“Dois Papas”: o encontro pessoal derruba muros ideológicos e redescobre o humano

Assim como o Brasil não é para iniciantes, da mesma forma, o filme “Dois Papas” não é para iniciantes. Ele demanda conhecimentos de teologia e do debate existente já há mais de 50 anos sobre qual modelo de Igreja seria o mais adequado, considerando o destino comum Terra e Humanidade e as perversas desigualdades sociais a nível mundial.

O filme está sendo amplamente discutido. Há razões pró outras contra e, várias delas, supõem interesses escusos de seu produtor Fernando Meirelles, o que acho preconceituoso. Muitas críticas feitas ao filme (a maioria o vê com óculos ideológicos sem limpá-los antes) e mostram o que em filosofia se chama de “ignoratio elenchi”(ignorância do assunto), o que dificulta um julgamento sério e mais justo do filme em tela. Não obstante ter já escrito sobre o filme, retomo o discurso para aprofundar algumas questões subjacentes ao Dois Papas e assim apreciá-lo melhor.

Um lugar privilegiado de observação

Devo, sem qualquer pretensão, confessar que me encontro num lugar de observação privilegiado pois pude conhecer a ambos os personagens, Joseph Razinger e Jorge Mario Bergoglio. Isso me permite ajuizar com outros critérios o filme Dois Papas.

Com referência ao Papa Bento XVI pela amizade que tínhamos e pelo fato de que, como Cardeal, Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisição) teve a ingrata missão institucional de me interrogar num processo doutrinário, pelo qual passaram notáveis como Galileu Galilei, Giordano Bruno e outros, acerca de meu livro “Igreja: carisma e poder”. Ele agiu conforme o rito prescrito para o Grande Interrogador (outrora se dizia o Grande Inquisidor) com seriedade e competência exigidas. E eu como interrogado devia responder às acusações feitas ao livro (não a mim como pessoa), da forma mais convincente possível. Cada um estava em sua posição institucional mas isso não significava romper os laços de mútuo apreço e amizade. Não rompemos. Tanto ele quanto eu soubemos distinguir as distintas esferas. Minha defesa, após o interrogatório, pareceu aos 13 cardeais votantes, não o bastante convincente. Assim que recebi várias penalidades, a maior delas, o “silêncio obsequioso”.

Penso que Bento XVI, à frente da Igreja, se comportou mais como um teólogo acadêmico alemão (escreveu vários livros enquanto Papa) do que um Guia de uma comunidade de mais de um bilhão de fiéis. Essa missão era, a meu ver, alheia ao seu caráter. Ele queria mesmo era ser teólogo e não um Chefe do Estado do Vaticano.

Com referência ao Papa Francisco nos conhecemos como teólogos nos idos de 1972 num encontro organizado pela Confederação Latino-americana de Religiosos (CLAR) no Colegio Maximo dos jesuítas em San Miguel, nos arredores de Buenos Aires. Ele guardou a foto do encontro e teve a gentileza, como Papa, de mandar-me tal foto e recordar-me que havíamos discutido sobre hermenêutica moderna francesa, coisa que eu havia totalmente esquecido.

Ao elaborar a encíclica ecológica Laudato Si:sobre o cuidado da Cada Comum (2015) ofereci-lhe subsídios, prontamente aceitos, pois ele sabia que já há anos escrevia sobre o tema, alargando o horizonte da Teologia da Libertação. O eixo deste tipo de teologia é “a opção não excludente pelos pobres contra sua pobreza, em favor da justiça social e de sua libertação”. Dentro dos vários tipos de pobres deveríamos, pensava e penso eu, incluir o Grande Pobre, o mais explorado de todos, a Terra viva, sem cuja preservação invalidaria qualquer outro projeto. Daí nasceu uma vigorosa eco-teologia da libertação. O Papa Francisco conscientizou-se desta centralidade e atendeu ao pedido de muitos teólogos que junto comigo lhe fazemos este apelo.

Desconhecer esse núcleo central da Teologia da Libertação, a opção preferiencial pelos pobres, e tributá-lo ao marxismo é incorrer em “ignoratio elenchi”, e reproduzir a narrativa dos ditadores militares do Chile, da Argentina, do Brasil e de El Salvador. Isso é repetido ainda hoje em dia nos grupos conservadores e até reacionários mesmo ocupando altos cargos do atual governo.

Bergoglio sem ser profético, salvou a muitos perseguidos

Não vou abordar o tema da relação do Papa Francisco com a ditadura militar argentina. O prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, também ele vítima de torturas, deu seu testemunho cabal aos mais duros críticos, apresentando até a longa lista de salvos pela ação do então superior jesuíta, padre Jorge Mario Bergoglio e depois Cardeal de Buenos Aires. No máximo que podemos conceder é que não se mostrou uma figura profética, como foram os bispos Novak, Angelleli, Esaine e outros. Mas nunca colaborou nem foi conivente com o sistema de opressão e liquidação dos opositores do regime, dos mais cruéis da América Latina. Seu estilo era outro, agir no silêncio, mas corajosamente.

Como Papa Francisco, recebi algumas cartas dele agradecendo os materiais que lhe havia enviado. E continuo lhe enviando outros através de um de seus secretários (não via Cúria, pois há o risco de nunca lhe ser entregue). Quase sempre responde. A última me encheu de satisfação, pois lhe havia escrito que no texto final do Sínodo Panamazônico de 2019 se incorria no Cristomonismo (só Cristo) esquecendo, em grande parte, a figura do Espírito Santo. Este, argumentava eu, chega sempre antes do missionário, pois encontra nos povos a evangelizar, o amor, a solidariedade, o perdão e outros valores humanos que constituem o núcleo da mensagem de Jesus. Agradeceu-me a observação e disse que iria usá-la. Por minha surpresa, na fala aos Cardeais pelo Natal de 2019 afirma que alguém lhe disse que o missionário é aguardado pelo Espírito Santo ao chegar ao país de missão, pois Ele já estava lá presente pelo amor e pelos demais valores humanos.

Fato curioso: um Papa não vive só pregando; precisa de certa distensão, tomar chimarrão pela manhã (mate) e também cultivar o humor. Assim que acompanha e torce pelo seu time de futebol San Lorenzo e adora música popular argentina que considero excelente, especialmente Mercedes Sosa com a qual juntos trabalhamos na confecção da Carta da Terra. Eu mandei ao Papa, para distraí-lo um pouco, um texto de São Francisco no qual este aconselhava os frades que em suas hortas deixassem um cantinho para as ervas selvagens (daninhas) crescerem porque, elas, do seu modo, também louvam a Deus. O Papa Francisco colocou este tópico de humor na encíclica no número 12.

A questão magna subjacente ao filme

Qual é a questão magna que subjaz ao filme Dois Papas? Não entendê-la, significa não entender o filme em sua profundidade. Trata-se de apresentar dois modelos de Igreja: um bem retratado pelo Papa Bento XVI e e o outro pelo Cardeal Bergoglio. depois Papa Francisco. Além disso, traçar o perfil de duas formas diferentes de ser humano, de realizar cada um a sua humanidade.

Cabe enfatizar que os diálogos não são meramente inventados. Quem conhece a teologia de ambos logo identifica o que escreveram ou publicamente disseram. Eles correspondem à sua respectiva visão de Igreja. É seu ponto de verdade.

O modelo de Igreja de Bento XVI: Volta à Grande Disciplina

O modelo de Igreja de Bento XVI é o da Igreja tradicional, cuja época áurea foi a Idade Media e que culminou com o Concílio de Trento (1545-1563) e com o Concílio Vaticano I (1869-1870). Esse modelo tem como eixo articulador o poder sagrado (sacra potestas), piramidal e desigualmente distribuído (os leigos, em baixo não participam desse poder), em cuja cabeça está o Papa, infalível em questões de doutrina e moral, com um poder “ordinário, supremo, pleno, imediato e universal”(cânon 331). Se riscarmos a palavra Papa e pusermos Deus, cabe ad litteram. Pode um ser humano, sempre limitado, apresentar-se com um poder ilimitado, não sendo Deus?

Esse modelo foi essencial na formação da Europa, o que resulta em responsabilidade às mais altas autoridades da Igreja de mantê-lo para preservar a identidade da Europa e a cultura europeia que se globalizou. Esse modelo criou os instrumentos de sua reprodução, a teologia manualística, o estilo apologético, especialmente, o estatuto dos seminários que não existia antes. Aí se formaram os candidatos ao sacerdócio, numa perspectiva agressiva e defensiva contra as Igrejas saídas da Reforma e contra os novos inimigos: os dois iluminismos. O primeiro iluminiamo, mais teórico, com seu espírito crítico, contra todo o autoritarismo, do contrato social e da introdução das liberdades civis e dos direitos do cidadão. E o segundo iluminismo, mais prático e transformador: o socialismo e o marxismo. Face à essa realidade mudada, a reação vinha sob o motto: “Volta à Grande Disciplina”. Vale dizer, tentar restaurar a síntese medieval sob a égide do fator religioso e orientada moralmente pela Igreja.

João Paulo II viu que na Polônia (semper fidelis) ocupada pelos marxistas ateus, a Igreja era a grande força de oposição, de resistência e de reafirmação da identidade polonesa, profundamente católica. Ao ser eleito Papa, levou essa missão para toda a Igreja. Enquadrou todas as tendências diferentes para ter uma Igreja unida contra dois fortes inimigos: o marxismo ateu que ele conheceu por experiência pessoal e contra a modernidade que deslocou Deus do centro da sociedade e em seu lugar colocou a sacralidade da pessoa e de seus direitos. A modernidade e pós-modernidade se apresenta como secular (não secularista), defensora das liberdades de consciência, de religião, das culturas e dos direitos de todos.

Inegavelmente carismático, a ponto de galvanizar multidões, a visão de Igreja de Papa João Paulo II, entretanto, era muito conservadora. As inovações do Concílio Vaticano II (1962-1965) que acertou o passo da Igreja com o mundo moderno, são relativizadas e reinterpretadas a partir do poder sagrado, concentrado nele, o Papa e na hierarquia eclesiástica. Gerou uma mentalidade temerosa e até negativa face aos avanços do mundo moderno, uma Igreja qual castelo, sitiado por inimigos que pretensamente a querem destruir.

Seus seguidores (vários movimentos conservadores como Opus Dei, Cavaleiros de Cristo, Comunhão e Libertação entre outros) constituem a base eclesial e social que sustentaram seu projeto de Igreja. Encontrou no Cardeal Joseph Ratzinger (na Alemanha mostrava-se progressista), um teólogo que se converteu à linha de João Paulo II  e num fervoroso guardião da ortodoxia. Apesar de sua finura, mostrou posições severas contra os críticos desse modelo conservador de Igreja.

Especialmente foi visada a Teologia da Libertação, interpretada como uma espécie de cavalo de Troia, mediante o qual o marxismo penetraria na América Latina. Há que defender o povo, mantendo essa corrente teológica sob estrita vigilância, argumentava-se no Vaticano, atingindo a muitos de seus seguidores, cardeais, bispos, teólogos, padres, religiosos e religiosas e até leigos. Esta estratégia foi mantida e até reforçada quando se tornou Papa.

No filme o Papa Bento XVI representa este tipo de Igreja que possui sua lógica e coerência, mas na contramão do curso global do mundo. Não tinha chance de prosperar pois a Igreja se mostrava antes uma cisterna de águas mortas que uma fonte de águas vivas. Decepcionava muitos fiéis a ponto de muitos abandonarem a Igreja. Quando o Papa Bento XVI se deu conta de que a atmosfera interna da Igreja em geral e do Vaticano em particular fora envenenada pelos crimes de pedofilia, falcatruas financeiras dentro do Banco Vaticano e mesmo de prostituição de altos prelados da Cúria, sentiu suas forças se esmorecerem. “Precisa-se mudar tudo isso”, diz claramente no filme. Reafirmou que não merecia permanecer sentado na Cátedra de Pedro, sem a energia suficiente para as mudanças necessárias. Num gesto nobre e desprendido renunciou.

Fecha-se com ele, o ciclo do cristianismo central, enfraquecido pelos escândalos, para dar lugar a outro modelo de Igreja com outros propósitos e outra leitura do mundo.

Papa Francisco: a Teologia da Libertação chega ao centro da igreja

Com o Papa Francisco começa um novo estilo de exercer o pontificado e se projeta um modelo de Igreja muito diverso do tradicional. A Igreja na América Latina foi sempre uma Igreja-espelho daquela europeia. Lentamente, porém foi se libertando até tornar-se uma Igreja-fonte: com um estilo diferente de viver a fé, encarnado-se nas culturas locais, indígenas, afro-descendentes e populares. Criou seu perfil de uma Igreja pobre e despojada com sua própria teologia, sob o nome de Teologia da Libertação. Logicamente, subsiste ainda porções da Igreja-espelho, ligadas ao estilo tradicional de ser padre e de organizar as dioceses e as paróquia. Mas não é por ela que o Cristianismo latino-americano atraiu a atenção do mundo, graças ao seu compromisso com os pobres, contra os regimes ditatoriais e contra as torturas sistemáticas a presos políticos e a presos comuns.

O Concílio Vaticano II tratou da Igreja dentro do mundo moderno, do mundo desenvolvido e se reconciliou com ele. Na América Latina os bispos nas várias assembléias continentais (Medellin, Puebla, Aparecida) deram-se conta de que esse mundo desenvolvido constitui a causa principal da opressão das grandes maiorias da América Latina, indígenas humilhados, massas abandonadas, classes oprimidas e mulheres submetidas.

A questão na América Latina é outra: qual o lugar da Igreja dentro do submundo, do mundo subdesenvolvido? Chegaram à conclusão de que sua missão é de uma evangelização libertadora. Libertar o pobre que grita é um gesto evangélico e ao mesmo tempo político. Libertar importa fazer do pobre o protagonista de sua própia libertação a partir do capital simbólico de sua  fé. Isso exige um processo de conscientização e de organização para o qual Paulo Freire que sempre se tendeu como um dos fundadores da Teologia da Libertação, ajudou enormemente a pastoral das Igrejas.Desta forma surgia um cristão consciente e simultaneamente um cidadão crítico e participante.

A libertação demanda um método mediante o qual o oprimido extrojeta o opressor que carrega dentro de si, para ser livre e tentar um outro tipo de sociedade  libertada, onde o amor e a convivência fraterna não sejam tão difícies. Não há opção pelos pobres e por sua libertação sem primeiramente amar esses pobres, seu modo de ser, sua cultura e, finalmente, se associar, como aliados secundários, às suas lutas. Essa opção custou a vida de muitos padres, religiosas, agentes leigos de pastoral e até de dois bispos, Angelleli da Argentin e Oscar Arnulfo Romeno de El Salvador, hoje santificado. É uma Igreja que tem muitos mártires.

O Papa Francisco foi educado quando era estudante de Teologia no Colegio Maximo em San Miguelo nesse conjunto de visões. Incorporou-as. Como cardeal, renunciou ao palácio cardinalício, ao carro oficial, aos privilégios da função. Usava o ônibus e o metrô e andava muito a pé pelas “villas miseria” de Buenos Aires. Vivia num pequeno apartamento e cozinhava sua própria refeição.

Ao chegar a Roma e eleito já Papa, introduziu esta revolução dos hábitos nos vetustos edifícios luxuosos e renascentistas da cidade do Vaticano. Decidiu viver numa casa de hóspedes e toma a refeição, entrando na fila, como todos.

Seu modelo de Igreja é aquela, como ele mesmo o define: “uma Igreja em permanentemente saída” de si mesma em direção do mundo, dos pobres, dos refugiados e das periferias existenciais. Ela equivale a um hospital de campanha, aberta a atender a todos. Como ninguém antes dos Papas anteriores, denuncia os produtores das desigualdades e injustiças no mundo: os adoradores do dinheiro, os especuladores, os inimigos da vida e da Mãe Terra que a devastam em função de sua acumulação. Não usa a palavra capitalismo mas todos entendem ao que se refere.

Em sua mensagem enfatiza: Jesus não veio fundar uma nova religião, pois havia muitas no Império Romano. Veio criar o homem novo e a mulher nova. Veio nos ensinar a viver o amor incondicional, a misericórdia sem limites e a solidariedade a partir dos últimos. No lugar de dogmas e doutrinas que respeita, privilegia o encontro vivo com o Cristo, com as pessoas, especialmente com aquelas feitas invisíveis. Escandaliza não poucos bispos ao pregar, até exigir, uma pastoral da ternura e não do medo das penas eternas. A misericórdia e seu tonus retus sempre de nova pregada que vem acolitada pela empatia e pela fome e sede de justiça. Sente-se um homem entre outros homens.

Suspeito que criará uma nova genealogia de papas, vindos do fim do mundo, onde vive a maioria dos católicos. Só 25% encontram-se na Europa, 52% nas Américas e os restantes na África e na Oceania. Hoje por hoje, o cristianismo é uma “religião” do outrora chamado “Terceiro Mundo”, que um dia, teve sua origem no Primeiro Mundo. Pelo “Terceiro Mundo” passa o futuro da Igreja Católica até em termos numéricos. É aqui que o cristianismo mostra suas virtualidades latentes, na defesa dos pobres e no cuidado da Casa Comum. Um argumento a mais para postularmos um Papa que venha de onde a Igreja se incarna nas culturas locais e suscita esperança nos condenados e ofendidos, desesperados pela fome e pela miséria.

Estes dois modelos de Igreja subjazem aos diálogos do filme Dois Papas. Eles se confrontam. Mas lentamente vão se alinhando.

Cada um dos Papas carrega um peso na consciência: Bergoglio poderia  ter encontrado outra forma, para além daquela institucional que tomou, de salvar os dois jesuítas trabalhando nas favelas e liberá-los do sequestro anunciado. Ambos sofreram pesadas torturas. Um deles, o padre Yorio, a quem conheci em Quilmes, nos arredores de Buenos Aires, não conseguia livrar-se do sentimento de que tinha sido abandonado pelo seu superior religioso. Mas procurava sinceramente entender os impasses pelos quais seu superior passou, mas que, com criatividade, poderia ter agido diferentemente. Esse era o peso que o Papa Francisco carregava em sua biografia.

Ao Papa Ratzinger lhe pesou na consciência o fato de ter enviado uma carta a todos os bispos, sob sigilo pontifício, para que não entregassem os padres pedófilos à justiça civil para não macular o bom nome da instituição-Igreja. Deviam confessar seu pecado e ser transferidos para outro lugar. E as vítimas, as crianças inocentes e as famílias, como ficariam? Isso não foi suficientemente levado em conta pelo Papa Bento XVI.

Momento alto do filme é quando ambos revelam o peso que carregam. Abrem-se mutuamente e se dão reciprocamente a absolvição. Ambos se sentem aliviados e reconciliados consigo mesmos.

A ideologia divide, o diálogo aproxima.

Estimo que um dos propósitos principais do filme, foi revelar a real condição humana de ambos os Papas: sua dimensão de sombra e sua dimensão de luz. Essa é a real condition humaine de cada ser humano: somos sapientes e dementes sim-bólicos e dia-bólicos, gentis e rudes. E isso simultaneamente. Ai de nós se recalcamos a dimensão sombria. Ela voltará furiosa. Temos que integrá-la humildemente na medida em que damos primazia à dimensão de luz. Caso contrário, impedimos o desabrochar de nossa plena humanidade que inclui luz e sombra.

Mas há momentos em que o horizonte desaparece: é a “noche oscura y terrible” da qual fala o místico São Jão da Cruz não poupa sequer os papas. A sutileza do filme mostra também esta sua angustiante dimensão. Eles não têm certezas totais. Estão no caminho de busca de mais luz para poder caminhar.

O filme revela, de forma maravilhosa, como passo a passo, vai surgindo a humanidade de um de outro. Aprenderam a escutar, a dialogar, e a procurar entender as diferenças. Lentamente as discussões vão desaparecendo, pois a ideologia separa e o encontro une. É então que irrompe a verdadeira humanidade em cada um deles. Um toca piano, o outro cantarola uma cação dos Beatles. Por fim ambos não agem mais como Papas. São humanos, o homem Joseph Ratzinger e o homem Jorge Mario Bergoglio. Ensaiam uns passos de tango, possível a dois idosos. É inimaginável um acadêmico alemão como o professor Ratzinger entregar-se à liberdade do corpo e dar uns passos de dança argentina.

O que une as pessoas não são acordos doutrinários. Estes ficam nos documentos mas não chegam ao coração. O encontro das pessoas, cara a cara, olho a olho, coração a coração transforma a realidade conflitiva, numa realidade, apesar das diferenças, realmente reconcilia.

Esta seja talvez a grande lição que derivamos do filme Dois Papas. Num mundo de ódio, de dilaceração das ideologias, o que nos levará para a direção certa e para a superação das fragilidades da humana existência é e será sempre o resgate de nossa inteira, complexa e ambigua humanidade, um ajudando ao outro a desentranhar o que está escondido nele e que, sozinho, talvez nunca irá poder liberar. Mas vale a filosofia africana do Ubuntu: “eu sou eu somente através de você”.

O cristianismo como religião e caminho de Jesus

Por fim,  cabe uma reflexão para aqueles que sentem dificuldades de viver a fé cristã nos dias de hoje. O cristianismo não nasceu como Igreja constituída, mas como “o movimento de Jesus” ou “o caminho de Jesus” pois assim  nos relatam as fontes originárias do Novo Testamento. Curiosamente nos Atos dos Apóstolos se chama o cristianismo em grego de: “hairesis tou Christou”: a “heresia de Cristo”, vale dizer “o grupelho de Cristo”. So mais tarde, em Antioquia, passou a ser chamado de cristianismo.

Metaforicamente diria: o cristianismo é semelhante a uma bicicleta. A roda da frente representa o Cristianismo como religião, com ritos, celebrações, missas, sacramentos e devoção a santos e santas. Nem todos hoje se identificam com este modo de expressar a fé; felizes os que o conseguem pois o contacto com o sagrado alimenta as dimensões profundas e ignotas de nossa psiqué tão bem estudas pela escola de C. G. Jung e discípulos.

Mas o cristianismo pode se expressar também pela roda de trás. É o cristianismo como ética, como modo de ser que se orienta pelo sonho e a proposta humanitária de Jesus: a centralidade do amor, a empatia face aos que sofrem, a fidelidade à verdade, o desapego à acumulação obsessiva de bens materiais e a capacidade de perdoar. Esse caminho é o mais originário e significa uma proposta de vida, seguida por muitos mesmo sem se filiar a uma confissão cristã ou seguir um caminho religioso. Vivem o sonho do Nazareno no meio da mundanidade do mundo. São cristãos, não pela prática religiosa, mas pela prática da ética da transparência, do amor, da solidariedade a partir dos últimos e da alegria de viver neste belo e radiante planeta.

Creio que o filme aponta mais nesta direção humanitária: a escuta atenta do outro, a abertura ao diálogo e a disposição de aceitar a crítica e a vontade de mudar.

Saimos mais humanizados e espiritualizados após termos visto o filme Dois Papas. Só por este efeito benéfico, valeu a pena o esforço de seus produtores e atores de concebe-lo e de produzi-lo. Bem que mereceria um Oscar, pela mensagem tão atual e esperançadora que irradia e não em último lugar pela beleza deslumbrante de suas imagens e pela música sempre adequada às cenas. Vale ver o filme Dois Papas para deixar-se questionar por ele e enriquecer a maneira própria de viver humanamente.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Francisco de Assis e Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2014,

 

 

 

Dos Papas: dos modelos de hombre, dos modelos de Iglesia

Dos Papas: dos modelos de hombre, dos modelos de Iglesia

                           Leonardo Boff*

Acabo de ver la película Dos Papas, del consagrado cineasta brasileiro Fernando Meirelles.

Considero que la película está técnica y estéticamente bien hecha, reproduciendo los espacios grandiosos del Vaticano y de sus jardines. Está basada en hechos históricos, por supuesto, con la creatividad que permite este tipo de arte, particularmente en la construcción de diálogos. Pero en ellos se entrevén sus respectivas teologías y sus afirmaciones conocidas.

Lo que digo es una opinión estrictamente personal. He tenido el privilegio de conocer personalmente a los dos Papas, con los cuales mantuve y mantengo relaciones bastante cercanas y de amistad.

Papa Ratzinger: finísimo y riguroso

Con el profesor Joseph Ratzinger tengo una deuda de gratitud por haber valorado positivamente mi tesis doctoral sobre “La Iglesia como Sacramento Fundamental en el Mundo secularizado”, voluminosa, más de 500 páginas impresas. Me ayudó financieramente con una cantidad considerable de marcos y encontró una editorial para su publicación, cuando nadie quería arriesgarse a publicar un libro de estas dimensiones. La recepción en la comunidad teológica internacional fue excelente, considerada una obra fundamental, especialmente por el reconocido especialista en el tema Iglesia Jean Yves Congar, dominico francés.

El profesor Ratzinger es una persona de trato finísimo, extremadamente inteligente, nunca lo he visto levantar la voz, pero es muy tímido y reservado.

Al saber que había sido elegido Papa, inmediatamente pensé: “Es un Papa que sufrirá mucho porque quizás no haya abrazado nunca a la gente, mucho menos a una mujer, ni haya estado expuesto a las multitudes”.

Nuestra amistad se fortaleció porque durante cinco años, a partir de 1974, en la semana de Pentecostés (que suele caer hacia mayo) alrededor de 25 reconocidos teólogos y teólogas progresistas de todo el mundo nos reuníamos en la ciudad de Nimega en los Países Bajos o en otra ciudad europea. Durante una semana discutíamos ecuménicamente, acompañados por un pequeño grupo de científicos, hasta de Paulo Freire, sobre temas relevantes del mundo y de la Iglesia. Editábamos una revista, Concilium, que se publicaba en 7 idiomas y aún se sigue publicando (en Brasil por la Editora Vozes). En ella, las mejores mentes del mundo colaboraron en las diferentes áreas del conocimiento, desde la sexualidad y la Teología de la Liberación hasta la moderna cosmología.

El Prof. Ratzinger se sentaba casi siempre a mi lado. Después del almuerzo, mientras casi todos echaban una siesta, él y yo paseábamos por el jardín, discutiendo temas de teología, nuestros favoritos San Agustín y San Buenaventura, de los cuales he leído prácticamente toda la obra.

Cada uno en su papel sin perder la relación

Hecho cardenal y presidente de la Congregación para la Doctrina de la Fe, tuvo la ingrata misión de interrogarme sobre el libro Iglesia: Carisma y poder en 1984. Cumplió institucionalmente su papel de interrogador y yo el de defensor de mis opiniones. Fue un diálogo firme pero siempre elegante por su parte, incluso cuando, después del interrogatorio, tuvimos una segunda parte, es decir, un encuentro aún más difícil con él y con los Cardenales brasileños Don Paulo Evaristo Arns y Don Aloysio Lorscheider que me acompañaron en Roma y testificaron a mi favor. Éramos tres contra uno. Debo admitir que él se sentía incómodo.

Después de un año, recibí la resolución del proceso doctrinal con la deposición de la cátedra de teología, de mis tareas en la Editorial Vozes y la imposición de un “silencio obsequioso” que me impedía hablar, enseñar, entrevistar y publicar cualquier cosa. La decisión final después del interrogatorio fue tomada por 13 cardenales (13 para romper el empate). Más tarde me enteré por un emisario de su secretario privado que él, el Card. Ratzinger, votó a mi favor pero fue el voto perdedor. Hay que decir que cada vez que los periodistas le preguntaban sobre mí, él respondía con humor que soy “ein frommer Theologe” (un teólogo piadoso) que algún día profundizará su verdadero camino teológico.

La película no retrata la figura fina y elegante que lo caracteriza. En una escena levanta la voz y casi grita, lo que me parece totalmente improbable y en contra de su carácter.

A pesar de estar ahora  en diferentes situaciones, él Papa y yo, un teólogo promovido a laico, nunca perdimos nuestra amistad. En sus noventa años, cuando se organizó un Festschrift (un libro de homenaje), en el que escribieron muchas personas notables, a petición suya me pidieron que escribiera mi testimonio sobre él, lo cual hice con agrado. La amistad es más fuerte que cualquier doctrina siempre humana.

El Papa Francisco: tierno, fraterno e innovador

Con referencia a Jorge Mario Bergoglio, ahora Papa Francisco, diría lo siguiente: Nos conocimos en 1972 en el Colegio Máximo de San Miguel en Buenos Aires, cada uno exponiendo la singularidad del camino espiritual de San Ignacio de Loyola (él) y el camino espiritual de San Francisco (yo). Allí discutimos sobre hermeneutica de un francés, cuyo nombre no me acuerdo y tambien la vertiente de la teología de la liberación argentina (del pueblo silenciado y la cultura oprimida), la nuestra brasileña y la peruana (sobre la injusticia social y la opresión histórica de los pobres y los afrodescendientes). De esta reunión hay una foto que él, desde Roma, tuvo la amabilidad de enviarme, donde aparecemos todo un grupo de teólogos y teólogas, la mayoría ya no están entre nosotros, algunos perseguidos y torturados por la represión bárbara del ejército argentino o del chileno. Después nos perdimos de vista.

(Él es el cuarto de la derecha en la fila superior y yo el segundo de la izquierda en la fila de abajo)

El Papa Francisco: teólogo de la liberación integral

Supe por su profesor de teología, recientemente fallecido, Juan Carlos Scannone, el mayor representante de la teología de la liberación argentina, que Bergoglio entró a la Orden Jesuita como una vocación adulta (antes era químico, como aparece en la película). Inmediatamente se entusiasmó con este tipo de teología de la liberación de cuño argentino y allí hizo un voto que siempre cumplió, incluso como cardenal de Buenos Aires: cada semana pasaba una tarde o incluso un día en una villa miseria, siempre solo, entraba en las casas y hablaba con todo el mundo. No vivia en el palacio cardinalicio, ni tenia un coche. Andaba de bus o de metro. Vivia solo en un departamento, haciendo el propio su comida.

Fue Superior Mayor de los Jesuitas de Argentina, actuando especialmente en la región de Buenos Aires. Joven, era muy riguroso. Aquí tuvo que enfrentarse a una situación muy grave que lleva en su corazón hasta el día de hoy: dos jesuitas, el padre Jalics y el padre Yorio (a este lo conocí personalmente en Quilmes) vivían en un barrio pobre, apoyando a los pobres y marginados. Los que trabajaban con el pueblo, como en Brasil en 1964 (y quizás también hoy bajo el nuevo gobierno autoritario de Bolsonaro) eran considerados marxistas y subversivos. Estaban vigilados por los órganos de seguridad militar. Bergoglio fue informado de que serían secuestrados con las torturas subsiguientes. Trató de salvarlos incluso apelando al voto de obediencia, típico de su Orden, en el sentido de que dejaran la favela para no ser víctimas de la represión violenta.

Ellos argumentaron de forma evangélica: “Un pastor no abandona a su rebaño, a su pueblo; participa de su destino; vale más obedecer al Dios de los pobres que obedecer a un superior religioso humano”.

Efectivamente fueron secuestrados y duramente torturados. Jalics se reconcilió con Bergoglio y vive en Alemania, mientras que Yorio se sintió abandonado y se distanció de él (murió en Uruguay hace años). Pude sentir su amargura personal al mismo tiempo que trataba de comprender el impasse al que se enfrenta una autoridad religiosa responsable en situaciones límite. Aun así, Bergoglio escondió a muchos en el Colegio Maximo de San Miguel o los llevó a la frontera de otro país para escapar de una muerte segura.

Papa Francisco: el cuidado de la Casa Común

Al ser elegido Papa, volvimos a comunicarnos. Sabiendo que había estado ocupado intensamente con el tema de la ecología integral, involucrando a la Casa Común, la Madre Tierra, me solicitó colaboración, lo que hice con asiduidad. Pero me advirtió: “no envíes los textos al Vaticano, porque no me los entregarán (el famoso sottosedere de la Curia: sentarse encima y olvidar), sino envíalos directamente al embajador argentino ante la Santa Sede, que todos los días muy temprano toma el mate conmigo”. Hice siempre eso. Dicen por ahi que se nota la presencia de mis pensamientos y temas en la encíclica Laudato Si: sobre el cuidado de la Casa Común (2015). Pero la encíclica es del Papa y el puede eligir los consultores que quiere.También envié textos al Sínodo Panamazónico de 2019. Contestó agradeciéndolo.

Al elegir el nombre de Francisco bajo la inspiración de su amigo brasileño, el cardenal Cláudio Hummes, que le susurró el nombre de Francisco y de hacer una clara opción por los pobres, se transformó. El rigor jesuítico se unió con la ternura franciscana. Con los problemas internos de la Curia, la pedofilia y la corrupción financiera en el Banco Vaticano es extremadamente estricto. Por el contrario, con la gente es visiblemente tierno y fraterno.

Ningún papa anterior ha amonestado con tanta dureza al sistema que ha perdido su sensibilidad, su solidaridad con los millones de pobres y hambrientos, su capacidad de llorar y es adorador del ídolo del dinero. Depreda la naturaleza y es anti-vida y anti-Madre Tierra. No necesitamos indicar a qué sistema se refiere. Su opción por los pobres es rotunda. Debido a sus valientes posturas ante la emergencia ecológica de la Tierra, el calentamiento global y la deshumanización de las relaciones humanas, se ha convertido en un líder religioso y político. Su voz es escuchada y respetada en todo el mundo.

Dos modelos de hombre y dos modelos de Iglesia

El propósito de la película es mostrar dos modelos de personaje religioso y dos modelos de Iglesia.

Primero muestra cómo Ratzinger y Bergoglio, ambos, son humanos, profundamente humanos. En este sentido, ambos tienen su lado positivo y también su lado oscuro. El Papa Benedicto XVI, su indulgencia y leniencia con los pedófilos. No debemos olvidar que escribió a todos los obispos, bajo sigilo pontificio que nunca debe romperse, para que no entregasen a los sacerdotes y obispos pedófilos a los tribunales civiles. Esto desmoralizaría a la institución de la Iglesia. Debían confesar el pecado y ser trasladados a otro lugar. El Papa no se dio cuenta suficientemente de que no se trataba solo de un pecado perdonable por la confesión. Era un crimen contra inocentes que la justicia común debía investigar y castigar. No se pensó en las víctimas, solo en salvaguardar la imagen de la Iglesia institución. Tal omisión fue fuertemente criticada por el Cardinal Bergoglio como aparece claramente en la pelicula.

El papa Benedicto XVI siguió la huella de Juan Pablo II, que era moral y doctrinalmente conservador. Intentó relativizar el aggiornamento del Concilio Vaticano II (1962-1965). Veía a la Iglesia como una fortaleza asediada por todos los lados por enemigos, es decir, por los errores y las desviaciones de la modernidad. La solución propuesta fue volver a la gran disciplina anterior, proveniente del Concilio de Trento (1545-1563) y del Concilio Vaticano I (1869-1870). La centralidad era la ortodoxia y la sana doctrina, como si las predicas fuera lo que salvaba y no las prácticas. En esta línea, el Card. Joseph Ratzinger fue estricto: más de 110 teólogos y teólogas fueron condenados, depuestos de sus cátedras, silenciados (en Brasil, Yvone Gebara y yo personalmente) o castigados de alguna manera. Uno de ellos, un excelente teólogo, fue condenado sin ninguna explicación. Estaba tan deprimido que pensó en suicidarse. Solo se curó cuando fue a América Central para trabajar con las comunidades eclesiales de base. La vida de fe del pueblo sensillo y pobre le devolvió el sentido  de la vida.

Hubo un invierno eclesial severo. Toda una generación de sacerdotes se formó en este estilo doctrinal, con la mirada puesta en el pasado, usando los símbolos del poder clerical. Del mismo modo, fueron consagrados una pléyade de obispos, más autoridades eclesiásticas ortodoxas que pastores en medio de su pueblo.

El Papa Francisco es un modelo distinto de personalidad religiosa. Él viene del fin del mundo, fuera de la vieja y casi agonizante cristiandad europea. Y ha traído una primavera para la Iglesia y para el mundo politico mundial.

Primeramente innovó los hábitos. Al negarse a usar la “mozzeta”, esa pequeña capa blanca llena de brocados que los papas llevaban sobre sus hombros, símbolo del poder absoluto de los emperadores romanos paganos, en la película dice claramente: “el carnaval ha terminado”. No acepta la cruz de oro, continúa con su cruz de hierro; rechaza los zapatos rojos (de Prada) y continúa con sus viejos zapatos negros. No se anuncia a sí mismo como Papa de la Iglesia, sino como Obispo de Roma y solo a partir de ahí, Papa de la Iglesia universal. Al ser presentado como nuevo Papa pide al pueblo que reze por él y que le de la bendición. Solamente después bendice al pueblo. Aquí aparece claramente una nueva visión teológica, conforme al Concilio Vaticano II:  primero viene el Pueblo de Dios y después el Papa y las demás autoridades eclesiasticas al servicio de este Pueblo de Dios.

Anima a la Iglesia no con el derecho canónico, sino con el amor y la colegialidad (en consulta con la comunidad de obispos). En su primer discurso público dice: “cómo me gustaría una iglesia pobre y para los pobres”. No vive en el palacio papal, lo que sería una ofensa para el poverello de Asís, sino en una casa de huéspedes. A la hora de comer guarda fila como los demás y comenta con humor: “así es más difícil que me envenenen”.

Prescinde de un automóvil especial y de un cuerpo de protección personal. Se mezcla entre la gente, da las manos a quienes se las extienden y besa a los niños. Es padre y abuelo querido de las multitudes.

Su modelo de iglesia es el de un “hospital de campaña” que atiende a todos sin preguntar de dónde vienen y cuál es su situación moral. Es una “iglesia en salida” hacia las periferias humanas y existenciales. Respeta los dogmas y las doctrinas, pero afirma claramente que prefiere situarse vivamente ante el Jesús histórico, optando por un encuentro directo con las personas y el cuidado pastoral de la ternura. Insiste en que Jesús vino a enseñarnos a vivir el amor incondicional, la solidaridad y el perdón. Para él es central la misericordia infinita de Dios. Y va más allá al decir: “Dios no conoce una condenación eterna, porque perdería ante el mal. Y Dios no puede perder. Su misericordia no tiene límites”. Por lo tanto, llama a todos, una vez purificados de su maldad, a la casa que el Padre y Madre de bondad han preparado para todos desde la eternidad. Morir es sentirse llamado por Dios y uno va alegremente al Gran Encuentro.

En términos de ecumenismo, enfatiza que las distintas iglesias deben reconocerse mutuamente y todas juntas ponerse al servicio del Reino de justicia, de solidaridad, de fraternidad y de amor, alimentando la llama sagrada de la espiritualidad que se oculta dentro de cada persona.

Es otro tipo de pontificado, otro modelo de ser humano que reconoce que perdió la paciencia cuando una mujer tiró de su mano y se la apretó con fuerza. Molesto, le palmeó la mano dos o tres veces. Pero al día siguiente pidió públicamente perdón. Es naturalmente humilde y reconoce su debilidad.

Dos Papas: diferentes y complementarios

El Papa Francisco abrió toda su humanidad, dándose el derecho a la alegría de vivir, de animar a su equipo favorito, el San Lorenzo, de disfrutar de la música de los Beatles, y hasta conquistó al Papa Benedicto XVI para bailar un tango, impensable en un severo académico alemán. Aquí aparece no el Papa, sino el hombre Bergoglio que desentraña la humanidad recogida del hombre Ratzinger. Ambos son diferentes, pero se unen en el baile de un tango de personas mayores.

La película es una hermosa metáfora de la condición humana, con dos formas diferentes de realizar la humanidad, que no se oponen sino que se componen y completan, una con ternura y la otra con vigor.

Vale la pena ver la película, porque nos hace pensar y nos ofrece lecciones de escucha mutua, de dialogo abierto, de verdades dichas sin tapujos y una amistad que va creciendo a medida que la relación se distiende con cada encuentro. El perdón que se dan uno a otro y el abrazo final, largo y amoroso, engrandece lo humano y lo espiritual presente en cada uno de nosotros.

*Leonardo Boff es teólogo, filósofo y miembro de la Comisión Internacional de la Carta de la Tierra.

Traducción de Mª José Gavito Milano

 

Dois Papas: uma apreciação melhorada

DOIS MODELOS DE HOMEM E DOIS MODELOS DE IGREJA

(edição melhorda com fotos)

Leonardo Boff

Acabei de assistir o filme do consagrado cineasta brasileiro Fernando Meirelles: Dois Papas.

Considero o filme, técnica e esteticamente, bem elaborado, feito nos próprios espaços grandiosos do Vaticano. Sua base é fundada em fatos históricos, evidentemente, com a criatividade que este tipo de arte permite, particularmente na construção dos diálogos. Mas neles se entrevê suas respectivas teologias e afirmações conhecidas.

O que digo é opinião estritamente pessoal. Tive o privilégio de conhecer a ambos os Papas pessoalmente e com os quais entretive e entretenho relações de certa proximidade e até amizade.

O Papa Ratzinger: finíssimo e rigoroso

Com o Prof. Joseph Ratzinger tenho uma dívida de gratidão por ter apreciado minha tese doutoral sobre “A Igreja como Sacramento Fundamental no Mundo secularizado”, volumosa, mais de 500 páginas impressas. Ajudou-me financeiramente com uma soma considerável de marcos e encontrou uma editora para sua publicação, pois ninguém queria assumir o risco de lançar um livro desta proporção. A acolhida na comunidade teológica internacional foi grande, considerada uma obra fundamental, especialmente pelo renomado especialista em Igreja Jean Yves Congar, dominicano francês.

O Prof. Ratzinger é uma pessoa finíssima no trato, extremamente inteligente e nunca o vi alçando a voz; mas é muito tímido e reservado.

Ao saber de sua eleição a Papa, logo pensei: “É um Papa que vai sofrer muito, pois talvez jamais tenha abraçado pessoas, mesmo uma mulher e se exposto às multidões”.

Nossa amizade se fortaleceu porque durante cinco anos, a partir de 1974, toda semana de Pentecostes (por volta de maio) cerca de 25 teólogos e teólogas progressistas, renomados do mundo inteiro, nos encontrávamos em Nimega na Holanda ou em outra cidade europeia. Durante uma semana discutíamos ecumenicamente, acompanhados por um pequeno grupo de cientistas, inclusive de Paulo Freire, sobre temas relevantes do mundo e da Igreja. Editávamos uma revista Concilium que se publicava em 7 línguas que ainda continua a ser publicada (no Brasil pela Editora Vozes). Aí colaboraram as melhores cabeças mundiais, nas várias áreas do conhecimento que vai da sexualidade, da Teologia da Libertação, à moderna cosmologia.

O Prof.Ratzinger sentava-se quase sempre ao meu lado. Depois do almoço enquanto quase todos tiravam uma sesta eu e ele passeávamos pelo jardim, discutindo temas de teologia, nossos preferidos, Santo Agostinho e São Boaventura dos quais li praticamente toda obra e ele é um especialista reconhecido.

Cada um em seu papel sem perder a relação.

Feito Cardeal e Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, teve a ingrata missão de me interrogar sobre o livro Igreja: carisma e poder em 1984. Ele cumpria institucionalmente sua função de interrogador e eu de defensor de minhas opiniões. Foi um diálogo firme, mas sempre elegante da parte dele, mesmo quando, após o interrogatório, tivemos um encontro já mais duro com ele e os Cardeais brasileiros Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Aloysio Lorscheider que me acompanharam em Roma e testemunharam a meu favor. Éramos três contra um. Devo reconhecer que ele se sentia constrangido.

Depois de um ano, recebi a solução do processo doutrinário com a deposição da cátedra de teologia, de minhas funções na Editora Vozes e a imposição de um “silêncio obsequioso” que me impedia de falar, de ensinar, de dar entrevistas e de publicar qualquer coisa. A decisão final após o interrogatório foi feita por 13 cardeais (13 para desempatar). Soube mais tarde, através de um emissário de seu secretário particular que ele, Card. Ratzinger, votou a meu favor, mas foi voto vencido. Cabe dizer que sempre que jornalistas perguntavam a ele sobre mim, respondia, com certo humor, que sou “ein frommer Theologe” (um teólogo piedoso) que um dia vai aprofundar seu verdadeiro caminho teológico.

O filme não retrata a figura fina e elegante que o caracteriza. Em certa cena, levanta a voz e quase grita, o que, me parece, totalmente inverossímil e contra seu caráter.

Apesar de estarmos agora em situações diferentes, ele Papa retirado e eu um teólogo promovido a leigo, nunca perdemos a amizade. Por seus 90 anos, ao ser organizada uma Festschrift (um livro de homenagem), na qual muitos notáveis escreveram, a pedido dele solicitaram-me que escrevesse meu testemunho a seu respeito, o que fiz, prazerosamente. A amizade é mais forte que qualquer doutrina sempre humana.

O Papa Francisco: terno, fraterno e inovador

Com referência ao Jorge Mario Bergoglio, agora Papa Francisco, diria o seguinte: Conhecemo-nos em 1972 no Colégio Máximo de San Miguel em Buenos Aires, cada um discorrendo sobre a singularidade do caminho espiritual de Santo Inácio de Loyola (ele) e o caminho espiritual de São Francisco (eu). Aí discutimos a vertente da teologia da libertação de tipo argentino (do povo silenciado e da cultura oprimida) e a nossa brasileira e peruana (sobre a injustiça social e a opressão histórica sobre os pobres e afrodescendentes). Deste encontro há uma foto que ele, desde Roma, teve a gentileza de me mandar, onde aparecemos, todo um grupo de teólogos e teólogas, a maioria não mais entre nós, alguns perseguidos e torturados pela repressão bárbara dos militares argentinos ou chilenos. Depois nos perdemos de vista.

(Ele é o terceiro da esquerda para a direita e eu o segundo da esquerda)

O Papa Francisco: teólogo da libertação integral

Soube pelo seu professor de teologia, recentemente falecido, Juan Carlos Scannone, o representante maior da teologia da libertação argentina. que Bergoglio entrou para a Ordem Jesuítica como vocação adulta (era químico antes, como aparece no filme). Entusiasmou-se logo com a teologia da libertação de viés argentino e aí mesmo fez um voto que cumpriu sempre, mesmo como cardeal de Buenos Aires: toda semana passar uma tarde ou mesmo um dia numa favela (Villa miséria), sempre sozinho, entrando nas casas e conversando com todo mundo.

Foi Superior Maior da Província dos Jesuítas da região de Buenos Aires. Jovem, era muito rigoroso. Aqui teve que enfrentar uma situação gravíssima, que carregou no coração até os dias de hoje: dois jesuítas, o padre Jalish e o padre Yorio (que conheci pessoalmente em Quilmes) viviam numa favela, apoiando os pobres e marginalizados. Quem trabalhava com o povo, como no Brasil de 1964 (e talvez também hoje sob o novo governo), seriam considerados marxistas e subversivos. Eram vigiados pelos órgãos de segurança dos militares. Bergoglio soube que seriam sequestrados com as torturas que se seguiam. Tentou salvá-los até apelando ao voto de obediência, típico de sua Ordem, no sentido de abandonarem a favela, para não serem vítimas da repressão.

Eles argumentaram de forma evangélica: “um pastor não abandona seu rebanho, seu povo; participa de seu destino; vale mais obedecer ao Deus dos pobres do que obedecer a um superior religioso”.

Efetivamente foram sequestrados e duramente torturados. Jalish se reconciliou com Bergoglio e vive na Alemanha, enquanto Yorio se sentiu abandonado e distanciou-se dele (morreu no Uruguai, anos atrás). Pude sentir sua amargura pessoal, ao mesmo tempo que procurava entender o impasse que uma autoridade religiosa, com responsabilidade, enfrenta em situações-limite. Mesmo assim, Bergoglio escondeu a muitos no Colegio Maximo de San Miguel ou os levou até a fronteira de outro país para fugirem da morte certa.

O Papa Francisco: o cuidado da Casa Comum

Ao ser eleito Papa, voltamos a nos comunicar. Sabendo que havia me ocupado intensivamente com o tema da ecologia integral, envolvendo a Casa Comum, a Mãe Terra, solicitou-me subsídios, coisa que fiz com assiduidade. Mas logo me advertiu: ”não mande os textos para o Vaticano, pois, não me serão entregues (o famoso sottosedere da Cúria: sentar em cima e esquecer) mas envie-os diretamente ao embaixador argentino junto à Santa Sé, especialmente àquele que todos os dias, bem cedo, toma o chimarrão (el mate), comigo”. Assim fiz sempre, Diz-se pr ai que na encíclica sobre o “cuidado da Casa Comum” ressoam pensamentos e textos meus. Mas a encíclica é do Papa e ele se toma a liberdade de consultar as pessoas que quiser. O mesmo fiz com textos sobre o Sínodo Panamazônico de 2019. Respondeu várias vezes agradecendo.

Ao escolher o nome de Francisco sob inspiração de seu amigo brasileiro, o Card. Dom Cláudio Hummes que lhe sussurrou o nome ao ouvido e ainda de não esquecer os pobres, ele se transformou. O rigor jesuítico se uniu com a ternura franciscana. Com os problemas internos da Cúria, a pedofilia, a corrupção financeira dentro do Banco do Vaticano é extremamente rigoroso. Contrariamente, com o povo, é visivelmente terno e fraterno.

Nenhum Papa anterior castigou tão duramente o sistema que perdeu a sensibilidade, a solidariedade com os milhões de pobres e famintos, a capacidade de chorar e que são adoradores do ídolo do dinheiro. Depredam a natureza e são anti-vida e anti-Mãe Terra. Não precisamos declarar a que sistema se refere. Sua opção pelos pobres é altissonante. Tornou-se, por suas posturas corajosas face à emergência ecológica da Terra, ao aquecimento global e à desumanização das relações humanas, um líder religioso e político. Sua voz é ouvida e respeitada pelo mundo afora.

Dois modelos de homem e dois modelos de Igreja

O propósito do filme é mostrar dois modelos de personagens religiosas e dois modelos de Igreja.

Primeiramente, mostra como ambos, Ratzinger e Bergoglio. são humanos, profundamente humanos. Nesse sentido: ambos possuem seu lado luminoso e também seu lado sombrio. O Papa Bento XVI, sua leniência com os pedófilos. Não devemos esquecer que escreveu a todos os bispos, sob sigilo pontifício que, jamais deve ser quebrado, de não entregar os padres e os bispos pedófilos aos tribunais civis. Isso desmoralizaria a instituição Igreja. Deviam, sim, confessar-se do pecado e ser transferidos para outro lugar. O Papa não se deu conta suficientemente de que não tinha a ver apenas com um pecado perdoável pela confissão. Tratava-se de um crime contra inocentes, que a justiça comum deve investigar e punir. Não se pensou nas vítimas, apenas na salvaguarda da imagem da instituição-Igreja.

O Papa Bento XVI colocou-se na esteira do João Paulo II que era, moral e doutrinariamente, conservador. Procurou relativizar o aggiornamento do Concílio Vaticano II (1962-1965). Via a Igreja como uma fortaleza sitiada por todos os lados por inimigos, vale dizer, pelos erros e desvios da modernidade. A solução que se propunha era a de voltar à grande disciplina anterior, vinda do Concílio de Trento (1545-1563) e do Concílio Vaticano I. (1869-1870). A centralidade era a ortodoxia e a sã doutrina, como se fossem as prédicas que salvassem e não as práticas. Nesta linha o Card. Joseph Ratzinger foi rigoroso: mais de 110 teólogos ou teólogas foram condenados, depostos de suas cátedras, silenciados (no Brasil Yvone Gebara e eu pessoalmente) ou de alguma forma punidos. Um deles, excelente teólogo, foi condenado sem receber nenhuma explicação. Ficou tão deprimido que pensou em suicidar-se. Só se curou quando foi à América Central a trabalhar com as comunidades eclesiais de base.

Viveu-se um inverno eclesial severo. Toda uma geração de padres foi formada nesse estilo doutrinário e com os olhos voltados ao passado, usando os símbolos do poder clerical. Igualmente, toda uma plêiade de bispos foi sagrada, mais autoridades eclesiásticas ortodoxas, que pastores no meio de seu povo.

Outro modelo de personalidade religiosa é o Papa Francisco. Ele vem do fim do mundo, de fora da velha e quase agônica cristandade europeia. Ele trouxe uma primavera para a Igreja e para o mundo da política mundial.

Primeiramente, inovou os hábitos. Ao negar-se de vestir a “mozzeta” o pequeno manto branco, cheio de brocados que os papas carregam aos ombros, símbolo do absoluto poder dos imperadores romanos pagãos, diz o filme claramente: “acabou-se o carnaval”. Sabemos que esta frase foi dita mesmo. Não aceita a cruz dourada, continua com sua cruz de ferro; rejeita o sapato vermelho (Prada) e continua com o seu velho sapato preto. Não se anuncia como Papa da Igreja, mas como bispo de Roma e, somente a partir daí, Papa da Igreja universal. Animará a Igreja não com o direito canônico, mas com o amor e com a colegialidade (consultando a comunidade dos bispos). Em sua primeira fala pública, diz “como gostaria de uma Igreja pobre para os pobres”. Não mora no palácio papal, o que seria uma ofensa ao poverello de Assis, mas numa casa de hóspedes. Come na fila como os outros e comenta, com humor: ”assim, é mais difícil que me envenenem”.

Dispensa um carro especial e um corpo de proteção pessoal. Mistura-se no meio do povo, dá as mãos a quem as estende e beija as crianças. É pai e avô querido das multidões.

Seu modelo de Igreja é o de “um hospital de campanha”, que atende a todos, sem perguntar de onde vem e qual é sua situação moral. É uma “Igreja em saída” para as periferias humanas e existenciais. Respeita os dogmas e doutrinas, mas diz claramente que prefere colocar-se vivamente diante do Jesus histórico, opta pelo encontro direto com as pessoas e enfatiza a pastoral da ternura. Insiste que Jesus veio para nos ensinar a viver o amor incondicional, a solidariedade e o perdão. Central para ele é a misericórdia infinita de Deus. Vai mais longe ao dizer: ”Deus não conhece uma condenação eterna, pois perderia para o mal. E Deus não pode perder. Sua misericórdia não conhece limites”. Por isso, chama a todos, uma vez purificados de suas maldades, para a casa que o Pai e a Mãe de bondade preparou para todos, desde toda a eternidade. Morrer é sentir-se chamado por Deus e vai-se alegremente para o Grande Encontro.

Eis outro tipo de pontificado, outro modelo de ser humano que reconhece que perdeu a paciência quando uma mulher o puxou e apertou longa e duramente sua mão. Irritado, bateu-lhe a mão por duas ou três vezes. Mas no dia seguinte pediu publicamente perdão.

Dois Papas: diferentes e complementares.

O Papa Francisco abriu sua inteira humanidade, dando-se o direito à alegria de viver, de torcer pelo seu time de estimação o San Lorenzo, de apreciar a música dos Beatles até conquistar o Papa Bento XVI a dançar um tango, impensável para um severo acadêmico alemão. Aqui aparece não o Papa, mas o homem Bergoglio que desentranha a humanidade recolhida do homem Ratzinger. Ambos são diferentes, mas se integram na dança de um tango de pessoas idosas. A vida, afinal, é uma dança.

O filme é uma bela metáfora da condição humana, de dois modos diferentes de realizar a humanidade, que não se opõem, mas se compõem e se completam, uma com a ternura e a outra com o rigor. Vale ver o filme, pois nos faz pensar e nos oferece lições de mútua escuta, de um diálogo sincero, de verdades ditas sem rebuços e de uma amizade que vai crescendo na medida em que a relação se descontrai de encontro a encontro. O perdão que um dá ao outro e o abraço final, longo e carinhoso, demonstra o humano e o espiritual presentes em cada um de nós.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e membro da Comissão Internacional da Carta da Terra

Balance de 2019: el imperio de la impostura

Fuera de los grandes empresarios que aplauden calurosamente al ministro de la Economia Paulo Guedes porque ganan con la crisis, el balance de 2019 en la perspectiva de las víctimas de los ajustes fiscales, de los que perdieron derechos en la reforma de la seguridad social y de los resistentes es repudiable.

Aquí se ha instalado el imperio de la impostura. Un presidente que debería dar ejemplo al pueblo de las virtudes que todo gobernante debe tener, realizó actos premeditados que en el lenguaje religioso, bien entendido por él, son verdaderos pecados mortales. Para la moral cristiana más tradicional es pecado mortal calumniar a ciertas ONGs, así como al actor Leonardo di Caprio culpándolos de incentivar los incendios de la Amazonia o difamar al reconocido educador Paulo Freire y al científico Ricardo Galvão o mentir contumazmente mediante fake news y alimentar odio y rencor contra homoafectivos, LGBTI, indígenas, quilombolas, mujeres y nordestinos. La lentitud en el enjuiciamiento de las masacres de Brumadinho y de Mariana en el Minas Gerais está mostrando la insensibilidad de las autoridades. Algo parecido ocurrió con el ignoto derrame de petróleo en 300 playas de 100 municipios del Nordeste de Brasil.

No cabe a nadie juzgar su intención subjetiva. Eso es cosa de Dios. Pero cabe hacer un juicio sobre hechos y actos, por tanto realidades objetivas y concretas para las cuales cabe un juicio ético y teológico. Tal actitud inmoral fue entendida por muchos como carta blanca para deforestar más, asesinar a líderes indígenas y para volver a la policía más violenta y hasta asesina.

Estamos viviendo bajo el imperio de la impostura en el campo nacional e internacional. Un psicoanalista francés, Roland Gori, escribió un libro provocador La fabrique des imposteurs (Paris 2013). Para él, el impostor es aquel que prefiere los medios a los fines, que niega las verdades científicas, que distorsiona la realidad solar, que no se rige por valores porque es solo un oportunista, que afirma algo y después lo niega conforme a sus conveniencias, que practica el arte de engañar a las personas en vez de emanciparlas mediante el pensamiento crítico, que desprecia el cuidado por el medio ambiente, que pasa por encima de las leyes, que desprecia a los pobres y no conoce lo que es el amor ni la piedad.

Lo que he transcrito aquí está referido en el libro La fabrique des imposteurs y representa un retrato de la atmósfera de impostura reinante en las más altas instancias políticas de Brasil.

Las medidas contra la educación, la salud, la ciencia, el medio ambiente y los derechos humanos concretan la más ruda impostura contra todo lo que de positivo se ha construido en los últimos decenios. Estamos siendo conducidos a un estadio regresivo, anterior al iluminismo, a una mentalidad fundamentalista de rasgo fascistoide.

Tal vez el acto más humillante para nosotros fue el gesto de vasallaje explícito del actual gobernante al presidente de USA, haciendo continencia militar a la bandera norteamericana y además  ofreciéndole lo que podía sin recibir nada a cambio. Fue risible y ridículo cuando en una recepción de jefes de estado le dijo a Trump “I love you”, y recibió solo 17 segundos de atención.

La impostura avanza vehementemente, en primer lugar en USA donde el presidente Trump, según repite Paul Krugman, Nobel de economía, es un peligro para la humanidad. Miente hasta más no poder y se justifica diciendo que son “verdades alternativas”. Igual impostura ocurre en los países ultra neoliberales donde el pueblo se rebela como en Chile, en Ecuador, en Colombia, culminando con un golpe de estado contra la población indígena y su representante en Bolivia, Evo Morales Ayma, lanzando al pueblo al hambre y la desesperación.

Una impostura peligrosa ocurrió en la COP25 en Madrid, en donde contra todas las evidencias y datos científicos predominaron los negacionistas del calentamiento global, Brasil incluido. Contra ellos, el informe final recoge la advertencia de la ONU: “Si no hacemos nada, la temperatura puede aumentar de 4-5 grados al final de este siglo”. Con estos niveles, la vida que conocemos no subsistirá. Será un verdadero Armagedón ecológico. Nuestra especie correrá peligro.

No obstante esta atmósfera tenebrosa, toca celebrar la liberación de Lula, víctima de la aplicación del law fare, instrumento de persecución política con el objetivo de encarcelarlo. Así ocurrió.

Termino con las graves palabras del premio Nobel de medicina de 1974, Christian de Duve: “La perspectiva no es sólo preocupante: es aterradora. Si no conseguimos contener el crecimiento demográfico (podría haber dicho el calentamiento global) racionalmente, la selección natural hará eso por nosotros irracionalmente, a costa de privaciones sin precedentes y de daños irreparables al medio ambiente. Tal es la lección que nos ofrecen los cuatro mil millones de años de la historia de la vida en la Tierra” (Polvo vital 1997, 369).

Igualmente lo enfatizaba el Papa Francisco en su encíclica ecológica: “las previsiones catastróficas no se pueden mirar con desprecio e ironía” (n.161). La impostura nos hace sordos a estos clamores. Por esa causa, si no hacemos cambios fundamentales, el destino humano difícilmente escapará de una tragedia.

*Leonardo es teólogo y filósofo y ha escrito: A saudade de Deus-a força dos pequenos, a salir por Trotta en España y Dabar por Mexico en 2020.

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