Arthur Soffiati: Covid-19: a humanidade e as floresta

Damos continuidade às reflexões do ecologista Arthur Soffiati que já iniciaram há semanas. Suas contribuições são importantes para nos fazerem entender por que o Covid-19 atacou a humanidade, porque nós antes atacamos o vírus, roubando-lhe seu habitat devido à falta de respeito  e de cuidado da natureza.Não podemos menosprezar a natureza. Ela é muitíssimo mais forte e sábia que todos nós e poderá nos dar lições para que não sejamos os Satãs da Terra mas seus anjos bons e protetores. F.Capra,o renomado  ecólogo na Folha de São Paulo de 11;08/2020 afirmou o caráter biológico do Covid-19 como eu mesmo venho enfatizando desde o início. Se não mudarmos nossa relação para com a natureza, ela nos poderá contra-atacar novamente e sempre até aprendermos a sentirmo-nos parte dela e a respeitá-la. As reflexões de Soffiati nos mostra como tem sido nossa relação para com a natureza ao longo do tempo. Daí seu valor interpretativo. LBoff

                Arthur Soffiati: Covid-19:  a humanidade e as florestas (II)

Quando portugueses e espanhóis chegaram à África e à América respectivamente, no século XV, as florestas temperadas da Europa já estavam muito reduzidas. Elas foram progressivamente abatidas. Na África, a floresta tropical do Congo foi o que restou da grande floresta que cobria o Saara no início do Holoceno. Não houve um desmatamento descomunal que transformou uma grande mata num imenso deserto. Foram as mudanças climáticas naturais. Os povos que viviam na floresta congolesa extraíam recursos dela, mas sem comprometer sua integridade. O mesmo acontecia com a floresta equatorial da Indonésia. Além da floresta e do deserto, havia, no continente africano, extensas savanas e estepes habitadas por uma megafauna, que já era cobiçada pelos navegantes, sobretudo o elefante.

No grande continente americano, os europeus encontraram as florestas temperadas do norte, a grande floresta amazônica e a Mata Atlântica. Além desses biomas, havia, no interior, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, os campos do Sul e as zonas geladas do Antártico. Os povos que habitavam a América (considerando-a um só continente, pois não havia países) usavam as florestas, mas as consideravam sagradas e merecedoras de respeito. Eles obtinham nelas recursos para sua subsistência, mas sem ultrapassar limites. Essa visão contemplativa está demonstrada nos depoimentos de índios da América do Norte reunidos no livro “Pés nus sobre a terra sagrada”. Na América do Sul, é ilustrativo o depoimento do xamã yanomami Davi Kopenawa.

Pesquisas arqueológicas estão demonstrando que culturas avançadas se desenvolveram na Amazônia antes da chegada dos europeus. Como se sabe, os solos amazônicos são pobres. As florestas se retroalimentam naquela vastidão de planície. Solo preto em grande quantidade vem sendo encontrado pelos arqueólogos. A conclusão é que a floresta chegou a comportar cerca de dez milhões de habitantes reunidos em culturas distintas que exploravam a grande floresta mantendo-a em pé. A terra preta era fabricada para o cultivo de diversas espécies, inclusive arbóreas. As prospecções sugerem uma ou mais civilizações na Amazônia. As ricas cerâmicas de Marajó, de Maracá, de Santarém e outras confirmariam que houve ali culturas que alcançaram grau civilizacional. Cauteloso, prefiro considerá-las neolíticas avançadas.

Além do mais, os europeus encontraram as adiantadas culturas dos Andes, da América Central e do Ártico, sem contar a cultura já declinante dos maias. Esta, ao que tudo indica, não soube lidar com a floresta e a devastou. Em parte, seu declínio se deve a essa remoção, segundo os estudiosos. No círculo polar ártico, não existiam florestas. Os denominados esquimós conseguiram desenvolver uma refinada cultura para viver no gelo. No México, o grande império asteca impressionou os europeus, o mesmo ocorrendo com o império inca nos Andes.

Como mostra o historiador ambiental José Augusto Pádua no seu livro “Um sopro de destruição”, as luxuriantes florestas encontradas pelos portugueses na América alimentaram neles a concepção de que elas poderiam ser exploradas indefinidamente. Mais que concepção, pode-se falar numa síndrome de inesgotabilidade. Para quem deixou um continente com parcas manchas florestais, encontrar a Mata Atlântica pela frente alimentou a crença na sua infinitude. Logo nos primeiros tempos, a busca pelo pau-brasil estimulou um desmatamento ainda em pequenas proporções, ao mesmo tempo que alterava a concepção dos povos nativos. O famoso diálogo travado entre um velho tupinambá e o calvinista Jean de Léry ilustra duas visões de mundo não só distintas como antagônicas. O francês via dinheiro no pau-brasil. O tupinambá entendia que se tratava apenas de madeira, o que o levou a concluir que os europeus eram loucos. De fato, o sistema capitalista era algo inimaginável e inútil para o índio.

Com a escolha da cana-de-açúcar para colonizar as terras reservadas a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, o primeiro grande tratado da globalização, exigiu-se desmatamento mais intensivo. Até século XVII, as terras baixas foram depenadas. As florestas deram lugar aos canaviais e aos pastos. É de se perguntar por que os portugueses e seus descendentes no Brasil se contentaram com a Mata Atlântica até o século XIX. Os colonos tinham 1,3 milhão de quilômetros quadrados de floresta para explorarem. As árvores eram simplesmente queimadas para abrir espaço para as lavouras e pastagens. Além de não precisarem da Amazônia, os colonos não contavam com tecnologia para derrubar uma floresta que parecia infinita.

Já existem artigos acadêmicos e livros demonstrando com documentos a visão que se tinha das florestas. Derrubá-las significava progresso e civilização. Havia algumas vozes no século XIX que já se opunham a uma tão grande devastação. Mas eram vozes isoladas. Havia quem condenasse o africano ou seu descendente escravizado como o culpado pelo desmatamento, quando, na verdade, eles cumpriam ordens do patrão, que por sua vez atendia às exigências de um capitalismo rasteiro. Por mais protestos isolados, o Brasil era uma grande fazenda dominada por rudes proprietários. Alguns cientistas também condenavam o desmatamento excessivo, como foi o caso de Auguste de Saint-Hilaire ao empreender excursões pelo Brasil. Nem a falta d’água na cidade do Rio de Janeiro causada pelo desmatamento do maciço da Tijuca, exigindo seu reflorestamento, foi suficiente para convencer a economia rural sobre a importância das matas.

O bispo poeta Pedro Casaldaliga e a tradição da mística poética espanhola

O bispo Pedro Casaldáliga (não gostava do título de Dom) foi transfigurado no dia 8 de agosto de 2020 com 92 anos de idade. Catalão, veio ao Brasil e foi sagrado bispo em 1971 para a Prelazia São Felix do Araguaia-MT. Foi pastor exemplar, profeta corajoso, poeta de grande altura e místico dos olhos abertos. Notabilizou-se por ficar decididamente do lado dos indígenas e peões expulsos de suas terras pelo avanço do latifúndio.Sua Carta Pastoral de 1971”Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social” provocou várias ameaças de morte e de expulsão do país pela ditadura Militar.

Aqui atenho-me apenas a alguns tópicos de  sua poesia e de sua mística que se alinham à grande tradição espanhola de São João da Cruz e de Santa Tereza d’Avila.Alguns estão em espanhol,outros em português.

Viveu a pobreza evangélica em grau extremo:” Não ter nada/não levar nada/não poder nada/e de pessagem,não matar nada/não calar nada./Somente o Evangelho como faca afiada/e o pranto e o riso no olhar/E a mão estendida e apertada/e a vida,a cavalo, dada./E este sol e estes rios e esta terra comprada/com testemunhas da ressurreição já estalada./E mais nada”.

Corajoso diz ao enfrentar os opressores:”Onde tu dizes lei, eu digo Deus./Onde tu dizes paz,justiça,amor/eu digo Deus./Onde tu dizes Deus/eu digo liberdade, justiça,amor”Estes valores são os verdadeiros nomes de Deus. Ameaçado de morte, escreve uma Cantiga à morte:

“Ronda a morte rondeira/ a morte rondeira ronda/já o disse Cristo antes de Lorca. Que me rondarás,morena,/vestida de medo e sombra.Que te rodarei,morena,/vestido de espera e glória. Tu me rondas em silêncio/eu te rondo na canção.Tu me rondas de aguilhão eu te rondo de laurel./Que me rondarás/que te rondarei.Tu para matar/eu para nascer. Que te rondarei/que me rondarás.Tu com guerra e morte/eu com guerra e Paz. Que me rondarás em mim;ou nos pobres de meu Povo/ou nas fomes dos vivos/ou nas contas dos mortos. Me rondarás bala/me rondarás noite/me rondarás asa/me rondarás carro. Me rondarás ponte/me rondarás rio/sequestro, acidente/ tortura, martírio,/temida.Chamada/ vendida/comprada/mentida/sentida/calada/cantada. Que me rondarás/que te rondarei que me rondaremos/todos/eu/e  Ele/ Se com Ele morremos/com Ele viveremos/Com Ele morro vivo/por /Ele vivo morto/Tu nos rondarás/mas nós te pegaremos”.

Mas nada teme:”E chegarei de noite/com o feliz espanto/de ver/por fim/que andei/dia após dia; /sobre a própria palma de Tua Mão”.

Este poema nos remete a São João da Cruz do Cântico Espiritual:

“Por aqui ya no hay camino”./Hasta donde no lo habrá?/Si no tenemos su vino/la chicha no servirá”?

“Legarán a ver el dia/quanto con nosostros van?/Como haremos compañia/si no tenemos ni pan?”

Por donde iréis hasta el cielo/si por la tierra no vais?/Para quién vais al Carmelo/Si subis y no bajáis”?

Sanará viejas feridas/las alcuzas de la ley?/Son banderas o son vidas/las batallas de este Rey”?

“Es le curia o es la calle;/donde grana la misión?/Si dejáis que el Viento calle/ que oiréis en la oración?”

“Si no oís la voz del Viento/qué palabra llevaréis?/Que daréis por sacramento/si no os dais em lo que teneis”?

“Si cedéis ante el imperio/la Esperanza y la Verdad/Quién proclamará el misterio/de la entera Libertad”?

“Si el Señor es Pan y Vino/y el Camino por do vais/Si al andar se hace camino/qué camino esperáis?”

Vivia num “palácio”de madeira de terceira e com extrema simplicidade.Era tão identificado com os indígenas e peões assassinados, que quis se enterrado no “Cemitério do Sertão” onde eles, anônimos, jazem:

“Para descansar/ quero só esta cruz de pau/como chuva e sol;/estes sete palmos e a Ressurreição”.

E assim imaginou o Grande Encontro com o Amado que serviu nos condenados da terra:

“Ao final do caminho me dirá/

E tu, viveste? Amaste?

E eu, sem dizer nada,

Abrirei o coração cheio de nomes”

 

O clamor de sua profecia, a total entrega de Pastor aos mais oprimidos, a poesia que alimentará nossa beleza e sua mística de olhos abertos e das mãos operosas permanecerão como um legado perene às comunidades cristãs, ao nosso país que ele amou e à humanidade inteira.

 

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e velho amigo de Pedro Casaldaliga.

 

 

 

Post-covid-19: was in Kosmologie und Ethik zu berücksichtigen ist (III)

Lassen Sie uns den nachdenklichen Kommentar des Textes der Erdcharta vervollständigen, der besagt, dass wir einen Neuanfang suchen müssen, um eine nachhaltige Lebensweise auf dem Planeten Erde führen zu können. Dazu sei “ein neues Gefühl globaler Interdependenz erforderlich“. Die Beziehung von allem mit allem und damit zur globalen Interdependenz stellt eine kosmologische Konstante dar.  Alles im Universum ist Beziehung. Es ist auch ein quantenphysikalisches Axiom, nach dem alle Wesen interretro-verknüpft sind. Wir selbst, die Menschen, sind ein Rhizom (Wurzelzwiebel) von Beziehungen, die sich in alle Richtungen ausstrecken. Dies impliziert das Verständnis, dass alle Probleme: ökologisch, ökonomisch, politisch und spirituell, miteinander verbunden sind. Wir werden Leben nur retten, wenn wir uns nach dieser universellen Logik, der Logik des Universums und der Natur, ausrichten

 

Die Erdcharta fährt fort: “Universelle Verantwortung ist erforderlich.” Verantwortung bedeutet, sich der Folgen unseres Handelns bewusst zu sein, ob sie anderen Wesen nützen oder schaden. Hans Jonas schrieb ein klassisches Buch über das Prinzip Verantwortung, das die Prinzipien der Prävention und Vorsorge behandelt. Durch Prävention können wir die Auswirkungen berechnen, wenn wir in die Natur eingreifen. Der Grundsatz der Vorsorge sagt uns, dass wir, wenn wir die Folgen nicht ermessen können, nicht riskieren dürfen, bestimmte Maßnahmen und Interventionen zu ergreifen, weil sie sehr schädliche Auswirkungen auf das Leben haben können.

 

Wir sehen das Fehlen einer solchen kollektiven Verantwortung in der gegenwärtigen Pandemie. Sie verlangt eine strikte soziale Isolation, um eine Ausbreitung in der Gesellschaft zu verhindern, aber die überwiegende Mehrheit der Menschen hält sich nicht an diesen Grundsatz. Er muss universell sein.

 

Darüber hinaus fordert uns die Erdcharta auf “die Vision (einer nachhaltigen Lebensweise) kreativ zu entwickeln und anzuwenden“. Nichts Großes wird auf der Erde erreicht, ohne sich die neuen Gesellschaften und Formen des Seins vorzustellen und zu erschaffen, die man sich vorgestellt hat. Das ist die Funktion lebensfähiger Utopien.  Alle Utopien erweitern unseren Horizont und fordern unsere Kreativität heraus.  Im heiteren Ausdruck von Eduardo Galeano “führt uns die Utopie von Horizont zu Horizont und veranlasst uns immer zum Gehen.

 

Um die üblichen Methoden, das Gemeinsame Haus zu bewohnen, zu überwinden, welche in einer utilitaristischen Beziehung bestehen, müssen wir von unserem Planeten als der großen Mutter träumen, “Die Erde der guten Hoffnung” (Ignace Sachs und Ladislau Dowbor). Die Menschheit kann diese Utopie verwirklichen, wenn sie sich der Dringlichkeit der Notwendigkeit einer anderen Welt bewusst wird.

 

 

Eine nachhaltige Lebensweise

 

Die Erdcharta bekräftigt auch “eine Vision einer nachhaltigen Lebensweise“. Wir sind den Ausdruck “nachhaltige Entwicklung” gewohnt.  Er ist präsent in allen offiziellen Dokumenten und auf den Lippen der vorherrschenden Ökologie. Alle seriösen Studien haben jedoch gezeigt, dass unsere Form der Produktion, Verteilung und des Konsums nicht nachhaltig ist, weil es unmöglich ist, ein Gleichgewicht aufrechtzuerhalten zwischen dem, was wir von der Natur nehmen, und dem, was wir ihr lassen, um zu ermöglichen, dass sich die Natur stets reproduzieren und sich kontinuierlich weiterentwickeln kann. Unsere Gier hat den Planeten nicht-nachhaltig gemacht, denn selbst wenn die reichen Länder ihren Wohlstand auf die gesamte Menschheit ausdehnen wollten, würde es mindestens drei Erden wie unsere gegenwärtige erfordern, was absolut unmöglich ist.

Die aktuelle Entwicklung, die das Wirtschaftswachstum des Bruttosozialprodukts, des BSP, misst, zeigt erstaunliche Ungleichheiten, zu dem Ausmaß, dass die NGO Oxfam in ihrem Bericht von 2019 feststellt, dass 1 % der Menschheit die Hälfte des Reichtums der Welt besitzt und dass 20 % der Menschen 95 % dieses Reichtums kontrollieren, während die restlichen 80 % mit nur 5 % des Reichtums auskommen müssen. Diese Daten legen offen, dass die Welt, in der wir leben, völlig unhaltbar ist.

 

Die Erdcharta wird nicht vom Profit, sondern vom Leben geleitet. Deshalb besteht die große Herausforderung darin, eine nachhaltige Lebensweise in allen Lebensbereichen zu schaffen: in den Bereichen Persönliches Leben, Familie, Soziales, auf nationaler und internationaler Ebene.

 

 

Die Bedeutung des Bio-Regionalismus

 

Schließlich muss diese nachhaltige Lebensweise auf lokaler, nationaler, regionaler und globaler Ebene verwirklicht werden. Natürlich geht es um ein Weltprojekt, das durch einen Prozess umgesetzt werden muss. Heute findet der fortgeschrittenere Teil dieser Suche auf lokaler und regionaler Ebene statt, so dass Bio-Regionalisierung als die wirklich lebensfähige Form der Verwirklichung der Nachhaltigkeit angesehen wird. Wir nehmen die Region als Referenz, nicht nach den willkürlichen Grenzziehungen, die immer noch bestehen, sondern diejenige, die von der Natur selbst geschaffen wurde, mit ihren Flüssen, Bergen, Dschungeln, Wäldern und allem, was ein regionales Ökosystem ausmacht. In diesem Rahmen kann eine authentische Nachhaltigkeit erreicht werden, einschließlich der natürlichen Güter, der Kultur und der lokalen Traditionen, der Persönlichkeiten, die diese Geschichte geprägt haben, die kleine Unternehmen und ökologische Landwirtschaft mit möglichst breiter Beteiligung in einem demokratischen Geist begünstigen. Auf diese Weise wird “gute Lebensführung und gutes Leben” (das ökologische Ideal der Anden) entstehen, ausreichend, anständig und nachhaltig mit der Verringerung der Ungleichheiten.

 

Diese Vision, die von der Erdcharta formuliert wurde, ist sowohl grandios als auch machbar. Was wir brauchen, ist mehr guten Willen, die einzige Tugend, die für Kant weder Mängel noch Grenzen sieht, denn wenn sie diese hätte, wäre sie nicht gut. Dieser gute Wille würde die Gemeinschaften motivieren und am Ende die ganze Menschheit dazu bringen, wirklich “einen Neuanfang” zu wagen (Fortsetzung folgt).

 

Leonardo Boff  Ökologe, Theologe und Philosoph, der geschrieben hat „To Protect the Earth-Care for Life: How to Avoid the End of the World“, Record, Rio, 2010.

 

 

 

Dentro de um inferno,algo do paraíso não se perdeu

 Se olharmos os cenários mundiais, temos a impressão de que a dimensão de sombra, o impulso de morte e a porção demente tomou conta das mentes e dos corações de muitas pessoas. Particularmente em nosso país, criou-se até o “gabinete do ódio”onde grupos maus maquinam maldades, calúnias, distorções e todo tipo de perversidades contra seus adversários políticos, feitos inimigos que devem ser liquidados senão fisicamente, pelo menos simbolicamente.

Várias janelas do inferno se abriram e  suas labaredas incineraram celebridades, alimentaram as fake news e destroçaram porções do Estado Democrático de Direito e em seu lugar introduziram um Estado sem lei e post-democrático e, no caso do Brasil, em sua cabeça, um chefe de Estado demente, cruel e sem compaixão.

Historiadores nos asseguram que há momentos na história de uma nação ou de um povo nos quais o dia-bólico (o que divide) inunda a consciência coletiva. Tenta afogar o sim-bólico (o que une) no intento de fazer regredir toda uma história aos tempos sombrios, já superados pela civilização. Então surgem ideologias de exclusão, mecanismos de ódio, conflitos e  genocídios de inteiras etnias. Conhecemos a Shoah, fruto do inferno criado pelo nazifascimo de extermínio em massa de judeus e de outros.

Na América Latina por ocasião da invasão/ocupação dos europeus, ocorreu talvez o maior genocídio da história. No México, em  1519 com a chegada de Hernán Cortez,  viviam 22 milhões de aztecas; depois de 70 anos restaram somente 1,2 milhões. Foram católicos anticristãos que perpetraram  extermínios em massa. Os gritos das vítimas clamam ao céu contra a “Destruição das “Índias”(Las Casas)  e têm o direito de reclamar até o juízo final. Nunca se viu algum ato de reconhecimento deste genocídio por parte das potências colonialistas nem se dispuseram a fazer a mínima compensação aos sobreviventes destes massacres.São demasiados desumanos e arrogantes.

Mas dentro deste inferno dantesco, há algo do paraíso que nunca se perdeu e que constitui a permanente saudade do ser humano: saudade da situação paradisíaca na qual tudo se harmoniza, o ser humano trata humanamente outro ser humano, sente-se confraternizado com a natureza e filho e filha das estrelas, como dizem tantos indígenas. Em tempos maus como o nosso, vale ressuscitar esse sonho que dorme no profundo de nosso ser. Ele nos permite projetar outro tipo de mundo que, para além das diferenças, todos se reconhecem como irmãos e irmãs. E se entre-ajudam.

Narro um fato real que mostra a emergência desse pedaço de paraíso, ainda existente entre nós, lá onde a inimizade  e a violência são diárias.

Essa não é uma história inventada mas real, recolhida por um jornalista espanhol do El Pais no dia sete de junho de 2001. Ocorreu no ontem, mas seu espírito vale para o hoje.

Mazen Julani era um farmacêutico palestino de 32 anos, pai de três filhos, que vivia na parte árabe de Jerusalém. No dia 5 de junho de 2001 quando estava tomando café com amigos num bar, foi vítima  de um disparo fatal vindo de um colono judeu. Era a vingança contra o grupo palestinense Hamás que, quarenta e cinco minutos antes, havia matado inúmeras pessoas numa discoteca de Tel Aviv mediante um atentado feito por um homem bomba. O projétil entrou pelo pescoço de Mazen e lhe estourou o cérebro. Levado imediatamente para o hospital israelense Hadassa chegou já morto.

Mas eis que a  porção adormecida do paraíso em nós foi acordada O clã dos Julani decidiu aí mesmo nos corredores do hospital, entregar todos os órgãos do filho morto: o coração, o fígado, os rins e o pâncreas para transplantes a doentes judeus. O chefe do clã esclareceu em nome de todos que este gesto não possuía nenhuma conotação política. Era um gesto estritamente humanitário.

Segundo a religião muçulmana, dizia, todos formamos uma única família humana e somos todos iguais, israelenses e palestinos. Não importa em quem os órgãos vão ser transplantados. Essencial e que ajudem a salvar vidas. Por isso, arrematava ele: os órgãos serão destinados aos nossos vizinhos israelenses.

Com efeito, ocorreu um transplante. No israelense Yigal Cohen bate agora um coração palestino, o de Mazen Julani.

A mulher de Mazen teve dificuldades em explicar à filha de quatro anos  a morte do pai. Ela apenas lhe dizia que o pai fora  viajar para longe e que na volta lhe traria um belo presente.

Aos que estavam próximo, sussurrou com os olhos marejados de lágrimas: daqui a algum tempo eu e meus filhos iremos visitar a Ygal Cohen na parte israelense de Jerusalém.                                                                                                                                   Ele vive com o coração de meu marido e do pai de meus filhos. Será grande consolo para nós, encostar o ouvido ao peito de Ygal e escutar o coração daquele que  tanto nos amou e que, de certa forma, ainda está pulsando por nós.

Este gesto generoso demonstra que o paraíso não se perdeu totalmente. No meio de um ambiente altamente tenso e carregado de ódios, surgiu um Jardim do Éden, de vida e de reconciliação. A convicção de que somos todos membros da mesma família humana, alimenta atitudes de perdão e de incondicional solidariedade. No fundo, aqui irrompe o amor que confere sentido à vida e que move, segundo Dante Alignieri da Divina Comédia, o céu e todas as estrelas. E eu diria, também o coração da esposa de Mazen Julani  e o nosso.

São tais atitudes que nos fazem crer que o ódio reinante do Brasil e no mundo, as fake news e as difamações não terão futuro. É joio que não será recolhido, como o trigo, no celeiro dos homens nem de Deus. Esse tsunami de ódio e seu promotor maior que desgoverna nosso país, irá descobrir, um dia em que só Deu sabe, as lágrimas, os lamentos e o luto que provocaram em milhares de seus compatriotas que por sua falta de amor e de cuidado para com os afetados pelo Covid-19 perderam a quem tanto amavam. Oxalá neles não esteja totalmente perdida a parcela do Jardim do Éden.

Leonardo Boff é ecoteólogo, escritor e escreveu “O doloroso parto da Mãe Terra: uma nova etapa da Terra e da Humanidade”,a sair pela Vozes em 2020.