Um vasto “proto-estado” dentro da Amazônia

                    Um vasto “proto-estado” dentro da Amazônia

                                      Leonardo Boff

Euclides da Cunha (1866-1909), um clássico das letras brasileiras, foi também um apaixonado pesquisador da região amazônica,escreveu em 1905: ”A inteligência humana não suportaria o peso da realidade portentosa da Amazônia; terá de crescer com ela, adaptando-se-lhe para dominá-la”(Um paraíso perdido, reunião de ensaios amazônicos, Petrópolis 1976,15). Tal constatação mostra a luxuriante riqueza deste incomensurável ecossistema.

Paradoxalmente é também o lugar onde a Amazônia mais sofre violência. Se quisermos ver a face brutal do sistema capitalista predador, então visitemos a Amazônia. Aí emerge o gigantismo do espírito da modernidade, o racionalizado do iracional e a lógica implacável do sistema anti-natureza.

O Estado brasileiro, as empresas nacionais e as multinacionais formaram um poderoso tripé. Deram origem ao que se tem chamado “o modo de produção amazônico”(cf.Mires,F., El discurso de la naturaleza: ecología y política en America Latina, DEI, San José 1990, 119-123). É um modo que se define como uma forma de produção/destruição terrivelmente predatória, com aplicação intensiva de tecnologia contra a natureza, declarando guerra às árvores, exterminando populações originárias e adventícias, superexplorando a força de trabalho, até a modo de escravidão, em vista da produção para o suprimento do mercado mundial .

A Amazônia continental compreende 6,5 milhões de km quadrados, cobrindo dois quintos da área latino-americana: metade do Peru,um terço da Colômbia e grande parte da Bolívia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname e 3,5 milhões de km quadrados da área brasileira.

Geologicamente o proto-Amazonas durante todo o paleozoico (entre 550-230 milhões de anos atrás) formava um gigantesco golfo aberto para o Pacífico. A América do Sul estava ainda ligada à África. Na era cenozoica,no início do período terciário há 70 milhões de anos, os Andes começaram a soerguer-se e durante todo o plioceno e pleistoceno e por milhares e milhares de anos bloquearam a saída das águas para o Pacífico. Toda a depressão amazônica ficou paisagem aquosa até encontrar uma saída para o Atlântico como ocorre atualmente. (cf.Sioli,H.,Amazônia, fundamentos da ecologia da maior região de florestas tropicais,Vozes,Petrópolis 1985, 15-17).

O rio Amazonas, segundo as mais recentes pesquisas, é o rio mais longo do mundo com 7.100 quilômetros, cujas nascentes se encontram no Peru, entre os montes Mismi (5.669 m) e Kcahuich (5.577 m) ao sul da cidade de Cuzco. De longe é também o mais volumoso, com uma vazão média de 200.000 metros cúbitos por segundo. Somente ele, perfaz entre 1/5 a 1/6 da massa de água que todos os rios da Terra lançam conjuntamente nos oceanos e mares. O leito principal do rio tem a largura média de 4-5 km com uma profundidade que varia de 100 m em Óbidos a 4 m na foz do Xingu.

O maior patrimônio genético se oferece na Amazônia. Como dizia um de nossos melhores estudiosos Eneas Salati: “Em poucos hectares da floresta amazônica existe um número de espécies de plantas e de insetos maior que em toda a flora e fauna da Europa” (Salati, E., Amazônia: desenvolvivmento, integração, ecologia, Brasiliense/CNPq, S.Paulo 1983; cf. Leroy, J.-P., Uma chama na Amazônia,Vozes/Fase, Petrópolis 1991,184-202; Ribeiro, B., Amazônia urgente, cinco séculos de história e ecologia, Itatiaia, B.Horizonte 1990, 53). Mas não nos devemos iludir: esta floresta luxuriante é extremamente frágil, pois, se ergue sobre um dos solos mais pobres e lixiviados da Terra.

Na região amazônica pré-colombiana viviam segundo o historiador Pierre Chaunu dois milhões de habitantes e em toda a América do Sul cerca de 80-100 milhões sendo que cinco milhões no Brasil.

Desenvolveram um sutil manejo da floresta, respeitando sua singularidade, mas ao mesmo tempo modificando o habitat para estimular aqueles vegetais úteis para o uso humano. Como afirma o antropólogo Viveiros de Casto:”a Amazônia que vemos hoje é a que resultou de séculos de intervenção social, assim como as sociedades que ali vivem são o resultado de séculos de convivência com a Amazônia (Sociedades indígenas e natureza, em Tempo e Presença,n.261,1992,26). E.Miranda é ainda mais enfático:”Resta pouca natureza intocada e não alterada pelos humanos na Amazônia”(Quando o Amazonas corria para o Pacífico, Vozes, Petrópolis 2007, 83). No Brasil pré-cabralino havia cerca de 1.400 tribos, 60% delas na parte amazônica. Falavam-se línguas pertencentes a 40 troncos subdivididos em 94 famílias diferentes, fenômeno fantástico o que levou a etnóloga Berta Ribeiro afirmar que “em nenhuma outra parte da Terra encontrou-se uma variedade linguística semelhante à observada na América do Sul tropical” (Amazônia urgente, op.cit. 75).

Releva notar que no interior da floresta amazônica, a partir de 1.100 antes da chegada dos europeus, formou-se um espaço imenso (diria quase um “império”) da tribo tupi-guarani.Ela ocupou territórios que iam desde os contrafortes andinos, formadores do rio, até a bacia do Paraguai e do Paraná, chegando depois ao Norte e Nordeste, descendo até o Pantanal e os pampas gaúchos.

Praticamente todo Brasil florestal, exceto algumas partes,foi conquistado pelos tupi-guarani(cf.Miranda, E., Quando o Amazonas corria para o Pacífico,op.cit.92-93). Foi criado um “proto-estado” com animado comércio com os Andes e o Caribe.

Desta forma se desfaz a crença do caráter selvagem da Amazônia e de seu vazio civilizacional.

Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escreveu Ecologia:grito da Terra-grito dos pobres, Vozes 2015.

 

 

La Terra come baule di risorse infinite o come Casa Comune viva?

Con eventi e convegni sull’ecologia si celebra in tutto il mondo e anche tra di noi la Settimana del Semi Ambiente. Logicamente, il semi ambiente non ci soddisfa, perché vogliamo l’ambiente per intero.

Il Papa nella sua enciclica “Laudato si’ – Sulla cura della Casa Comune” (2015) ha superato questo riduzionismo e ha proposto una ecologia integrale che comprenda l’ambiente, il sociale, il politico, il mentale, il quotidiano e lo spirituale. Come affermano grandi esponenti del discorso ecologico: con questo documento, rivolto all’umanità e non solo ai cristiani, Papa Francesco si pone alla testa del dibattito ecologico mondiale. Nella sua esposizione dettagliata segue l’indicazione metodologica della Chiesa della Liberazione e della sua teologia: vedere, giudicare, agire e celebrare.

Basa le sue affermazioni (il vedere) con i dati più certi della Terra e delle scienze della vita; fa una rigorosa analisi critica (giudicare) di ciò che lui chiama il “paradigma tecnocratico” (n.101), produttivista, meccanicista, razionalista, consumista e individualista, il cui “stile di vita non può che portare al disastro” (n.161). Giudicare implica una lettura teologica in cui l’essere umano emerge come custode e guardiano della casa comune (l’intero capitolo II). Mette come filo conduttore le tesi di fondo della cosmologia, della fisica quantistica e dell’ecologia: il fatto che “tutto è collegato e tutti noi esseri umani camminiamo insieme come fratelli e sorelle in un meraviglioso pellegrinaggio… che ci unisce anche con tenero affetto a fratello Sole, sorella luna, fratello fiume e Madre Terra” (n.92). Propone pratiche alternative (agire) con chiedendo urgentemente una “radicale conversione ecologica” (n.5) nel nostro modo di produrre e consumare, “gioendo con poco” (n.222) “con sobrietà consapevole” (n.223) “nella convinzione che tanto meno, tanto più” (n.222). Si sottolinea l’importanza di “una passione per la cura del mondo”, “una vera e propria mistica che ci incoraggia” (celebrare) ad assumere le nostre responsabilità per il futuro della vita.

Attualmente c’è una feroce battaglia tra due visioni riguardanti la Terra e la natura che influenzano la nostra comprensione e le nostre pratiche. Queste visioni sono presenti in quasi tutti i dibattiti.

La visione predominante, che è il cuore del paradigma della modernità, considera la natura come qualcosa destinata a noi, i cui beni e servizi (il sistema preferisce chiamarli “risorse”, gli andini “beni della natura”) sono disponibili per il nostro uso e benessere. L’essere umano è nella posizione tipica di Adamo di chi è considerato “padrone e signore” (Descartes) della natura, al di fuori e al di sopra di essa. Considera la Terra una realtà senza scopo (res extensa), una sorta di baule pieno di beni e servizi infiniti che sostengono anche un progetto di sviluppo/crescita infinito. Da questa attitudine di “dominus” (signore) è sorto il mondo scientifico-tecnico che tanti benefici ci ha portato, ma che allo stesso tempo ha creato una macchina di morte che, con armi chimiche, biologiche e nucleari può distruggere tutti noi e mettere in pericolo la biosfera.

L’altra visione, contemporanea, che ha più di un secolo ma che non è mai riuscita a diventare egemonica, comprende che siamo parte della natura e che la Terra è viva e si comporta come un super organismo vivente, autoregolato, che combina fattori fisico-chimici ed ecologici così sottilmente articolati che mantiene sempre e riproduce la vita. L’essere umano fa parte della natura e di quella parte della Terra che in un processo di altissima complessità ha cominciato a sentire, a pensare, ad amare e a venerare. La nostra missione è prenderci cura di questo grande “Ethos” (in greco significa casa) che è la casa comune: siamo il “frater” (fratello) di tutti. Dobbiamo produrre per soddisfare le esigenze umane, ma in linea con i ritmi di ogni ecosistema, avendo sempre cura che i beni e i servizi possano essere utilizzati con una sobrietà condivisa, in vista delle generazioni future.

In una tavola rotonda con rappresentanti di diversi saperi, si discutevano i modi di proteggere la natura. C’era un capo pataxo del sud di Bahia che ha parlato per ultimo e ha detto: “Non capisco il vostro discorso, tutti vogliono proteggere la natura; io sono natura e proteggo me stesso”. Ecco la differenza: tutti parlavano della natura come di chi è al di fuori di essa, nessuno se ne sentiva parte. L’indigena si sentiva natura. Proteggerla è proteggere se stesso, che è natura.

Questo dibattito è ancora in corso. Il futuro indica verso la seconda visione, quella di guardare la Terra come Gaia, Pachamama, Grande Madre e Casa Comune. Ci stiamo lentamente rendendo conto che siamo natura e difenderla significa difendere noi stessi e la nostra stessa vita. Altrimenti, la prima visione, quella della Terra e della natura come un baule di “risorse infinite”, può condurci ad un cammino senza ritorno.

*Leonardo Boff ha scritto: “Como avere cura della Casa Comune”, Vozes 2018.

Traduzione di M. Gavito & S. Toppi

Um marxista valoriza a encíclica ecológica do Papa Francisco: Michael Löwy

Michel Löwy é mundialmente um dos principais intelectuais do marxismo atual e um destacado impulsionador do ecossocialismo anticapitalista. Diretor de pesquisa emérito do Centre National da Recherche Scientifique e professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Nascido no Brasil, viveu como professor e pesquisador na França.  Como poucos conhece a Teologia da Libertação. Notável é seu livro “A guerra dos deuses: religião e política na América Latina (Vozes 2000). Ultimamente nos brindou com outro brilhante livro: O que é Cristianismo de Libertação (Fundação Perseu Abramo 2016).  Junto com outros fundou a corrente  do Ecosocialismo, sendo autor do Manifesto do movimento. É de um marxismo ético e libertário, mostrando os laços da tradição judaica com a cristã no sentido de uma libertação integral.

“A encíclica Laudato Si’ é uma contribuição de extraordinária importância para o desenvolvimento, em escala planetária, de uma consciência ecológica. Para o Papa Francisco, os desastres ecológicos e a mudança climática não são simplesmente o resultado de comportamentos individuais, mas dos atuais modelos de produção e de consumo”, afirma Michael Löwy   na entrevista que reproduzimos, dada  a  entrevista a Juanjo Sánchez e Evaristo Villar, publicada pela revista Éxodo e reproduzida por Rebelión, 13-06-2019. e agora por IHU on line de 14 de junho de 2019. Por sua clareza e entusiasmo pela mensagem ecológica do Papa Francisco que revela neste escrito e em outros, publicamo-la aqui no blog: Lboff

Eis a entrevista.

Michael, estávamos preparando um novo número da revista ÉXODO, quando chegou em nossas mãos seu esplêndido livro sobre o Cristianismo de libertação. O tema que escolhemos é a profunda crise em que a política está submergida e a necessidade de uma mudança radical da mesma. Esta crise não existe somente na Europa. Como se vive no Brasil?

A principal força da esquerda no Brasil, o Partido dos Trabalhadores, não conseguiu uma conscientização efetiva das classes populares. Tomou algumas medidas importantes para melhorar a condição dos pobres, mas não enfrentou a estrutura oligárquica do país, o poder dos latifundiários e do capital financeiro. Além disso, foi contagiado com a tradicional corrupção dos políticos brasileiros. Mas, a vitória da extrema direita fascista (Jair Bolsonaro) não pode ser explicada só pelos erros dos dirigentes do PT. É parte de um processo planetário de ascensão da extrema direita.

No Brasil, a utilização massiva de fake news, o apoio de igrejas neopentecostais reacionárias e a demagogia anticorrupção permitiram que um partidário da ditadura militar (1964-1985) vencesse as eleições. Bolsonaro é homofóbico, sexista, partidário do extermínio da esquerda e um grande admirador de alguns dos piores torturadores do regime militar: o coronel Brilhante Ustra. Entre suas vítimas, morto sob tortura em 1971, está meu amigo Luis Eduardo Merlino, jovem militante marxista.

A resistência a seu governo já começou a se organizar. Tem em sua liderança jovens mulheres. Seu símbolo é Marielle Franco, jovem vereadora municipal do Rio de Janeiro, socialista, negra, lésbica, assassinada por bandidos há um ano. Apesar de tudo, não podemos esquecer que 45% dos eleitores votaram em Fernando Haddad (PT), o candidato comum de toda a esquerda. Muitos dos que votaram em Bolsonaro já começaram a mudar de opinião. Ficaram conhecidos os escândalos de corrupção que afetam ele e sua família.

Em seu livro, escreve sobre a radicalização introduzida pelo cristianismo de libertação. Acredita que nossa situação atual precisa de uma radicalização anticapitalista? Que mudanças seriam necessárias para uma nova política?

A atual situação na América Latina está marcada por uma terrível ofensiva da ultradireita que tomou o poder na maioria dos países, mediante eleições ou golpes de estado pseudoparlamentares. Existe alinhamento com Trump e o imperialismo estadunidense, neoliberalismo sem freios, destruição do meio ambiente, repressão dos movimentos sociais.

Na resistência que começa a se desenvolver, os cristãos de libertação estão tendo um papel essencial. O objetivo imediato é a defesa das liberdades democráticas e as conquistas populares. Também a oposição às medidas antissociais e antiecológicas de corte neoliberal. Neste movimento de resistência, há correntes que se dão conta que é necessário combater a raiz destes males: o sistema capitalista. O capitalismo é um sistema intrinsecamente perverso que exige sacrifícios humanos para o ídolo “Mercado”.

Precisamos de alternativas antissistêmicas e ecossocialistas. Os cristãos da libertação estão e estarão sem dúvidas no coração desta luta, inspirados pelos escritos de Leonardo Boff, de Frei Betto e da encíclica Laudato Si’, do papa Francisco.

Há condições para esta radicalização social e política? Que obstáculos e que possibilidades enxerga?

O principal obstáculo é o poder ideológico do sistema. Este se difunde através de seu controle dos meios de comunicação, do papel nefasto de muitas igrejas neopentecostais, da influência social da religião do mercado, da alienação consumista e da passividade resignada de amplos setores populares.

É preciso acrescentar como obstáculo as opções de amplos setores da esquerda por políticas de conciliação de classes, de compromissos com a oligarquia, de concessões aos latifundiários e ao capital financeiro em prol da “governabilidade”.

As possibilidades vêm das lutas das organizações populares que desenvolvem formas de conscientização e radicalização sociopolítica. Isto é muito visível em amplos setores da juventude.

Na relação do cristianismo de libertação com a Modernidade europeia se constata uma diferença. Em seu livro, você afirma que o decisivo para este cristianismo não é a modernização, mas a mudança de sociedade e a libertação dos empobrecidos. É “o ponto de vista dos vencidos” que Walter Benjamin reivindicava. Pode expressar o significado desta diferença?

A modernização é concebida como desenvolvimento industrial e crescimento do PIB. Este é o pensamento sobre a modernização imperante nas classes dominantes na América Latina, mas também em setores da esquerda tradicional. Desde seu início, o cristianismo da libertação se posiciona criticamente frente a esta ideologia da modernização, apresentando uma visão muito mais radical do ponto de vista dos explorados e oprimidos, dos pobres, dos negros e indígenas, dos trabalhadores do campo e da cidade. Sua perspectiva não é o desenvolvimento, mas, sim, a libertação, rompendo com as estruturas opressivas do sistema dominante. Para esses cristãos, os pobres são o sujeito histórico desta transformação, os atores de sua própria libertação.

O cristianismo da libertação não conhecia os escritos de Walter Benjamin, mas existe uma evidente “afinidade eletiva” entre a obra dos teólogos da libertação e a concepção benjaminiana da história, a partir da perspectiva dos vencidos e sua proposta de uma aliança da teologia com o marxismo. Sem esquecer seu texto sobre O capitalismo como religião (1921), que tem muito em comum com a denúncia da idolatria do mercado, realizada pelos teólogos da libertação.

A crítica ao capitalismo e a necessidade de superá-lo é um elemento central no cristianismo de libertação. Essa crítica perdeu ou ganhou vigência? Não se tornou também infinitamente mais complexa esta tarefa?

A crítica do capitalismo como sistema intrinsecamente perverso, realizada pelo cristianismo da libertação, me parece mais atual que nunca. Entre outras razões, pela crise ecológica e a mudança climática que ameaçam diretamente a sobrevivência da humanidade neste planeta.

Do ponto de vista ecossocialista, o capitalismo não é só um sistema de exploração, conforme concebe tradicionalmente o pensamento marxista, mas também de destruição do meio ambiente e dos equilíbrios ecológicos. Superar o capitalismo é um imperativo categórico por razões de justiça elementar. É um sistema absurdo no qual algumas dezenas de multimilionários possuem mais riqueza que a metade da humanidade.

Também precisa ser superado porque se trata de uma questão de sobrevivência para a humanidade: o capitalismo não pode existir sem expansão, sem limites. Por isso, a destruição das condições de vida no planeta pertence a sua lógica interna.

Acabar com o capitalismo é uma tarefa complexa e difícil, mas não temos outra saída a não ser levar adiante esta luta antissistêmica. Como dizia Brecht, quem luta pode perder, mas quem não luta, já perdeu.

A crítica ao capitalismo no cristianismo de libertação também se realiza como crítica à idolatria. Essa crítica foi assumida nas igrejas de diversos continentes?

A crítica do cristianismo da libertação à idolatria do capital e do mercado é profundamente radical. Acopla a crítica dos profetas do Antigo Testamento aos cultos idólatras, com suas exigências de sacrifícios humanos, e a crítica marxista ao fetichismo da mercadoria. Marx denuncia o Capital como Baal ou Moloch, ídolos para os quais são realizados sacrifícios de vidas humanas. Enrique Dussel, filósofo e teólogo da libertação, analisou este tema de forma muito interessante em seu livro As metáforas teológicas de Marx.

Nos anos setenta do século XX, esta crítica esteve presente nos documentos e no ensino de importantes setores das igrejas latino-americanas, em especial no Brasil. Aparece também, mas de forma mais limitada, em outros países do Sul (Filipinas, Coreia do Sul) e da Europa (França). Mas, com o pontificado de João Paulo II esta vertente anticapitalista nas igrejas latino-americanas foi condenada, marginalizada e reprimida pelo Vaticano. Não se pode esquecer a tentativa de silenciar Leonardo Boff e a denúncia pelo Santo Ofício (Ratzinger) da teologia da libertação como perigoso erro. Com a eleição de um Papa latino-americano, Bergoglio, esta situação está começando a mudar.

Chama a atenção que você tenha um interesse tão grande na análise da religião, dada sua trajetória marxista e trotskista. Você considera que o cristianismo de libertação é uma fonte importante de inspiração e impulso para a esquerda transformadora? Distancia-se de outros intelectuais, dirigentes e militantes das esquerdas que não lhe concedem relevância?

Tenho muito respeito pela figura de Trotsky, mas minha principal referência política, desde minha juventude no Brasil até hoje, tem sido Rosa Luxemburgo. Esta grande pensadora e lutadora marxista, mártir do socialismo, assassinada há cem anos por paramilitares alemães, é autora do ensaio Igreja e socialismo. Nele apresenta um argumento original: nós, os socialistas, somos os verdadeiros herdeiros dos primeiros cristãos, dos Padres da Igreja, críticos implacáveis da injustiça social e do poder corruptor do dinheiro. As Igrejas que se alinharam com a burguesia contra o movimento operário traíram esta mensagem inicial do cristianismo.

O que ocorreu na América Latina a partir dos anos sessenta do século XX é algo novo: o cristianismo da libertação – do qual também participam setores do clero, das ordens religiosas e até bispos – se situou abertamente no campo dos oprimidos e suas lutas de emancipação. Sem o cristianismo da libertação não é possível explicar o surgimento de um novo movimento operário e campesino no Brasil, a partir dos anos setenta do século XX, as revoluções centro-americanas, dos anos oitenta, e o levante zapatista em Chiapas, em 1994.

Com algum atraso, a esquerda latino-americana percebeu a importância desse fenômeno, ainda que sejam mantidas resistências em certos setores mais dogmáticos, em nome do ateísmo científico.

A esquerda deve tratar com respeito as convicções religiosas e considerar os militantes cristãos de esquerda como parte essencial do movimento de emancipação dos oprimidos. A teologia da libertação também nos ensina a importância da ética no processo de conscientização e a prioridade do trabalho de base com as classes populares, em seus bairros, igrejas, comunidades rurais e escolas.

Além disso, os cristãos radicais são um componente essencial dos movimentos sociais do Sul e das associações europeias de solidariedade com as lutas nos países empobrecidos. Estes cristãos trazem uma contribuição importante para a elaboração de uma nova cultura internacionalista.

Chamou a nossa atenção a valorização muito positiva que você faz em seu livro de personagens que deram grande importância à religião como, por exemplo, os marxistas Walter Benjamin e José Carlos Mariátegui. Que aspectos dos escritos destes dois autores sobre esta questão têm maior atualidade?

Walter Benjamin, judeu de cultura alemã, e José Carlos Mariátegui, peruano, representam duas visões dissidentes no campo do marxismo tradicional. Ambos pertencem a universos geográficos, culturais e históricos muito diferentes, e cada um ignorava os escritos do outro. Walter Benjamin não conhecia nada sobre o marxismo latino-americano e Mariátegui conhecia bem a cultura marxista europeia, mas não lia alemão. Apesar desta distância, têm muitos elementos comuns. Ambos compartilham uma crítica romântica da civilização ocidental moderna e uma rejeição do dogma do progresso na história.

Há também outras convergências: uma adesão pouco ortodoxa às ideias comunistas, simpatia por Trotsky, grande interesse pela obra de Georges Sorel, verdadeira fascinação pelo surrealismo e uma visão “religiosa” do socialismo. Esta afinidade é ainda mais assombrosa porque, como destacamos, não há nenhuma influência de um sobre o outro. Eles contribuíram para repensar em novos termos o curso da história, a relação entre passado, presente e futuro, as lutas emancipadoras dos oprimidos e a revolução.

Uma de suas heresias mais notáveis em relação ao marxismo clássico é efetivamente a reflexão sobre a dimensão “religiosa” do socialismo. Walter Benjamin em suas Teses Sobre o conceito de história (1940) propõe uma aliança entre a teologia messiânica e o materialismo histórico: só juntos poderão vencer a seu adversário, o fascismo. Por sua parte, José Mariátegui, em seu ensaio O homem e o mito, escrevia o seguinte: “A emoção revolucionária (…) é uma emoção religiosa. Os motivos religiosos se deslocaram do céu para a terra. Não são divinos, são humanos, são sociáveis”. Penso que Mariátegui e Walter Benjamin nos ajudam a entender o cristianismo da libertação, tanto no passado como em seu possível futuro.

Uma parte de seu livro aborda as relações entre cristianismo de libertação, ecossocialismo e anticapitalismo. O que pensa da posição do Papa Francisco no âmbito da ecologia?

A encíclica Laudato Si’ é uma contribuição de extraordinária importância para o desenvolvimento, em escala planetária, de uma consciência ecológica. Para o Papa Francisco, os desastres ecológicos e a mudança climática não são simplesmente o resultado de comportamentos individuais, mas dos atuais modelos de produção e de consumo.

Bergoglio não é um marxista e a palavra capitalismo não aparece na encíclica. Mas, fica muito claro que para ele os dramáticos problemas ecológicos de nossa época são o resultado das “engrenagens da atual economia globalizada”, engrenagens que constituem um sistema global. É, segundo suas palavras, “um sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso”.

Quais são, segundo o papa Francisco, estas características “estruturalmente perversas”?. Antes de tudo, é um sistema no qual predominam “os interesses limitados das empresas” e “uma questionável racionalidade econômica”, uma racionalidade instrumental que tem por único objetivo maximizar o lucro. Afirma este Papa: “o princípio de maximização do lucro, que tende a se isolar de qualquer outra consideração, é uma distorção conceitual da economia: se aumenta a produção, interessa pouco que se produza à custa dos recursos futuros ou da saúde do meio ambiente”.

Esta distorção, esta perversidade ética e social, não é própria de um ou outro país, mas, sim, de um “sistema mundial, onde primam uma especulação e uma busca da renda financeira que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente. Assim se manifesta que a degradação ambiental e a degradação humana e ética estão intimamente unidas”. São citações textuais. Penso que fica claro seu pensamento quando relaciona capitalismo, destruição ambiental e ecologia.

Demokratie und Liebe in Zeiten von Wut und Hass

Wir leben in einer Zeit der Wut und des Hasses in Bolsonaros Brasilien und in der ganzen Welt. Wut und Hass sind die Früchte des Fundamentalismus und der Intoleranz, wie wir in Sri Lanka gesehen haben, wo mehrere Hundert Christen ermordet wurden, als sie den Sieg der Liebe über den Tod im Auferstehungsfest feierten.

Diese makabre Szene verlangt von uns, unseren Glauben zu erneuern, dass trotz allem Liebe stärker ist als Hass und die Demokratie ist auch stärker als die Diktatur.

Das Wort Liebe wurde trivialisiert. Alles Mögliche wird als Liebe bezeichnet. Liebe in der Werbung spricht mehr den Geldbeutel der Menschen an als ihre Herzen. Wir müssen die heilige Natur der Liebe befreien. Wir haben kein besseres oder größeres Wort, um die Letzte Wirklichkeit, Gott, anders zu bezeichnen denn als Liebe.

Wir müssen anders über die Liebe sprechen, sodass ihre Natur und ihre Amplitude durchscheinen und uns wärmen kann. Dafür müssen wir verinnerlichen, was die diversen Geo-Wissenschaften (Fritjof Capra) beitragen, insbesondere die Biologie (Humberto Maturana) und die Studien über den kosmogenetischen Prozess (Brian Swimme). Immer mehr wird klar, dass Liebe ein objektives Faktum der globalen Realität ist, ein erfreulicher Aspekt von Mutter Natur selbst, deren Teil wir sind.

Unter anderen sind es zwei Aspekte, die den kosmogenetischen und den biogenetischen Prozess vorantreiben: Notwendigkeit und Spontaneität. Notwendigkeit zielt auf das Überleben jedes Wesens ab. Es ist der Grund, aus welchem innerhalb eines Netzwerks inklusiver Beziehungen ein Wesen dem anderen hilft. Die Synergie und Kooperation miteinander stellen die fundamentalsten Kräfte des Universums dar, insbesondere unter allen Lebewesen. Dies ist die objektive Dynamik des Kosmos selbst.

Zusammen mit der Kraft der Notwendigkeit existiert die Spontaneität. Lebewesen verknüpfen sich und interagieren miteinander zum puren Zweck der Erfüllung und Freude an der Koexistenz. Solche Beziehungen entstehen nicht aus einem Bedürfnis heraus. Sie treten in Erscheinung, um neue Bande zu knüpfen, abhängig von einer gewissen Affinität, die spontan entsteht und Freude verschafft. Es ist das Universum der Überraschung, des Faszinierenden, des Unberechenbaren. Es ist die Ankunft der Liebe.

Diese Liebe tritt zusammen mit dem allerersten Grundbaustein auf, den Quarks, die über das Notwendige hinaus Verbindungen schaffen, und zwar spontan und durch gegenseitige Anziehungskraft. Ganz grundlos entstand eine Welt, nicht notwendig, aber möglich, spontan und real.

Daher entstand die Kraft der Liebe, die sich durch alle Stadien der Evolution zieht und alle Wesen miteinander verbindet, ihnen eine ganz eigene Natur und Schönheit verleiht. Es gibt keinen einzigen Grund, aus dem sich ein Wesen mit einem anderen verbindet durch Bande der Spontaneität und der Freiheit. Sie tun es aus reinem Vergnügen und aus Freude am Zusammensein.

Es ist diese kosmische Liebe, die realisiert, was die Mystik schon immer intuitiv wusste: die Existenz reiner Freiwilligkeit. Der Mystiker Angelus Silesius sagt: „Die Rose hat keinen Grund. Sie blüht einfach nur, weil sie blüht. Der Rose ist es egal, ob sie bewundert wird oder nicht. Sie blüht einfach nur, weil sie blüht.“

Sagen wir nicht, dass der tiefe Sinn des Lebens darin besteht, einfach nur zu leben? Ebenso blüht die Liebe in uns als Frucht einer freien Beziehung zwischen freien Lebewesen miteinander. Der wahre Grund der demokratischen Idee ist gerade die Beziehung aller mit allen und die Zusammenarbeit mit allen zugusten des gemeinsamen Wohles.

Doch als Menschen mit einem Bewusstsein können wir die Liebe, die zur Natur der Dinge gehört, zu einem persönlichen und zivilisatorischen Projekt machen: bewusst Liebe leben, die Bedingungen für das Entstehen von Liebe zwischen trägen und lebenden Wesen schaffen. Wir können uns in einen fernen Stern verlieben und eine Geschichte der Zuneigung zu ihm aufbauen.

Liebe ist dringend nötig in der heutigen Zeit, wo die Stärke des Negativen, der Anti-Liebe vorzuherrschen scheint. Mehr als zu fragen, wer Terrorakte ausübt, muss man sich fragen, warum sie ausgeübt wurden. Sicherlich entstand Terror, weil die Liebe als eine Beziehung fehlte, die die menschen in der glückseligen Erfahrung verbindet, sich zu öffnen und sich gegenseitig erfreut zu umarmen.

Um es offen und klar zu sagen: Das vorherrschende Weltsystem liebt die Menschen nicht. Es liebt materielle Güter, die Arbeitskraft des Arbeiters, seine Muskeln, sein Wissen, seine künstlerische Produktion und seine Konsumfähigkeit. Aber es liebt die Menschen nicht frei als Menschen. Dieses System mag die Demokratie nicht, weil sie Kooperation, Solidarität und Grosszïgkeit voraussetzt, welche Erscheinungen der Liebe sind. Statt Solidarität stellt sie viemehr Konkurrenz aller mit allen oder gegen alle dar.

Liebe zu predigen und aufzurufen: „Lasst uns einander lieben, wie wir uns selbst lieben“ heißt, revolutionär zu sein. Das geht völlig gegen die vorherrschende Kultur.

Lasst uns Liebe so verstehen, wie der große Florentiner Dante Alighieri sie bezeugte: „Die Liebe, die den Himmel und alle Sterne bewegt“, und wie fügen hinzu: die Liebe, die unser Leben bewegt, die Liebe, die der sakrosankte Name der Ursprünglichen Quelle aller Wesen ist, Gott.

Leonardo Boff ist Ökologe – Theologe – Philosoph  von der Erdcharta-Kommission