O Movimento dos Sem Terra (MST) chegou ao Vaticano: João Pedro Stedile

Seguramente o Movimento dos Sem Terra (MST) é polêmico, porque aborda uma questão que sempre foi polêmica na história do Brasil: a questão da terra.  Segundo Noam Chomsky, um dos intelectuais norteamericanos mais lúcidos e analista agudo das políticas mundiais, também um dos fundadores do Forum Social Mundial, disse repetidas vezes que considera o MST o movimento social popular mais importante e articulado do mundo junto com a Via Campesina da qual faz parte. No seu seio não se discute apenas a reforma agrária que nunca foi feita, embora esteja na Constituição de 1988, mas o futuro do planeta Terra, a preservação de sua vitalidade e integridade e o destino da Humanidade que está seriamente ameaçado. Seu sonho é grande, do tamanho de nosso mundo. E assim deve ser. Mas fundamentalmente a questão pela qual se originou o MST e  sempre se bate é garantir terra para quem quer nela viver e trabalhar para seu próprio sustento e para o consumo do povo brasileiro (60% de nosssa alimentação não vem do agronegócio mas da agricultura familiar e das pequenas corporativas). Pelo fato de nunca se ter feito reforma agrária, apenas políticas agrárias, temos a favelização de nossas cidades. Sem incentivos, longe de tudo, da escola, do hospital,do serviço  bancário,  da cultura e do lazer, milhões de camponeses deixam, pesarosos, suas terras e vão inchar as periferias das cidades. Como para os pobres quase sempre só se fazem  políticas pobres, dificilmente se consegue organizar e urbanizar as favelas (os que nelas habitam, com razão, as chamam de comunidades). Daí se cria o caldo da violência, do tráfico de drogas, dos milicianos, do rolezinhos e outros epifenômenos. O que caracteriza o MST é sua militância, sua persistência na luta, sua capacidade de unir formação política com vontade de transformação social. Não sem razão possuem um rede de escolas inspiradas no método de Paulo Freire e até um Centro de Estudo e Reflexão, verdadeiro embrião de Universidade, a Escola Florestan Fernandez no Estado de São Paulo. Um de seus coordenadores e animadores é João Pedro Stedile. Pode-se fazer todo tipo de crítica a ele, a grande maioria injustificada, mas não se pode negar sua capacidade analítica, sua lucidez política e a determinação com que defende a visão que o MST desenvolveu sobre o Brasil que queremos e que devemos juntos construir: justo, solidário, ecológico, dialogal, cooperastivo em todas as questões que movem a Humanidade. Publicamos aqui uma de suas muitas entrevistas. Os leitores/as poderão se fazer uma opinião pessoal do teor de seu pensamento, tão distorcido e combatido por um tipo de midia que, ao atacá-lo, está na verdade, recusando reformas sociais includentes que lhes tolherão  privilégios construídos contra os interesses da grande maioria. Eu pessoalmente o considero uma das lideranças mais corajosas, desprendidas e organica e visceralmente ligadas à causa dos mais prejudicados e penalizados pelo tipo de sociedade que temos construído na nossa história.Sua opção mais que ideológica possui um alto teor ético e humanístico:L.Boff

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1.Falando sobre a bandeira símbolo do MST (Movimento dos Sem Terra). Qual a situação da reforma agrária no país hoje?

O Brasil nunca teve um programa de reforma agrária, que de fato se propusesse a democratizar o acesso a terra e garantir terra aos pobres do campo.  Então de acordo com a correlação de forças, as vezes avançamos e conseguimos mais assentamentos e outros períodos o capital avança e impede que tenhamos desaporpirações.  E essa é a situação atual.  Nem temos reforma agrária, e mesmo os processos de conquistas de novos assentamentos estão parados.  E isso se deve a que há uma especulação dos preços das commodities agrícolas que aumentou o lucro dos fazendeiros e jogou o preço das terras nas nuvens.  O capital  está impondo o agronegócio ocmo única forma de se produzir.  E se completa com o governo Dilma, que é hegemonizado pelo agronegócio. Os que defendem a reforma agrária dentro do governo são minoritários.   E pior ainda, há uma incompetência administrativa do Incra impressionante, que não consegue resolver os mínimos problemas, mesmo de quem já esta assentado.

2.- Como as mudanças projetadas pelo MST no campo impactariam as pessoas que vivem nas cidades?

 Diante dessa situação adversa, nós passamos os últimos dois anos debatendo com nossa base, nossa militância e construímos a idéia da necessidade de um programa de reforma agrária popular.   Que representasse mudanças necessárias para todo povo e não apenas para os sem-terra.  E no nosso programa colocamos a necessidade de fazer amplas desarpopriações dos maiores latifúndios, começando pelas empresas estrangeiras.  Precisamos priorizar a produção de alimentos.  Precisamos produdizr sem agrotóxicos para que o povo da cidade tenha saúde.  Precisamos adotar a agroecologia como uma nova matriz de produtção em equilíbrio com a natureza.  Precisamos instalar agroindústrias na forma cooperativa, para dar emprego aos jovens do campo, estancar o êxodo e distribuir renda.  E finalmente precisamos democratizar o acesso a escola em todos os níveis.  Essa é na essência nossa proposta de reforma agrária.  

 3.- Você esteve recentemente na Pontifica academia de ciências, no Vaticano, a convite do Papa Francisco  discutindo a questão da fome no mundo. Que impressões teve desse encontro?

 Causou a todos surpresa, pois pela primeira vez o Vaticano convocou dois movimentos sociais,o MST e o movimento dos Cartoneros (catadores de material reciclavel) da Argentina,  para debater com bispos, intelectuais e cientistas que fazem parte da Academia, qual é a causa dos pobres, dos excluídos e de tantos problemas econômicos.

Colocamos nossa visão sobre a etapa atual do capitalismo financeiro e internacional, que está dominando o mundo, e que são os principais responsáveis.  As 300 maiores empresas do mundo, controlam 60% de toda riqueza.  Um por cento dos ricos controlam metade de toda riqueza da humanidade.  Sem combater a esse sistema, não teremos uma sociedade mais igualitária, mais justa e democrática.

O seminário agora terá certamente outros desdobramentos, com outros encontros promovidos pelo Papa Francisco, que está nos surpreendendo a todos..  .

4. O MST foi o principal movimento social do Brasil nas últimas décadas. Agora, surge como principal ator social a juventude. Qual sua opinião sobre os movimentos de juventude da atualidade?

As mobilizações da juventude, em qualquer sociedade, são sempre uma espécie de termômetro, que indicam a temperatura de indignação de toda sociedade. E aqui não foi diferente. Apesar dos avanços que houve nos últimos dez anos em relação ao neoliberalismo, porem,  os trabalhadores enfrentam ainda graves problemas, que afetam também a juventude.  E a juventude foi para a rua dizer em nome de todos nós, que precisamos de mudanças sociais.  Mudanças no regime político, que não representa a ninguém.  Mudanças na política econômica. E mais estado e poder publico atendendo as necessidades do povo, na saúde, educação e transporte publico de qualidade.

5.- Como o MST está pensando em dialogar ou se articular com essa juventude?

Em todas as mobilizações  nós procuramos participar com nossa militância, apesar de que nossa base social esta longe das capitais.  Seguimos incentivando a que juventude se organize, se mobilize.

E ao mesmo tempo contribuímos na construção de plenárias estaduais e nacionais de todos os movimentos sociais, que envolve todos os setores, desde o movimento sindical ate as pastorais, para discutirmos os rumos do pais, e a necessidade de uma reforma política.

6.- Você acha que as manifestações de junho protagonizadas por esses jovens foram uma surpresa pela proporção e impacto que tomaram?

Foram surpresa pela forma e rapidez como aconteceram.  Mas todos os militantes sociais, sabiam que os problemas que o povo está enfrentando nas grandes cidades  estavam aumentando e latentes.Veja a situação dos transportes públicos: é um caso, perde-se horas no transito e caro.  Enqaunto o governo isenta IPI e incentiva o transporte individual, que as multinacionais automobilísticas agradecem.   O atendimento da saúde publica é uma vergonha. E isso pelo menos destravou o programa Mais médicos, que é uma coisa boa.  E na educação, temos graves problemas, desde elevada taxa de analbetismo, que atinge 18 milhões de trabalhadores adultos até o fato de 88% da juventude em idade universitária, não consegue entrar na universidade.

Por outro lado, a política institucional no Brasil foi seqüestrada pelos financiadores de campanha, que transformam os eleitos em reféns do capital. E o povo a juventude não se sente mais representado nos parlamentares, no sistema político.

Então, dia mais, dia menos, esses problemas apareceriam.  E apareceram no melhor lugar possível:. Nas ruas!  Que o melhor lugar da juventuide praticar a democracia.

7.- Qual o saldo das mobilizações de junho para a luta política no país?

 Em termos de conquistas reais, foi ainda pequeno, porque barraram apenas o aumento das tarifas.  Mas o  saldo político é fantástico.  Recolocou a política nas ruas.  Recolocou o debate das mudanças necessárias.  E  colocou na pauta a reforma política e a necessidade da convocação de uma assembléia constituinte. E o processo está ainda em curso, tende a aumentar.

 8.- No balanço de 2013, os movimentos levantaram alguns retrocessos na política econômica nacional. A que se deveu esse retrocesso?

 A política econômica do governo federal é um dos palcos centrais da luta de classes da sociedade brasileira.  Pois é através dela que as classes dividem a riqueza produzida todos os dias pelos trabalhadores.  E há uma pressão permanente dos bancos, e das grandes empresas, para abocanharem os recursos públicos, na forma de juros.  Na forma de empréstimos favorecidos no BNDES, na forma de emendas parlamentares, na forma de isenção de impostos.  E do lado dos trabalhadores precisamos disputar para que esses recursos, que são públicos, que são de todo povo sejam priorizados nos investimentos da educação, da saúde, da reforma agrária e dos transporte públicos nas grandes cidades.

E nessa luta, acho que em 2013, a classe trabalhadoura saiu perdendo. Os bancos abocanharam 280 bilhões de reais do tesouro em juros.  O banco central dominado pelos bancos aumentou a taxa de juros.  O cidadão comum, o comercio e a industria pagam taxas de juros que variam de 40% a 144% ao ano. Isso é uma afronta.

E o governo ficou administrando, sem coragem e força, para brecar o poder econômico, porque parte do governo está impregnado por esses interesses.

 9. – A direita e a esquerda estão apostando que as mobilizações voltarão no período da Copa do mundo. Há risco de as mobilizações, que são um sinal de desejo de mudança, contribuírem com as forças conservadoras? Isso pode ser usado no jogo eleitoral?

 Mobilizações massivas sempre ajudam a fazer debate político na sociedade.  A direita brasileira, não tem nem base social, nem discurso, nem proposta para mobilizar milhões. Porque seria mobilizar contra os interesses do povo. As mobilizações mais do que bem vindas, são necessárias, para seguirmos mudando o pais, para termos mais  Estado a serviço do povo. Mais recursos para  a educação, saúde. Os que tem medo do povo, é porque já estão longe de seus interesses. 

Nenhuma mudança social ocorreu na historia da humanidade, sem que tenha havido mobilização popular.Nenhuma mudança acontece pela” vontade generosa” de algum governante ou guru.

Em relação ao calendário, torço para que as mobilizações de rua comecem logo,  pois no período da realização da copa, vai confundir a cabeça do povo, que quer ver a copa, e pode reduzir as mobilizações como se fossem apenas protesto pelo dinheiro gasto nas obras.   O dinheiro que foi gasto nos estádios, em torno de 8 bilhões, claro que poderiam ser melhor aplicados, porem eles representam apenas duas semanas do volume de recursos que o governo passa para os bancos.  Entao a cada duas semanas temos uma copa do tesouro nacional para os bancos.  E esses são os nossos inimigos principais, que precisamos denuncia-los e  derrota-los, dentro e fora do governo.

 10.- O que esperar das eleições de 2014?

 Pessoalmente acho que não teremos grandes mudanças.  Nem nos eleitos, nem nas propostas que os eleitos defendem. Então as verdadeiras mudanças, não dependem mais do calendário eleitoral, vão depender  da capacidade da classe trabalhadora  construir um programa unitario de  medidas que a sociedade precisa para poder  resolver os problemas do quotidiano do povo.

 11- O MST e outros movimentos sociais pretendem lançar alguma bandeira política e construir mobilizações neste ano?

Já está posta na rua, desde o segundo semestre do ano passado.  Nós participamos de  uma ampla frente popular, desde a CNBB, OAB, ABI CUT  e movimentos populares,  para juntos lutarmos por uma reforma política.

Uma reforma política que mude as regras do jogo, devolva ao povo o direito de escolher seus verdadeiros representantes, altere a correlação de forças na sociedade e abra portas, para que ocorram as outras reformas necessárias: a reforma urbana, a reforma agrária, a reforma educacional garantindo 10% do PIB para educação, a ampliação dos recursos para saúde, e o controle dos juros e do superávit primário.

12. – Em quais outras reivindicações você apostaria como as principais para 2014?

Esse é o salto político que os movimentos populares vamos precisar dar.  Mais do que pautas especificas de reindivicações, que cada setor social, vai continuar lutando para atender as necessidades de sua base, agora é fundamental consturirmos uma unidade programática, em torno dos temas políticos.   Unidade para fazer um grande mutirão naiconal e fazermos trabalho de base para discutir com o povo, que mudanças políticas queremos?   E a partir desse debate  organizar  um plebiscito popular na semana de sete de setembro, para que o povo vote,  na possibilidade ou não da convocação de uma assembléia constituinte, eleita de forma soberana, sob outras regras, e exclusiva para fazer a reforma política do pais.

Tenho esperanças de que poderemos mobilizar a milhões de brasileiros nessa missão, e com isso aglutinar forças para pressionar os três poderes da republica para convocar a assembléia constituinte em 2015.

                           João Pedro Stedile,

25 de janeiro de 2014, São Paulo, entrevista a Brasil de Fato

The Chinese wisdom of caring: Feng Shui

One advantage of globalization, one that is not only economic-financial but also cultural, is that it enables us to access values that are not well developed in our Western culture. Here, we will touch on the Chinese Feng-Shui. Literally, it means wind (feng) and water (shui). The wind carries Qi [pronounced, chi], the universal energy, and the water retains it.  On a personal level, it means “master of the prescriptions”: the wise one who, starting from the observation of nature and of close harmony with Qi, would point out the path of the winds and the flow of the waters and, this way, how to properly construct a dwelling.

Beatriz Bartoly, in her brilliant thesis of philosophy, of which I served as advisor, at the State University of Rio de Janeiro (UERJ), writes: «Feng Shui gives us a form of loving jealousy» –we would say caring and tenderness– «with respect to the banality in our existence, that in the West has long been discredited and underrated: to care for the plants, for the animals, to arrange the home, care for the cleaning, the maintenance of the bedrooms, preparation of meals, to adorn daily life with the prosaic, and simultaneously, with the majestic beauty of nature. However, more than buildings and human endeavors, the principal objective of this philosophy of life is conduct and action, because more than in the results, Feng-Shui is interested in the process. The value is in the action rather than its effect, in the conduct rather than the end result».

As is deduced, the philosophy of Feng-Shui is centered more in the subject than the object, more in the person than the environment and the house itself. The person must be involved in the process, to develop the perception of the environment, capture the energetic flows and the rhythms of nature. The person must assume a conduct in harmony with others, with the cosmos and the rhythmical processes of nature. The person who has created that interior ecology will be able to successfully organize its exterior ecology.

More than a science or art, Feng Shui is fundamentally a wisdom, an ecological-cosmic ethic of how to correctly distribute the Qi throughout our environment.

The multiple facets of Feng Shui represent the final synthesis of care in organizing the garden, the house or apartment, with a harmonious integration of the elements that are present. We can even say that the Chinese, as the classic Greeks, are tireless seekers of the dynamic equilibrium of all things. The supreme ideal of the Chinese tradition, that found its best expression in Buddhism and Taoism, represented by Lao-tzu (VI-V century a.C.) and by Zhuangzi (V-IV century a.C.), consists of procuring unity through a process of integrating the differences, especially the known polarities of yin/yang, masculine/feminine, space/time, celestial/terrestrial, among others. The Tao represents that integration, the ineffable reality with which it attempts to unify the person.

Tao means path and method, but also the mysterious and secret Energy that produces all the paths and projects all the means. It cannot be expressed in words.  Before it, only respectful silence suffices. It underlies the polarity of yin and yang and manifests itself though them. The human ideal is to reach such a profound union with Tao that the satori, the illumination, results. For Taoists, the supreme good is not found beyond death, as it is for Christians, but here, in time and history, through an experience of non-duality and integration in the Tao. A person who dies is submerged in, and unified with, the Tao.

To reach this union, harmony with the vital energy that courses through heaven and Earth, called Qi, is essential. Qi can not be translated, but is equivalent to the ruah of the Jews, the pneuma of the Greeks, the spiritus of the Latins, the axe of the yoruba/nago, the quantum vacuum of the cosmologists: expressions of the supreme and cosmic Energy that underlies and sustains all beings.

Through the strength of Qi, all things are transformed (see the I Ching, the Book of Changes), and permanently remain in process. The Qi flows in the human being through the meridians of acupuncture. It circulates in the Earth through the subterranean telluric veins, composed of the electromagnetic fields that lie along the meridians of ecopuncture that are interwoven along Earth’s surface. The expansion of Qi means life, when Qi retracts, there is death. When Qi acquires weight, it appears as matter, when it turns subtle, as spirit. Nature is the wise combination of the distinct states of Qi, from the heaviest to the lightest.

When Qi emerges in a given place, a harmonious scene is created, with soft winds and crystalline waters, sinuous mountains and green valleys. It invites the human being to build his abode, or locate an apartment there, where he can find himself “at home”.

The Chinese vision of the world favors the space, in contrast to the West, that favors time. Space for Taoism is the place of encounter, of confraternity, of the interactions of all with all, because all of us are carriers of the Qi energy that envelopes the space. The supreme expression of space is realized at home, in the garden, in the well cared for apartment.

The human being who wants to be happy must develop topofilia; love of the place where one lives and where one’s home and garden, or apartment, is found.  Feng Shui is the art and technique of building well the house, the garden, and of decorating the apartment with a sense of harmony and beauty.  In the face of the dismantling of caring and the present ecological crisis, the millenarian wisdom of Feng Shui helps us rebuild the alliance of sympathy and love with nature. That remakes the human presence (that the Greeks called ethos), based on caring and its multiple facets, such as tenderness, charity and cordiality.

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar,
done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

O Brasil na encruzilhada: prolongar a dependência ou completar a invenção?

Observador atento aos processos de  transformação da economia mundial em contraponto com a brasileira, Celso Furtado, um dos nossos melhores nomes em economia política,  escreveu em seu livro Brasil: a construção interrompida: “Em meio milênio de história, partindo de uma constelação de feitorias, de populações indígenas desgarradas, de escravos transplantados de outro continente, de aventureiros europeus e asiáticos em busca de um destino melhor, chegamos a um povo de extraordinária polivalência cultural, um país sem paralelo pela vastidão territorial e homogeneidade linguística e religiosa. Mas nos falta a experiência de provas cruciais, como as que conheceram outros povos  cuja sobrevivência chegou a estar ameaçada. E nos falta também um verdadeiro conhecimento de nossas possibilidades e principalmente de nossas debilidades. Mas não ignoramos que o tempo histórico se acelera e que a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”  (Paz e Terra, Rio 1993, 35).

A atual sociedade brasileira, há que se reconhecer, conheceu avanços significativos sob os governos do Partido dos Trabalhadores. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem, possui uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar, especialmente se nos confrontarmos com as fases históricas anteriores, hegemonizadas pelas elites tradicionais que sempre detiveram o  poder de Estado em seu benefício.

Mas estes avanços não são ainda proporcionais à grandeza de nosso país e de seu povo. As manifestações de junho de 2013 mostraram que boa parte da população, particularmente dos jovens, está insatisfeita. Estes manifestantes querem mais. Querem um outro tipo de democracia, a participativa, querem uma república não de negociatas mas de caráter popular, exigem com razão  transportes que não lhes roube tanto o tempo de vida, serviços básicos de saneamento, educação que os habilite a entender melhor o mundo e melhorar o tipo de trabalho que escolherem, reclamam saúde com um mínimo de decência e qualidade. Cresce em todos a convicção de que um povo doente e ignorante jamais dará um salto de qualidade rumo a uma sociedade menos desigual e, por isso, como dizia Paulo Freire, “menos malvada”. O PT deverá estar à altura desses novos desafios, renovar sua agenda a preço de não continuar mais no poder.

Estamos nos aproximando daquilo que Celso Furtado chamava de “provas cruciais”. Talvez como nunca antes em nossa história, atingimos este estágio  crítico das “provas”. As próximas eleições possuirão, a meu ver, uma qualidade singular. Dada a aceleração da história, impulsionada pela crise sistêmica mundial, seremos forçados a tomar uma decisão: ou aproveitamos as oportunidades que os países centrais em profunda crise nos propiciam, reafirmando nossa autonomia e garantindo nosso futuro autônomo mas relacionado com a totalidade do mundo ou as desperdiçamos e viveremos atrelados ao destino sempre decidido por eles que nos querem condenar a sermos apenas os fornecedores dos produtos in natura e assim voltam a nos recolonizar.

Não podemos aceitar esta estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos  melhores analistas do quilate de Darcy Ribeiro e de Luiz Gonzaga de Souza Lima entre outros que propuseram uma reinvenção ou refundacão do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório tão enaltecido por Celso Furtado.

Esse é o desafio lançado de forma urgente a todas as instâncias sociais: ajudam elas na invenção do Brasil como nação soberana, repensada nos quadros da  nova consciência plenetária e do destino comum da Terra e da Humanidade? Poderão elas ser co-parteiras de uma cidadania nova – a co-cidadania e a cidadania terrenal – que articula o cidadão com o Estado, o cidadão com o outro cidadão, o nacional com o mundial, a cidadania brasileira com a cidadania planetária, ajudando assim a moldar o devenir humano? Ou elas se farão cúmplices daquelas forças que não estão interessadas  na construção do projeto-Brasil  porque se propõem inserir o Brasil no projeto-mundo globalizado de forma subalterna e dependente, com as vantagens concedidas às classes opulentas, beneficiadas com este tipo de aliança?

As próximas eleições vão trazer à luz estes dois projetos. Devemos decidir de que lado estaremos.  A situação é urgente pois, como advertia pesaroso Celso Furtado: “tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional” (op.cit. 35). Mas não queremos aceitar como fatal esta severa advertência. Não devemos  reconhecer as derrotas sem antes dar as batalhas como nos ensinava Dom Quixote em sua gaia sabedoria.

Ainda há tempo para mudanças que podem reorientar o país para o seu rumo certo, especialmente agora que, com a crise ecológica, se transformou num peso decisivo da balança e do equilíbrio buscado pelo planeta Terra. Importa crer em nossas virtualidades, diria mais, em nossa missão planetária.

Die essentielle Liebkosung bringt uns die verlorene Menschlichkeit zurück

Die Liebkosung ist eine der höchsten Ausdrucksformen der Zärtlichkeit, mit welcher wir uns im vorigen Artikel befassten. Wieso nennen wir sie die essentielle Liebkosung? Darum, weil wir sie unterscheiden wollen von der Zärtlichkeit als einem rein psychologischen Akt vor dem Hintergrund eines vorübergehenden Verlangens ohne Konsequenzen. Die Liebkosung als Akt spricht die Person nicht ganzheitlich an. Eine Liebkosung ist dann als essentiell zu bezeichnen, wenn sie sich verwandelt zu einer Haltung, eine Seinsweise, die den Menschen als ein Ganzes definiert, in seiner Psyche, seinem Denken, Wollen, seinem Inneren und seinen Beziehungen.

Das Organ der Liebkosung ist im wesentlichen die Hand: die Hand, die berührt, die nährt, die eine Beziehung herstellt, die Wärme schenkt, die Ruhe bringt. Doch die Hand ist mehr als nur eine Hand. Es ist die ganze Persönlichkeit, die sich durch die Hand und mit der Hand mitteilt und eine liebevolle Seinsweise zum Ausdruck bringt. Die Liebkosung berührt den Menschen in seinem tiefen Innern, wo sich sein persönliches Zentrum befindet. Damit die Liebkosung wirklich essentieller Natur ist, müssen wir unser profundes Selbst pflegen, welches in den intimsten und wahrhaftesten Bereich unseres Innern vorstößt, und nicht nur das oberflächliche Ego unseres Bewusstsein, das sich immer nur Sorgen macht.

Die Liebkosung, die wirklich unserem Mittelpunkt entstammt, schafft Ruhe, Ganzheitlichkeit und Vertrauen. Daher ihre Bedeutung. Wenn eine Mutter ihr Kind liebkost, teilt sie ihm die prägendste richtungweisende Erfahrung mit: das Urvertrauen in die Güte des Lebens; das Vertrauen, dass alles zutiefst und trotz so vieler Komplikationen einen Sinn hat; das Vertrauen, dass der Friede kein Traum ist, dass er die wahrste Wirklichkeit ist; das Vertrauen in die Geborgenheit des großen Mutterschoßes.

Ebenso wie die Zärtlichkeit verlangt die Liebkosung völligen Altruismus, den Respekt vor dem anderen und den Verzicht auf jegliche andere Absicht, die nicht dem Wohlergehen und der Liebe für den anderen gilt. Dies ist nicht bloß ein Aneinanderreiben von Haut, sondern ein Mitteilen von Zuneigung und Liebe durch die Hand und die Haut, die Haut, in der sich unser Selbst verwirklicht.

Es gibt keine Zuneigung ohne Liebkosung, Zärtlichkeit und Achtsamkeit. So wie der Stern eine Aura braucht, um zu scheinen, so bedarf die Zuneigung der Zärtlichkeit, um zu überleben. In der Liebkosung der Haut, der Haare, der Hände, des Gesichts, der Schulten, des Intimbereichs konkretisieren sich Zuneigung und Liebe. Die Qualität der Liebkosung offenbart, ob die Zuneigung nur geheuchelt wird, falsch oder zweifelhaft ist. Die essentielle Liebkosung ist so zart wie das sanfte Öffnen einer Tür. Es findet sich niemals Zärtlichkeit in der Gewalt des Zuschlagens von Türen und Fenstern, d. h. beim Eindringen in die Intimität einer Person.

Der kolumbianische Psychiater Luis Carlos Restrepo schreibt in seinem schönen Buch über Das Recht auf Zärtlichkeit (Verlag Arango, 2004): „Die Hand, ein menschliches Organ par excellence, dient sowohl zum Geben als auch zum Nehmen. Die gebende und die nehmende Hand sind zwei extreme Facetten der zwischenmenschlichen Begegnungen.“

In einer breiteren kulturellen Reflexion verkörpert die Hand die Seinsweise der vergangenen vier Jahrhunderte der sogenannten Moderne. Der Dreh- und Angelpunkt der Moderne besteht im Willen, sich alles zu nehmen, um es zu besitzen und zu beherrschen. Der ganze lateinamerikanische Kontinent wurde so weggerafft und durch die militärische und religiöse Invasion durch die Iberer dezimiert. Und genau dies ist auch in Afrika, in China und an allem geschehen, was der Mensch in seiner Raffgier an sich reißen kann, selbst dem Mond.

Die modernen Menschen rafften die Natur an sich, indem sie sie beherrschten, ihre Güter ausbeuteten, ohne sich Gedanken über ihre Grenzen zu machen oder diese zu respektieren und ohne ihr die Zeit zu lassen, die sie braucht, um sich wiederherzustellen. Heutzutage ernten wir die vergifteten Früchte dieser Praxis, der es an jeglicher Art von Achtsamkeit und Liebkosung für das lebendige und verletzliche Lebewesen mangelt.

Etwas an sich zu raffen ist Ausdruck von Macht, Manipulation, Ausrichtung des anderen oder von Dingen hin zu meiner Lebensweise. Bei genauerem Hinsehen zeigt sich, dass die Globalisierung nicht den Respekt für die reiche Vielfalt der Kulturen mit sich bringt. Vielmehr führt sie zu einer Verwestlichung der Welt. Und wortwörtlich zu einer Hamburgerisierung des nordamerikanischen Lebensstils, der sich allen Teilen der Welt aufzwingt.

Die liebkosende Hand repräsentiert die notwendige Alternative: eine von Achtsamkeit geprägte Lebensweise, denn „Liebkosung ist eine mit Geduld gewappnete Hand, die berührt ohne zu verletzen und die loslässt, um dem Wesen, mit dem wir in Beziehung treten, die Bewegungsfreiheit zu lassen.“ (Restrepo)

In diesen Tagen muss es uns dringend darum gehen, im Menschen die Dimension der essentiellen Liebkosung freizusetzen. Sie befindet sich in uns allen, wenn auch durch eine große Staubschicht an Materialismus, übermäßigem Konsum und Nichtigkeiten verdeckt. Die essentielle Liebkosung bringt uns unsere verlorene Menschlichkeit zurück. Im besten Sinne stärkt sie auch das universellste ethische Gebot: jedes menschliche Wesen menschlich zu behandeln, d. h. ihm mit Verständnis, Offenheit, Aufmerksamkeit und mit essentieller Liebkosung zu begegnen.

Übersetzt von Bettina Gold-Hartnack