A ética de um capitalismo selvagem: a corrupção das Americanas

                         

O rombo bilionário, acumulado durante anos da gigante varejista das Lojas Americanas de 20 bilhões de reais, acrecido com as dívidas de 43 bilhões de reais tem muitas facetas. A mais explícita e vergonhosa é qualificar a corrupção que se esconde atrás destes números é o eufemismo “inconsistências contábeis”. O mercado sempre sensível a qualquer pequeno movimento que favoreça os desposuídos pelo Estado de viés social, logo reage criticamente. Face a esses bilhões não mostrou nenhum movimento. Claro, trata-se da cumplicidade das mesmas máfias financeiras, especialmente, as especulativas que ganham sem produzir nada.

Os nomes dos principais “sócios referenciais”(os reais donos) são os conhecidos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sucupira que com outros bens que prossuem como Burguer King, Kraft Heins e particularmente o controle do mercado cervejeiro com a InBev alcançam 185 bilhões de reais.

Na nota publicada pelo trio n dia 11 de janeiro de 2023 se eximem de qualquer conhecimento, fazendo dos leitores que conhecem como funciona o capitalismo brasileiro, de otários.

Não me cabe aprofundar esta questão, feita por especialistas. Atenho-me ao que me cabe como professor de ética e teologia por muitos anos.

O que aqui ocorreu confirma o que o saudoso Darcy Ribeiro frequentemente afirmava: o capitalismo brasileiro nunca foi civilizado, é um dos mais selvagens do mundo e profundamente egoista e individualista. Isto nos faz remete ao que o amigo do  Brasil (sua esposa é brasileira),um dos maiores pensadores da atualidade,o filósofo e linguista Noam Chomsky disse com tristeza:”nunca vi em minha vida uma porção da elite brasileira ter tanto desprezo e ódio aos negros e as pobres da periferia”.Isso o confirma em sua vasta obra o sociólogo Jessé Souza, especialmente no clássico A eleite do atraso: esta elite marginalizou vergonhosamente grande parte da população pobre e negra,negou-lhes direitos,desconheceu que são humanos como eles e filhos e filhas de Deus. Quando se levantaram, foram logo reprimidos e até assassinados.

Numa outra passagem enfatiza Noam Chomsky o que nos faz entender nossos corruptos (especialmente o trio, sempre sorridente):” A ideia básica que atravessa a história moderna e o liberalismo moderno é a de que o público dever marginalizado. O público, em geral, é visto como nada além de excluídos ignorantes que interferem como o gado desorientado”. O que interessa ao capitalismo ter consumidores e não cidadãos.Não ama as pessoas apenas sua força de trabalho e a eventual capacidade de consumir.

Já Aristóteles, um dos pais da ética ocidental, dizia que o primeiro sinal da falta de ética é a “falta de vergonha”. Etimologicamente vergonha vem do latim vereor que significa respeito, temor reverencial. Quando falta esse valor de respeito e reverência face ao semelhante, está aberta a porta a qualquer tipo de vergonhice.

Os corruptos dos 20 bilhõe das Americanas não mostram a menor vergonha: mostram-se benfeitores da sociedade, apoiando algumas pessoas (as mais dotadas) para estudarem nas melhores universidades do mundo (ex.Harvard), para serem educados no espírito do capitalismo e levarem avante seus projetos.  Não se trata, com é o caso de muitas universidades norte-americanas que são apoiadas por grandes corporações que favorecem sua manutenção e a pesquisa. Os nosssos opulentos  praticam apenas ajudas pontuais a pessoas distinguidas e não ajudam os grandes projetos educacionais que beneficiam a nação inteira a façam avançar rumo ao conhecimento e à autonomia.

O mais doloroso, no entanto, é a absoluta falta de sensibilidde da elite do atraso (que  no dizer de nosso maior historiador mulato Capistrano de Abreu “capou e recapou,sangrou e ressagrou” a população que saía do regime colonial, mas mantinha a escravidão).

Essa ausência culposa de sensibilidade foi denunciada frequentemente por um dos mais beneméritos brasileiros dos projetos contra a fome, pela vida e pela democracia o sempre recordado Betinho:

”O nosso problema maior não é econômico, não é o político, não é o ideológico nem é o religioso. O nosso problema maior é  falta de sensibilidade pelo nosso semelhante que está ao nosso lado”. Não ouvimos seu grito de dor, não vemos a mão estendida esperando um pouco de comida, sequer vemos seus olhos suplicantes. Passamos ao largo do caído à beira da estrada, como biblicamente fizeram o levita e o sacerdote na parábola do bom samaritano. Foi preciso que um desprezado hereje samaritano interrompesse sua viagem,curasse suas feridas e o tivesse levado ao sanatório, deixando tudo pago e se mais precisasse pagaria na volta. Quem é aqui o próximo, indagava o Mestre: é aquele de quem eu me aproximo,não reparando sua condição moral, sua religião, sua cor. É um irmão ferido que precisa de outro irmão para socorrê-lo.

No Brasil, os cristãos são apenas cristãos culturais que não aprenderam nada do Jesus histórico que estava sempre do lado da vida, do pobre, do cego, do coxo e do desprezado.Por isso há tanta desigualdade social, das maiores do  mundo. Porque falta sensibilidade, solidariedade, sentido humano, o de tratar humanamente outro humano, seu irmão e irmã.

O trio bilionário e os 318 milionários (segundo a revista Forbes) não ouvem o clamor que vem das grandes periferias, dos indígenas sendo dizimados por alguns do agronegócio como em Dourados-MT e aos milhares de yanomami, violentados pelo garimpo ilegal e a quem oficialmente por parte do governo genocida se negou água,vacinas,assistência média e nutrição básica.

No caso do Brasil, mas vale para grande parte da humanidade, faltou ética e faltou moral. Faltou ética se entendemos por ética a promoção da uma vida boa e decente para todos. Faltou moral se entendermos por moral a observância das normas e leis que a sociedade estabeleceu para si mesma para garantir uma vida boa boa e decente.

Ora faltou ética e moral nos causadores do rombo milionário das Americanas. Não sabiam dos 33 milhões de famintos em nosso pais e dos mais de cem milhões com insuficiência nutricional. Se tivessem um mínimo de sensibilidade ética e moral secundariam com suas fortunas a diminuir esta tragédia humana.E assim continuamos com a selvageria de nossa cultura capitalista que através do mercado tenta controlar a economia do país,especialmente se esta for direcionado para os que mais precisam.

Recordo a clássica frase do filósofo Heráclito (500 aC) que bem disse: “o ethos é o anjo bom do ser humano”. Entre nós o ethos se mostrou demoníaco.

Leonardo Boff, filósofo e  teólogo e escreveu,Etica da vida, Record 2009; Ética e moral: a busca dos fundamentos. Vozes 2003.

       Um Brasil em fazimento

                              Leonardo Boff

“Que Brasil queremos” nunca sai da pauta de nossas discussões, especialmente na bases que sofrem o peso de um tipo de Brasil marcado por imensas desigualdades e sangrado pelo perverso governnante de nossa história:Jair Bolsonaro.

Para dar consistência ao projeto-Brasil importa trabalhar  sobre três eixos dialeticamente imbricados: a educação libertadora, a democracia integral e o desenvolvimento socio-ecológico. Resumidamente, mister se faz  desenvolver  uma educação libertadora que nos abra para uma democracia integral, capaz de produzir um tipo de desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentado.

Partimos do pressuposto de que a Terra não tem mais condições de aguentar a depredação produzida pela voracidade produtivista e consumista do ethos do capital. Esta ordem na desordem somente perdura porque se utiliza a força dura e doce  para manter as grandes maiorias  em estado de penúria crônica. 18% da população mundial consome irresponsavelmente 80% dos recursos não-renováveis com nenhum  sentido de solidariedade generacional e de respeito ao patrimônio natural de toda a vida.

       Com acerto assinalava Celso Furtado: “O  desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos do que mudar o curso da civilização, deslocar o seu eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de  tempo, para uma lógica dos fins em função do bem-estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos” (Brasil, A construção interrompida, Paz e Terra 1993. p.76).

Novo paradigma de desenvolvimento

O que se aqui se postula é uma mudança no paradigma do desenvolvimento, indispensável para resguardar a natureza, salvar a humanidade e possibilitar um projeto-Brasil alternativo. A Declaração sobre o Direito dos Povos ao Desenvolvimento da ONU de 18 de outubro de 1993 assimilava já esta necessidade ao definir que o desenvolvimento é “um processo econômico, social, cultural e político abrangente, que visa o constante melhoramento do bem-estar de toda a população e de cada indivíduo na base de sua participação ativa, livre e significtiva e na justa distribuição dos benefícios resultantes dele”(Declaration on the Right to Development, ECOSOC  18.10.1993). Nos acrescentaríamos ainda, no sentido da integralidade, a dimensão psicológica e espiritual.

Portanto, postula-se que a economia, como produção dos bens materiais é meio para a possibilitar o desenvolvimento cultural, social e espiritual do ser humano. Errônea e com funestas consequências  é a visão que entende o ser humano apenas como um ser de necessidades e de desejo de acumulação ilimitada e por isso da economia como crescimento ilimitado, como se ele fosse meramente um animal faminto e não um ser criativo, com fome de beleza, de comunhão e de espiritualidade. O Papa Francisco na encíclica Laudato Si,chama este pressuposição de “mentira”(n.106).

Faz-se mister produzir e consumir o que é necessário e decente e não produzir e consumir o que é supérfluo, excessivo e abusivo. Precisamos passar de um economia da produção ilimitada para uma economia multidimensional da produção do suficiente generoso, para todos os humanos  e também para os demais seres da comunidade de vida à qual pertencemos.

O sujeito central do desenvolvimento, portanto, não  é a mercadoria, o mercado, o capital, o setor privado e o estado, mas o ser humano e os demais seres vivos como os principais documentos sobre a ecologia o enfatiazam

Construção da democracia integral

É dentro deste  contexto que se planteia a questão da democracia integral. Primeiro como valor universal a ser vivido em todos os âmbitos onde o ser humano se encontra com outro ser humano, nas relações familiares, comunitárias, produtivas e sociais. Em seguida como forma de organização política. Seria o sistema  que garante a cada um e a todos os cidadãos a participação  ativa e criativa em todas as esferas de poder e de saber da sociedade. Essa democracia seria por definição popular (mais ampia que a democracia burguesa e liberal), solidária (não excluiria ninguém, em razão de gênero, de  raça e ideologia), respeitadora das diferenças (pluralista e ecumênica), sócio-ecológica porque incluiria como cidadãos e sujeitos de direitos também o meio-ambiente, as paisagens, os rios, as plantas e os animais,  numa palavra, uma democracia verdadeiramente integral. 

Para ser cidadão-sujeito são exigidos três processos: o primeiro, o empoderamento, isto  é, a conquista de poder  para ser sujeito pessoal e coletivo de todos os processos relacionados com o seu desenvolvimento pessoal e coletivo; o segundo  é  a cooperação para além da competição  e da concorrência, motor da cultura do capital, que faz dos cidadãos protagonistas do bem comum. O terceiro, a auto-educação continua para exercer sua cidadania e con-cidadania junto com outros sujeitos. Como asseverava Hannah Arendt: alguem pode  conhecer a vida inteira sem se auto-educar.

 Educação da práxis

É nesse ponto que o desenvolvimento centrado no ser humano e na democracia integral   se articula com  a educação integral. A educação integral é um processo pedagógico permanente que abrange a todos os cidadãos em suas várias dimensões e que visa educá-los no exercício sempre mais pleno do poder, tanto na esfera de sua subjetividade quanto na de suas relações sociais.  Sem esse exercício de poder solidário e cooperativo não surgirá uma democracia integral nem um desenvolvimento centrado na pessoa e na natureza e por isso  o único verdadeiramte sustentado.

A prática, portanto, é a fonte originária do aprendizado e do conhecimento humano, pois o ser humano é por natureza constitutiva, um ser prático. Ele não tem a existência como um dado, mas como um feito, como uma tarefa que exige uma prática de permanente construção. Não tendo nenhum órgão especialiado, ele tem que continuamente se construir a si mesmo e o seu habitat pela prática cultural, social, técnica e espiritual. Isso o sublinhou com profundidade o economista e educador popular Marcos Arruda,discípulo de Paulo  Freire, em seu  livro Tornar o real possível (Vozes 2003). 

Cabe reconhecer que  cohecimento sozinho não transforma a realidade; transforma a realidade somente  a conversão do conhecimento em ação.     Entendemos por práxis exatamente esse movimento dialético entre  a conversão do conhecimento em ação transformadora e a conversão da ação transformadora em conhecimento. Essa conversão não apenas muda a realidade, mas muda também o sujeito.

Práxis, portanto, é o caminho de todos na construção da consciência humana e universal. É acessível a todos os humanos que têm uma prática. O trabalhador manual, portanto, não precisa,  para aprender,  memorizar uma quantidade ilimitadada de conteúdos. O essencial é que aprenda a pensar a sua prática individual e social, articulando o local com o global e vice-versa.

A educação da práxis visa atingir esses três objetivos principais:

A  apropriação dos instrumentos adequados para pensar a sua prática individual.

Apropriação do conhecimento científico, político, cultural e espiritual acumulado pela humanidade ao longo da história para garantir-lhe a satisfação de suas necessidades e realizar suas aspirações.

       Apropriação dos instrumentos de avaliação crítica do conhecimento acumulado, reciclá-lo e acrescentar-lhe novos conhecimentos que incluam a afetividade, a intuição, a memória biológica e histórica contida no próprio corpo e na psiqué, os sentidos espirituais como da ética, o da unidade do Todo, da beleza, da transcendência e do amor.

       Educação: a maior revolução

Investir em educação, como sempre repetia Darcy Ribeiro, é inaugurar a maior revolução que se poderá realizar na história, a revolução da consciência que se abre ao mundo, à sua complexidade e aos desafios de ordenação que apresenta. Investir na educação é fundar a autonomia de um povo e garantir-lhe as bases permanentes de seu refazimento face a crises que o podem abalar  ou desestruturar como atualmente ocorreu após a devastação do ignóbil governo Bolsonaro. Investir em educação é investir na qualidade de vida social e espiritual do povo. Investir em educação é investir em mão de obra qualificada. Investir em educação é garantir uma produtividade maior.

O estado brasileiro nunca promoveu a revolução educacional. É refém histórico das elites proprietárias que pecisam manter o povo na ignorância e na incultura para ocultar a perversidade de seu projeto social que é reproduzir seus privilégios e perpetuar-se no poder.

O projeto-Brasil, do Brasil em fazimento, fará da revolução educacional sua alavanca maior, criando o espaço para o povo poder expressar sua alta capacidade de criação artística e inventividade prática, finalmente, para plasmar-se a si mesmo como gostaria de se plasmar.

Arruda, M., e Boff, L.,Globalização: desafios socioeconômicos, éticos e educativos, Vozes 2000; L.Boff, Brasil: concluir a refundação ou prologar a dependência, Vozes 2018.

Una Chiesa samaritana e custode della vita

                   Leonardo Boff *

Prima di affrontare questo argomento, vorrei fare due osservazioni:

  • La prima: quale messaggio vuole comunicarci Madre Terra con l’intrusione del Coronavirus che ancora persiste con altre varianti?
  • La seconda: il confronto tra due paradigmi di civiltà: il dominus e il frater: qual è il loro significato per l’attuale crisi generale.

Andiamo alla prima osservazione: oltre ai vaccini e a tutte le precauzioni contro la diffusione del virus, dobbiamo chiederci: da dove viene il virus? Tutto sembra indicare che il virus sia un contrattacco della Madre Terra a seguito dell’aggressione secolare che il processo industrialista e le grandi corporate con i loro dirigenti le hanno fatto, devastando interi ecosistemi per l’accumulo di beni materiali.

Abbiamo toccato i limiti ecologici della Terra al punto da aver bisogno di più di un pianeta e mezzo per soddisfare i consumi e soprattutto il sontuoso consumismo di una piccola porzione di umanità.

La Madre Terra vuole dirci: finitela con questo tipo di relazione violenta contro di me, che tutti i giorni vi do tutto ciò di cui avete bisogno per vivere. Altrimenti, arriveranno altri virus più dannosi ed eventualmente il Grande Virus (The Next Big One) contro il quale i vaccini saranno inefficaci e gran parte della biosfera potrebbe essere pericolosamente colpita. Oppure arriveranno altri eventi estremi, come grandi catastrofi ecologiche e sociali.

Tutto indica che questo messaggio non viene ascoltato dai capi di Stato, dai dirigenti delle grandi corporate multinazionali e dalla popolazione in generale. Se lo ascoltassero, dovrebbero cambiare il loro modo di produrre, di realizzare profitti assurdi e rinunciare ai loro privilegi.

Bisogna riconoscere che il Covid-19 è caduto come una meteora bassa sul capitalismo neoliberista, smantellandone i suoi mantra: profitto, accumulazione privata, concorrenza, individualismo, consumismo, stato minimo e privatizzazione delle imprese e dei beni pubblici.

Tuttavia, ha posto inequivocabilmente il dilemma: vale di più il profitto o la vita? Dobbiamo salvare l’economia o salvare vite umane? Se avessimo seguito tali mantra, saremmo tutti in pericolo.

Ciò che ci ha salvato è stato ciò che manca al capitalismo: la centralità della vita, la solidarietà, la cooperazione, l’interdipendenza tra tutti, la generosità e la cura reciproca per la vita di ciascuno e per la natura.

Seconda osservazione: l’attuale caos sanitario, ecologico, sociale, politico e spirituale è il dispiegarsi del paradigma che ha dominato gli ultimi tre secoli della nostra storia, ormai globalizzata. I padri fondatori della modernità del secolo XVII intendevano l’essere umano come il dominus, maître et possesseur (Descarte) della natura e non come parte di essa. Per loro la Terra non ha finalità e la natura non ha valore in sé, ma solo subordinata agli esseri umani che possono disporne a piacimento. Questo paradigma ha cambiato la faccia della Terra, ha portato benefici innegabili, ma nella loro impazienza di dominare tutto hanno creato il principio dell’autodistruzione, di se stessi e della natura con armi chimiche, biologiche e nucleari. La fine del mondo non è più questione di Dio, ma dell’essere umano che si è appropriato della propria morte. Siamo arrivati ​​a un punto tale che il segretario generale delle Nazioni Unite, António Guterrez, ha detto di recente alla COP in Egitto sul cambio di regime climatico dovuto al riscaldamento globale che cresce inaspettatamente: “O facciamo un’alleanza climatica o un’alleanza di suicidio collettivo ” .

Di fronte al paradigma del dominus, papa Francesco nella citata enciclica Fratelli tutti propone un altro paradigma: quello del frater, quello del fratello e della sorella, quello della fraternità universale e dell’amicizia sociale (n. 6; 128). Sposta il centro: da una civiltà tecnico-industriale, antropocentrica e individualista a una civiltà della solidarietà, della conservazione e della cura di ogni vita.

Sappiamo dai dati scientifici che tutti gli esseri viventi condividono lo stesso codice genetico di base, i 20 aminoacidi e le stesse quattro basi azotate, dalla cellula più primitiva di 3,8 miliardi di anni, passando per i dinosauri, per i cavalli e lasciandocelo in eredità. È per questo che siamo di fatto, e non retoricamente o misticamente, fratelli e sorelle. Ciò è riaffermato dalla ‘Carta della Terra’, come dalle due encicliche ecologiche di Papa Francesco.

Questi due paradigmi sono oggi altamente contrapposti. Seguendo il paradigma del signore e padrone che usa il potere per dominare tutto, fino alle ultime dimensioni della materia e della vita, camminiamo certamente verso un armageddon ecologico, con il rischio di sterminare la vita sulla Terra. Sarebbe solo la giusta punizione per le offese e le ferite che abbiamo inflitto alla Madre Terra durante secoli e secoli. Lei continuerà il suo corso intorno al sole, ma senza di noi.

Con il cambiamento verso il paradigma del frater, del fratello e della sorella, si apre uno spiraglio di salvezza. Andiamo a superare la visione apocalittica della minaccia della fine della specie umana, per una visione di speranza con cui possiamo e dobbiamo cambiare rotta ed essere effettivamente fratelli e sorelle all’interno della stessa Casa Comune, compresa la natura. Sarebbe una gloria vivere e vivere con l’ideale andino, del bien viver in armonia tra gli umani e con tutta la natura.

Questo è il contesto in cui deve collocarsi l’azione della Chiesa, che intenda essere samaritana e custode di tutto ciò che esiste e vive.

Il Papa Francesco di Roma, ispirandosi all’altro Francesco, quello di Assisi, si è reso conto della gravità della drammatica situazione del sistema-Terra e del sistema-vita. Lui ha formulato una risposta. Nella Laudato Sì: come prendersi cura della Casa Comune, ha invitato tutti a una conversione ecologica globale”(n.5), anche “a una passione per la cura del mondo”…”una mistica che ci incoraggia, ci spinge, alimenta e dà senso all’agire personale e comunitario” (n.216). Nella Fratelli tutti è stato ancora più radicale: “siamo sulla stessa barca, o ci salviamo tutti o nessuno si salverà” (n. 32).

Credo che gli elementi delle due encicliche ecologiche di Papa Francesco possano servire da ispirazione.

La prima cosa è per la missione [della Chiesa] di essere samaritana e custode di tutta la vita. Ma da dove cominciare? Qui il Papa rivela il suo atteggiamento di fondo, ripetuto spesso negli incontri con i movimenti sociali, sia a Santa Cruz de la Sierra in Bolivia sia anche a Roma:

  «Non aspettatevi niente dall’alto perché c’è sempre qualcosa di uguale o anche di peggio; cominciate da voi stessi», «dal basso, da ognuno di voi, per lottare per ciò che c’è di più concreto e locale, fino all’ultimo lembo del paese e del mondo» (Fratelli Tutti n.78). Il Papa suggerisce ciò che oggi è in prima linea nel discorso ecologico globale: lavorare il territorio, il bio-regionalismo che consente una vera sostenibilità, con l’agro-ecologia, una democrazia popolare e partecipativa che umanizzi le comunità e articoli il locale con l’universale (Fratelli Tutti n. 147).

Di pari passo con la parabola del buon samaritano, compie un’analisi rigorosa dei vari personaggi che compaiono sulla scena e li applica all’economia politica, culminando nella domanda: «con chi ti identifichi (con l’uomo ferito sulla strada, con il sacerdote, con il levita o con lo straniero, il samaritano, disprezzato dai giudei? Questa domanda è dura, diretta e decisiva. Con chi di loro ti assomigli? (Fratelli Tutti n.64) Il Buon Samaritano diventa modello di amore sociale e politico (n. 66).

Come mai prima nella storia, la Chiesa, sia locale o universale, deve mostrarsi samaritana perché milioni e milioni sono caduti sulle strade, come i 33 milioni di affamati in Brasile o che muoiono di malattie causate dalla fame. È crudele constatare che l’1% dell’umanità possiede più ricchezza di 4,6 miliardi di persone. Loro sono crudeli e spietati…

Le Chiese si sono dimostrate samaritane, soprattutto con i più vulnerabili. Un’immensa ondata di solidarietà si è manifestata nei movimenti cristiani che hanno offerto centinaia di tonnellate di prodotti agro-ecologici e milioni di piatti di cibo agli emarginati delle periferie urbane.

Curiosamente, il Papa Francesco, nell’arco del nuovo paradigma della fraternità universale e dell’amore sociale, dà un significato politico a dimensioni che sono sempre state trattate nel campo della soggettività, come la tenerezza, la cura e la gentilezza. Afferma che «in politica c’è posto per l’amore con tenerezza: verso i più piccoli, i più deboli, i più poveri; loro devono ammorbidirci e avere il ‘diritto’ di riempire la nostra anima e il nostro cuore; sì, sono nostri fratelli e sorelle e come tali dobbiamo amarli e trattarli cosi» (Fratelli Tutti n.194)

Lui si chiede cosa sia la tenerezza e risponde: «è l’amore che si fa vicino e concreto; è un movimento che viene dal cuore e arriva agli occhi, alle orecchie, alle mani» (Fratelli Tutti n.196).

Allo stesso modo, definisce la gentilezza nel suo aspetto politico, che significa «uno stato d’animo che non è duro, aspro, maleducato, ma affabile, gentile, che sostiene e conforta. La persona che possiede questa qualità aiuta gli altri a rendere la loro esistenza più sopportabile” (Fratelli Tutti n.223). Questa è una sfida per i politici, rivolta anche ai vescovi e sacerdoti: fare una rivoluzione della tenerezza. Allo stesso modo, lui vede la solidarietà come un modo per “prendersi cura della fragilità umana” (Fratelli Tutti n.115).

L’essenza della Chiesa, le cui radici si trovano nella comunione delle tre Persone divine, risiede nella communio e non nella sacra potestas. Il Papa Francesco, soprattutto nella Laudato Sì, lo traduce in termini di ecologia moderna e fisica quantistica: un filo conduttore percorre tutto il testo, sostenendo «che tutto è in relazione e nulla esiste al di fuori della relazione» (LS n.117;120).

La missione della Chiesa è costruire ponti, ponti affettivi tra tutti e con la natura. È ricostruire le relazioni interrotte dall’individualismo della cultura del capitale. Infatti, la bio-antropologia e la psicologia evolutiva hanno chiarito che l’essenza specifica dell’essere umano è cooperare e relazionarsi con tutti. Non esiste un gene egoista, formulato da Dawkins alla fine degli anni ’60 del secolo scorso senza alcuna base empirica. Tutti i geni sono correlati tra loro e all’interno delle cellule. In questo senso, l’individualismo, valore supremo della cultura del capitale, è innaturale e non ha alcun supporto biologico.

Un altro punto fondamentale della missione samaritana della Chiesa è la cura di tutto il creato. La cura essenziale appartiene a tutti gli esseri viventi e, secondo l’antica favola della cura, dello schiavo Igino, approfondita da Martin Heideger nel suo ‘Essere e Tempo’, la cura è l’essenza dell’umano senza la quale nessuno sopravvivrebbe.

La cura è anche una costante cosmologica: le quattro forze che sostengono l’universo (gravitazionale, elettromagnetica, nucleare debole e nucleare forte) agiscono sinergicamente con estrema cura, senza la quale non saremmo qui a riflettere su queste cose.

La cura presuppone una relazione amichevole della vita, protettiva di tutti gli esseri perché li vede come un valore in sé, indipendente dall’uso umano. È stata l’incuria nei confronti della natura, devastandola, che ha fatto sì che i virus perdessero il loro habitat, conservatosi per migliaia di anni, e si trasmettessero agli esseri umani. L’eco-femminismo ha dato un contributo significativo alla conservazione della vita e della natura con l’etica della cura, perché la cura acquista una densità speciale nelle donne.

Un altro punto fondamentale nella missione della Chiesa è la solidarietà. È al centro della nostra umanità ed è di per sé un valore ecclesiologico, come si può vedere nelle comunità della Chiesa primitiva.

I bio-antropologi ci hanno rivelato che, quando i nostri antenati antropoidi cercavano il loro cibo, non lo mangiavano isolatamente. Loro lo portavano nel gruppo e servivano tutti a cominciare dai più piccoli, poi i più vecchi e poi tutti gli altri. Da qui nacque la commensalità e un senso di cooperazione e solidarietà. È stata la solidarietà che ci ha permesso di fare il salto dall’animalità all’umanità. Ciò che valeva ieri vale anche oggi.

Questa solidarietà non esiste solo tra gli umani. È un’altra costante cosmologica: tutti gli esseri convivono, sono coinvolti in reti di relazioni di reciprocità e solidarietà affinché tutti possano aiutarsi a vivere e co-evolvere. Anche i più deboli, con la collaborazione degli altri, sopravvivono, hanno il loro posto nel gruppo degli esseri e co-evolvono.

Il sistema del capitale non conosce la solidarietà, solo la concorrenza che produce tensioni, rivalità e una vera e propria distruzione degli altri concorrenti, basandosi su una maggiore accumulazione.

Oggi il più grande problema dell’umanità non è economico, né politico, né culturale, né religioso, ma la mancanza di solidarietà con gli altri esseri umani che sono al nostro fianco. Il capitalismo non ama le persone, solo la loro capacità di produzione e consumo.

Come cristiani, seguendo Gesù, dobbiamo fare del fatto della solidarietà essenziale una scelta cosciente: solidarietà con gli ultimi e invisibili, con coloro che non contano per il sistema vigente e sono considerati come zeri economici, sacrificabili. Qui sta la base spirituale e teologica della Teologia della Liberazione, il cui asse centrale è l’opzione per i poveri, contro la loro povertà e in favore della loro liberazione.

Qual è il progetto sociale sognato da Papa Francesco, basato sulla fraternità universale e sull’amore sociale? Ciò che risulta dai suoi testi e dalle sue dichiarazioni è una società bio-centrica. La vita con tutta la sua diversità non è più centrale. L’economia e la politica sono al vostro servizio perché questa vita si mantenga sulla Terra, la Terra sia intesa come Madre viva e generosa.

Tutto questo non può essere solo un progetto formulato intellettualmente con tutte le risorse tecniche e scientifiche a nostra disposizione. Dobbiamo incorporare qualcosa di fondamentale: la ragione cordiale o sensibile. È questo tipo di intelligenza che risiede nel mondo dell’eccellenza, che ci muove e incoraggia l’etica, la spiritualità e la cura in modo tale da costruire un legame affettivo con Madre Terra, Pachamama o Gaia.

La ragione intellettuale, importante per spiegare la complessità delle nostre società, ha solo circa 7-8 milioni di anni. La ragione cordiale o sensibile ha circa 2020 milioni di anni ed è emersa quando i mammiferi sono apparsi nel processo di evoluzione. La madre, nel partorire la sua creazione, la ama, la custodisce e la difende. Noi umani siamo mammiferi razionali, pieni di affetto, cura e affetto per i nostri figli e figlie.

Oggi questa dimensione affettiva è praticamente assente nei processi tecnico-scientifici, tipici del nostro paradigma moderno. È importante arricchire la ragione intellettuale con una ragione sensibile e cordiale per condurci all’amore e alla cura della Terra e della natura. Nella sua enciclica Laudato Si, il Papa Francesco mostra poeticamente più volte questo motivo cordiale e sensibile. Egli vede in San Francesco “l’esempio per eccellenza della cura… aveva un cuore universale” (LS n.10). Altrove dice con profonda cordialità: “Tutto è in relazione e tutti noi, esseri umani, camminiamo insieme come fratelli e sorelle in un meraviglioso pellegrinaggio… che ci unisce con tenerezza anche a fratello Sole, alla sorella Luna, al fratello fiume e alla Madre Terra” (LS n.92;86).

Senza riscattare i diritti del cuore, non ci impegneremo per la salvezza della “gente comune”, né stabiliremo un legame affettivo con la sorella foresta, con la sorella acqua, infine, con tutti gli esseri della natura di cui siamo parte.

Uniti nel cuore e nella mente, possiamo dare sostenibilità al progetto di una civiltà bio-centrica. Il prossimo passo per l’umanità è iniziare a plasmare questo tipo di civiltà, che sarà in grado di garantire un futuro benedetto per la nostra Casa Comune, natura compresa.

Concludo con una frase del libro della Sapienza, citata dal Papa nell’enciclica Laudato Sì: “Poiché tu ami tutte le cose esistenti e nulla disprezzi di quanto hai creato; se avessi odiato qualcosa, non l’avresti neppure creata. Come potrebbe sussistere una cosa, se tu non vuoi? O conservarsi se tu non l’avessi chiamata all’esistenza? Tu risparmi tutte le cose, perché tutte son tue, Signore, amante della vita» (Sb 11,24.26). Un Dio appassionato amante della vita non permetterà che i suoi figli e le sue figlie periscano così miseramente. Speriamo che ci siano cambiamenti sostanziali nella coscienza dell’umanità, di fronte alle minacce che potrebbero sterminarla, che sia, insomma, “una conversione ecologica globale” (LS n.5) e così continueremo a vivere e risplendere su questo piccolo e radioso pianeta Terra, nostra Grande Madre e nostra Casa Comune Dixit et salvavi animam meam.

*Leonardo Boff, teologo, filosofo e scrittore. Ha scritto: Ecologia: grito da Terra-grito dos pobres, Vozes 2000; con il cosmologo Mark Hathaway, The Tao of Liberation: Exploring Transformational Ecology, New York 2010.

Uma Igreja samaritana e cuidadora da vida

*Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. Ele escreveu: Ecologia: grito da Terra-grito dos pobres, Vozes 2000; com o cosmólogo Mark Hathaway, The Tao of Liberation: Exploring Transformational Ecology, N.York 2010.

Segunda observação: O atual caos sanitário, ecológico, social, político e espiritual é o desdobramento do paradigma que dominou os últimos três séculos de nossa história, agora globalizada. Os pais fundadores da modernidade do século XVII entendiam o ser humano como o dominus, o maître et possesseur (Descarte) da natureza e não como parte dela. Para eles a Terra não tem finalidade e a natureza não tem valor em si mesma, mas apenas ordenada ao ser humano que dela pode dispor à vontade. Esse paradigma modificou a face da Terra, trouxe benefícios inegáveis, mas em sua ânsia de tudo dominar criaram o princípio da autodestruição, de si mesmos e da natureza com armas químicas, biológicas e nucleares. O fim do mundo não é mais coisa de Deus, mas do próprio ser humano que se apropiou da própria morte. Chegamos a tal ponto que o secretário-geral da ONU, António Guterrez, disse recentemente na COP no Egito sobre a mudança de regime climático devido ao aquecimento global que cresce de forma inesperada: “Ou fazemos uma aliança climática ou uma aliança de suicídio coletivo”.

Diante do paradigma do domnius, O Papa Francisco na já citada encíclia Fratelli tutti propõe outro paradigma:  do frater, o do irmão e da irmã, o da fraternidade universal e da amizade social (n.6; 128). Desloca o centro: de uma civilização técnico-industrial, antropocêntrica e individualista para uma civilização de solidariedade, preservação e cuidado de toda a vida.

Sabemos por dados científicos que todos os seres vivos compartilham o mesmo código genético básico, os 20 aminoácidos e as mesmas quatro bases nitrogenadas, desde a célula mais primitiva de 3,8 bilhões de anos, passando pelos dinossauros, pelos cavalos e nos legando. É por isso que somos de fato, e não retórica ou misticamente, irmãos e irmãs. Isso é reafirmado pela Carta da Terra, bem como pelas duas encíclicas ecológicas do Papa Francisco.

Esses dois paradigmas são hoje altamente confrontados. Seguindo o paradigma do senhor e dono que usa o poder para dominar tudo, até as últimas dimensões da matéria e da vida, certamente caminhamos para um armagedom ecológico, com risco de extermínio da vida na Terra. Seria o justo castigo pelas ofensas e injúrias que infligimos à Mãe Terra durante séculos e séculos. Ela continuará seu curso ao redor do sol, mas sem nós.

Com a mudança para o paradigma do frater, do irmão e da irmã, abre-se uma janela de salvação. Vamos superar a visão apocalíptica da ameaça do fim da espécie humana, para uma visão de esperança, de que podemos e devemos mudar de rumo e sermos de fato irmãos e irmãs dentro de uma mesma Casa Comum, incluindo a natureza. Seria uma glória viver e conviver com o ideal andino, do bien vivir em harmonia entre os humanos e com toda a natureza.

Este é o contexto no qual deve situar-se a ação da Igreja, que se pretende samaritana e cuidadora de tudo o que existe e vive.

O Papa Francisco de Roma, inspirado pelo outro Francisco, o de Assis, percebeu a gravidade da situação dramática do sistema-Terra e do sistema-vida. Ele formulou uma resposta. Na Laudato Sì: como cuidar da Casa Comum, convidou a todos a uma conversão ecológica global”(n.5), também “a  uma paixão por cuidar do mundo”…”uma mística que nos encoraja, impulsiona nós, fomenta e dá sentido à ação pessoal e comunitária” (n.216). No Fratelli tutti foi ainda mais radical: “estamos no mesmo barco, ou todos nos salvamos ou ninguém se salvará” (n.32).

Acredito que os elementos das duas encíclicas ecológicas do Papa Francisco podem servir de inspiração.

A primeira coisa é pela missão de ser samaritano e cuidador de toda a vid. Mas por onde começar? Aqui o Papa revela sua atitude básica, muitas vezes repetida em encontros com movimentos sociais, seja em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia ou mesmo em Roma:

 «Não esperem nada de cima porque sempre vem mais do mesmo ou até pior; comecem por vocês mesmos», «de baixo, de cada um de vocês, para lutar pelo que há de mais concreto e local, até a última esquina do país e do mundo» (Fratelli n.78). O Papa sugere o que é hoje a ponta da discussão ecológica global: trabalhar o território, o biorregionalismo que permite a verdadeira sustentabilidade, com a agroecologia, uma democracia popular e participativa que humanize as comunidades e articule o local com o universal (Fratelli n .147).

De mãos dadas com a parábola do bom samaritano, faz uma análise rigorosa das várias personagens que entram em cena e aplica-as à economia política, culminando com a pergunta: «com quem te identificas (com o homem ferido na estrada , com o sacerdote, com o levita ou com o estrangeiro, o samaritano, desprezado pelos judeus? Esta pergunta é dura, direta e decisiva. Com qual deles você se parece? (Fratelli n.64). O Bom Samaritano torna-se modelo de amor social e político (n. 66).

Como nunca antes na história, a Igreja, seja local ou universal, deve mostrar-se samaritana porque milhões e milhões caíram nas estradas, como os 33 milhões de famintos no Brasil ou que morre de doenças causadas pela fome. É cruel constatar que 1% da humanidade detém mais riqueza de 4,6 bilhões de pessoas. Eles são cruéis e impiedosos..

As Igrejas mostraram-se samaritanas, especialmente com os mais vulneráveis. Uma imensa onda de solidariedade tem se manifestado nos movimentos cristãos que têm oferecido centenas de toneladas de produtos agroecológicos e milhões de pratos de comida aos marginalizados das periferias das cidades.

Curiosamente, o Papa Francisco, no arco do novo paradigma da fraternidade universal e do amor social. dá um significado político a dimensões que sempre foram tratadas no campo da subjetividade, como ternura, cuidado e gentileza. Afirma que “na política há lugar para o amor com ternura: ao mais pequeno, ao mais fraco, ao mais pobre; eles devem nos amolecer e ter o ‘direito’ de encher nossa alma e nosso coração; sim, são nossos irmãos e irmãs e como tais devemos amá-los e tratá-los assim» (Fratelli n.194)

Ele se pergunta o que é a ternura e responde: «é o amor que se torna próximo e concreto; é um movimento que vem do coração e atinge os olhos, os ouvidos, as mãos” (n.196).

Da mesma forma, define a bondade em seu aspecto político, que significa “«um estado de espírito que não é duro, duro, rude, mas afável, gentil, que apóia e conforta. A pessoa que possui esta qualidade ajuda os outros a tornar a sua existência mais suportável» (Fratelli n.223). Este é um desafio para os políticos, dirigido também aos bispos e aos padres: fazer uma revolução da ternura.Da mesma forma, ele vê a solidariedade como uma forma de “cuidar da fragilidade humana” (Fratelli n.115).

A essência da Igreja, cujas raízes se encontram na comunhão das três Pessoas divinas, reside na communio e não na sacra potestas. O Papa Francisco, especialmente na Laudato Sì, traduz em termos de ecologia moderna e física quântica: um fio comum percorre todo o texto, sustentando “que tudo está relacionado e nada existe fora do relacionamento” (LS n.117;120).

A missão da Igreja é construir pontes, pontes afetivas entre todos e com a natureza. É reconstruir as relações rompidas pelo individualismo da cultura do capital. De fato, a bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que a essência específica do ser humano é cooperar e relacionar-se com todos. Não existe gene egoísta, formulado por Dawkins no final dos anos 60 do século passado sem nenhuma base empírica. Todos os genes estão inter-relacionados entre si e dentro das células. Nesse sentido, o individualismo, valor supremo da cultura do capital, é antinatural e não tem suporte biológico.

Outro ponto fundamental da missão samaritana da Igreja é o cuidado de toda a criação. O cuidado essencial pertence a todos os seres vivos e, segundo a antiga fábula do cuidado, do escravo Higino, aprofundada por Martin Heideger em seu Ser e Tempo, o cuidado é da essência do humano sem a qual ninguém subsistiria.

O cuidado também é uma constante cosmológica: as quatro forças que sustentam o universo (gravitacional, eletromagnética, nuclear fraca e nuclear forte) atuam sinergicamente com extremo cuidado sem o qual não estaríamos aqui refletindo sobre essas coisas.

O cuidado supõe uma relação amigável da vida, protetora de todos os seres porque os vê como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi o descuido com a natureza, devastando-a, que fez com que os vírus perdessem seu habitat, preservado por milhares de anos, e passassem para o ser humano. O ecofeminismo deu uma contribuição significativa para a preservação da vida e da natureza com a ética do cuidado, porque o cuidado adquire uma densidade especial nas mulheres.

Outro ponto fundamental na missão da Igreja é a solidariedade. Está no coração da nossa humanidade e por si só é um valor eclesiológico como se pôde constatar nas comunidades da Igreja primitiva.

 Os bioantropólogos nos revelaram que, quando nossos ancestrais antropóides buscavam sua comida, eles não a comiam isoladamente. Eles os levaram para o grupo e serviram a todos começando pelos mais novos, depois pelos mais velhos e depois todos os outros. Daí surgiu a comensalidade e um senso de cooperação e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu dar o salto da animalidade à humanidade. O que era válido ontem também é válido hoje.

Essa solidariedade não existe apenas entre os humanos. É outra constante cosmológica: todos os seres coexistem, estão envolvidos em redes de relações de reciprocidade e solidariedade para que todos possam se ajudar a viver e coevoluir. Mesmo o mais fraco, com a colaboração de outros, subsiste, tem seu lugar no grupo dos seres e coevolui.

O sistema do capital não conhece a solidariedade, apenas a competição que produz tensões, rivalidades e verdadeiras destruições de outros concorrentes com base na maior acumulação.

Hoje o maior problema da humanidade não é o econômico, nem o político, nem o cultural, nem o religioso, mas a falta de solidariedade com os outros seres humanos que estão ao nosso lado. O capitalismo não ama a pessoa, apenas sua capacidade de produção e consumo.

Como cristãos, seguindo Jesus, devemos fazer do fato da solidariedade essencial uma opção consciente: solidariedade desde os últimos e invisíveis, desde aqueles que não contam para o sistema vigente e são considerados como zeros econômicos, dispensáveis. Aqui reside a base espiritual e teológica da Teologia da Libertação, cujo eixo central é a opção pelos pobres, contra a sua pobreza e a favor da sua libertação.

Qual é o projeto social sonhado pelo Papa Francisco, fundado na fraternidade universal e no amor social? O que resulta de seus textos e pronunciamentos é uma sociedade biocentrada. A vida com toda a sua diversidade deixa de ter centralidade. A economia e a política estão ao vosso serviço para que esta vida se mantenha na Terra, a Terra seja entendida como Mãe viva e generosa.

Tudo isso não pode ser apenas um projeto formulado intelectualmente com todos os recursos técnicos e científicos de que dispomos. Temos que incorporar algo fundamental: a razão cordial ou sensível. É esse tipo de inteligência que reside no mundo da excelência, que nos move e fomenta a ética, a espiritualidade e o cuidado de tal forma que construímos um vínculo afetivo com a Mãe Terra, Pachamama ou Gaia.

A razão intelectual, importante para dar conta da complexidade de nossas sociedades, tem apenas cerca de 7-8 milhões de anos. A razão cordial ou sensível tem cerca de 2020 milhões de anos e surgiu quando os mamíferos surgiram no processo de evolução. A mãe, ao dar à luz sua criação, a ama, cuida dela e a defende. Nós, humanos, somos mamíferos racionais, repletos de carinho, cuidado e carinho com nossos filhos e filhas.

Hoje essa dimensão afetiva está praticamente ausente nos processos técnico-científicos, típicos do nosso paradigma moderno. É importante enriquecer a razão intelectual com a razão sensível e cordial para nos levar a amar e cuidar da Terra e da natureza. Em sua encíclica Laudato Sí, o Papa Francisco mostra várias vezes poeticamente esse motivo cordial e sensível. Ele vê em São Francisco “o exemplo por excelência de cuidado… tinha um coração universal” (LS n.10). Em outro lugar diz com profunda cordialidade: “Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs em uma maravilhosa peregrinação… que também nos une com ternura ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e a Mãe Terra” (LS n.92;86).

Sem o resgate dos direitos do coração, não vamos nos comprometer com a salvação dos “comuns”, nem vamos estabelecer um laço afetivo com a irmã floresta, com a irmã água, enfim, com todos os seres da natureza da qual fazemos parte.

Unidos de coração e mente, podemos dar sustentabilidade ao projeto de uma civilização biocentrada. O próximo passo da humanidade é começar a dar forma a esse tipo de civilização, que poderá garantir um futuro abençoado para nossa Casa Comum, a natureza incluído.

Termino com uma frase do livro da Sabedoria, citada pelo Papa na encíclica Laudato Sì (n.89): “Sim, tu amas todos os seres e não odeias nada do que fizeste, se odiasses alguma coisa  não  a  terias criado… preservas a todos, ó soberano amante da vida” (Sb 11,24.26). Um Deus que é um amante apaixonado da vida não vai permitir que seus filhos e filhas pereçam assim miseravelmente. Esperamos que haja mudanças substanciais na consciência da humanidade, face às ameaças que poderão exterminá-la, o que será, em suma, “uma conversão ecológica global” (LS n.5) e assim continuaremos a viver e brilhar neste pequeno e radiante planeta Terra, nossa Grande Mãe e Casa Comum

Dixit et salvavi animam meam.

*Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. Ele escreveu: Ecologia: grito da Terra-grito dos pobres, Vozes 2000; com o cosmólogo Mark Hathaway, The Tao of Liberation: Exploring Transformational Ecology, N.York 2010