Um Papa que ama ao modo de Jesus

                                            Leonardo Boff

No dia 13 de março a Igreja celebrou 10 anos de pontificado do Papa Francisco. É a primeira vez na história da Igreja que um Papa é eleito fora da galáxia do cristianismo europeu. E com razão, pois a vitalidade da mensagem evangélica se enraizou nas culturas não-europeias nas quais numericamente vive a maioria dos católicos. Enfatizamos algumas características de seu pontificado.

A mais importante delas foi a nova atmosfera criada dentro da comunidade cristã a nível mundial. Saímos de um inverno, dos últimos Papas, e inaugurou-se uma primavera.Predomina não mais a doutrina, mas a vida concreta da fé. Já não há medo e condenações, mas grande liberdade de expressão e de participação,especialmente de mulheres em cargos importantes dentro do Vaticano.

O Papa Francisco deu corpo a um novo modo de ser Papa. Já não vive no palácio pontifício, mas numa casa de hóspedes, Santa Marta. Recusa qualquer privilégio. Vive em seu quarto de hóspedes. Outro é reservado para receber pessoas. Entra na fila ao servi-se nas refeições. Com humor, pensando em fatos do passado, diz, “assim é mais difícil que me envenenem”. Vive uma pobreza franciscana, despojando-se de todos os símbolos de poder.

Abriu uma perspectiva nova para a Igreja. Se antes era um castelo fortificado contra os erros do mundo, agora é “uma Igreja-hospital-de-campanha” que acolhe a todos, sem perguntar sua origem ou seu estado moral. Como enfatiza: “é uma Igreja em saída para as periferias existenciais”, colando seu ouvido ao grito dos sofredores deste mudo.

Conferiu centralidade aos pobres. Escolheu o  nome de Francisco para resgatar a figura de São Francisco, o poverello de Assis. Em sua primeira aparição disse claramente: quero uma Igreja de pobres e uma Igreja com os pobres.Pouco importa se o pobre é cristão ou muçulmano: lava-lhes os pés da Quinta-Feira Santa. Sua inspiração maior é o Jesus histórico, artesão, contador de histórias, defensor de todos os que menos vida têm, curando-os de suas doenças, enxugando-lhes as lágrimas e até ressuscitando mortos. Chama Deus de Abbá=”paizinho querido” sentido-se seu Filho bem-amado. Ama a todos no modo desse Deus-Abbá, bem expresso no evangelho de São João:”se alguém vem a mim eu não o mandarei embora”(Jo 6,37). Podia ser uma adúltera,um teólogo angustiado como Nicodemos que o procura à noite, ou um mulher estrangeira sírio-fenícia ou um oficial romano. A todos acolhe afetuosamente.

Deixou muitas vezes claro que Jesus não veio criar uma nova religião, mas veio ensinar-nos a viver: o amor incondicional, a solidariedade, a compaixão e o perdão. As doutrinas estão aí e não há por que não dar-lhe importância. Mas só com elas não  se chega ao coração do ser humano. Precisa-se ternura e amor.

O que convence as pessoas e as deixa até fascinadas é sua pregação ininterrupta sobre a  importância dessa ternura que abraça o outro e que se aplica também à política,como claramente o diz em sua encíclica Fratelli tutti.

Mas para ele, a culminância de sua pregação é a misericórdia. É a característica pessoal de Jesus e se enraíza na essência de Deus mesmo. Ninguém pode pôr limites à misericórdia de Deus que alcança até o pior dos pecadores. Deus não pode perder nenhum filho ou filha que criou com amor. Ele não pode perder nunca. Por isso assevera que a condenação é somente para esse mundo. Todos são destinados, por causa da ilimitada misericórdia, a participar do Reino bem-aventurado da Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A mensagem de Jesus não é somente boa na perspectiva da vida eterna. Mas também  deve ser boa para esta vida e para a própria Mãe Terra. Sua encíclica “como cuidar da Casa Comum: Laudato Sì (2015) o coloca, conforme notáveis ecólogos, na ponta de reflexão ecológica mundial. Não se trata de uma ecologia verde, mas de um ecologia integral: abarca o ambiental, o político, o social,o cultural, a vida cotidiana e a vida do espírito. Não se trata de uma técnica de sanar as feridas no corpo da Mãe Terra, mas de uma arte de viver em comunhão com ela e com todas as demais criaturas, abraçadas como irmãs e irmãos. É tão preocupado pelo futuro da vida que diz com palavras severas em sua outra encíclica Fratelli tutti (2020) “ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”.

Não obstante as nuvens escuras que encobrem nosso futuro, mostra-se esperançoso.Confia na esperança como aquele princípio ou melhor, aquele motor que trabalha sempre dentro de nós, buscando melhores caminhos, projetando utopias viáveis e desanuviando a obscuridade de nossa história. Ela se expressa por estas palavras no final de sua encíclica “Como cuidar da Casa Comum”: “Caminhemos cantando, que as nossas lutas e a preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”.

Em fim, estamos diante de uma figura de especial densidade humana, testemunha de uma fé e de uma esperança inabaláveis de que atravessaremos os sombrios tempos atuais rumo a uma biocivilização na qual possamos nos irmanar entre todos, a natureza incluída, dentro da mesma grande Casa Comum, cuidada e amada.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu: Francisco de Assis-Francisco de Roma: a irrupção da primavera, Rio, Mar de Ideias 2012.

LA RIVOLUZIONE PACIFICA DELLE DONNE

                   Iris Boff*

Nella purezza delle intenzioni della tua testa, nell’innocente pudore del tuo corpo, nello splendore vitale della tua anima, sciogli i lacci della tua camicetta, per espandere l’intelligenza del tuo cuore.

Sbottona una parte del vestito, per espandere il tuo campo di libertà. Tieni alta la gonna per correre tra i campi di rugiada, alla velocità che il cambiamento esige.

Non vergognarti del tuo corpo, canale sacro della vita.

Donna, esci dalla caverna, da questa trincea di millenni, a te imposta. Prendi possesso del tuo potere rivoluzionario perché è integrativo, creativo e rigenerativo. Mostra che la Donna non è solo la metà dell’umanità, ma la compagna e l’ostetrica, Madre, Nonna e figlia dell’altra metà. Annuncia al mondo che la Nuova Umanità sta prendendo forma nel tuo corpo e nella tua mente. Esprimi questo potere di integrazione. Cosciente di questa Pienezza, senti di sapere e sai di sentire, perché hai un cervello nel grembo e un grembo nel cervello.

Più forte e potente di una bomba atomica, il tuo utero trasforma una minuscola cellula in un Essere Vivente completo e perfetto.

Lì c’è il potere e la rivoluzione pacifica, disarmata e silenziosa della donna.

Come una grande enciclopedia, il tuo corpo porta l’origine del Mondo. Ebbene, ogni volta che una Nuova Vita lo abita, in soli 9 mesi si ripetono in esso i milioni di anni della lunga, paziente e graduale storia ascendente della nostra Umanità.

Portatrice di questo Mistero, non tradire o negare questa conoscenza, dono gratuito della Natura e di Dio. In un mondo orfano ed esiliato da questa Spiritualità, usa questo potere mistico, familiare e domestico. Prendi posizione, demarca il tuo territorio, agisci e reagisci come sei abituata a fare con il frutto delle tue viscere.

Donna! Madre, come sostieni un bambino che sta appena iniziando a camminare, prendi la mano di questa Umanità, che come una piccola creatura, è confusa e brancolante nel fare nuovi passi sui sentieri pericolosi e complessi del nostro tempo. Indica, stimola, consola, sostieni.

Donna, Amata e Amante, Donna “Della Casa”, tra le tue braccia accogli e culla il nostro uomo moderno, stanco e disincantato di essere l’unico artefice e responsabile del progresso, questo “giocattolo pericoloso” che lui stesso ha costruito. Con la sua vita minacciata, spaventato ed esiliato dal tuo grembo, vuole tornare a casa. Tu sai molto bene di riparo, di sicurezza, di protezione e di pace.

Ci sono momenti nella nostra storia in cui la notte è lunga, buia e spaventosa. Donna Antica, Saggia Anziana, tu che in queste situazioni sei guidata dal ritmo con cui il tuo cuore sussulta, pensa e agisce. Fai come anticamente, canta nelle nostre orecchie le canzoni dell’amore e della ninna nanna. Incise nelle fibre profonde del nostro cuore, loro dovranno essere più forti delle grida di guerra, dei gemiti di dolore, di angoscia e di disperazione.

Donna! Artista, Sacerdotessa, Sciamana, esci dal tuo silenzio, togliti il ​​bavaglio dalla bocca, prendi la Parola, prima, la parola Madre, Matrice di tutte le altre che sono della Magia, dell’arte, del canto, della poesia e della danza che abbattono frontiere, uniscono e mettono insieme tante differenze.

Donna Profeta, Intellettuale, Pubblica, Politica, Analfabeta, Anonima. Il tuo primo discorso è stato domestico come quello di ogni madre, raffinato e testato quotidianamente. Nel bel mezzo di una continua guerra di nervi, ti sei fatta promotrice del più grande partito pacifista del mondo, il Partito delle Donne. Alza quella bandiera, prendi il potere di quella parola più eloquente di alcune leggi o conversazioni maschiliste e misogine che molte volte dividono, feriscono e uccidono l’essere delle tue viscere.

Donna! Per secoli e secoli sei stata esiliata nella tua caverna nel cosiddetto mondo privato. Sei stata la guardiana del Sacro Fuoco della Vita. Esci da lei con questa fiaccola in mano per sciogliere il ghiaccio delle relazioni umane, riunire persone diverse attorno al fuoco, illuminare e disarmare le persone per progetti di Pace, di Giustizia, di Amore e di Cura.

Così come per secoli e secoli ti sei presa cura della casa e dei figli, pulisci, riordina, decora, insegna, educa, istruisci i pubblici amministratori, molti dei quali analfabeti nella lezione della Cura, di come si mantiene l’ordine, la bellezza, soprattutto Vita e sicurezza nella Famiglia Umana e nella casa del mondo, così devastata, saccheggiata e disordinata.

Donna! Maga, Guaritrice, Sciamana, con la memoria del mondo nel tuo corpo e l’energia vibrante del tuo cuore, sii un incenso purificatore nel nostro mondo inquinato. Come fai con i bambini, soffia sulle nostre ferite e sui lividi, sii mediatrice nelle dispute, nutri con la tua grazia e creatività coloro che hanno fame di cure, di calore e di significato.

Così come cuci, lavi, stiri i nostri vestiti, vesti e rivesti questa nuova Umanità spogliata della sua dignità.

Nel secolo scorso l’Uomo ha fatto la grande rivoluzione della Conoscenza attraverso l’intelletto. In questo secolo si farà, con l’iniziativa della donna, caricando con sé l’uomo con la micro-rivoluzione della Sapienza attraverso l’affetto. Donna! Riscatta ciò che era considerato volgare e minore: l’espressione dei sentimenti e delle vibrazioni del cuore. Andiamo ad alfabetizzare tutti gli analfabeti emotivi. Non essere economica e scarsa. Bacia, abbraccia, balla, canta, piangi, innamorati, lotta, gioca, litiga, ama per impregnare il Dono della Vita.

Non dimenticare, veglia sulla tua integrità, conserva ciò che non capisci nel tuo cuore, mantieni la Magia dei tuoi segreti, piega le tue ginocchia di tanto in tanto e vai in Quel posto dove ti piace andare, che ti è familiare, in fondo alla tua Caverna, dove sei sempre stata e non sei mai partita. In questo Luogo ti aspetta il Fuoco Sacro della tua Anima. Il Mistero del Mondo ha bisogno di un ricettacolo per il suo seme d’Amore.

Così, attraverso di te, Donna, l’Umanità e il Mondo, gravidi di questo Nuovo Mistero dell’Incarnazione, saranno trasfigurati e redenti per sempre.

  • Iris Boff, educatrice, scrittrice, femminista, ecologista e poetessa brasiliana. Per anni ha animato gruppi di base in tutto il Paraná per le possibilità del nuovo paradigma eco-femminista.

(tradotto dal portoghese da Gianni Alioti)

A REVOLUÇÃO PACÍFÍCA DA MULHER          

                                                Iris Boff

Iris Boff é pedagoga, escritora e poetisa, profundamente ligada ao ecológico e ao feminino da criação. Para essa dia mulher escreveu estas reflexões inspiradas que exaltam as várias facetas do ser Mulher e sua importância para salvaguardar a vida do planeta LB

Na pureza de intenções de tua cabeça, no inocente pudor do teu corpo, na irradiação  vital de tua alma, desate os laços do tua blusa, para  expandir a inteligência do teu coração

Desabotoe parte do vestido, para ampliar teu campo liberdade. Segure a saia erguida  para correr pelos campos de orvalho, na velocidade que as mudanças exigem.

Não tenhas vergonha do teu corpo, sagrado canal da vida.

Mulher, saia da caverna, dessa  trincheira de milênios, imposta a  você. Tome posse do teu poder  revolucionário porque é  integrativo, criativo e regenerativo.  Mostre que a Mulher não  é  só a metade da humanidade  mas a parceira e parteira, Mãe , Avó e filha da outra metade. Anuncie ao Mundo que a Nova Humanidade está se gestando em teu corpo e em tua mente. Expresse esse poder de integração . Consciente dessa Plenitude, tu sentes que sabes e sabes que sentes porque  tens  no  ventre um cérebro e no  cérebro um  ventre.

Mais forte e mais poderosa que uma bomba atômica, teu útero transforma uma pequenina célula num Ser Vivo completo e perfeito.

Aí está o poder  e a revolução pacífica , desarmada e silenciosa da mulher.

Como uma grande enciclopédia, teu corpo é portador da  origem do Mundo.  Pois, cada vez que uma Nova Vida o habita , em apenas  9 meses nele se repete os milhões de anos da  longa, paciente e paulatina  história ascendente da  nossa Humanidade.

Portadora desse Mistério, não traias, nem  negues esse conhecimento, dom gratuito da Natureza e de Deus. Num mundo órfão e exilado dessa Espiritualidade, use esse poder místico, familiar e doméstico. Marque posição, demarque teu território, age e reage como estás acostumada a fazer com o fruto de tuas entranhas.

Mulher!,Mãe, como amparas uma criança que começa a andar, tome a mão dessa Humanidade, que como criança está confusa e tateante em dar novos passos nos perigosos e complexos caminhos do nosso tempo. Aponte, estimule, console, ampare.

Mulher, Amada e Amante, Mulher “Do Lar”, em teus braços acolha e embale nosso homem moderno, cansado e desencantado de ser o único autor e  responsável  pelo progresso, esse “brinquedo perigoso “que ele mesmo construíu. Com a vida ameaçada,  assustado e exilado do teu colo, quer voltar para casa. Tu sabes muito bem de abrigo, de segurança , de proteção ede  paz. 

Há momentos da nossa história , que a noite é longa, escura e assustadora. Mulher Antiga, Sábia Anciã, tu que nessas situações te orientas pelo ritmo com que teu coração pula, pensa e age. Faça como antigamente, cante em nossos ouvidos as canções de amor e acalanto. Gravadas nas profundas fibras de nosso coração, elas hão de ser mais fortes que os gritos de guerra, os gemidos de dor, de angústia e de desespero.

Mulher! Artista, Sacerdotisa, Xamã, saia do teu silêncio , arranque a mordaça da tua boca, tome a Palavra, primeira, a palavra Máter, Matriz de todas as outras que é da Magia, da arte, do canto, da poesia e da dança que derrubam fronteiras , unem e reúnem tantas diferenças.

Mulher Profetiza, Intelectual, Pública, Política, Analfabeta, Anônima. Tua fala primeira foi  doméstica como de toda  mãe, burilada e testada quotidianamente. Em meio a uma guerra contínua de nervos te fizeste portadora do maior partido pacifista do mundo, o Partido das Mulheres. Erga essa bandeira, tome o poder dessa palavra mais eloqüente que algumas  leis ou conversações machistas, misóginas e que muitas vezes dividme ,ferem e matam o ser de tuas entranhas.

Mulher! Por séculos e séculos ficastes exilada em  tua caverna no chamado mundo privado .Fostes a guardiã do Fogo Sagrado da Vida. Saia dela com essa tocha na mão para a  derreter o gelo das relações humanas, reunir diferentes pessoas em volta da fogueira , iluminar e desarmar as pessoas para  projetos de Paz, de  Justiça Amor e de Cura.

Assim como por séculos e séculos exerceste o cuidado com a casa e com os filhos e filhas,  limpas, arrumas, enfeitas, ensinas, educas, instrua os administradores públicos, muitos deles   analfabetos da lição do Cuidado, de como se mantém ordem, beleza, sobretudo Vida e segurança na Família Humana e na casa do mundo, tão devastada, saqueada e desordenada.

Mulher!Feiticeira, Curandeira, Xamã, com a memória do mundo no teu corpo e a vibrante energia do teu coração, seja um incenso purificador no nosso mundo poluído. Como fazes com a criança, sopre em nossas feridas e machucados, seja a mediadora nas disputas, alimente com tua graça e criatividade os famintos de cuidado, de   aconchego e de sentido.

Assim como costuras, lavas, passas nossas roupas, vista e revista esta nova Humanidade  despida de sua dignidade.

No século passado o Homem  fez a grande revolução do Saber pelo intelecto. Neste século far-se-á,  com a iniciativa da  mulhe, carregando o homem junto  a micro-revolução da Sabedoria pelo afeto. Mulher! Resgate o que foi considerado vulgar e menor: a expressão dos sentimentos e as vibrações do coração. Vamos alfabetizar todo o analfabeto emocional . Não sejas econômica e escassa. Beije, abrace, dance, cante, chore, namore, lute, brinque ,brigue, ame para engravidar o Dom da Vida.

Não esqueças, zeles por tua integridade, guardes o que não entendes em teu coração, mantenhas a Magia dos teus segredos, incline de vez em quando os teus joelhos e vá para Àquele lugar que gostas de ir , que te é familiar ,no fundo da tua Caverna , onde sempre estiveste e nunca partiste. Nesse Lugar o Sagrado Fogo de tua Alma,  te aguarda. O Mistério do Mundo precisa de um receptáculo para seu sêmen de Amor.

Assim, por ti, Mulher, a Humanidade e o Mundo, grávidos desse Novo Mistério da Encarnação serão  transfigurados e redimidos para sempre.

Iris Boff é pedagoa, escritora, feminista,  ecologista e poetisa. Por anos animou grupos de base em todo o Paraná para as virtualidades do novo paradigma ecofeminista.

O mundo corre o risco de ficar preso em um ciclo de catástrofes:José Eustáquio,Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é doutor em democrafia e um dos melhores conhecedores da situação climática atual. Publicamos aqui o seu artigo pelas informação detalhadas e algumas alarmentes que nos oferece LBoff

01 Março 2023- IHU

“No Brasil, em 2022, pelo menos 457 pessoas morreram em desastres causados pelas chuvas no Sul da Bahia, em Minas Gerais, no interior de São Paulo e na Região Serrana do Rio de Janeiro. Os danos da destruição passada ainda não foram totalmente remediados e outros desastres colocam novos desafios”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia, em artigo publicado por EcoDebate.

Eis o artigo.

“Os governos não fazem o suficiente para melhorar o gerenciamento de risco de desastres, o que deixa a humanidade amplamente despreparada para o que está por vir. O aumento do nível do mar ameaça provocar êxodo de proporções bíblicas”

António Guterres, Secretário-geral da ONU, fevereiro de 2023

Está cada vez mais difícil alcançar a meta de um mundo sustentável, inclusivo e resiliente. Ao invés do sonho de um próspero desenvolvimento humano e ecológico, os indicadores ambientais indicam a iminência de um ciclo de catástrofes (“loop doom”). Os danos causados pelo aquecimento global são, cada vez mais, claros e a recuperação de desastres climáticos e ambientais estão cada vez mais caros.

Os custos ultrapassam dezenas de bilhões de dólares. Além disso, esses desastres costumam causar problemas em cascata, incluindo crises de água, elevação do preço da energia e dos alimentos, inundações, furacões, queimadas, bem como aumento da migração e dos conflitos sociais. Tudo isto drenando os recursos que poderiam ser utilizados para o combate à pobreza, para a restauração ecológica e o aumento da biocapacidade do Planeta.

O relatório “1,5°C – vivo ou morto? Os riscos para a mudança transformacional de atingir e violar a meta do Acordo de Paris”, do Institute for Public Policy Research (IPPR) e da Chatham House, aponta que o mundo corre o risco de cair em um ciclo de catástrofes (“loop doom”) e que os custos para lidar com os impactos crescentes da crise climática e ambiental pode substituir o combate à própria raiz do problema. Evitar um ciclo catastrófico exigiria uma aceitação mais honesta por parte dos políticos dos grandes riscos representados pela crise climática e da perspectiva iminente de ultrapassagem dos pontos de inflexão e da escalada da transformação econômica e social necessária para acabar com o aquecimento global.

O gráfico a seguir mostra uma média móvel de dez anos da temperatura da superfície da Terra, plotada em relação à temperatura média de 1850-1900. Embora seja interessante entender as características dos anos individuais, o aquecimento global é, em última análise, sobre a evolução de longo prazo do clima da Terra. O mundo pode ultrapassar a meta de 1,5º C anual já em 2024, mas a média decenal deve ser atingida em 2034, assim com o patamar decenal de 2º C deve ser ultrapassada em 2060

O gráfico abaixo apresenta o processo de aumento da concentração de CO2 na atmosfera (curva de Keeling) e os diversos eventos da governança global que foram incapazes de interromper as emissões de gases de efeito estufa. Há 50 anos, foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (ou Conferência de Estocolmo), realizada na capital da Suécia, entre 5 e 16 de junho de 1972. Naquela ocasião, a concentração de CO2 na atmosfera estava em 330 partes por milhão (ppm) e a população mundial era de 3,85 bilhões de habitantes. Em 1987, quando o mundo chegou a 5 bilhões de habitantes, foi publicado o Relatório Brundtland (Nosso futuro comum), com a definição clássica do conceito de desenvolvimento sustentável, mas nada foi feito para reduzir de fato as emissões.

Em 1988, o climatologista James Hansen fez um depoimento no Congresso Americano mostrando como o aquecimento global estava se acelerando. Naquele ano a concentração de CO2 estava em 351 ppm. Em 1992, foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, também conhecida como Eco-92 ou Cúpula da Terra, que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro de 3 a 14 de junho de 1992, com o objetivo foi debater os problemas ambientais globais. Naquela ocasião a concentração de CO2 tinha passado para 357 ppmA 1ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (a COP1) aconteceu na cidade de Berlim em 1995. Dois anos depois, em 1997, aconteceu a COP3, quando foi assinado o Protocolo de Kyoto, no Japão. Naquele ano a concentração de CO2 estava em 367 ppm e a população mundial tinha passado para quase 6 bilhões de habitantes. A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, conhecida também como Rio+20, foi realizada entre os dias 13 e 22 de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro. Naquele ano a concentração de CO2 estava em 396 ppm e a população mundial tinha ultrapassado 7 bilhões de habitantes

Nos 70 anos da ONU, foi realizado a COP21, quando foi assinado o Acordo de Paris que é um tratado ocorrido no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC). O acordo foi negociado na capital da França e aprovado em 12 de dezembro de 2015. Entre as principais medidas estão a redução das emissões de gases-estufa, a fim de conter o aquecimento global abaixo de 2º C e, preferencialmente, abaixo de 1,5º C, e garantir a perspectiva do desenvolvimento sustentável. Naquele ano a concentração de CO2 já tinham ultrapassado o limiar de 400 ppm.

No final de 2021 foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, na cidade de Glasgow, na Escócia. A tarefa mais urgente da COP26 foi traçar metas mais ambiciosas de redução de gases de efeito estufa para evitar um aquecimento global acima de 1,5º C. A concentração de CO2 estava em 419 ppm. Os mesmos desafios permanecem na COP27 do Egito, em 2022, quando concentração de CO2 atingiu 421 ppm no mês de maio e a população mundial alcançou 8 bilhões em novembro. Em 2023, a Índia vai ultrapassar a China como o país mais populoso e o mundo deve ultrapassar 423 ppm em maio.

Assim, a curva de Keeling continua aumentando a despeito de todo o blá-blá-blá da governança global. De fato, as emissões globais de CO2 estavam em 2 bilhões de toneladas em 1900, passaram para 6 bilhões de toneladas em 1950, chegaram a 25 bilhões de toneladas no ano 2000 e atingiram 36 bilhões de toneladas entre 2019. No passado foram os países desenvolvidos que mais emitiram CO2 em função da queima de combustíveis fósseis. Mas no século XXI os países fora da OCDE emitem mais do que os países da OCDE e a soma da China + Índia emite muito mais do que a Europa + EUA. Em consequência do efeito estufa, as temperaturas do Planeta estão subindo e acelerando as mudanças climáticas e seus efeitos danosos sobre a vida na Terra.

O período de 2014 a 2023 deve apresentar os 10 anos mais quente do Holoceno, ou seja, estamos experimentando as temperaturas mais quentes desde a última era glacial. Por conseguinte, o aquecimento global é uma realidade inexorável e as pessoas já começam a perceber a dimensão do problema quando sofrem os efeitos dos furacões, inundações, secas prolongadas, ondas letais de calor, etc. Além disto, há os ciclos de feedback climático e a possibilidade de que eles que possam levar o clima a estágios além dos pontos de inflexão planetários.

Se os feedbacks amplificadores (como a degradação do permafrost e o degelo da Antártida) forem fortes, o resultado provavelmente será uma mudança climática trágica, indo além de qualquer coisa que os humanos possam controlar por meio da redução das emissões de gases de efeito estufa e do cumprimento dos compromissos assumidos pelos governos no Acordo de Paris de 2015.

A dramaticidade da nova realidade já tem sido documentada em relatórios do Escritório da ONU para Redução de Riscos de Desastres (UNDRR), que mostram que os impactos das mudanças climáticas e do mau gerenciamento de riscos levaram a um aumento das catástrofes “naturais”. O último relatório, lançado no dia 26 de abril de 2022, confirma que, em um curto período de tempo, o mundo assistiu a um aumento sem precedentes do número de catástrofes “naturais”, e a ação humana pode piorar ainda mais o cenário no futuro.

Nas primeiras duas décadas do século XXI, foram registrados, por ano, entre 350 e 500 desastres médios a grandes. Os eventos, variam de queimadas, secas e enchentes a pandemias e acidentes químicos. A crise climática, que gera eventos atmosféricos extremos, são a principal causa do aumento das ocorrências. As catástrofes geraram ao mundo custos de 170 bilhões de dólares em média por ano na última década. A Nova Zelândia, por exemplo, foi atingida, em fevereiro de 2023, pelo furacão Gabrielle, considerado o maior desastre natural do país nesse século.

Segundo o relatório da UNDRR, os governos não fazem o suficiente para melhorar o gerenciamento de risco de desastres, o que deixa a humanidade amplamente despreparada para o que está por vir. Como afirmou Amina J. Mohammed, secretária-geral adjunta da ONU, o rumo que seguimos atualmente está colocando a humanidade numa “espiral de autodestruição”. Nas projeções do relatório, os desastres podem aumentar para 560 por ano até 2030, ou seja, cerca de 1,5 por dia. Adicionalmente, o aumento do nível do mar deve afetar cerca de 1 bilhão de pessoas que vivem em áreas costeiras e ameaça provocar um êxodo de proporções bíblicas, como afirmou o Secretário-geral da ONU, António Guterres, em fevereiro passado.

No Brasil, em 2022, pelo menos 457 pessoas morreram em desastres causados pelas chuvas no Sul da Bahia, em Minas Gerais, no interior de São Paulo e na Região Serrana do Rio de Janeiro. Os danos da destruição passada ainda não foram totalmente remediados e outros desastres colocam novos desafios. Um ano depois da calamidade de Petrópolis, o litoral norte de São Paulo foi atingido por chuvas torrenciais e inundações, que afetaram, principalmente, a cidade de São Sebastião, em pleno carnaval, com grande fluxo de turistas. Em 15h choveu mais que o dobro da média de fevereiro, em São Sebastião e Bertioga. O choque de umidade e calor vindos da região amazônica com uma frente fria na serra do Mar provocou a tempestade, que pode ser classificado como um “evento climático extremo”, potencializado pelo aquecimento global.

Os parcos recursos financeiros não têm sido suficientes sequer para a redução dos danos imediatos. Assim, a solução adequada e definitiva dos problemas ecossociais é deixada para as calendas gregas. As palavras que resumem o quadro geral do ciclo de catástrofes são: policrise e permacrise. Permacrise significa “um estado de crise permanente” ou “um período prolongado de instabilidade e insegurança”. Policrise significa “uma multiplicidade de crises simultâneas”. Essas crises convergentes tendem a se alimentar umas das outras e provocar situações de colapso ambiental e social.

Por isso, o relatório, “1,5°C – vivo ou morto?”, diz: “Este é um ciclo de destruição: as consequências da crise climática e ambiental atraem o foco e os recursos para combater suas causas, levando a temperaturas mais altas e perdas ecológicas, que então criam consequências mais graves, desviando ainda mais atenção e recursos, e assim por diante, dando continuidade à inação que alimenta o ciclo de catástrofes”.

Referências bibliográficas

Laurie Laybourn, Henry Throp, Suzannah Sherman. 1,5°C – vivo ou morto? Os riscos para a mudança transformacional de atingir e violar a meta do Acordo de Paris, IPPR, Chatham House; February 2023

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