Comovedora carta da escritora Luciana Hidalgo a Lula

Luciana Hidalgo é uma premiada escritora brasileira, reconhecida com prêmios nacionais com o Jabuti e internacionais. Esta carta é comovedora e põe em relevo a revolução pacífica feita por Lula com os dezenas de micro projetos sociais que transformaram a vida de milhões de brasileiros pobres, fato reconhecido no mudo inteiro. Lamentavelmente não temos dado valor a este evento singularíssimo no mundo, especialmente não por aqueles que nunca deram atenção aos milhões de marginalizados, tidos como peso morto do desenvolvimento desigual e injusto. Este testemunho é esclarecedor e poderá ajudar a analisar a nossa realidade histórico-social com outros olhos, mais benignos do que aqueles marcados por preconceitos e distorções: Lboff

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Eis a carta de Luciana Hidalgo:

Querido presidente,

O que o senhor fez no Brasil foi uma revolução. Não uma Revolução Francesa, que guilhotinou cabeças da realeza para exigir na marra liberdade, igualdade, fraternidade. Não, o senhor não cortou cabeças, nem expulsou ricos de suas propriedades privadas como a Revolução Russa, tampouco roubou a poupança das classes abastadas (como aquele presidente eleito no Brasil em 1989 roubou). O senhor manteve as elites ricas e contentes, mas foi mexendo dia após dia nos mecanismos de poder que excluíam perversamente os pobres da nossa sociedade e negavam o que todo país decente deveria garantir: sua cidadania, isto é, sua dignidade.

Por isso, de início, querido presidente, seus microgestos, sutis, pouco saíam nos jornais, mas abalavam gradativamente as estruturas viciosas do poder. Sou leitora de Michel Foucault e atesto que o senhor fez genial e intuitivamente, na prática, num país periférico e violento, muito do que esse célebre filósofo francês teorizou sobre micropoder. O senhor modificou, programa após programa, a microfísica do poder no Brasil.

Explico como: logo de início o senhor abriu crédito para ajudar pobres a comprar eletrodomésticos básicos; subsidiou a compra de tintas e materiais para que construíssem suas casas; criou o Banco Popular, ligado ao Banco do Brasil, permitindo que pobres tivessem conta em banco; levou iluminação elétrica aos recantos rurais mais atrasados pela escuridão (Luz para Todos); criou o Bolsa Família, tirando 36 milhões de brasileiros da miséria e obrigando seus filhos a voltar à escola; levou água para milhões de brasileiros que sofriam com a seca no interior semiárido (programa Cisternas, premiado pela ONU); inventou Minha Casa Minha Vida, distribuindo moradias Brasil afora; criou Farmácias Populares que vendiam medicamentos com descontos para a população de baixa renda; implementou cotas raciais e sociais em universidades, contribuindo para que jovens negros e/ou vindos de escolas públicas pudessem estudar e no futuro talvez escapar de serem assassinados nas ruas do Brasil; implantou o Prouni (Universidade Para Todos), oferecendo bolsas para alunos de baixa renda estudarem em faculdades particulares; aumentou o salário-mínimo acima da inflação; etc.

Não me beneficiei pessoalmente de nenhum dos seus programas sociais, querido presidente. Sou brasileira privilegiada, nascida numa classe média da zona sul carioca. Fui jornalista nas maiores redações do Rio (Jornal do Brasil, O Globo, O Dia), depois virei escritora (premiada com dois Jabuti), fiz um doutorado e dois pós-doutorados em Literatura, na Uerj e na Sorbonne. E é justamente por isso, por tudo o que li, vi e aprendi, sobretudo na França onde morei durante anos, que posso dizer: países europeus só se desenvolveram porque aplicaram e aplicam projetos como os seus. Na França, por exemplo, o salário-mínimo é de uns R$ 4 mil (graças a décadas de greves e manifestações de trabalhadores “vândalos” por melhores salários); o seguro-desemprego dura de dois a três anos para que o desempregado não caia na miséria; há “locações sociais” que garantem moradia aos menos privilegiados; todos os remédios receitados nos hospitais públicos são dados ou subsidiados pelo governo etc.

O problema, querido presidente, é que quando uma parte da elite brasileira visita Paris, só vê a grande beleza. Finge não ver que aquela beleza só se sustenta graças à aplicação justa de impostos. Sim, as classes mais abastadas de lá têm consciência política, sabem que o equilíbrio social depende delas. No Brasil não. Tem brasileiro que gasta milhares de euros em turismo na França e na volta reclama dos R$ 300 dados mensalmente aos beneficiados do Bolsa Família.

Sim, querido presidente, é difícil entender a mentalidade desses que frequentaram os melhores colégios particulares do Brasil. Até entendo, já que eu mesma cursei um dos melhores colégios particulares do Rio e não aprendi grande coisa. Lá não havia disciplinas como Literatura ou Filosofia, por exemplo, que nos ajudariam a ter um pensamento mais crítico. Que pena.

Só aprendi o que era o mundo quando comecei a encarar a miséria do meu país de frente em vez de virar a cara ao passar por ela na rua. Ainda na adolescência participei de um grupo que dava comida para os sem-teto no Rio e pude ouvir suas comoventes histórias de vida. Depois virei jornalista e passei a ouvir mais pessoas, das mais variadas origens, das favelas, dos interiores, e suas justas reivindicações.

Portanto, saiba, querido presidente, que não só o povo beneficiado pelos seus programas sociais está ao seu lado. Somos muitos escritores, artistas, professores de escolas e universidades, pessoas premiadas, com títulos, das mais diversas profissões. Justamente por termos lido tanto (livros, não apenas jornais e revistas), viajado, justamente porque conhecemos o Brasil profundo, entendemos a grandeza do que o senhor fez. Nós também somos esse povo.

Aliás, há inúmeros políticos, historiadores, intelectuais estrangeiros nas maiores universidades da Europa que também o admiram. E se escandalizam, por exemplo, quando ouvem comentaristas brasileiros dizerem de forma tão elitista que o eleitor de Lula é “povão”, “nordestino”, “ignorante”, “petista”, “lulista”, “petralha”, “fanático”. Intelectuais estrangeiros se chocam com a criminalização de pobres, negros, índios e da própria esquerda no Brasil. E também se chocam quando o xingam de “populista”, como se o senhor usasse o povo. Ora, ora, mas o senhor é o povo.

No mais, querido presidente, não entrarei no mérito do seu julgamento. Primeiro porque não acredito em condenação sem provas. Segundo porque desde o golpe de 2016, que tirou do poder uma presidenta eleita pelo povo, desde o dia em que ficou provado (e gravado!) o conluio entre os Poderes “com o Supremo, com tudo”, não acredito mais nas nossas instituições.

Claro que a Lava Jato é importantíssima para o país, mas o partidarismo seletivo e o gosto pelo espetáculo a diminuem. Talvez por isso grandes juristas estrangeiros têm apontado falhas absurdas no processo que o condenou, querido presidente. Como disse o advogado inglês Geoffrey Robertson em entrevista recente à BBC de Londres, “o Brasil tem um sistema de acusação totalmente ultrapassado, em que o juiz que investiga, supervisiona a investigação, é o mesmo que julga o caso – e sem um júri!”. Outro jurista disse o mesmo num artigo no jornal The New York Times. Enfim, como acreditar numa justiça personalista, que num piscar de olhos pode beirar o justiçamento?

Nessas horas me lembro do que dizia Foucault: “Prender alguém, mantê-lo na prisão, privá-lo de alimentação, de aquecimento, impedi-lo de sair, de fazer amor, etc., é a manifestação de poder mais delirante que se possa imaginar. (…) A prisão é o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro, em suas dimensões mais excessivas, e se justificar como poder moral.”

Sabe, querido presidente, quando a perseguição ao senhor começou na mídia, me lembrei do Betinho. Quase ninguém mais se lembra dele, o sociólogo Herbert de Souza, que criou associações de combate à fome e de pesquisa sobre a Aids nos anos 1990, quando os programas sociais do Estado eram insignificantes. Pois bem, esse cara, que devia ser coroado por seu esforço descomunal pelos pobres, um dia acordou sendo linchado da forma mais violenta pela imprensa por ter recebido doações de bicheiros. Os “puros” do país o atacaram de todos os lados, logo ele, “o irmão do Henfil” ex-exilado, hemofílico e soropositivo, tão magrinho, fiapo de gente, um dos poucos a combater a fome no Brasil. Mas não, para os “puros”, nada do que ele fazia pelos pobres compensava esse grande “erro”. Como se no Brasil houvesse dinheiro realmente “limpo”.

É, querido presidente, são assim os “puros”, os que não entendem a complexidade das lutas, os que fecham os olhos para as falcatruas dos ricos mas lincham o menino de rua da esquina, os que defendem uma ética que eles próprios não têm no dia a dia, enrolados em seus conchavos, compadrios, sonegações de impostos, corrupções de todo tipo. Das minhas andanças pelos bastidores do poder, posso dizer: os “puros”, mal acordam, já loteiam a alma.

É claro, querido presidente, que o senhor, além dos acertos, também cometeu erros. Quem não erra? Confesso que no início do seu governo estranhei, por exemplo, a sua aliança com a escória da política brasileira (PMDB etc.). Mas logo entendi que sem isso nenhum, nenhum, nenhum dos seus programas que revolucionaram o Brasil seria aprovado. Não sem esse toma-lá-dá-cá, não sem o cafezinho com o inimigo. Sonho sim com uma política pura, mas como, quando, se nunca, nunca, nunca foi assim nesse país?

Não vou, portanto, enumerar seus erros porque seus acertos os superam imensamente. Só a partir do seu governo entendi que a política pode muito mais do que o assistencialismo. Enquanto meus amigos e eu dávamos 50 quentinhas numa noite aos sem-teto do Rio, o senhor, com nossos votos, tirava milhões da miséria. Milhões de brasileiros.

O senhor acreditou antes de tudo na política, não em revoluções sangrentas radicais, para mudar o Brasil. E mudou. Não sou “lulista” nem “petista” (nunca me associei a partido algum), muito menos “petralha”. Mas, graças ao senhor, agora eu e milhões de brasileiros passamos a acreditar na política. E só por isso vale lutar.

Fico por aqui, no aguardo das eleições de outubro de 2018, quando um presidente de esquerda retomará o rumo desse Brasil desgovernado pelo conluio entre Poderes e onde, devido à corrupção, à leviandade e ao partidarismo das instituições, ideias fascistas se proliferam como bactérias.

Um grande abraço da
Luciana Hidalgo

 

Lo peggiore del golpe:rendere impossibile lo Stato Sociale Brasiliano

Fatti recenti: proibizione al premio Nobel per la pace Perez Esquivel (80) e di altri notabili della politica di visitare l’ex Presidente Lula, prigioniero politico, amico di tutti quelli che volevano vederlo, è la prova badiale che noi stiamo vivendo in un regime di eccezione giuridico-mediatico. Le toghe comandano. La giudicessa Caterina Lebbos, braccio destro del giudice Sergio Moro, mostra tracce di crudeltà e disumanità con la decisione d’impedire a un medico di verificare lo stato di salute dell’ex Presidente. Non ne sono certo, ma temo che questa decisione sia classificabile come atto criminale, passibile di punizione.
L’aspetto più grave della nostra crisi è la strategia degli arricchiti (0,05% della popolazione), associati come sempre a raggruppamenti economico-finanziarie e perfino stranieri, addirittura con i nostri media monopolisti e conservatori, di annullare il patto sociale, costruito sotto l’egemonia delle forze democratiche e progressiste, custodito dalla Costituzione del 1988. Attraverso il consenso che essa favorì tra i vari gruppi perfino antagonisti, furono create le basi del futuro Stato Sociale brasiliano. Sarebbe un primo passo per attaccare la nostra piaga maggiore che è la perversa diseguaglianza sociale e la inclusione di milioni di brasiliani a godere in pieno dei diritti di cittadinanza.
Le conclusioni erano stilate da qualcuno che le élites favorevoli allo statu quo mai avevano accettato, ma dovettero piegarsi al verdetto delle urne: era un operaio sparato fuori dalla povertà del nordest, Luis Inàcio Lula da Silva. Con le sue politiche sociali aveva fatto sì che quelli del piano di sotto potessero salire uno scalino della classe sociale.
Quando s’accorsero che avrebbe potuto nascere una nuova egemonia di carattere progressista e popolare, questa classe, come sempre in passato secondo i nostri migliori storici, come José Honòrio Rodriguez aveva tramato per fare un golpe di classe. Si trattava di assicurare il tipo di accumulo e di controllo dell’apparato statale fonte delle loro mazzette milionarie.
Cambiano i tempi, cambiano le strategie. Doveva essere non un golpe militare, ma parlamentare. Marcelo Odebrecht, presidente di una delle maggiori imprese brasiliane, nella sua delazione a premio, confessò di aver distribuito 10 milioni di Reais per comprare 140 deputati, perché garantissero l’impeachment di Dilma Rousseff e la presa del potere dello Stato.
Congresso tra i più mediocri della storia Repubblicana, con da una parte alcuni ladri accusati di corruzione, altri invece denunciati per delitti comuni, perfino di assassinio si è lasciato venalmente comprare. Hanno fatto un golpe parlamentare-giuridico e mediatico deponendo a favore di un impeachment discutibile della Presidenta legittimamente eletta, Dilma Rousseff. L’obiettivo non era essenzialmente lei, ma si voleva colpire Lula e il PT.
La lotta alla corruzione, malattia endemica della politica brasiliana, non per questo scusabile, è servita come pretesto per attaccare, processare e letteralmente perseguitare Lula con l’espediente del lawfare (interpretare in modo maldestro della legge per danneggiare l’accusato).Tanto han fatto che sono riusciti a schiaffarlo in prigione, mediante un processo che, secondo i più grandi giuristi brasiliani e stranieri, è viziato e privo di prove materiali consistenti.
Ma qual è il senso maggiore di questo golpe? È mantenere il tipo di accumulazione di quel gruppo di rapinatori, che controlla se gran parte della nostra ricchezza da finire nelle loro tasche. Ma la conseguenza più disastrosa, finalmente analizzata dallo scienziato Luiz Gonzaga de Souza Lima in una conferenza del 22 novembre 2017 nella Fiocruz di Rio de Janeiro è espressa nell’Emendamento Costituzionale(PEC 55): questo non solo comporta un controllo sul tetto della spesa, mette il Brasile in manette. Il PEC, dice Souza Lima è la proibizione della costruzione dello Stato Sociale nel nostro paese. Vietato costituzionalmente costruire lo Stato Sociale. È più di un congelamento della spesa.
Le classi favorevoli al rallentamento dello sviluppo hanno scelto il passato, la ricolonizzazione del Brasile allineandosi agli interessi dell’impero del capitale egemonizzato dagli USA. Non attraverso elezioni ma con un golpe hanno azzerato il patto costruito dalla Costituzione nel 1988. Dice ancora Souza Lima: “Siamo davanti a un golpe contro il governo che il popolo brasiliano aveva eletto. Siamo davanti a un’inflessione storica di un’importanza incalcolabile: proibire costituzionalmente investimenti sociali specialmente nell’educazione e nella sanità”. È un caso unico a mondo d’oggi. Come potrà il popolo malato e ignorante spiccare un salto verso lo sviluppo adeguato a una popolazione di più di cento milioni di persone?
Queste élites, egoiste al massimo, non hanno mai avuto un progetto per il Brasile, ma soltanto per sé in funzione di un’assurda accumulazione. Attualmente poggia su una destra fascista autoritaria violenta razzista e sprezzante del popolo, chiamato monnezza inservibile. Per nostra vergogna ha anche l’appoggio in parte dell’apparato giuridico e della pesante mano militare, capace di reprimere e uccidere, specialmente neri e povera gente.
La lotta è per recuperare la democrazia minima. Ma più di tutto far valere la Costituzione del 1988, stracciata dai golpisti, ma che apriva spazio alla convivenza pacifica e allo sviluppo umano.

*Leonardo Boff è teologo, filosofo e autore de Concludere la Rifondazione o prolungare la dipendenza? Vozes 2018.

Traduzione di Romano Baraglia e Lidia Arato

Lo peor del golpe: imposibilitar el Estado Social brasilero

Los hechos recientes: la prohibición al Premio Nobel de la Paz Adolfo Pérez Esquivel (1980) y a otros notables de la política de visitar al expresidente Lula, un prisionero político y amigo de todos los que querían verlo, es la prueba más cabal de que vivimos bajo un régimen de excepción jurídico-mediático. Las togas mandan. La jueza Catarina Lebbos, brazo derecho del juez Sérgio Moro, revela rasgos de crueldad y de inhumanidad al prohibir a un médico examinar el estado de salud del expresidente. No estoy seguro pero desconfío de que tal acto sea incluso criminoso, merecedor de castig.
Lo más grave de nuestra crisis es la estrategia de los muy ricos (0.05% de la población), asociados como siempre a consorcios económico-financieros, hasta extranjeros, inclusive con nuestros medios de comunicación monopolistas conservadores, de quebrar el pacto social construido bajo la hegemonía de las fuerzas democráticas y progresistas, contenido en la Constitución de 1988.
Gracias al consenso que ella propició entre los distintos grupos, hasta antagónicos, permitió que se gestaran las bases para la creación de un Estado Social brasileiro. Era un primer paso para atacar nuestra mayor llaga que es la perversa desigualdad social y conseguir así la inclusión de millones de brasileros y brasileras en la ciudadanía.
La dirección estuvo a cargo de alguien al que las élites del atraso jamás aceptaron pero tuvieron que inclinarse ante el veredicto de las urnas, un obrero, venido de la pobreza nordestina: Luis Inácio Lula da Silva. Por sus políticas sociales había hecho que los del piso de abajo pudieran subir un escalón en la escalera social.
Cuando se dieron cuenta de que podría surgir una nueva hegemonía de carácter progresista y popular, estas clases, como siempre antes en la historia, según nuestros mejores historiadores como José Honório Rodrigues, tramaron un golpe de clase. Se trataba de asegurar la naturaleza de su acumulación y de su control del aparato estatal, de donde saquean su propina millonaria.
Cambian los tiempos, cambian también las estrategias. No debía ser mediante un golpe militar, sino parlamentario. Marcelo Odebrecht, presidente de una de las mayores empresas brasileñas, en su delación premiada confesó que había dado diez millones de reales para comprar a 140 diputados que garantizasen el impeachment de Dilma Rousseff y la toma del poder del Estado.
Un congreso, de los más mediocres de nuestra historia republicana, con ladrones unos, acusados de corrupción otros o denunciados por crímenes, incluso por asesinato, se dejó venalmente comprar. Dieron un golpe parlamentario, jurídico y mediático, deponiendo mediante un impeachment cuestionable a la presidenta legítimamente elegida, Dilma Rousseff. El objetivo no era fundamentalmente ella, sino alcanzar al expresidente Lula y al partido del PT.
La lucha contra la corrupción, enfermedad endémica de la política brasileña, no por ello excusable, sirvió de pretexto para atacar, procesar y literalmente perseguir a Lula, mediante el expediente del lawfare (interpretar torpemente la ley para perjudicar al acusado). Tanto hicieron que lograron meterlo en la cárcel, mediante un proceso, según los más renombrados juristas nacionales y extranjeros, viciado y vacío de pruebas materiales consistentes.
¿Cuál es el sentido mayor de este golpe? Mantener la naturaleza de la acumulación de un grupo de rapiña que controla gran parte de nuestra riqueza y traspasarla a sus bolsillos. Pero la consecuencia más desastrosa, analizada finamente por el científico social Luiz Gonzaga de Souza Lima en una conferencia dada el 22 de noviembre de 2017 en Fiocruz de Río de Janeiro, está contenida en la Enmienda Constitucional (PEC 55). Mediante ella se trata no sólo de establecer un techo en los gastos. Ella atenaza al país. «La PEC», dice Souza Lima, «es la prohibición de construir un Estado Social en nuestro país. Se veta constitucionalmente construir el Estado Social, es más que una congelación de gastos».
Las clases del atraso optaron por el pasado, aceptando la recolonización de Brasil, alineándolo a los intereses del imperio del Capital hegemonizado por los USA. No mediante una elección sino por medio de un golpe disolvieron el pacto construido en la Constitución de 1988. Souza Lima dice más: «estamos ante un golpe contra el Gobierno que el pueblo brasileño eligió. Estamos ante una inflexión histórica de una importancia inmensa: prohibir constitucionalmente hacer inversiones sociales, especialmente en la educación y en la salud».
Esto es un caso único en el mundo de hoy. ¿Cómo puede un pueblo enfermo e ignorante avanzar hacia un desarrollo, adecuado a una población de más de cien millones de personas?
Estas elites, egoístas al máximo, nunca tuvieron un proyecto para Brasil. Sólo para sí y en función de una acumulación absurda. Actualmente se asientan sobre una derecha fascista, autoritaria, violenta, racista y despreciadora del pueblo, considerado vulgar y despreciable. Para nuestra vergüenza, apoyadas en parte por el cuerpo jurídico y por la mano dura de la policía militar, capaz de reprimir y matar, especialmente a negros y pobres.
La lucha es para recuperar la democracia mínima. Pero sobre todo para hacer valer la Constitución de 1988, rota por los golpistas, pero que abría espacio para la convivencia pacífica y para el desarrollo humano.

*Leonardo Boff es teólogo, filósofo y autor de Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Cidadania e projeto de refundação do Brasil

 

A cidadania posui várias dimensões: é político-participativa, é econômica-produtiva, é popular-includente, é con-cidadania, é ecológica, e por fim é terrenal.

No contexto atual de um regime de exceção que não respeita mas antes fere a cidadania de todo um povo, precisamos aprofundar este tema.

A cidadania é um processo inacabado e sempre aberto a novas aquisições de consciência dos direitos, de participação política e de solidariedade, como fundamento de uma sociedade humanizada. Só cidadãos ativos podem fundar uma sociedade democrática, como sistema aberto (democracia sem fim no dizer de Boaventura de Souza Santos) que se sente imperfeita mas ao mesmo tempo sempre perfectível. Por isso, o diálogo, a participação, a vivência da correção ética e a busca da transparência constituem suas virtudes maiores.

A cidadania se realiza dentro de uma sociedade concreta que elabora para si projetos, muitas vezes, conflitantes entre si, de construção de sua soberania e dos caminhos de inserção no processo maior de planetização. Todos eles querem dar uma resposta à pergunta: que Brasil, depois de mais 500 anos, finalmente, queremos? Ocorre que o atual golpe interferiu tanto na Constituição colocando limites aos gastos sociais que acaba por impossibilitar a criação de um Estado Social Democrático nacional. É um projeto contra a nação livre, contra o povo e seu future.

Fundamentalmente e simplificando uma realidade muito complexa, podemos dizer: há atualmente dois projetos antagônicos disputando a hegemonia: o projeto dos endinheirados, antigos e novos, articulados com as corporações transnacionais (e hoje sabemos apoiados pelo Pentágono) querem um Brasil menor do que realmente é, um Brasil de no máximo 120 milhões, pois assim, acreditam eles, daria para administrá-lo, em seu benefício, sem maiores preocupações. Os restantes milhões que se lasquem pois sempre tiveram que se acostumar a viver na necessidade e a sobreviver como podem. Bastam políticas pobres para acalmar os pobres.

O outro projeto quer construir um Brasil para todos, pujante, autônomo, ativo, altivo e soberano face às pressões das potências militaristas, técnica e economicamente poderosas que visam a estabelecer um império do tamanho do planeta e viver da rapinagem das riquezas dos outros países. Estes se associam com as elites nacionais que aceitam ser sócios menores e agregados ao projeto-mundo, a troco de vantagens que podem auferir economicamente. Querem recolonizar a América Latina particularmente o Brasil para serem apenas exportadores de commodities e desnacionalizando nossa infra-estrutura insdustrial (energia electrica,petroleo,terras nacionais etc).

Os dois golpes que conhecemos na fase republicana, o de 1964 e do 2016, foram tramados e dados em função da voracidade dos endinheirados, contra o povo e recusando construir um projeto de nação soberana que teria muito que contribuir nesta fase planetária da Humanidade. Eles não têm um projeto de Brasil, somente um projeto para si, para a sua acumulação absurdamente alta.

A correlação de forças é profundamente desigual e corre em função das elites opulentas que segundo Jessé Souza compram as demais elites. Elas conseguiram dar um golpe em Dilma Rousseff e tanto fizeram que com um processo judicial completamente viciado colocar na prisão o ex-presidente Lula que goza, de longe, das preferências eleitorais do povo.

Estas elites do atraso não têm nada a oferecer para os milhões de brasileiros que estão à margem do desenvolvimento humano, senão mais empobrecimento e discriminação.

Mas estas elites que nem esse título merecem, pois são apenas ricos sem nunca chegarem a ser elites (Belluzo), não são portadoras de esperança e, por isso, são condenadas a viver sob permanente ameaça e com medo de que, uma dia, esta situação possa se reverter e perderem sua situação de riqueza e de privilégios.

Eis a nossa esperança: de que o futuro acabe pertencendo aos humilhados e ofendidos de nossa história que, um dia – e ele chegará – herdarão as bondades que a Mãe Terra reservou para eles e para todos.

É utópico, mas representa o sonho de todas as culturas que, um dia, todos, alegres, se sentarão juntos à mesa, na grande comensalidade dos libertos, gozando dos frutos da generosidade da Mãe Terra. Então, olhando para trás compreenderão que valeu a resistência, a indignação contra os malfeitos e a coragem de mudar.

Só então começará uma nova história, da qual os resistentes e lutadores foram os principais protagonistas, daquilo que, no caso de nosso país, poderá ser a verdadeira refundação do Brasil.

Leonardo Boff é filosofo-teólogo e escreveu:Brasil: prolongar a dependência ou concluir a refundação? Vozes 2018.