A herança de exclusão na história do Brasil

O processo de colonização de ontem e de recolonização atual, imposta pelos países centrais, está tendo o seguinte efeito: a produção, a consolidação e o aprofundamento de nossa dependência e a fragilidade de nossa democracia, sempre ameaçada por algum golpe das elites endinheiradas, quando se dão conta da ascensão das classes populares vistas como ameaça aos altos níveis de sua alta acumulação. Assim foi com o golpe de 2017 atrás do qual estavam e estão os donos do dinheiro.

Há que reconhecer que continuamos periferia de países centrais que desde o século XVI nos mantém a eles atrelados. O Brasil não se sustenta, autonomamente, de pé. Ele jaz, injustamente, “deitado eternamente em berço esplêndido”. A maioria da população é composta de sobreviventes de uma grande tribulação histórica de submetimento e de marginalização.

A Casa grande e a Senzala constituem os gonzos teóricos articuladores de todo o edifício social. A maioria dos moradores da Senzala, entretanto, ainda não descobriu que a opulência da Casa Grande foi construída, com seu trabalho super-explorado, com seu sangue e com suas vidas absolutamente desgastadas.

Nunca tivemos uma Bastilha que derrubasse os donos seculares do poder e do privilégio e permitisse a emergência de um outro sujeito de poder, capaz de moldar a sociedade brasileira de forma que todos pudessem caber nela. As classes abastadas praticaram a conciliação entre elas, excluindo sempre o povo. O jogo nunca se mudou, apenas embaralham-se diferentemente as cartas do mesmo e único baralho como o mostrou Marcel Burztyn, O país das alianças, as elites e o continuísmo no Brasil (1990) e mais recentemente por Jessé de Souza: “Atraso das elites: da escravidão até hoje em dia” (2017).

A filósofa Marilena Chauí resumiu sinteticamente o legado perverso desta herança: “A sociedade brasileira é uma sociedade autoritária, sociedade violenta, possui uma economia predatória de recursos humanos e naturais, convivendo com naturalidade com a injustiça, a desigualdade, a ausência de liberdade e com os espantosos índices das várias formas institucionalizadas –formais e informais – de extermínio físico e psíquico e de exclusão social, política e cultural”(500 anos, cultura e política no Brasil, 1993, p. 51-52).O golpe parlamentar, jurídico e mediático de 2016 se inscreve nesta tradição.

A ordem capitalista se encontra absolutamente hegemônica no cenário da história, sem oposição ou alternativa imediata a ela.

Como nunca antes, a ordem e a cultura do capital mostram inequivocamente o seu rosto inumano, criando absurda concentração de riqueza à custa da devastação da natureza, da exaustão da força de trabalho e de uma estarrecedora pobreza mundial.

Há crescimento/desenvolvimento sem trabalho porque a utilização crescente da informatização e da robotização dispensa o trabalho humano e cria os desempregados estruturais, hoje totalmente descartáveis. E somam-se aos milhões nos países centrais e entre nós, particularmente, após o golpe parlamentar de 2016.

O mercado mundial, caracterizado por uma concorrência feroz, é profundamente vitimatório. Quem está no mercado existe, quem não resiste, desiste, inexiste e deixa de existir. Os países pobres passam da dependência para a prescindência. São excluídos da nova ordem-desordem mundial e entregues a sua própria miséria como a África ou então incorporados de forma subalterna como os países latino-americanos, notadamente, o Brasil do golpe parlamentar.

Os incluídos de forma agregada assistem a um drama terrível. Veem criar-se dentro deles ilhas de bem-estar material com todas as vantagens dos países centrais, atendendo a cerca de 30% da população ao lado de um mar de miséria e de exclusão das grandes maiorias que no Brasil alcançam mais da metade da população. Eis a perversidade da ordem do capital, um sistema de anti-vida como frequentemente o tem incriminado o Papa Francisco.

Não devemos poupar-lhe a dureza das palavras, pois a taxa de iniquidade social para grande parte da humanidade se apresenta insustentável para um senso de uma ética mínima e de compaixão solidária.

Uma razão a mais para nos convencermos de que não há futuro para o Brasil inserido nesta forma na globalização econômico-financeira, excludente e destruidora da esperança como está sendo imposta com a máxima celeridade pelo novo governo ilegítimo.

Há que se buscar um outro paradigma diferente e alternativo não só para o Brasil mas para o mundo. Lentamente está sendo gestado nos movimentos de base e em sectores progressistas do mundo inteiro com sensibilidade ecológico-social, fundada no cuidado e na responsabilidade coletiva. Caso contrário podemos ser conduzidos por um caminho sem retorno.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: A Grande Transformação na sociedade, na economia e da ecologia,2014.

 

O medo: inimigo da alegria de viver

Hoje o mundo, o Brasil e as pessoas são assoladas pelo medo de assaltos, às vezes com morte, de balas perdidas e de atentados terroristas. Estes recentemente paraticados em Barcelona e Londres provocaram um medo generalizado, por mais que tenha havido demonstrações de solidariedade e manifestações pedindo paz.

Indo mais a fundo na questão, há que se reconhecer que esta situação generalizada de medo é a consequência última de um tipo de sociedade que colocou acumulação de bens materiais acima das pessoas e estabeleceu a competição e não a cooperação como valor principal. Ademais escolheu o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e sociais.

A competição deve ser distinguida da emulação. Emulação é coisa boa, pois traz à tona o que temos de melhor dentro de nós e o mostramos com simplicidade. A competição é problemática, pois significa a vitória do mais forte entre os contendores, derrotando todos os demais, gerando tensões, conflitos e guerras.

Numa sociedade onde esta lógica se faz hegemônica, não há paz, apenas um armistício. Vigora sempre o medo de perder, perder mercados, vantagens competitivas, lucros, o posto de trabalho e a própria vida.

A vontade de acumulação introduz também ansiedade e medo. A lógica dominante é esta: quem não tem, quer ter; quem tem, quer ter mais; e quem tem mais, diz, nunca é suficiente. A vontade de acumulação alimenta a estrutura do desejo que, como sabemos, é insaciável. Por isso, precisa-se garantir o nível de acumulação e de consumo. Daí resulta a ansiedade e o medo de não ter, de perder capacidade de consumir, de descer em status social e, por fim, de empobrecer.

O uso da violência como forma de solucionar os problemas entre países, como se mostrou na guerra dos USA contra o Iraque, se baseia na ilusão de que derrotando o outro ou humilhando-o, conseguiremos fundar uma convivência pacífica. Um mal de raiz, como a violência, não pode ser fonte de um bem duradouro. Um fim pacífico demanda igualmente meios pacíficos. O ser humano pode perder, mas jamais tolera ser ferido em sua dignidade. Abrem-se as feridas que dificilmente se fecham e sobra rancor e espírito de vingança, húmus alimentador do terrorismo que vitima tantas vidas inocentes como temos assistindo em muitos países.

A nossa sociedade de cunho ocidental, branca, machista e autoritária escolheu o caminho da violência repressiva e agressiva. Por isso está sempre às voltas com guerras, cada vez mais devastadoras, como na atual Síria, com guerrilhas, cada vez mais sofisticadas e atentados, cada vez mais frequentes. Por detrás de tais fatos existe um oceano de ódio, amargura e vontade de vindita. O medo paira como manto de trevas sobre as coletividades e sobre as pessoas individuais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros. O cuidado constitui um valor fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. O cuidado é o orientador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.     

Cuidar de alguém é envolver-se com ele, interessar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável do destino dele. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, cuidado pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os ecossistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada pessoa, cuidado com as relações sociais no sentido de serem participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura que permite as pessoas viverem um sentido positivo da vida, acolher suas limitações, o envelhecimento e a própria morte como parte da vida mortal: esta sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

Em momentos de grande medo, ganham especial sentido as palavras do salmo 23, aquele do “Senhor é meu pastor e nada me falta”. Ai o bom pastor garante: ”ainda que tu devesses passar pelo vale da sombra da morte, não temas porque Eu estou contigo”.

Quem consegue viver esta fé se sente acompanhado e na palma da mão de Deus. A vida humana ganha leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade e alegria de viver. Pouco importa o que nos acontecer, acontece em seu amor. Ele sabe o caminho e sabe bem certo.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu o livro O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

 

JOSÉ MARIA PIRES, O BISPO DE PÉS DESCALÇOS

DOM JOSÉ MARIA PIRES foi um dos grande bispos proféticos da Igreja brasileira. Era negro e sempre defendeu a causa dos afrodescendentes. Esteve nas origens das Comunidades Eclesiais de Base e grande defensor da Teologia da LIbertação. Afetuosamente o povo o chamava de Dom Pelé e mais tarde de Dom Zumbi. Morreu na plenitude dos dias com 98 anos, ainda ajudando na pastoral popular da cidade de Belo Horizonte. Publicamos aqui dois textos que mostram a relevância deste bispo, do prof.Ferando Almeyer Jr da PUC-SP e do Pe. José Oscar Beozzo, nosso melhor historiador da Igreja do Brasil. Éramos amigos de muitos anos e juntos participamos de inúmeros encontros de bispos, de comunidades eclesiais de base e de cursos de atualização teológico-pastoral. Vai-se mais um dos bispos proféticos que tanto nos faltam nos dias atuais. Ele continua uam referência do bispo pastor,profeta, grande pregador e amigo de todos especialmente dos mais pobres. LBoff

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Dom José Maria Pires, faleceu no dia 27 de agosto de 2017 em Belo Horizonte aos 98 anos.

Foi arcebispo emérito da Paraíba-PB, nascido em 15/03/1919, na pequenina cidade de Córregos em Minas Gerais, nordeste do estado, participou das quatro sessões do Vaticano II. À época, sendo o único bispo negro brasileiro, e uma das vozes mais importantes do episcopado brasileiro irá assumir a nova imagem de Igreja proposta pelo Concílio. Despertará com sua pregação a vontade de tantos irmãos na ajuda eficaz aos que sofrem injustiças. Atenderá ao apelo de Deus na história e não permanecerá impassível diante do grito do sofredor.

Ele perceberá que a Igreja estava mudando e alegremente avançará com coragem! É essa coisa simples feita por gente simples que é capaz de mudar o mundo, simplesmente.

Este filho de gente pobre teve por pais Eleutério Augusto Pires e Pedrelina Maria de Jesus, e aprenderá desde cedo que deve permanecer com os pés no chão. Em um depoimento emocionante nos funerais do presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira, em 29-08-1976, dirá:

Eu andei pelas mesmas ruas pelas quais Juscelino andou. Ele andava de pés descalços e eu também. Era comum as crianças pobres andarem descalças na rua.

Ao pisar o chão de sua terra natal aprenderá as lições permanentes de como ser padre, bispo e pastor. Jamais esquecerá de que é alguém de pés descalços. E é nesse contato com o chão que se torna um pastor fiel.

Foi ordenado padre em Diamantina-MG, em 20/12/1941 (já completou 70 anos de sacerdócio!), atuando como pároco, diretor de colégio, e missionário diocesano. É sagrado bispo em Diamantina, Minas Gerais, em 22/09/1957 (em 2017, comemorou  os 60 anos de episcopado), iniciando seu ministério na diocese de Araçuai-MG, como seu terceiro bispo, de 1957 a 1965. Seu lema episcopal será Scientiam Salutis (a ciência da salvação). Nomeado pelo Papa Paulo VI, será o quarto arcebispo metropolitano da Paraíba de 02.12.1965 até 29.11.1995, quando renuncia por idade. Desde então, como bispo emérito peregrino, vive como pregador ambulante levando o Evangelho com vigor que causa uma santa inveja.

Desde muito cedo aprendeu a arte do bem falar: silêncio primeiro, palavra adequada depois. Em seguida, assume com primor e delicadeza, a certeza de ser um bispo pastor: amigo, evangélico, simples e, sobretudo, servidor dos empobrecidos.

Sua ação em favor dos simples é um programa de vida. Vejamos seu discurso de posse como arcebispo metropolitano da Paraíba, secundado por Dom Helder Pessoa Câmara, em plena ditadura militar brasileira, com sua ideologia da segurança nacional, que nega a liberdade e a dignidade da pessoa humana.

Dom Helder assim se expressa para falar de Dom José: “Dom José Maria vai às causas, vai às raízes… E fala claro, sem perder a serenidade, mas chamando as coisas pelos nomes. Quem quiser livrar-se de um Cristianismo desencarnado, quem quiser livrar-se de ensinamentos inodoros, incolores, pregados no vácuo, leia suas páginas (prefácio do livro Do Centro para a margem, Editora Acauã, Paraíba, 1978, p. 7)”.”

São suas estas palavras coerentes, ao tomar posse como arcebispo: “Não quero trazer-vos uma mentalidade de Minas Gerais, costume ou uma civilização do estado em que nasci, naquilo em que esta civilização, esta mentalidade, estes costumes forem diferentes da civilização, da mentalidade e dos costumes da Paraíba. Assim como Cristo, fazendo-se homem, assumiu a natureza humana e, por assim dizer, ocultou, guardou o que ele era, como Deus, e apresentou-se a nós sem deixar de ser Deus, mas foi aprendendo conosco a ser homem, a viver como a humanidade, também o novo prelado vem aqui não para ensinar, mas antes de tudo para aprender a ser paraibano. Eu iniciarei o meu ministério aprendendo convosco. Só me integrando é que poderei cumprir minha missão de servir (É santa a terra em que piso. (João Pessoa, PB, 26.03.1966, in Sampaio Geraldo Lopes Ribeiro, Dom José Maria Pires – Uma voz fiel à mudança social, Ed. Paulus, 2005, p. 17).

O diálogo, tal como foi preconizado na bela carta programática do Papa Paulo VI, Ecclesiam Suam, e ainda melhor expresso na Constituição Lumen Gentium se tornou para dom José Maria o critério da vida pastoral. Tornar-se-á exímio defensor do povo negro, sendo em sua vida alcunhado por dois apelidos carinhosos e densamente simbólicos: no começo de sua vida episcopal será chamado como dom Pelé (por Dom José Vicente Távora, bispo dos operários), ligando-o ao futebolista brasileiro de fama internacional. Depois de alguns anos, será renomeado” por dom Pedro Casaldáliga (prelado emérito de São Felix do Araguaia, MT) como Dom Zumbi, para conectá-lo à causa do povo negro no Brasil, fazendo memória do líder dos quilombos brasileiros, Zumbi dos Palmares.

Os apelidos não conseguiram retirar-lhe sua identidade mais profunda, que é a de alguém que sempre assumiu sua origem, sua etnia, e seu amor aos pobres como uma chave interpretativa do mundo e como forma efetiva da encarnação cristã no nordeste brasileiro, mergulhado em tantas injustiças e contradições que exigiam fidelidade radical ao Cristo. Dom José não é um homem de meias palavras nem de meias ações.

Quem o ouve sempre percebe que ele está inteiro no que diz, naquilo que fala e no que sonha e compartilha com seus interlocutores. Ao ouvi-lo, sente-se que se está diante de um verdadeiro pastor: não há arrogância em suas palavras. Sentimo-nos encorajados e desafiados, jamais amedrontados. Dom José é o verdadeiro irmão e pastor, que não abdica do diálogo, pois crê e ama o interlocutor.

Poderemos seguir os passos deste bispo negro, em todos os recantos da terra brasileira sempre animando as pequenas comunidades de base, as causas dos empobrecidos e as lutas por justiça social, sem extremismos. Estará entre os operários da primeira hora, quando surgiu a Comissão Pastoral da Terra-CPT, e ainda entre os apoiadores e animadores do Conselho Indigenista Missionário, CIMI e ainda de cada uma das dezenas de pastorais sociais, gestadas pelo povo e acolhidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (cNBB), quando das presidências proféticas de Dom Aloísio Lorscheider, Dom Ivo Lorscheiter e dom Luciano Mendes de Almeida, naquilo que será chamado o momento de ouro da Igreja brasileira, vivido entre as décadas de 1970 e 1980. Verá nascer com as dores de parto, a poética Missa dos Quilombos, depois proibida e estará entre os animadores da Missa da Terra Sem Males, também proscrita e que pretendiam abrir novos caminhos litúrgicos na inculturação e diálogo inter-religioso.

Enfrentará a ganância de fazendeiros e coronéis nordestinos, com a simplicidade das pombas. Não pedirá favores aos poderes políticos ou econômicos, confiando sempre na Palavra de Deus e na compaixão dos pobres. O caminho pode ser mais lento e singelo, mas as raízes serão sempre mais profundas e seguras. Ele clamará contra os latifundiários como Nabot contra o rei Acab. Dirá em 05 de março de 1976 na carta pastoral para todos os diocesanos: “quando se cansar a paciência do pobre que está sendo esmagado pelos poderosos, a de Deus também se cansará e Deus virá fazer a justiça que os homens se recusaram a fazer”” (Carta Pastoral de março de 1976).

Dom José vê, compreende e fala do sofrimento dos agricultores. Conhece os problemas do campo e assume um compromisso como igreja para ser a Igreja com os fracos e oprimidos, ou seja, uma Igreja que toma posição ao lado do pobre por fidelidade ao Evangelho e por amor ao povo.

Denuncia o sistema capitalista por seus frutos e por sua segregação das grandes massas. Dirá em 1967: “Dar esmolas, todos acham que é razoável. Mas aceitar que é um roubo guardar o supérfluo quando a outros falta o necessário, isto lhes cheira a marxismo. Realmente, dentro da mentalidade dominante, não é fácil aceitar a receita da Populorum Progressio que é a mesma do Evangelho”.

Sua mensagem é de vida plena e, sobretudo de conversão. Dirá que é preciso ir do centro para a margem. Este será seu contínuo processo vital. Movimentar-se em direção dos pequenos. Ir para a margem da sociedade, da Igreja, do mundo. Fará este gesto ético e religioso motivado por uma profunda vivência de Cristo, além de ser um aprendiz permanente na prática da não-violência ativa, como ação de firmeza permanente. Como discípulo de Cristo saberá mostrar ainda hoje as riquezas do Concílio Vaticano II, como um projeto de vida.

Uma Igreja que se distancie dos “centros” e que se aproxime das “margens” do mundo. Uma Igreja que não espere nem confie nos poderosos e nos senhores do mundo. Uma Igreja que deve continuar a cumprir a missão profética de proclamar os direitos dos oprimidos mesmo sabendo que sobre ela pesa a cólera dos governantes, pois só esta fé autêntica é que poderá salvar a pobres e ricos. Nesta Igreja não há lugar para acomodados e passivos. Dirá de forma incisiva: “O catolicismo brasileiro não criou no povo uma consciência de sua cultura, de seus valores, de sua idiossincrasia. A consciência dominante do povo é hierárquica, como aceitação passiva e talvez o maior obstáculo ao verdadeiro desenvolvimento, pois gera acomodação e conformismo”.

Para dom José Maria Pires, o oitavo sacramento é a alegria. Sempre se diz que quando alguém alegre entra em uma casa é como se em um quarto escuro, a janela se abrisse para a luz entrar. Esse será a tarefa de dom José: com os pés descalços, abrir as janelas da Santa Igreja. Não terá sido esse o pedido de um outro José, o bergamasco Roncalli, quando convocou o Concílio? Ainda hoje precisamos de bispos que abram as janelas de nossas Igrejas para que a alegria do Cristo nos rejuvenesça. Gente como dom José, de pés descalços, camisa arregaçada na luta pelos pobres e uma alegria convicta no coração, verdadeiros filhos e herdeiros do Concílio.

Falece em 27 de agosto de 2017 com 98,4 anos de muita profecia, mergulho na vida e pé na estrada ao lado de Jesus peregrino.

Vai em paz, quilombola de Deus.

Prof. Dr. Fernando Altemeyer Júnior, 60 anos, mestre em Teologia e Ciências da Religião pela Universidade Católica de Louvain-la-Neuve, Bélgica. Licenciado em Filosofia. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Professor PUC-SP.

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O Pe. José Oscar Beozzo, como exímio historiador da Igreja acrescentou ao texto de Altmeyer ainda os seguintes tópicos:

“Dom José Maria Pires era voz escutada com respeito por todo o episcopado, temida pelos poderosos e acolhida com alegria e conforto pelos pequenos, de cujas causas nunca se apartou. Por mais de 50, anos foi assíduo frequentador, a cada ano, do Encontro Latino-americano de Estudos – Curso dos Bispos, instância de encontro, reflexão, oração e iniciativas corajosas que continuou congregando os bispos latino-americanos do grupo Igreja dos Pobres do Concílio Vaticano II e aqueles que decidiram, em seguida, trilhar o mesmo caminho em seu ministério episcopal.

Dom José Maria Pires era o patriarca do grupo que frequentou até 2015, tendo faltado ao encontro de 2016, por razões de saúde.

Quando o ITRA, o Instituto Teológico do Recife, foi fechado pelo sucessor de Dom Helder, Dom José Maria acolheu em João Pessoa professores e alunos do Instituto, para dar continuidade a uma formação teológica comprometida com a causa dos pobres e de sua libertação e enraizada na cultura nordestina.

Por duas vezes, fez a pé, durante um mês, o caminho de Santiago de Compostela partindo da fronteira da França com a Espanha. Na segunda vez, já havia completado 90 anos esse rijo camponês, que depois de bispo emérito continuou atendendo em Belo Horizonte uma paróquia da periferia, na simplicidade e humildade e num incansável espírito de serviço.

Por delegação da CNBB acompanhou com carinho e compreensão o movimento dos padres casados com suas famílias, tomando partido pela retomada do ministério por parte daqueles que o desejassem. Batalhou para que a Igreja abrisse suas portas para o ministério ordenado de homens casados.

Foi também o grande animador da Pastoral afro-brasileira e do movimento dos padres e bispos negros que ganhou espaço e amplitude na vida da Igreja do Brasil e também da América Latina e do Caribe, através do CELAM.

Foi para mim um privilégio o ter desfrutado de sua fiel amizade.  A cada Natal e Páscoa, Dom José não deixava de enviar uma palavra carinhosa e sempre antenada nas questões mais urgentes do país e da Igreja.

Foi um dos sócios fundadores do CESEEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular) e membro de sua Assembleia que, por 33 anos (1982-2015) acompanhou, incentivando os trabalhos em curso e propondo sempre sábias orientações.

A Igreja e a sociedade brasileira perdem uma grande figura, cuja maior glória é ter sido um fiel seguidor do evangelho e de Jesus Cristo a serviço dos mais pobres, de suas causas e libertação.

 

 

 

Brasile: barcone alla deriva

La gravità della nostra crisi generalizzata si fa sentire come un barcone alla deriva, abbandonato alla mercé dei venti e delle onde. Il timoniere, il presidente, è accusato di crimini, circondato da marinai-pirati, in maggioranza (con nobili eccezioni) ugualmente corrotti o accusati di altri crimini. E’ incredibile che un presidente detestato dal 90% della popolazione, senza nessuna credibilità, senza carisma, voglia stare al timone di una nave mal governata.

Non so se per ostinazione o vanità, elevata a potenza in grado stratosferico. Ma, impavido, continua a stare là nel Palazzo, comprando voti, distribuendo benefici, corrompendo i già per evitare che risponda allo STF a pesanti accuse di cui è imputato. E’ praticamente prigioniero di se stesso. In qualsiasi posto appaia in pubblico, sente subito il grido: “Via, Temer”.

E’ una vergogna internazionale essere arrivati a questo punto, dopo aver conosciuto l’ammirazione di tanti altri paesi per le politiche coraggiose fatte a favore delle grandi maggioranze impoverite, grazie ai governi progressisti Lula e Dilma.

Può la diffamazione degli oppositori, appoggiati da gruppi legati allo establishment internazionale che vuole mettere tutti in linea con le sue strategie, tentare di demonizzare la figura di Lula e smontare il merito dei benefici che lui aveva offerto ai diseredati della terra? Non riescono ad arrivare al cuore della gente. Il popolo sa e testimonia: “Nonostante errori ed equivoci, è innegabile che Lula sempre ha amato i poveri e stava al nostro fianco. Più che pane, luce, casa, accesso all’educazione tecnica o superiore, ci ha restituito dignità; siamo persone umane e non siamo più condannati all’invisibilità sociale”.

Vogliono distruggere Lula come leader politico e come persona. Non ci riusciranno, perché la menzogna, la distorsione, la volontà rabbiosa e persecutoria di un giudice giustiziere che giudica più con la passione che attraverso il diritto, mai potranno cancellare l’immagine di uno che si è trasformato in un simbolo e in archetipo in Brasile e nel mondo.

Dicono gli analisti della psicologia profonda di C.G. Jung che chi si è trasformato in simbolo a causa della saga della sua vita e per il bene che ha fatto agli altri diventa indistruttibile. È diventato simbolo di un potere politico beneficente per i più invalidi della nostra storia, segnati da molte ferite. Il simbolo penetra il profondo delle persone. Rende superflue le parole. Parla per se stesso. Il simbolo possiede un carattere misterioso che attrae l’attenzione degli ascoltatori, persino degli scettici. Il carisma è l’irradiazione più potente che conosciamo. Lula possiede questo carisma che si traduce in tenerezza per gli umili e per il vigore con cui porta avanti la causa per la liberazione.Questi, messi a tacere, si sentono rappresentati da lui.

Oltre che simbolo, Lula è diventato un archetipo del leader che ha cura e che serve. Questo tipo di leader, d’accordo con gli stessi analisti junghiani, serve una causa che è superiore a lui stesso, la causa dei senza nome e senza chance. Essi sostengono che questo tipo di leader fa cose che sembrano impossibili. Evoca nei seguaci gli archetipi nascosti in loro fino al punto di arrivare a superarsi e sentirsi parte della società. Questo si esprime nelle parole di molti che dicono: “Scegliendo lui, noi stiamo votando per noi stessi. Fino ad oggi eravamo obbligati a votare qualcuno tra i nostri oppressori, adesso votiamo uno dei nostri che può rinforzare la nostra liberazione”.

L’azione politica di Lula possiede una rilevanza di magnitudo storica. Lui ha la coscienza di questa sfida formulata da uno dei migliori tra di noi, Celso Furtado, nel suo libro “Brasile: la costruzione interrotta” (1992). “Si tratta di sapere se abbiamo un futuro come nazione che conta nella costruzione del divenire umano. Oppure se prevarranno le forze che si impegnano nell’interrompere il nostro processo storico di formazione di uno Stato-nazione” (p.35).

Quello che ci fa soffrire è costatare che l’attuale governo si impegna a interrompere questo processo, con la violazione della democrazia e della Costituzione, con riforme e privatizzazioni e perfino con la vendita di terre nazionali a stranieri.

Si lasciano neo colonizzare per essere meri esportatori di commodities invece di creare le condizioni favorevoli per concludere la fondazione del nostro paese. Oltre che corrotti, sono venditori ambulanti della patria, cinicamente indifferenti alla sorte di milioni che dalla povertà stanno cadendo nella miseria e dalla miseria nell’indigenza.

Dobbiamo mandare a memoria i nomi di questi politici traditori delle aspettative popolari. Rappresentano soprattutto interessi personali e corporativi, loro o di quelli impresari che gli hanno finanziato la campagna elettorale più che non gli interessi collettivi del popolo. Che le urne li condannino, negando loro la vittoria attraverso il voto.

*Leonardo Boff, columnist del Jornal do Brasil on line, filósofo,teólogo e scrittore.

Traduzione di Romano Baraglia e Lidia Arato