di Stato, con centinaia di testate nucleari e ogni tipo di arma letale, mi ricorda quello che confessò uno dei più grandi storici del secolo scorso, come reazione allo sgancio della bomba atomica su Hiroshima, Arnold Toynbee nella sua autobiografia: “[…] ho vissuto fino a vedere la fine della storia umana diventare una possibilità reale che può essere tradotta in fatti non da un atto di Dio ma dell’essere umano” (Experiência, Vozes 1970, p.422). Sì, il destino della vita è nelle nostre mani. Se si verificasse un’escalation e si utilizzassero testate nucleari strategiche, ciò significherebbe la fine della specie umana e della vita.

Oltre alla minaccia nucleare che alcuni considerano imminente, vista la guerra della Russia contro l’Ucraina, con la minaccia di Putin di utilizzare armi nucleari tattiche, c’è tuttora anche l’emergenza dei cambiamenti climatici. Tra noi [in Brasile] nel Rio Grande do Sul, in Europa, in Afghanistan e altrove, si sono verificate inondazioni devastanti, oltre a spazzare via dalla mappa intere città. Osserva uno scienziato neozelandese, James Renwick, dell’Università di Victoria: “Il cambiamento climatico è la più grande minaccia che lumanità abbia mai dovuto affrontare, con il potenziale di rovinare il nostro tessuto sociale e il nostro stile di vita. Ha il potenziale di uccidere miliardi di persone, attraverso la fame, la guerra per le risorse e per lo sfollamento delle persone colpite”.

Cosa possiamo aspettarci? Tutto. La nostra scomparsa, per colpa della nostra inerzia o l’irruzione di una nuova coscienza che sceglie la sopravvivenza, con cura e un legame emotivo con la Madre Terra. Il noto economista-ecologista Nicolas Georgescu-Roegen sospettava che “forse il destino dellessere umano è quello di avere una vita breve ma febbrile, eccitante e stravagante piuttosto che una vita lunga, vegetativa e monotona. In questo caso, altre specie, prive di pretese spirituali, come ad esempio le amebe [parassiti], erediteranno una Terra che continuerà a essere bagnata per lungo tempo dalla pienezza della luce solare” (The Promethean Destiny, N. York: Pinquin Books 1987, pag.103).

I cristiani sono ottimisti: credono a questo messaggio dell’Apocalisse: «E vidi un cielo nuovo e una terra nuova: il cielo e la terra di prima infatti erano scomparsi e il mare non c’era più. E vidi anche la città santa, la Gerusalemme nuova, scendere dal cielo, da Dio, pronta come una sposa adorna per il suo sposo. Udii allora una voce potente, che veniva dal trono e diceva: “Ecco la tenda di Dio con gli uomini! Egli abiterà con loro ed essi saranno suoi popoli ed egli sarà il Dio con loro, il loro Dio. E asciugherà ogni lacrima dai loro occhi e non vi sarà più la morte né lutto né lamento né affanno, perché le cose di prima sono passate» (Apocalisse 21, 1-4).

Dobbiamo essere come Abramo che «contro ogni speranza ebbe fede nella speranza» (San Paolo ai Romani, 4,18), perché «la speranza non delude» (San Paolo ai Romani, 5,4). È quello che ci resta: la speranza fiduciosa e, positivamente, il continuare a sperare [o esperançar].

Leonardo Boff ha scritto: O homem: Satã ou Anjo bom, Record 2008; Sol da esperança, Mar de Ideias, Rio 2007.

(traduzione dal portoghese di Gianni Alioti)