A pesar de las tribulaciones todavía celebramos Navidad

 

 

Vivimos en el mundo y en nuestro país tiempos sombríos. Hay mucha rabia y mucho odio. Sobre todo reina falta de sensibilidad hacia nuestros semejantes, especialmente hacia los niños, como el Niño Jesús, que viven en las calles y sufren abusos. A pesar de todo vivimos la humanidad de nuestro Dios que asumió nuestra condición humana tan contradictoria.

El cristianismo no anuncia la muerte de Dios, sino la humanidad, la benevolencia y el amor misericordioso de Dios. Miremos al Niño entre el buey y la mula: en él sonríe la jovialidad y la eterna juventud del mismo Dios.

Pasé por Belén de Judá y oí un susurro tierno. Era la voz de María acunando a su hijito: “Mi niño, mi Sol, ¿cómo voy a cubrirte con ropa? ¿Cómo voy a amamantarte, si eres tú quien nutres a todas las criaturas”?

Del pesebre vino también una voz angelical que me decía: “Oh criatura humana, ¿por qué tienes miedo de Dios? ¿No ves que su madre envolvió su cuerpecito frágil? Un niño no amenaza a nadie, ni condena a nadie. ¿No escuchas su suave llanto? Más que ayudar, él necesita ser ayudado y llevado en brazos”.

No dejemos que sea verdad lo que escribió el evangelista San Juan: “El vino a los suyos y los suyos no le recibieron”. Nosotros queremos estar entre quienes lo reciben como hermano y compañero de camino.

La entrada de Dios en el mundo no fue estrepitosa. Se dio al margen de la historia oficial, fuera de la ciudad, en medio de la noche oscura, en una gruta de animales. En Roma, capital del imperio, y en Jerusalén, el centro religioso del Pueblo de Israel, no se supo nada. Casi nadie se dio cuenta. Solamente aquellos que tenían un corazón sencillo, como los pastores de Belén. Estos caminaron hasta la gruta, donde tiritaba de frío el Divino Infante.

La Navidad nos ofrece la clave para descifrar algunos misterios insondables de nuestra atribulada existencia. Los seres humanos siempre se han preguntado y se preguntan: ¿por qué la fragilidad de nuestra existencia? ¿Por qué la humillación y el sufrimiento? Y Dios callaba. Pero he aquí que en Navidad nos viene una respuesta: Él se hizo frágil como nosotros. Él se humilló y sufrió como todos los humanos. Esta fue la respuesta de Dios: no con palabras sino con un gesto de identificación. Ya no estamos solos en nuestra inmensa soledad. Él está con nosotros. Su nombre es Jesús.

La Navidad nos descubre también una respuesta última al sentido del ser humano. Somos un proyecto infinito. Sólo el Infinito puede realizar nuestra plena humanidad. Y sucede que el Infinito se hace humano para que el humano realice su proyecto Infinito. El Infinito se hizo ser humano para que el ser humano se hiciese Infinito.

Para concluir nada más conmovedor que estos versos de Fernando Pessoa, el gran poeta portugués, sobre el Niño Jesús:

Él es el Niño Eterno, el Dios que faltaba.

Es tan humano que es natural.

Es lo divino que sonríe y que juega.

Por eso sé con toda seguridad

Que él es el Niño Jesús verdadero.

Es un niño tan humano que es divino.

Nos llevamos tan bien los dos,

En compañía de todo,

Que nunca pensamos el uno en el otro.

Pero vivimos los dos juntos,

Con un acuerdo íntimo,

Como la mano derecha y la izquierda.

Cuando me muera, Niño mío,

Déjame ser el niño, el más pequeño.

Tómame en tus brazos y llévame a tu casa.

Desnuda mi ser cansado y humano.

Y acuéstame en tu cama.

Cuéntame historias, si me despierto,

Para que me vuelva a dormir.

Y dame tus sueños para que juegue,

Hasta que nazca cualquier día

Que sabes cuál es.

Feliz Navidad a todos y a todas. Confiemos: hay una Estrella como la de Belén que ilumina nuestro camino por más sombrío que se presente. Si yo no sé el camino, Niño, tú lo sabes y lo sabes muy bien.

*Leonardo Boff es teólogo y ha escrito Navidad: la humanidad y la jovialidad de nuestro Dios, Vozes, 8ª edición 1976.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Reflexões sobre um futuro governo enredado em suas contradições

 

Luiz Alberto Gómez de Souza é um cientista político com larga experiência no Brasil e no exterior. Suas análises se caracterizam pela ampla visão nacional e internacional, mas mais que tudo por sua sensatez. Procura distanciar-se das várias tendências partidárias, pois, junto com Betinho, fez uma clara opção pela sociedade civil. Há muito que propõe uma ampla frente ddemocrática de oposição, no sentido de salvaguardar a democracia que ainda temos, embora de baixa intensidade. Todos estamos interessados sobre como será o governo que saiu eleito das eleições deste ano. É uma incógnita, pois o projeto de Brasil não foi explicitado e está sendo montado com figuras discutíeveis e marcadas por algo grau de conservadorismo e de estranhas ideias sobre questões ecológicas e de política internacional. Vale ler este texto, pois poderá nos orientar face àqulo que ainda virá. LBoff

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Tanto no México com o novo presidente Obrador como aqui, os vencedores brandiam aparentemente as mesmas propostas: contra a corrupção e pela segurança. Elas correspondem a uma demanda real da sociedade e assumi-las tem uma forte resposta eleitoral. López Obrador soube captá-las e isso o levou à vitória. Aqui também a candidatura Bolsonaro partiu delas e isso o fez, em parte, crescer nas semanas que antecederam o primeiro turno. Por outro lado, a esquerda e o centro, do PT ao PSDB, não souberam avaliar sua importância, presos a uma posição negativa de defender-se da pecha de corruptos ou o primeiro a esgotar suas energias na liberdade de Lula. Ora, isso os colocou em desvantagem, frente a uma posição positiva e agressiva. Ficar na defensiva é já começar perdendo. Até agora eles não se põe de acordo em que fazer diante do novo governo. Uma parte do PSDB, com João Dória, tende a aderir; outra poderá criar outro partido, com pretensões social-democratas. PSB e PDT ainda não definiram uma estratégia ou como posicionar-se diante da óbvia exigência de formar uma frente opositora. Boulos, do PSOL, é quem acena sobre a necessária frente. O PT continua centrando suas forças na luta por Lula livre. E assim, nessas indefinições e posições limitadas, poderiam deixar caminho aberto para as propostas do futuro governo.

Se esse fosse coerente, com um programa claro, poderia sair fortalecido nos próximos meses, atravessando tranquilo um 2019. O início de um mandato costuma ter boa aceitação na sociedade. Mas eis que, antes mesmo de chegar ao governo, Bolsonaro já se fragiliza diante de enormes contradições e tensões internas, além disso corroído nas entranhas por um implacável fogo amigo.

Uma contradição bem visível está entre a proposta neo-liberal pura de Paulo Guedes, com uma política acelerada de privatizações e, do outro lado, uma resistência de setores militares no tocante a empresas estatais estratégicas (Petrobras, Eletrobras, BB, Caixa…) e defesa da Amazônia, em nome da preservação da soberania. Pensando no passado, é como se tivéssemos lado a lado, juntos num governo esquizofrênico, Roberto Campos e Ernesto Geisel.

Além disso, para piorar ainda mais as coisas, nos encontramos com uma situação inédita no cenário político brasileiro: não chega apenas um novo mandatário, mas uma família se prepara para aboletar-se no governo, Bolsonaro e seus três filhos. Todos quatro tremendamente despreparados e o trio ávido de poder. Como uma família que recebera uma capitania a reger, ou uma grande fazenda a administrar.

O futuro presidente, graças a um atentado que terminou por favorecer-lhe enormemente, não teve necessidade de participar da campanha eleitoral, o que o teria obrigado a precisar suas intenções e propostas. Estas ficaram em intenções gerais e vagas, compensadas por algumas afirmações contundentes, na linha de uma extrema-direita desenhada lá fora por Steve Bannon, ex-assessor estratégico de Trump e por seu recém criado The Movement e alinhadas ideologicamente com os vídeos que o pseudo pensador Olavo de Carvalho envia de sua residência em Petersburg, na Virgínia.

Já os filhos, afoitamente, partiram para ocupar espaços. Assim, vejamos de perto a atuação de cada um deles.

Eduardo, o mais jovem (34 anos), capitão da reserva, deputado federal desde 2015 sem destaque, à sombra do pai, que sai desta eleição como o deputado mais votado da história. Isso lhe dá apetite para tomar posições em vários âmbitos, sem maior experiência. Assim, vai tentar ocupar um espaço ao nível internacional, como uma espécie de chanceler antecipado, deixando de lado o ministro escolhido para o cargo pelo pai. Viajou aos Estados Unidos, por fora do circuito tradicional do Itamarati, encontrando personagens de segundo e terceiro escalão, para prestar vassalagem a um Trump que não o recebeu, mas enfiando um gorro com o nome deste, numa ação absurda para o filho de futuro presidente de uma nação soberana. Foi festejar o aniversário de Bannon, considerado por ele, “ícone no combate ao marxismo cultural”(!). Organizou um encontro de políticos de extrema direita em Foz do Iguaçu, com relativamente baixa representatividade e sem maior impacto. Explicitou a intenção paterna de mudar a embaixada brasileira para Jerusalém, para espanto da futura equipe econômica, que avalia o resultado negativo diante dos clientes do mundo árabe. O próprio Bolsonaro indicou que era uma proposta ainda em estudo. Posicionou-se pela pena de morte, mas logo o pai assinalou que também era um tema em análise. Em declarações informais afirmou num despropósito que, para fechar o STF, bastariam um cabo e um soldado. Retratou-se depois, mas o mal tinha sido feito.

Carlos, o filho do meio (36 anos), vereador desde 2001, foi o mais próximo ao pai durante as eleições. Temperamento irascível, entrou em forte colisão pelo twitter com outros parlamentares do PSL e acabou deixando a equipe de transição. O pai o chama de “meu pitbull”.

O maior problema vem do mais velho, Flávio (37 anos), no quarto mandato na Assembleia Legislativa carioca (ALERJ) e que agora foi eleito senador. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) acaba de denunciar um amplo sistema de empreguismo na ALERJ, com funcionários de seu gabinete repassando boa parte de seus salários a um assessor, Fabrício Queiroz, da polícia militar, que num ano movimentou mais de um milhão de reais, quantia incompatível com seus bens e entradas. De maneira muito amadorista, nos dias de pagamento, entravam em sua conta, em dinheiro vivo, enormes quantias. Há inclusive um cheque seu para a futura primeira dama. A COAF já tinha essa informação durante o período eleitoral, mas só deixa aparecer agora. Quem estaria interessado nesse vazamento? As organizações Globo e a Folha de São Paulo, no noticiário e por seus articulistas, estão dando um enorme destaque ao fato, que fragiliza Bolsonaro pai, um político que fizera campanha denunciando corrupção.

Assim, temos a futura “família real” exposta à crítica violenta. Numa atitude defensiva, Olavo de Carvalho propõe um forte ataque aos meios de comunicação, retirando patrocínios em retaliação. Isso é desconhecer, lá do seu retiro nos States, o poder da mídia, quarto poder, só piorando a situação do futuro presidente, exposto ainda mais negativamente diante da opinião pública.

Em momentos idênticos, no desprestígio de Jânio e de Collor, eleitos também com sua vassoura moralista e a luta contra os marajás, o caminho ficara aberto aos vices, Jango e Itamar, de opções diferentes. E neste caso? Vemos o vice, general Mourão, tomar cuidadosamente distância.

Como essas contradições irão enfraquecer um governo que chega vítima de tantas confusões? Assim, Bolsonaro se esvai antes mesmo de assumir o governo. Seus problemas não advêm de atos de uma oposição, mas de suas próprias fragilidades. Como agirá quando terá de tomar decisões? Dá a impressão de que até bem pouco atrás não imaginava ganhar e que não teve tempo para treinar de ser presidente.

Esse futuro governo se manterá em 2019, ou poderá ter uma crise terminal durante os próximos meses? Para permanecer, provavelmente terá que entrar em acordo com os setores dominantes e as velhas raposas políticas, que procurarão assessorá-lo e que poderão deixá-lo sob tutela.

Na hipótese de não se sustentar no poder, fica a pergunta: quem viria depois? Mourão não é Jango nem Itamar, opções diferentes dos presidentes. Ou se o vice cair junto, qual seria a alternativa “legal” aberta, para um golpe semicamuflado? Uma certa legalidade formal deveria ser preservada, nascendo porém com uma ilegitimidade de origem. Vimos isso no impeachment de Dilma e na condenação preventiva de Lula.

Nesse último caso, não pareceria surgir no horizonte um golpe militar clássico, mas, uma vez mais, um sinuoso golpe de aparências legais, como tentaram depois da queda de Jânio, enfrentado na ocasião pelo movimento da legalidade de Brizola. Talvez pudessem pensar num governo provisório. Daí a importância da eleição para presidentes da Câmara e do Senado, na linha sucessória. Pelas primeiras sondagens, Rodrigo Maia e Renan Calheiros tem boas possibilidades de manter-se nos postos, apesar da forte oposição de Bolsonaro a Calheiros. O vice já se mostrou favorável a Rodrigo Maia. Numa forte crise de poder, o sistema talvez apostasse num destes políticos tradicionais, experientes em manobras nas sombras.

E depois, no caso de um possível interinato? Não há no horizonte, do lado do sistema, alguém sendo preparado para o que viria adiante? Ou melhor, haveria talvez um, o juiz Sérgio Moro, indicado para a pasta da justiça. Ele sempre esteve pronto a cumprir papéis que lhe têm sido designados. Teria o apoio do mercado e dos Estados Unidos, onde teve sua obediente formação.

E num caso destes, qual seria a força das oposições? Infelizmente parecem, até o momento, à margem.

Tenho insistido na necessidade de uma frente ampla nacional, democrata e popular. Entretanto estas eleições deixaram muitas feridas. Uma frente destas seria impossível sem o PT, que saiu das eleições com a maior bancada na Câmara e poder em alguns estados e no nordeste. Mas um dos maiores empecilhos seria o mesmo PT, avesso a alianças em pé de igualdade, com a tendência de se autodeclarar a força opositora hegemônica. A hegemonia não se proclama, se conquista no processo. Ou melhor ainda, uma frente deveria apagar hegemonias e aceitar o pluralismo. A “geringonça” portuguesa nos trás lições interessantes.

Se Bolsonaro se mantiver, veremos a implementação de medidas antinacionais, autoritárias e antidemocráticas. Se cair, haverá o esforço do sistema dominante para preservar seus privilégios.

Tudo indica que uma alternativa ao sistema deveria construir-se, pacientemente, num processo mais ou menos longo, a partir da sociedade civil e de suas forças sociais mais dinâmicas. Isso exigiria saber escutar o país e suas demandas. As forças populares saberão entrar em sintonia profunda com o país real? Para isso teriam de pôr de lado posições tradicionais e isoladas ou superar bandeiras parciais e colocar-se na escuta no amplo espaço de uma sociedade com dinamismos latentes e enormes carências.

O que acontece neste momento com os jilet jaunes na França traz alguns ensinamentos que merecem uma análise séria.

Luiz Alberto Gómez de Souza é cientista político e ocupou vários pontos em organismos internacionais da ONU como na FAO e em outros.

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E A ECOLOGIA UNIDAS EM UMA LUTA COMUM

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E A ECOLOGIA UNIDAS EM UMA LUTA COMUM

Claudia Fanti é uma conhecida jornalista italiana, especialista em teologia latino-americana da libertação. Participou dos principais congressos mundiais desta teologia. Traduz perfeitamente do português e do espanhol. Traduziu com muita exatidão meu A Imitação de Cristo e o Seguimento de Jesus de Tomás de Kempis e a minha parte que é a última. É  extremamente inteligente e engajada na reflexão teológica mais avançada e militante de movimentos sociais. É uma das melhores conhecedoras de meu pensamento na área italiana. Agradecemos por este testemunho:Lboff 

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Querido Leonardo,

Era 1996, quando, na casa de Antonio Vermigli, nosso amigo em comum, eu o entrevistei pela primeira vez. Ao longo dos anos, muitas outras entrevistas se sucederam. Mas aquela foi especial. Era a primeira vez em que entrevistava o grande Leonardo Boff, um dos pais e principais expoentes daquela Teologia da Libertação que já modificara profundamente meu olhar sobre a vida e marcava meu trabalho como jornalista.

O tema da entrevista também foi especial: acabava de sair em italiano o seu livro Ecologia: Grito da Terra, grito dos pobres – Para uma ecologia cósmica. A emoção que os astronautas sentiram ao ver, pela primeira vez na história, a Terra do espaço sideral, descobrindo-a como uma única entidade indivisível Terra-humanidade, tomou for- ma em suas páginas, também me instigando a olhar de modo dife- rente para o nosso luminoso planeta branco-azul sempre grávido de vida e ele mesmo ser vivente.

Graças a você, descobri o quanto a Teologia da Libertação e a ecologia estavam unidas em uma luta comum. Ambas a partir de um único grito: “o grito dos pobres que querem vida, liberdade e beleza” e “o grito da Terra que geme sob a opressão”. Ambos orientados para a liber- tação: “o primeiro grito, dos pobres partindo de si mesmos, como sujeitos históricos organizados e conscientizados, em aliança com outros sujeitos de- terminados a abraçar sua causa e sua luta”; o segundo, do Planeta Ter- ra, através de um novo paradigma centrado na inter-relação de todos os seres humanos entre si, com a natureza e com toda a criação.

Desde então, sua pesquisa – conduzida por tanto tempo, quase por um tempo demasiado grande, como em uma solidão total, até que a gravidade da crise ambiental forçou a teologia latino-ameri- cana a considerar a questão como uma de suas prioridades – essa sua pesquisa sempre foi uma fonte extraordinária de inspiração para mim, para a minha vida e o meu trabalho.

Lembro-me de ter traduzido e publicado na Itália a sua confe- rência no Congresso Continental de Teologia na Universidade Jesuíta do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, em outubro de 2012. O tema atribuído a você foi “O lugar e o papel da teologia nos processos de mudança do continente no contexto mundial”, mas você decidiu tra- tar um outro, insistindo na relação entre Teologia da Libertação e preocupação ecológica.

Naquela ocasião, você havia falado sobre como articular Teolo- gia da Libertação e ecologia, colocando o discurso ecológico de uma maneira orgânica, sem limitar, ou seja, adicionando “apenas um capítulo ecológico” ao corpo da TL. De certa forma, você chegou a isso depois das suas dolorosas dificuldades com Roma. Você contava:

Depois de me ter imposto o obsequioso silêncio, João Paulo II mandou-me uma carta, na qual escrevia duas coisas. A pri- meira é que eu deveria me mostrar mais sério (mas, eu pensei, se eu estudei na Alemanha, claro que sou sério!). A segunda é que eu deveria enfrentar os temas realmente importantes da teologia. Pensei: Já que é o papa que diz isso, é preciso levá-lo a sério. E então percebi que o grande tema sobre o qual começar uma reflexão era pensar na Terra e nas filhas e filhos condenados da Terra. E ver como garantir o futuro da nossa civilização. É por isso que comecei a estudar ecologia. Porque uma teologia que não lida com esse problema não é séria.

Aquilo era válido também para mim. Se eu quisesse que meu trabalho jornalístico fosse sério, eu deveria gastar mais tempo e dar mais espaço possível à questão da nossa salvação junto com o plane- ta, o Grande Pobre, devastado e oprimido. É a Terra crucificada, que também precisa ser retirada da cruz. Por isso, essa questão se tornou um dos principais tópicos da minha atividade jornalística e também da minha militância social e política.

Já em 2009, não por acaso, achei necessário participar pessoalmente do 4o Fórum Mundial de Teologia e Libertação, em Belém, PA, sobre o tema “Terra, água e teologia para outro mundo possível”, nos dias que antecederam ao 9o Fórum Social Mundial. E o fato de que a pri- meira conferência do fórum foi entregue a você não poderia deixar a menor dúvida: era uma “honra” que você, por seu trabalho, merecia.

Lembro-me que, embora assediado como uma estrela por fotó- grafos e jornalistas, você encontrou tempo para me dar uma longa entrevista, abordando, entre outras questões, a dificuldade que a Teologia da Libertação tinha de assumir o paradigma ecológico, devendo incorporar conhecimentos científicos de não fácil aquisi- ção, como a física quântica, a nova cosmologia, a astrofísica.

Precisamente, então, comecei a voltar minha atenção para aquele imenso espaço de pesquisa, oferecido pela nova “história sagrada”, transmitida pelas ciências à humanidade. E nesse caminho tropecei em uma de suas maiores obras-primas: o Tao da Libertação, escrito junto com o cosmólogo canadense Mark Hathaway. A busca apaixonada “da sabedoria necessária para fazer profundas transforma- ções no mundo”, realizadas através de uma releitura da Teologia da Libertação a partir das fronteiras mais avançadas da ciência e dos valores da tradição taoista.

Uma pesquisa resumia, da melhor maneira, o título do livro. Nele, a antiga palavra chinesa Tao (“estrada, caminho rumo à harmonia, à paz e a relações justas”), com a qual você indicava “a sabedoria que reside no próprio coração do universo e que contém a essência do seu propósito e da sua direção”, está unida ao termo “libertação”, que ex- pressa esse processo que visa “remediar o terrível dano que infligimos um ao outro e ao nosso planeta “, na direção de um mundo “em que todos os seres humanos possam viver com dignidade e em harmonia com a grande comunidade que compõe Gaia, a Terra viva”, dentro de um universo que está a caminho da realização de suas próprias potencialidades.

Dessa forma, partindo do reconhecimento da extensão e da gravidade da crise atual, nos encontramos diante das duas únicas alternativas possíveis: optar por não realizar qualquer transforma- ção real, perpetuando o atual sistema global de dominação e, assim, deslizando para “um futuro de infelicidade, pobreza e degradação ecológi- ca ainda pior”, ou “pôr-se em busca do Tao da libertação”, realizando assim uma “revolução da consciência”, uma reinvenção de nós mesmos como espécie, na direção de uma “nova civilização global na qual a beleza, a dignidade, a diversidade e o respeito absoluto pela vida estarão no centro de tudo: uma autêntica grande virada”.

Daí a necessidade de uma nova compreensão da realidade e uma nova concepção do lugar que a humanidade ocupa no cosmos. No livro, você define isso como a “cosmologia da libertação”, em oposição àquela “cosmologia da dominação”, que, em grande parte, autorizou “a submissão da Terra”, substituindo a visão do cosmo como “uma moradia viva, rica em mistério” por aquela de um universo “como uma imensa máquina composta de simples tijolos”, que funcionam de maneira determinista. Esse é um universo morto, feito de matéria inanimada, que pode, portanto, ser explorado sem remorsos, em nome do desenvolvimento econômico e social.

Essa é uma visão superada pela pesquisa científica contemporânea. Ao contrário dessa, emerge a natureza profundamente holística e relacional do cosmos, mais como rede de relações na qual “cada parte recebe seu significado e sua existência apenas do lugar que ocupa no interior do todo” e no qual “todas as comunidades evoluíram como se fossem um grande organismo”. O cosmo é como uma “entidade viva com sua liberdade e sua dinâmica criativa”. É como uma espécie de super-organismo vivo que a Terra se revela. São muito sólidas as provas da atividade autorreguladora da ecosfera. É a teoria de Gaia, cuja versão “forte” sustenta “que os organismos vivos, trabalhando juntos, de alguma forma regulam ou controlam o seu ambiente para conservar, ou talvez até para otimizar, as condições necessárias à vida”.

Aquele livro, Leonardo, continha uma mensagem extraordinária de esperança. De uma esperança que nunca foi tão necessária como hoje, uma vez que, olhando para o mundo que construímos, não podemos deixar de nos sentir desanimados com a nossa capa- cidade de nos fazer mal diante da crueldade com que tratamos a comunidade da vida deste planeta, diante da cegueira e da loucura da qual a nossa espécie, imerecidamente autodenominada de sa- piens – que você definiu como “a maior ameaça à vida” – está dando prova de destruir a sua própria casa.

A esperança de que o cenário atual, embora tão dramático, seja apenas, como você escreveu, uma crise que “põe à prova, purifica e leva à maturação”, anunciando “um novo começo, uma dor de parto cheia de promessas e não a dor de um aborto da aventura humana”. Em suma, o nosso destino deve ser o de nos tornar mais plenamente huma- nos, capazes de sentir uma compaixão que inclui tudo, criar, como você escreveu, a nova civilização da Era da Terra, em cuja porta, ao contrário do que está escrito na porta do Inferno de Dante, possa ser lido, em todas as línguas existentes: “Vós que entrais aqui, nunca abandonai a esperança”.

De acordo com a ideia de Teilhard de Chardin, a evolução é “plasmada de modo a convergir para um estágio superior e final, que ainda é para ser alcançado e pode ser chamado de “ponto ômega”. Embora não seja possível dizer exatamente como será, ou com que parecerá, o fato é que implica “níveis de complexidade, de inter-re- lação, de diversidade e de autoconsciência sempre maiores”. Assim, você sublinhava no seu livro que é possível afirmar: o cosmos “ainda está em processo de gênese” e que, portanto, “cada ser e cada entidade estão cheios de potencialidades ainda não realizadas”.

Caro Leonardo, em todos esses anos você não somente nunca me negou uma entrevista, como sempre respondeu generosamente a todos os meus pedidos de artigos, comentários e contribuições. Até aceitou escrever para mim o belo capítulo que aparece no livro O cosmo como revelação, que editei juntamente com José María Vigil. Esse livro deve muito mais a você, Leonardo, do que apenas esse capítulo. Ao longo de todo esse caminho de pesquisa e de aprofundamento sobre o novo paradigma ecológico, você desempenhou um papel essencial, do qual sempre lhe serei agradecida.

Os 80 anos que você viveu com tanta plenitude e com tanto amor pela vida, e que nós todos e todas estamos aqui celebrando, tornaram esse mundo, que algumas vezes é tão inóspito e violen- to, um lugar melhor e mais acolhedor. Uno o meu mais profundo agradecimento a você ao agradecimento de tantos amigos e amigas

Claudia Fanti. Jornalista italiana, engajada na reflexão teológica mais avançada e militante de movimentos sociais

Apesar das tribulações ainda é Natal

Vivemos no mundo e no nosso país tempos sombrios. Há muita raiva e até ódio. Mais que tudo reina falta de sensibilidade para nossos semelhantes, especialmente para com as crianças, como o Menino Jesus, vivendo nas ruas e sofrendo abusos. Mesmo assim vivemos a humanidade de nosso Deus que assumiu nossa condição humana tão contraditória.

O cristianismo não anuncia a morte de Deus, mas a humanidade, a benevolência e o amor misericordioso de Deus. Olhemos para o Menino entre o boi e o asno: nele sorri a jovialidade e a eterna juventude do próprio Deus.

Passei por Belém de Judá e ouvi um sussurro terno. Era a voz de Maria embalando o filhinho:”Sol, meu filho, como vou cobrir-te de panos? Como vou amamentar-te, se és tu, que nutres todas as criaturas”?

Do presépio também veio uma voz angelical que me dizia: “Oh criatura humana, por que tens medo de Deus? Não vês que sua mãe enfaixou seu corpinho frágil? Uma criança não ameaça ninguém. Nem condena ninguém. Não escutas seu chorinho doce? Mais que ajudar, ela precisa ser ajudada e carregada no colo”.

Não deixemos que seja verdade o que escreveu o evangelista São João:“Ele veio para o que era seu e os seus não o receberam”. Nós queremos estar entre aqueles que O recebem como irmão e companheiro de caminhada.

A entrada de Deus no mundo não foi estrepitosa. Deu-se à margem da história oficial, fora da cidade, no meio da noite escura, numa gruta de animais. Em Roma, capital do império e em Jerusalém, o centro religioso do Povo de Israel, ninguém soube de nada. Quase ninguém o percebeu. Somente aqueles que tinham um coração simples como os pastores de Belém, estes seguiram até a gruta, onde tiritava de frio a Divina Criança.

O Natal nos oferece a chave para decifrar alguns mistérios insondáveis de nossa atribulada existência. Os seres humano sempre se perguntaram e perguntam: por que a fragilidade de nossa existência? Por que a humilhação e o sofrimento? E Deus silenciava. Eis que no Natal nos vem uma resposta: Ele se fez frágil como nós. Ele se humilhou e sofreu como os humanos. Esta foi a resposta de Deus: não por palavras mas por um gesto de identificação. Não estamos mais sós na nossa imensa solidão. Ele está conosco. Seu nome é Jesus.

O Natal nos descortina também uma resposta derradeira ao sentido do ser humano. Somos um projeto infinito. Só um Infinito pode realizar nossa plena humanidade. Eis que o Infinito se faz humano para que o humano realizasse seu projeto Infinito. O infinito se fez ser humano para que o ser humano se fizesse Infinito.

Para concluir nada mais comovedor do que estes versos de Fernando Pessoa, o grande poeta português, sobre o Menino Jesus::

Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É por isso que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

É a criança tão humana que é divina.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro.

Mas vivemos juntos os dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro de tua casa.

Despe meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Feliz Natal a todos e a todas. Confiemos: há uma Estrela como a de Belém a iluminar o nosso caminho por mais sombrio que se apresente. E se eu não souber o caminho, Menino, tu o sabes e bem certo.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Natal: a humanidade e a jovialidade de nosso Deus, Vozes, 8.edição 1976.