Lamento de cativeiro e de libertação: dia do assassinato do negro João Alberto Freitas em Porto Alegre, no dia da consciência negra

                         Lamento de cativeiro e de libertação

Neste dia, 20 de novembro de 2020, quando celebramos o dia da consciência negra, dia de reflexão contra o racismo e de reconhecimento da dignidade da população negra no Brasil (mais da metade da população), foi covardemente assassinado, a pancadas e sufocado até à morte, o negro João Alberto Freitas, de 40 anos, por dois seguranças e um policial num Carrefour de Porto Alegre. As cenas mostram inominável brutalidade e covardia e revelam todo o racismo presente em setores da sociedade e o quanto desumandos e cruéis podemos ser.

Em homenagem a João Alberto Freitas republico um texto lançado tempos atrás mas que guarda permanente atualidade

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A Paixão de Cristo continua pelos séculos afora no corpo dos crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único de seus irmãos e irmãs que esteja ainda pendendo de alguma cruz, à semelhança dos bodhisatwas budistas (os iluminados) que param no umbral do Nirvana para retornarem ao mundo da dor –samsara – em solidariedade com quem sofre, pessoas, animais e plantas. Nesta convinção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes:

”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei? Eu te fiz sair do Egito, com maná de alimentei. Preparei-te bela terrra, tu, a cruz para o teu rei”.

Celebrando a abolição da escravatura a 13 de maio de 1888, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. A paixão de Cristo continua na paixão do povo negro. Falta a segunda abolição, da miséria e da fome. Ouvem-se ainda os ecos dos lamentos de cativeiro e de libertação, vindos das senzalas, hoje das favelas ao redor de nossas cidades. A população negra ainda nos fala em forma de lamento:

“Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuica e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras.Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o carnavalpara ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela, à realidade nua e crua do desemprego, da fome e da opressão.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a jeijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica do Brasil. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio-fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, peça, escravo. Fui a mãe-preta para teus fihos. Cultivei os campos, plantei o fumo e a cana. Fiz todos os trabalhos. Fui eu que construi a belas igrejas que todos admiram e os palácios que os donos de escravos habitavam. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como se continuasse escravo.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo:que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, sem escravos, de gente pobre mas livre, negros, mestiços e brancos. Eu transmiti apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu enviaste o capitão do moto para me caçar como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza, seja para sempre verdade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Invadiste meus terreiros, jogando sal e destruindo nossos altares. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia. A maioria dos jovens assassinados nas periferias, na idade entre 18 e 24 anos são negros, pelo fato de serem negros ou suspeitos de estarem a serviço das máfias da droga. A maioria deles são simples trabalhadores.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo:que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Quando com muito esforço e sacrifício consegui ascender um pouco na vida, ganhando um salário suado, comprando minha casinha, educando meus filhos, cantando o meu samba, torcendo pelo meu time de estimação e podendo tomar no fim de semana uma cervejinha com os amigos, tu dizes que sou um negro de alma branca diminuindo assim o valor de nossa alma de negros dignos e trabalhadores. E nos concursos em igual condição quase sempre tu decides em favor de um branco.

E quando se pensaram políticas que reparassem a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades e nas escolas técnicas assim melhorar minha vida e de minha família, a maioria dos teus grita: é contra a constituição, é uma discriminação, é uma injustiça social.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: Que te fiz eu e em que te contristei? O que fizeste com meu irmão João Alberto Freitas, covardemente assassinado a pancadas por dois seguranças e um policial num Carrefour de Porto Alegre-RS. Responde-me!”

Com muito axé e amorosidade

Leonardo Boff teólogo, filósofo e escritor

Covid-19 zwingt uns zum Nachdenken, was wirklich essenziell ist

Der renommierte deutsche Philosoph Jürgen Habermas bekräftigte in einem Interview über Covid-19: “Wir haben noch nie so viel über Unwissenheit gewusst wie jetzt.”  Die Wissenschaft ist für das Überleben und die Erklärung der Komplexität moderner Gesellschaften unverzichtbar, aber sie kann nicht arrogant sein und so tun, als könne sie, wie einige Pseudowissenschaftler postulieren, alle Probleme lösen.  Um die Wahrheit zu sagen: Was wir nicht wissen, ist unendlich größer als das, was wir wissen.  Alles Wissen ist endlich und unvollkommen.  Das wird jetzt in unserer hektischen Suche nach einem wirksamen Impfstoff gegen Covid-19 bewiesen.  Wir wissen weder, wann ein Impfstoff erhältlich sein wird, noch wann die Pandemie überstanden sein wird.

Das Virus hinterlässt uns mit einem Sonnenuntergangsgefühl am Horizont des Lebens und der Hoffnung und Gelegenheiten, das gut in der Twitter-Nachricht der Richterin und Autorin Andréa Pacha (“Das Leben ist nicht gerecht”) beschrieben wird: „Die Pandemie hat viel Chaos angerichtet.  Manches ist physisch, konkret und endgültig.  Andere Schäden sind subtil, aber verheerend.  Sie stiehlt uns den Wunsch, einfach los zu gehen, zu spielen, Pläne zu haben, auch solche, die utopisch und chimerisch sind, die nie verwirklicht werden, aber die Seele ernähren.”

Wir spüren, dass es eine tiefe kollektive Depression und Melancholie gibt, die uns sogar wütend gegen das Virus macht, über das wir so wenig wissen und gegen das wir so wenig tun können.  Wir alle fühlen uns umgeben vom Gespenst der Kontamination, des Eingesperrtseins und des Todes.

Die Realität ist, dass wir unter einer außergewöhnlichen Notlage wie dem Tsunami in Japan leben, der Atomanlagen betrifft, von denen eine weiterhin Radioaktivität aussendet und die Küsten Indiens, Thailands und sogar die Küsten Kaliforniens betrifft und an den schrecklichen Bränden des Amazonas, des Pantanal und der Wälder Kaliforniens beteiligt ist.  Mit Covid-19 stehen wir vor einer extremen Notlage, die den ganzen Planeten betrifft.  Sie ist eine Folge einer tiefen ökologischen Erosion, die durch die Unersättlichkeit des Big Business verursacht wird, das es nur abgesehen hat auf materiellen Gewinn aus der Zerstörung und Rodung der Wälder, der Ausweitung monokultureller Kulturen wie Sojabohnen oder des Viehweidelands und der exzessiven Urbanisierung der ganzen Welt.

Dieses Eindringen des Menschen in die Natur, ohne jeglichen Sinn für den Respekt vor deren intrinsischem Wert und die Haltung, diese als bloßes Produktionsmittel anzusehen und nicht als etwas Lebendiges, von dem wir ein Teil sind und nicht die Herren und Meister, leugnet in uns die Achtung der Grenzen der Nachhaltigkeit der Natur.  Es hat zur Zerstörung der Lebensräume von Tausenden von Viren in Tieren und Pflanzen geführt, die auf andere Tiere und sogar auf den Menschen übertragen wurden.

Wir müssen neue Konzepte einbeziehen: Zoonose (die Krankheit, die aus der Tierwelt kommt: Vögel, Schweine und Rinder) und Zoonosetransfer (eine Tierplage, die auf den Menschen übertragbar ist).  Ab sofort werden diese nicht nur als wissenschaftliche Begriffe in unser Vokabular eingehen.

Einer der größten Virenspezialisten, David Quammen (Montana, USA), warnt uns in seinem Video „Spillover: the Next Human Pandemic (2015)“ davor.  “Es ist unvermeidlich, dass eine große Pandemie auf uns zukommt.  Sie kann Zehntausende, Hunderttausende oder Millionen von Menschen töten, je nach den Umständen und den Formen unserer Reaktion, aber einige dieser Dinge werden geschehen.  Es wird sicherlich ein Zoonose-Ereignis geschehen.  Es wird von Tieren stammen, nicht von Menschen.  Es wird sicherlich einen Virus geben.”  Lasst uns auf diese Warnung eines berühmten Wissenschaftlers achten.

Angesichts dieser extremen Notlage, die mit dem Mangel an nationaler und internationaler Mobilität, sozialer Isolation, Distanzierung und dem Tragen von Masken verbunden ist, ist es angemessen, dass wir die grundlegendsten Fragen unseres Lebens stellen.  Was zählt am Ende am meisten?  Was ist wirklich essenziell?  Was sind die Gründe, die uns in einen so extremen Notfall gebracht haben?  Was müssen wir tun und was können wir nach der Pandemie tun?  Das sind unvermeidbare Fragen.

Wir werden dann entdecken, dass es keinen größeren Wert als das Leben und die gesamte Gemeinschaft des Lebens gibt.  Das Leben entstand vor etwa 3,8 Milliarden Jahren und die Menschheit vor etwa 8 bis 10 Millionen Jahren.  Das Leben durchlief verschiedene verheerende Momente, überlebte aber immer.  Und mit dem Leben kommen die Lebensgrundlagen, ohne die es sich nicht verteidigen kann, nämlich Wasser, Erde, Atmosphäre, Biosphäre, Klima, Arbeit und die Natur, die uns alles bietet, was wir zum Leben und Überleben brauchen.  Es gibt die menschliche Gemeinschaft, die uns aufnimmt und uns die Grundlagen der sozialen und spirituellen Ordnung bietet, die uns gesellschaftlichen Zusammenhalt gewährt.  Die Anhäufung materieller Güter, der individuelle Reichtum und der unverminderte Wettbewerb sind wertlos.  Was uns als Lebewesen und soziale Wesen rettet, ist Solidarität, Kooperation, Großzügigkeit und die Sorge füreinander und für die Umwelt.

Das sind die menschlich-spirituellen Werte im Gegensatz zu denen des materiellen Kapitals, für das Covid-19 einen Donnerschlag darstellt, der ihn in Stücke schlägt.  Wir können nicht zu dem zurückkehren, was war, um Mutter Erde und Natur nicht zu provozieren.  Wenn wir unsere Beziehungen nicht auf die Grundlagen der Achtung und Fürsorge stellen, werden wir ein weiteres Virus erhalten, vielleicht ein tödlicheres und allerletztes (The Big One), das die menschliche Spezies dezimieren könnte.

Diese Zeit der erzwungenen Abgeschiedenheit ist eine Zeit der Reflexion und der ökologischen Umkehr, eine Zeit, um zu entscheiden, welche Art von gemeinsamem Zuhause wir für die Zukunft wollen.  Wir müssen in Solidarität und Liebe zu der ganzen Schöpfung wachsen, besonders zu unseren mitmenschlichen Brüdern und Schwestern.  

Wir werden “Solidaritätsmänner und -frauen” sein, der Beginn einer neuen Ära, in der das Leben und seine Vielfalt zentral sein werden und alles andere dem untergeordnet sein wird.  Gemeinsam werden wir uns über die fröhliche Feier des Lebens freuen.


Leonardo Boff 27.10.2020

La Covid-19 cuestiona el sentido de la vida

La irrupción de la Covid-19 alcanzando a todo el planeta y matando a más de un millón de vidas sin poder ser veladas ni recibir el cariño último de sus familiares, además de infectar a otros muchos millones de personas, plantea la inquietante pregunta: ¿Cuál es el sentido de la vida? ¿Por qué todo este sufrimiento? ¿Qué nos quiere decir la naturaleza con este virus invisible que ha puesto de rodillas a todas las potencias militares, haciendo ineficaces sus armas de destrucción masiva? La Covid-19 cayó como un meteoro sobre el sistema del capital y el neoliberalismo. Sus mantras fueron destrozados. ¿Sirvió para algo el lema de Wall Street “la codicia es buena”? Nadie come computadoras, ni se alimenta de los algoritmos de la inteligencia artificial.

¿Cuáles eran los dogmas de la fe capitalista y neoliberal?: Lo esencial es el lucro, en el menor tiempo posible, la competencia feroz, la acumulación individual o corporativa, el saqueo cruel de los recursos de la naturaleza, dejando las externalidades por cuenta del estado, la indiferencia ante la tasa de iniquidad social y ambiental, la postulación de un Estado mínimo para escapar de las leyes limitantes y poder acumular más libremente.

Si hubiésemos seguido estos mantras, el exterminio de vidas humanas habría sido incalculable. Sin políticas públicas, las personas serían tragadas por un destino atroz.¿Qué nos ha salvado? Aquellos valores y actitudes ausentes en el sistema del capital y el neoliberalismo: darnos cuenta de que no somos “dioses” sino totalmente vulnerables y mortales, expuestos a lo imprevisible. Lo que cuenta no es el lucro sino la vida; no es la competencia sino la solidaridad; no es el individualismo sino la cooperación entre todos; no el asalto a los bienes y servicios de la naturaleza sino su cuidado y protección; no un estado mínimo, sino el estado suficientemente pertrechado para atender las demandas urgentes de la población. Dicho directamente: ¿qué vale más la vida o el lucro? ¿La naturaleza o su expoliación desenfrenada?

Responder a estas preguntas inaplazables es interrogarse sobre el sentido o el absurdo de nuestra vida, personal y colectiva. El aislamiento social es una especie de retiro existencial que la situación nos ha impuesto. Se crea la oportunidad de hacer estas preguntas ineludibles. Nada es fortuito en este mundo. Todo guarda una lección o un sentido secreto que debe ser revelado, por más desconcertante que sea la realidad. Lo que no podemos permitir es que este sufrimiento colectivo sea en vano. Funciona como un crisol que purifica el oro, que acrisola nuestra mente, y pone en jaque ciertos hábitos para ser revisados y otros nuevos para ser incorporados, especialmente en lo que se refiere a nuestra relación con la naturaleza y el tipo de sociedad que queremos, menos perversa y más solidaria.

Todo el mundo habla de la medicina, de la técnica, de los insumos y especialmente de la búsqueda ansiosa de una vacuna contra la Covid-19. Pocos hablan de la naturaleza. Pero es necesario considerar el contexto del brote del coronavirus. No está aislado. Vino de la naturaleza que durante siglos fue saqueada irresponsablemente por el proceso industrial del capitalismo y también del socialismo, en la falsa suposición de que la Tierra tendría recursos infinitos. Hemos deforestado despiadadamente y destruido así los hábitats de miles de virus que viven en los animales e incluso en las plantas. Al perder su “morada natural”, buscan en nosotros un sitio para sobrevivir. Así hemos conocido una amplia gama de virus como el zica, el chikungunya, el ébola, las series derivadas del SARS, como el de la Covid-19 entre otros.

Se trata de un contraataque de la naturaleza o de la Madre Tierra contra la humanidad, con el que quiere darnos una severa advertencia: “detengan la agresión despiadada, que destruye las bases físico-químicas-ecológicas que sostienen vuestra vida; de lo contrario podríamos enviarles virus mucho más letales que podrían diezmar a miles de millones de ustedes, de la especie humana, y afectar gravemente a la biosfera, ese fino manto un poco mayor  que el filo de una navaja que garantiza la continuidad de la vida”.

¿Prevalecerán estas advertencias vitales o el afán de acumular y asegurar intereses materiales? ¿Tendremos suficiente sabiduría para responder a la alternativa que el Ser que hace ser a todos los seres nos presenta?: “Te propongo la vida y la muerte, la bendición y la maldición; elige la vida para que puedas vivir con tu descendencia” (Dt 30:19).

Portadores de una fe en un Dios “apasionado amante de la vida” (Sab 11,26) apostamos todavía por un sentido de la historia y de la vida. Ellas escribirán la última página de la saga humana, construida con tanto esfuerzo en este planeta.

Esto sin embargo no debe desviar nuestra mirada de lo que está ocurriendo en el escenario mundial y específicamente en el brasilero, donde un jefe de estado negacionista no tiene como proyecto cuidar de su pueblo y de nuestra exuberante naturaleza. Con desprecio e ironía se comporta como Nerón que presenciaba como Roma ardía tocando la cítara.

A pesar de todo esto, nuestra esperanza no muere. Como afirma la Fratelli tutti del Papa Francisco: “La esperanza nos habla de una realidad enraizada en lo profundo del ser humano, independientemente de las circunstancias concretas y los condicionamientos históricos en los que vive” (Nº 55). Aquí resuena el principio esperanza, que es más que una virtud, es un principio, un motor interior que proyecta nuevos sueños y visiones, tan bien formulados por el filósofo alemán Ernst Bloch en El principio esperanza. Esta esperanza nos recuperará el sentido de vivir en este pequeño y amado planeta Tierra.

Aunque somos seres contradictorios, hechos simultáneamente de luz y de sombras, creemos que la luz triunfará. Muchos bioantropólogos y neurocientíficos nos confirman que somos por esencia seres de bondad y de cooperación. Prevalece una bondad fundamental en la vida.

El hombre común, que conforma la gran mayoría, se levanta, gasta un tiempo precioso en los autobuses, va al trabajo, a menudo duro y mal pagado, lucha por su familia, se preocupa por la educación de sus hijos, sueña con un país mejor. Sorprendentemente, es capaz de hacer gestos generosos, ayudar a un vecino más pobre que él y, en casos extremos, arriesgar su vida para salvar a una niña inocente amenazada de violación. En él está actuando el principio esperanza.En este contexto, no me resisto a citar los sentimientos de uno de nuestros más grandes escritores modernos, Erico Veríssimo. En su famoso “Contempla los lirios del campo”.Si en ese momento un habitante de Marte cayera a la tierra, se asombraría al ver que en un día tan hermoso y suave, con un sol tan dorado, la mayoría de los hombres estaban en oficinas, talleres, fábricas… Y si le preguntase a alguno de ellos: ‘Hombre, ¿por qué trabajas tan furiosamente durante todas las horas de sol?’ – escucharía esta singular respuesta: ‘Para ganarme la vida’. Y sin embargo, la vida allí se ofrecía a sí misma, en una milagrosa gratuidad. Los hombres vivían tan ofuscados por los deseos ambiciosos que ni siquiera se daban cuenta. Ni con todas las conquistas de la inteligencia habían descubierto una manera de trabajar menos y vivir más. Se agitaban en la tierra y no se conocían, no se amaban como debían. La competencia los convirtió en enemigos. Y hacía muchos siglos, habían crucificado a un profeta que se había esforzado por mostrarles que eran hermanos, sólo y siempre hermanos. (Ver Lírios do Campo, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1973. p. 292).La irrupción de la Covid-19 reveló estas virtudes, presentes en los humanos pero especialmente en los pobres y las periferias, porque se refugiaron allí, ya que la cultura del capital reina en las ciudades, con su individualismo y falta de sensibilidad ante el dolor y el sufrimiento de las grandes mayorías de la población.¿Qué se esconde detrás de estos gestos diarios de solidaridad? Se esconde el principio esperanza y la confianza de que, a pesar de todo, vale la pena vivir porque la vida, en su profundidad, es buena y fue hecha para ser llevada con coraje que produce autoestima y sentido de valor.

Hay aquí una sacralidad que no viene bajo el signo de lo religioso sino bajo la perspectiva de lo ético, del vivir correctamente y del hacer lo que debe ser hecho.El reconocido sociólogo austríaco-norteamericano Peter Berger, ya fallecido, escribió un libro brillante, relativizando la tesis de Max Weber sobre la total secularización de la vida moderna con el título: Un rumor de ángeles: la sociedad moderna y el redescubrimiento de lo sobrenatural (Voces 1973/2013). Allí describe numerosos signos (los llama “rumor de ángeles”) que muestran lo sagrado de la vida y el significado secreto que siempre tiene, a pesar de todo el caos y las contradicciones históricas.

Voy a dar, siguiendo a Peter Berger, sólo un ejemplo banal, conocido por todas las madres que cuidan a sus hijos por la noche. Uno de ellos se despierta asustado. Tiene una pesadilla, se da cuenta de la oscuridad, se siente solo y se deja llevar por el miedo. Grita llamando a su madre. Esta se levanta, toma al niño en su regazo y en un gesto primordial de magna madre le acaricia y le da besos, le dice cosas dulces y le susurra: “Hijito, no tengas miedo; mamá está aquí. Todo está bien, no pasa nada, querido”. El niño deja de sollozar. Recupera su confianza y poco después se duerme, tranquilo y reconciliado con la oscuridad.

Esta escena común esconde algo radical que se manifiesta en la pregunta: ¿no está la madre engañando al niño? El mundo no está en orden, no todo está bien. Y sin embargo estamos seguros de la madre no engaña a su hijo. Sus gestos y sus palabras revelan que, a pesar del desorden imperante, reina un orden profundo y secreto.

Así que creemos que los tiempos de la Covid-19, tan dramáticos, pasarán. Esperamos, y cómo esperamos, que por debajo y dentro de ellos se va fortaleciendo un orden escondido que irrumpirá cuando todo pase.De esta manera, la sociedad y toda la humanidad podrán caminar hacia un sentido mayor, cuyo diseño final se nos escapa. Pero siempre hemos intuido que existe y que será bueno. Él será quien escriba la última página con un final feliz. Como escribió el filósofo del Principio Esperanza, Ernst Bloch, verificaremos que el verdadero génesis no fue al principio de las cosas sino al final. Sólo entonces será verdad: “Dios vio todo lo que había hecho y le pareció muy bueno” (Gen 1:31).

*Leonardo Boff es teólogo, filósofo y escritor y ha escrito Saudade de Dios, Vozes 2019.

Traducción de MªJosé Gavito Milano

Gib alles auf, um alles zu gewinnen: die Salzpuppe

In jüngerer Zeit haben wir unsere Reflexionen fast ausschließlich Covid-19 gewidmet, in seinem Kontext, der eine ungeheure Ausbeutung der lebendigen Erde und der Natur durch den globalisierten Kapitalismus darstellt, einschließlich dessen von China.  Erde und Natur haben sich verteidigt, indem sie ein Gama von Viren (Zika, Ebola, Vogelgrippe und Schweinepest u. a.) geschickt haben und jetzt dieses, das die gesamte Menschheit angreift, mit Ausnahme anderer Lebewesen.  Der rücksichtslose Kurs der ungezügelten Akkumulation ist in eine Krise geraten, und wir mussten damit aufhören, um uns in soziale Isolation zu begeben, den Kontakt zu Gruppen zu vermeiden und unbequeme Masken zu verwenden.  Wir akzeptieren diese Einschränkungen in Solidarität miteinander und mit denen, die weltweit leiden.

Diese ernste Situation veranlasst uns, nicht nur darüber nachzudenken, was nach der Pandemie kommen kann, sondern auch über uns selbst, über die täglichen Fragen nach der weiteren Entwicklung unserer Identität und der Formgebung unseres Lebenssinns.  Es ist eine nicht enden wollende Aufgabe, auch in Zeiten sozialer Isolation.  Zwei Themen unter vielen anderen sind ständig präsent und erfordern unsere Erklärung: die Akzeptanz unserer persönlichen Grenzen und die Fähigkeit, sich selbst zu verleugnen.

Wir alle leben in einer bestehenden Vereinbarung, die ihrem Wesen nach in ihren Möglichkeiten begrenzt ist und zahlreiche Barrieren aufzwingt; berufs-, intellektuell, gesundheitsbezogen, wirtschaftlich, zeitlich u. a.  Es gibt immer eine Kluft zwischen den Wunsch und dessen Verwirklichung.  Und manchmal fühlen wir uns ohnmächtig angesichts dessen, was wir bemerkenswerterweise verändern können, wie die Anwesenheit einer Person mit den Höhen und Tiefen einer unheilbaren Krankheit.  Wir müssen uns damit abfinden, dass es solche unvermeidlichen Einschränkungen gibt. 

Das sollte uns nicht traurig machen oder uns die Möglichkeit nehmen, daran zu wachsen. Unter den Resignierten sind die kreativen Resignierten.  Statt nach außen können wir nach innen wachsen dahingehend, dass wir eine Mitte schaffen, von der aus die Dinge vereint werden können, und wir entdecken, wie wir von allem lernen können.  Die alte Weisheit bringt es treffend auf den Punkt: “Wenn jemand intensiv an eine andere Person denkt, wird diese es wahrnehmen, selbst Tausende von Kilometern entfernt.”  Wenn ihr euer inneres Selbst ändert, wird in euch eine Lichtquelle geboren, die auf andere ausstrahlt.

Die andere Aufgabe besteht in der Suche nach der Selbstverwirklichung. Im Wesentlichen ist dies die Fähigkeit, zu verzichten.  Der Zen-Buddhismus stellt uns als Test der persönlichen Reife und der inneren Freiheit die Fähigkeit zum Verzicht und zum Verlassen vor Augen.  Wenn wir genau hinsehen, gehört das Weggeben zur Logik des Lebens.  Wir verlassen den Mutterschoß und danach die Kindheit, die Jugend, die Schule, unser Vaterhaus, die Eltern und das Persönliche. 

Was bedeutet dieser langsame Ausstieg aus der Welt?  Ist es ein bloßes unabänderliches Schicksal des universellen Gesetzes der Entropie?  So viel ist unumstritten, aber bleibt da nicht noch ein existenzieller Sinn in der Suche nach dem Geist?  Wenn wir in der Tat ein endloses Projekt und eine abgrundtiefe Leere sind, die nach Fülle schreit, ist dann dieser Akt des Zurücklassens nicht das Schaffen der Voraussetzungen, damit ein Größerer kommen kann, um uns zu füllen?  Wird es das Höchste Wesen sein, eines der Liebe und Barmherzigkeit, das kommt und alles nimmt, damit wir in der Lage sind, alles gewinnen können, wenn wir uns auf der anderen Seite befinden, nachdem unser Streben schließlich vorbei ist, wie das unruhige Herz des Hl. Augustinus?

Wenn wir verlieren, gewinnen wir, und wenn wir uns selbst leeren, werden wir gefüllt.  Es heißt, dies soll  der Weg Jesu gewesen sein, der Weg Buddhas, Franz von Assisis, Gandhis, Mutter Teresas, Schwester Dulces und ich glaube auch der von Papst Franziskus, dem besten Menschen der heutigen Zeit.

Vielleicht kann eine Geschichte der alten spirituellen Meister das Gefühl des Verlustes erklären, das Reichtum hervorbringt.   

“Es gab einmal eine Puppe aus Salz.  Nach dem Durchstreifen trockener Länder entdeckte sie das Meer, das sie noch nie zuvor gesehen hatte und das sie aus diesem Grund nicht verstand. Die Puppe aus Salz fragte: ‘Wer bist du?’  Und das Meer antwortete: ‚Ich bin das Meer.‘  Die Salzpuppe fragte: “Und was ist das Meer?”, worauf das Meer antwortete: “Ich bin das Meer”.  “Ich verstehe es nicht”, sagte die Salzpuppe, “aber ich würde dich sehr gerne verstehen. Wie kann ich das tun?’  Das Meer sagte einfach: ‘Berühre mich’.

Dann berührte die Salzpuppe zaghaft das Meer mit der Fußspitze.  Sie stellte fest, dass sie begann, das Meer zu verstehen, aber bald wurde ihr bewusst, dass ihre Zehen verschwunden waren.  “Oh, Meer, schau, was mir passiert ist”, sagte sie.  Und das Meer antwortete: “Du hast etwas von dir gegeben, und ich habe dir Verständnis gegeben. Ihr müsst alles von euch geben, um mich vollkommen zu verstehen.”

Die Puppe aus Salz begann, langsam und feierlich in die Tiefen des Meeres hinabzusteigen, als ob sie das Wichtigste ihres Lebens tat.  Und je mehr sie sich auflöste, umso besser verstand sie das Meer.  Und die Puppe fragte immer wieder: ‘Was ist das Meer?’  Bis die Wellen sie vollständig bedeckten.  Jedoch war sie im letzten Augenblick, ehe sie mit dem Meer verschmolz, in der Lage zu sagen: “Ich bin.'”

Indem sie alles aufgab, gewann sie alles: ihr wahres Selbst.

Leonardo Boff
12.11.2020
Theologe, Philosoph und Ökologe
Autor u.a. von: „Sehnsucht nach dem Unendlichen“, Butzon & Bercker; 1., Edition (1. März 2011)