Francisco de Assis, ícone ecológico de uma relação fraternal com cada ser da natureza

Francisco de Assis, ícone ecológico de uma relação fraternal com cada ser da natureza

Leonardo Boff

O Covid-19 remete a um problema ecológico: a reação da Mãe Terra e da natureza que, como entes vivos, reagiram contra a sistemática agressão que já há séculos sofrem pelo processo produtivista voraz que não respeita os limites de sustentabilidade e destruiu os habitat dos virus. Estes buscam em outros animais ou em nós humanos um novo habitat, de cujas células  se alimentam. É consequência do tipo de civilização técnico-científica que criamos a partir do século XVII que tratava a Terra e a natureza sem propósito e cujo único valor era estarem ao bel-prazer do uso dos seres humanos, para tirarem vantagens de todo tipo, especialmente, econômicas.

Foi abandonada a secular visão da Terra como Magna Mater e Pachamama. Só modernamente com a nova cosmologia e biologia se recuperou a noção da Terra como um Super Ente vivo que se auto-organiza sistemicamente para manter-se vivo e sempre produzir viva, denominada de Gaia.

Hoje com o Covid-19 a concepção da Terra-Gaia e Pachamama dos povos andinos, ganhou relevância. Ela  nos mostra a urgência de refazermos o contrato natural com ela, há muito violado, caso queiramos sustar seu  contra-ataque contra a humanidade.Ela já enviou uma gama de vírus, entre eles o atual Covid-19 que pela primeira vez está  assolando todo  o planeta. Tais vírus, ao lado do aquecimento global e de outros eventos extremos são sinais enviados pela Mãe Terra para refletirmos e mudarmos nossa forma da habitar nela e mudarmos nosso modo destrutivo de produção.

A lição que importa tirar destes sinais  é que devemos voltar a sentimo-nos parte da natureza e não seus donos e que nós humanos somos a porção inteligente da Terra com a missão de cuidarmos dela, como condição de nossa própria sobrevivência.

Para isso precisamos de figuras exemplares que nos mostrem que outra relação amigável e não destrutiva para com a Mãe Terra e para com a natureza é possível. Na verdade, é a única que se revela benéfica para ambas as partes deste contrato natural.

No Ocidente surgiu um cristão de excepcional qualidade humana e religiosa que viveu uma profunda fraternidade universal com todos os seres da natureza: Francisco de Assis (1284-1226).

Em sua encíclica da ecologia integral, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum, o Papa Francisco apresenta São Francisco “como o exemplo por excelência pelo cuidado pelo que é frágil, vivida com alegria e autenticidade. É o padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos”(n.10). Diz mais ainda:”Coração universal, para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ela por laços de carinho; por isso sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe…até das ervas silvestres que deviam ter o seu lugar no horto” de cada convento dos frades(n.11.12).

O historiador Lynn White Jr. em 1967 em seu rumoroso artigo “As raízes históricas de nossa crise ecológica” acusava o judeo-cristianismo, por causa de seu viceral antropocentrismo, como o principal fator da crise que nos dias atuais se transformou num clamor. Por outro lado, reconhecia que esse mesmo cristianismo tinha um antídoto na mística cósmica de São Francisco de Assis. Para reforçar a idéia sugeria que fosse proclamado “patrono dos ecologistas”,coisa que o Papa João Paulo II o fez no dia 29 de Novembro de 1979.

Efetivamente, todos os seus biógrafos como Thomas de Celano, São Boaventura, a Legenda Perusina e outras fontes da época, atestam “a amigável união que Francisco estabelecia com todas as criaturas; enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o sol, contemplava a lua e dirigia seu olhar para as estrelas e para o firmamento”.

Dava o doce nome de irmãos e irmãs a cada uma das criaturas, as aves do céu, as flores do campo e até ao feroz lobo de Gubbio. Constituía fraternidade com os mais discriminados como  os hansenianos (leprosos) e com todos as pessoas, como com o sultão Melek el Kamel no Egito com quem teve longos diálogos e mutuamente se admiravam.

No homem de Assis tudo vem cercado de cuidado, simpatia e enternecimento.

O filósofo Max Scheler em seu conhecido estudo sobre “A essência e as formas da simpatia”(1926) dedica-lhe brilhantes e profundas páginas. Assevera que “nunca na história do Ocidente emergiu uma figura com tais forças de simpatia e de emoção universal como encontramos em São Francisco. Nunca mais se pôde conservar a unidade e a inteireza de todos os elementos como em São Francisco, no âmbito da religião, da erótica, da atuação social, da arte e do conhecimento”(1926,p.110). Talvez seja por esta razão que Dante Alignieri o chamou de “sol de Assis” (Paradiso XI,50).

Esta experiência cósmica ganhou uma forma genial no seu “Cantico di Frate Sole”. Ai encontramos uma síntese acabada entre a ecologia interior com a ecologia exterior.

Como o filósofo e teólogo francês, o franciscano Eloi Leclerc (+1977), sobrevivente dos campos de extermínio nazista,   mostrou, que para ele, os elementos exteriores como o sol, a terra, o fogo, a água, o vento e outros não eram  apenas realidades objetivas mas realidades simbólicas, emocionais, verdadeiros arquétipos que dinamizam a psiqué  no sentido de uma síntese entre o exterior e o interior e de uma experiência de unidade com o Todo.

Estes sentimentos, nascidos da razão sensível e da inteligência cordial, são urgentes hoje se quisermos refazer a aliança de sinergia e de benevolência para com a Terra e seus ecossistemas.

Acertadamente ponderou o grande historiador inglês Arnold Toynbee:”Para manter a biosfera habitável por mais dois mil anos, nós e nossos descendentes, teremos de esquecer o exemplo de Pedro Bernardone (pai de São Francisco), grande empresário de tecidos do século XIII e seu bem-estar material e começar a seguir o modelo de seu filho, Francisco, o maior entre todos os homens que já viveram no Ocidente. O exemplo dado por São Francisco é que nós, os ocidentais, deveríamos imitá-lo de todo o coração, porque ele é o único ocidental que pode salvar a Terra”(El Pais,1972,p.10-11).

Hoje São Francisco se tornou o irmão universal que se situa para além das confissões e das culturas. A humanidade pode se orgulhar de ter produzido um filho com tal amor, com tanta ternura e com tão grande cuidado para com todos os seres, por menores que parecessem.

Ele é uma referência espontânea de uma atitude ecológica que se confraterniza com todos os seres, convive amorosamente com eles, os protege contra ameaças e os cuida como irmãos e irmãs. Ele soube descobrir Deus nas coisas. Acolheu com jovialidade as doenças e  as contradições da vida. Chegou a chamar de irmã a própria morte. Estabeleceu uma aliança com as raízes mais profundas da Terra e com grande humildade se unia a todos os seres para cantar louvores, junto com eles e não apenas através deles, como diz em seu Cântico, à beleza e à integridade da criação.

Como arquétipo, Francisco penetrou no inconsciente coletivo da humanidade, no Ocidente e no Oriente e de lá anima as energias benfazejas que se abrem à relação amorosa com todas as criaturas, como se estivéssemos ainda no paraíso terrenal (cf.L.Boff, Francisco de Assis: saudade do paraíso, Vozes 1986).

Ele mostra que não somos condenados a sermos os agressores pertinases da natureza mas o seu anjo bom que protege, cuida e transforma a Terra uma Casa  Comum de todos, da comunidade humana e terrenal. Ele suscita em nós a saudade de uma integração que perdemos por causa da ruptura que estabelecemos com a natureza. Com ele nos convencemos de que, por todos os lados,  há ainda sinais do paraíso terrestre que nunca se perdeu totalmente.

Podemos, com o espírito de São Francisco, o irmão universal, recriá-lo dentro de nosso interior  e irradiá-lo para  o exterior, como lição aprendida do confinamento social forçado.

Leonardo Boff é ecoteólogo,filósofo e escreveu: Francisco de Assis: ternura e vigor, 12.edição, Vozes 2009


Wir haben das neue planetarische Bewusstsein noch nicht angenommen: Artemis II

Leonardo Boff Die vielen Weltraumreisen, sechs bemannte Mondmissionen und weitere, die sogar unser Sonnensystem verlassen und die unendlichen Weiten des Universums durchquert haben, haben weder in der Menschheit im Allgemeinen noch – und erst recht nicht bei den Staats- und Regierungschefs – das daraus resultierende neue planetarische Bewusstsein geweckt. Wir leben weiterhin unter dem Regime…

Papa Francisco: o vírus vem de uma economia doente

Na audiência pública do dia 26 de agosto de 2020, como faz sempre às quartas feiras, o Papa Francisco fez uma fala orientadora para todos que estamos submetidos ao ataque do Covid-19. O Papa foi direto na ferida: este vírus é consequência de uma economia doente. Ela subsiste mediante a exploração das pessoas e da devastação da natureza, coisa que eu mesmo venho insistindo, na contramão da maioria dos analistas das mídias sociais sobre a origem do Covid-19. Consideram o vírus em si, como algo isolado que há que se exterminar, sem analisar o contexto em que se insere e por que foi causado: pelo sistema de produção que avança sobre a natureza buscando riqueza e criando injustiça ecológica e  injustiça social planetária. É um sistema anti-vida. Ou acabamos com ele ou ele vai acabar com a vida na Terra  incluindo a espécie humana como vários notáveis do mundo nos advertem, especialmente biólogos e ecólogos. Dada a clareza didática do discurso do Papa, o publicamos aqui pois é certeiro na análise e nos suscita esperança de que podemos criar uma relação amigável para com a natureza e a Terra, incluindo a todos na justiça, na paz e no amor.Lboff

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Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Diante da pandemia e de suas consequências sociais, muitos correm o risco de perder a esperança. Neste tempo de incertezas e angústias, convido a todos a acolherem o dom da esperança que vem de Cristo. É Ele quem nos ajuda a navegar nas águas tumultuosas da doença, da morte e da injustiça, que não têm a última palavra sobre o nosso destino final.

A pandemia destacou e agravou problemas sociais, especialmente a desigualdade. Alguns podem trabalhar em casa, enquanto para muitos outros isso é impossível. Algumas crianças, apesar das dificuldades, podem continuar recebendo uma educação escolar, enquanto para muitas outras foi interrompida abruptamente. Algumas nações poderosas podem emitir dinheiro para enfrentar a emergência, enquanto para outras isso significaria hipotecar o futuro.

Esses sintomas de desigualdade revelam uma doença social; é um vírus que vem de uma economia doente. Precisamos dizer isso simplesmente: a economia está doente. Ela ficou doente. É o fruto de um crescimento econômico injusto – essa é a doença: o fruto de um crescimento econômico injusto – que ignora os valores humanos fundamentais. No mundo de hoje, poucos riquíssimos possuem mais do que o resto da humanidade.

Repito isso porque nos fará pensar: uns poucos muito ricos, um pequeno grupo, possuem mais que o resto da humanidade. Isso é estatística pura. É uma injustiça que clama ao céu! Ao mesmo tempo, esse modelo econômico é indiferente aos danos infligidos à casa comum. Não cuida da casa comum. Estamos perto de ultrapassar muitos dos limites de nosso maravilhoso planeta, com consequências graves e irreversíveis: da perda da biodiversidade e das mudanças climáticas à elevação do nível do mar e à destruição das florestas tropicais.

A desigualdade social e degradação ambiental caminham juntas e têm a mesma raiz (cf. Enc. Laudato Si’, 101): aquela do pecado de querer possuir, de querer dominar irmãos e irmãs, de querer possuir e dominar a natureza e o próprio Deus. Mas esse não é o desígnio da criação.

“No início, Deus confiou a terra e os seus recursos à gestão comum da humanidade, para cuidar dela” (Catecismo da Igreja Católica, 2402). Deus nos pediu para dominarmos a terra em seu nome (cf. Gn 1,28), cultivando e cuidando dela como um jardim, jardim de todos (cf. Gn 2,15). “Enquanto ‘cultivar’ significa lavrar ou trabalhar […], ‘guardar’ significa proteger [e] preservar” (LS, 67). Mas atenção para não interpretar isso como carta branca para fazer da terra o que se quer. Não. Existe “uma relação de reciprocidade responsável” (ibid.) entre nós e a natureza. Uma relação recíproca responsável entre nós e a natureza. Recebemos da criação e damos algo em troca. “Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo e que necessita para sua própria sobrevivência, mas também tem o dever de protegê-la” (ibid.). Ambas as partes.

De fato, a terra “existe antes de nós e foi nos dada” (ibid.), Foi dada por Deus “a todo o gênero humano” (CIC, 2402). E, portanto, é nosso dever garantir que seus frutos cheguem a todos, não apenas a alguns. E esse é um elemento-chave de nossa relação com os bens terrenos. Como recordaram os padres do Concílio Vaticano II, “o homem, usando estes bens, não deve considerar as coisas externas que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também aos outros” (Const. past. Gaudium et spes, 69). Com efeito, “a posse de um bem torna quem o possui administrador da Providência, para que dê fruto e partilhe os seus frutos com os outros” (CIC, 2404). Somos administradores de bens, não donos. Administradores. “Sim, mas o bem é meu”. É verdade que é seu, mas para administrá-lo, não para tê-lo egoisticamente para você.

Para assegurar que aquilo que possuímos agregue valor à comunidade, “a autoridade política tem o direito e o dever de regular o exercício legítimo do direito de propriedade em função do bem comum” (ibid., 2406) [1]. A “subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens […] é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o primeiro princípio de toda a ordem ético-social” (LS, 93). [2]

Propriedade e dinheiro são ferramentas que podem servir à missão. Mas facilmente os transformamos em fins, individuais ou coletivos. E quando isso acontece, os valores humanos essenciais são afetados. O Homo sapiens se deforma e se torna uma espécie de homo œconomicus – no pior sentido – individualista, calculista e dominador. Esquecemos que, criados à imagem e semelhança de Deus, somos seres sociais, criativos e solidários, com uma imensa capacidade de amar. Muitas vezes nos esquecemos disso. Na verdade, somos os seres mais cooperativos entre todas as espécies e prosperamos em comunidade, como bem se vê na experiência dos santos [3]. Há um ditado espanhol que me inspirou essa frase, e é assim: florecemos en racimo como los santos. Florescemos em comunidade como podemos ver na experiência dos santos.

Quando a obsessão em possuir e dominar exclui milhões de pessoas dos bens primários; quando a desigualdade econômica e tecnológica é tal que dilacera o tecido social; e quando a dependência de um progresso material ilimitado ameaça a casa comum, então não podemos ficar parados, apenas olhando. Não, isso é desolador. Não podemos ficar parados e assistir! Com o olhar fixo em Jesus (cf. Hb 12, 2) e com a certeza de que o seu amor opera através da comunidade dos seus discípulos, devemos todos agir juntos, na esperança de gerar algo diferente e melhor. A esperança cristã, enraizada em Deus, é a nossa âncora. Sustenta a vontade de compartilhar, fortalecendo nossa missão como discípulos de Cristo, que compartilhou tudo conosco.

E isso foi compreendido pelas primeiras comunidades cristãs, que, como nós, viveram tempos difíceis. Conscientes de formar um só coração e uma só alma, eles colocavam todos os seus bens em comum, dando testemunho da graça abundante de Cristo para com eles (cf. At 4, 32-35). Estamos passando por uma crise. A pandemia colocou todos nós em crise.

Mas lembrem-se: não se pode sair de uma crise iguais, saímos melhores ou saímos piores. Essa é nossa opção. Depois da crise, continuaremos com esse sistema econômico de injustiça social e desprezo pelo cuidado com o meio ambiente, com a criação, com a casa comum? Vamos pensar sobre isso. Que as comunidades cristãs do século XXI possam recuperar esta realidade – o cuidado pela criação e a justiça social: caminham juntas –, testemunhando assim a Ressurreição do Senhor. Se cuidarmos dos bens que o Criador nos doa, se colocarmos em comum o que possuímos para que a ninguém falte, então poderemos verdadeiramente inspirar esperança para regenerar um mundo mais saudável e mais justo.

E, por fim, vamos pensar nas crianças. Leiam as estatísticas: quantas crianças, hoje, estão morrendo de fome por uma má distribuição das riquezas, por um sistema econômico como eu disse antes; e quantas crianças, hoje, não têm direito à escola, pelo mesmo motivo. Que seja esta imagem, das crianças necessitadas com fome e falta de educação, que nos ajude a compreender que depois desta crise devemos sair melhores. Obrigado.

Notas:

[1] Cfr. GS, 71; São João Paulo II, Carta Encíclica Sollicitudo rei socialis, 42 Enc. Centesimus annus, 40,48).

[2] Cf. São João Paulo II, Carta Encíclica Laborem exercens, 19.

[3] “Florecemos en racimo, como los santos”: expressão comum na língua espanhola

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ost-covid 19: Was in Kosmologie und Ethik zu berücksichtigen ist (IV)

Eine Lebensweise der Nachhaltigkeit wird durch tugendhafte Praktiken im Einklang mit einer nachhaltigen Lebensführung herbeigeführt. Es gibt viele Tugenden in einer anderen möglichen Welt. Ich werde mich kurzfassen, denn ich habe bereits drei Bände mit dem Titel “Tugenden für eine bessere Welt“ (Butzon & Bercker; 1., Auflage 2009) veröffentlicht. Ich erwähne hier 10 Tugenden, ohne ins Detail zu gehen, denn das würde uns zu weit bringen.

Tugenden einer anderen möglichen und notwendigen Welt

Die erste Tugend ist essenzielle Fürsorge. Ich nenne sie essenziell, weil nach einer philosophischen Tradition, die von den Römern stammt, durch die Jahrhunderte weitergegeben wurde, was am besten von mehreren Autoren zum Ausdruck gebracht wird, besonders in Heideggers zentralem Kern von Zeit und Sein. Fürsorge wird als das Wesen des Menschen angesehen. Es ist eine Voraussetzung für die Gruppe der Faktoren, die für das Leben notwendig sind. Ohne Fürsorge wäre das Leben nie entstanden und könnte es auch nicht überleben. Einige Kosmologen, wie Brian Swimme und Stephan Hawking, betrachteten die Fürsorge als die wesentliche Dynamik des Universums. Hätten es den vier Grundenergien an der subtilen Fürsorge gemangelt, um synergistisch zu handeln, hätten wir nicht die Welt, die wir haben. Alles Leben hängt von der Fürsorge ab. Weil wir biologisch unvollkommene Wesen sind, hätten wir ohne spezialisierte Organe und ohne die unendliche Fürsorge unserer Mütter aus unseren Wiegen herauskommen und Nahrung suchen können. Wir brauchen die Fürsorge durch andere. Für alles, das wir lieben, sorgen wir auch, und wir lieben alles, wofür wir sorgen. In Bezug auf die Natur erfordert dies eine freundschaftliche, nicht aggressive Beziehung, welche die Grenzen der Natur achtet.

Die zweite Tugend ist das Gewahrsein unserer Zugehörigkeit zur Natur, zur Erde und zum Universum. Wir sind Teil eines großen Ganzen, das uns umgibt. Wir sind der bewusste und intelligente Teil der Natur; wir sind der Teil der Erde, der fühlt, denkt, liebt und verehrt. Dieses Gefühl der Zugehörigkeit erfüllt uns mit Respekt, wunderbarem Staunen und Sicherheit.

Die dritte Tugend ist Solidarität und Kooperation. Wir sind soziale Wesen, die nicht nur leben, sondern mit anderen koexistieren. Wir wissen aus der Bioanthropologie, dass es die Solidarität und Zusammenarbeit unserer anthropoiden Vorfahren war, die es ihnen ermöglichten, durch die Suche nach Nahrung und deren gemeinsame Nutzung an die Spitze des Tierreichs aufzusteigen und die menschliche Welt einzuläuten. Was uns heute in Bezug auf das Coronavirus retten kann, ist diese Solidarität und universelle Zusammenarbeit. Solidarität muss mit den Geringsten unter uns beginnen und mit denen, die nicht gesehen werden. Andernfalls ist sie nicht universell integrativ.

Die vierte Tugend ist die kollektive Verantwortung. Wir haben weiter oben über ihre Bedeutung gesprochen. Es ist der Moment des Bewusstseins, in dem jedes Mitglied der Gesellschaft die guten und schlechten Auswirkungen seiner Entscheidungen und Handlungen versteht. Die unkontrollierte Abholzung des Amazonas-Regenwalds wäre absolut unverantwortlich, weil sie das Gleichgewicht der Regenfälle für weite Regionen zerstören und die biologische Vielfalt beseitigen würde, die für die Zukunft des Lebens unverzichtbar ist. Den Atomkrieg brauchen wir nicht zu erwähnen, dessen tödliche Auswirkungen alles Leben, insbesondere das menschliche Leben, bedeuten würde.

Die fünfte Tugend ist Gastfreundschaft, sowohl als Pflicht als auch als Recht. Immanuel Kant war der erste, der Gastfreundschaft als Pflicht und Recht in seinem berühmten Werk “Zum ewigen Frieden” (1795) darlegte. Kant verstand, dass die Erde allen gehört, weil Gott niemandem einen Teil der Erde geschenkt hat. Die Erde gehört all ihren Bewohnern, die frei sind, dorthin zu gehen, wo sie wollen. Wo immer jemand angetroffen wird, ist es jedermanns Pflicht, Gastfreundschaft anzubieten als Zeichen der gemeinsamen Zugehörigkeit zur Erde; und wir alle haben das Recht, ohne Unterschied willkommen geheißen zu werden. Für Kant wären Gastfreundschaft und die Achtung der Menschenrechte die Säulen einer Weltrepublik. Angesichts der Zahl der Flüchtlinge und der weit verbreiteten Diskriminierung verschiedener Gruppen ist dieses Thema sehr aktuell. Gastfreundschaft ist vielleicht eine der dringendsten Tugenden für den Prozess der Globalisierung, auch wenn sie eine der am wenigsten praktizierten ist.

Die sechste Tugend ist das universelle Zusammenleben. Das Zusammenleben ist ein primärer Faktor, weil wir alle das Resultat der Koexistenz unserer Eltern sind. Wir sind Wesen von Beziehungen, das heißt, wir existieren nicht einfach, sondern wir ko-existieren durch unser Leben. Wir nehmen am Leben anderer teil, an ihren Freuden und ihrer Traurigkeit. Für viele ist es jedoch schwierig, mit denen zusammenzuleben, die anders sind, sei es in Bezug auf ethnische Zugehörigkeit, Religion oder politische Ideen. Wichtig ist, offen für den Austausch zu sein. Das Andere bringt uns immer etwas Neues, das uns entweder nützt oder uns herausfordert. Was wir niemals tun dürfen, ist, Anderssein in Ungleichheit zu verwandeln. Wir können Menschen unterschiedlichster Herkunft sein: Brasilianer, Kechua, Italiener, Aymara, Japaner, Peruaner, Azteken oder Yanomami. Jede Herkunft ist menschlich und besitzt ihre Würde. Heute öffnen sich uns durch die kybernetischen Massenkommunikationsmedien die Türen zu allen Völkern und Kulturen. Zu wissen, wie man mit diesen Unterschieden koexistieren kann, eröffnet neue Horizonte und führt uns in eine Gemeinschaft mit allen. Diese Koexistenz betrifft auch die Natur. Wir koexistieren mit der Landschaft, dem Urwald, den Vögeln und allen anderen Tieren. Es geht nicht nur darum, den sternengefüllten Himmel zu sehen, sondern um mit den Sternen in Gemeinschaft zu treten, weil wir von ihnen kommen und mit ihnen Teil des großen Ganzen sind. In der Tat sind wir Teil einer Gemeinschaft und teilen ein gemeinsames Schicksal mit der ganzen Schöpfung.

Die siebte Tugend ist bedingungsloser Respekt. Jedes Wesen, wie klein es auch sein mag, hat einen Wert an sich, unabhängig von seiner Nützlichkeit für den Menschen. Albert Schweitzer, der große schweizerische Arzt, der nach Gabun in Afrika ging, um sich um die Leprakranken zu kümmern, hat dieses Thema tiefgreifend entwickelt. Für Schweitzer ist Respekt die wichtigste Grundlage der Ethik, denn er beinhaltet Willkommenskultur, Solidarität und Liebe. Wir müssen damit beginnen, uns selbst zu respektieren, würdevolle Haltung und Manieren aufrechtzuerhalten, die andere dazu bewegen, uns zu respektieren. Es ist wichtig, alle Wesen der Schöpfung zu respektieren, denn sie haben einen Wert an sich. Sie existieren oder leben und verdienen es zu existieren oder zu leben. Es ist besonders wertvoll, alle Menschen zu respektieren, denn ein Mensch ist Träger der Würde, ein heiliges Wesen mit unveräußerlichen Rechten, unabhängig von seiner Herkunft. Wir schulden dem Heiligen und Gott, dem innersten Geheimnis aller Dinge, höchsten Respekt. Wir dürfen unsere Knie nur vor Gott beugen und nur Ihn verehren, denn nur Gott verdient diese Haltung.

Die achte Tugend sind soziale Gerechtigkeit und grundlegende Gleichheit für alle. Gerechtigkeit ist mehr als nur jedem das Seine oder Ihre zu geben. Unter den Menschen ist Gerechtigkeit Liebe und der minimale Respekt, den wir allen anderen schulden. Soziale Gerechtigkeit erfordert, allen Menschen das Minimum zu garantieren, ohne Privilegien zu schaffen und ihre Rechte gleichermaßen zu achten, denn wir sind alle Menschen und verdienen es, menschlich behandelt zu werden. Soziale Ungleichheit bedeutet soziale Ungerechtigkeit und ist theologisch eine Beleidigung des Schöpfers und Seiner Söhne und Töchter. Die vielleicht größte Perversität unserer Zeit besteht darin, Millionen von Menschen im Elend zu belassen, die dazu verurteilt sind, vor ihrer Zeit zu sterben. Die Gewalt der sozialen Ungleichheit und Ungerechtigkeit zeigt ihr Gesicht im Zeitalter dieses Coronavirus. Während einige Menschen sicher in ihren Häusern oder Wohnungen unter Quarantäne leben können, ist die überwiegende Mehrheit der Armen der Infektionsgefahr und oftmals dem Tod ausgesetzt.

Die neunte Tugend ist das unermüdliche Streben nach dem Frieden. Der Frieden ist eine der am meisten ersehnten Zustände, denn angesichts der Art von Gesellschaft, die wir aufgebaut haben, leben wir in ständigem Wettbewerb und sind zum Konsum und übersteigerter Produktivität aufgerufen. Frieden gibt es nicht von selbst. Frieden ist die Frucht von Werten, die gelebt werden müssen und dadurch Frieden bringen müssen. Einer der sichersten Wege, den Frieden zu verstehen, kommt uns von der Erdcharta, in der es heißt: “Anerkennen, dass Frieden die Gesamtheit dessen ist, das geschaffen wird durch rechte Beziehungen zu sich selbst, zu anderen Personen, anderen Kulturen, anderen Lebewesen, der Erde und dem größeren Ganzen, zu dem alles gehört” (n.16 f). Wie man sieht, ist Frieden das Ergebnis angemessener Beziehungen und die Frucht sozialer Gerechtigkeit. Ohne diese Beziehungen und diese Gerechtigkeit werden wir nur einen Waffenstillstand kennen, aber niemals einen dauerhaften Frieden.

Die zehnte Tugend ist die Entwicklung des spirituellen Lebenssinns. Der Mensch hat ein körperliches Äußeres, durch das wir mit der Welt und anderen Menschen in Beziehung stehen. Wir haben auch ein psychisches Inneres, in dem unsere Leidenschaften, großen Träume und unsere Engel und Dämonen in der Architektur des Begehrens zu finden sind. Wir müssen unsere Dämonen kontrollieren und unsere Engel liebevoll kultivieren. Nur so können wir uns des Gleichgewichts erfreuen, das für das Leben notwendig ist.

Aber wir besitzen auch eine Tiefe, die Dimension, in der sich die großen Fragen des Lebens befinden: Wer sind wir? Woher kommen wir? Wohin gehen wir? Worauf können wir nach diesem Erdenleben freuen? Was ist die Höchste Energie, die den Himmel erhält und unser Gemeinsames Haus die Sonne umkreisen lässt und es am Leben hält, damit wir leben können? Das ist die spirituelle Dimension des Menschen, mit immateriellen Werten wie bedingungsloser Liebe, Vertrauen in das Leben und dem Mut, sich den unvermeidlichen Herausforderungen zu stellen. Wir erkennen, dass die Welt voller Bedeutung ist, dass Dinge mehr sind als Dinge, dass sie Boten sind und eine andere unsichtbare Seite haben. Wir erahnen intuitiv eine mysteriöse Präsenz, die alle Dinge durchdringt. Die spirituellen und religiösen Traditionen haben diese Präsenz mit tausend Namen benannt, ohne sie jemals vollständig entschlüsseln zu können. Es ist das Geheimnis der Welt, das zum abgrundtiefen Mysterium geschickt wird, das alles zu dem macht, was es ist. Die Kultivierung dieses Raumes macht uns menschlicher, demütiger und verwurzelt uns in einer transzendenten Realität, die unserem unendlichen Verlangen angemessen ist.

Fazit: einfach menschlich sein

Die Schlussfolgerung, die wir aus diesen langen Reflexionen über das Coronavirus 19 ziehen, ist: Wir müssen einfach menschlich sein, verletzlich, demütig, miteinander verbunden, Teil der Natur und der bewusste und spirituelle Teil der Erde mit der Mission, uns um das heilige Erbe zu kümmern, das wir empfangen haben, Mutter Erde, für uns und künftige Generationen.

Die letzten Sätze der Erdcharta sind inspirierend: “Möge unsere Zeit durch das Erwachen einer neuen Ehrfurcht vor dem Leben, durch das feste Bekenntnis zur Nachhaltigkeit und zur Intensivierung des Kampfes für Gerechtigkeit und Frieden und für die freudige Feier des Lebens in Erinnerung bleiben.”

 

Leonardo Boff Ökologe, Theologe und Philosoph

O Covid-19: não adianta só limar os dentes do lobo

Com referência ao Covid-19 tudo se concentrou no vírus e tudo o que lhe pertence, até a vacina buscada desenfreadamente.Tudo isso  possui o seu valor e tem que ser feito, mas não com uma visão reducionista como está prevalecendo.  Considera-se o vírus em si, isolado, fora de qualquer contexto. Isso não existe nem ciência nem no novo paradigma, cuja afirmação axial é afirmar que tudo está relacionado com tudo e nada existe fora da relação, nem o coronavírus. São pouquíssimos analistas e epidemiólogos que se referem à natureza. E no entanto usando as palavras do físico quântico e um dos mais respeitados ecólogos do mundo Fritjof Capra:

”A pandemia é a resposta biológica do planeta: o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência social e ecológica que a humanidade criou para si própria. A pandemia emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de desigualdades sociais e econômicas; a justiça social se torna uma questão de vida ou morte durante uma pandemia como a da Covid-19; ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas”(FSP 12/8/2020).

Vamos dizê-lo diretamente com nossas palavras: o Covid-19 é  consequência de um tipo de sociedade que  criamos nos últimos  séculos e que ganhou hegemonia mundial sob o nome do sistema de produção capitalista com sua versão política, o neoliberalismo e a cultura do capital. A obsessão deste sistema (na China se diz, erroneamente, de socialismo de modo chinês, mas na realidade trata-se de um capitalismo feroz e ditatorial  de Estado) é colocar o lucro acima de tudo, acima da vida, acima da natureza, acima de qualquer outra consideração. Seu ideal é um crescimento ilimitado de bens materiais no pressuposto de que existem  bens e serviços também ilimitados da Terra. O Papa em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum” chama esta pressuposição de ” mentira” (n.106). Um planeta finito não suporta um projeto de crescimento infinito.

Para alcançar este objetivo falso e mentiroso este sistema avança sobre a natureza, desfloresta, contamina solos e ares, devasta inteiros ecossistemas para expandir o agronegócio, extrair riquezas naturais, dispor de mais proteínas  animais, mais grãos como a soja e o milho e assim aumentar o lucro pessoal ou corporativo.

Essa agressão sistemática recebeu uma represália da Terra-Gaia: o surgimento do aquecimento global, os eventos extremos e principalmente uma gama diversificada de vírus mortais. Estes vírus estavam tranquilos na natureza, num animal ou nas árvores. A guerra movida contra a natureza destruiu o habitat deles. Para sobreviver, estes vírus  passaram a outros animais ou diretamente aos seres humanos.

Eles estão pondo de joelhos o sistema de acumulação infinita e especialmente a máquina de morte que criou com armas químicas, biológicas e nucleares que não prestam para nada no ataque contra o vírus. Esse é mínimo, quase invisível, do tamanho de 125 nanomilímetros.

Resumo da ópera: o vírus vem da natureza (é discutível se vem do morcego, do mamífero pangolim ou do rato bambu, pouco importa, todos eles são seres da natureza). Esse é o verdadeiro contexto do Covid-19: o sistema de produção capitalista mundial e chinês, do qual poucos falam, muito menos as redes sociais  e televisivas que acompanham 24 horas por dia o desenrolar da tragédia humanitária de dizima milhares de vida.

Se conseguirmos uma vacina que anule  seus efeitos malignos e  eline o Covid-19, estamos seguros de termos eliminado o vírus maior: o sistema, produtor da devastação da natureza e em consequência a liberação de mais vírus? Esta é uma questão central, para não voltarmos simplesmente ao que era antes, horrível para a grande maioria das pessoas e para o equilíbrio da Terra.

Estamos a ponto de ultrapassar as nove fronteiras planetárias, sem as quais a vida não se perpetua no planeta. Quatro delas foram ultrapassadas: o abuso do solo, as mudanças climáticas, a destruição da biodiversidade e a alteração do nitrogênio. Ultrapassando a outras (solidificação dos oceanos, mudança no uso da água, degradação da camada de ozônio, aquecimento global e a poluição química), o sistema-vida entrará em colapso e com ele nossa civilização.

Acresce um dado que deve ser tomado em alta conta: no dia 22 de agosto de 2020 ocorreu a Sobrecarga da Terra (Earth Shoot Day). Isto significa: a dispensa da Terra onde estão guardados todos os insumos renováveis para a reprodução da vida, se esvaziou. Teremos menos solos férteis, menos safras, menos climas adequados, menos água, menos nutrientes, menos ar puro,mais solos com fertilizantes etc. Devido à cultura capitalista de consumo sem limite, já consumimos um planeta inteiro e um pouco mais da metade de outro que não existe (1,6). A Terra entrou no cheque especial e todos os sinais fecharam em vermelho. Pelo fato de não queremos diminuir o consumo (para muitos, suntuoso) mas fazê-lo crescer ainda mais (consumismo), arrancamos à força aquilo que  Terra já não tem. A consequência é que mais gente vai se enriquecer com as carências,  grande parte da população vai passar fome, não terá acesso aos mínimos da vida. A Terra anão fica indiferente; sente o golpe e se autodefende, nos enviando tufões, tempestades, tsunamis e suas armas: a gama de vírus letais.

O Covid-19 é a resposta da Terra viva e um sinal  que ela nos está dando; por isso, desta vez, atacou o planeta inteiro e não apenas partes dele como antes com o ebola, o SARS e outros. Temos que ler o Covid-19 com um dos derradeiros sinais que a Mãe Terra nos está enviando. Ela nos conclama:

“Ou vocês decidem deixar de me superexplorar violentamente ou posso lhes enviar mais vírus, até aquele que os seus biólogos mais temem o “Big One”, aquele terrível e inatacável por nenhuma vacina ou outro meio; dizimará vocês como  espécie humana;  considero tal gesto que me faz sofrer muito, como justo castigo que merecem por terem por séculos, ininterruptamente, movido uma guerra contra a vida da natureza e nunca terem amado e cuidado de mim, sua Mãe que sempre lhes deu em abundância tudo o que precisavam para viver; não adianta vocês amolarem os dentes do lobo que é o sistema devastador que criaram; ele não perde com isso a sua ferocidade que é de sua natureza e continuará sua obra de morte, aquilo que vocês mesmos chamaram de antropoceno e de necroceno; vocês têm que fazer, como disse meu enviado e  profeta Papa Francisco, “uma radical conversão ecológica”:  tomar de mim o que precisam e não mais, fazer que todos tenham o suficiente e decente para viver com um mínimo de dignidade e dar-me tempo para me autorregenerar e poder continuar como Mãe a alimentar a vocês e sobrar ainda para seus  descendentess; para isso vocês têm  que reduzir o consumo, reusar o que já usaram e reciclar  o que já não lhes serve, pois pode ser útil para outra coisa e principalmente reflorestar todo o planeta, pois são as minhas amadas filhs, as árvores que sequestram o carbono que vocês lançaram na atmosfera e pela fotosíntese lhes produz o oxigênio para respirar, mantém sempre a água no solo, um bem vital, comum e insusubstituível e não uma mercadoria, e estabelecerem entre vocês relações de cooperação e não de concorrência, de empatia e não de insensibilidade e  superarem as profundas desigualdades sociais que criaram no afã de acumularem em poucas pessoas e deixarem seus irmãos e irmãs passando fome e todo tipo de necessidade até morrerem antes do tempo; assim eu e vocês teremos renovado o contrato natural que vocês romperam, um contrato de mútua relação de cuidado e de colaboraçao e poderemos juntos fazer uma trajetória feliz, sob a luz  benfazeja do grande filho, o Sol; criem juizo e sabedoria, porque sem isso irão engrossar o cortejo rumo à sepultura que vocês mesmo cavaram para vocês; lembrem-se de que não existe apenas o capital natural e material que vocês exploraram até quase ao seu esgotamento; existe principalmente o capital humano-espiritual, feito de amor incondicional, de solidariedade, de compaixão e de abertura de uns para com os outros, sem discriminação e abertura  a todas as coisas até ao Infinito de mil nomes,  Deus que  criou tudo com amor,que não odeia nenhum ser que criou e é o apaixonado amante da vida; abram-se a Ele para serem mais humanos, sensíveis, cuidadores da natureza e de mim mesma e saborearem um sentido maior para suas vidas; fazendo isso, teremos um destino comum bem-aventurado e um mundo aberto para um futuro melhor.”

Ou escutamos estas advertâncias da Mãe Terra e da natureza da qual somos parte e criamos as  bases de uma civilização centrada não no lucro mas na vida – uma biocivilização – e uma  ECOnomia que se alinha à ECOlogia ou então preparemo-nos para o pior.

Dizem por aí que o ser humano aprende da história que não aprende nada da história mas aprende tudo do sofrimento. Todos estamos sofrendo sob o isolamento social e o distanciamento de grupos. Que esse sofrimento não seja em vão. Não seja o sofrimento de  um moribundo, mas o sofrimento de um parto de uma Terra, amada e cuidada como Mãe boa e generosa e que é de fato a única  Casa Comum  que temos, na qual todos podem e devem  caber, a natureza incluída.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escreveu O Covid-19: o contra-ataque da Mãe Terra à humanidade a sair em breve pela Vozes.