Razões para o pessimismo esperançoso

Leonardo Boff

       São Francisco de Assis, “o homem sempre alegre” como foi chamado por seus biógrafos, dizia a seus confrades que não deviam considerar demasiadamente os males do mundo para não terem razões de se queixar a Deus. Atualmente o  acúmulo de males que afetam a natureza, tão amada pelo Francisco de  Assis e defendida pelo Francisco de Roma e a humanidade especialmente os milhões e milhões de pobres e  marginalizados, torna difícil seguir o ensinamento do “Sol de Assis” como o designa Dante Alignieri na Divina Comédia.

Temos o nosso momento de Jó, o inconformado, e nos colocamos diante de Deus com dolorosas indagações: onde estava Deus quando milhares de crianças inocentes  da Faixa de Gaza eram assassinadas pelas bombas de um insano Primeiro Ministro israelense, exatamente um representante do povo da Aliança? Por que se calou nesses momentos tão trágicos? Não é ele cheio de amorosidade, “o apaixonado amante da vida” como diz o livro da Sabedoria? Apesar de sofrermos com o silêncio de Deus, continuamos, como Jó, a crer nele, pois ele pode ser aquilo que nossa inteligência  limitada não alcança.

       Olhando o cenário nacional, especialmente o internacional e a sorte trágica de tantas vítimas, nos vem à mente as palavras do salmo 44:”Tu nos enviaste ao lugar dos chacais e estendeste sobre nós a sombra morte;  somos tratados como gado de corte; levanta-te, por que dormes, Senhor? venha em nosso socorro e resgata-nos por tua misericórdia (44, 20-27).

       Diante de tais tragédias irrompe em nós a iracúndia sagrada dos profetas. Por que os chefes de Estado de países cristãos europeus, por que um Presidente católico como o dos EUA apoiam e continuam a apoiar essa guerra de extermínio que se transformou num genocídio? Sentimo-nos impotentes face à  esta guerra com relações totalmente desproporcionais, e com outros lugares de guerra como na Ucrânia e de genocídio como no Sudão.

Se tomarmos em conta ainda o alarme ecológico, o crescente aquecimento global, a devastação impiedosa da natureza e a degradação ética e moral da maioria das sociedades mundiais, somos tomados por desalento. Tornamo-nos pessimistas, não sem razões, mas porque a realidade é  péssima, na expressão do escritor  José Saramago.

Como enfrentar esse pessimismo objetivo? Vejo entre outros, dois caminhos estando ainda dentro do sistema imperante: aproveitar todas as legislações ambientais conseguidas pelas lutas sociais e ecológicas e consignadas em lei.Cobrar do estado e  de todas as instituições a sua observância.Elas são sempre referências oficiais pelas quais podemos pressionar aqueles que as violam.

Em segundo lugar, buscar sempre utopias mínimas e viáveis, quer dizer, melhoras dentro do sistema. Nenhum é de tal forma cerrado que não apresente brechas pelas quais, como cunhas, podemos apresentar melhorias como o salário acima da inflação, a destinação dos produtos da agricultura familiar e da agro-ecológica para merenda escolar, o acesso de estudantes de baixa renda e de afrodescendentes ao ensino superior,a disponibilidade da mídias virtuais às escolas e aos pobres, entre tantas.

Tais medidas, ainda dentro do sistema iníquo podem fazer suportar o pessimismo e permitir pelo menos uma resteazinha de esperança.

Agora vamos ao “esperançoso” O que nos dá ainda esperança é o “princípio esperança”aquele impulso interior, própria à natureza humana, que nos faz  projetar um paradigma alternativo ao atual sistema e acreditar nas possibilidade presentes em nós. Somos um projeto infinito, um ser de virtualidades sem limites, nem o céu é limite porque também o desejamos.Molhar nossas raízes nessa fonte inexaurível, nos confere esperança. Por isso rejeitamos o mantra do sistema imperante “não há outra alternativa”(There is no Alternative:Tina). Respondemos:”há novas alternativas”, há um paradigma alternativo,capaz de um outro mundo.

A  experiência mundial tem mostrada que trabalhando o território, o que se chama de bioregionalismo, pode-se criar sociedades viáveis e sustentáveis.O grande sistema mundializado não possui sustentabilidade, pois seguindo sua lógica de acumulação ilimitada, nos conduz a um precipício coletivo. Assume-se a região, não aquela artificialmente circunscrita pelos municípios, mas aquela desenhada pela própria natureza. Na região estão os rios, as florestas, as montanhas,as terras agricultáveis, a fauna e a flora, as populações que aí habitam com sua história, sua cultura, suas tradições,suas figuras notáveis. Nesse espaço pode-se criar sociedades integradas,democracias participativas,um desenvolvimento regional com pequenas e médias empresas que produzem em conformidade com os ritmos da natureza, primeiro para a subsistência e só depois para o mercado, uma verdadeira justiça social e ecológica. Pode-se imaginar que vastas regiões, quem sabe, o planeta inteiro como um imenso tapete de bio-regiões autônomas e,ao mesmo tempo, relacionadas com as outras. Isso está contido dentro das possibilidades humanas e seu efeito é fazer com que o “pessimismo” seja “esperançoso”.

Por fim, manter vivo o conhecimento de que o processo evolucionário da Terra e do universo possui uma seta do tempo que aponta para frente,superando crises sistêmicas. Ele não é linear. O caos não é apenas destrutivo mas também generativo, pois dentro dele está maturando uma nova ordem que forceja para irromper.Ela é objetiva e também se reverbera em nossa consciência, na media em que mais e mais pessoas se dão conta de que temos que inaugurar um caminho novo. Temos duas pernas: uma dentro do sistema buscando melhorias e outra no novo por construir.

Desta forma podemos ser “pessimistas” face à realidade atual que é péssima mas “esperançosos” porque  como disse certa vez Keynes:“nunca é o inevitável o que acontece; é sempre o imprevisível”, Nesse imprevisível esperamos. Somos desafiados a corajosamente rasgar tais caminhos e destarte viver uma esperança imprevisível e dar as boas razões para o pessimismo esperançoso.

Leonardo Boff escreveu O doloros parto da Mãe Terra, Vozes 2022; Habitar a Terra: a fratenidade possivel, Vozes 2023.

A Terceira Guerra Mundial: como ficaria o Brasil

26/11/2024  em Site: A Terra é Redonda: Ruben Bauer Naveira

Vivemos tempos perigosos que podem ameaçar o futuro de nossa vida sobre o planeta. Publico este texto pois é esclarecedor sobre o que eventualmente pode ocorrer. Oxalá sejamos poupados desta tragédia. Apertem o botão

              Por RUBEN BAUER NAVEIRA*

A Rússia irá retaliar o uso de mísseis sofisticados da OTAN contra seu território, e os americanos não têm dúvidas quanto a isso.

Recentemente o site A Terra é Redonda, publicou o meu artigo em que delineio várias possíveis trajetórias para o conflito (há muito tempo) em curso entre Estados Unidos e Rússia.

No dia de ontem, segunda-feira 25, a Ucrânia atacou (mais uma vez) a retaguarda russa com mísseis ATACMS de fabricação americana, atingindo o aeroporto militar de Khalino na cidade de Kursk. Fontes ucranianas dizem que o ataque foi bem sucedido (teria sido destruído um sistema de defesa antiaérea S-400 dos russos, um alvo de elevado valor). Já as fontes russas dizem não ter havido danos significativos. Ambas, porém, reconhecem que o ataque aconteceu.

Não apenas sistemas sofisticados como o ATACMS são operados (programados) por militares americanos atuando clandestinamente na Ucrânia, como a identificação, a seleção e o mapeamento das coordenadas espaciais dos possíveis alvos são levados a cabo a partir de ISR (sigla para Intelligence, Surveillance and Reconnaissance) as quais somente têm como ser providas pelos Estados Unidos, especialmente a partir das imagens esquadrinhadas pela sua onipresente malha de satélites.

Também no dia de ontem, a Casa Branca pela primeira vez assumiu oficialmente que a Ucrânia está autorizada a utilizar mísseis ATACMS para ataques a território da Rússia, com a ressalva de que esta autorização vale por enquanto apenas para a província (oblast) de Kursk – como se isso fosse servir de atenuante perante os russos.

Vladimir Putin havia deixado bem claro em seu discurso na quinta-feira, 21, que, se esse tipo de ataque voltasse a ocorrer, instalações militares dos países ocidentais envolvidos (no caso, os Estados Unidos) seriam alvo de retaliação russa.

Ainda que Vladimir Putin pudesse estar em seu íntimo determinado a levar para casa todo e qualquer desaforo até raiar o dia 20 de janeiro a partir de quando passará a se entender com Donald Trump, os americanos não estão dispostos a lhe deixar nenhuma margem de manobra nesse sentido. Naquele meu texto meu publicado anteontem, eu estimei em cinco por cento as possibilidades de algo assim ocorrer. Hoje, porém, já estou achando cinco por cento muito.

Em suma, a Terceira Guerra Mundial começou.

A retaliação russa virá – e os americanos não têm dúvidas quanto a isso. Assim, eles já estão preparados para o “pós-retaliação”, ou seja, para a escalada militar contra os russos. A Rússia, igualmente, também está preparada para esta escalada.

O problema com a escalada é que ela rapidamente conflui para uma guerra nuclear – a menos que, no decorrer do processo, um dos lados consiga “se impor” sobre o outro, manifestando tamanha superioridade militar que leve o outro lado a recuar (na prática, a se render). Essa capacidade de imposição é denominada no jargão militar de “escalation dominance” (“domínio da escalada”). Naturalmente, nem americanos nem russos percebem um no outro tal capacidade, do contrário não cometeriam o desatino de desafiar o oponente.

Contudo, analistas militares como Andrei Martyanov advogam que a Rússia possuiria sim essa capacidade de dominar a escalada – tomara que ele tenha razão, do contrário o conflito culminará em guerra nuclear.

No meu texto de anteontem, tomei por base as palavras de Vladimir Putin em seu discurso do dia 21 para prever que a Rússia em algum ponto da escalada jogará uma bomba nuclear em alguma cidade ucraniana, dando, no entanto, aviso prévio de modo a propiciar a fuga do máximo possível de civis. O propósito seria intimidar os americanos e levá-los a interromper a escalada, na premissa de que eles iriam recear que outras bombas nucleares viessem a exterminar cidadãos americanos, bem como de que, pela óptica dos americanos, os ucranianos não passariam mesmo de bucha de canhão descartável.

Ainda que algo perturbador assim possa fazer sentido (e possa vir a surtir o efeito esperado), isso não seria domínio da escalada (porque os americanos também são capazes de jogar bombas nucleares sobre cidades), seria no máximo uma tentativa de estancar a escalada antes que as coisas fiquem realmente muito feias.

Enfim, a todo mundo no mundo (inclusive aos americanos e russos), restará prender a respiração enquanto acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos.

A respeito do timing para a retaliação russa ao ataque ucraniano/americano de ontem: considero improvável que essa retaliação venha de imediato (tipo hoje, ou amanhã). Ao contrário dos americanos, os russos são mais cerebrais e menos impulsivos. O que está em jogo é o destino do país (Rússia), e a “dosagem” da resposta (nem tão fraca que estimule os americanos a prosseguir escalando, nem tão forte que os obrigue a partir para um tudo-ou-nada) necessita ser muitíssimo bem ponderada, calibrada e planejada.

E se, no final das contas, vier mesmo a guerra nuclear? O mundo vai acabar? Não, o mundo não vai acabar. O que vai acabar com toda certeza é este mundo ao qual estivemos acostumados desde o dia que nascemos. E então precisaremos inventar um novo mundo, e um novo modo de vivermos nele as nossas vidas. Partilhei as minhas reflexões a esse respeito no texto “O Pós-Guerra Nuclear no Brasil”, que lhe convido a acessar.

*Ruben Bauer Naveira é ativista político e pacifista. Autor do livro Uma Nova Utopia para o Brasil: Três guias para sairmos do caos (disponível em http://www.brasilutopia.com.br/).


Perché siamo arrivati ​​alla situazione pericolosaattuale?

Leonardo Boff

È un luogo comune affermare che siamo al cuore di una grande crisi di civiltà. Essa non è regionale, ma globale. In verità, questa crisi globale contiene un numero infinito di altre crisi sul piano economico, politico, ideologico, educativo, religioso e persino spirituale. Non sappiamo cosa ci aspetta. Abbiamo sempre più coscienza collettiva che, così com’è, il mondo non può continuare. Il cammino attuale ci sta portando sull’orlo di un precipizio. Dobbiamo cambiare. È attribuita ad Einstein la frase: “il pensiero che ha creato la crisi attuale non può essere lo stesso che ci farà uscire da essa”. Dobbiamo definire un nuovo cammino. Come possiamo costruirlo affinché sia ​​davvero un altro tipo di mondo?

Il fatto inconfutabile è che c’è troppo caos distruttivo senza previsione che possa essere generativo. Ci sono forme di disumanità che ultra-passano tutto ciò che abbiamo vissuto e sofferto nella storia fino al momento attuale. Basta guardare al genocidio che avviene a cielo aperto nella Striscia di Gaza, perpetrato da un primo ministro israeliano, crudele e spietato, Benjamin Netanhyau, sostenuto da un presidente cattolico nord-americano e dalla Unione Europea che tradisce i suoi ideali storici di diritti umani, di libertà e di democrazia. Tutti questi diventano complici dell’atroce crimine contro l’umanità. C’è un’enorme ondata di odio, di disprezzo per la solidarietà, per la scienza, di negazione della verità e per il dominio dell’ignoranza. Questo anti-fenomeno si verifica soprattutto in Occidente.

Solo il fatto che l’1% possieda la ricchezza di più della metà dell’umanità, dimostra quanto sia perverso, profondamente diseguale e ingiusto, lo scenario sociale globale. A ciò si aggiunge l’emergenza ecologica con l’insostenibilità del pianeta Terra, vecchio e con risorse limitate che, di per sé, non sostiene un progetto di crescita illimitata, ossessione delle politiche sociali dei paesi. Questo processo ha esaurito, attraverso l’eccesso di sfruttamento, i biomi terrestri e sta mettendo a rischio i fondamenti naturali che sostengono la nostra vita e la vita della natura (Earth Overshoot). La continuità dell’avventura umana su questo pianeta non è assicurata. Ha scritto bene Papa Francesco nella sua enciclica Fratelli tutti (2020): «Siamo tutti sulla stessa barca; o ci salviamo tutti o nessuno si salva”. Il tutto si riassume con il riscaldamento globale crescente, inaugurando, quella che sembra essere, una nuova fase, più calda e pericolosa nella storia della Terra e dell’umanità.

Perché siamo arrivati ​​all’attuale situazione minacciosa che può mettere a rischio il futuro della vita umana e della natura?

Esistono diverse interpretazioni della situazione critica attuale. Non pretendo di avere una risposta sufficiente. Ma lancio un’ipotesi, frutto di una vita di studi e riflessioni. Stimo che la nostra situazione risalga a più di due milioni di anni fa, quando comparve l’homo habilis, l’essere umano che inventò strumenti di intervento nei cicli della natura. Fino ad allora, il suo rapporto era di interazione, di sintonizzazione con i ritmi naturali e prendendo quello che le sue mani potevano raggiungere. Ora, con l’homo habilis o faber, inizia l’intervento sulla natura: la caccia agli animali e l’abbattimento sistematico degli alberi. Dopo migliaia di anni, l’intervento continuò fino a 10-12 mila anni fa, nel Neolitico, con l’aggressione della natura. Ha interferito con il corso dei fiumi, inaugurando un’agricoltura irrigua e una gestione di intere regioni, che implicava cambiamenti nei rapporti con la natura fino a depredarla. Infine, a partire dall’era dell’industrialismo e del modo di produzione moderno e contemporaneo, attraverso la tecnica, l’automazione e l’intelligenza artificiale, si è giunti alla distruzione della natura. Proiettiamo una nuova era geologica, quella dell’antropocene, del necrocene e del pirocene, in cui l’essere umano appare come il Satana della Terra. Ha trasformato il giardino dell’Eden in un mattatoio, come denunciato dal biologo E. Wilson. Non si è comportato come l’angelo custode del suo habitat, la Madre Terra.

Questo processo storico-sociale ha trovato la sua giustificazione teorica presso i padri fondatori della modernità: Galileo Galilei, Cartesio, Newton, Francis Bacon e altri. Per loro l’essere umano è il “signore e padrone” della natura. Non si sente parte di essa, ma sta fuori e al di sopra di essa. La Terra, fino ad allora considerata la Magna Mater che ci dona tutto, passò ad essere considerata come una cosa inerte (res extensa), senza scopo, al massimo, uno scrigno di risorse devolute all’uso e al piacere dell’essere umano. L’asse portante di questo modo di vedere il mondo è la volontà di potenza, come dominio sugli altri, sui popoli, sulle loro terre (colonizzazione a partire dall’Europa), sulla classe lavoratrice, sulla natura, sulla vita fino all’ultimo gene, sulla materia fino al minimo top-quark. A servizio del dominio fu proiettata la scienza, non solo come conoscenza teorica di come funzionano le cose, ma se ne è presto appropriata la volontà di potenza, convertendola in un’operazione tecnica di trasformazione della realtà. Con essa si è scatenata una vera e propria guerra contro la Terra, senza alcuna possibilità di vittoria, strappandole tutto in funzione del sogno di una crescita illimitata dei beni materiali. La Terra è stata attaccata a tutti i livelli (suolo, aria, acque, foreste ecc.) provocando la devastazione praticamente dei principali biomi, senza misurare gli effetti collaterali. È l’impero della ragione strumentale-analitica e tecnocratica. Non possiamo fare a meno di apprezzare gli immensi benefici che ha portato alla vita umana. Ma allo stesso tempo ha creato il principio dell’autodistruzione con armi letali in grado di spazzare via ogni forma di vita. La ragione è diventata irrazionale e folle.

Oggi siamo arrivati ​​al punto-limite in cui la Terra si mostra gravemente malata. Essendo un Super-organismo vivente, reagisce inviandoci eventi estremi: gravi siccità e forti nevicate, una vasta gamma di virus e batteri, alcuni letali, oltre a tifoni, tornado, inondazioni e terremoti. Non stiamo andando incontro al riscaldamento globale. Ci siamo già dentro. La scienza è arrivata tardi, può solo avvisare del suo arrivo e mitigarne gli effetti dannosi. Questo cambiamento climatico minaccia di fatto la biodiversità e mette a serio rischio il futuro del sistema-vita.

Aggiunge un fatto non trascurabile. Il dispotismo della ragione – il razionalismo – ha represso ciò che di più umano c’è in noi: la nostra capacità di sentire, di amare, di prenderci cura, di vivere la dimensione dei valori come l’amicizia, l’empatia, la compassione e la capacità di rinuncia e di perdono, insomma il mondo delle eccellenze. Tutto ciò veniva visto come un ostacolo alla visione oggettiva della scienza. Abbiamo separato mente e cuore, la ragione intellettuale e la ragione sensibile. Tale rottura ha causato una profonda distorsione dei comportamenti, provocando l’insensibilità di fronte al dramma di milioni e milioni di persone povere e miserabili e alla mancanza di cura della natura e dei suoi beni e servizi.

Se volessimo sintetizzare la crisi di civiltà in una piccola formula, diremmo: essa ha perso la giusta misura, il suo valore, presente in tutte le tradizioni etiche dell’umanità. Tutto è eccessivo, l’assalto alla natura, l’uso della violenza nelle relazioni personali e sociali, le guerre senza alcuna misura di contenimento, l’eccessivo predominio della competizione al prezzo della cooperazione, il consumo eccessivo accanto alla fame da lupi di milioni di persone, senza alcun senso di solidarietà e umanità.

Seguendo questo progetto di civiltà, basato sul dominio del potere, ormai globalizzato, andremo fatalmente incontro ad una tragedia ecologico-sociale al punto da rendere il pianeta Terra inabitabile per noi e per gli organismi viventi. Sarebbe la nostra fine dopo milioni di anni su questo pianeta bello e ridente. Non abbiamo saputo prendercene cura affinché fosse la Casa Comune di tutti gli esseri umani, natura compresa.

Ma poiché il processo cosmogenico e terreno non è lineare, capace di balzi in alto e in avanti, può accadere l’imprevisto, rendendolo probabile attraverso un grande impatto. Ciò trasformerebbe la coscienza collettiva dell’umanità. Come diceva il poeta tedesco Hölderin (+1843): “Dove abita il pericolo, cresce anche ciò che lo salva”. Questo salvataggio significherebbe il necessario cambio di paradigma e garantirebbe così il nostro futuro. Ciò rappresenterebbe un’utopia possibile e realizzabile per l’attuale situazione della Terra e dell’umanità.

Leonardo Boff ha scritto A busca da justa medida (2 vol), Vozes 2002/3; Cuidar da Casa Comum: pistas para evitar o fim do mundo, Vozes 2023.

(traduzione dal portoghese di Gianni Alioti)

“Pueblo mío blanco: ¿en qué te entristecí? Respóndeme”

Leonardo Boff*

El día 20 de noviembre hemos celebrado el Día de la Conciencia Negra, por primera vez a nivel nacional. Para la oportunidad escribí el presente texto como un homenaje a esta fecha.

La Pasión de Cristo continúa siglo tras siglo en el cuerpo de los negros históricamente crucificados. Jesús agonizará hasta el fin del mundo, mientras uno solo de sus hermanos y hermanas esté todavía colgando de alguna cruz. Con esta convicción, la Iglesia Católica, en la liturgia del Viernes Santo pone en boca de Cristo estas palabras conmovedoras:

Pueblo mío, mi pueblo elegido ¿en qué te entristecí? Dime. ¿Qué más podría haber hecho por ti? ¿en qué te falté? Yo te hice salir de Egipto y te alimenté con maná. Te preparé una tierra hermosa; tú, la cruz para tu rey”.

Al celebrar el Día de la Conciencia nacional nos damos cuenta de que aún no ha sido completamente asumida. Hay mucha discriminación en la calle, en las redes sociales contra los afrobrasileros, alcanzando a muchas personas negras sencillas, trabajadores, jugadores de fútbol y hasta actrices y actores famosos. ¿Cuántos jóvenes negros son ejecutados por la policía en los cerros de nuestras ciudades? En una década, de 2012 a 2022, el 79% de las víctimas de homicidio del sexo masculino eran negras. El estudio divulgado por el Instituto Sou da Paz es atroz: 8 de cada 10 hombres muertos por arma de fuego son negros.

Estos datos nos revelan que la pasión de Cristo continúa en la pasión de este pueblo afrobrasilero. Falta la segunda abolición, de la miseria, del hambre, del desempleo, de la discriminación.

En solidaridad con todos ellos y ellas hice esta pequeña reflexión-poema, inspirada en la liturgia católica del viernes santo:

Hermano mío blanco, hermana mía blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Yo te inspiré la música cargada de melancolía y el ritmo contagioso. Te enseñé cómo usar el bombo, la cuica y el atabaque. Fui yo quien te mostró el rock y el balanceo de la samba. Y tú tomaste lo que era mío, te hiciste nombre y renombre, acumulaste dinero con tus composiciones y shows y nada me devolviste.

Yo bajé de los cerros, te mostré un mundo de sueños, de una fraternidad sin barreras. Creé mil fantasías multicolores y te preparé la mayor fiesta del mundo: bailé el carnaval para ti. Y tú te alegraste y me aplaudiste de pie. Pero pronto, muy pronto, me olvidaste reenviándome al cerro, a la favela, a la realidad desnuda y cruda del desempleo, del hambre, de la discriminación y de la opresión.

Mi hermano blanco, mi hermana blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Yo te di en herencia el plato del día-a-día, el fríjol y el arroz. De las sobras que recibía, hice la feijoada, el vatapá, el efó y el acarajé: la cocina típica de Bahía. Y tú me dejas pasar hambre. Permites que mis niños mueran de hambre o que sus cerebros queden irremediablemente afectados, infantilizándolos para siempre.

Yo fui arrancado violentamente de mi patria africana. Conocí el navío-fantasma de los negreros en el que tantos y tantas murieron y fueron lanzados al mar. Al llegar aquí fui hecho cosa, “pieza”, esclavo y esclava. Fui la madre-negra para tus hijos e hijas. Cultivé los campos, planté el tabaco para el cigarro y la caña para el azúcar. Hice todos los trabajos. Ayudé a construir gran parte de lo que existe en este país, monumentos, palacios e iglesias coloniales en las cuales muchos se revelaron grandes artistas. Y tú me llamas perezoso y me arrestas por vagabundo. Me discriminas debido al color de mi piel y me tratas como si todavía siguiera siendo esclavo.

Mi hermano blanco, mi hermana blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Yo supe resistir, conseguí huir y fundar quilombos: sociedades fraternales y sororales, sin esclavos, de gente pobre pero libre, negros, mestizos y blancos pobres. A pesar de los azotes en mi espalda, trasmití la cordialidad y la dulzura al alma brasilera. Y tú me cazaste como a un bicho, arrasaste mis quilombos y todavía hoy impides que la abolición de la miseria que esclaviza y de la discriminación que duele continúen como realidades cotidianas y efectivas.

Yo te mostré lo que significa ser templo vivo de Dios. Y, por eso, cómo sentir a Dios en el cuerpo lleno de axé y celebrarlo en el ritmo, en la danza y en las comidas sagradas. Y tú reprimiste mis religiones llamándolas ritos afrobrasileros o simple folclore. A menudo hiciste de la macumba un caso de policía.

Mi hermano blanco, mi hermana blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho yo, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Cuando con mucho esfuerzo y sacrificio conseguí ascender un poco en la vida, ganando un salario com mucho sudor, comprando mi casita, educando a mis hijos, cantando mi samba, animando a mi equipo preferido y pudiendo tomar el fin de semana una cervecita con los amigos, tú dices que soy un negro de alma blanca, disminuyendo así el valor de nuestra alma de negros dignos y trabajadores. Y en los concursos, en igualdad de condiciones, casi siempre decides a favor de un blanco. Porque soy negro o negra.

Y cuando se pensaron políticas públicas por un gobierno que cuida del pueblo, para reparar la infamia histórica, permitiéndome lo que siempre me negaste: estudiar y formarme en las universidades y en las escuelas técnicas y así mejorar mi vida y la de mi familia, la mayoría de los tuyos grita: va contra la constitución, es discriminación, es una injusticia social. Pero finalmente la Justicia ahora nos hizo justicia y nos abrió las puertas de las universidades y de las escuelas técnicas.

Mi hermano blanco, mi hermana blanca, pueblo mío: ¿qué te he hecho yo, en qué te entristecí? ¡Respóndeme!

Respóndeme, por favor”.

Y nosotros los blancos, los que disponemos del tener, del saber y del poder, generalmente callamos, avergonzados y cabizbajos. Es hora de escuchar el lamento de estas hermanas y hermanos nuestros afro-descendientes, sumar fuerzas con ellos y ellas y construir juntos una sociedad inclusiva, pluralista, negra, mestiza, fraterna, cordial donde nunca más haya, como todavía sigue habiendo en el campo y en las ciudades, personas que se atreven a esclavizar a otras persoas.

Ojalá podamos gritar: “esclavitud nunca más”. Y enjugando las lágrimas podamos responder a las discriminaciones con amor y comprensión como tantos y tantas afrodescendientes lo hacen. Y un día, que sólo Dios sabrá cuando, podremos decir todos juntos, como en el Apocalipsis, sin venganza y sin rencor: “Todo eso pasó”.

*Leonardo Boff ha escrito entre otros libros Tierra madura: una teología de la vida, Planeta, São Paulo 2023.

Traducción de Mª José Gavito Milano