Barões da imprensa no divã da psicanálise

               Edelberto Behs  06 Abril 2021: IHU

 Esse artigo é especialmente precioso,neste momento em que militares e outros grupos saudosistas celebram o que eles chamam de” movimento de 1964”, um eufemismo para ocultar a ditadura civil-militar que durou 21 anos.Elas  se caracterizou pela violência do Estado ditatorial com prisões, sequestros, torturas e assassinatos. Sempre em nome da Segurança Nacional (na verdade, segurança do Capital). A grande imprensa (O Globo, FSP, Estadão, Veja,IstoÉ e os principais canais de TV e outros) apoiou entusiasticamente o golpe. Edelberto Behs cita literalmente os editoriais Esta imprensa sempre foi o braço estendido da classe dominante, dos barões do Capital e dos descendentes da Casa Grande que o renomado sociólogo Jessé Souza chama de “A elite do atraso”(Estação Brasil,2020).Esteve presente em todos os golpes, especialmente, quando temia que os privilégios dos endinheirados, seus aliados, estavam sob ameaça por políticos de caris popular e com vontade de introduzir políticas sociais que beneficiassem os empobrecidos, a maioria da população. Não foi diferente nos dias atuais. Essa imprensa que só conhece um lado, parcial, anti-popular e, no fundo, anti-nacional, foi decisiva para a eleição de Jair Bolsonaro. Agora, com o passar do tempo, tenta fazer uma auto-crítica,seja de seu apoio ao golpe civil-militar, seja  da sustentação dada ao insano presidente, aliado do coronavírus, insensível à dizimação de mais de 300 mil compatriotas. Ocorre que não se corrigem. Não aprendem nada da história. Seu arrependimento não é sincero nem ético, porque continuam com as mesmas estratégias em favor dos privilegiados e dos que dominam as grandes maiorias, maltratadas e desprezada e contra qualquer mudança substancial na sociedade brasileira que inclua os milhões de maginalzados e estigmatizados. O arrependimento é sempre tardio e, no fundo, falso, num esforço de tirar sobre suas costas a cota de responsabilidade pela desgraça generalizada que adoece o nosso país.Vale ler este artigo que desmascara, com textos desta mesma imprensa viralatista, a posição que historicamente ela ssumiu, sempre do lado dos poderosos e contra os movimentos sociais por direitos, justiça e dignidade:.Lboff

“Em todos esses casos, o arrependimento veio tarde. Pesou e cortou na própria carne. A expectativa agora é saber em quais aventuras os barões vão se enfurnar em 2022, se as sessões de psicanálise terão que ser continuadas e ampliadas, ou se vão seguir as dicas mais elementares que constam em qualquer manual de redação, tipo ouvir todos os lados da questão, deixar o julgamento para a Justiça, praticar jornalismo investigativo, não divulgar factoides…”, escreve Edelberto Behs, jornalista, que atuou na Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil – IECLB de 1974 a 1993, como repórter e editor do Jornal Evangélico e depois como assessor de imprensa.

 Eis o artigo.

 Até mesmo o mais qualificado profissional da psicanálise certamente terá dificuldades para decifrar a alma dos barões da imprensa brasileira e seu comportamento nos últimos 70 anos.

Sempre na defesa de interesses de uma elite econômica, mandachuva, retrógrada, mas com discursos de modernidade, de defesa da democracia e “interpretando a vontade” do povo, a grande imprensa colocou o governo Vargas contra a parede, apoiou o golpe cívico-militar de 1964, elegeu o caçador de marajás, incentivou o impedimento da presidenta Dilma Rousseff foi um sustentáculo da Lava Jato, ajudou a colocar Lula na cadeia, defendeu a candidatura de Jair Messias Bolsonaro no segundo turno e … bem depois veio o arrependimento.

Em 70 anos não aprendeu nada sobre construção de uma nação mais justa e igualitária, de inserção autônoma no cenário político internacional, de políticas públicas que conferem saúde, segurança, educação qualificada para que a população possa bem se inserir no mercado de trabalho. A grande mídia parece estar sempre atenta para que o povo, que tanto ela diz defender, fique relegada a um gandula num campo de futebol.

O Globo, em editorial no dia 2 de abril de 1964, assinalava:

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais.

E festejava depois:

– Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente das vinculações políticas simpáticas ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é de essencial: a democracia, a lei e a ordem.

– Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Quais tradições? De aplicar golpes?

O Jornal do Brasil justificava, em editorial, no dia 1º de abril:

– Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada.

E arrematava:

– …A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas.

Ou seja, não foi golpe!

A Folha de S. Paulo criticava, no dia 1º de abril, o discurso do presidente João Goulart proferido na Central do Brasil, no Rio, em 13 de março, anunciando reformas de base, seguindo um desejo “comunista”: 

– Mais forte, porém, do que esse anúncio de benefícios salariais foi a insistência nas reformas de base, a reforma que nem o presidente nem os seus assessores até agora deram conteúdo. Usou delas, como tem repetidamente feito, pura e simplesmente como aríete contra a Constituição, que ele deseja reformar a qualquer preço […] Não poderia faltar, é obvio, o condimento do ataque aos privilegiados […] todos aqueles brasileiros que lutam por situações democráticas e legais, pois estes é que são hoje os “privilegiados”, termo não à toa criado pelos filósofos comunistas que orientam as falas presidenciais […]

As Organizações Globo, ao lado de militares, golpistas e “pessoas de bem”, levou 50 anos para reconhecer que errou ao apoiar o golpe de 1964. A Folha não foi tão longe, pois, afinal, admitiu que o governo ditatorial então instalado foi apenas uma “ditabranda”. Editoriais dos grandes jornalões deixou evidente o apoio ao golpe cívico-militar. Cívico, justamente porque contou com a mão nem tão invisível do empresariado e bem tangível da imprensa.

O Correio da Manhã, do Rio, que saiu às ruas, dias 31 de março e 1º de abril, com dois editoriais impressos na capa do jornal, sob os títulos “Basta” e “Fora”, naquele texto pediu a saída do presidente João Goulart, e neste saudou a “revolução”. Dias depois não se sentia mais tão a vontade com os rumos do governo militar.

Os jornalões que em 1964 aplaudiram o golpe viram, com a introdução do Ato Institucional nº 5, em 1968, que tomaram o barco errado. O AI-5 estabelecia que a imprensa só podia divulgar a versão oficial sobre o combate ao terrorismo.

Depois veio a censura, com militares instalados em redações fazendo a leitura de notícias e reportagens, liberando sua publicação total, parcialmente, ou mandando-a para a lata do lixo. Os editores substituíam as matérias censuradas com a publicação de receitas de bolo, poemas, versos de Camões, versículos bíblicos, literatura de cordel, publicidade da própria casa… Para engrossar o caldo, em 1969 entrou em vigor a Lei de Segurança Nacional que botou em cana jornalistas que questionavam o governo.

Parecia que os barões da imprensa tinham aprendido a lição. Ledo engano. Empenharam-se para o Brasil eleger o caçador de marajás, uma lenda que não se sustentava ante a mais simples apuração do que ocorria em Alagoas, onde Fernando Collor de Mello foi governador. Depois, voltaram-se contra o seu candidato preferencial, quando ele foi guindado ao julgamento do Congresso por crimes contra a pátria.

Em 2002, não conseguiram impedir a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, mas infernizaram a vida do presidente, com questionamentos à política de cotas, à política econômica, aos investimentos para a Copa do Mundo.  O PT errou no governo, sim, erros que a mídia destacou. Mas não só: a imprensa acolheu vazamentos, acriticamente, contra Lula ex-presidente, desmandos da Lava-Jato, como o envolvimento do juiz de primeira instância Sérgio Moro na condução de ações da “República de Curitiba”, sob o comando do terrivelmente evangélico (criador de powerpoints) Deltan Dallagnol.

O Globo foi o canal preferencial dos vazamentos promovidos por Sérgio Moro, inclusive grampeando a presidência da República, sob Dilma Rousseff, e até mesmo o escritório de advocacia da defesa de Lula. A suspeição de Moro foi julgada há dias pelo Supremo Tribunal Federal, o que resultou na anulação das “provas” (inexistentes) contra o réu, acusado de ser dono de um tríplex e de receber benefícios de construtoras na reforma de um sítio em troca de negociatas na Petrobras.

“Quanto tempo o Jornal Nacional gastaria se fosse Lula e não Moro que virasse sócio de uma empresa norte-americana que trabalha com a recuperação fiscal da Odebrecht, OAS, entre outras?” – perguntou Celeste Silveira do Portal Antropofagista. Como se trata do queridinho da Globo o envolvido no escândalo da Vaza-Jato, o baronato da casa se cala, sob o argumenta de que as informações obtidas pelo The Intercept Brasil, que “vazou a Lava-Jato” tinham sido passadas por hacker. Como se a Globo não tivesse recebido de Moro e vazado inclusive conversas telefônicas de Marisa e os filhos. Então o vazamento sequer foi questionado.

A imprensa tem, muitas vezes, o péssimo papel de julgar a pessoa ou entidade acusada antes de o processo tramitar em julgado. Ela se antecipa à Justiça, como ocorreu no emblemático caso da Escola Base, de São Paulo. Os donos da escola infantil, acusados de abuso sexual de crianças, foram linchados pela imprensa, com base numa entrevista concedida pelo delegado do caso, mas sem apresentar provas. Ficou claro, depois, que não ocorreu qualquer abuso. Mas a essas alturas a escola já fora fechada e a vida dos proprietários da escola destroçada.

No campo político, para não ficar restrito ao PT, em 1998, Eduardo Jorge Caldas Pereira, ex-secretário-geral da Presidência da República no governo Fernando Henrique Cardoso, passou a sofrer o que ele denominou de “linchamento da mídia”, acusado de desviar 169 milhões de reais das obras do Tribunal Regional do Trabalho, em São Paulo. O esquema teve outros envolvidos, e Eduardo Jorge foi absolvido pela Justiça, mas não deixou barato. Moveu processo contra Veja, Folha de S. Paulo, Correio Braziliense, O Globo, Estado de Minas e Jornal do Brasil. Recebeu indenização de todos os sete.

“Fiz isso para restaurar a minha honra, obter reparação e mostrar à imprensa que ela não pode noticiar dessa maneira”, disse para Geiza Martins, do Portal Consultor Jurídico. No geral, apontou, “a cobertura da mídia é sempre superficial, preconceituosa, apressada”. De todos os veículos processados, “a IstoÉ e a Folha de S. Paulo foram os mais escandalosos, os menos verazes, os que levaram mais longe a coisa”. A absolvição do acusado não mereceu manchete, “deram noticinha, escondida”, relatou.

Mesmo com todo esse histórico, a imprensa continua sua peregrinação acusatória de acordo com sabores políticos-ideológicos, não raro sem qualquer fundamento ou sustentação legal. Como interpretar o “super castigo” aplicado às pedaladas do governo da presidenta Dilma Rousseff? O que importava, e ainda interessa, é criar um clima antipetismo, assim que para muitos brasileiros e brasileiras o ex-presidente Lula é o maior ladrão da história do país. Provas?

O jornalista Reinaldo Azevedo, que mais bateu no PT nos 13 anos de governo, colunista do programa “O É da Coisa”, desafiou Moro, juízes do TRF4, e a quem quisesse, a apresentarem as provas que constam na peça condenatória contra Lula. Até agora ninguém se pronunciou. Se você tiver provas, leve-as até ele.

Por acaso alguma ONG, organização que trabalha com estatísticas, pesquisa histórica ou até mesmo a imprensa desenvolveu um “corruptomêtro” para concluir que o PT foi o partido que mais roubou no Brasil? Brasileiros têm memória curta. Durante a construção de Brasília, quantas denúncias apareceram de superfaturamento de obras?

Já estão mais do que esquecidos os casos Banestado, anos 90, Capemi, ocorrido durante o regime que dizem por aí “quando não existia corrupção”, Montepio da Família Militar, Coroa-Brastel, Ferrovia Norte-Sul.

Mesmo assim, os barões preferiram apoiar um capitão que saiu do Exército pela porta dos fundos, e agora procuram um psicanalista para purgar o seu apoio à eleição de Jair Messias Bolsonaro. Esse político, deputado do baixo clero, que não teve um projeto apresentado em 28 anos de legislatura que tivesse repercussão nacional. Ainda assim, foi o escolhido pela “grande” imprensa para conduzir a nação.

No período da ditadura, o arrependimento apareceu depois de cinco anos de governo militar. Agora, com Bolsonaro, a “barrigada” foi sentida em dois anos de bolsonicadas. Notem o editorial da Folha de S. Paulo do dia 12 de dezembro de 2020:

– Passou de todos os limites a estupidez assassina do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia de coronavírus. É hora de deixar de lado a irresponsabilidade delinquente, de ao menos fingir capacidade e maturidade para liderar a nação de 212 milhões de habitantes num momento dramático da sua trajetória coletiva. Chega de molecagem com a vacina!

Em 2 de abril de 2021, o Estadão dizia em editorial:

– O Brasil chegou ao ponto em que é urgente deixar de dar ouvidos ao que diz o presidente da República. Jair Bolsonaro se tornou em si mesmo um ruído que desnorteia os brasileiros sobre como devem se comportar diante da pandemia de covid-19, que no momento mata mais de 3 mil pessoas por dia no País.

E mais adiante:

– Nem se deve perder tempo corrigindo as bobagens de Bolsonaro acerca do estado de sítio e do direito de ir e vir. O mais grave é a reiteração de declarações que prejudicam todo o trabalho de esclarecimento da população sobre os cuidados a serem tomados para evitar a covid-19.

Basta acompanhar por meia hora a programação de colunistas da GloboNews para ver a troca de chave das organizações Globo antes do pleito eleitoral para agora.
Jornais que preferiram Bolsonaro ao candidato do PT à presidência da República destacam em editoriais e reportagens o caos em que o Brasil está mergulhado no campo da Saúde, da Economia, do Meio Ambiente, da Educação, das Relações Exteriores. Em suas páginas pedem, não, apoiam, ou quiçá imploram, o afastamento de Bolsonaro da presidência da República.

Em todos esses casos, o arrependimento veio tarde. Pesou e cortou na própria carne. A expectativa agora é saber em quais aventuras os barões vão se enfurnar em 2022, se as sessões de psicanálise terão que ser continuadas e ampliadas, ou se vão seguir as dicas mais elementares que constam em qualquer manual de redação, tipo ouvir todos os lados da questão, deixar o julgamento para a Justiça, praticar jornalismo investigativo, não divulgar factoides

La resurrección como insurrección: el verdugo no triunfa sobre la víctima

Lo que sustenta al cristianismo, en sus distintas expresiones históricas en diferentes iglesias, no es la referencia a un gran profeta o sabio, no es la cruz impuesta injustamente a alguien que pasó por el mundo haciendo solamente el bien, ni es la sangre derramada. Es la resurrección. Pierre Teilhard de Chardin, uno de los primeros que articuló la fe cristiana con la visión evolutiva del mundo, dice que la resurrección es un “tremendous” de significación universal que va más allá de la propia fe cristiana. Representaría una revolución dentro de la evolución. En otras palabras, una anticipación del fin bueno de toda la creación y la realización de todas las virtualidades escondidas dentro del ser humano que, prisionero del espacio-tiempo, no consigue dejarlas irrumpir. Él es un ser que está todavía naciendo . Y llega un momento, dentro del proceso cosmogénico en curso, en el que se da esta oportunidad de acabar de nacer. Entonces implosiona y explosiona el homo revelatus, el ser humano totalmente revelado y realizado en su plena hominización. Es la anticipación de la esperanza radical de que no la muerte sino la vida en plenitud escribe la última página de la historia humana y universal.

Para los portadores de la fe cristina, la resurrección es la realización en la persona de Jesús de lo que él anunciaba: el Reino de Dios. Este significa una revolución absoluta de todas las relaciones, inclusive cósmicas, inaugurando lo nuevo en el mundo. Esa revolución implica la superación de la muerte y el triunfo definitivo de la vida, no de cualquier tipo de vida, sino de una vida totalmente plenificada. En fin, el “novísimo Adán” (1Cor 15,45) acaba de irrumpir dentro de la historia.

San Pablo, inesperadamente, tuvo una experiencia del Resucitado cuando iba camino de Damasco a perseguir cristianos. A la luz de esa experiencia, se burla de la muerte y exclama: “ ¿Dónde, oh muerte, está tu victoria? ¿Dónde está, oh muerte, el aguijón con el que nos atemorizabas? La muerte fue tragada por la victoria. Gracias a Nuestro Señor Jesucristo” (1Cor 15,55-57).

El cristianismo vive y sobrevive por la fe en la resurrección de Cristo y no por la creencia en la inmortalidad del alma, tema que no es cristiano sino platónico. Aquí se decide todo, hasta el punto de que Pablo en su Primera Carta a los Corintios afirma con todas las palabras: “Si Cristo no resucitó, vana es nuestra fe; somos también falsos testigos, somos los más miserables de todos los hombres”(1Cor 15,14-19).

La explosión de luz se transforma en explosión de alegría. Contra la experiencia cotidiana de la mortalidad, especialmente ahora bajo la acción letal de la Covid-119, podemos mantener la fe y la esperanza de que los que fueron arrebatados, viven resucitados. Cristo, nuestro hermano, es el primero entre los hermanos y hermanas. Nosotros participamos de su resurrección, pues lo que ocurre en su humanidad, afecta a la humanidad que está también en nosotros. Entonces podemos decir: no vivimos para morir, morimos para resucitar.

Los muertos de los cuales no pudimos despedirnos, darles nuestro último homenaje ni hacerles el velorio, son solo invisibles. Ellos, resucitados, no están ausentes sino bien presentes. Esto puede enjugar nuestras lágrimas y dar sosiego a nuestro corazón.

Por otro lado, la resurrección representa una insurrección contra la justicia de los hombres, judíos y romanos, por la cual Jesús fue condenado al suplicio de la cruz. Esa justicia establecida y legal fue rechazada. Con la resurrección de Jesús triunfó la justicia del oprimido e injusticiado, venció el derecho del pobre. Cabe recordar que quien resucitó no fue un emperador con todo su poder político y militar, no fue un sumo sacerdote en la cima de su santidad, ni un sabio con la irradiación de su sabiduría. Fue un crucificado, un ajusticiado, muerto fuera de los muros de la ciudad, lo que significaba una suprema humillación.

La resurrección define el sentido de nuestra esperanza: ¿por qué morimos si ansiamos vivir siempre? ¿Qué sentido tiene la muerte de aquellos que sucumbieron en la lucha por la justicia de los humillados y ofendidos? ¿Quién dará sentido a la sangre de los anónimos, de los campesinos, de los obreros, de los indígenas, de los negros, de las mujeres y de los niños, derramada por los poderosos en razón del único crimen de reivindicar su derecho negado? La resurrección responde a estas preguntas inevitables del corazón. Ella garantiza que el verdugo no triunfa sobre la víctima. Significa el rescate de la justicia y del derecho de los débiles, de los subyugados y deshumanizados como lo fue el Hijo de Dios cuando pasó entre nosotros. Ellos heredan la vida nueva.

¿Cómo denominar la realidad resucitada que llegó a la culminación anticipada de la evolución? Los autores del Nuevo Testamento se enredan en los términos. Para un evento nuevo, nuevo lenguaje. El más pertinente, entre otros, es el de San Pablo: “el novísimo Adán” o “cuerpo espiritual” (1Cor15,45). El primer Adán trae consigo la muerte; el novísimo, Jesús resucitado, deja atrás la muerte. La expresión “cuerpo espiritual” parece contradictoria: si es cuerpo no puede ser espíritu; si es espíritu no puede ser cuerpo. Pero Pablo inteligentemente une los dos términos: es cuerpo, realidad concreta y no fantasmagórica, pero un cuerpo con cualidades del espíritu. Es propio del espíritu estar más allá de la materia, como ya lo vio Aristóteles. Por el espíritu habitamos las estrellas más distantes y tocamos la realidad divina. El espíritu posee una dimensión transcendental y cósmica. Eso sería la resurrección. No sin razón, Pablo elabora en sus epístolas toda una cristología cósmica: el Resucitado llena el universo y nos acompaña en las tareas más cotidianas.

Finalmente, cabe destacar que la resurrección es un proceso: comenzó con Jesús y se extiende por la humanidad y por la historia. Siempre que triunfa la justicia sobre las políticas de dominación, siempre que el amor supera la indiferencia, siempre que la solidaridad salva vidas en peligro, como ahora, obligados al aislamiento social, ahí está ocurriendo la resurrección, es decir, la inauguración de aquello que tiene futuro y será perennizado para siempre.

A quien cree en la resurrección, no le es permitido vivir triste, no obstante la oscuridad de la historia, como actualmente. El Viernes Santo es un paso que culmina con la resurrección. Es más que el triunfo de la vida; es la plena realización de la vida en todas sus virtualidades.

*Leonardo Boff es teólogo y ha escrito: Nuestra resurrección en la muerte, Vozes 2012. Vida más allá de la muerte, Vozes, 26. edic. 2012; titulado en español Hablemos de la otra vida, Sal Terrae.

Traducción de Mª José Gavito Milano

El llanto de nuestras madres en plena Covid-19 y el llanto de la Madre de Dios

Son muchas las madres que lloran a sus hijos e hijas arrebatados por la Covid-19. El llanto de nuestras madres remite al llanto de María que acompañó a su hijo Jesús hasta el pie de la cruz (Jn 19,25).

Llega un soldado y perfora el costado y el corazón de Jesús. Dos conocidos suyos, cuya solidaridad superó el miedo, José de Arimatea y Nicodemo, desprenden su cuerpo de la cruz. Lo ungen y lo envuelven en vendas de lino con aromas. María recibe ahora en sus brazos el cuerpo del hijo herido y mutilado. La serenidad singular de su semblante pálido transfigura las llagas

El cuerpo estigmatizado recupera una rara hermosura. 

Mientras lo acaricia, María llora, y sollozando, dice:

Hijo mío, Hijo del alma, ¿qué te han hecho? 

Tú les anunciaste una gran liberación y ¡mira qué suerte te impusieron!

Tú curaste a tantos con tus manos ¡y cómo te traspasaron!

Hijo mío, Hijo de mi alma, ¿qué te han hecho? 

Tú restituiste la vida a tantos ¡y tantos se unieron para quitarte la vida!

Tú viviste haciendo el bien, solo el bien, ¡y mira el mal que te causaron! 

Hijo mío, Hijo de mi alma, ¿qué te han hecho? 

¿Qué más debías haberles hecho que no hiciste? 

¿No les diste el cuerpo, las túnicas y la vida? ¡Y ellos te levantaron en una cruz! 

¿Qué más debías haberles hecho que no hiciste? 

¿No les diste toda tu sangre? ¡Y ellos te perforaron el corazón

Hijo mío, Hijo de mi alma, cumpliste la voluntad del Padre que quería tu fidelidad hasta el fin: 

porque nunca te acomodaste a este mundo; porque no quisiste lo poco sino todo: el Reino de tu Padre, hecho de amor, de justicia y de fraternidad.

Descansa, Hijo mío, porque tu Padre por tu vida, por tu entrega y por tu muerte ya se apiadó y ofreció la salvación a todos. 

Así como engendró al Hijo de Dios y lo acompañó hasta la cruz (cf. Mc 15,4; Jn 19,25), María acompaña a sus hermanos y hermanas, todos nosotros, especialmente a nuestras madres ahora que está con cuerpo y alma en la gloria. Ella no es indiferente al drama de nuestras madres. Como en su Magnificat, tomó partido por los humildes contra los orgullosos, por los pobres contra los prepotentes (cf. Lc 1,51-53), y continúa suscitando mujeres valientes que se comprometen con la realización de la justicia y la superación de las discriminaciones impuestas a ellas secularmente. 

Hay una dimensión femenina y maternal en la salvación que Dios nos ofrece. Este carácter viene de María porque ella es madre de Cristo y madre de los hombres. La salvación divina es tierna como el amor materno; acogedora como el gesto de la magna mater que toma al hijito en sus brazos, lo acaricia y le da de comer (Jr 11,1-4); radical y entera como suele ser el amor de la mujer y de la madre (Is 49,15-16).

María sigue compadeciéndose de sus hermanas en la Tierra, las acompaña en su sufrimiento por las pérdidas que causa el virus letal, las reconforta con su mirada de comprensión, apoyo y empatía, como hizo con su hijo Jesús. 

Su cuerpo muerto, plantea una interrogación sin respuesta: ¿El sufrimiento injustamente infligido quién lo pagará? Dios no se desinteresa de los crímenes ni de las víctimas. “Se pedirán cuentas por la sangre de los profetas muertos desde el comienzo del mundo” (Lc 11,50) y por la sangre del profeta de los profetas que fue Jesús.

Y no solo eso, pedirá cuentas también por las dictaduras militares, como la nuestra de 1964, por las víctimas que hizo, como el periodista Vladimir Herzog en São Paulo, por las mujeres torturadas, violadas y muertas por el DOI-CODI de Río de Janeiro y por los descuartizados e incinerados de la Casa de la Muerte de Petrópolis. ¿Cómo alguien, a ejemplo de nuestro gobernante y de muchos militares, puede celebrar un crimen de lesa humanidad?

Dios exige reparación de la injusticia, que se hace mediante el cambio de la mente y del corazón (conversión). El clamor de la injusticia perversa no se desvanecerá hasta que no se haga la justicia necesaria. Siempre habrá espíritus que no se resignarán al cinismo y al pragmatismo, a la opresión y al secuestro de la libertad para mantener un orden que produce y reproduce siempre personas empobrecidas, a las que odia porque ya se han organizado para salir de la exclusión y se comprometen a cambiar este tipo de sociedad. 

Soñarán como Jesús con un mundo amoroso y justo para todos. Asumirán todos los riesgos para construirlo. Seguirán siendo condenados y crucificados en nombre de esta esperanza. Los ideales no son sepultados con sus cadáveres. Antes por el contrario, sus cuerpos lacerados por la represión y la violencia, se trasforman en sementera de nuevos seguidores: “si el grano de trigo no muere, no producirá fruto” (Jn 12,24).

La Pasión de Cristo va siendo completada por cada generación con sus compromisos y sus luchas, y tendrá sus mártires cuya sangre seguirá clamando al cielo por la llegada del Reino de amor y de justicia.

María llora sobre todos ellos, por las mujeres luchadoras, como lloró sobre Jesús. En el llanto de la madre de Dios está el llanto de todas nuestras madres que han perdido a sus seres queridos sin poder despedirse de ellos ni guardarles el luto debido. ¡Que María enjugue sus lágrimas y las consuele! 
El interrogante de todos se alza como un clamor hasta Dios: ¿Hasta cuándo, Señor, hasta cuándo? Y el Señor, que es misericordioso, mantendrá viva nuestra esperanza, transformando la pregunta en súplica: “Venga a nosotros tu reino de vida de amor y de justicia, así en la tierra como en el cielo”.

*Leonardo Boff es teólogo y ha escrito: Tiempo de transcendencia: el ser humano como proyecto infinito, Sal Terrae 2009; Cristianismo: lo mínimo de lo mínimo, Trotta 2013.

Traducción de Mª José Gavito Milano

A ressurreição como insurreição: o verdugo não triunfa sobre a vítima

O que sustenta o Cristianismo, nas suas várias expressões históricas em diferentes igrejas, não é a referência a um grande profeta ou sábio, nem é a cruz imposta injustamente a alguém que passou pelo mundo somente fazendo o bem, nem o sangue derramado. É a ressurreição. Pierre Teilhard de Chardin que, um dos primeiros que articulou a fé cristã com a visão evolucionista do mundo, diz que a ressurreição é um “tremendous” de significação universal que vai além da própria fé cristã. Representaria uma revolução dentro da evolução. Em outras palavras, uma antecipação do fim bom de toda a criação e a realização de todas as virtualidades escondidas dentro do ser humano que, prisioneiro do espaço-tempo, não as consegue deixar irromper.Ele é um ser que ainda está nascendo. Eis que chega um momento, dentro do processo cosmogênico em curso, em que se dá esta oportunidade de acabar de nascer. Então implode e explode o homo revelatus o ser humano totalmente revelado e realizado em sua plena hominização. É a antecipação da esperança radical de que não a morte mas a vida em plenitude escreve a última página da história humana e universal.

A ressurreição é, para os portadores da fé cristã, a realização na pessoa de Jesus do que ele anunciava: o Reino de Deus. Este significa uma revolução absoluta de todas as relações,inclusive cósmicas, inaugurando o novo no mundo. Essa revolução implica a superação da morte e o triunfo definitivo da vida, não de qualquer tipo de vida, mas de uma vida totalmente plenificada. Em fim, o “novíssimo Adão” (1Cor 15,45) acaba de irromper dentro da história.

São Paulo, inesperadamente, teve uma experiência do Ressuscitado, quando estava a caminho de Damasco para prender cristãos. À  luz desta experiência, zomba da morte e exclama: “Oh morte, onde está a tua vitória? Oh morte, onde está o espantalho com o qual nos amedrontavas? A morte foi tragada pela vitória. Graças a Nosso Senhor Jesus Cristo”(1Cor 15,55-57).

O Cristianismo vive e sobrevive por causa da fé da ressurreição de Cristo e não pela crença na imortalidade da alma, tema que não é cristão mas platônico.  Aqui tudo se decide, a ponto de Paulo na sua Primeira Carta aos Coríntios  afirmar com todas as palavras:”Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé; somos também falsas testemunhas, somos os mais miseráveis de todos os homens”(1Cor 15,14-19).

A explosão de luz se transforma em explosão de alegria. Contra a experiência diuturna da mortalidade, especialmente agora sob a ação letal do Covid-119, podemos manter a fé e a esperança de que os que foram ceifados, vivem ressuscitados. Cristo, nosso irmão, é o primeiro entre os irmãos e as irmãs. Nós participamos de sua ressurreição, pois o que ocorre em sua humanidade, afeta a humanidade que está também em nós. Então podemos dizer: não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar.

Nos mortos dos quais nem pudemos nos despedir, prestar-lhes a última homenagem e fazer-lhes o velório, são apenas invisíveis. Eles, ressuscitados, não são ausentes mas bem  presentes. Isso pode enxugar nossas lágrimas e dar sossego ao nosso coração.

Por outro lado, a ressurreição representa uma insurreição contra a justiça dos homens, judeus e romanos, pela qual Jesus foi condenado ao suplício da cruz. Essa justiça estabelecida e legal foi refutada. Com a ressurreição de Jesus  triunfou a justiça do oprimido e injustiçado, venceu o direito do pobre. Cabe recordar, quem ressuscitou não foi um imperador com todo o seu poder político e militar, não foi um sumo sacerdote no alto de sua santidade, nem um sábio com a irradiação de sua sabedoria. Foi um crucificado, um assassinado, morto fora dos muros da cidade, o que significava uma suprema humilhação.

A ressurreição define o sentido de nossa esperança: por que morremos se ansiamos viver sempre? Que sentido tem a morte daqueles que sucumbiram na luta pela justiça dos humilhados e ofendidos? Quem dará sentido ao sangue dos anônimos, dos camponeses, dos operários, dos indígenas, dos negros, das mulheres e das crianças, derramado pelos poderosos em razão do único crime de reivindicarem seu direito negado? A ressurreição responde a estas interrogações inarredáveis do coração.Ela garante que o algoz não triunfa sobre a vítima. Significa o resgate da justiça e do direito dos fracos, dos subjugados e desumanizados como foi o Filho de Deus quando passou entre nós. Eles herdam a vida nova.

Como denominar a realidade ressuscitada que chegou à culminância antecipada da evolução? Os autores do Novo Testamento se embaraçam nos termos. Para um evento novo, nova linguagem. A mais pertinente, entre outras, é aquele de São Paulo: “o novíssimo Adão”ou “corpo espiritual(1 Cor 15,45). O primeiro Adão traz a morte consigo; o novíssimo, Jesus ressuscitado, deixou a morte para trás. A expressão “corpo espiritual” parece contraditória: se é corpo não pode ser espírito; se é espírito não pode ser corpo. Mas Paulo inteligentemente une os dois termos: é corpo, realidade concreta e não fantasmagórica, mas um corpo com qualidades do espírito. É próprio do espírito estar para além da matéria, como já viu Aristóteles. Pelo espírito habitamos as estrelas mais distantes e tocamos a realidade divina. O espírito possui uma dimensão transcendental e cósmica. Isso seria a ressurreição. Não sem razão, Paulo elabora em suas epístolas toda uma cristologia cósmica: o Ressuscitado enche o universo e nos acompanha nas tarefas mais cotidianas.

Por fim, cabe enfatizar que a ressurreição é um processo: começou com Jesus e se expande pela humanidade e pela história. Sempre que triunfa a justiça sobre as políticas de dominação,sempre que o amor supera a indiferença, sempre que a solidariedade salva vida sob risco como agora,obrigados ao isolamento social, aí está ocorrendo a ressurreição, vale dizer, a inauguração daquilo que tem futuro e será perenizado para sempre.

A quem crê na ressurreição, não lhe é mais permitido viver triste, não obstante a obscuridade da história como atualmente. A sexta-feira santa é uma passagem que culmina da ressurreição; é, mais que o triunfo da vida; comparece como a plena realização da vida em  todas as suas virtualidades.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu: A nossa ressurreição na morte, Vozes 2012. Vida para lém da morte, Vozes, 26.edic. 2012.