Em vez da manjedoura Jesus está hoje sob as marquises,sem teto nem pão

Leandro Paterniani  do Rio de Janeiro, sem se apresentar como escritor e poderá ser um muito bom, produziu este belo e comovente texto sobre o que significa para milhares e milhares, senão milhões de pessoas, a festa do Natal. O verdadeiro presépio não está nas igrejas, mas nas ruas, sob as marquises. É a atualização da manjedoura, onde foi colocado o Menino, porque não havia lugar para ele nas moradas humanas. Todos estes sem teto, sem pão e sem rumo representam o Menino que, segundo disseram os anjos, “seria alegria para todo o povo”. Vale ler este testemunho humanitário, belo e verdadeiro. LBoff

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Final de semana do Natal. As ruas estão impressionantemente cheias. Cheias de pessoas que não têm um teto, que não têm um pedaço de pão para comer, que já não têm esperanças nem sonhos. As ruas estão cheias de desencanto.

Elas também estão cheias de gente sem trabalho ou de gente em condição de sub emprego, que conta o pouco dinheiro que tem para improvisar uma tímida ceia para sua família.

As ruas não estão silentes. Elas gritam muito alto para arrancar de nós não um olhar de compaixão, mas o entendimento de nossa responsabilidade sobre tudo isso. A caridade de ocasião serve tão somente para tentar expiar nossa culpa.

Sim, porque a culpa é nossa. Cada pessoa sem abrigo, sem comida, sem rumo e sem sonhos é resultado da nossa miséria e fracasso como sociedade. É a prova viva de que mais de dois mil anos se passaram e nada aprendemos com os ensinamentos do homenageado na noite de Natal.

Só não podemos esquecer que Ele – o homenageado da “Noite Feliz” – não está nos presépios de nossas casas ou nas igrejas em que dirigimos preces e cantos em seu louvor. Ele está nas ruas, em baixo de marquises ou viadutos. Sem teto, sem pão, sem rumo.

 

 

Entre a perversa cordialidade brasileira e o caos destrutivo: um balanço de 2018

Dizem notáveis cosmólogos que tudo começou com um imenso caos, o big bang. Matéria e antimatéria se chocaram. Sobrou ínfima porção de matéria que deu origem ao atual universo. O caos foi generativo. Este ano conhecemos também grande caos em todas as instâncias. Irrompeu o lado perverso da cordialidade brasileira. Segundo Sergio Buarque de Holanda (Raizes do Brasil, 5.capitulo) “a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).

Nas eleições de 2018, o lado perverso da cordialidade ocupou a cena: muito ódio, difamações, milhões de fake news, até a facada no candidato Bolsonaro que acabou se elegendo presidente do país. Esse caos foi só destrutivo não mostrou ainda ser generativo. E deve ser para não entrarmos num beco sem saída.

Nunca em nossa histórica republicana tivemos um presidente de extrema-direita, homofóbico, misógeno, inimigo declarado de homoafetivos, quilombolas, ameaçador das reservas indígenas, promotor da venda generalizada de armas, tendo como símbolo de campanha os dedos em forma de arma.

Descendente de italianos Sem Terra, chegados ao Brasil no final do século XIX, pretende criminalizar o Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto como terroristas. Os temas sensíveis da corrupção, do anti-PT, do resgate dos valores tradicionais da família (mas Bolsonaro mesmo está já no terceiro casamento) e da luta contra o aborto, foram temas que turbinaram sua campanha. Algumas igrejas neo-pentecostais foram aliados fundamentais, máquinas de falsas notícias.

O eleito mostra-se ignorante dos principais problemas nacionais e mundiais. Tem uma leitura de caserna, fixada ainda nos tempos da ditadura militar a ponto de declarar herói um famoso torturador Brilhante Ustra. Escolheu ministros na contra-mão da história, negacionistas do aquecimento global, com ideias bizarras como são os das Relações Exteriores , o da Educação e o do Meio Ambiente. Alinhou-se subalternamente à política do presidente Trump, conflitando com aliados históricos.

Diz introduzir uma nova política que de novo não possui nada. Como diz um jovem filosofo que bem articula filosofia com política, Raphael Alvarenga:”A novidade consiste na combinação monstruosa de necropolítica, lawfare, fundamentalismo religioso e ultraliberalismo econômico”.

O neoliberalismo econômico geral no mundo, ganhou aqui uma forma ainda mais radical, pondo nossos “commons”à venda no mercado internacional como o petróleo e a privatização de outros bens públicos.

O pacto social criado pela Constituição de 1988 foi rompido, primeiro, com o discutível impeachment da presidenta Dilma Rousseff e depois com a mudança das leis trabalhistas, com a negação da universal presunção de inocência, com as arbitrariedades da PF, do MPF e não em ultimo lugar, com o comportamento confuso e pouco digno do STF, ora muito leniente, ora excessivmente severo, ora submetido ao controle militar pela presença de um general, assessor do Presidente da Casa.

Vivemos de fato num Estado de exceção, pós democrático e sem lei, como o denunciou em dois livros, com esse título, o juiz de direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Rubens R.R. Casara. Boaventura de Souza Santos, conhecido sociólogo português, afirma mais peremptoriamente:”O sistema jurídico e judicial criado para garantir a ordem jurisdicional é, nesse momento, um fator jurídico de desordem; é uma perversão perigosa….O STF é uma guerra social e institucional”.

O propósito dos que chegaram ao poder com seus aliados é destruir o PT e seu líder Lula, preso político e refém, borrar da memória popular as políticas sociais que beneficiaram milhões de pobres e permitiram a milhares de destituídos, o acesso à universidade.
Corrupção houve no PT bem como em quase todos os partidos. Um juíz de primeira instância, Sérgio Moro, perseguidor, foi treinado nos USA para aplicar a lawfare (distorcer a lei para condenar o acusado). Foi de uma parcialidade palmar, denunciada pelos juristas nacionais e internacionais mais sérios.

Mas não sejamos ingênuos: a sonegação fiscal anual de mais de 500 bilhões de reais, sete vezes maior que a corrupção política, revela o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional. Só com sua cobrança dispensar-se-ia a Reforma da Previdência. Mas a oligarquia brasileira,atrasada e anti-povo esconde o fato e a imprensa, cúmplice se cala.

Que podemos esperar? É uma incógnita. Por amor ao país e aos condenados da Terra, as grandes maiorias enganadas e iludidas, desejamos que o atual caos seja generativo e a cordialidade signifique benquerença para que a sociedade já muito injusta não seja tão malvada.

Leonardo Boff é filosofo e teólogo e escreveu Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

Roberto Malvezzi (Gogó):o Natal dos brasileiros sob uma situação cruel

Roberto Malvezzi que vive por opção no Nordeste participando dos padecimentos daquele povo é sempre certeiro no que diz. Diz mais coisas que palavras. Por isso o que diz agora sobre o Natal nas condições perversas a que estamos sendo submetidos sob o governo que como projeto exclui a tantos, especialmente, os mais vulneráveis, ganham especial valor. Se Jesus nascesse hoje o ex-capitão, eleito presidente, estaria provavelmente

do lado de Herodes e não dos reis magos e da Criança Divina que nasceu entre animais “porque não tinha lugar na hospedaria”daquela região. LBoff

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Sigamos plantando, semeando, resistindo, perseverando, afinal seja talvez o que nos resta.
Abraços.
Roberto Malvezzi (Gogó).

Seria cruel desejar feliz natal
Aos 55 milhões de brasileiros que estão na pobreza
Aos 2 milhões que voltaram à miséria
Aos 27,6 milhões de desempregados
Aos que não tem mais um médico para cuidar de sua saúde básica
Aos que foram fechadas as portas das universidades
Aos que perderam os programas de cisternas, água, luz e moradia
Aos que sofrem todo tipo de ódio, discriminação e exclusão
Aos que não ganham sequer um salário mínimo para sustentar suas famílias
Aos que estão presos injustamente

Há tempos desisti dos falsos consolos e falsas esperanças
A psicologia ensina que diante de situações desumanas
Ou nos humanizamos de vez
Ou nos demonizamos de vez

O cristianismo diz que um Menino nasceu
E que as trevas não conseguem apagar sua luz
Que os sofrimentos passam
Como passam os opressores do povo
E mesmo sendo reais os sofrimentos de agora
Também é real a plenitude da vida.

A pesar de las tribulaciones todavía celebramos Navidad

 

 

Vivimos en el mundo y en nuestro país tiempos sombríos. Hay mucha rabia y mucho odio. Sobre todo reina falta de sensibilidad hacia nuestros semejantes, especialmente hacia los niños, como el Niño Jesús, que viven en las calles y sufren abusos. A pesar de todo vivimos la humanidad de nuestro Dios que asumió nuestra condición humana tan contradictoria.

El cristianismo no anuncia la muerte de Dios, sino la humanidad, la benevolencia y el amor misericordioso de Dios. Miremos al Niño entre el buey y la mula: en él sonríe la jovialidad y la eterna juventud del mismo Dios.

Pasé por Belén de Judá y oí un susurro tierno. Era la voz de María acunando a su hijito: “Mi niño, mi Sol, ¿cómo voy a cubrirte con ropa? ¿Cómo voy a amamantarte, si eres tú quien nutres a todas las criaturas”?

Del pesebre vino también una voz angelical que me decía: “Oh criatura humana, ¿por qué tienes miedo de Dios? ¿No ves que su madre envolvió su cuerpecito frágil? Un niño no amenaza a nadie, ni condena a nadie. ¿No escuchas su suave llanto? Más que ayudar, él necesita ser ayudado y llevado en brazos”.

No dejemos que sea verdad lo que escribió el evangelista San Juan: “El vino a los suyos y los suyos no le recibieron”. Nosotros queremos estar entre quienes lo reciben como hermano y compañero de camino.

La entrada de Dios en el mundo no fue estrepitosa. Se dio al margen de la historia oficial, fuera de la ciudad, en medio de la noche oscura, en una gruta de animales. En Roma, capital del imperio, y en Jerusalén, el centro religioso del Pueblo de Israel, no se supo nada. Casi nadie se dio cuenta. Solamente aquellos que tenían un corazón sencillo, como los pastores de Belén. Estos caminaron hasta la gruta, donde tiritaba de frío el Divino Infante.

La Navidad nos ofrece la clave para descifrar algunos misterios insondables de nuestra atribulada existencia. Los seres humanos siempre se han preguntado y se preguntan: ¿por qué la fragilidad de nuestra existencia? ¿Por qué la humillación y el sufrimiento? Y Dios callaba. Pero he aquí que en Navidad nos viene una respuesta: Él se hizo frágil como nosotros. Él se humilló y sufrió como todos los humanos. Esta fue la respuesta de Dios: no con palabras sino con un gesto de identificación. Ya no estamos solos en nuestra inmensa soledad. Él está con nosotros. Su nombre es Jesús.

La Navidad nos descubre también una respuesta última al sentido del ser humano. Somos un proyecto infinito. Sólo el Infinito puede realizar nuestra plena humanidad. Y sucede que el Infinito se hace humano para que el humano realice su proyecto Infinito. El Infinito se hizo ser humano para que el ser humano se hiciese Infinito.

Para concluir nada más conmovedor que estos versos de Fernando Pessoa, el gran poeta portugués, sobre el Niño Jesús:

Él es el Niño Eterno, el Dios que faltaba.

Es tan humano que es natural.

Es lo divino que sonríe y que juega.

Por eso sé con toda seguridad

Que él es el Niño Jesús verdadero.

Es un niño tan humano que es divino.

Nos llevamos tan bien los dos,

En compañía de todo,

Que nunca pensamos el uno en el otro.

Pero vivimos los dos juntos,

Con un acuerdo íntimo,

Como la mano derecha y la izquierda.

Cuando me muera, Niño mío,

Déjame ser el niño, el más pequeño.

Tómame en tus brazos y llévame a tu casa.

Desnuda mi ser cansado y humano.

Y acuéstame en tu cama.

Cuéntame historias, si me despierto,

Para que me vuelva a dormir.

Y dame tus sueños para que juegue,

Hasta que nazca cualquier día

Que sabes cuál es.

Feliz Navidad a todos y a todas. Confiemos: hay una Estrella como la de Belén que ilumina nuestro camino por más sombrío que se presente. Si yo no sé el camino, Niño, tú lo sabes y lo sabes muy bien.

*Leonardo Boff es teólogo y ha escrito Navidad: la humanidad y la jovialidad de nuestro Dios, Vozes, 8ª edición 1976.

Traducción de Mª José Gavito Milano