Como cuidar de si e dos outros em tempos de coronavírus

Vivemos tempos dramáticos sob o ataque do coronavírus, uma espécie de guerra contra um inimigo invisível contra o qual todo o arsenal destrutivo de armas nucleares, químicas e biológicas construídas pelas potências militaristas, são totalmente inúteis e até ridículas. O Micro (vírus) está derrotando o Macro(nós).

Temos que nos cuidar pessoalmente e cuidar dos outros, para podermos nos salvar juntos. Aqui não valem os valores da cultura do capital, a competição, mas a cooperação, não o lucro mas a vida, não a riqueza de uns poucos e a pobreza das grandes maiorias, não a devastação da natureza mas o seu cuidado. Estamos dentro do mesmo barco e sentimos que somos seres que dependemos uns dos outros. Aqui somos todos iguais e com o mesmo destino feliz ou trágico.

                            O que somos enquanto humanos?

Nesses momentos de isolamento social forçado, temos a oportunidade de pensarmos sobre nós mesmos e o que realmente somos. Sabemos quem somos? Qual é o nosso lugar no conjunto dos seres? Para que existimos? Por que podemos ser acometidos pelo coronavírus e até morrer? Para onde vamos? Refletindo nestas perguntas inadiáves cabe lembrar a ponderação de Blaise Pascal(+1662). Ninguém melhor do que ele, metemático, filósofo e místico, para expressar o ser complexo que somos:

Que é o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde veio e o infinito para onde vai”(Pensées § 72). Nele se cruzam os quatro infinitos: o infinitamente pequeno, o infinitamente grande, o infinitamente complexo ( Teihard de Chardin) e o infinitamente profundo.

Na verdade, não sabemos bem quem somos. Ou melhor, desconfiamos de alguma coisa na medida em que vivemos e acumulamos experiências.

Em um somos muitos. Além daquilo que somos, vigora em nós aquilo que podemos ser: o inesgotável cabedal de virtualidades escondidas dentro de nós. Nosso potencial é aquilo que é o mais verdadeiro em nós. Dai a nossa dificuldade de construirmos uma representação satisfatória do que somos. Mas isso não nos dispensa de elaborarmos algumas chaves de leitura que, de alguma maneira, nos orientam na busca daquilo que queremos e poderemos ser.

É nesta busca que o cuidado de si mesmo desempenha uma função decisiva. Especialmente nesse momento dramático,quando estamos expostos de um inimigo invisível que nos pode matar ou através de nós, levar a doença ou a morte aos outros. Não se trata, primeiramente, de um olhar narcisista sobre o próprio eu o que leva, geralmente, a não conhecer-se a si mesmo mas identificar-se com uma imagem projetada de si mesmo e, por isso, alienada e alienante.

Foi o filósofo Michel Foucauld que com sua minuciosa investigação “Hermenêutica do sujeito”(1984,em português 2004) que tentou resgatar a tradição ocidental do cuidado do sujeito, especialmente nos sábios do século II/III como Sêneca, Marco Aurélio, Epicteto e outros. O grande motto era o famoso “ghôti seautón” “conheça-te a ti mesmo”. Esse conhecimento não era entendido de forma abstrata mas concreta como : reconheça-te naquilo que és, procure aprofundar-te em ti mesmo para descobrires tuas potencialidades; tente realizar aquilo que de fato és”.

Importa afirmar em primeiro lugar: o ser humano é um sujeito e não uma coisa. Não é uma substância, constituída uma vez por todas (Foucault, Hermenêutica do sujeito, 2004), mas um nó de relações sempre ativo que mediante o jogo das relações está continuamente se construindo a si mesmo. Nunca estamos prontos, mas sempre nos formando.

Todos os seres do universo, consoante a nova cosmologia, são portadores de certa subjetividade porque sempre estão se relacionando e trocando informação. Por isso eles têm história e um certo nível de conhecimento inscrito em seu DNA.. Esse é um princípio cosmológico universal. Mas o ser humano realiza uma modalidade própria deste princípio relacional que é o fato de ser um sujeito consciente e reflexivo. Ele sabe que sabe e sabe que não sabe e, para sermos completos, não sabe que não sabe como dizia ironicamente Miguel de Unamuno.

Este nó de relações se articula a partir de um centro ao redor do qual organiza os sentimentos, as idéias, os sonhos e as projeções. Este centro é um eu, único e irrepetível. Ele representa, na linguagem do filósofo mais sutil de todos os medievais, o franciscano Duns Scotus(+1203), a “ultima soiitudo entis”, a “última solidão do ser”.

Esta solidão significa que o eu é insubstituível e irrenunciável. Mas lembremos: deve ser entendido no contexto do nó de relações dentro do processo global de interdependências, de sorte que a solidão não é o desligamento dos outros. Ela significa a singularidade e a especificidade inconfundível de cada um. Portanto, esta solidão é para a comunhão, é um estar só em sua identidade para poder estar com o outro diferente e poder ser um-para-o-outro e com-o-outro. O eu nunca está só.

                           Cuidar de si: acolher-se jovialmente

O cuidado de si implica, em primeiríssimo lugar, acolher-se assim como é com as aptidões e limites que sempre o acompanham. Não com amargura como quem não consegue evitar ou modificar a sua situação existencial. Mas com jovialidade. Acolher o próprio tamanho, o rosto, o ttipo de cabelos, de pernas, de pés, de seios, em fim, acolher seu ser corporal.

Quanto mais nos aceitamos assim como somos, menos clínicas de cirurgias plásticas haveria. Com as características físicas que temos devemos elaborar nosso jeito de ser e nosso mese-en-scène no mundo. Podemos questionar a construção artificial de uma beleza montada que não está em consonância com uma beleza interior. Há o risco real de perder a irradiação e ganhar lugar uma aparência, sem brilho.

Mais importante é acolher os dons, as habilidades, o poder, o quociente de inteligência, a capacidade emocional, o tipo de vontade e determinação com que cada um vem dotado. E ao mesmo tempo, sem resignação negativa, os limites do corpo, da inteligência, das habilidades, da classe social e da história familiar e nacional na qual está inserido.

Tais realidades configuram a condição humana concreta e se apresentam como desafios a serem enfrentados com equilíbrio e com determinação de explorar o mais que podemos as nossas potencialidades positivas. E saber carregar, sem amargor, as negativas.

O cuidado de si exige saber combinar as aptidões com as motivações. Explico-me: não basta termos aptidão para a música se não sentimos motivação nenhuma para desenvolver esta capacidade. Da mesma forma, não nos ajudam as motivações para sermos músico se não tivermos a aptidão para isso seja de ouvido seja de domínio do instrumento. Não adianta querer pintar como um van Gogh se alcança apenas a ser um pintor de paisagens, de flores e de passarinhos que mal chegam a ser expostos na feira de domingo na praça. Disperdiçamos energias e colhemos frustrações. A mediocridade não engrandece a ninguém.

Outro componente do cuidado para consigo mesmo é saber e aprender a conviver com o paradoxo que atravessa nossa existência: temos impulsos para cima, para a bondade, a solidariedade, a compaixão e o amor. E simultaneamente pulsam em nós chamados para baixo como  o egoismo, a exclusão, a antipatia e até o ódio. Na hiatória recente de nosso país, tais dimensões contraditórias apareceramm de forma até virulenta, envenenando a convivência social.

Somos feitos com estas contradições, dadas com a existência. Antropologicamente se diz que somos ao mesmo tempo sapiens e demens, gente de inteligência e lucidez e junto a isso gente de rudeza e violência. Somos a convergência das oposições.

Cuidar de si mesmo impõe saber renunciar e ir contra certas tendëncias em nós e até pôr-se à prova; importa elaborar um projeto de vida que confira centralidade a estas dimensões positivas e manter sob controle (sem recalcá-las porque elas persistem e podem voltar sob a forma incontrolável) as dimensões sombrias que tornam agônica a nossa existência, quer dizer, sempre em combate contra nós mesmos.

Cuidar de si mesmo é amar-se, acolher-se, reconhecer nossa vulnerabilidade, saber perdoar-se e desenvolver a resiliência que é a capacidade de dar a volta por cima e aprender dos erros e contradições.

                            Cuidar de si: preocupar-se com o modo de ser

O fato de estarmos expostos a forças contraditórias que convivem tensamente em nós, precisamos viver o cuidado como preocupação com nosso próprio destino. A vida pode nos conduzir por caminhos que podem significar felicidade ou insucesso. Podemos ser tomados por ressentimentos e amarguras que nos incitam à violência. Temos que aprender a autocontrolar-nos. Especialmente nestes tempos de confinamento social. Ele pode ser ocasião de desenvolver iniciativas criativas, exercitar a fantasia imaginativa que nos afastem dos riscos e nos abram espaço para uma vida de decência.

Hoje vvemos sob a cultura do capital que continuamente nos solicita a sermos consumidores de bens materiais, de entretenimentos e de outros estratagemas que visam mais tirar nosso dinheiro que atender nossos desejos mais profundos.Cuidar de si é preocupar-se em não cair nesta armadilha. É criar a marca de sua pisada no chão e não pisar na marca feita pelo outro.

Cuidar de si como preocupação acerca do sentido de sua vida significa: ser críritico, colocar muita coisa sob suspeita para não permitir que seja reduzido a um número, a um mero consumidor, a um membro de uma massa anônima e a um eco da voz do outro.

Cuidar de si é preocupar-se com seu lugar no mundo, na família, na comunidade, na sociedade, no mundo e no desígnio de Deus. Cuidar de si é reconhecer, na culminância da história, que Deus lhe deu um nome que é só seu, que o define e que somente Deus e você o conhecerá.

Na sociedade que nos massifica, é decisivo cada um poder dizer o seu eu, ter a sua própria visão das coisas e não ser apenas um mero repetidor daquilo que é comunicado pelas muitas mídias à nossa disposição..

O cuidado implica cultivar e zelar pelos nossos sonhos. O valor de uma vida se mede pela grandeza de seus sonhos e pelo empenho de realizá-los, contra ventos e tempestades. E nada resiste à esperança incansável. A vida é sempre generosa. Aos que insistem e persistem, ela acabará por dar-lhe a chance necessária para concretizar seu sonho maior.

Então irrompe o sentimento de realização que é mais que a felicidade, momentânea e fugaz. A realização é fruto de uma vida, de uma perseverança, de uma luta nunca abandonada de quem viveu a sabedoria pregada por Dom Quixote:”no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas”. O modo de ser que resulta deste cuidado para com a autorealização é uma existência de equilíbrio que gera serenidade no ambiente e o sentimento nos outros de sentirem-se bem em companhia de sua pessoa. A vida irradia, pois é nisso está seu sentido: não simplesmente se vive porque não se morre, mas se vive para irradiar e desfrutar da alegria de existir.

                          Cuidado como precaução sobre nossos atos e atitudes

O cuidado como preocupação de nós mesmos, nos abre para a precaução especialmente nestes tempos de coronavírus. Precaver-nos de não nos expôr ao risco de pegar o vírus avassalador nem ser transmissor dele aos outros. Aqui o cuidado é tudo, particularmente face aos mais vulneráveis que são as pessoas com mais de 65 anos, nossos avós e parentes idosos.

Alarguemos a perspectiva. Numa perspectiva ecológica, há atitudes e atos de falta de cuidado que podem ser gravemente destruidores como a prática de usar intensivamente defensivos agrícolas, desmatar vasta região para dar lugar à pecuária ao ao agronegócio, mesmo a derrubada da mata ciliar dos rios. As consequências não precisam ser imediatas, mas a curto e médio prazo podem ser desastrosas como a diminuição de água dos rios, a contaminação do nivel freático, a mudança do clima e dos regimes de chuvas e de estiagem.

Aqui se impõe cuidadosa precaução para que a saúde humana de toda uma coletividade não seja afetada, como está ocorrendo neste momento no mundo inteiro.

Com a introdução das novas tecnologias como a biotecnologia, a robótica, a inteligência artificial e a nanotecnologia pelas quais se manipulam os elementos últimos da matéria e da vida, podem ocorrer danos irreversíveis ou produzir elemetos tóxicos, novas bactérias e séries de vírus como o atual, o coronavírus, que podem comprometer o futuro da vida (cf. T.Goldborn, O futuro roubado, LPM 1977).

Como nunca antes na história, o futuro da vida e das condições ecológicas de nossa subsistência estão colocadas sob nossa responsabilidadade. Esta responsabilidade não pode nem deve ser delegada a empresas com seus cientistas em seus laboratórios que decidem acerca do futuro de todos sem a consulta da sociedade. Aqui vale a cidadania planetária. Cada cidadão é convocado a acompanhar e coletivamente decidir que caminhos novos e mais promissores nos é concedido rasgar para a humanidade e para a restante comunidade de vida e não apenas para o mercado e para o lucro das empresas.

Cuidado como precaução especial merecem também nossas relações. Elas devem ser sempre abertas e construtoras de pontes. Tal propósito implica superar as estranhezas e os preconceitos . Aqui importa sermos vigilantes e travarmos uma luta forte contra nós mesmos e os hábitos culturas estabelecidos. Albert Einstein, sabedor das dificuldades inerentes a este esforço, ponderou, não sem razão, que “é mais fácil desintegrar um átomo que remover um preconceito da cabeça de uma pessoa”..

Cada vez que encontramos alguém, estamos diante de uma emergência nova, oferecida pelo universo ou por Deus, uma mensagem que somente esta pessoa pode pronunciar e que pode significar uma luz em nosso caminho.

Nós passamos uma única vez por este planeta. Se eu puder fazer algum bem ao outro, não devo prostergá-lo nem negligenciá-lo. Pois, dificilmente, o irei encontrar outra vez sobre o mesmo caminho. Isso vale como disposição de fundo de nosso projeto de vida.

Importante é preocupar-nos com nossa linguagem. Somos os únicos seres de fala. Pela fala, como nos ensinaram Maturana e Wiigenstein, organizamos nossas experiências, colocamos ordem nas coisas e criamos a arquiitetônica dos saberes. Bem cantam os membros das Comunidades Eclesiais de Base do Brasil:”Palavra não foi feita para dividir ninguém/Palavra é a ponte onde o amor vai o vem”.

Pela palavra construimos ou destruímos, consolamos ou amarguramos, criamos sentidos de vida ou de morte. As palavras antes de definir um objeto ou dirigiir-se a alguém, nos definem a nós mesmos. Falam sobre quem somos e revelam em que mundo habitamos.

                          Cuidado com nossa relação maior: a amizade e o amor

Há um cuidado especial que devemos cultivar sobre duas realidades fundamentais em nossa vida: a amizade e o amor.   Muito se tem escrito sobre elas. Aqui restringimo-nos ao mínimo. A amizade é aquela relação que nasce de uma ignota afinidade, de uma simpatia de todo inexplicável, de uma proximidade afetuosa para com a outra pessoa. Entre os amigos e amigas se cria uma como que comunidade de destino. A amizade vive do desinteresse, da confiança e da lealdade. A amizade possui raízes tão profundas que, mesmo passados muitos anos, ao reencontrarem-se os amigos ou amigas, os tempos se anulam e se reatam os laços e até a recordação da última conversa.

Cuidar das amizades é preocupar-se pela vida, pelas penas e alegrias do amigo ou amiga. É oferecer-lhe um ombro quando a vulnerabilidade o visita e o desconsolo lhe rouba as estrelas-guias. É no sofrimento e no fracasso existencial, profissional ou amoroso que se comprovam os verdadeiros amigos ou amigas. Eles são como uma torre fortíssima que defende o castelo de nossas vidas peregrinas.

Relação mais profunda e a que mais realizações de felicidade traz ou de mais dolorosas frustrações é a experiência do amor. Nada é mais preciso e apreciável do que o amor. Ele vive do encontro entre duas pessoas que se trocaram olhares, sentiram uma misteriosa atração mútua e que moveram os corações. Resolveram fundir as vidas, unir os destinos, compartir as fragilidades e as benquerenças da vida.

Estes valores, por serem os mais preciosos, são os mais frágeis, porque são os mais expostos às contradições da humana existência. Cada qual é portador de luz e de sombras, de histórias familiares e pessoais cujas raízes alcançam arquétipos ancestrais, marcados  também pelas experiências felizes ou dramáticas que deixaram marcas na memória genética de cada um.

O amor é uma arte combinatória de todos estes fatores, feita com sutileza que demanda capacidade de compreensão, de renúncia, de paciência e de perdão e, ao mesmo tempo, de desfrute comum do encontro amoroso, da intimidade sexual, da entrega confiante de um ao outro, experiência que serviu de base para entendermos a natureza de Deus, pois Ele é amor incondicional e essencial.

Quanto mais alguém é capaz de uma entrega total, maior e mais forte é o amor. Tal entrega supõe extrema coragem, uma experiência de morte pois não se retém nada e se mergulha totalmente no outro.

O homem possui especial dificuldade para este gesto extremo, talvez pela herança de machismo, patriarcalismo e racionalismo de séculos que carrega dentro de si e que lhe limitam a capacidade desta confiança extrema.

A mulher é mais radical: vai até o extremos da entrega no amor, sem resto e sem retenção. Por isso seu amor é mais pleno e realizador e, quando é frustrado, a vida revela contornos de tragédia e de um vazio abissal.

O segredo maior para cuidar do amor reside nisso: singelamente cultivar a ternura mútua. A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos simbólicos que revelam o carinho, de sinais pequenos, como recolher da praia uma concha e levá-la à pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela.

Tais “banalidades” têm um peso maior que a mais preciosa jóia. Assim como uma estrela não brilha sem uma aura ao seu redor, da mesma forma, o amor não vive e sobrevive sem uma atmosfera de afeto, enternecimento e cuidado.

O cuidado é uma arte. Como pertence à essência do humano, ele sempre está disponível. Tudo o que vive, precisa ser alimentado. Assim o cuidado se alimenta de ternura e de vigilante preocupação pelo futuro de si próprio e especialmente do outro.

Isso se alcança reservando-se, às vezes, momentos de reflexão sobre si mesmo, fazendo silêncio ao seu redor, concentra-se nalguma leitura que lhe alimenta o espírito e não em último lugar, entregar-se à meditação e à abertura Àquele maior que detém o sentido de nossas vidas e conhece todos os nossos segredos.

                                    Conclusão: o cuidado é tudo

O cuidado é tudo, pois sem ele, ninguém de nós existiria. Quem cuida ama, quem ama cuida. Cuidemos-nos uns aos outros, particularmente nestes momentos dramáticos de nossas vidas, pois elas correm perigo e podem afetar o futuro da vida e da humanidade sobre esse pequeno planeta que é a única Casa Comum que temos.

 

Leonardo Boff escreveu Saber cuidar: ética do humano-compaixão pela Terra, Vozes muitas edições 2018 e A força da ternura, Mar de Ideias, Rio 2016.

 

 

 

De uma indígena Kuna do Panamá:reflexões para o nosso momento de coronavírus

Esse vídeo, vem de uma indígena Kuna do Panamá que estuda a interdisciplinariedade das teologias, Jacobed Reina Solano Miselis. Na visão dos Kuna Deus é Pai e Mãe e de seu amor vieram todos os seres.Eles cuidam de cada um de nós como de seus filhos e filhas. Jacobed com quem tenho trabalhado um pouco em espiritualidade enviou este video para nos confortar nestes momentos de crise/transformação pelo coronavírus. Ela esteve já no Brasil e em Petrópolis falando de espiritualidade, inclusive de uma espiritualidade dos ateus, pois eles são portadores de espírito e levantam interrogações fundamentais sobre o nosso destino e aquele do universo.Lboff

 

El coronavirus despierta en nosotros lo humano

La pandemia del coronavirus nos obliga a todos a pensar: ¿qué es lo que cuenta verdaderamente, la vida o los bienes materiales? ¿El individualismo de cada uno para sí, de espaldas a los demás, o la solidaridad de los unos con los otros? ¿Podemos seguir explotando, sin ninguna otra consideración, los bienes y servicios naturales para vivir cada vez mejor o podemos cuidar la naturaleza, la vitalidad de la Madre Tierra y el vivir bien, que es la armonía entre todos y con los seres de la naturaleza? ¿Ha servido para algo que los países amantes de la guerra acumulasen cada vez más armas de destrucción masiva, y ahora tienen que ponerse de rodillas ante un virus invisible evidenciando lo ineficaz que es todo ese aparato de muerte? ¿Podemos continuar con nuestro estilo de vida consumista, acumulando riqueza ilimitada en pocas manos a costa de millones de pobres y miserables? ¿Todavía tiene sentido que cada país afirme su soberanía, oponiéndose a la de los otros, cuando deberíamos tener una gobernanza global para resolver un problema global? ¿Por qué no hemos descubierto todavía la única Casa Común, la Madre Tierra, y nuestro deber de cuidarla para que todos podamos caber en ella, naturaleza incluida?

Son preguntas que no pueden ser evitadas. Nadie tiene la respuesta. Una cosa sin embargo, atribuida a Einstein, es cierta: “la visión de mundo que creó la crisis no puede ser la misma que nos saque de la crisis”. Tenemos forzosamente que cambiar. Lo peor sería que todo volviese a ser como antes, con la misma lógica consumista y especulativa, tal vez con más furia aún. Ahí sí, por no haber aprendido la lección, la Tierra podría enviarnos otro virus que tal vez pudiera poner fin al desastrado proyecto humano.

Pero podemos mirar la guerra que el coronavirus está produciendo en todo el planeta, bajo otro ángulo, este positivo. El virus nos hace descubrir cuál es nuestra más profunda y auténtica naturaleza humana. Ella es ambigua, buena y simultaneamente mala. Aquí veremos solamente la dimensión buena.

En primer lugar, somos seres de relación. Somos, como he repetido innumerables veces, un nudo de relaciones totales en todas las direcciones. Por lo tanto, nadie es una isla. Tendemos puentes hacia todos los lados.

En segundo lugar, como consecuencia, todos dependemos unos de otros. La comprensión africana “Ubuntu” lo expresa bien: “yo soy yo a través de ti”. Por tanto, todo individualismo, alma de la cultura del capital, es falso y antihumano. El coronavirus lo comprueba. La salud de uno depende de la salud del otro. Esta mutua dependencia asumida conscientemente, se llama solidaridad. En otro tiempo la solidaridad hizo que dejásemos el mundo de los antropoides y nos permitió ser humanos, conviviendo y ayudándonos. En estas semanas hemos visto gestos conmovedores de verdadera solidaridad, no dando solo lo que les sobra sino compartiendo lo que tienen.

En tercer lugar, somos seres esencialmente de cuidado. Sin el cuidado, desde nuestra concepción y a lo largo de la vida, nadie podría subsistir. Tenemos que cuidar de todo: de nosotros mismos, de lo contrario podemos enfermar y morir; de los otros, que pueden salvarme o salvarles yo a ellos; de la naturaleza, si no, se vuelve contra nosotros con virus dañinos, con sequías desastrosas, con inundaciones devastadoras, con eventos climáticos extremos; cuidado con la Madre Tierra para que continúe dándonos todo lo que necesitamos para vivir y para que todavía nos quiera sobre su suelo, siendo que, durante siglos, la hemos agredido sin piedad. Especialmente ahora bajo el ataque del coronavirus, todos debemos cuidarnos, cuidar a los más vulnerables, recluirnos en casa, mantener la distancia social y cuidar la infraestructura sanitaria sin la cual presenciaremos una catástrofe humanitaria de proporciones bíblicas.

En cuarto lugar, descubrimos que todos debemos ser corresponsables, es decir, ser conscientes de las consecuencias benéficas o maléficas de nuestros actos. La vida y la muerte están en nuestras manos, vidas humanas, vida social, económica y cultural. No basta la responsabilidad del Estado o de algunos, debe ser de todos, porque todos estamos afectados y todos podemos afectar. Todos debemos aceptar el confinamiento.

Finalmente, somos seres con espiritualidad.Descubrimos la fuerza del mundo espiritual que constituye nuestro Profundo, donde se elaboran los grandes sueños, se hacen las preguntas últimas sobre el significado de nuestra vida y donde sentimos que debe existir una Energía amorosa y poderosa que impregna todo, sostiene el cielo estrellado y nuestra propia vida, sobre la cual no tenemos todo el control. Podemos abrirnos a Ella, acogerla, como en una apuesta, confiar en que Ella nos sostiene en la palma de su mano y que, a pesar de todas las contradicciones, garantiza un buen final para todo el universo, para nuestra historia sapiente y demente. y para cada uno de nosotros Cultivando este mundo espiritual nos sentimos más fuertes, más cuidadores, más amorosos, en fin, más humanos.

Sobre estos valores nos es concedido soñar y construir otro tipo de mundo, biocentrado, en el cual la economía, con otra racionalidad, sustenta una sociedad globalmente integrada, fortalecida más por alianzas afectivas que por pactos jurídicos. Será la sociedad del cuidado, de la gentileza y de la alegría de vivir.

*Leonardo Boff es teólogo, filósofo y ha escrito: La Tierra en la palma de nuestra mano, una nueva visión del planeta y de la humanidad, Vozes 2016.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Alerta de um especialista em virus e nossa relação para com a natureza: David Quammen

Todos estamos preocupados com o Coronovírus que, numa espécie de guerra, está atacando todas as sociedades humanas e suas instituições. Muitos cientistas vinham há muito tempo nos alertando que a nossa relação para com a natureza, depredando-a e nos expondo à multidão de bactérias, fungos e virus que nela existem em seus habitats naturais, poderiam passar, se não tivéssemos o necessário cuidado, para nós, seres humanos. Assim foi com o SARS, Ebola e agora o Coronavírus, provavelmente vindo de um morcego, vendido nos mercados chineses para consumo humano. Ele teria encontrado em nós um novo habitat. Como nosso organismos não está preparado para enfrentar tal invasor, aconteçe uma pandemia que estamos assistindo com o coronavírus. Ela talvez não seja tão letal, mas vai desorganizar toda a nossa vida social, econômica e vital. Ele nos obriga a repensar nossa relação para com a natureza, respeitar seus ritmos e seus habitats e desenvolver uma relação de cuidado e respeito por tudo o que existe e vive. Apresentamos aqui a reflexão de um dos maiores pesquisadores sobre vírus nas grandes florestas úmidas. Não pode pesquisar a floresta amazônica mas nos deixou um alerta. Algum vírus extremamente resistente pode irromper e nos atacar. Vai aqui o alerta, para que não seja o Big One, aquele grande que pode pôr em risco toda a vida humana. Este estudo nos ajudará a entender o atual vírus, invisível mas extremamente contagioso: Lboff

              David Quammen, o biógrafo das grandes epidemias

                           sex, 03 de abril de 2020

Autor de diversos livros sobre epidemias modernas diz que a destruição desenfreada da natureza coloca a saúde humana em risco devido ao contato com uma grande quantidade de vírus. Nos últimos 50 anos, as principais doenças surgiram das florestas tropicais na África e na Ásia.

Por Gustavo Faleiros

O escritor David Quammen é certamente um dos maiores cronistas sobre a diversidade biológica existente no planeta. Seus livros sobre a teoria da evolução de Darwin e a extinção das espécies oferecem uma visão ao mesmo tempo profunda e instigante. Entre suas obras, “O Canto do Dodô” [Cia das Letras, 2008] é a mais famosa, mas destacam-se ainda os magníficos contos sobre grandes mamíferos reunidos em “Monstro de Deus” [Cia das Letras, 2007].

Na última década, o americano voltou seu interesse a um outro tipo de diversidade: os vírus e as enfermidades que eles causam nos humanos. Seus livros investigativos, que sempre incluem relatos sobre viagens ao coração das selvas do Congo ou às matas do Sudeste Asiático, detalham com informação acessível o surgimento do vírus da AIDS (HIV) e do ebola.

Mas é um livro de 2012, chamado “Spillover” [Transbordamento, em tradução literal], que tem voltado aos debates e recebido resenhas em todo mundo. A obra revela que a complicada relação entre os humanos e o meio ambiente está na raiz das maiores enfermidades recentes. É uma leitura essencial no momento em que o coronavírus já contaminou (apenas entre os casos confirmados) mais de 1 milhão de pessoas no mundo, e a contagem de mortos não para crescer.

Com relatos sobre encontros com pesquisadores em diversas partes do mundo, a obra traz uma perturbadora revelação: entre a comunidade científica, há muito se esperava uma pandemia com os contornos da Covid-19. Eles a chamavam The Next Big One [A próxima grande] e Quammen não tem dúvidas de que a crise que vivemos agora se enquadra nesta categoria.

“Eu não sei se esta é “a grande”, mas certamente é uma das grandes, pois já causou muitos danos”, o autor comenta em uma entrevista exclusiva ao InfoAmazonia desde sua casa em Bozeman, no estado de Montana (Estados Unidos).

Quammen também falou sobre as condições para o surgimento de patógenos como o coronavírus e garante que o que ocorre no momento na Amazônia, com a avanço de garimpos e abertura de estradas madeireiras, é um cenário muito similar ao que viu nas florestas da África Central, onde surgiu o ebola.

Leia abaixo a entrevista completa.

Estou curioso em saber o quê você sentiu quando soube do novo coronavírus, por ter alertado muitos anos antes de que isso poderia acontecer. Não creio que tenha ficado surpreso, certo?David Quammen

Eu definitivamente não fiquei surpreso, eu previ algo como isso no meu livro oito anos atrás. E a única razão pela qual eu fiz esta previsão foi porque os cientistas com os quais eu estava conversando fizeram estas previsões. Então, quando eu ouvi em janeiro que um novo coronavírus havia surgido na China, saído de um mercado de vida selvagem, a única coisa que me surpreendeu foi o quanto estávamos despreparados. Me deixou frustrado e preocupado. Eu me encontrei por acaso com um amigo na semana passada e ele me perguntou: “Como você se sente tendo previsto tudo isso?”. Respondi a ele que preferiria estar errado. Desejaria que os cientistas que ouvi estivessem errados.

Em seu livro, “Spillover” o senhor nos conta que existe entre a comunidade científica o termo NBO ou The Next Big One (A próxima grande) para se referir às possíveis grandes pandemias que nos atingirão. A Covid-19 seria a NBO ou ainda podemos esperar algo pior?

DQ – Essa é uma das grandes! Não sei dizer se esta é “A” grande, mas certamente está sendo uma NBO, porque está nos custando milhares de vidas e trilhões de dólares ao redor do mundo. As sociedades estão sendo interditadas. Os sistemas de saúde na Itália e na Espanha estão colapsando. Escolas estão fechando, representando oportunidades perdidas para crianças carentes. Essa é uma das grandes, mesmo que a taxa de letalidade não seja tão alta. Mesmo se conseguirmos controlar a crise e muita gente não venha a morrer, ainda terá sido uma grande pandemia, pelo custo de ter chacoalhado sociedades e economias, além dos sistemas de saúde e educação.

Muitas doenças recentes surgiram em áreas que sofreram com garimpos, destruição de florestas e outros impactos. Qual é a razão para isso? Por que esta conexão direta entre degradação ambiental e o surgimento destas infecções?

DQ – Estas doenças, incluindo essa nova causada pelo coronavírus, são chamadas de doenças zoonóticas. Isso significa que elas passam de animais não humanos para os humanos. Elas geralmente são novas para humanos. Esta é uma das razões pelas quais elas geralmente são tão devastadoras para nós. Nós não temos vacinas para elas, nós não temos terapias para estas doenças. Se formos ainda mais desafortunados, esse vírus evolui para ser transmitido de uma pessoa a outra. Mas porque isso ocorre? Qual é a razão inicial para isso? Este é o evento que chamamos de transbordamento [spillover], quando o vírus passa de um animal para o seu primeiro hospedeiro humano. Isso acontece em áreas com grande degradação ambiental. Ambientes ricos em diversidade biológica, com muitos tipos de plantas, animais, fungos, bactérias, são também lugares que abrigam muitos vírus. Eles vivem ali, sem serem notados, ao longo dos milhões anos sem causar qualquer doença, até que de repente passam para os humanos. E quando há degradação ambiental, significa que estamos interferindo naquele ecossistema. Estamos cortando árvores, construindo assentamentos,abrindo garimpos. Isso significa também que pessoas trabalhando nestes lugares precisam ser alimentadas. Frequentemente, elas se alimentam de carne de caça, a vida silvestre local é capturada para servir de alimento. Em outras situações, este animais são caçados para serem vendidos, para que pessoas em outros lugares os comam. Então há todos os tipos de perturbação na vida selvagem, na biodiversidade, que afinal contém uma grande variedade de vírus. Quando realizamos estes tipos de interferências, estamos convidando vírus para que se tornem nossos vírus, para que eles pulem para dentro de nós. Estamos dando a eles uma oportunidade para que expandam seus horizontes. Talvez este vírus estivesse em uma situação difícil, poderia estar em vivendo dentro de uma espécie em risco de extinção. Uma oportunidade de pular para dentro de nós pode se traduzir em os vírus terem ganho na “loteria evolutiva”. Eles acabaram de entrar na espécie de mamífero de grande porte mais interconectada e mais abundante em todo o planeta. Se nos infectam e conseguem passar de uma pessoa para outra, eles vão se espalhar por todo o mundo, atingindo um grande sucesso evolutivo. Para nós, é uma situação miserável, é uma pandemia, é a morte. Mas para eles é sucesso! E acontece por conta da perturbação ambiental, a degradação ambiental de lugares que naturalmente abrigam muitos e muitos vírus.

É quase como se nossos grandes ecossistemas tivessem uma armadilha montada para evitar interferência. Ao passo que vamos entrando neles e destruindo, nós disparamos estas armadilhas contra nós.

Uma questão que intriga a muita gente é porque até agora não tivemos uma pandemia originada na Amazônia, já que aqui ocorrem impactos como a maior taxa de desmatamento em todo o planeta?

DQ – Eu não sei. Eu me faço esta mesma pergunta. Na verdade, uma das mais assustadoras doenças recentes surgiu na Bolívia, em 1961, o vírus da enfermidade Mapucho. O pesquisador que descobriu essa doença – e quase morreu ao contraí-la – é um americano chamado Karl Johnson. Ele descobriu que algumas pessoas vivendo em um vilarejo boliviano estavam sofrendo e morrendo desta estranha nova febre. Ele localizou o vírus em um roedor e se perguntou porque naquele momento isto estava ocorrendo, pois não havia registros no passado sobre a doença. O que ele descobriu foi que o roedor se adaptou e estava vivendo muito melhor em áreas agrícolas do que na floresta, seu ambiente natural. Assim, quando a população da vila crescia e precisava plantar mais milho e feijão, a população do roedor explodia. Como a espécie carregava o vírus, mais e mais pessoas começaram a ter contato com ele. Mas este é apenas um caso. A Amazônia está cheia de espécies de animais e, portanto, está repleta de vírus. Então por que não ouvimos falar do transbordamento destes vírus para humanos? Eu não tenho uma resposta para isso. Mas o fato de que não tivemos até agora, não quer dizer que não teremos. Pode acontecer a qualquer momento.

Podemos dizer que com o passar do tempo, as chances de que um novo vírus letal surja na Amazônia vão crescendo. No Congo, o outro grande ecossistema de floresta tropical, produziu ebola, marburg, zica, e uma parcela considerável das doenças virais mais assustadoras. Acho que é apenas uma questão tempo para que a Amazônia entre nesta lista.

Não se pode afirmar que neste momento no Brasil há suficiente investimento em Ciência para acelerar o entendimento e prever quando a degradação da Amazônia poderia fazer surgir um patógeno semelhante ao corona. Em sua visão, quais são os esforços científicos necessários para melhor entender e até prever o surgimento de novas doenças?

DQ – Como o seu governo, o meu governo também tem realizado cortes nos orçamentos para pesquisas científicas. Como vocês, nós também temos um presidente o qual não encontro adjetivos para descrever. Mas há muito trabalho que está sendo feito na descoberta de novos vírus. Isso é uma parte importante: descobrir o que existe por aí, o leque de diversidade de vírus que existe vivendo nos animais, plantas e outras criaturas. Há outros trabalhos no campo do sequenciamento genético, como isolar e sequenciar determinados vírus. Um time em Wuhan, na China, já em janeiro, tinha sequenciado o genoma deste vírus [o coronavírus], o que foi muito valioso para todo o mundo. Assim soubemos que se tratava de um coronavírus relacionado ao vírus da SARS, mas não tão próximo para saber o que poderíamos esperar. O genoma também foi quem nos contou que este vírus não se trata de uma arma química, feita por alguma conspiração de cientistas maníacos em algum obscuro laboratório. Soubemos que o vírus vem de um morcego, por conta da exata equivalência deste genoma com aquele de vírus encontrados em uma espécie de morcego. Portanto, o trabalho científico é extremamente importante. Há dez anos, quando estava escrevendo Spillover, um cientista me contou que seu laboratório estava trabalhando com a possibilidade de se criar uma tecnologia com um chip que conteria reagentes para sequenciar qualquer novo vírus. Você poderia criar uma versão deste chip que iria em uma máquina portátil e que nos daria a possibilidade de testar uma pessoa sobre a presença de uma infecção no tempo de uma checagem de segurança em um aeroporto. Ou seja a pessoa estaria na fila quando um agente recolhe uma amostra para fazer o teste e no tempo de que a pessoa levaria para tirar seus sapatos, sua jaqueta e passar na máquina de raio-x, ela já saberia se seu teste foi positivo ou negativo. Imagine quão útil seria isso num momento como esse? Mas nós não temos isso. Esse cientista estava me falando sobre isso 10 anos atrás e ainda não temos. Mas nós precisamos de algo como isso. Precisamos de investimento privado e do governo, em coisas que nos permitam prever, nos preparar e lidar com novas pandemias. Líderes tanto no mundo dos negócios e no setor público precisam de disposição para gastar os recursos, o tempo e fazer esse esforço. Mesmo que isso não aconteça neste ano, ou no ano que vem, ou mesmo durante a presidência de Bolsonaro ou Trump. Mas parece que eles não querem gastar os recursos em algo que não terá resultados em seus mandatos. Isso é o que torna a situação tão difícil.

Com relação às medidas imediatas que foram tomadas, como o banimento pela China do comércio e consumo de animais silvestres, podemos ter esperança de que isso represente uma mudança real, que evite futuras pandemias?

DQ – Eu tenho esperança de que estas medidas representam uma mudança importante. Claro que ninguém pode ter certeza sobre o que fará a China, pois é um país soberano. Mas haverá muita pressão internacional sobre eles para isso mudar. Quando a SARS ocorreu em 2003, assustando pessoas ao redor do mundo, ficou claro que o vírus também havia vindo de um morcego, muito provavelmente de um mercado na China. Depois daquilo, as pessoas estavam tão assustadas, que a China baniu a venda de animais selvagens nestes mercados. Quando eu fazia a pesquisa para meu livro “Spillover”, em 2009, eu fui à China e a um destes mercados. Eu estava com um pesquisador que estudava estes locais e ele me perguntou “Você acha que isto aqui é ruim, você deveria ter visto como era antes da SARS”. Mesmo quando estive lá, a disponibilidade de animais selvagens era uma loucura. O problema é que o comércio acabou sendo empurrado para baixo do tapete. Você pode ir nos fundos de um restaurante e pedir para que cozinhem um gato selvagem ou um pangolim. E na verdade, tudo isso já estava legalizado novamente. Então imagino que a pressão desta vez é de que a proibição terá que ser para valer. O comércio e o mercado negro terão que ser banidos.

A captura de animais na natureza e a venda dos animais vivos nos mercados têm que ser proibidas. E o resto do mundo tem que seguir o mesmo caminho, isso não pode recair apenas somente sobre a China.

Que outras mudanças, especialmente de longo prazo, podemos esperar?

DQ – Certamente há conversas a respeito. Eu mesmo estou falando a respeito destas mudanças todo dia. As pessoas estão falando que este deveria ser um alerta de que todas estas coisas estão conectadas: desmatamento, mudanças climáticas, espécies invasoras e novas doenças letais. Estamos falando também sobre a questão populacional, os padrões de consumo. Esperamos que um evento como esse – que ironicamente chamamos de “o momento de encontrar Jesus” – possa mudar as coisas [risos]. Mas eu não sei se os empresários e políticos de fato vão “encontrar Jesus” após tudo isso. Ou talvez as pessoas comuns vão mudar os padrões de consumo drasticamente; comer menos carne, viajar menos. Eu por exemplo viajo muito. Tenho pensado sobre isso, que talvez eu devesse viajar menos, encontrar uma maneira de fazer isso. Talvez pagar por compensações pelas viagens, dar alguns dólares extras para uma organização conservacionista. Enfim, tenho esperança de que se esse evento for realmente ruim, e na verdade ele já tem sido, por seu número de mortes e tumulto econômico, nós possamos repensar a maneira como vivemos na natureza.

Fonte: InfoAmazonia 03/04/2020