A Terra seria como uma “Placa de Petri”,sinal de nossa extinção?

Leonardo Boff

Lynn Margulis e Dorian Sagan, notáveis cientistas, no conhecido livro Microcosmos (1990) afirmam com dados dos registros fósseis e da própria biologia evolutiva que um dos sinais do colapso próximo de uma espécie é sua rápida superpopulação.

Tal colapso pode ser verificado com micro-organismos colocados na Placa de Petri (placas de vidro sobrepostas com colônias de bactérias e nutrientes). Por uma espécie de instinto, pouco antes de atingirem as bordas da placa  e se esgotarem os nutrientes, multiplicam-se de forma exponencial. E de repente todas morrem. Nós não estaríamos nesta rota de crescimento exponencial da população humana e expostos a desaparecer? Os dados apontam para essa eventualidade.

A humanidade precisou um milhão de anos para chegar em 1850 a um bilhão de pessoas. A marca de 2 bilhões foi atingida em 1927; a de 3 bilhões em 1960; a de 4 bilhões em 1974; a de 5 bilhões em 1987; a de 6 bilhões em 1999; a de 7 bilhões em 2011; e por fim os 8 bilhões em 2023.Estima-se que por volta de 2050 alcançaremos a meta limite de 10-11 bilhões de habitantes. Isso significa que a humanidade cresceu em 1 bilhão de habitantes a cada 12 a 13 anos, um crescendo de fazer pensar.

É o triunfo inegável de  nossa espécie. Mas é um triunfo que pode ameaçar a nossa sobrevivência no planeta Terra, por efeito da superpopulação e por termos ultrapassado em 64% a capacidade de regeneração do planeta vivo, a Terra.

Para a humanidade, comentam as autoras, em consequência do crescimento crescente e rápido da população, o planeta Terra pode mostrar-se idêntica a uma Placa de Petri. Com efeito, ocupamos quase toda a superfície terrestre, deixando apenas 17% livre, por ser inóspita como os desertos e as altas montanhas nevadas ou rochosas.

Lamentavelmente,segundo vários cientistas, inauguramos uma nova era geológica,o antropoceno. De homicidas, etnocidas e ecocidas nos fizemos biocidas pois somos os que mais ameaçam e destroem a vida da natureza. Sabemos pelas ciências da vida e da Terra que todos os anos desaparecem naturalmente ou pela agressão humana centenas de espécies, depois de terem vivido milhões de anos sobre o planeta.

A extinção de espécies pertence à evolução da própria Terra que  conheceu pelo menos seis grandes misteriosas extinções em massa. Notórias são as do Devoniano há 370-360 milhões de anos que varreu do mapa 70-80% de todas as espécies e aquela do Permiano, de  há 250 milhões de anos, também chama de “A Grande Morte” na qual 95% dos organismos vivos foram extintos. A última, a sexta, está ocorrendo a nossos olhos sob o antropoceno no qual nós humanos, segundo o grande  biólogo falecido E.O.,Wilson extinguimos entre 70-100 mil espécies de organismos vivos.

O fato é que a superpopulação humana tocou nos limites da Terra. Conheceríamos também nós o mesmo destino das bactérias dentro da Placa de Petri, que alcançado um ponto alto de superpopulação, de repente, acabam morrendo?

Pergunta-se, será que no processo evolucionário não chegou  a nossa vez de desaparecer da face da Terra? A hipótese de que o planeta habitado de forma tão acelerada por tantos bilhões de humanos e se ter tornado, efetivamente, uma Placa de Petri ganha todo o sentido.

Somente que desta vez a extinção não seria por um processo natural, mesmo que misterioso, mas pela própria ação humana. Nossa civilização industrialista e sem coração, no afã de poder e de dominação, criou algo absolutamente irracional: o princípio de autodestruição por vários tipos de armas letais de toda a vida também da nossa.

Já temos feito o pior: quando o Filho de Deus se incarnou em nossa carne quente e mortal, nós o rejeitamos, o condenamos por um duplo juízo, um religioso e outro político e o assassinamos, pregando-o na cruz fora da cidade,como sinal de maldição.

Depois desse ato nefasto e ominoso, tudo é possível até a nossa própria autodestruição. Exterminar a nós mesmos é menos grave que matar o próprio Filho de Deus que passou por este mundo somente fazendo o bem.”Veio para o que era seu e os seus não o receberam” constata com infinita tristeza o evangelista João (Jo 1,11).

Mas consolemo-nos: ele ressuscitou, mostrou-se como o “o ser novo”(“novissimus Adam: 2Cor 15,45), já livre de ter que morrer e na plenitude de sua humanidade. Seria uma revolução na evolução e a amostragem antecipada do fim bom de toda a vida.

Para os professantes da fé, cremos e esperamos  que o Spiritus Creator, ainda possa iluminar as mentes humanas para que se conscientizem do risco de desaparecer e acabem voltando à racionalidade cordial, sabendo recuar e definindo um caminho de amorosidade, de piedade e de compaixão  para com todos os seus semelhantes, para coma natureza e para com Mãe Terra. E então teríamos ainda futuro. Assim o queremos e o queira também o Criador.

Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra – proteger a vida:como escapar do fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010; Cuidar da Casa Comum: pistas para protelar o fim do mundo, Vozes, Petrópolis 2023.

“Por uma Igreja Sinodal” II, o Direito Canônico, as mulheres e os pobres.   

Dom Erwin Kräutler


No dia 13 de junho, o Papa Francisco disse: “Espero que depois deste Sínodo, a sinodalidade permaneça como uma forma permanente de agir na Igreja em todos os níveis, penetrando no coração de todos, pastores e fiéis, até se tornar estilo comum na Igreja. Isso exige uma mudança que deve ocorrer em cada um de nós, uma verdadeira conversão” (Vatican News). Este é um desejo particularmente corajoso do nosso Papa Francisco! Ele sempre almejava de nós “propostas (ou sugestões) corajosas”: “Sean corajudos!” dizia aos bispos, a sacerdotes, a muitas mulheres e homens, aos indígenas e aos pobres. E esta “coragem”, repetidamente rogada, está muito próxima da “parrhesia” dos Atos dos Apóstolos.

Infelizmente, a experiência que tive no Sínodo para a Amazônia diminuiu um pouco as minhas expectativas. Naquele sínodo, bem mais de dois terços dos “padres sinodais” votavam no diaconato feminino e, para as regiões remotas da Amazônia e para os povos indígenas, insistiram no celibato opcional.

Na sua Exortação Apostólica pós-sinodal Querida Amazônia o Papa Francisco não se refere nem com uma única sílaba ao nosso desejo de finalmente restabelecer o diaconato feminino, ou de considerar uma dispensa do celibato para padres em certos ambientes e culturas, a fim de poderem em regiões de “penúria eucarística” celebrar a Eucaristia e ministrar os sacramentos.

O tema do atual Sínodo “Por uma Igreja sinodal: comunidade, participação e missão” parece transportar o chamado de João Batista para o nosso tempo: “Voz de quem clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas! Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas. As vias tortuosas serão endireitadas e os caminhos acidentados, aplainados. E todos verão a salvação que vem de Deus” (Lucas 3,4-6).

Algumas barreiras à sinodalidade em nossa Igreja:

Comunidade?

Como pode existir uma comunidade sinodal num sistema estritamente hierarquizado, com um Codex Iuris Canonici axiomático e categórico até nos mínimos detalhes, até o último ponto e vírgula? Como pode existir sinodalidade quando o pároco está canonicamente amparado para ter sempre a última palavra e ignorar qualquer decisão majoritária do Conselho Pastoral ou da comunidade paroquial sem sequer ter que declarar a razão de seu veto?

Como pode existir uma diocese sinodal onde “a competência decisória do Bispo (…) é inalienável, na medida em que está fundada na estrutura hierárquica da Igreja estabelecida por Cristo” (IL 2024, n. 70)? Com esta premissa, os organismos diocesanos, mesmo apelando-se para seu espírito de corresponsabilidade continuarão meros órgãos consultivos. Como pode uma diocese ser entendida como uma comunidade “sinodal”, se os bispos, num processo secreto, totalmente ignorado pelas lideranças diocesanas e sem qualquer consulta a representantes da Igreja Local, nem mesmo ao bispo anterior, simplesmente são determinados e nomeados para um Povo de Deus por eles desconhecido e antes nunca visitado? E este processo ainda é designado com o termo “eleição”!

Participação?

É direito de cada cristão “fazer parte” de sua Igreja, de assumir responsabilidades e ajudar a edificá-la. Este sentimento de pertença, e não apenas sentimento, mas também o direito de pertencer é crucial para uma comunidade sinodal.

Em nossa Igreja ainda é extremamente difícil fazer valer o sacerdócio comum de todos os fiéis (Lumen Gentium, 10). E ainda mais, em oposição às repetidas admoestações do Papa Francisco, se ergue ultimamente dos baús mofados de séculos passados, um neoclericalismo ferino. Há padres, e infelizmente também bispos, que consideram missão sua, restaurar a “velha disciplina”. A autoridade “de sempre” tem que ser devolvida aos antístites da igreja.

Com isso o sulco entre clérigos e leigos, se aprofunda ainda mais. Aos clérigos cabe a missão de “instruir”, de “doutrinar”, de “decidir e “definir”. Aos leigos é reservada a “bênção de obedecer”. Tal “disciplina” é perigosa e, sobretudo, antissinodal, porque contradiz o que Jesus disse: “Os reis das nações dominam sobre elas, e os que exercem poder se fazem chamar benfeitores. Entre vós não seja assim. Pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais novo, e o que manda como quem está servindo” (Lucas 22,25-26). Nossa “autoridade” não nos eleva acima do povo! Vivemos “para” o povo e caminhamos “com” o Povo de Deus. Esta é sinodalidade como Jesus a pede!

A participação é a pedra de toque sobre a qual se mantém ou cai a orientação sinodal da nossa Igreja: a “participação” das mulheres, que são mais que a metade de todos os fiéis! E é muito surpreendente que o nosso Papa Francisco excluiu este tema do programa do Sínodo e o adiou aparentemente para o Dia de São Nunca. Duas comissões já vasculharam a história das primeiras comunidades cristãs e logicamente não encontraram nenhuma pista de uma ordenação diaconal no rito de hoje, por exemplo no caso de Febe (Rom 16,1). Certamente uma ordenação presbiteral naquela época também não foi celebrada no rito romano, adotado hoje nas nossas catedrais.

Não se trata de detectar o que era praxe ou não dois mil anos atrás, mas sim o que é necessário hoje como resposta aos desafios do nosso tempo. Se mulheres há décadas são lideranças na grande maioria das comunidades da Amazônia, nas cidades e no campo, dirigem o culto dominical, explicam a Palavra de Deus, são autorizadas a batizar crianças ou assistir matrimônios, são catequistas, são professoras de religião nas escolas, e se é, graças aos seus esforços, que a Igreja na Amazônia realmente “vive”, como então a “igualdade de gênero” ainda não é acatada em nossa igreja! E por quê se nega às mulheres a graça da ordenação, simplesmente pelo fato “de serem mulheres”? A argumentação de que Jesus escolheu só “homens” – isto é, portadores de cromossomos XY – hoje não dá mais para ser sustentada.

A hipótese de os princípios “petrino” e “mariano” aparecerem separadamente na Igreja é tendenciosa! Afirmar que as mulheres são “marianas” e os homens “petrinos” é um disparate psicológico! Haverá sempre mulheres petrinas, como também homens marianos. E vice-versa! Ou, para ser mais claro: em cada mulher existem qualidades petrinas, assim como em cada homem existem qualidades marianas. “E Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gen 1,31). Somos sempre petrinos e marianos, petrinas e marianas! Graças a Deus!

Missão?

A Igreja é “enviada por Cristo a manifestar e a comunicar o amor de Deus a todas as pessoas e povos” (Ad Gentes, 10). Esta palavra do Decreto do Concílio Vaticano II. “sobre a atividade missionária da Igreja” indica a orientação para a missão de cada cristão, de cada cristã.

Estou convencido de que Jorge Mario Bergoglio foi eleito Papa porque no pré-conclave defendeu uma Igreja em saída que se aventura na periferia, não só a geográfica, mas a existencial, ou seja, que se dirige às pessoas à margem da sociedade, exatamente onde vivem, com todas as suas misérias e esperanças, as amarguras de exclusão e as suas expectativas. Ele escolheu o nome “Francisco”: prova como quer levar a sério uma Igreja que já o Papa João XXIII em 1962, pouco antes da abertura do Concílio Vaticano II., chamou de “a Igreja dos e para os pobres”. Na sua primeira audiência com jornalistas, em 16 de março de 2013, o Papa Francisco disse: “Oh, como eu quero uma Igreja pobre e uma Igreja dos pobres!”

Francisco foi a Lampedusa, a Lesbos, visitou prisões, lavou os pés dos encarcerados, incluindo mulheres muçulmanas, pediu desculpas aos povos indígenas no Canadá, ficou profundamente comovido com o grito dos povos indígenas em Puerto Maldonado, poucos meses antes do Sínodo da Amazônia, e assim por diante. Não faltam exemplos papais. E certamente há hoje na Igreja muitas pessoas e instituições que cuidam dos marginalizados e explorados. Mesmo assim continua muito grande o perigo de nossa Igreja voltar a ficar particularmente preocupada consigo mesma, especialmente depois do capítulo escandaloso e horrível dos abusos. O “Sínodo Sinodal” certamente não pode saltar por cima da própria sombra. Mas retirar-se “do mundo maligno” para sacristias com cheiro de incenso ou, então, tentar atrair as massas através de grandes eventos litúrgicos com muita pompa, musicata altissonante e paramentos suntuosos será definitivamente o caminho errado.

Para Francisco de Assis, o encontro com os leprosos foi um encontro concreto com o Senhor Jesus sofredor. Foi a experiência chave para compreendermos Francisco de Assis, homônimo do nosso Papa. Quem são e onde estão os “leprosos” do nosso tempo e mundo? Como e por que as pessoas vivem “nas periferias”, em bairros pobres e favelas, debaixo de pontes e amontoadas em barracas imundas? Por que é negado aos indígenas o direito à sua identidade? Por que continuam sendo expulsos de suas terras ancestrais? Por que as pessoas morrem “antes do tempo” por que não têm o suficiente para comer? Por que as crianças não chegam à idade adulta? Por que, pelo amor de Deus, há novamente guerras que atingem os pobres ainda mais duramente? Esta horrível ladainha não para por aí! Qual é a missão da Igreja? “Proclamar e comunicar o amor de Deus a todas as pessoas e povos”! Como isso poderá acontecer de modo bem concreto e profundamente sinodal?

O Instrumentum laboris, divulgado ontem, refere-se aos “pobres” apenas de modo marginal, periférico. Espelha a realidade em que os pobres vivem: na margem, na periferia. Encontrei a palavra “pobre(s)” apenas sete vezes em 112 artigos e em uma nota de rodapé. Na Parte III “Lugares” falta lamentavelmente um capítulo específico sobre os pobres e excluídos do “banquete da vida, para o qual todos os homens e mulheres são igualmente convidados por Deus” (João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis, n. 39). O documento reclama de um “mundo em que os poderosos ignoram os pobres, os marginalizados e as minorias” (IL 2024,n. 29). Será que só os poderosos do “mundo” ignoram os pobres? Aconselha o texto: “Um ponto particularmente significativo neste âmbito é a escuta das pessoas que vivenciam vários tipos de pobreza e marginalidade” (IL 2024, n. 54). O Instrumentum laborisé muito mais ad intra da Igreja do que ad extra!

Estas são apenas algumas preocupações ou questões a que a Segunda Parte do Sínodo “Uma Igreja Sinodal: Comunidade, Participação, Missão” terá que responder.

Dom Erwin Kräuter é bispos emérito da mais extensa diocese do mundo, a do Xingu,na Amazônia. Sempre pleiteou o reconhecimento daquilo que as mulheres,agentes de pastoral, fazem de modo especial nos fundos da floresta, todos os serviços religiosos e também a assim chamda “celebração da ceia no Senhor”como vem descrita por São Paulo na 1Coríntios 11,23-24.Ele junto com os mais sérios teólogos não vê nenhum empecilho doutrinário para que elas sejam ordenadas no sacramento da Ordem e assim se tornarem presbíteras: Leiam   Erwin Kräutler: “A ordenação sacerdotal feminina é uma questão irrevogável?”

Fonte: IHU 11/07/2024

La falta de la justa medida: el ADN de nuestra cultura

Leonardo Boff*

A donde quiera que dirijamos nuestra mirada lo que más salta a la vista es la falta de medida, el exceso, la exageración, la ausencia del camino del medio, no lo de más ni lo de menos, el desequilibrio en prácticamente todos los campos.

La justa medida está atestiguada en todas las grandes tradiciones éticas de las culturas mundiales. En el pórtico del gran templo de Delfos estaba escrito en letras enormes: méden ágan, que quiere decir: “nada de exceso”. Lo mismo se veía en los pórticos de los templos romanos: ne quid nimis: “nada de menos ni de más”. La justa medida se opone a toda ambición exacerbada (hybris). Requiere autocontrol, el sentido de equilibrio dinámico y la capacidad de imponer límites a nuestros impulsos. Pues bien, eso es exactamente lo que nos falta a nivel mundial. La falta de la justa medida forma parte del ADN de nuestra cultura hoy planetizada.

Eso se nota claramente en el sistema económico-político-social-comunicacional dominante. La más flagrante muestra de falta de la justa medida es el capitalismo. Donde se instala surge inmediatamente la desigualdad entre los dueños del capital, que poseen todo y deciden, y los trabajadores que solo venden sus capacidades, es decir, se instala inmediatamente la ruptura de la justa medida. Los mantras del capitalismo en sus distintas versiones se mantienen inalterados: búsqueda de la acumulación ilimitada para beneficio individual o corporativo. Aun sabiendo los límites de nuestro planeta, su motor es la competencia sin la más mínima cooperación, el saqueo de los bienes y servicios de la naturaleza sin tener en cuenta la sostenibilidad necesaria, la flexibilización de todas las leyes para abrir de par en par todas las puertas al proceso de explotación y de enriquecimiento, la presión para crear un estado mínimo, pues este es visto como un impedimento para la dinámica de la expansión del capital.

El efecto de este proceso es lo que recoge el economista Eduardo Moreira, exbanquero, transformado en uno de los mayores formuladores de conciencia crítica de nuestro país y el principal ideador del Instituto Conhecimento Liberta (ICL) que ofrece cerca de 270 cursos de excelencia en las más variadas áreas del saber al precio de un sandwich, con una asistencia de cerca de 100 mil personas. Dice: “El 1% de los dueños de tierras concentran más del 50% de las tierras cultivables del país; cuando consideramos el volumen de dinero, el 1% más rico del mundo posee más reservas acumuladas que el 90% más pobre; una verdadera catástrofe social (Desigualdade,Rio 2024)”. Este es un ejemplo clamoroso de nuestra absoluta falta de medida.

Esa falta de medida caracteriza igualmente a los grandes medios de comunicación mundiales, sean escritos, digitales y la media docena de plataformas de internet (Google, Meta, Facebook, Instagram, TikTok, X, Youtube y otras) en manos de un puñado de personas poderosísimas.

La falta de medida se revela profundamente brutal en la relación con la naturaleza, explotada desde hace siglos y en las últimas décadas devastada hasta tal punto que algunos científicos han propuesto la inauguración de una nueva era geológica, el antropoceno (el ser humano como factor principal de la destrucción de la naturaleza), radicalizado en el necroceno (la biodeversidad es diezmada) y últimamente en el piroceno (el aumento creciente de los grandes incendios en casi todas partes del planeta).

Tal vez una de las mayores demostraciones de la falta de justa medida nos es dada por el cambio climático, ya instalado hasta el punto de ser  considerado por los grandes órganos mundiales como irreversible. La emisión de gases de efecto invernadero en vez de disminuir está aumentando. Debido a la crisis energética hemos vuelto al uso del carbón, petróleo y gas, altamente contaminantes, a ellos se añade la insuficiencia de energías alternativas. El cambio climático no frenado, agravado por el aumento poblacional, puede llevar el futuro de la vida humana a un impasse y volver el planeta inhabitable.

Entre las muchas causas que nos han llevado a este peligroso estadio está seguramente la ruptura de la Matriz Relacional. Olvidamos que todas las cosas están inter-relacionadas. En el lenguaje poético del Papa Francisco en su encíclica sobre ecología integral (Sobre el cuidado de la Casa Común) “el sol y la luna, el cedro y la florecilla, el águila y el gorrión… significan que ninguna criatura se basta a sí misma, que no existen sino en dependencia unas de otras, para  completarse y servirse mutuamente” (n.86). Aquí aparece la justa medida natural, rota por las ciencias y por los muchos saberes.

La modernidad se funda sobre la atomización de los saberes, de las cosas consideradas sin un valor intrínseco y puestas al disfrute de los seres humanos o, en la peor tendencia, a la acumulación sin límites de bienes meramente materiales. Así surgió el mundo de las cosas; incluso las más sagradas, también los órganos humanos han sido transformados en mercancía a ser puesta en el mercado y conseguir su debido precio, cosa ya anunciada por Marx en 1847 en su Miseria de la filosofía y sistematizada en 1944 por Karl Polanyi en su obra La gran transformación.

¿Cómo salir de este enrocamiento de dimensiones trágicas? Si queremos continuar sobre este planeta no tenemos más salida que volver a la ética del cuidado de todas las cosas, de nuestras vidas y principalmente de la justa medida. Ella y el cuidado podrán salvar el futuro de nuestra civilización y de nuestra permanencia en la Tierra.

Preocupado con esta cuestión máxima de vida y de muerte, escribí  dos libros, fruto de una vasta investigación transcultural. El primero fue publicado en 2022 El pescador ambicioso y el pez encantado: la búsqueda de la justa medida. En él preferí el género narrativo usando  cuentos y mitos ligados a la justa medida. El segundo completa el primero, La búsqueda de la justa medida: cómo equilibrar el planeta Tierra, ambos publicados por la Editorial Vozes. En este segundo intenté de forma más científica ir a las causas que nos llevaron a olvidar la justa medida, exactamente la pérdida de la Matriz Relacional.  

Por más que nos esforcemos en creer que sólo la vuelta a la justa medida y a la ética del cuidado podrán salvarnos, permanece siempre esta angustiosa pregunta: dada la universalización de la grave crisis existencial, ¿tenemos aún tiempo y sabiduría suficientes para realizar esta conversión? La esperanza nunca muere y no deberá defraudarnos.

*Leonardo Boff ha escrito Habitar la Tierra, Vozes 2021 y El doloroso parto de la Madre Tierra, Vozes 2021.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Das Fehlen des rechten Maßes: die DNA unserer Kultur

Leonardo Boff

Wohin wir unseren Blick auch richten, was am meisten auffällt, ist das fehlende Maß, das Übermaß, die Übertreibung, das Fehlen des Mittelweges, das weder zu viel noch zu wenig, das Ungleichgewicht in praktisch allen Bereichen.

Das rechte Maß ist in allen großen ethischen Traditionen der Weltkulturen zu finden. Auf der Vorhalle des großen Tempels von Delphi stand in fetten Lettern geschrieben: méden ágan, was “nichts Übermäßiges” bedeutet. Dasselbe stand auf den Säulengängen der römischen Tempel: ne quid nimis: “nichts zu wenig oder zu viel” Ein angemessenes Maß steht jedem übertriebenen Ehrgeiz (hybris) entgegen. Es erfordert Selbstbeherrschung, einen Sinn für dynamisches Gleichgewicht und die Fähigkeit, unseren Impulsen Grenzen zu setzen. Genau daran mangelt es aber weltweit. Das Fehlen eines gerechten Maßes gehört zur DNA unserer heutigen globalisierten Kultur.

Dies zeigt sich deutlich in dem vorherrschenden wirtschaftlich-politisch-sozialen-kommunikativen System. Das offenkundigste Beispiel für das Fehlen eines gerechten Maßes ist der Kapitalismus. Wo immer Ungleichheit herrscht, entsteht Ungleichheit zwischen den Kapitaleignern, die alles besitzen und entscheiden, und den Arbeitnehmern, die nur ihre Fähigkeiten verkaufen, d.h. der Bruch des gerechten Maßes setzt sofort ein. Die Mantras des Kapitalismus in seinen verschiedenen Ausprägungen werden unverändert beibehalten: das Streben nach unbegrenzter Akkumulation zum individuellen oder unternehmerischen Nutzen, selbst wenn man die Grenzen unseres Planeten kennt, seine treibende Kraft ist der Wettbewerb ohne jeden Anflug von Kooperation, die Plünderung der Güter und Dienstleistungen der Natur ohne Rücksicht auf die notwendige Nachhaltigkeit, die Flexibilität aller Gesetze, um dem Prozess der Erkundung und Bereicherung alle Türen zu öffnen, der Druck, den Minimalstaat zu schaffen, da er als Hindernis für die Dynamik der Expansion des Kapitals angesehen wird.

Die Wirkung dieses Prozesses ist das, was der Wirtschaftswissenschaftler Eduardo Moreira, ein ehemaliger Banker, der sich in einen der größten Sprecher des kritischen Bewusstseins in unserem Land verwandelt hat und der Hauptgründer des   Knowledge Institute Befreit (ICL) ist, das etwa 270 Exzellenzkurse in den verschiedensten Wissensbereichen zum Preis eines Sandwiches anbietet mit einer Frequenz von etwa 100 Tausend Anhängern formuliert: “Das eine Prozent der Grundbesitzer konzentriert mehr als 50 % der landwirtschaftlichen Nutzfläche des Landes; wenn wir das Geldvolumen betrachten, hat das reichste ein Prozent der Welt mehr akkumulierte Reserven als die ärmsten 90 %; eine wahre soziale Katastrophe (E.Moreira, Desigualdade,Rio,2024)“ Dies ist ein eklatantes Beispiel für unseren absoluten Mangel an Maß.

Dieser Mangel an Maß kennzeichnet auch die wichtigsten Medien der Welt, ob in schriftlicher oder digitaler Form und ein halbes Dutzend Internetplattformen (Google, Meta, Facebook, Instagram, TikTok, X, YouTube und andere), die sich in den Händen einer Handvoll sehr mächtiger Personen befinden.

Das fehlende Maß zeigt sich in einem zutiefst brutalen Umgang mit der Natur, die jahrhundertelang ausgebeutet und in den letzten Jahrzehnten so verwüstet wurde, dass einige Wissenschaftler den Beginn eines neuen geologischen Zeitalters ausrufen, des Anthropozäns (der Mensch ist der Hauptfaktor für die Zerstörung der Natur), radikalisiert durch das Nekrozän (Dezimierung der biologischen Vielfalt) und in letzter Zeit durch das Pyrozän (die zunehmende Zunahme von Großbränden) in fast allen Teilen des Planeten.

Der Klimawandel, der bereits so weit fortgeschritten ist, dass er von den großen Weltorganisationen als unumkehrbar angesehen wird, ist vielleicht einer der besten Beweise für das Fehlen eines gerechten Maßes. Der Ausstoß von Treibhausgasen nimmt nicht ab, sondern zu; aufgrund der Energiekrise hat man sich der Nutzung von Kohle, Öl und Gas zugewandt, die sehr umweltschädlich sind, und auch wegen des Mangels an alternativen Energien. Ein unkontrollierter Klimawandel, der durch das Bevölkerungswachstum noch verstärkt wird, könnte die Zukunft des menschlichen Lebens zum Erliegen bringen und den Planeten unbewohnbar machen.

Zu den vielen Ursachen, die uns in dieses gefährliche Stadium geführt haben, gehört sicherlich die Störung der Beziehungsmatrix. Wir vergessen, dass alle Dinge miteinander verbunden sind. In der poetischen Sprache von Papst Franziskus in seiner Enzyklika über eine integrale Ökologie (Über die Sorge für das gemeinsame Haus) “bedeuten die Sonne und der Mond, die Zeder und die kleine Blume, der Adler und der Sperling…, dass kein Geschöpf für sich selbst ausreichend ist; sie existieren nur in Abhängigkeit voneinander, um sich im Dienst aneinander zu ergänzen” (Nr. 85). Hier erscheint das gerechte natürliche Maß, das durch die Wissenschaften und viele Formen des Wissens durchbrochen wird.

Die Moderne beruht auf der Atomisierung des Wissens, der Dinge, die als ohne inneren Wert betrachtet und zum Genuss der Menschen eingesetzt werden, oder – im schlimmsten Fall – auf der unbegrenzten Anhäufung rein materieller Güter. So entstand die Welt der Dinge; auch die heiligsten menschlichen Organe wurden in Waren verwandelt, die auf den Markt gebracht werden, um einen entsprechenden Preis zu erzielen, was Marx bereits 1847 in seinem „Elend der Philosophie“ angedeutet und Karl Polanyi 1944 in seinem Werk „Die große Transformation“ thematisiert hat.

Wie findet man aus diesem Schlamassel tragischen Ausmaßes heraus? Wir haben keinen anderen Ausweg, wenn wir auf diesem Planeten weiterleben wollen, als zur Ethik der Fürsorge für alle Dinge, unser Leben und vor allem zum rechten Maß zurückzukehren. Dies und die Fürsorge können die Zukunft unserer Zivilisation und unseren Aufenthalt auf der Erde retten.

Über diese letzte Frage, nämlich der nach Leben und Tod, habe ich zwei Bücher geschrieben, die das Ergebnis umfangreicher kulturübergreifender Untersuchungen sind. Das erste wurde 2022 veröffentlicht: „Der ehrgeizige Fischer und der verzauberte Fisch: die Suche nach dem rechten Maß“. Darin bevorzugte ich das erzählende Genre mit Geschichten und Mythen, die mit dem rechten Maß verbunden sind. Das zweite Buch ergänzt das erste, „Die Suche nach dem rechten Maß: Wie man den Planeten Erde ins Gleichgewicht bringt“, beide bei Editora Vozes. In diesem zweiten Buch habe ich versucht, auf wissenschaftlichere Art und Weise den Ursachen auf den Grund zu gehen, die uns dazu gebracht haben, das rechte Maß zu vergessen, nämlich den Verlust der Beziehungsmatrix.  

So sehr wir uns auch bemühen zu glauben, dass nur eine Rückkehr zum rechten Maß und zur Ethik der Fürsorge uns retten kann, stellt sich doch immer wieder die beunruhigende Frage: Haben wir angesichts der Universalisierung der schweren existenziellen Krise noch genügend Zeit und Weisheit, diese Umkehr zu vollziehen? Die Hoffnung stirbt nie und sollte uns nicht enttäuschen.

Leonardo Boff  Autor von: Inhabiting the Earth, Vozes 2021 and The painful birth of Mother Earth, Vozes 2021.