A emergência da espiritualidade natural

Leonardo Boff

Há muitos que estão fartos de bens materiais e do consumismo de nossa cultura.Como contraponto a esta situação estamos captando a emergência dos bens espirituais, da espiritualidade natural e verificamos sua premente atualidade face às muitas crises que assolam a inteira humanidade.

Em momentos assim críticos, o ser humano mergulha em seu Profundo e se coloca questões básicas: O que estamos fazendo nesse mundo? Qual é o nosso lugar no conjunto dos seres? Como agir para garantirmos um futuro que seja esperançador para todos e para nossa Casa Comum?

Essa preocupação pelo mundo espiritual não é monopólio das religiões. Ele se dá também no âmbito das buscas humanas tanto dos jovens, quanto dos intelectuais, de famosos cientistas e – para surpresa nossa -, de grandes empresários que se mostraram interessados acerca do tema,como pude constatar num encontro na Suiça.

O fato de eles mostrarem interesse acerca do mundo espiritual, vale dizer, da espiritualidade, atesta as dimensões  da crise que nos acomete. Significa que os bens materiais que eles produzem, as lógicas produtivistas e concorrenciais que praticam, o universo de valores comerciais (tudo virou mercadoria e ganha o seu preço) que inspira suas práticas não dão conta das interrogações sérias da vida humana. Há um vazio profundo, um buraco imenso dentro do seu ser. Estou convencido de que o mundo espiritual, ou a espiritualidade natural,inerente à vida, tem a capacidade de preenchê-lo.

É importante, no entanto, sermos críticos, porque há verdadeiras empresas que manejam os discursos da espiritualidade que, não raro, falam mais aos bolsos do que aos corações. Há líderes religiosos que são expressão do mercado com sua pregação do evangelho da prosperidade material e, recentemente, do domínio.Conquistam muitos fiéis de boa fé, para os interesses monetários  de  si próprios como pastores.

Entretanto, os portadores permanentes do mundo espiritual são geralmente pessoas comuns  que vivem a retidão da vida, o sentido da solidariedade e cultivam o espaço do Sagrado, seja em suas religiões e igrejas, seja no modo como pensam, agem, interpretam a vida e cuidam no meio ambiente.

O que importa, porém, é  reconhecer que mundialmente há uma demanda por valores não materiais, porque os materiais se mostram insuficientes para apaziguar a ânsia do ser humano por algo mais alto e melhor. Em toda parte encontramos pessoas, especialmente jovens, indignados com o destino previamente definido em termos de economia, quando se diz que “não há outra alternativa”(TINA=There is no Alternative). Eles se recusam a aceitar os caminhos que os poderosos definem para a humanidade trilhar. Esses jovens dizem: “Não permitiremos que nos roubem o futuro. Merecemos um destino melhor, precisamos beber de outras fontes para encontrar um novo caminho”.

Por isso, resulta importante, desde o início, introduzir uma distinção  – sem separar, mas distinguir – entre o mundo religioso e o mundo espiritual, entre a espiritualidade natural e a religião. Aliás, o Dalai Lama o fez de forma brilhante no livro Uma Ética Para o Novo Milênio (Sextante, Rio de Janeiro 2000). Permito-me citar um tópico do livro de cuja compreensão participo e faço minha.

“Julgo que religião (mundo religioso) esteja relacionada com a crença no direito à salvação pregada por qualquer tradição de fé, crença esta que tem como um de seus principais aspectos a aceitação de alguma forma de realidade metafísica ou sobrenatural, incluindo possivelmente uma ideia de paraíso ou nirvana. Associados a isso estão ensinamentos ou dogmas religiosos, rituais, orações e assim por diante”.

“Considero que espiritualidade (mundo espiritual) esteja relacionada com aquelas qualidades do espírito humano – tais como amor e compaixão, paciência e tolerância, capacidade de perdoar, contentamento, noção de responsabilidade, noção de harmonia – que trazem felicidade tanto para a própria pessoa quanto para os outros”.

“Ritual e oração, junto com as questões de nirvana e salvação, estão diretamente ligados à fé religiosa, mas essas qualidades interiores não precisam ser. Não existe portanto nenhuma razão  pela qual um indivíduo não possa desenvolvê-las, até mesmo em alto grau, sem recorrer a qualquer sistema religioso ou metafísico”(p.32-33).

Como se depreende, alguém pode ser religioso sem necessariamente ser espiritual. Bem como pode ser espiritual sem ser religioso. O ideal seria ser religioso e simultaneamente espiritual. Mas não necessariamente.

Há toda uma pesquisa atual, feita especialmente nos USA, que envolve psicólogos, educadores e a new science que tem aprofundado a espiritualidade natural, vale dizer, a espiritualidade como um dado objetivo da natureza humana. Famoso ficou o “Manual de Psicologia e de Espiritualidade” do Prof. Miller no qual reúne os principais estudos sobre a psicologia e a espiritualidade natural. Aí se enfatiza que, independente da religião, “cada criança nasce com a capacidade inata para um desenvolvimento espiritual,capacidade que deve ser entendida como uma dimensão natural, da integralidade do ser humano; ela garante um suporte importante e vital para a resiliência, provê significado e propósito para o desenvolvimento da cognição emocional, social e moral da pessoa; essa capacidade inata pode madurar tanto dentro quanto fora da religião institucional”. À base destes estudos, Steven Rockefeller, filósofo e um dos principais redatores da Carta da Terra, propõe uma “democracia espiritual”, portanto um dado originário que deveria estar presente na democracia, desde a mais tenra infância e no currículo escolar (Spiritual Democracy,N.Y. 2022).

Viver a espiritualidade natural, dado de nossa natureza humana,  com os valores referidos acima que são também os mesmos do Jesus histórico, poderão sinalizar caminhos que nos apontam para uma eventual saída feliz das muitas crises dos tempos atuais.O invisível do espírito faz parte do visível.

Leonardo Boff escreveu Saudade de Deus, Vozes 2020; com frei Betto, Mística e espiritualidade, Vozes 2010.

„Mein weißes Volk: Womit habe ich dich traurig gemacht? Antworte mir“

                             Leonardo Boff                        

Am 20. November feiern wir zum ersten Mal auf nationaler Ebene den Black Awareness Day. Aus diesem Anlass habe ich diesen Text als Hommage an dieses Datum geschrieben.

Die Passion Christi setzt sich über Jahrhunderte in den Körpern der historisch gekreuzigten Schwarzen fort. Jesus wird sich bis zum Ende der Welt quälen, solange auch nur ein einziger seiner Brüder und Schwestern noch am Kreuz hängt. In dieser Überzeugung legt die katholische Kirche in der Karfreitagsliturgie Christus diese ergreifenden Worte in den Mund:

„Was habe ich euch, meinem auserwählten Volk, angetan? Was habe ich euch angetan? Was hätte ich sonst tun können, worin habe ich euch im Stich gelassen?

„Mein Volk, mein auserwähltes Volk, wie habe ich dich traurig gemacht? Sag mir. Was hätte ich mehr für dich tun können? Was hast du vermisst? Ich habe dich aus Ägypten geführt und dich mit Manna gespeist. Ich habe ein wunderschönes Land für dich vorbereitet; Du, das Kreuz für deinen König.“

Während wir den Nationalen Tag des Schwarzen Bewusstseins feiern, stellen wir fest, dass er noch nicht in vollem Umfang angenommen wurde. Auf den Straßen und in den sozialen Medien werden viele Afrobrasilianer diskriminiert. Davon betroffen sind viele einfache Schwarze, Arbeiter, Fußballer und sogar berühmte Schauspieler und Schauspielerinnen. Wie viele junge Schwarze werden von der Polizei in den Slums unserer Städte hingerichtet? In einem Jahrzehnt, von 2012 bis 2022, waren 79 Prozent der männlichen Mordopfer schwarz. Die vom Institut Sou da Paz veröffentlichte Studie ist erschreckend: 8 von 10 Männern, die durch Schusswaffen getötet werden, sind schwarz.

Diese Zahlen zeigen uns, dass die Leidenschaft Christi in der Leidenschaft dieser afro-brasilianischen Menschen weitergeht. Die zweite Abschaffung von Armut, Hunger, Arbeitslosigkeit und Diskriminierung steht noch aus.

In Solidarität mit ihnen allen habe ich dieses kurze Gedicht verfasst, das von der katholischen Karfreitagsliturgie inspiriert ist:

„Mein weißer Bruder, meine weiße Schwester, mein Volk: Was habe ich euch angetan? Antwortet mir!

Ich habe dich mit der banzolastigen Musik und dem ansteckenden Rhythmus inspiriert. Ich habe euch beigebracht, wie man den Bumbo, die Cuíca und den Atabaque benutzt. Ich war es, der dir den Rock und die Ginga des Samba gezeigt hat. Und du hast dir genommen, was mir gehörte, hast dir einen Namen gemacht, hast mit deinen Kompositionen und Shows Geld verdient und mir nichts zurückgegeben.

Ich bin von den Hügeln herabgestiegen und habe euch eine Welt der Träume und der Geschwisterlichkeit ohne Grenzen gezeigt. Ich habe tausend bunte Kostüme gebastelt und die größte Party der Welt vorbereitet: Ich habe für euch Karneval getanzt. Und ihr habt euch gefreut und mir stehende Ovationen gegeben. Doch schon bald habt ihr mich vergessen und mich zurück in die Slums geschickt, in die nackte Realität von Arbeitslosigkeit, Hunger, Diskriminierung und Unterdrückung.

Mein weißer Bruder, meine weiße Schwester, mein Volk: Was habe ich euch angetan und warum habe ich euch gekränkt? Antwortet mir!

Ich habe Ihnen das Tagesgericht, Bohnen und Reis, serviert. Aus den Resten habe ich Feijoada, Vatapá, Efó und Acarajé gemacht: die typische Küche von Bahia. Und du lässt mich verhungern. Und ihr lasst zu, dass meine Kinder verhungern oder ihre Gehirne irreparabel geschädigt werden, so dass sie für immer infantilisiert werden.

Ich wurde gewaltsam aus meiner afrikanischen Heimat gerissen. Ich traf das Geisterschiff der Sklavenhändler, auf dem so viele starben und über Bord geworfen wurden. Als ich hier ankam, wurde ich zu einem Ding, einem „Stück“, einer Sklavin gemacht. Ich war die schwarze Mutter für eure Söhne und Töchter. Ich bestellte die Felder, pflanzte Tabak für Zigaretten und Zuckerrohr für Zucker. Ich habe alle Arbeiten erledigt. Ich habe geholfen, das meiste von dem zu bauen, was in diesem Land existiert, Denkmäler, Paläste und Kirchen aus der Kolonialzeit, in denen viele zu großen Künstlern wurden. Und ihr nennt mich faul und verhaftet mich wegen Landstreicherei. Ihr diskriminiert mich wegen meiner Hautfarbe und behandelt mich, als wäre ich noch in der Sklaverei.

Mein weißer Bruder, meine weiße Schwester, mein Volk: Was habe ich euch angetan und warum habe ich euch gekränkt? Antwortet mir!

Ich wusste mich zu wehren, es gelang mir zu fliehen und ich gründete Tausende von Quilombos: brüderliche und schwesterliche Gesellschaften ohne Sklaven, von armen, aber freien Menschen, schwarzen Männern und Frauen, Mestizen und armen Weißen. Trotz der Peitsche auf meinem Rücken vermittelte ich der brasilianischen Seele Wärme und Sanftmut. Und ihr habt mich gejagt wie ein Tier, habt meine Quilombos geschleift und verhindert bis heute, dass das Elend, das versklavt, und die Diskriminierung, die verletzt, als alltägliche und wirksame Realität fortbestehen.

Ich habe Ihnen gezeigt, was es bedeutet, ein lebendiger Tempel Gottes zu sein. Und deshalb, wie man Gott in seinem Körper voller Axé spürt und ihn mit Rhythmus, Tanz und heiligen Speisen feiert. Und ihr habt meine Religionen unterdrückt und sie als afro-brasilianische Riten oder bloße Folklore bezeichnet. Ihr habt Macumba oft zu einer Polizeiangelegenheit gemacht.

Mein weißer Bruder, meine weiße Schwester, mein Volk: Was habe ich euch angetan und warum habe ich euch gekränkt? Antwortet mir!

Wenn ich es mit viel Mühe und Aufopferung geschafft habe, im Leben ein wenig aufzusteigen, einen hart verdienten Lohn zu verdienen, mein Häuschen zu kaufen, meine Söhne und Töchter zu erziehen, meinen Samba zu singen, meine Lieblingsmannschaft anzufeuern und am Wochenende mit meinen Freunden ein Bier trinken zu können, sagt man, ich sei ein Schwarzer mit einer weißen Seele, und mindert damit den Wert unserer schwarzen, würdevollen und hart arbeitenden Seelen. Und bei Wettkämpfen unter gleichen Bedingungen werde ich fast immer zugunsten eines Weißen übergangen. Weil ich schwarz bin.

Und als eine Regierung, die sich um das Volk kümmert, öffentliche Maßnahmen ergriff, um die historische Schande wiedergutzumachen und mir das zu ermöglichen, was ihr mir immer verwehrt habt: zu studieren und einen Abschluss an Universitäten und Fachschulen zu machen und so mein Leben und das meiner Familie zu verbessern, schrien die meisten von euch: Das ist gegen die Verfassung, das ist Diskriminierung, das ist soziale Ungerechtigkeit. Aber die Justiz hat uns nun endlich Gerechtigkeit widerfahren lassen und die Türen der Universitäten und Fachhochschulen für uns geöffnet.

Mein weißer Bruder, meine weiße Schwester, mein Volk: Was habe ich euch angetan und was habe ich getan, um euch zu kränken? Antwortet mir!“

Und wir Weißen, die wir die Macht, das Wissen und die Macht haben, schweigen im Allgemeinen, schämen uns und sind niedergeschlagen. Es ist an der Zeit, auf die Klage unserer afro-nachbarlichen Brüder und Schwestern zu hören, sich mit ihnen zusammenzuschließen und gemeinsam eine integrative, pluralistische, schwarze, mestizenische, geschwisterliche und herzliche Gesellschaft aufzubauen, in der es nie wieder Menschen geben wird, die es wagen, andere Menschen zu versklaven, wie es auf dem Land und in den Städten immer noch der Fall ist.

Hoffen wir, dass wir „Nie wieder Sklaverei“ schreien können. Und wenn wir unsere Tränen abwischen, können wir auf Diskriminierung mit Liebe und Verständnis reagieren, wie es so viele Afro-Nachkommen tun. Und eines Tages, Gott allein weiß wann, werden wir alle gemeinsam, wie in der Apokalypse, ohne Rache oder Groll sagen können: „All dies ist vorbei“.

Leonardo Boff  Autor von: Terra madura:uma teologia da vida, Planeta, São Paulo 2023.

Übersetzt von Bettina Goldhartnack

Razões para o pessimismo esperançoso

Leonardo Boff

       São Francisco de Assis, “o homem sempre alegre” como foi chamado por seus biógrafos, dizia a seus confrades que não deviam considerar demasiadamente os males do mundo para não terem razões de se queixar a Deus. Atualmente o  acúmulo de males que afetam a natureza, tão amada pelo Francisco de  Assis e defendida pelo Francisco de Roma e a humanidade especialmente os milhões e milhões de pobres e  marginalizados, torna difícil seguir o ensinamento do “Sol de Assis” como o designa Dante Alignieri na Divina Comédia.

Temos o nosso momento de Jó, o inconformado, e nos colocamos diante de Deus com dolorosas indagações: onde estava Deus quando milhares de crianças inocentes  da Faixa de Gaza eram assassinadas pelas bombas de um insano Primeiro Ministro israelense, exatamente um representante do povo da Aliança? Por que se calou nesses momentos tão trágicos? Não é ele cheio de amorosidade, “o apaixonado amante da vida” como diz o livro da Sabedoria? Apesar de sofrermos com o silêncio de Deus, continuamos, como Jó, a crer nele, pois ele pode ser aquilo que nossa inteligência  limitada não alcança.

       Olhando o cenário nacional, especialmente o internacional e a sorte trágica de tantas vítimas, nos vem à mente as palavras do salmo 44:”Tu nos enviaste ao lugar dos chacais e estendeste sobre nós a sombra morte;  somos tratados como gado de corte; levanta-te, por que dormes, Senhor? venha em nosso socorro e resgata-nos por tua misericórdia (44, 20-27).

       Diante de tais tragédias irrompe em nós a iracúndia sagrada dos profetas. Por que os chefes de Estado de países cristãos europeus, por que um Presidente católico como o dos EUA apoiam e continuam a apoiar essa guerra de extermínio que se transformou num genocídio? Sentimo-nos impotentes face à  esta guerra com relações totalmente desproporcionais, e com outros lugares de guerra como na Ucrânia e de genocídio como no Sudão.

Se tomarmos em conta ainda o alarme ecológico, o crescente aquecimento global, a devastação impiedosa da natureza e a degradação ética e moral da maioria das sociedades mundiais, somos tomados por desalento. Tornamo-nos pessimistas, não sem razões, mas porque a realidade é  péssima, na expressão do escritor  José Saramago.

Como enfrentar esse pessimismo objetivo? Vejo entre outros, dois caminhos estando ainda dentro do sistema imperante: aproveitar todas as legislações ambientais conseguidas pelas lutas sociais e ecológicas e consignadas em lei.Cobrar do estado e  de todas as instituições a sua observância.Elas são sempre referências oficiais pelas quais podemos pressionar aqueles que as violam.

Em segundo lugar, buscar sempre utopias mínimas e viáveis, quer dizer, melhoras dentro do sistema. Nenhum é de tal forma cerrado que não apresente brechas pelas quais, como cunhas, podemos apresentar melhorias como o salário acima da inflação, a destinação dos produtos da agricultura familiar e da agro-ecológica para merenda escolar, o acesso de estudantes de baixa renda e de afrodescendentes ao ensino superior,a disponibilidade da mídias virtuais às escolas e aos pobres, entre tantas.

Tais medidas, ainda dentro do sistema iníquo podem fazer suportar o pessimismo e permitir pelo menos uma resteazinha de esperança.

Agora vamos ao “esperançoso” O que nos dá ainda esperança é o “princípio esperança”aquele impulso interior, própria à natureza humana, que nos faz  projetar um paradigma alternativo ao atual sistema e acreditar nas possibilidade presentes em nós. Somos um projeto infinito, um ser de virtualidades sem limites, nem o céu é limite porque também o desejamos.Molhar nossas raízes nessa fonte inexaurível, nos confere esperança. Por isso rejeitamos o mantra do sistema imperante “não há outra alternativa”(There is no Alternative:Tina). Respondemos:”há novas alternativas”, há um paradigma alternativo,capaz de um outro mundo.

A  experiência mundial tem mostrada que trabalhando o território, o que se chama de bioregionalismo, pode-se criar sociedades viáveis e sustentáveis.O grande sistema mundializado não possui sustentabilidade, pois seguindo sua lógica de acumulação ilimitada, nos conduz a um precipício coletivo. Assume-se a região, não aquela artificialmente circunscrita pelos municípios, mas aquela desenhada pela própria natureza. Na região estão os rios, as florestas, as montanhas,as terras agricultáveis, a fauna e a flora, as populações que aí habitam com sua história, sua cultura, suas tradições,suas figuras notáveis. Nesse espaço pode-se criar sociedades integradas,democracias participativas,um desenvolvimento regional com pequenas e médias empresas que produzem em conformidade com os ritmos da natureza, primeiro para a subsistência e só depois para o mercado, uma verdadeira justiça social e ecológica. Pode-se imaginar que vastas regiões, quem sabe, o planeta inteiro como um imenso tapete de bio-regiões autônomas e,ao mesmo tempo, relacionadas com as outras. Isso está contido dentro das possibilidades humanas e seu efeito é fazer com que o “pessimismo” seja “esperançoso”.

Por fim, manter vivo o conhecimento de que o processo evolucionário da Terra e do universo possui uma seta do tempo que aponta para frente,superando crises sistêmicas. Ele não é linear. O caos não é apenas destrutivo mas também generativo, pois dentro dele está maturando uma nova ordem que forceja para irromper.Ela é objetiva e também se reverbera em nossa consciência, na media em que mais e mais pessoas se dão conta de que temos que inaugurar um caminho novo. Temos duas pernas: uma dentro do sistema buscando melhorias e outra no novo por construir.

Desta forma podemos ser “pessimistas” face à realidade atual que é péssima mas “esperançosos” porque  como disse certa vez Keynes:“nunca é o inevitável o que acontece; é sempre o imprevisível”, Nesse imprevisível esperamos. Somos desafiados a corajosamente rasgar tais caminhos e destarte viver uma esperança imprevisível e dar as boas razões para o pessimismo esperançoso.

Leonardo Boff escreveu O doloros parto da Mãe Terra, Vozes 2022; Habitar a Terra: a fratenidade possivel, Vozes 2023.

A Terceira Guerra Mundial: como ficaria o Brasil

26/11/2024  em Site: A Terra é Redonda: Ruben Bauer Naveira

Vivemos tempos perigosos que podem ameaçar o futuro de nossa vida sobre o planeta. Publico este texto pois é esclarecedor sobre o que eventualmente pode ocorrer. Oxalá sejamos poupados desta tragédia. Apertem o botão

              Por RUBEN BAUER NAVEIRA*

A Rússia irá retaliar o uso de mísseis sofisticados da OTAN contra seu território, e os americanos não têm dúvidas quanto a isso.

Recentemente o site A Terra é Redonda, publicou o meu artigo em que delineio várias possíveis trajetórias para o conflito (há muito tempo) em curso entre Estados Unidos e Rússia.

No dia de ontem, segunda-feira 25, a Ucrânia atacou (mais uma vez) a retaguarda russa com mísseis ATACMS de fabricação americana, atingindo o aeroporto militar de Khalino na cidade de Kursk. Fontes ucranianas dizem que o ataque foi bem sucedido (teria sido destruído um sistema de defesa antiaérea S-400 dos russos, um alvo de elevado valor). Já as fontes russas dizem não ter havido danos significativos. Ambas, porém, reconhecem que o ataque aconteceu.

Não apenas sistemas sofisticados como o ATACMS são operados (programados) por militares americanos atuando clandestinamente na Ucrânia, como a identificação, a seleção e o mapeamento das coordenadas espaciais dos possíveis alvos são levados a cabo a partir de ISR (sigla para Intelligence, Surveillance and Reconnaissance) as quais somente têm como ser providas pelos Estados Unidos, especialmente a partir das imagens esquadrinhadas pela sua onipresente malha de satélites.

Também no dia de ontem, a Casa Branca pela primeira vez assumiu oficialmente que a Ucrânia está autorizada a utilizar mísseis ATACMS para ataques a território da Rússia, com a ressalva de que esta autorização vale por enquanto apenas para a província (oblast) de Kursk – como se isso fosse servir de atenuante perante os russos.

Vladimir Putin havia deixado bem claro em seu discurso na quinta-feira, 21, que, se esse tipo de ataque voltasse a ocorrer, instalações militares dos países ocidentais envolvidos (no caso, os Estados Unidos) seriam alvo de retaliação russa.

Ainda que Vladimir Putin pudesse estar em seu íntimo determinado a levar para casa todo e qualquer desaforo até raiar o dia 20 de janeiro a partir de quando passará a se entender com Donald Trump, os americanos não estão dispostos a lhe deixar nenhuma margem de manobra nesse sentido. Naquele meu texto meu publicado anteontem, eu estimei em cinco por cento as possibilidades de algo assim ocorrer. Hoje, porém, já estou achando cinco por cento muito.

Em suma, a Terceira Guerra Mundial começou.

A retaliação russa virá – e os americanos não têm dúvidas quanto a isso. Assim, eles já estão preparados para o “pós-retaliação”, ou seja, para a escalada militar contra os russos. A Rússia, igualmente, também está preparada para esta escalada.

O problema com a escalada é que ela rapidamente conflui para uma guerra nuclear – a menos que, no decorrer do processo, um dos lados consiga “se impor” sobre o outro, manifestando tamanha superioridade militar que leve o outro lado a recuar (na prática, a se render). Essa capacidade de imposição é denominada no jargão militar de “escalation dominance” (“domínio da escalada”). Naturalmente, nem americanos nem russos percebem um no outro tal capacidade, do contrário não cometeriam o desatino de desafiar o oponente.

Contudo, analistas militares como Andrei Martyanov advogam que a Rússia possuiria sim essa capacidade de dominar a escalada – tomara que ele tenha razão, do contrário o conflito culminará em guerra nuclear.

No meu texto de anteontem, tomei por base as palavras de Vladimir Putin em seu discurso do dia 21 para prever que a Rússia em algum ponto da escalada jogará uma bomba nuclear em alguma cidade ucraniana, dando, no entanto, aviso prévio de modo a propiciar a fuga do máximo possível de civis. O propósito seria intimidar os americanos e levá-los a interromper a escalada, na premissa de que eles iriam recear que outras bombas nucleares viessem a exterminar cidadãos americanos, bem como de que, pela óptica dos americanos, os ucranianos não passariam mesmo de bucha de canhão descartável.

Ainda que algo perturbador assim possa fazer sentido (e possa vir a surtir o efeito esperado), isso não seria domínio da escalada (porque os americanos também são capazes de jogar bombas nucleares sobre cidades), seria no máximo uma tentativa de estancar a escalada antes que as coisas fiquem realmente muito feias.

Enfim, a todo mundo no mundo (inclusive aos americanos e russos), restará prender a respiração enquanto acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos.

A respeito do timing para a retaliação russa ao ataque ucraniano/americano de ontem: considero improvável que essa retaliação venha de imediato (tipo hoje, ou amanhã). Ao contrário dos americanos, os russos são mais cerebrais e menos impulsivos. O que está em jogo é o destino do país (Rússia), e a “dosagem” da resposta (nem tão fraca que estimule os americanos a prosseguir escalando, nem tão forte que os obrigue a partir para um tudo-ou-nada) necessita ser muitíssimo bem ponderada, calibrada e planejada.

E se, no final das contas, vier mesmo a guerra nuclear? O mundo vai acabar? Não, o mundo não vai acabar. O que vai acabar com toda certeza é este mundo ao qual estivemos acostumados desde o dia que nascemos. E então precisaremos inventar um novo mundo, e um novo modo de vivermos nele as nossas vidas. Partilhei as minhas reflexões a esse respeito no texto “O Pós-Guerra Nuclear no Brasil”, que lhe convido a acessar.

*Ruben Bauer Naveira é ativista político e pacifista. Autor do livro Uma Nova Utopia para o Brasil: Três guias para sairmos do caos (disponível em http://www.brasilutopia.com.br/).