Romero, patriarca da Igreja Latino-Americana

Neste domingo,14 de outubro de 2018está sendo canonizado em Roma o arcebispo de El Savador, Dom Oscar Arnulfo Romero, assasssinado enquanto erguia a hóstia consagrada.Conheci-o bem.Nunca esqueço que durante a Conferência de Puebal (1979) ele reunindo-se com teólogos que do lado de fora participavam ativamente dos trabalhos internos dos bispos, me chamou de lado e me disse:Frei Boff, vc que é teólogo, faça uma teologia da vida porque no meu país a vida não vale nada, se mata e se mata diuturnamente”, Tomei a sério seu pedido e escrevi “Etica da Vida” e outros textos dando sempre centralidade à vida para criarmos uma bio-civilização centrada na vida e na sua melhor expressão no amor. Hoje a Igreja que tomou a sério  a opção pelos pobres contra a pobreza e sempre do lado do povo oprimido ganhou sua mais alta legitimidade eclesial. Por isso o invocamos como patrono da nova Igreja na América Latina. Reproduzimos aqui um artigo de Fernando Altmeyer que nos dá os dados básicos para entender a conversão de Romero, de um bispo conservador, para um bispo profético e libertador: Lboff

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Oscar Arnulfo Romero y Galdamez, ordenado presbítero da Igreja em 4 de abril de 1942, terá uma formação teológica pré-conciliar. Sagrado bispo em 25 de abril de 1970, quatro anos após o término do Concilio Vaticano II atua como bispo auxiliar da capital San Salvador, bispo de Santiago de Maria e arcebispo de San Salvador desde 22 de fevereiro de 1977. De postura conservadora viverá sua conversão pastoral ao testemunhar o assassinato do padre jesuíta Rutílio Grande, em 12 de março de 1977, um mês após sua posse.  Acompanha como pastor fiel ao massacre de dezenas de líderes cristãos comandado pela oligarquia do país.  Exatos três anos após Rutílio, o próprio Romero será assassinado por ordem do General D´Aubuisson.  Sua morte se assemelha a de Jesus, ocorrida exatos três anos depois do martírio do primo João Batista, quando o Evangelho do Reino de Deus irrompe na Palestina.

Dom Oscar Romero irá participar ativamente da Conferência de Puebla, em companhia de outros profetas da América Latina: Paulo Evaristo Arns, Luciano Mendes de Almeida, Enrique Alvear, Luis Bambaren, Raul Silva Enriquez, Adriano Hipolito, Candido Padim, Marcus McGrath e Helder Pessoa Camara, tornando-se assim um Patriarca e profeta da Igreja na América Latina. Romero, hoje santo canonizado assumiu o Concílio e o documento de Puebla como opção vital em favor dos pobres. Sua vida de cada dia era fazer cada um dos 16 documentos conciliares serem recebidos e vividos nas bases de sua Igreja.

“Ele foi morto no altar”, disse Dom Vincenzo Paglia, (promotor de sua causa de canonização no Vaticano) e não em casa ou na rua, quando ele seria um alvo fácil. “Através dele, quiseram atacar a Igreja que decorre do Concílio Vaticano II”. Sua voz é sinal de que Deus visitou El Salvador na pessoa do santo Oscar Romero. Disse ele: “O melhor microfone de Deus é Cristo. E o melhor microfone de Cristo é a Igreja. E a Igreja são vocês, cada um de vocês”.

Fernando Altemeyer Junior

Doutor e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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PS Vale lembrar estas palavras corajosas de um pastor profético face à repressão da ditadura militar em El Salvador que durou 12 anos e vitimou mais de 70 mil pessoas:

“Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: ‘Não matarás!’. Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”

La democracia frente al abismo

Hay momentos en la vida en los que tenemos que escoger de qué lado nos situamos políticamente.

Del lado de la democracia que respeta las libertades, permite la manifestación de los ciudadanos y se entiende dentro de un Estado democrático de derecho.

O del lado de quien la niega, que exalta la dictadura militar de 1964, magnifica a sus torturadores, que, según él, no debían torturar, sino simplemente fusilar, empezando por el expresidente Fernando Henrique Cardoso, que abomina y predica la represión a los homoafectivos, que desmoraliza a los quilombolas que, según él, no sirven ni para reproducirse, que desprecia a los indígenas, que patrocina un arma en la mano de cada brasileiro, que humilla públicamente a su propia hija, fruto de una “flojera”, y sería incapaz de amar a un hijo homoafectivo.

Ese, un capitán retirado, sin experiencia de administración pública, que confiesa que no entiende nada de economía, de salud ni de educación, pues para eso están los ministros respectivos… No se da cuenta de que es misión del presidente definir las políticas públicas, marcar un rumbo para la nación y entregar las ejecuciones a ministros competentes.

Tal candidato, mayoritario en la primera vuelta de las elecciones e igualmente mostrando gran ventaja sobre su oponente para la segunda, muestra un claro corte nazifascista, sea en el lenguaje, sea en los gestos o en la brutalidad de sus expresiones.

Es una vergüenza para el país la inconsciencia de la mayoría de los partidos que, no venciendo en las elecciones, lo apoyan explícitamente o dejan a sus seguidores en libertad para escoger a su candidato. Piensan en la parte, que es el partido, y no en el todo, que es Brasil.

Esta neutralidad, en este momento histórico de gran peligro para la democracia, se revela irresponsable. El resentimiento y el odio que se han apoderado de buena parte de la sociedad, son los peores consejeros para la convivencia de una sociedad mínimamente civilizada.

No vale culpar al pueblo diciendo que es ignorante pero que, al final, fue su opción. La ignorancia y falta de conciencia son fruto de la voluntad de las viejas oligarquías y del capitalismo salvaje que se desarrolla entre nosotros. Siempre quisieron un pueblo ignorante y sin conciencia de sus derechos, para manipularlo mejor y garantizar sus privilegios. No temen a un pobre, pero tienen pavor de un pobre concientizado de su ciudadanía y que reclama sus derechos.

Aquellas, como mostró el gran historiador José Honório Rodrigues estudiando las relaciones entre las oligarquías y el pueblo, siempre conspiraron contra este, lo humillaron, le negaron derechos y jamás tuvieron un proyecto político para él.

El excapitán de cariz fascista se alinea con esta tradición. Hasta llegó copiar el lema de Hitler, Deutschland über alles, traduciendo: “Brasil por encima de todo”. En su estilo rudo, fuera del civismo democrático, promete combatir la violencia reinante con más violencia todavía, sin darse cuenta de que las primeras víctimas serán los pobres, los negros y negras, los que tienen otra opción sexual. Sólo ante la perspectiva de su victoria, sus seguidores están anticipando la violencia, llegando hasta asesinar a un famoso maestre de capoeira en Bahía y a marcar una esvástica, con navaja, en la pierna de una mujer joven en Rio Grande do Sul.

En el momento actual cuenta más que los partidos un frente amplio para defender la democracia amenazada y los derechos fundamentales negados. Vivimos tiempos de urgencia. Las diferencias deben relativizarse ante un peligro que puede amenazar el destino de nuestro país y afectar de forma negativa a los países vecinos, cuyas democracias son también de baja intensidad. El ascenso derechista en el mundo, tanto en Europa como en los Estados Unidos, saldría fortalecido y representaría un regreso a tiempos sombríos vividos en Europa bajo la bota de Hitler y de Mussolini.

Hoy sabemos que ellos irrumpieron con un discurso semejante al del candidato fascistoide: prometiendo seguridad y represión a todos los que se les oponían, muchos de ellos asesinados o enviados a las cámaras de exterminio. Unos pocos consiguieron refugiarse en el exilio, como Einstein, Freud, Brecht, Arendt y otros y otras. No queremos que esta historia se repita en nuestro país.

Por eso, hay que respetar la libertad del voto, pero que cada cual sea consciente y mida su significado para sí mismo, para sus familiares y para el futuro de nuestro país.

No podemos pasar a los ojos de los extranjeros que se preocupan enormemente con nuestras elecciones, como una nación paria que retrocede a tiempos y a políticas malévolas ante las que todos queremos repetir: “Nunca más”.

 

Leonardo Boff es teólogo, filósofo y escritor.

Traducción de Mª José Gavito Milano

“Quem odeia o irmão é um assassino”

Reina muita violência, raiva e ódio em nosso país por causa das eleições do segundo turno. O que nos escandaliza e vai contra a Constituição que afirma ser o Estado laico (não oficializa nenhuma religião nem pode ser usada partidariamente) são igrejas neo-pentecostais e algumas evangélicas, como explicitamente a Universal e seu líder que se transformaram em centros de fake news, verdadeira máquina de produção de calúnias e falsidades contra o candidato Haddad até afirmando, semelhante ao estado totalitário comunista “a criança depois de 5 anos passa pertencer não mais aos pais mas ao Estado”. Quem pode imaginar semelhante absurdo de uma pessoa que vive em harmonia com sua família? Além de mentiras e calúnias suscitam o ódio.

Aqui não vale outro argumento que é o da Bíblia que eles pelo menos reconhecem, embora traiam seus preceitos.

A grande mensagem de Jesus é o amor incondicional até para com o inimigo, pois inclusive “ama os ingratos e maus”(Lc 6,35). Quem está fora do amor, está longe de Deus e atraiçoa o legado de Jesus.

Mais explícito ainda é a primeira carta de São João:”Se alguém disser:amo a Deus’ mas odiar o irmão é mentiroso” (1João 4,20).

Num outro lugar é ainda mais peremptório:”Quem odeia o irmão é um assassino. E sabeis que nenhum assassino tem a vida eterna”( 1 João 3,15).

Pois estamos cheios de assassinos em nosso país e sabemos especialmente de onde eles vêm, embora não exclusivamente, de um candidato que é claramente homofóbico, misógeno, inimigo declarado dos LGBTI, de indígenas e quilombolas. Prega a violência contra eles, coisa que já está sendo realizada em antecipação de sua eventual vitória (que os céus nos livrem) em vários lugares do país por parte de seus seguidores, até com o assassinato do grande mestre de capoiera, em Salvador, mestre do cantor Gilberto Gil e de Caetano Veloso e a violência contra uma jovem de Porto Alegre que com um canivete lhe gravaram, na perna, a incisão da suástica nazista.

Essa atitude vai contra todo o lastro religioso cultural cristão de nosso pais. São verdadeiros inimigos da pátria, além de inimigos dos referidos acima. Na linguagem do Novo Testamento “são assassinos”.

Mas o que mais nos falta e este foi o legado do Betinho, nosso Gandhi nos trópicos: a sensibilidade.

Soube identificar a crise central da humanidade atual na linha do Papa Francisco hoje.

De sua boca ouvimos e de seu exemplo aprendemos que “a crise central não está na nova economia política da exclusão, nem na corrupção da política, nem na derrocada moral da humanidade. A crise axial reside na falta de sensibilidade dos humanos para com outros seres humanos”.

Ficamos todos, depois de séculos de racionalismo e de ditadura do projeto da tecno-ciência, com uma espécie de lobotomia que nos impede de sentir o outro como outro, que incapacita nosso coração de sentir o pulsar de outro coração e nos faz cruéis e sem piedade diante do sofrimento humano e da devastação da biosfera.

Não o logos grego nem a ratio cartesiana mas o pathos (o sentimento profundo) e o cuidado (cura em latim) que organizam as estruturas básicas da existência humana no mundo junto com os outros.

Betinho soube desentranhar essa dimensão da com-paixão, da sensibilidade, da sim-patia e da em-patia para com o destino das grandes maiorias destituídas desta humanidade em nosso país com o seu principal projeto “Ação da cidadania contra a fome, a miséria e pela vida”.

Essa é a grande lição humanitária, ética e espiritual que nos deixou como legado imorredouro. Esta lição ainda hoje fala para o profundo de cada ser humano, onde mora o mundo das excelências como o amor, a solidariedade, com-paixão e a real irmandade entre todos.

Esta lição possui, no contexto atual do Brasil, atravessado por ódios e raivas vicerais, estrema atualidade. Ela representaria a única cura verdadeiramente eficaz.

Como Betinho nos faz falta nos dias de hoje! Com imensa saudade.

Leonardo Boff é filósofo, eco-teólogo e escritor

“No Brasil se planta a árvore pela copa e não pela raiz:Frei Betto

Frei Betto além de religioso,comprometido com a libertação dos  oprimidos pela via da educação humanística e ética tipo Paulo Freire é um grande pedagogo e educador popular, pois vive transitando nesse meio.Acaba de publicar um livro Por uma educação crítica e participativa no qual resume as pautas principais de uma educação contemporânea que incorpora de forma crítica os novos meios de comunicação  e de conhecimento. Vale a pena ler esta entrevista esclarecedora contra distorções sobre gênero, sobre escola sem partido e outras. Lboff

ENTREVISTA DE FREI BETTO AO “O GLOBO” SOBRE SEU NOVO LIVRO, “POR UMA EDUCAÇÃO CRÍTICA E PARTICIPATIVA” (Anfiteatro/Rocco). Publicada no jornal carioca nesta sexta, 12 de outubro de 2018.

1.O senhor tem grande experiência em educação, tanto como teórico como junto a projetos pedagógicos populares, e em “Por uma educação crítica e participativa” o senhor aborda desafios contemporâneos da área. O senhor acredita que, além das deficiências educacionais históricas do Brasil, temos à frente problemas nunca antes enfrentados?

Frei Betto: Temos muitos problemas ainda a serem enfrentados, porque nosso sistema educacional é arcaico, burocrático, e agora agravado por essa proposta deseducativa de “Escola Sem Partido”. Uma das maiores contradições brasileiras é o investimento em cursos superiores superarem largamente o que se faz na pré-escola e no ensino fundamental. Insistimos em plantar a árvore pela copa, e não pela raiz… Os professores são mal pagos, a escola pública está sucateada e, para coroar o bolo com pimenta ardida, o governo ainda congela por 20 anos o investimento em educação. Isso explica o triste fato de, em 2017, entre 4 milhões de redações no Enem apenas 53 merecerem a nota máxima!

2.As novas tecnologias, hoje ferramentas fundamentais para a educação (inclusive a EAD), também trazem riscos de desinformação. Isso se manifestou nestas eleições, em que as chamadas “fake news” superam, em muito, o alcance dos veículos tradicionais. O senhor aborda o tema no livro, abrangendo também a força da mídia televisiva no livro. Como o senhor acredita que a tecnologia digital pode ser usada a serviço da educação?

Frei Betto: Primeiro é preciso equipar as nossas escolas de ferramentas digitais. E ensinar a lidar com elas. Nem sequer a maioria das escolas deu o passo da tradicional interpretação de textos (era literária) para o olhar crítico frente à TV, ao cinema e aos múltiplos recursos da internet (era imagética). O resultado é milhões de pessoas sujeitas à descostura das mensagens digitais, escravizadas pelas algemas virtuais do smartphone, jogando fora um tempo precioso que poderia ser investido no diálogo ou na leitura. E pensam que estão navegando quando, de fato, estão naufragando…

3.Um dos assuntos que o senhor aborda no livro é a questão da Escola sem Partido, que foi um dos temas de campanha de muitos candidatos conservadores, com o apoio de uma grande massa de eleitores. Para o senhor, esta pode ser uma das maiores ameaças à educação e a autonomia dos professores no país? Casos recentes de professores agredidos em sala de aula ou do livro “Meninos sem pátria”, que foi proibido no Santo Agostinho, já demonstram o impacto que este tipo pensamento já causou?

Frei Betto: Na educação não existe neutralidade. Ou se formam pensamento crítico, critérios de discernimento e seleção de valores preferenciais ou o aluno fica sujeito ao que “aprende” das redes digitais e da sedução publicitária. Em vez de cidadão protagonista passa a ser mero receptáculo consumista. Com o risco de ficar refém dos quatro “valores” do mercado: beleza, riqueza, fama e poder. Isso explica por que há uma farmácia em cada esquina, e não uma livraria, um cineclube ou um espaço de criação artística.

4.O senhor destaca no livro a importância de Paulo Freire, apontado como a “raiz da história do poder popular brasileiro”. Apesar de ser reconhecido mundialmente como um dos maiores educadores de todos os tempos, Paulo Freire passou a ser atacado no país por grupos que vêem seu método como uma forma de “doutrinação ideológica”. Corremos o risco de ver as escolas pararem de formar cidadãos ao se tornarem apenas repetidoras de conteúdo?

Frei Betto: Ingênuo quem pensa que a publicidade, o entretenimento, a versão elitista da história não são doutrinação ideológica. O que os que desprezam a obra de Paulo Freire – e a maioria sem jamais ter lido um livro dele – são os que insistem em encarar o mundo pela ótica ideológica dos dominadores, e não dos dominados. Assim, são “educados” na convicção de que negros são intelectualmente inferiores aos brancos; índios, seres primitivos que atrapalham o progresso; mulheres, potenciais objetos eróticos; e homossexuais, meros pervertidos. Não se constrói uma nação com tanta segregação, preconceito e discriminação.

5.O senhor relata muitas experiências bem-sucedidas em educação popular, desde as ações de alfabetização em fábricas, junto ao MST ou em conjunto com as CEBs etc. O senhor acredita que ao longo dos anos houve um afastamento das políticas educacionais junto às bases populares e hoje o país paga esta conta?

Frei Betto: Paga, e caro, pois nas avaliações internacionais o Brasil figura sempre na rabeira comparado a outros países, inclusive da América Latina. No governo Lula, à sombra do Fome Zero, implantamos um amplo sistema de educação popular – cuja história está ainda por ser pesquisada e contata – conhecida por Recid, Rede de Educação Cidadã. Ela abrigava 800 educadores populares profissionalizados e mais 1.000 voluntários, destinados a favorecer a cidadania dos beneficiários das políticas sociais. Isso já não existe, e o resultado é a dependência dos favorecidos aos subsídios do governo, e não pessoas empreendedoras em busca de sua emancipação econômica e social.

6.Outro tema muito debatido atualmente que o senhor aborda no livro é a chamada “ideologia de gênero”. Hoje, defensores do Escola sem Partido tratam qualquer conteúdo que alerte sobre a homofobia e outros preconceitos como “ameaças à família”. Como propor uma educação inclusiva e sem medo de assuntos tabus neste contexto?

Frei Betto: Nossas escolas nem sequer fazem educação sexual, tamanho o tabu. Quando muito, dão aulas de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis. Aulas nas quais não se ouvem duas palavras fundamentais: afeto e amor. Resultado: preconceito, gravidez precoce, sexualidade desprovida de sentimentos, promiscuidade etc. Negar a diversidade de gênero equivale a retornar à cosmologia de Ptolomeu e proclamar que é o sol que gira em torno da Terra… Como diria Galileu Galilei, apesar de tudo, a diversidade existe.

7.O senhor também defende uma educação em direitos humanos, que possa ajudar a assegurar os direitos fundamentais que todas as pessoas possuem. Este é outro ponto que vem sendo questionado pelos grupos conservadores, que constantemente relacionam os direitos humanos a “privilégios” ou a “defesa de bandidos”. Como fazer com que a escola volte a defender esta bandeira, que deve estar na base de qualquer sociedade justa e igualitária?

Frei Betto: Uma escola que não trata de direitos humanos, não faz da ética um tema transversal, não educa politicamente (não confundir com partidariamente), está fadada a deformar seres humanos e não a formar. Esse tipo de “educação” é que gera gente como os que, semana passada, entraram na UnB, em Brasília, e rasgaram livros de direitos humanos. Nesse ritmo, como predisse Darcy Ribeiro, vamos ter um país com mais e mais cadeias, que só poderiam ser reduzidas com mais e mais escolas. Não me estranha que, em plena campanha eleitoral, há quem proponha dar a cada cidadão uma arma, e não um lápis ou uma caneta…

8.O livro traz reflexões a partir do quadro educacional do Brasil, que no último relatório da Unesco estava na 88ª posição entre 127 países, ou em penúltimo lugar na lista de 36 nações pesquisadas pela OCDE. De que forma podemos reverter este quadro, num cenário de congelamento de recursos e de redução de investimento em áreas correlatas à educação, como cultura, ciência e tecnologia? Como podemos nos aproximar das nações de ponta se não conseguimos resolver os nossos problemas crônicos na educação?

Frei Betto: Não podemos. A menos os que ousemos promover uma revolução na educação. Perguntando, por exemplo, como o Japão, que é do tamanho do Maranhão, pobre e destroçado pela guerra na década de 1940, em poucos anos se tornou uma potência mundial. Sem educação não há solução. E todos nós somos frutos da educação que recebemos ou da deseducação que nos foi imposta.

9.Em muitos sentidos, inclusive espirituais, o livro defende que “saber educar é saber amar”. Em um momento em que uma polarização política acirra os ânimos, provocando casos de agressões e até homicídios, qual o papel da educação para eliminar a cultura do ódio que se mostra cada dia mais forte?

Frei Betto: O ódio é um veneno que você toma esperando que o outro morra. De que vale uma escola ou uma educação que ignora os temas fundamentais da vida, como amor, solidariedade, altruísmo, perda, fracasso, doença e morte?