Do caos planetário atual é possível uma nova ordem?

                                               Leonardo Boff

No artigo anterior O caos atual destrutivo e o caos generativo como saída salvadora será completado pela seguinte reflexão feita há tempos  que aqui prolonga a anterior.

Como poucas vezes na história geral da humanidade,  a crise sistêmica e generalizada dá prenúncios apocalípticos que vêm sob o nome do antropoceno (o ser humano é o grande meteoro ameaçador da vida), do necroceno (morte massiva de espécies de vida) e ultimamente do piroceno (os grandes incêndios em várias regiões da Terra), tudo da irresponsável ação humana. Além disso são  consequências do novo rergime climático, dado como irreversível e não em último lugar, o risco de uma hecatombe nuclear a ponto de exterminar toda a vida humana a propósito da guerra Rússia-Ucrânia e as potências ocidentais. Putin já alertou que se houver forças militares ocidentais na Ucrânia pode usar armas nucleares táticas. Destroem pouco mas deixam a atmosfera toda contaminada.

 A situação geral do mundo não suscita otimismo, antes, abatimento e mesmo pessimismo e preocupação séria sobre o eventual fim de nossa espécie. Muitos jovens se dão conta de que, ao se prolongar o atual curso da história, não terão um futuro apetecível. Alguns se resignam, como recentemente num impressionante livro  denunciou Steven Rockfeller: boa parte da juventude norte-americana se desinteressa pelos valores tradicionais e democráticos da nação (cf.Spiritual Democracy and Our Schools,2022). Outros engajam-se corajosamente num movimento já planetário de salvaguarda da vida e do futuro de nossa Casa Comum, como o faz a jovem Greta Thunberg.

Não deixa de soar pesadamente a advertência do Papa Francisco em sua encíclica Fratelli tutti (2020):”Estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (n.32).

É neste contexto que buscamos alguma esperança num dos maiores cientistas atuais, já falecido, o russo-belga Ilya Prigogine, prêmio Nobel de Química em 1977, principalmente em “O fim das certezas (Unesp,1996). Ele e sua equipe criaram uma nova ciência, a física dos processos de não-equilíbrio, quer dizer, em situação de caos.

Em sua obra coloca em xeque a física clássica com suas leis determinísticas e mostra que a flecha do tempo não volta para trás (irreversibilidade) e aponta para probabilidades e nunca para certezas. A própria evolução do universo se caracteriza por flutuações, desvios, bifurcações, situações caóticas, como a primeira singularidade do big bang, geradora do universo. Enfatiza que o caos nunca é só destrutivo. Ele alberga uma ordem escondida que, dadas certas condições, irrompe e dá início a um outro tipo de ordem. O caos, portanto, pode ser generativo, pois, do caos surgiu a vida como ele mostrou em sua obra clássica (Order out of Chaos,1984).

Nesse cientista que era também um grande humanista, encontramos  reflexões que não são soluções, mas inspirações para desbloquear nosso horizonte sombrio e catastrófico. Pode gerar alguma esperança a despeito da disputa  perigosa pela hegemonia do processo histórico, unipolar (USA) ou multipolar (Rússia, China e os Brics).

Prigogine parte dizendo que o futuro não está determinado. “A criação do universo é antes de tudo uma criação de possibilidades, as quais algumas se realizam, outras não”. O que pode acontecer está sempre em potência, em suspensão e em estado de flutuação. Assim ocorreu na história das grandes dizimações ocorridas há milhões de anos no planeta Terra. Houve épocas, especialmente, quando ocorreu a rompimento da Pangeia (o continente único) que se partiu em partes,originado os vários continentes. Cerca de 75% da carga biótica desapareceu. A Terra precisou de alguns milhões de anos para refazer a sua biodiversidade.

Vale dizer, daquele caos surgiu uma nova ordem. Assim aconteceu com a última grande extinção em massa acontecida há 67 milhões de anos que levou todos os dinossauros mas poupou o nosso ancestral que evoluiu até atingir o estágio atual de sapiens sapiens ou, realisticamente, sapiens e demens.

Prigogine desenvolveu o que ele chamou de “estruturas dissipativas” como já explicamos no artigo anterior. Elas dissipam o caos, vale dizer, os dejetos são transformados em novas ordens. Assim, numa linguagem pedestre, do lixo do sol – os raios que se dispersam e chegam a nós – surge quase toda a vida no planeta Terra, especialmente a fotossíntese das plantas que nos entregam o oxigênio sem o qual ninguém vive. Essas estruturas dissipativas transformam a entropia em sintropia. O que é deixado de lado como caótico é retrabalhado até formar uma ordem nova. Desta forma, não iríamos ao encontro da morte térmica, a um colapso total de toda a matéria e energia, mas de ordens cada vez mais complexas e altas até à uma suprema ordem, cujo sentido último nos é desconhecido. Prigogine recusa a ideia de que tudo termina no pó cósmico. Quem sabe, seria  a tão sonhada noosfera de Pierre Teilhard.de Chardin.

Como consequência, Prigogine é otimista face ao caos atual, pois é inerente ao processo evolucionário. Nesta nossa fase, cabe ao ser humano a responsabilidade de, ao conhecer o dinamismo da história em aberto, assumir decisões que deem prevalência ao caos generativo e fazer valer as estruturas dissipativas que ponham freio à ação letal do caos destrutivo. O nosso destino está em nossas próprias mãos.

“Cabe ao homem tal qual é hoje, com seus problemas, dores e alegrias, garantir que sobreviva no futuro. A tarefa é encontrar a estreita via entre a globalização e a preservação do pluralismo cultural, entre a violência e a política, e entre a cultura da guerra e a da razão.” O ser humano comparece como um ser livre e criativo e poderá transformar-se e transformar o caos em cosmos (ordem nova).

Tal parece ser o desafio atual face ao caos que nos assola. Ou tomamos consciência de que sobre nós recai a responsabilidade de querermos continuar sobre este planeta ou permitir, por nossa irresponsabilidade, um armageddon ecológico-social. Seria o trágico fim de nossa espécie.

Alimentamos com Prigogine a esperança humana (e também teológica) de que o atual caos representa uma espécie de parto, com as dores que o acompanha, de uma nova forma de organizar a existência coletiva da espécie humana dentro da única Casa Comum, incluindo toda a natureza. Se grande é o risco, dizia um poeta alemão, grande também é a chance de salvação. Ou nas palavras das Escrituras: ”Onde abundou o pecado (caos), superabundou a graça (nova ordem:Epístola.aos Romanos 5,20). Assim esperamos e assim o queira o Deus.

Leonardo Boff ecoteólogo,filósofo  e escritor escreveu Habitar a Terra:qual o caminho para a fraternidade universal, Vozes 2022;O doloroso parto da Mãe Terra, Vozes 2021.

Das aktuelle zerstörerische Chaos und das generative Chaos als Retter

Wir leben unbestreitbar in einer Kombination von Krisen aller Art. Es sind so viele, dass wir sie nicht einmal aufzählen müssen. Mit einem Wort, wir leben in einer Situation, die von großem Chaos geprägt ist.

Seit vielen Jahren beschäftigen sich Wissenschaftler aus den Wissenschaften des Lebens und des Universums mit der Kategorie des Chaos. Das Chaos stellt sich als zerstörerisch für eine gegebene Ordnung und generativ für eine neue Ordnung dar, die in der zerstörerischen Ordnung verborgen ist und um ihre Entstehung ringt.

Machen wir diesen Kurs: Ursprünglich dachte man, das Universum sei statisch und werde durch deterministische Gesetze geregelt. Sogar Einstein selbst teilte anfangs diese Ansicht.

Doch alles begann sich zu ändern, als der Amateur-Kosmologe Hubble 1924 nachwies, dass das Universum nicht statisch ist, sondern sich ausdehnt und in eine Richtung bewegt, die wir nicht entziffern können. Später bemerkten die Wissenschaftler eine permanente Welle von sehr geringer Intensität, die von überall herkam. Es handelte sich um das letzte Echo des Urknalls, der vor etwa 13,7 Milliarden Jahren stattfand. Dies wäre der Ursprung des Universums.

In diesem Kontext der Evolution, die nicht linear zu sein scheint, sondern sprunghaft ansteigt, steht das Konzept des Chaos im Mittelpunkt. Der Urknall stellte ein unermessliches Chaos dar. Die Evolution entstand, um Ordnung in dieses ursprüngliche Chaos zu bringen und neue Ordnungen zu schaffen: die unzähligen Himmelskörper, Galaxien, Sterne und Planeten.

Das Phänomen des Chaos ergab sich aus der Beobachtung von Zufallsphänomenen wie der Wolkenbildung und insbesondere dem so genannten Schmetterlingseffekt. Mit anderen Worten: Kleine anfängliche Veränderungen, wie das Flattern der Flügel eines Schmetterlings in Brasilien, können letztendlich einen völlig anderen Effekt hervorrufen, wie einen Sturm über New York.

Das liegt daran, dass alle Elemente miteinander verbunden sind, alles mit allem zusammenhängt und sie überraschend komplex werden können. Die wachsende Komplexität aller Faktoren, die der Entstehung des Lebens und immer höherer Lebensordnungen zugrunde liegen, ist erkannt worden (vgl. J. Gleick Chaos: Creation of a New Science, 1989).

Die Bedeutung ist folgende: Im Chaos lauern Virtualitäten einer anderen Art von Ordnung. Und umgekehrt, hinter der Ordnung liegen Dimensionen des Chaos. Ilya Prigogine (1917-1993), der 1977 den Nobelpreis für Chemie erhielt, untersuchte insbesondere die Bedingungen, unter denen Leben aus dem Chaos entstehen kann.

Diesem großen Wissenschaftler zufolge entsteht immer dann eine neue Ordnung, wenn es ein offenes System gibt, wenn eine chaotische (also aus dem Gleichgewicht geratene) Situation vorliegt und die Verbindung zwischen den Teilen realisiert wird (vgl. Order out of Chaos, 1984). In diesem Fall wäre die neu entstehende Ordnung das Leben oder eine neue Art, die Gesellschaft zu organisieren.

Dennoch gibt es nach Ilya Prigogine dissipative Strukturen im Leben in einem doppelten Sinne: Sie verbrauchen viel Energie und vergeuden diese Energie in Form von Abfall; andererseits vergeuden diese Strukturen Entropie und machen den Abfall zur Grundlage für andere Lebensformen. Nichts geht verloren. Alles wird neu zusammengesetzt und erzeugt die Möglichkeit neuer Lebensformen und schließlich Gesellschaften, auf unbestimmte Zeit, als Teil des Evolutionsprozesses.

Versuchen wir, dieses Verständnis auf das zerstörerische Chaos von heute anzuwenden. Niemand kann sagen, welche Ordnung sich in diesem Chaos verbirgt.  Wir wissen nur, dass unter bestimmten sozio-historischen Bedingungen eine andere Ordnung entstehen kann. Wer wird sie enträtseln und damit das zerstörerische Chaos überwinden?

Was wir mit Sicherheit sagen können, ist, dass die derzeitige chaotische Ordnung, die in der Welt vorherrscht, keine Hilfe bei der Überwindung des Chaos bietet. Im Gegenteil, wenn wir sie weiterführen, könnte sie uns auf einen Weg führen, auf dem es kein Zurück mehr gibt. Das Endergebnis wäre der Abgrund. Albert Einstein hat zu Recht darauf hingewiesen: “Die Idee, die die Krise (wir würden sagen: das Chaos) verursacht hat, wird nicht dieselbe sein, die uns aus ihr herausführt; wir müssen uns ändern”.

Wenn die Menschheit mit grundlegenden, chaotischen Situationen konfrontiert ist, die ihre Existenz bedrohen könnten – und ich glaube, dass wir uns in solchen Situationen befinden – hat sie keine andere Wahl, als sich zu ändern. Ich denke, der beste Weg ist, unsere eigene menschliche Natur zu befragen. Sie ist zwar widersprüchlich (weise und wahnsinnig), zeichnet sich aber dadurch aus, dass sie ein unendliches Projekt voller Möglichkeiten ist, in denen sich Elemente einer anderen und besseren Ordnung finden lassen.

Dies wird notwendigerweise auf einer neuen, liebevollen und respektvollen Beziehung zur Natur beruhen, indem wir uns als Teil von ihr fühlen; auf der Liebe, die zu unserer DNA gehört; auf der Solidarität, die den Sprung von der Tierwelt zur Menschheit ermöglicht hat; auf der universellen Geschwisterlichkeit, die auf demselben genetischen Code beruht, der in allen Lebewesen vorhanden ist; auf der Kultivierung der Welt des Geistes, die auch zum Wesen des Menschen gehört. Dies macht uns kooperativ und mitfühlend und offenbart, dass wir ein Knoten von Beziehungen sind, die in alle Richtungen weisen, auch zu dem Wesen, das alle Wesen erschafft. Auf diese Weise würden wir uns weg vom destruktiven Chaos hin zum generativen Chaos bewegen.

Dies wären einige der Elemente, neben vielen anderen, die hier nicht erwähnt werden, die eine neue Ordnung und eine neue Art der freundschaftlichen Bewohnung des Planeten Erde, der als unser gemeinsames Haus betrachtet wird, einschließlich der Natur, begründen könnten. Und so wären wir gerettet, wenn wir das zerstörerische Chaos überwunden hätten, hin zu einem generativen Chaos mit einem anderen Horizont für das Leben und die Zukunft der Zivilisation.

Leonardo Boff ist ein Ökotheologe und Philosoph, der das Buch Caring for our Common Home: Clues for Delaying the End of the World, Vozes 2024 geschrieben hat.

Überstzung von Bettina Hartnachack

El caos destructivo actual y el caos generativo como salida salvadora

Leonardo Boff*

Es  innegable que estamos viviendo una conjunción de crisis de todo orden. Son tantas que no necesitamos citarlas. En una palabra, estamos viviendo una situación de gran caos.

Hace ya muchos años, científicos provenientes de las ciencias de la vida y del universo comenzaron a trabajar con la categoría de caos. Este se presenta como destructivo de un orden dado y, escondido dentro del destructivo, como generativo de un nuevo orden    que forcejea por nacer.

 Sigamos esta trayectoria: inicialmente se pensaba que el universo era estático y regulado por leyes determinísticas. Hasta el propio Einstein comulgaba inicialmente con esta visión. Pero todo empezó a cambiar cuando un cosmólogo aficionado, Edwin Hubble, comprobó en 1924 que el universo no era estático sino que se encontraba en expansión y en ruta de fuga hacia una dirección indescifrable por nosotros. Más tarde, científicos percibieron una onda permanente y de bajísima intensidad que venía de todas partes. Sería el último eco del big bang ocurrido hace unos 13.700 millones de años. Aquí estaría el origen del universo.

En este contexto de la evolución que se muestra no lineal, pero que da saltos hacia arriba y hacia delante, el concepto de caos adquirió centralidad. El big bang habría  producido un caos inconmensurable. La evolución habría surgido para poner orden  en ese caos original, creando órdenes nuevos: la miríada de cuerpos celestes, las galaxias, las estrellas y los planetas.

El fenómeno del caos resultó de  la observación de fenómenos aleatorios como la formación de las nubes y particularmente lo que se vino a llamar el efecto mariposa. Es decir: pequeñas modificaciones iniciales, como el batir de alas de una mariposa en Brasil, pueden provocar al final un efecto totalmente diferente, como una tempestad sobre Nueva York.

Esto es así porque todos los elementos están interligados, todo está relacionado con todo y puede complejizarse de forma sorprendente. Se ha constatado la creciente complejidad de todos los factores que están en la raíz de la emergencia de la vida y en órdenes de vida cada vez más altos (cf. J.Gleick Caos: criação de uma nova ciência,1989).

El sentido es este: dentro del caos se esconden virtualidades de otro tipo de orden. Y viceversa, detrás del orden se esconden dimensiones de caos. Ilya Prigrone (1917-1993), premio Nóbel de Química en 1977, estudió particularmente las condiciones que permiten la emergencia de la vida a partir del caos.

Según este gran científico, siempre que exista un sistema abierto, siempre que haya una situación de caos, por tanto, fuera  de equilibrio y se constate la conectividad entre las partes, se genera un nuevo orden (cf. Order out of Chaos,1984). En este caso, el nuevo orden emergente sería la vida o una forma nueva de organizar la sociedad.

Todavía según Ilya Prigogine, en el seno de la vida existen estructuras disipativas, en un doble sentido: ellas demandan mucha energía y así disipan esta energía en forma de residuos; por otro lado estas estructuras disipan la entropía y hacen de los  residuos base para otras formas de vida. Nada se pierde. Todo se recompone y genera la posibilidad de nuevas formas de vida y eventualmente de nuevas sociedades. Y eso indefinidamente, como proceso de la evolución.

Tratemos de aplicar esta comprensión al destructivo caos actual. Nadie puede decir qué orden, escondido   dentro de ese caos,  puede surgir. Solo sabemos que, dadas ciertas condiciones socio-históricas, puede irrumpir un orden diferente. ¿Quién podrá  descifrarlo y superar así el caos  destructivo?

Lo que podemos dar por cierto es que el actual orden caótico imperante en el mundo no ofrece ninguna ayuda para superar el caos. Al contrario, al llevarlo adelante, puede conducirnos a un camino sin retorno. El resultado final sería el abismo. Bien observaba Albert Einstein: “la idea que creó la crisis (diríamos el caos), no será la misma que nos sacará del ella; tenemos que cambiar”.

Cuando la humanidad se   enfrenta a  situaciones caóticas fundamentales que pueden amenazar su existencia –y creo que estamos dentro de ellas– no le queda más posibilidad que cambiar. Estimo que el camino mejor es consultar a nuestra propia naturaleza humana. Aunque contradictoria (sapiente y demente) ella se caracteriza por ser un proyecto infinito, cargado de potencialidades. Dentro de estas potencialidades se pueden identificar elementos de un orden diferente y mejor.

Este se fundará, necesariamente, en una nueva relación con la naturaleza, afectuosa y respetuosa, sintiéndonos parte de ella; en el amor que forma parte de nuestro ADN; en la solidaridad que permitió el salto de la animalidad a la humanidad; en la fraternidad universal, basada en el mismo código genético presente en todos los seres vivos; en el cultivo del mundo del  espíritu que pertenece también a la esencia del ser humano. Este nos vuelve cooperativos y compasivos y nos revela que somos un nudo de relaciones en todas las  direcciones incluso hacia Aquel Ser que hace ser a todos los seres. Así saldríamos del caos destructivo rumbo al caos generativo.

Estos, entre otros muchos no mencionados, serían algunos de los elementos que podrían fundar un nuevo orden y forma de habitar amigablemente el planeta Tierra, considerado como Casa Común, incluida la naturaleza. Y así estaríamos salvados, por haber superado el caos destructivo rumbo a un caos generativo con otro horizonte de vida y de futuro civilizatorio.

*Leonardo Boff es ecoteólogo y filósofo y ha escrito Cuidar de la Casa Común: pistas para posponer el fin del mundo, Vozes 2024.

UMA LIÇÃO PARA TODAS AS CIDADES COSTEIRAS DO BRASIL

Publicamos aqui a entrevista do professor Rualdo Menegat, professor da UFRS, especialista em gestão ambiental e que previu os desastres ocorridos com as enchentes ocorridas no mês de maio/junho do corrente ano no Rio Grande do Sul.Sua entrevista é didática e sugere formas de enfrentamento de enchentes especialmente nas cidades costeiras, fornecendo instrumentos de análise,criação de consciência social ambiental, participação da sociedades e educação nas escolas,tipos de construção de diques e tantas outras informações. Serão inspirações para os tomadores de decisões nos municipios e estados e gestores ambientais. Vale ler, divulguar e aplicar os ensinamentos deste especialista:LBoff

Entrevista com Rualdo Menegat

14 Junho 2024- IHU

A entrevista é de Luís Gomes, publicada por Sul21, 13-06-2024.

Resultado de uma parceria iniciada em 1994 entre a UFRGS — sob coordenação de Menegat –, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, o Atlas Ambiental de Porto Alegre traz um mapeamento de todo o ambiente natural e construído da Capital gaúcha, incluindo o sistema de proteção contra inundações. A obra, pioneira no mundo (disponível aqui), inspirou mais de 60 publicações similares no Brasil e no mundo. É a partir dessa experiência que o professor observou o desastre ambiental que atingiu o Rio Grande do Sul e Porto Alegre no mês de maio. E deixa claro: era possível imaginar.

“Eu imaginei isso em 2004. Em 2022, eu fiz uma conferência, na Conferência Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre, em que eu mostrei exatamente a criticidade do nosso território em termos de dois fenômenos importantes que aconteceram agora. Um, o da convergência das águas fluviais que convergem para o Delta do Jacuí, estou falando do Rio Jacuí, que recebe o Antas-Taquari, o Rio dos Sinos, o Rio Caí e o Gravataí, e que eles poderiam, no caso de uma grande chuva, convergir com muita água pro Delta do Jacuí, que, por sua vez, encontra uma bacia, o Guaíba, que está conectada com a Laguna dos Patos e o Oceano Atlântico, e que pode, devido a uma maré de tempestade em Rio Grande, não ter escoamento. Eu mostrei isso na conferência”, diz o professor.

Ele também destaca que, durante o período de elaboração do Atlas, em 1996, um dos primeiros especialistas em mudanças climáticas do mundo, o professor Vittorio Canuto, do Goddard Institute, da Nasa, em Nova York, veio a Porto Alegre para uma conferência que reuniu mais de mil pessoas.

“A gente já vinha trabalhando, com segurança, sobre informações do aquecimento global. No ano de 2004, se abateu no Rio Grande do Sul o primeiro furacão do Atlântico Sul, o furacão chamado Catarina, que aterrissou no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, na região de Torres, e sul de Santa Catarina. Quando eu medi por imagens de satélite o diâmetro do Catarina e vi que ele tinha 600 km, pensei que, se ele desviasse a sua rota — o furacão é como um peão no solo, tem uma certa ergodicidade, pode variar levemente seu caminho –, poderia ter vindo um pouco mais para o sul, 60 km, então ele teria aterrissado exatamente em Porto Alegre e na região metropolitana. Ali eu me deparei com a possibilidade de catástrofes extremas, de desastres produzidos por tempos severos em Porto Alegre”, afirma.

O De Poa, parceria do Sul21 com a Cubo Play, é um programa de entrevistas sobre temas que envolvem ou se relacionam com a cidade de Porto Alegre. Todas as quintas-feiras, conversamos com personagens ilustres ou que desenvolvem trabalhos importantes para a cidade. Semanalmente disponível nas plataformas da Cubo Play e do Sul21.

Eis a entrevista.

Professor, como coordenador desse esforço de fazer um mapeamento completo da cidade do ponto de vista ambiental, como é que o senhor avalia o que aconteceu em Porto Alegre em maio?

Bom, uma tristeza imensa. Em primeiro lugar, não há como fugir da tristeza, porque grande parte do que aconteceu era, de certa maneira, previsível. E também porque nós portalegrense e a Região Metropolitana sabemos o quanto é sensível a nossa região a inundações. Quer dizer, temos como notória a inundação de 1941, mas temos também é de 1984. Temos as mais recentes também, em 2015.

O ano passado.

O ano passado. Não é novidade inundar e, não por acaso, os nossos ancestrais de 41 e dos anos que se seguiram nos legaram um impressionante sistema de proteção contra inundações e contra alagamentos. Esse sistema, então, ele se demonstrou razoável para essa inundação que aconteceu agora em 2024. Ou seja, ele não foi sobrepassado, a água ficou no nível inferior ao dos diques externos, que é de 6 metros. Então, ele teria resistido. Em geral, teria evitado que, pelo menos, de 70% a 80% da cidade fosse atingida. E não aconteceu isso. Então, isso é muito dolorido, porque muitas coisas a gente não consegue prever na natureza, mas aprendemos com os eventos que passaram e isso é fundamental para continuar com resiliência num lugar sensível como Porto Alegre. Isso sim foi muito dramático para poder, digamos, acomodar do ponto de vista técnico, nós somos técnicos.

Professor, a gente conversava antes de começar o programa que o senhor teve um alerta de que poderia acontecer algo dessa magnitude há cerca de 20 anos. Eu queria que contasse para nós quando começou a perceber que uma enchente dessa proporção poderia, de fato, acontecer em Porto Alegre, não só em modelos hipotéticos?

Isso é muito interessante porque, quando fizemos o Atlas em 1998, trouxemos para Porto Alegre um primeiro expert internacional sobre mudanças climáticas, que era o professor Vittorio Canuto, do Goddard Institute, da Nasa, em Nova York. Ele fez a primeira conferência pública sobre esse tema ali na auditório da PUC, reunimos mil pessoas em 1996 para discutir mudança do clima. O Vittorio Canuto é um especialista, publicou nada menos do que 34 papers na Nature, um cara desse nível. Então, a gente já vinha trabalhando, com segurança, sobre informações do aquecimento global. No ano de 2004, se abateu no Rio Grande do Sul o primeiro furacão do Atlântico Sul, o furacão chamado Catarina, que aterrissou no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, na região de Torres, e sul de Santa Catarina.

Quando eu medi por imagens de satélite o diâmetro do Catarina e vi que ele tinha 600 km, pensei que, se ele desviasse a sua rota — o furacão é como um peão no solo, tem uma certa ergodicidade, pode variar levemente seu caminho –, poderia ter vindo um pouco mais para o sul, 60 km, então ele teria aterrissado exatamente em Porto Alegre e na região metropolitana. Ali eu me deparei com a possibilidade de catástrofes extremas, de desastres produzidos por tempos severos em Porto Alegre.

Eu procurei então avaliar os riscos da nossa Capital, os riscos não só produzidos pelo vento, mas, como nós sabemos também, um furacão é como uma mangueira muito grossa, de 10 km a 15 km de espessura, jorrando água numa região, borrifando uma região de água. Logo ali eu vi aqui o maior problema seria um alagamento interno da cidade e também uma inundação ao seu redor. Avaliei as possibilidades de evacuação da cidade previamente à vinda de um furacão, com as previsões. Tudo isso avaliei e avaliei como era frágil a nossa infraestrutura em termos de evacuação.

Eu percebi ali que a nossa infraestrutura estava muito concentrada no Humaitá e Navegantes, onde temos a ponte, temos o entroncamento da Freeway com a BR-116 e com a 386. É um entroncamento muito delicado, concentramos demasiadamente a nossa infraestrutura. Até depois foi colocado uma segunda ponte sobre o Delta do Jacuí e também um estádio de futebol imenso. Então, isso tudo mostrou que somos muito vulneráveis. Nós construímos uma infraestrutura vulnerável em relação à sensibilidade do território, seja agora com o aquecimento global, com um furacão, ou também com grandes enchentes. Essa inundação mostrou como Porto Alegre é facilmente isolável do ponto de vista infra estrutural, nós ficamos isolados, o que dificulta abastecimento, dificulta a própria capacidade de responder à emergência que se cria.

Com a sua trajetória de estudar o tema, quando a gente vê, em maio de 2024, colunas de jornais dizendo ninguém poderia imaginar o que iria acontecer. O que passa pela sua cabeça?

Ah, me passa que há falta de informação. Eu imaginei isso em 2004. Em 2022, eu fiz uma conferência, na Conferência Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre, em que eu mostrei exatamente a criticidade do nosso território em termos de dois fenômenos importantes que aconteceram agora. Um, o da convergência das águas fluviais que convergem para o Delta do Jacuí, estou falando do Rio Jacuí, que recebe o Antas-Taquari, o Rio dos Sinos, o Rio Caí e o Gravataí, e que eles poderiam, no caso de uma grande chuva, convergir com muita água pro Delta do Jacuí, que, por sua vez, encontra uma bacia, o Guaíba, que está conectado com a Laguna dos Patos e o Oceano Atlântico, e que pode, devido a uma maré de tempestade em Rio Grande, não ter escoamento. Eu mostrei isso na conferência.

Conferência com a participação da Prefeitura?

Claro, quem fez a abertura da conferência foi o prefeito Sebastião Melo. Ele estava lá fazendo a abertura da conferência. Estavam lá os técnicos da Prefeitura todos. Também foi conversado sobre a elevação do nível do mar nos próximos 100 anos e como Porto Alegre, é um tema que a gente não realiza muito do ponto de vista cultural, está no nível do mar. O Guaíba é parte do sistema costeiro interior, que nós chamamos também de mar de dentro, em que o Guaíba é parte do sistema de lagos e lagoas. Incluindo a Lagoa do Casamento, a Laguna dos Patos e a Lagoa Mirim. É um sistema fantástico de vasos comunicantes, ele é muito crítico também porque você não faz modelos fáceis sobre isso. Tem que incluir uma série de dados, variáveis e etc. O que torna um lugar muito bonito, é um lugar fantástico do mundo esse que nós habitamos na área, porque temos essa patrimônio hidrológico.

Mas, ao mesmo tempo, muito sensível. Isso representa uma oportunidade e também um perigo. Então, nós não soubemos administrar, gerir e culturalizar esse perigo. Dizer ao portoalegrense que nós pertencemos à região costeira e, portanto, estamos no nível do mar, e que se sobe o nível do mar, como está previsto para o presente século em até 60 centímetros, alguns mais pessimistas falam em 1 metro, nós teremos problemas em Porto Alegre. Como sabemos, toda cidade demora muito para se capacitar pra esses fenômenos, então nós temos que prever agora, para nossos netos lá na frente poderem ter resolvidas essas questões básicas, pela demora que a cidade tem natural. É complexo todo o sistema de gestão para responder isso. Veja que os ancestrais lá de 1941 demoraram 40 anos para construir todo o sistema de diques, que ainda não foi concluso. Ainda tem coisas sempre para ir melhorando o sistema. Falta proteger a zona sul, tem uma parte aqui na zona norte faltando melhor definir com casa de bombas. Enfim, isso é um sistema que tem que estar sempre melhorando. Para mim, não se coloca essa ideia de que não sabíamos, que é surpreendente. Nada surpreendente, ao contrário.

Qual foi a resposta do poder público para todos esses avisos que o senhor deu ao longo das últimas décadas?

Bom, isso é uma coisa importante, porque nós podemos dividir um desastre como esse em duas partes nítidas. Uma parte é o perigo. Quando se diz que pode haver uma precipitação de 800 milímetros numa região, isso representa um perigo, não necessariamente um risco. Veja se 800 milímetros de água caírem no Oceano Atlântico, não causa riscos, exceto se tiver uma embarcação ou plataformas de petróleo ali, mas, não tendo, às vezes nem ficamos sabendo, só os meteorologistas. Agora 800 milímetros de água caem no Planalto Meridional, ali no nordeste do Rio Grande do Sul, isso representa então uma grande ameaça para toda aquela região e também para os moradores da bacia hidrográfica.

Aí então nós vamos analisar um segundo aspecto, que é o risco. O risco é calculado em termos da vulnerabilidade, ou seja, quanto uma população, uma infraestrutura, uma lavoura, equipamentos, podem ser avariados, danificados, até levar a fatalidades, diante desse perigo. Então, nós analisamos a vulnerabilidade do sistema humano frente ao perigo, e isso então resulta no cálculo do risco. O risco é calculável, o risco é um número. Esse número é dado em termos econômicos, é o tamanho da perda e o tamanho da probabilidade de ter fatalidades.

Bom, para então enfrentar o risco, nós temos a capacidade de responder. O que que é a capacidade? São infraestruturas. Por exemplo, um dique de proteção contra inundação melhora a nossa capacidade de diminuir o risco. Nós diminuímos o risco. Sem o dique nós temos um risco elevadíssimo, de 80% em caso de uma precipitação dessas de haver uma inundação terrível, com o dique o nosso risco quase fica reduzido a 10%, a 5%. Outra função importante para diminuir o risco é também a gestão ambiental. Por quê? Porque os serviços ecossistêmicos são naturalmente elementos que diminuem a velocidade das águas, como matas ripárias, banhados. Eles também diminuem o volume das águas, à medida que facilitam a infiltração. Então, políticas e programas fortes de gestão ambiental são fundamentais para diminuir o risco.

E como te parece que está a nossa cidade e também a região metropolitana quanto a isso?

Nós vamos ver que, do ponto de vista da gestão ambiental, há um apagão em Porto Alegre. Um apagão assustador. Esse apagão é muito fácil de ser visto quando nós vamos visitar as comunidades, por exemplo, dos morros de Porto Alegre. Os arroios de Porto Alegre estão atulhados de resíduos, de uma maneira tão indigna, tão indigna, porque, além da deterioração ambiental, há também a deterioração social, a produção de doenças, é um aspecto. São pessoas que estão morando ali, é como se estivessem confinadas no porão de um navio. Nós não olhamos isso, a gente só olha o Arroio Dilúvio e não se fala dos outros arroios porque estão em grande parte, aqui no Centro, todos soterrados de alguma maneira. Mas, agestão ambiental de Porto Alegre não tem gestão dos arroios, não tem gestão correta dos resíduos, não tem gestão do ar que respiramos. Nós nem sabemos o grau da contaminação do ar, porque não há simplesmente medição.

Então, essa situação de não gestão do território leva ao caos do território. E, diante então de um evento como esse que a gente enfrentou, esse caos do território faz-se observar. Por quê? Os bueiros ficaram totalmente entupidos por quantidade de resíduos, os resíduos todos foram trazidos pela chuva para se concentrarem no meio da água, no meio da inundação. Essa água da inundação ficou completamente contaminada. Nós já vamos ter trabalhos científicos avaliando essa contaminação. As lamas que vieram junto com as águas também são contaminadas. Então, veja como que a falência da gestão ambiental, o apagão da gestão ambiental, faz agora durante uma crise uma inundação desse tipo aumentar enormemente a exposição a poluentes que vão trazer grandes problemas para a saúde da população exposta, etc, etc. Então, a gestão ambiental é o tema de casa número um para enfrentar as mudanças climáticas.

E quais são as medidas que tem que começar agora, já, do ponto de vista da gestão ambiental, que não dá para esperar o mês que vem, não dá para esperar o ano que vem. O que dá para começar agora?

Agora, já, é arroios e resíduos. Porto Alegre já foi referência internacional na gestão de resíduos. Aqui se começou, com a Marli Medeiros, na década de 80, que morava aqui na Bom Jesus, ela começou a fazer reciclagem para trazer renda para a população da comunidade dela. E com ela essa cidade aprendeu a fazer reciclagem, que em seguida se tornaram programas pioneiros da Prefeitura de Porto Alegre no início dos anos 1990. Depois só cresceu e depois Curitiba foi fazer programa de reciclagem, depois de Porto Alegre. E Porto Alegre agora começou essa reciclagem de resíduos, para onde são destinados? Por que que não temos programas de compostagem para resíduos orgânicos? Enfim, perdemos totalmente a mão nessa questão da gestão de resíduos, os arroios estão assoreados por resíduos. É por ali que tem que começar, porque essa questão trará dignidade também para as pessoas. As pessoas devem querer também melhorar o seu ambiente, elas fazem parte da gestão.

O segundo aspecto é a educação ambiental. Todo programa de gestão ambiental tem que ser participativo. Não existe a gestão ambiental de gabinete. Essa ideia de que vamos resolver aqui, contratar uma consultoria ali, terceirizar. Não se terceiriza a gestão ambiental, porque ela precisa do cidadão e da cidadã. Se cada um de nós não tem consciência da sensibilidade do lugar em que mora, nós moramos em um lugar sensível, um lugar que tem muitos riscos e um lugar que tem que estar sempre pronto em termos de facilitar o escoamento d’água, ter os sistemas funcionando, isso depende de cada um de nós. Eu acho que essa ideia de uma Prefeitura mínima, uma Prefeitura que já não faz mais nada, a Secretaria de Meio Ambiente foi incorporada junto com outra Secretaria de Urbanismo. São incompatíveis, porque uma secretaria tem um papel de criticar certas práticas urbanísticas, faz parte do procedimento técnico. Nós técnicos trabalhamos com críticas.

E hoje é uma secretaria de licenciamento.

Exatamente. Tu vê, a gestão das nossas praças e é só uma gestão de capina, poda indiscriminada. A praça ali perto da minha casa foi podada de tal maneira, com morte de pássaros. Então, não há sensibilidade ambiental ali. A educação ambiental, portanto, é fundamental. Nós tínhamos um programa de educação ambiental fantástico em Porto Alegre, que derivou do Atlas Ambiental. Logo que concluímos o Atlas Ambiental, em 1998, nós começamos um poderoso programa de educação ambiental. Lá na universidade, nós fizemos cursos para uso do Atlas em sala de aula. Nós formamos 600 professores municipais, em edições anuais, cursos anuais, para uso do Atlas em sala de aula, para ensinar as crianças de Porto Alegre o belíssimo lugar em que vivemos, como cuidar. E tu sabe que o Atlas tem ali, por exemplo, todo o sistema de proteção contra inundações.

Na época, eram dezenove casas de bomba, hoje são 23, mas todas as casas de bomba estão ali nominadas, mapeadas, localizadas. Então, é uma obra fantástica para você introduzir todo o temário que estamos discutindo aqui. Bom, esse programa foi pioneiro também, é um programa que me orgulho muito, não só por ter trabalhado com a rede municipal de ensino, mas também porque nós inovamos a maneira de fazer educação ambiental nas escolas por meio da implantação de laboratórios de inteligência do ambiente urbano.

O que que é um laboratório? O laboratório é um grupo de crianças e professores da comunidade escolar que vai construir uma espécie de um mini museu do bairro dentro da escola. É uma sala onde você vai encontrar coleções de rochas do bairro, mapas do bairro, maquete do bairro, tudo feito pelas crianças e pela comunidade escolar. Então, os pais e mães das crianças podem ir lá na escola e visitar esse mini museu e ele é explicado pelas crianças. Isso produz uma apropriação do lugar, um conhecimento fantástico, uma educação ambiental profunda, porque ela cria algo fundamental para enfrentar catástrofes, que é inteligência social do lugar. É a ideia de que cada lugar de Porto Alegre tem sua inteligência e que sabe responder a um desastre ambiental, seja uma chuva forte como a que ocorreu aqui, uma inundação, sejam chuvas mais leves. Veja que nós já tivemos torrentes aqui em Porto Alegre exatamente ali no Arroio Moinho, em que houve fatalidade, uma enxurrada muito grande nos morros. Então, nós precisamos ter inteligência social do lugar.

Esse trabalho de educação ambiental foi se enfraquecendo ao longo dos anos?

Ele não só enfraqueceu ao longo dos últimos 10 anos, como ele foi eliminado na gestão do prefeito Marchezan. Em 2018, ele eliminou. Nós tínhamos uma rede de 32 laboratórios de inteligência do ambiente urbano, um programa internacionalmente conhecido na América Latina e no mundo, porque ele é sensacional. Ele é um sistema de educação muito interessante, porque realmente faz com que a comunidade escolar se torne um centro de saberes locais. Induz a comunidade a conhecer verdadeiramente o lugar em que vive e a escola, com isso, se abre para a sua comunidade, ela passa a ser um equipamento querido da comunidade. Porque a escola passa a se interessar verdadeiramente pela cultura que está ali. E isso, em 2018, foi completamente encerrado. Uma pena muito grande, ficamos todos muito tristes, porque a comunidade de professores e professoras da rede municipal é impressionante. Houve um momento em que eu tinha dúvidas se não colocaria meu filho para estudar na escola municipal, tão fantástica que era a rede municipal de Porto Alegre.

O senhor falou há pouco sobre assoreamento de arroios. A gente recebeu várias perguntas depois do que aconteceu em Porto Alegre sobre de que maneira essa falta de cuidado com os rios, com as margens, com o próprio depósito de resíduos ao longo dos nossos rios e do Guaíba contribuiu para a enchente. O senhor consegue fazer uma avaliação do que poderia ter sido feito para minimizar o impacto?

Veja que a inundação em Porto Alegre não aconteceu por sobrepassagem da água nos diques externos, ela aconteceu por entrada da água pelas comportas do sistema nas casas de bomba. O que que acontece ali? Quando a água começou a escoar de volta para Guaíba e para o Gravataí, veio consigo muitos resíduos, que foram então entupindo, foram obstaculizando os dutos, os bueiros, etc. Isso gerou então alagamento na cidade. Se você estiver lembrado, nós tivemos um pico de cheia, depois baixou um pouco, tivemos um segundo pico de cheia e um terceiro. Esse terceiro foi ocasionado pela quantidade de chuva que caiu no nosso território.

Foi naquela quinta-feira que choveu muito em Porto Alegre.

Choveu muito em Porto Alegre. E aí, então, os bueiros estavam todos lotados de resíduos, trazidos pelas águas da inundação. Se a cidade estivesse com um sistema de cuidado em relação a resíduos e seus arroios, desassoreando, limpando, a quantidade de resíduos que teria voltado com a inundação para o Guaíba e o Gravataí teria sido muito menor. Porque, no momento crítico de emergência, podem acontecer ainda elementos intercorrentes, como uma grande chuva no próprio território onde está a crise de emergência. O que foi o caso dessa chuvarada da quinta-feira. E isso levou de novo ao desespero de pessoas, de novo trouxe muitas consequências difíceis para uma população que já estava no meio de uma crise severa. Isso é uma clara demonstração do que que significa uma cidade que não fez devidamente seu tema de casa com a gestão ambiental, como isso aumenta os riscos e aumenta os impactos negativos, as dificuldades também daí de resgate e etc.

Professor, a gente falou das medidas de curto prazo, da educação ambiental, falamos agora da questão dos resíduos. E olhando mais para o futuro de uma cidade que é suscetível a grande concentração de chuvas, a furacões, a fortes ventos, como aconteceu em 2016, à elevação do nível do mar, que o senhor disse que vai acontecer nas próximas décadas. O que a gente pode fazer do ponto de vista de gestão ambiental e também de preparação para esses eventos ao longo das próximas décadas, que devem ser feitos ou então nós vamos continuar sofrendo quem sabe até eventos piores do que esse que a gente acompanhou agora em maio?

Eu acho essa questão central. E o que é central ali não são só medidas técnicas. Não temos bala de prata, não há bala de prata. Nós vimos que muitos propuseram abrir um canal ali na restinga da Laguna dos Patos com o Oceano Atlântico. Essas ideias de balas de prata são só ideias que custam muito caro e que não vão funcionar. O que funciona realmente é a cultura da coisa. Nós temos que ter uma cultura de que nós moramos num lugar sensível e de que as coisas podem acontecer. Então, essa consciência nós precisamos dela e essa consciência a gente cria com cultura, com educação e com medidas.

Medidas que vão deixar a população sempre ativa em relação a essa cultura. Ativa, por exemplo, nós em Porto Alegre devemos ter um dia ou uma semana de preparação, de treinamento, em relação a inundações e a tempos severos. O que que é treinar? Bom, são as escolas ou locais de trabalho olharem onde estão, verem quais são os seus riscos. E para isso nós temos o Atlas, temos materiais hoje incríveis para que nessa semana sempre recorrentemente sobre a nossa situação de riscos, de alertas, sobre o que fazer. Não é possível no caso de uma emergência, durante o desastre, que as populações, por exemplo, ali da zona norte, não soubessem para onde ir em caso de evacuação. Isso não existe nos sistemas de prevenção de desastre. Os sistemas de prevenção de desastres tem protocolos muito bem elaborados, com toda experiência internacional. A ONU publicou esses protocolos ainda em 2000, na gestão do Kofi Annan. Temos tudo isso, há uma ciência de desastres.

E a gente não tinha nada aqui?

Não tinha nada disso. Não tinha planos de prevenção, não tinha mapas de riscos bem definidos, não tinha a preparação da população, nós não tínhamos também uma defesa civil apropriada, capacitada para enfrentar isso. Isso não quer dizer que eles não fizeram um esforço fantástico que nós vamos agradecer a vida inteira. O socorro é quando nada deu certo. O socorro deve ser evitado com a evacuação das pessoas. A evacuação das pessoas não é socorro, é um processo que tu faz com antecedência, com calma, com consciência. Então, não há planejamento de nada. Isso é um aspecto fundamental, nós temos que criar capacidade de enfrentamento às emergências climáticas.

Veja, a emergência climática, os tempos severos, não são uma fatalidade. Eu acho que esse é o pior recado político, social, cultural, que nós podemos passar para as gerações futuras, de que não tem saída. Não tem saída porque não se capacitaram, não tem saída porque negligenciaram, não tem saída porque houve muito descaso. Não foi pouco descaso, muito descaso. A falta de manutenção do dique representa, do meu ponto de vista, a mesma coisa que trancar os coletes salva-vidas numa sala. Esse é o tamanho do descaso. E passar para as gerações futuras a ideia de que nós não temos saída na área, é esse o recado que passa o descaso. E não, nós podemos enfrentar desde que a gente reconheça a sensibilidade e nos tornemos capazes, do ponto de vista de uma inteligência social do lugar.

Então, nós temos que construir uma inteligência social do lugar, de cada lugar, de cada bairro de Porto Alegre. E essa inteligência social não é só uma consciência do que se fazer, é um plano, mas ela é também equipamentos. Você falou, por exemplo, da subida do nível do mar. Ele está subindo, daqui a 60 anos já deverá alcançar uma cota de 60 centímetros. Isso é fundamental, porque, com 60 centímetros, a água já ultrapassaria o nosso dique se fosse uma enxurrada como a que aconteceu.

Fonte:Instituo Humanitas Unisinos (IHU) 14/6/2024