90 anos do fundador da Teologia da Libertação:Gustavo Gutiérrez

No dia 6 de junho em Lima será celebrado em Lima no Peru, o 90 anos de Gustavo Gutiérrez, o primeiro a dar forma sistemática à Teologia da Libertação em 1971.É um descendente de indígenas, até aos 17 anos ficou em carrinho de rodas por causa de poliomelite, depois foi operado, possui uma perna bem mais curta que a outra. Vive com um pé no meios dos mais pobres e outro pé na reflexão teológica. Faz juz a uma homanagem que vem do mundo inteiro. Amigo de muitos anos, temos trabalhado junto muitas vezes. Talvez o melhor dele seja a sua profunda espiritualidade de onde nasce seu engajamento para com aqueles que morrem antes do tempo e sua fecunda teologia. Aqu vai minha pequena homenagem:Lboff

*******************************

Querido amigo y compañero en las tribulaciones y en las alegrías, Gustavo Gutiérrez.

Al llegar a tus 90 años, quiero antes de más nada, agradecer a Dios que nos ha dado tu existência y tu sevicio a los pobres, a la Iglesia y aún a la Humanidad.

Juntos, el Espíritu nos ha permitido articular el discurso pertinente de la teología con el universo de los pobres y excluídos de nuestro Continente. De este encuentro nació una espiritualidad de los ojos abertos y de las manos operosas. Hemos podido participar de los dos mundos: del conociento teológico más lúcido y de la sabedoria de los humildes de la Tierra, en los cuales hemos encontrado y seguimos encontrando el Cristo crucificado que quiere resuscitar. Fuiste tú el primero a inaugurar este kairós del pensamento teológico y de la práctica que vienen bajo el nombre Teología de la Liberación.

Lo que escribiste son joyas del espíritu que honran a la inteligência de la fe y que magnifican la eminente dignidad de los hijos y hajas de la pobreza.

Por ti la humanidad puede orgullarse por que encontró un hijo suyo que amó la vida desde las victimas y se puso al servcio l de los que menos vida tienen.

Sé, que en esta altura de la vida, tu recuerdas los dias passados pero tienes los ojos volcados hacia la eternidad.

Recibe, querido y entrañable amigo,de tu amigo y compañero en las tribulaciones y mucho más en las alegrias, nuestro abrazo fraterno y los mejores votos por tu cumpleaños,por tus 90 años de vida, con nuestras plegárias delante del Señor. Lo hago en nombre de tantos amigos y amigas tuyos y mios de Brasil que siempre te hemos acompañado y aprendido tanto de ti.

Leonardo Boff, teologus peregrinus.

Petrópolis 31 de mayo, fiesta de Corpus Christi.

A crise brasileira parte da crise global

Não se pode analisar o Brasil só a partir do Brasil. Nenhum país está fora das conexões internacionais, nem a fechada Coréia Norte, que a planetização inevitavelmente criou. Ademais nosso país é a sexta economia do mundo, coisa que desperta a cobiça das grande corporações que querem vir para cá, não para ajudar no nosso desenvolvimento com inclusão, mas para poder acumular mais e mais, dada a extenção de nosso mercado interno e da superabundância de commodities e de bens e serviços naturais, cada vez mais necessarios para sustentar o consumismo dos países opulentos.

Três nomes devem ser lembrados, pois configuraram o quadro atual da economia e da política mundial. O primeiro é sem dúvida Karl Polaniy que já em 1944 notou “A grande Transformação” que ocorria no mundo. De uma economia de mercado estávamos passando para uma sociedade de mercado. Vale dizer, tudo é comercializável, até as coisas mais sagradas. Com tudo podemos lucrar, coisa que Marx em sua Miséria da Filosofia chamou de a grande corrupção e de a venalidade geral. Até órgãos humanos, a verdade, a consciência, o saber se transformaram em meios de ganho. Tudo é feito na lógica do capital que é a concorrência e não a solidariedade, o que faz as socedades se esgarçarem em lutas ferrenhas entre as empresas.

Outros dois nomes cabem ser citados: Margareth Tachter e Ronald Reagan. Como consequência da erosão do socialismo real, entrou, vitorioso, o capitalismo agora sem peias, impostas antes pela contenção feita pelo modo de produção socialista. Agora o capitalismo pôde viver tranquilo sua lógica individualista, acumuladora e consumista. Tatscher era consequente ao afirmar que a sociedade não existe. Existem indivíduos que lutam por si contra todos. Reagan sustentou a total liberdade do mercado, a diminuição do Estado e o processo de privatização dos bens nacionais. Era o triunfo do neliberalismo. Antes com o liberalismo, para usar uma metáfora, a mesa estava posta. Os endinheirados ocupavam os primeiros lugares e se serviam à tripa forra. Os demais encontravam seu lugar em alguma canto da mesa. Mas estavam à mesa. Com o neoliberalismo a mesa está posta. Mas somente podem participar quem tem condições de pagar. Os demais disputam os lugares ao pé da mesa com os cães, comendo restos.

Esta política neoliberal implantada no mundo inteiro, deu livre curso às grandes corporações de poderem acumular o mais que podem. O lema de Wall Street era e continua sendo:greed is good (a ganância é boa). Tal vontade de acumulação fez com que um pequeno número de pessoas controlassem grande parte da riqueza mundial, gestando um mar de pobres, miseráveis e famelicos. Como a cultura do capital não conhece a compaixão nem a solidariedade e somente a competição e a supremacia do mais forte, criou-se um mundo com um nível de barbárie raramente alcançado na história.

Do meu ponto de vista, o capitalismo como modo de produção e sua ideologia política o neoliberalismo atingiram o seu fim, num duplo sentido. Lograram seu fim, vale dizer, alcançaram o seu fim-objetivo: a suprema acumulação. E o seu fim como término e desaparecimento. Não porque o queiramos, mas porque a Terra limitada em bens e serviços, grande parte não renováveis, não aguenta um projeto ilimitado rumo ao infinito do futuro. A Terra mesma tornará esse projeto impossível. Ou ele muda de modo de produção e de consumo ou será condenado a desaparecer. Como não possui um sentido de pertença e trata a natureza como mera coisa a ser explorada incontrolavelmente, seguirá um caminho sem retorno, pondo em risco o sistema-vida e a própria Casa Comum que poderá se tornar inabitável.

Ora, no transfundo teórico de nossos neoliberais brasileiros, os que deram o golpe e elaboraram “A Ponte para o Futuro” (para o fracasso) vem imbuídos, sem o mínimo de consciência e de crítica, desse sonho mau neoliberal. Querem um Brasil só para eles, ou uma provincia secundária, agregada e dependente do grande Império do Capital. Eis a nossa ruína e a nossa desgraça. Eles prolongam a dependência e a logica colonial.

Um país que mal e mal estava dando os primeiros passoa rumo a sua refundação, sobre outras bases, valores e princípios, com os olhos abertos e as mãos operosas em políticas de desenvolvimento humano com inclusão social foi desvergonhadamente abortado. Aqui reside a nossa verdadeira crise que perpassa todas as instâncias.

Mas o que deve ser tem força. Ainda assim cremos e esperamos que superaremos essa travessia dolorossísima para as grandes maiorias, em fim, para todos. Iremos ainda brilhar. Cantou o poeta em tempos sombrios como o nosso: “faz escuro mas eu canto”. Eu imitando-o digo:”em meio às incertezas, ainda sonhamos e esse sonho é bom e antecipa uma realidade benfazeja”.

Leonardo Boff é filósofo e teologo e escreveu:Brasi: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

The Brazilian crisis and the dark dimension

The over-all Brazilian crisis, that affects every sector, can be understood in different ways. The sociological, political and historic interpretations have prevailed up to now. I will try to present an interpretation derived from the C. G. Jung categories of his illuminating analytical psychology.
I have already advanced the hypothesis that the present situation is not a tragedy, no matter how perverse the consequences of establishing a ceiling on expenditures (PEC 55), that is more than a freeze are for the majority of the poor and the future of the country; it signifies the impossibility of creating a Social State and, with that, disposes of the common good, that includes everyone.
A tragedy, as the Greek tragedies show, always ends bad. I do not believe this is the case of Brazil. I believe we are in the middle of an unprecedented crisis of the foundations of our society. The crisis refines, purifies, and allows a qualitative leap towards a higher level of our historic evolution. We will be better and with a more integrated identity when we emerge this crisis.

Everyone, including those who revel in their history, among others, recognize two dimensions: the dimension of darkness, and that of light. Others speak of the demens (demented) and the sapiens (wise) or of positive and negative forces, of the order of the day and the order of the night, or of the thanatos (death) and the eros (life), or of the repressed and the enlightened. These dimensions always come together and coexists in each other.

The current crisis has revealed the darkness, and all that our society has repressed for centuries. As Jung would observe «to recognize the darkness is indispensable for any type of self realization and, because of that, it is generally met with powerful resistance» (Aion &14). The darkness is an archetype (guiding image of the collective unconscious) of our scars and wounds and of the repugnant facts we try to hide because they fill us with shame and guilt. It is «the dark side of the vital force» that touches persons and entire nations, the psychologist from Zurich observes (&19).
Thus, the scars and wounds that constitute our repressed and shameful acts, such as the genocide of the indigenous peoples throughout our history and to the present; the colonization that made Brazil less than a nation, but a great international enterprise of exportation that, to tell the truth, also continues to the present. We could never create our own autonomous project because we always accepted being dependent or because we were restrained. When such a project began to be formulated, as in the recent progressive governments, it was soon attacked, slandered and forestalled by yet another coup by the moneyed classes, descendants of La Casa Grande, a coup always hidden and disguised such as the coups of 1964 and 2016.

Slavery is our main shame, because for centuries we bought and sold millions of human beings brought forcefully from Africa, and treated as “things.” Once liberated, those human beings received no compensation, land or tools for work, or housing; they live in the favelas of our cities. Blacks and mestizos constitute the majority of our people. As Jesse Souza very well showed, the contempt and hatred directed against the slaves has been transferred to their descendants of today.
According to Darcy Ribeiro and Jose Honorio Rodrigues, the people in general, have given us the best of our culture, language and arts, but as Capistrano de Abreu well underlined it, the people were «castrated and castrated again, bled and bled again», considered useless and ignorant and therefore marginalized to the point that they would never get out.

In A Portrait of Brazil: an essay on Brazilian sadness, (Retrato de Brasil: ensayo sobre la tristeza brasilera,1928), in an exaggerated form but partly true, Paulo Prado writes about this dark aspect of our history, and concludes: «We live sad in a radiant land», Interpreters of Brazil, (Interpretes de Brasil, vol.2 p.85). This reminds me of Celso Furtado’s question that he carried to his grave without an answer: «Why are there so many poor people in such a very rich country?» We now know why: because we were always dominated by elites that never had a plan for a Brazil for everyone, only a Brazil for themselves and their wealth. How can it be possible that 6 multi-millionaires have more wealth than 100 million Brazileans?

The current crisis has caused our darkness to explode. We discovered that we are racists, prejudiced, that we are living a social injustice that cries to God, and that we have not yet been able to re-establish a different Brazil on other bases, principles and values. Hence the irruption of rage and violence. It does not come from the majority of the Brazilian poor. It is spread by the dominant elites, supported by the means of mass communication that form the Brazilian imagination with their soap operas and disinformation. To Jung «the totality that we want is not perfection, but a complete human being» (Ab-reação, análise dos sonhos e transferência & 452) that does not repress the darkness, but integrates it into a dimension that is greater than light. That is what we wish for, as a way out of the present crisis: do not repress the darkness, but include it, consciously, in our everyday life, overcoming antagonisms and exclusions, to live together in the same Brazil that Darcy Ribeiro used to say was «the most beautiful and smiling province of the Earth».

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosophe and of thr Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

 

Leonardo Boff:“Devemos manter a indignação”

02 de junho de 2018, 19h01

Em entrevista exclusiva concedida à Fórum, o teólogo Leonardo Boff falou sobre política, religião e, claro, sobre o ex-presidente Lula, seu amigo há mais de 30 anos. “Não se resigna. Mesmo preso, é um homem livre”

Foto: Mídia Ninja

Poucos episódios ligados à política nacional brasileira deste ano foram tão tristes como o dia em que o teólogo Leonardo Boff, aos seus 79 anos, foi impedido de visitar o ex-presidente Lula na superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde está preso há quase dois meses.

A imagem de Leonard Boff sentado à sombra da cabine policial, aguardando para visitar seu amigo há mais de 30 anos, rodou o mundo e ajudou a denunciar uma Justiça arbitrária e insensível.

“Negaram a minha humanidade e a do ex-presidente Lula”, disse Boff, aos prantos, na ocasião.

Semanas depois, sob o preceito das Regras de Mandela, o teólogo finamente conseguiu  visitar o seu velho amigo. “Nos abraçamos e choramos”, disse Boff.

A fatídica foto que rodou o mundo e mostra Leonardo Boff sentado à sombra da sede da PF após ser impedido de visitar Lula. Foto: Eduardo Matysiak

Nesta semana de feriado de Corpus Christi, tão representativo aos cristãos e católicos no Brasil, Fórum procurou Leonardo Boff, que é uma das maiores referências no que tange à teologia e à Teologia da Libertação para analisar o momento político sob sua visão humanista e espiritual. Ex-sacerdote franciscano, Boff falou sobre religião, política e, claro, sobre o ex-presidente Lula.

“Não se resigna. Mesmo preso, é um homem livre”, pontuou.

A entrevista começa com Leonardo Boff analisando as recentes declarações do Papa Francisco sobre golpes de Estado. Para o teólogo, não resta dúvidas: o pontífice mandou, sim, um recado direto ao Brasil.

“O Papa se interessa muito pelo Brasil e acompanha a nossa tragédia. Eu creio, sim, que o Papa Francisco pensou no Brasil. Eu mesmo entrei em contato com um jornalista, expert em Vaticano e muito próximo ao Papa, Raffaele Luise, pedindo que de alguma forma [o pontífice] desse a entender a situação escabrosa do país. Quem entende o linguajar dos Papas não tem dúvidas de que mandou um recado aos golpistas”, revelou.

Quando convidado a mandar uma mensagem àqueles que sentem-se desiludidos com a situação do Brasil, Boff não tergiversou. “Hoje devemos manter a indignação contra os malfeitos que o presidente ilegítimo e usurpador Michel Temer fez contra o povo, especialmente contra os pobres e os aposentados, e coragem para nos organizarmos para superar a situação, reelegermos Lula e dar continuidade à revolução pacífica que iniciou, mudando o perfil do Brasil face a nós mesmos e face ao mundo. Portanto, coragem”.

Confira.

Fórum – Leonardo, recentemente o Papa Francisco fez uma fala sobre como a mídia ajuda a manchar a imagem de lideranças e, assim, acontecem os golpes de estado. Muitos interpretaram essa fala como um recado ao Brasil. O que acha disso? Acredita que ele tem consciência da atual situação política brasileira?

Leonardo Boff – O Papa se interessa muito pelo Brasil e acompanha a nossa tragédia. Na época do impeachment ele mandou uma carta pessoal à Dilma. Ela não quis publicá-la por achar que era algo privado quando, no meu entender, era altamente político, pois todos admiram este Papa.

Eu creio, sim, que o Papa Francisco pensou no Brasil. Eu mesmo entrei em contato com um jornalista, expert em Vaticano e muito próximo ao Papa, Raffaele Luise, pedindo que de alguma forma [o pontífice] desse a entender a situação escabrosa do país. Quem entende o linguajar dos Papas não tem dúvidas de que mandou um recado aos golpistas.

Fórum – Como você tem avaliado, em linhas gerais, o papado de Francisco? Acredita que ocorra uma mudança, de fato, com relação aos velhos dogmas da Igreja Católica ou as declarações de Francisco fazem parte apenas de uma estratégia para “melhorar” a imagem da Igreja?

Leonardo Boff – Esse Papa não tem nada do figurino dos Papas da tradição. Ele inovou em todos os sentidos. Antes de tudo, porque veio de fora da velha cristandade europeia em franca decadência. Basta dizer que na Europa vivem apenas 25% dos católicos do mundo, enquanto na América são 62% e os restantes na África e na Ásia. Esse Papa disse e repetiu muitas vezes que respeita os dogmas. Mas isso não é importante. Mais importante é apresentar um Cristo que ama a todos, também aos homoafetivos, e o que vale é o encontro com as pessoas, levando-lhes esperança e o fato de a misericórdia de Deus não ter limites.

Portanto, podemos sempre contar com Deus, viver sem medos, pois não existe condenação eterna, como repetiu algumas vezes. O curioso é que este Papa, como nenhum antes na história dos pontífices, tem atacado diretamente o capitalismo como um sistema anti-vida e assassino dos pobres. Ele tem lado, ao lado das vítimas deste sistema inimigo da vida da natureza e insensível face ao sofrimento da maioria da humanidade. Ele vem do caldo cultural da teologia da libertação na versão argentina que é libertação do povo oprimido e da cultura silenciada. Ele introduziu este discurso no seio do próprio Vaticano e o tornou oficial.

Fórum – A Teologia da Libertação, junto aos trabalhos de base da igreja católica, ajudaram a consolidar o próprio PT e a esquerda brasileira após a redemocratização. Após o golpe e diante da conjuntura política no Brasil, aumento das desigualdades e perseguição dos movimentos sociais, acredita que a Igreja Católica possa voltar a ter um papel relevante no Brasil na construção de um novo caminho para as esquerdas e as camadas populares? Se sim, de que maneira?

Leonardo Boff – Sou da opinião que este Papa está criando uma nova genealogia de Papas que virão das partes mais numerosas e mais criativas da atual Igreja, quer dizer, do Grande Sul, do que chamávamos de Terceiro e Quarto Mundo. Ele tem consolidado um tipo de Igreja que está à altura dos problemas mundiais, especialmente a grande injustiça social mundial, a questão das ameaças que pesam sobre o planeta Terra. Ele está desocidentalizando a Igreja e também despatriarcalizando os estilos palacianos que a Igreja ainda apresenta. Ele despojou-se de tudo. Não foi viver no palácio pontifício, mas numa casa de hóspede. Ainda come com todos e diz com humor: “assim é mais difícil que me envenenem”.

Quanto à Igreja da base, vale dizer as Comunidades Eclesiais de Base, os movimentos sociais nascidos no interior dessa Igreja como o MST, o CIMI (Centro Indigenista Missionário), que cuida dos problemas indígenas, a CPT (Comissão da Pastoral da Terra), que cuida das pastorais sociais, dos afrodescendentes, das mulheres, da infância e outros, todos esses movimentos ajudaram na fundação do PT. Não é que eles entraram no PT. Eles constituíram células e grupos do partido. Portanto, ajudaram a fundar o PT.

A convicção era e continua sendo: as políticas sociais dos governos Lula-Dilma realizavam os ideais que amadureceram nas bases de justiça social e de participação popular. Em dialeto cristão se diz: essas políticas para os pobres mostram os bens do Reino de Deus que são feitos de justiça, de participação, de solidariedade e de amor efetivo, especialmente para os mais invisíveis. Lula sempre reconheceu a importância deste fato.

Fórum – Qual a sua opinião sobre a indicação do ex-presidente Lula para o Prêmio Nobel da Paz? Que características ele carrega que o fazem merecedor do prêmio?

Leonardo Boff – Eu creio e assim também o confirmou o prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, que Lula preenche todas as características para ganhar o prêmio Nobel da Paz. Principalmente pelas políticas sociais que permitiram que 36 milhões de pessoas saíssem da fome e da miséria e entrassem na sociedade organizada. E outros projetos que beneficiaram os mais vulneráveis. E, além disso, ele irrompe como uma liderança mundial única, já que vivemos num mundo sem grandes líderes que convoquem a humanidade para algo melhor do que agora temos, que é uma barbárie para as grandes maiorias do mundo. Mas por trás há sempre um jogo político, pois cada país tem os seus “heróis” que mereceriam esse título, o que duvido realmente.

O Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Perez Esquivel, e Leonardo Boff, após conseguirem, finalmente, visitar o ex-presidente Lula (Foto: Mídia Ninja)

Fórum – O senhor foi o primeiro que conseguiu autorização para visitar o ex-presidente Lula na categoria de “assistência espiritual”, que agora acontece todas as segundas-feiras. Qual a importância deste tipo de visita?

Leonardo Boff – Eu atendi a um pedido do próprio Lula, que é meu amigo já há mais de 30 anos. De tempos em tempos ele me chama junto com a minha companheira Márcia para um diálogo. Como não venho do campo político, nem sou membro do PT, ele tem muita confiança e gosta de ouvir opiniões de fora da política partidária. Eu fui junto com o portador do prêmio Nobel da Paz, o argentino Perez Esquivel. Segundo uma determinação da ONU, um portador deste título pode em qualquer país do mundo entrar nas prisões e visitar lugares de conflito. É a chamada Lei Mandela. Argumentamos junto à juíza Carolina Lebbos, que é o braço direito de Sérgio Moro, mas ela não quis nem saber. Alegou que isso não vale para o Brasil, no maior desrespeito a um portador mundialmente conhecido que é Adolfo Perez Esquivel. Tivemos que ir embora. Somente depois que se completaram 30 dias na prisão que a autoritária juíza permitiu que eu fosse visitá-lo. Começamos por aquilo que a Constituição ou a Justiça Penal prevê: que o encarcerado possa receber assistência espiritual. Não havia mais como negá-lo.

Fórum – Como o senhor se sentiu na primeira vez em que foi impedido de visitar o ex-presidente?

Leonardo Boff – Eu fiquei penalizado pela injustiça que essa proibição significa. Como religioso e teólogo fui cumprir o preceito evangélico que diz “estive preso e vieste me visitar”. A foto minha sentado à sombra da cabine policial na entrada da Polícia Federal girou o mundo. Dez minutos depois vinham mensagens de protesto de vários países da Europa e da América Latina. Muitos escreveram belos artigos sobre essa foto pois era altamente significativa.

Boff posa ao lado do fotógrafo Eduardo Matysiak, autor da imagem que rodou o mundo.

Fórum – Espiritualmente falando, como está ex-presidente Lula? Ele está esperançoso?

Leonardo Boff – Encontrei o Lula surpreendente assim como o conhecemos. Nada desfigurado. Sorridente. Nos abraçamos e nos comovemos juntos. Eu era o primeiro, afora os filhos e os advogados, que ele encontrava. Ele sente a falta de contato com o povo. Mas se consola ao ouvir às oito horas da manhã o “Bom Dia Lula” e o “Boa Noite Lula” vindos do acampamento em frente ao edifício da polícia. E ele escuta perfeitamente. Isso o consola.

O maior consolo vem de dentro, pois diz que sua consciência não o acusa de nada. Não participou de nenhum roubo, não recebeu uma única propina. Chega a dizer: “se alguém disser que eu dei cinco centavos a alguém ou recebi cinco centavos de alguém é um mentiroso. Aprendi com a minha mãe Lindu ser sempre correto e nunca pegar nada dos outros”.

Espiritualmente, isso lhe dá tranquilidade. Mas revela muita indignação pela injustiça que lhe é feita. Ele fez um desafio e pediu que eu o dissesse publicamente: “Se o Moro apresentar uma única prova sobre a propriedade a mim atribuída do triplex quero ser condenado e preso”. Até hoje não apareceu nenhuma prova. Sente-se, com razão, vítima do ódio deste juiz, instruído nos Estados Unidos a praticar o lawfare, quer dizer, distorcer as leis e sua interpretação para condenar o acusado. Ninguém pode prender seus e os nossos sonhos. Mesmo preso é um homem livre. Nunca se resigna. Disse-me claramente: “não quero cair de pé. O que quero é não cair. E não vou cair como eles desejam”.

Fórum – Que mensagem o senhor enviaria ao leitor da Fórum que está desiludido com o país e indignado com a situação do ex-presidente Lula?

Leonardo Boff – A minha mensagem vem de Santo Agostinho, um dos maiores pensadores cristãos, nascido na África e bispo de Hipona, hoje Argélia, aí pelos anos 450 da atual era. Diz ele: “devemos manter a esperança que não pode morrer nunca”. “A esperança”, dizia mais, “tem duas belas irmãs: a indignação contra as coisas erradas que vemos e a coragem para superá-las”.

Hoje devemos manter a indignação contra os malfeitos que o presidente ilegítimo e usurpador Michel Temer fez contra o povo, especialmente contra os pobres e os aposentados, e coragem para nos organizarmos para superar a situação, reelegermos Lula e dar continuidade à revolução pacífica que iniciou, mudando o perfil do Brasil face a nós mesmos e face ao mundo. Portanto, coragem, coragem. Era o que o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns de São Paulo sempre repetia aos resistentes ao regime militar e aos que sofriam a violência do Estado terrorista.

Fórum – Se Lula saísse da prisão e fosse presidente do Brasil novamente, o que o senhor lhe recomendaria repetir enquanto governante e o que o senhor lhe recomendaria evitar ou mudar?

Leonardo Boff – Eu diria duas coisas e ele concordou dizendo: “Se for novamente Presidente, primeiro vou revogar as medidas antipopulares e antinacionais que os golpistas introduziram contra a própria Constituição”. Depois, isso ele o repetiu muitas vezes, iria radicalizar as política sociais unidas à uma consciência de cidadania e de participação. Em segundo lugar, eu diria que ele deveria manter permanente contato com o povo e os movimentos sociais para equilibrar as alianças que se vê obrigado a fazer no parlamento para poder governar. Ele não quer fazer o mesmo. Quer levar mais a fundo e radicalizar o combate à injustiça social e dar mais lugar aos colocados injustamente à margem, especialmente os afrodescendentes face aos quais temos uma dívida até hoje nunca paga.

Leonardo Boff é amigo de Lula há mais de 30 anos e o acompanhou em diversos momentos, como na Caravana da Cidadania, em 1994. (Foto: Arquivo/Reprodução)

Fórum – Como Leonardo Boff, em uma visão filosófica, definiria o Brasil de hoje?

Leonardo Boff – Minha visão é mais de uma ecologia integral na linha do que diz o Papa Francisco na sua encíclica “como cuidar da Casa Comum”. Acredito que dentro de pouco tempo toda a economia deverá passar pela ecologia, vale dizer, pelos bens e serviços da natureza. Estes estão se esgotando mais e mais. A Terra entrou no vermelho, o assim chamado The Overshoot Day, o dia da ultrapassagem dos limites suportáveis para o equilíbrio da Terra. Este ano foi no dia 2 de maio. Até o final do ano iremos tirar à força da dispensa da Terra para podermos viver e sobreviver e manter, de forma irracional, o consumo das elites consumidoras.

Um projeto infinito de acumulação não pode ser suportado por um planeta finito. Ou mudamos de paradigma e de hábitos ou vamos ao encontro de um caminho sem retorno. Mas o Brasil, no contexto do mundo, tem tudo para ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro. Aqui está a maior biodiversidade. Aqui está a maior reserva de água doce do mundo, 13%. Aqui estão as maiores florestas úmidas que equilibram os climas da Terra. Aqui vive um povo inteligente, hospitaleiro que mostra, no meio do sofrimento, alegria de viver, que festeja seus carnavais e o seu futebol, com uma arte invejável, que elabora uma música apreciada e imitada pelo resto do mundo.

Como Darcy Ribeiro dizia: podemos ser a Roma tropical tardia, na província mais bela e ridente da Terra. Estimo que o futuro da humanidade e da vida poderá passar pelo Brasil. Não porque o queremos, mas porque Deus nos deu tanta riqueza, diversidade e originalidade que podemos contribuir e garantir o futuro da nossa civilização e da Casa Comum que é a Terra.