90 anos de Dom Pedro Casaldáliga: pobreza e libertação

Ao completar,no dia 16 de fevereiro de 2018, 90 anos queremos homenagear a Dom Pedro Casaldáliga, pastor,profeta e poeta com um texto que, a meu ver, constitui o fio condutor de toda a sua vida de cristão e bispo: a relação que estabeleceu entre a pobreza e a libertação. Viveu e testemunhou com riscos de vida tanto a pobreza como a libertação dos mais oprimidos que são os indígenas e os camponeses, expulsos pelo latifúndio em terras de São elix do Araguaia matogrossenso..so.do aldspirar por Dom Pela internet.ço condutor de toda a sua atividade apFelix do Araguaia matogrossense.

A pobreza é um fato que sempre tem desafiado as práticas humanas e todo tipo de interpretação. O pobre concreto nos desafia tanto que a atitude para com ele acaba por definir nossa situação definitiva diante de Deus. Isso o atestam tanto o Livro dos Mortos do Egito quanto a tradição judaico-cristã que culmina no texto de Mateus 25.

Talvez o mérito maior do bispo Dom Pedro Casaldáliga foi ter tomado absolutamente a sério os desafios que os pobres do mundo inteiro, especialmente da América Latina, nos lançam e sua libertação.

Seguramente vivenciou o seguinte processo: antes de qualquer reflexão ou estratégia de ajuda, a primeira reação é de profunda humanidade: deixar-se comover e encher-se de compaixão. Como deixar de atender sua súplica nem entender a linguagem de suas mãos suplicantes? Quando a pobreza aparece como miséria, irrompe em todas as pessoas sensíveis como em Dom Pedro também o sentimento de indignação e de iracúndia sagrada como se nota claramente em seus textos proféticos, especialmente, contra o sistema capitalista e imperial que produz continuamente pobreza e miséria.

O amor e a indignação estão na base das práticas que visam abolir ou minorar a pobreza. Só está efetivamente do lado do pobre quem, antes de tudo, o ama profundamente e não aceita sua situação desumana. E Dom Pedro testemunhou esse amor incondicional.

Mas somos também realistas como nos adverte o livro do Deuteronônio:”Nunca faltarão pobres na terra. Por isso te faço esta recomendação: abre, abre a mão a teu irmão, ao pobre e ao necessitado que estiver na tua terra”(15,11). Da Igreja das origens em Jerusalém se diz como louvor: “Não havia pobres entre eles”(At 4,34) porque colocavam tudo em comum.

Estes sentimentos de compaixão e de indignação fizeram que Dom Pedro deixasse a Espanha, fosse depois à Africa e, por fim, desembarcasse não simplesmente no Brasil, mas no interior do país, onde padecem camponeses e indígenas sob a voracidade do capital nacional e internacional.

  1. Leituras do escândalo da pobreza

Em função de uma compreensão mais adequada da anti-realidade da pobreza convem fazer algumas aclarações. Elas nos ajudarão a qualificar nossa presença efetiva junto aos pobres.Três compreensões de pobre circulam ainda hoje no debate.

A primeira, tradicional, entende o pobre como aquele que não tem. Não tem meios de vida, não tem renda suficiente, não tem casa, numa palavra, não tem haveres. Sobrevive no sub-emprego e com baixos salários. Quem está no sistema imperante os considera como zeros econômicos, óleo queimado, sobrantes. A estratégia então é mobilizar quem tem para ajudar a quem não tem. Em nome disso se organizou, por séculos, vasta assistência. E uma política beneficiente mas não participativa. Mantém os pobres dependentes. Não descobriu ainda seu poencial transformador.

A segunda, progressista, descobriu o potencial dos pobres e percebeu que este não é utilizado. Pela educação e pela professionalização é qualificado e potenciado. Assim os pobres são inseridos no processo produtivo. Reforçam o sistema, se fazem consumidores, embora em menor escala e ajudam a perpetuar as relações sociais injustas que continuam produzindo pobres. Atribui-se ao Estado a principal tarefa de criar postos de trabalho para esses pobres sociais. A sociedade moderna, liberal e progressista incorporou esta visão.

A leitura tradicional vê o pobre mas não percebeu seu caráter coletivo. A progressista, descobriu-lhe o caráter coletivo mas não apreendeu seu caráter conflitivo. Analiticamente considerado, o pobre é resultado de mecanismos de exploração que o fazem empobrecido, gerando assim grave conflito social. Mostrar tais mecanismos foi e continua sendo o mérito histórico de Karl Marx. Previamente à integração do pobre no processo produtivo vigente, dever-se-ia fazer uma crítica do tipo de sociedade que sempre produz e reproduz pobres e excluidos.

A terceira posição é a libertadora. Ela afirma: os pobres têm sim potencialidades. Não apenas para engrossarem a força de trabalho e reforçarem o sistema, mas principalmente para o transformarem em sua mecânica e em sua lógica. Os pobres, conscientizados, organizados por eles mesmos e articulados com outros aliados, podem ser construtores de um outro tipo de sociedade. Podem não apenas projetar mas pôr em marcha a construção de uma democracia participativa, econômica e ecológico-social. A universalização e a plenitude desta democracia sem fim se chama socialismo. Esta perspectiva não é nem assistencialista nem progressista. Ela é verdadeiramente libertadora porque faz do oprimido o principal sujeito de sua libertação e o forjador de um projeto alternativo de sociedade.

A teologia da libertação assumiu esta letura de pobre. Traduziu-a pela opção pelos pobres contra a pobreza e em favor da vida e da liberdade. Fazer-se pobre por amor a eles e em solidariedade para com suas lutas, significa um compromisso contra a pobreza material, econômica, política, cultural e religiosa. O oposto a esta pobreza não é a riqueza, mas a justiça e a equidade.

Esta última perspectiva foi e é testemunhada e praticada por Dom Pedro Casaldáliga em toda a sua atividade pastoral. Com risco de vida, apoiou os camponeses expulsos pelos grandes latifundiários. Junto com as Irmãzinhas de Jesus do Pe. Foucauld, colaborou no resgate biológico dos tapirapés, ameaçados de extinção. Não há movimento social e popular que não tenha sido apoiado por este pastor de excepcional qualidade humana e espiritual.

  1. A outra pobreza: a evangélica e essencial

Há ainda duas dimensões da pobreza que estão presentes na saga de Dom Pedro: a pobreza essencial e a pobreza evangélica.

A pobreza essencial resulta de nossa condição de criaturas. Ela possui, portanto, uma base ontológica, que independe de nossa vontade. Parte do fato de que não nos demos a existência. Existimos dependendo de um prato de comida, de um pouco de água e das condições ecológicas da Terra. Somos pobres neste sentido radical. A Terra não é nossa, nem a criamos. Somos hóspedes nela e passageiros de uma viagem que vai além dela. Mais ainda. Humanamente dependemos de pessoas que nos acolhem e que convivem conosco com os altos e baixos, próprios da condição humana. Somos todos interdependentes. Ninguém vive para si e em si. Estamos sempre enredados numa teia de relações que garantem nossa vida material, psicológica e espiritual. Por isso somos pobres e dependentes uns dos outros.

Acolher esta condition humaine nos torna humildes e humanos. A arrogância e a excessiva auto-afirmação não têm aqui lugar porque não possuem base que as sustenta. Esta situação nos convida a sermos generosos. Se recebemos o ser de outros, devemos também doá-lo aos demais. Esta dependência essencial nos torna também gratos a Deus, ao universo, à Terra e às pessoas que nos aceitam assim como somos. É a pobreza essencial. Esse tipo de pobreza tornou a Dom Pedro um bispo místico, agradecido por todas as coisas.

Existe ainda a pobreza evangélica, proclamada por Jesus como uma das beamaventuranças. Na versão de São Mateus se diz:”bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus”(5,3). Este tipo de pobreza não está diretamente vinculada ao ter ou não ter. Mas a um modo de ser, a uma atitude que poderíamos traduzir por infância espiritual. Pobreza aqui é sinônimo de humildade, desprendimento, vazio interior, renúncia a toda vontade de poder e de auto-afirmação. Implica a capacidade de esvaziar-se para acolher Deus, implica também o reconhecimento da nadidade da criatura diante da riqueza do amor de Deus que se comunica gratuitamente. O oposto à esta pobreza é o orgulho, a fanfarronice, a inflação do eu e o fechamento diante dos outros e de Deus.

Esta pobreza signficou a experiência espiritual do Jesus histórico. Ele não somente era pobre materialmente e assumiu a causa dos pobres, mas também se fez pobre em espírito, pois “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo; apresentando-se como simples homem, humilhou-se, feito obediente até a morte, até a morte de cruz”(Flp 2,7-9). Esta pobreza é o caminho do evangelho, por isso se chama também de pobreza evangélica, sugerida por São Paulo:”tende os mesmos sentimentos que Cristo teve”(Flp 2,5).

O profeta Sofonias testemunha esta probreza de espírito quando escreve:”Naquele dia, não serás confundida, filha de Sion, por causa de todos os pecados que cometeram contra mim, jactanciosos e arrogantes; não te orgulharás mais no meu santo monte. Deixarei subsistir no meio de ti um povo pobre, humilde e modesto que porá sua confiança no nome do Senhor”(2,11-12).

Esta pobreza evangélica e infância espiritual constituem uma das irradiações mais visíveis e convincentes da personalidade de Dom Pedro Casaldáliga. Ela aparece no seu modo pobre mas sempre limpo de se vestir, na sua linguagem inundada de humor mesmo quando se faz crítico contundente dos desvarios da globalização econômico-financeira e da prepotência neoliberal ou profeticamente denuncia as visões medíocres do governo central da Igreja face aos desafios dos condenados da Terra e das questões que concernem a toda a humanidade. Essa atitude de pobreza se manifesta exemplarmente quando nos encontros com cristãos das bases, geralmente pobres, se coloca no meio deles, escuta atentamente o que dizem, quando se senta aos pés de conferencistas, seja teólogos, sociólogos ou portadores de outro saber qualificado para escutá-los, anotar seus pensamentos e humildemente formular questões. Esta abertura revela um esvaziamento interior que o torna capaz de continuamente aprender e fazer suas sábias ponderações sobre os caminhos da Igreja, da América Latina, do Brasil e do mundo. Vemos esta atitude nos twitters que quase cada dia envia pela internet.

Quando os atuais tempos perturbados tiverem passado, quando as desconfianças e mesquinharias tiverem sido engulidas pela voragem do   tempo, quando olharmos para trás e considerarmos os últimos decênios do século XX e os inícios do século XXI identificaremos uma estrela no céu de nossa fé, rutilante, após ter varado nuvens, suportado obscuridades e vencido tempestades: é a figura simples, pobre, humilde, espiritual e santa de um bispo que, estrangeiro, se fez compatriota, distante se fez próximo e próximo se fez irmão de todos, irmão universal: o nonagenário Dom Pedro Casaldáliga.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor que se deixou fascinar e inspirar por Dom Pedro Casaldáliga

 

Bolsa Juiz x Bolsa Família: uma comparação que desnuda os dois Brasis

Uma família atendida pelo Bolsa Família e o casal Bretas, símbolo do Bolsa Juiz

Neste artigo, um quadro que apresenta a comparação definitiva entre os programas do Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação) e do Bolsa Família. Um retrato do comportamento das elites e do comportamento do povo; um exemplo concreto do tratamento que os ricos dispensam aos pobres no Brasil

Por Mauro Lopes

A diarista Selma Patrícia da Silva, de 42 anos, já foi beneficiária de programas de transferência de renda do governo, mas voluntariamente abriu mão depois que melhorou de vida. Selma diz ter recebido dinheiro do Auxílio Gás, do Bolsa Escola e do Bolsa Família na época em que ela e o marido faziam bicos como doméstica e pedreiro para sustentar os cinco filhos. Após construir a casa onde vive, em Formosa (GO), a diarista decidiu devolver o cartão, em 2013. “Pensei assim: da mesma forma que serviu para os meus filhos, vai ajudar outras pessoas. Acho muita covardia a pessoa não necessitar e ficar recebendo”, relembra Selma.

O juiz Marcelo Bretas tomou um caminho oposto ao de Selma. Ele tornou-se uma “celebridade” há cerca de um ano por suas sentenças duríssimas na Lava Jato, pelas citações bíblicas nas mesmas sentenças, pelo gosto pelas redes sociais e por se apresentar como paladino da moralidade. No entanto, apesar de ele a e mulher, Simone Bretas, também juíza, receberem mais de R$ 60 mil reais mensais, foram à Justiça para “exigir o direito” de ambos receberem o auxílio moradia no valor de R$ 8.754,00 mensais, apesar de morarem terem apartamento próprio no Rio de Janeiro, onde moram.  Bretas defendeu seu “direito” e o da mulher à mamata num tuíte  apesar de resolução do Conselho Nacional de Justiça haver regulamentado o assunto em 2014 e vetado o auxílio moradia para juízes que têm residência na cidade onde trabalham. Não só brigaram para receber como ainda entraram numa queda de braço com Bradesco para reajustar o aluguel de um de seus imóveis próprios no Rio de R$ 10.685,80 para R$ 20 mil. Isso e ainda contar os R$ 907,00 que o casal juiz/juíza recebem como auxílio alimentação – o que cada um se apossa só em auxílio alimentação já é bem superior ao teto do benefício do Bolsa Família. Somados, os dois benefícios compõem o Bolsa Juiz do casal: R$ 9.661,00 mensais.

Selma e o casal Bretas: duas maneiras de ver a vida, o Estado e o Brasil

São duas maneiras de enxergar o Brasil, a relação com as pessoas e o Estado. Selma entendeu que os recursos do Estado são finitos e que o benefício que ela abriu mão de receber pode ajudar outra pessoas em condição pior que a dela –não por ter ficado rica, apenas por ter ficado menos pobre. Bretas e sua mulher são insaciáveis. Esfolam o Estado como os demais ricos do país. Para eles, os recursos públicos são um espólio de guerra –da guerra contra pobres- sobre o qual avançam com um apetite sem fim. O casal Bretas arranca mensalmente pelo menos R$ 80 mil do Estado direta ou indiretamente. Mas não basta –nunca basta.

O caso de Selma e do casal Bretas é um exemplo do abismo que separa ricos e os pobres no Brasil –e o dinheiro sequer é a maior distância entre eles. A elite brasileira não faz a menor ideia do que significam solidariedade ou compaixão, substantivos muito concretos no cotidiano duro dos mais pobres, que tecem frágeis redes de apoio entre si.

Bretas, Moro, os três desembargadores do TRF4 que condenaram Lula em 24 de janeiro com frases tonitruantes em seus votos, todos eles têm imóveis de alto valor nas cidades em que moram e trabalham –e todos recebem o Bolsa Juiz. Os exemplos não param: um desembargador de São Paulo, José Antonio de Paula Santos Neto, do Tribunal de Justiça, tem 60 imóveis registrados em seu nome na Prefeitura da cidade –mesmo assim açambarca mensalmente o Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação).

O abismo entre a elite do país e os milhões e milhões de pobres tem o tamanho da distância que separa o Bolsa Juiz do Bolsa Família. Tudo o que neste artigo está exemplificado nos casos de Selma, do casal Bretas, de Moro, dos desembargadores do TRF4 e do desembargador dos 60 imóveis é a personificação dos programas Bolsa Juiz e Bolsa Família.

Constate as diferenças brutais entre um e outro. Por trás do Bolsa Juiz está a defesa dos empréstimos subsidiados que os empresários colhem nos bancos públicos, o dinheiro sem conta que deixam de recolher porque impõem uma estrutura tributária que massacra os pobres enquanto isenta-os de todos os lados, os trilhões de dinheiro do povo dos quais apoderam-se há anos, recebendo os juros da dívida pública. Olhando o Bolsa Família é possível sentir o sofrimento, a vida dura, a pobreza do povo brasileiro –mas, igualmente, sua dignidade.

 

Maria da Conceição Tavares e a crise brasileira

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Maria da Conceição Tavares: “Na ditadura, havia protesto. Hoje, mal se ouve um sussurro no Brasil”

 
Maria da Conceição Tavares

Publicado no Insight Inteligência

POR MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES

Vivemos sob a penumbra da mais grave crise da história do Brasil, uma crise econômica, social e política. Enfrentamos um cenário que vai além da democracia interrompida. A meu ver, trata-se de uma democracia subtraída pela simbiose de interesses de uma classe política degradada e de uma elite egocêntrica, sem qualquer compromisso com um projeto de reconstrução nacional – o que, inclusive, praticamente aniquila qualquer possibilidade de pactação.

A ditadura, a qual devemos repudiar por outros motivos, não era tão ordinária nesse sentido. Não sofríamos com essa escassez de quadros que vemos hoje. O mesmo se aplica a nossos dirigentes empresariais, terra da qual não se vê brotar uma liderança. A velha burguesia nacional foi aniquilada. Eu nunca vi uma elite tão ruim quanto esta aqui. E no meio dessa barafunda ainda temos a Lava Jato, uma operação que começou com os melhores propósitos e se tornou uma ação autoritária, arbitrária, que atenta contra as justiças democráticas, para não citar o rastro de desemprego que deixou em importantes setores da economia.

É de infernizar a paciência que a Lava Jato tenha se tornado símbolo da moralização. Mas por quê? Porque nada está funcionando. Ela é uma resposta à inação política. Conseguiram transformar a democracia em uma esbórnia, em que ninguém é responsável por nada. Não há lei ou preceitos do estado de direito que estejam salvaguardados. O futuro foi criminalizado.

Não estou dizendo que o cenário internacional seja um oásis. O resto do mundo não está nenhuma maravilha, a começar pelos Estados Unidos. Convenhamos, não é qualquer país que é capaz de produzir um Trump. Eles capricharam. Na Europa como um todo, a situação também é desoladora. E a China, bem a China é sempre uma incógnita… Mas, voltando ao nosso quintal, o centro medíocre se ampliou de uma maneira bárbara no Brasil. Não há produção de pensamento contra a mediocridade, de lado algum, nem da direita, nem da esquerda. Faltam causas, bandeiras, propósitos, falta até mesmo um slogan que cole a sociedade. O mais impressionante é que não estamos falando de um processo longo, de uma ou duas décadas, mas, sim, de um quadro de rápida deterioração em um espaço razoavelmente curto de tempo. Estou no Brasil desde 1954 e jamais vi tamanho estado de letargia. Na ditadura, havia protesto. Hoje, mal se ouve um sussurro.

Por outro lado, também não se acham soluções pela economia, notadamente o setor produtivo. A indústria brasileira “africanizou”, como há muito já previra o saudoso Arthur Candal. Rendemo-nos à financeirização, sem qualquer resistência. A ideia do Estado indutor do desenvolvimento foi finalmente ferida de morte pela religião de que o Estado mínimo nos levará a um estado de graça da economia. Puro dogma. Estamos destruindo as últimas forças motrizes do crescimento econômico e de intervenção inclusiva e igualitária no social.

Essa minha indignação, por vezes misturada a um indesejável, mas inevitável estado de pessimismo, poderia ser atribuída a minha velhice. Mas não acho que seja não. Estou velha há muito tempo. Luto para não me deixar levar pelo ceticismo. Não é simples pelo que está diante de meus olhos.

Lamento, mas não me dobro; sofro, mas não me entrego. Jamais fugi ao bom combate e não seria agora que iria fazê-lo. Há saídas para esse quadro de entropia nacional e estou convicta de que elas passam pelas novas gerações. Como diria Sartre, não podemos acabar com as ilusões da juventude. Pelo contrário temos de estimulá-las, incuti-las. Por ilusão, em um sentido não literal, entenda-se a capacidade de mirar novos cenários, a profissão de fé de que é possível, sim, interferir no status quo vigente, o forte desejo de mudança, associado ao frescor, ao ímpeto e ao poder de mobilização necessário para que ela ocorra. Só consigo enxergar alguma possibilidade de cura desse estado de astenia e de reordenação das bases democráticas a partir de uma maciça convocação e ação dos jovens.

Por mais íngreme que seja a caminhada, não vislumbro saídas que não pela própria sociedade, notadamente pelos nossos jovens. Não os jovens de cabeça feita, pré-moldada, como se fossem blocos de concreto empilhados por mãos alheias. Esses mal chegaram e já estão a um passo da senectude. Estou me referindo a uma juventude sem vícios, sem amarras, de mente aberta, capaz de se indignar e construir um saudável contraponto a essa torrente de reacionarismo que se espraia pelo país. Há que se começar o trabalho de sensibilização já, mas sabendo que o tempo de mudança serão décadas, sabe-se lá quantas gerações.

Não consigo vislumbrar outra possibilidade para sairmos dessa geleia geral, dessa ausência de movimentos de qualquer lado, qualquer origem, seja de natureza política, econômica, religiosa, senão por uma convocatória aos jovens. Até porque, se não for a juventude, vai se falar para quem? Para a oligarquia que está no poder? Para a burguesia cosmopolita – que foi a sobrou – com sua conveniente e perversa indiferença? Para uma elite intelectual rarefeita e um tanto quanto aparvalhada?

Ao mesmo tempo, qualquer projeto de costura dos tecidos do país passa obrigatoriamente pela restauração do Estado. É urgente um processo de rearrumação do aparelho público, de preenchimentos das graves lacunas pensantes. Nossa própria história nos reserva episódios didáticos, exemplos a serem revisitados. Na década de 30, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, guardadas as devidas proporções, também vivíamos uma dura crise.

Não íamos a lugar algum. Ainda assim, surgiram medidas de grande impacto para a modernização o Estado, como, por exemplo, a criação do Dasp – Departamento Administrativo do Serviço Público, comandado por Luis Simões Lopes.

Na esteira do Dasp, cabe lembrar, vieram os concursos públicos para cargos no governo federal, o primeiro estatuto dos funcionários públicos do Brasil, a fiscalização do Orçamento. Foi um soco no estômago do clientelismo e do patrimonialismo. O Dasp imprimiu um novo modus operandi de organização administrativa, com a centralização das reformas em ministérios e departamentos e a modernização do aparato administrativo. Diminuiu também a influência dos poderes e interesses locais. Isso para não falar do surgimento, nas fileiras do Departamento, de uma elite especializada que combinou altíssimo valor e conhecimento técnico ao comprometimento com uma visão reformista da gestão da coisa pública.

Faço esse pequeno passeio no tempo para reforçar que nunca fizemos nada sem o Estado. Não somos uma democracia espontânea. O fato é que hoje o nosso Estado está muito arrebentado. Dessa forma, é muito difícil fazer uma política social mais ativa. Não é só falta de dinheiro. O mais grave é a falta de capital humano. O que se assiste hoje é um projeto satânico de desconstrução do Estado, vide Eletrobras, Petrobras, BNDES…

RESTAURAÇÃO

O Estado sempre foi a nobreza do capital intelectual, da qualidade técnica, da capacidade de formular políticas públicas transformadoras. O que se fez no Brasil é assustador, uma calamidade. É necessário um profundo plano de reorganização do Estado até para que se possa fazer políticas sociais mais agudas. Chegamos, a meu ver, a um ponto de bifurcação da história: ou temos um movimento reformista ou uma revolução. A primeira via me soa mais eficiente e menos traumática. Ainda assim, reconheço, precisaremos de doses cavalares do medicamento para enfrentamos tão grave enfermidade. Os sintomas são de barbárie. Parece um fim de século, embora estejamos no raiar de um. Em uma comparação ligeira, lembra o começo do século XX. Os fatos levaram às duas Guerras Mundiais. Aliás, a guerra, ainda que indesejável, é uma maneira de sair do impasse.

Por isso, repito: precisamos de uma ação restauradora. O que temos hoje no Brasil não é uma feridinha à toa que possa ser tratada com um pouco de mertiolate ou coberta com um esparadrapo. O Estado e a sociedade brasileira estão em uma mesa de cirurgia. O corte é profundo, órgãos vitais foram atingidos, o sangramento é dramático. Este rissorgimento não deverá vir das urnas. Não vejo a eleição como um evento potencialmente restaurador, capaz de virar a página, de ser um marco da reconstrução.

Com o neoliberalismo não vamos a lugar algum. Sobretudo porque, repito: historicamente o Brasil nunca deu saltos se não com impulsos do próprio Estado. Esses últimos dois anos têm sido pavorosos, do ponto de vista econômico, social e político. Todas as reformas propostas são reacionárias, da trabalhista à previdenciária. Vivemos um momento de “acerto de contas” com Getúlio, com uma sanha inquisidora de direitos sem precedentes.

Trata-se de um ajuste feito em cima dos desfavorecidos, da renda do trabalho, da contribuição previdenciária, da mão de obra.

O Brasil virou uma economia de rentistas, o que eu mais temia. É necessário fazer uma eutanásia no rentismo, a forma mais eficaz e perversa de concentração de riquezas.

RENDA MÍNIMA

Causa-me espanto que nenhum dos principais candidatos à Presidência esteja tratando de uma questão visceral como a renda mínima, proposta que sempre teve no ex-senador Eduardo Suplicy o seu mais ferrenho defensor e propagandista no Brasil. Suplicy foi ridicularizado, espezinhado por muitos, chamado de um político de uma nota só. Não era, mas, ainda que fosse, seria uma nota que daria um novo tom à mais trágica de nossas sinfonias nacionais: a miséria e desigualdade.

Mais uma vez, estamos na contramão do mundo, ao menos do mundo que se deve almejar. Se, no Brasil, a renda mínima é apedrejada por muitos, mais e mais países centrais adotam a medida. No Canadá, a província de Ontário deu a partida no ano passado a um projeto piloto de renda mínima para todos os cidadãos, empregados ou não. A Finlândia foi pelo mesmo caminho e começou a testar um programa também em 2017. Ao que se sabe, cerca de dois mil finlandeses passaram a receber algo em torno de 500 euros por mês. Na Holanda, cerca de 300 moradores da região de Utrecht passaram a receber de 900 euros a 1,3 mil euros por mês. O nome do programa holandês é sugestivo: Weten Wat Werkt (“Saber o que funciona”). Funcionaria para o Brasil, tenho certeza.

O modelo encontrou acolhida até nos Estados Unidos. Desde a década de 80, o Alasca paga a cada um de seus 700 mil habitantes um rendimento mínimo chamado Alaska Permanent Fund Dividend. Os recursos vêm de um fundo de investimento lastreado nos royalties do petróleo. É bom que se diga que dois dos fundamentalistas do liberalismo, os economistas F. A. Hayek e Milton Friedman, eram defensores da renda básica e até disputavam a primazia pela paternidade da ideia. Friedman dizia que a medida substituiria outras ações assistencialistas dispersas.

No Brasil, o debate sobre a renda básica prima pela sua circularidade. O Bolsa-Família foi uma proxy de uma construção que não avançou. Segundo o FMI, a distribuição de 4,6% do PIB reduziria a pobreza brasileira em espetaculares 11%.

Essa é uma ideia que precisa ser resgatada, uma bandeira à espera de uma mão. Entre os candidatos à presidência, só consigo enxergar o Lula como alguém identificado com a proposta. Se bem que a coisa está tão ruim que, mesmo que ele possa se candidatar e seja eleito, teria enorme dificuldade de emplacar projetos realmente transformadores. O PT não tem força o suficiente; os outros partidos de esquerda não reagem.

Lula sempre foi um grande conciliador. Mas um conciliador perde o seu maior poder quando não há conflitos. E uma das raízes da nossa pasmaceira, desta letargia, é justamente a ausência de conflitos, de contrapontos. Não tem nada para conciliar. Mais do que conflitiva, a sociedade está anestesiada, quase em coma induzido. O que faz um pacificador quando não há o que pacificar?

Boff não se enganou ao defender o PT:contra um glogueiro

Quero desmentir o que escreveu o blogueiro abaixo referido que eu teria dito”que me enganei ao defender o PT” Nunca disse isso. Ele cujo blog está na VEJA já assumiu o tipo de ethos que caracteriza esse meio de comunicação: a distorção, a faltas à verdade e outros vícios. E a dizer que ele, durante anos, publicava, gratuitamente, todos os meus artigos em seu blog.

O melhor é ler o que escrevei e os leitores poderão ver o tipo de falsidade que inventou:Lboff

Leonardo Boff diz que se enganou ao defender o PT

Ricardo Noblat

Nota postada no seu blog no último dia 18 pelo teólogo Leonardo Boff, até outro dia defensor do PT, de Lula e de Dilma:

“Precisava vir alguém de fora, de uma jornalista Carla Jiménez do jornal espanhol El Pais, para nos dizer as verdades que precisamos ouvir. Seguramente a grande maioria concorda com o conteúdo e os termos desta catilinária contra corruptos e corruptores que tem caracterizado nos últimos tempos o Brasil.

Formou-se entre nós, praticamente, uma sociedade de ladrões e de bandidos que assaltaram o país, deixando milhões de vítimas, gente humilde de povo, sem saúde, sem escola, sem casa, sem trabalho e sem espaços de encontro e lazer. E o pior, sem esperança de que esse rumo possa facilmente ser mudado.

Mas tem que mudar e vai mudar. É crime demasiado. Nenhuma sociedade minimamente humana e honesta pode sobreviver com semelhante câncer que vai corroendo as forças vitais de um nação. Enganam-se aqueles que eu, pelo fato de defender as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluídos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados, tenha defendido o partido.

A mim não interessa o partido, mas a causa dos empobrecidos que constituem o eixo fundamental da Teologia da Libertação,  a opção pelos pobres contra a pobreza e pela justiça social, causa essa tão decididamente assumida pelo Papa Francisco. É isso que conta e por tal causa lutarei a vida inteira como cristão e cidadão.

Estou convencido de que o  Brasil poderá ser  quando bem governado a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro. Creio que  a revelação de tais crimes, sua punição, o resgate dos bilhões de reais ou de dólares roubados e devolvidos aos cofres públicos, nos deem duras lições. Que todos vigiemos para que nunca se esqueça e nunca mais aconteça”.

Nota bene: como se depreende não é verdade que “Boff se enganou ao defender o PT”. Pelo contrário no texto reconheço “as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluídos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados”. Para mim pouco contam os partidos mas a causa dos empobrecidos que, convenhamos, nunca foram tratados melhor do que nos dois governos do PT e de seu aliados de governo. Lboff