Superabundância e desperdício: milhares de carros estão sendo abandonados: L. Dowbor

 “As pessoas não estão comprando carros no mesmo ritmo de antes da recessão. Quantas famílias que você conhece que ostentam um carro novo a cada ano? Por isso, milhões de carros ficam para morrer nos estacionamentos”, escreve Ladislau Dowbor, doutor em Ciências Econômicas e professor da PUC-SP e da UMESP, em artigo publicado por Envolverde, 07-01-2016.

Eis o artigo.

Brilhante, bonito e novo? E rapidamente enferrujando e inútil.

Esta foto é de um monte de carros que sobraram no Porto de Sheerness em Ketn, na Inglaterra. Há centenas de lugares exatamente como este no mundo todo, cheio de carros que as montadoras não conseguiram vender.

Isso é verdade.

Você está vendo uma das muitas reservas de carros não vendidos no mundo.

As pessoas não estão comprando carros no mesmo ritmo de antes da recessão. Quantas famílias que você conhece que ostentam um carro novo a cada ano? Por isso, milhões de carros ficam para morrer nos estacionamentos.

Baltimore, Maryland, EUA

Bem do lado da estrada Broening em Baltimore, mais de 57.000 carros se encontram num enorme estacionamento. No começo eu me perguntava porque eles não colocavam simplesmente à venda, mas a indústria automobilística não vai reduzir seus preços drasticamente por uma razão: Não é possível vender um carro por 500 dólares e esperar alguém comprar por 15.000 é impossível.

Os carros devem ser levados de um monte de concessionárias para dar espaço para a nova produção. O que sobra é um pouco triste? Filas e mais filas de carros em perfeito estado.

A indústria automobilística não pode simplesmente deixar de produzir carros novos. Isso significaria o fechamento de fábricas e demitir a dezenas de milhares de pessoas, além do mais, piorar a recessão. O efeito dominó seria catastrófico para a indústria do aço.

Nessa imagem podemos ver dezenas de milhares de carros tomando sol o dia todo na Espanha.

Quando a oferta supera a procura, alguém fica com o superavit. Depois da recessão, as famílias já não compram um carro novo a cada ano.

São Petersburgo, Rússia

Carros europeus importados que não conseguiram vender e estão largados para enferrujar em um aeroporto.

O ciclo de comprar, usar, mudar, se acabou. As pessoas usam seus carros durante muito mais tempo depois de comprados.

Lotes aberto ao redor do mundo se converteram um cemitérios improvisados para os carros que não se venderam.

Avonmouth, Reino Unido

Cada espaço cinza que se vê está cheio de carros sem uso.

Corby, Reino Unido

Aqui há outro monte de carros que sobraram. Qualquer um se pergunta: por que não reciclam esses carros ou pelo menos não dão para as pessoas pobres?

Porto de Civitavecchia na Itália

Até pode-se pensar que os fabricantes de automóveis poderiam utilizar pelo menos algumas das partes. Eles ainda acham que vão vender esses carros?

Porto de Valencia, Espanha

Estas imagens são particularmente frustrantes se você está dirigindo um carro velho?

Os carros, quando expostos ao ar livre, não duram muito tempo.

Quando um carro fica ao relento, todos os óleos se vão para o fundo do poço, e logo começa a corrosão e danifica todas as partes internas do motor.

A super produção não é só uma falha do sistema nos Estados Unidos ou de uma só fábrica de automóveis, este é um problema mundial. Se não encontram uma maneira de reutilizar esses carros, milhares de carros abandonados continuarão preenchendo espaços vazios. Isso é realmente lamentável.

Milhares de carros estão sendo abandonados

“As pessoas não estão comprando carros no mesmo ritmo de antes da recessão. Quantas famílias que você conhece que ostentam um carro novo a cada ano? Por isso, milhões de carros ficam para morrer nos estacionamentos”, escreve Ladislau Dowbor, doutor em Ciências Econômicas e professor da PUC-SP e da UMESP, em artigo publicado por Envolverde, 07-01-2016.

Eis o artigo.

Brilhante, bonito e novo? E rapidamente enferrujando e inútil.

Esta foto é de um monte de carros que sobraram no Porto de Sheerness em Ketn, na Inglaterra. Há centenas de lugares exatamente como este no mundo todo, cheio de carros que as montadoras não conseguiram vender.

Isso é verdade.

Você está vendo uma das muitas reservas de carros não vendidos no mundo.

As pessoas não estão comprando carros no mesmo ritmo de antes da recessão. Quantas famílias que você conhece que ostentam um carro novo a cada ano? Por isso, milhões de carros ficam para morrer nos estacionamentos.

Baltimore, Maryland, EUA

Bem do lado da estrada Broening em Baltimore, mais de 57.000 carros se encontram num enorme estacionamento. No começo eu me perguntava porque eles não colocavam simplesmente à venda, mas a indústria automobilística não vai reduzir seus preços drasticamente por uma razão: Não é possível vender um carro por 500 dólares e esperar alguém comprar por 15.000 é impossível.

Os carros devem ser levados de um monte de concessionárias para dar espaço para a nova produção. O que sobra é um pouco triste? Filas e mais filas de carros em perfeito estado.

A indústria automobilística não pode simplesmente deixar de produzir carros novos. Isso significaria o fechamento de fábricas e demitir a dezenas de milhares de pessoas, além do mais, piorar a recessão. O efeito dominó seria catastrófico para a indústria do aço.

Nessa imagem podemos ver dezenas de milhares de carros tomando sol o dia todo na Espanha.

Quando a oferta supera a procura, alguém fica com o superavit. Depois da recessão, as famílias já não compram um carro novo a cada ano.

São Petersburgo, Rússia

Carros europeus importados que não conseguiram vender e estão largados para enferrujar em um aeroporto.

O ciclo de comprar, usar, mudar, se acabou. As pessoas usam seus carros durante muito mais tempo depois de comprados.

Lotes aberto ao redor do mundo se converteram um cemitérios improvisados para os carros que não se venderam.

Avonmouth, Reino Unido

Cada espaço cinza que se vê está cheio de carros sem uso.

Corby, Reino Unido

Aqui há outro monte de carros que sobraram. Qualquer um se pergunta: por que não reciclam esses carros ou pelo menos não dão para as pessoas pobres?

Porto de Civitavecchia na Itália

Até pode-se pensar que os fabricantes de automóveis poderiam utilizar pelo menos algumas das partes. Eles ainda acham que vão vender esses carros?

Porto de Valencia, Espanha

Estas imagens são particularmente frustrantes se você está dirigindo um carro velho?

Os carros, quando expostos ao ar livre, não duram muito tempo.

Quando um carro fica ao relento, todos os óleos se vão para o fundo do poço, e logo começa a corrosão e danifica todas as partes internas do motor.

A super produção não é só uma falha do sistema nos Estados Unidos ou de uma só fábrica de automóveis, este é um problema mundial. Se não encontram uma maneira de reutilizar esses carros, milhares de carros abandonados continuarão preenchendo espaços vazios. Isso é realmente lamentável.

The 2015 annus nefastus does not destroy hope for an annus propicius

The year 2015 that just ended deserves this Latin characterization: annus nefastus. Others call it annus horribilis. There were so many calamities that, besides fright, they cause concern.

The first concern is the Earth Over-Schoot Day that occurred on September 13th. It means that on that day, the required supplies to maintain the life-system and the Earth-system had surpassed the Earth’s capabilities. The Earth lost her biocapacity. She is the basis for all our projects.

Since the Earth is a super-living being, the signals she sends us that she has reached her limit are droughts, floods, typhoons and increased violence all over the world. Everything is inter-connected, as Pope Francis insistently repeats in his encyclical letter.

In this context, the consensus reached in Paris on December 12th by COP 21 is an illusion: the global warming should be below 2º centigrade, closer to 1.5°C by mid-century. This implies a change of our civilization’s paradigm, to not be based on fossil fuels, even though it is clear that all the combined alternative energies do not reach 30% of what we need.The great suppliers of oil, gas and carbon can neither undergo this conversion, nor do they want to do so. The idea is rhetorical.

The second dreadful event is the violent terrorism in Europe and Africa, the thousands of refugees and the wars the militarist powers together are conducting against the Islamic State and the other armed groups in Syria. Reputable sources claim that there have been thousands of innocent civilian victims.

Another dreadful fact is the transformation of the United States into a terroristic state. With its 800 military bases distributed around the world, it intervenes, directly or indirectly, whenever it perceives that its imperial interests are threatened. Internally, the United States has not abolished the “Patriotic Act”, that suspends fundamental rights. It is no wonder that in 2015, the Northamerican police killed almost one thousand unarmed persons, 60% of whom were Black or Latino.

Finally, the another horribilis fact is the corruption in PETROBRAS, the largest oil company in Brazil, that involves millions and millions of dollars. Alongside this there arose among us a wave of hatred, rage and prejudice after the 2014 presidential elections. That is not surprising, because Brazil is full of contrasts; as Roger Bastide noted it in his Brazil, land of Contrasts, (Brésil, terre des contrastres, Hachette, 1957). Even before, Bastide, Gilberto Freyre, the most important interpreter of the social history of Brazil, wrote: «considered together, the formation of Brazil was a process of equilibrium among antagonists».

This antagonism, usually kept under ideological cover by the «cordial man» has now come to light and is clearly visible, especially in the social media. The «cordial man» that Sergio Buarque de Holanda, Brazil’s Roots, (Raízes do Brasil, 21.edición, 1989, p. 100-112) took from the writer Ribeiro Couto, is generally misunderstood. It has nothing to do with civility and courtesy. It has more to do with our aversion for social rites and formalisms. We favor informality and closeness.

It is a Brazilian characteristic that we are ruled more by our hearts than by reason. Now, kindness and hospitality derive from the heart. But as Buarque de Holanda points out, «enmity can very well be as cordial as kindness, because both are born from the heart» (note 157, of the pages, 106 and 107).

This fragile equilibrium was lost in 2015 and the negative cordiality emerged as hatred, prejudice and rage against the militants of the Labor Party, PT, against the northerners and against the Blacks. Not even constitutionally respectable figures, such as President Dilma Rousseff, were exempted. The Internet has opened the gates of hell to insults, rude words, direct affronts between persons, pitting some against others.

Such expressions only reveal our backwardness, our lack of democratic culture, intolerance and class struggle. It cannot be denied that in certain sectors are found resentment against the poor and those who have ascended socially, thanks to the social compensatory policies (that are not particularly emancipating) of the PT government. The Brazilian antagonisms were clearly shown to not be harmonized, and now openly pit some against others in true struggles (call them of class, of interests, of power, it does not matter). But there is a social fissure in Brazil, and it will cost us dearly to correct it. In my understanding, this can only be accomplished through a participatory democracy, beyond the present farce that represents the interests of the wealthy classes more than the interests of the people as a whole.

What is valuable is our super abundance of hope, that surpasses the annus nefastus and leads us towards an annus propicius. There are so many good experiences everywhere, that could not be mentioned in this space, that justify this hope of a propitious year. May God hear us.

Leonardo Boff is theologian and writter

Free translation from the Spanish by
Servicios Koinonia, http://www.servicioskoinonia.org.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

Pace: un bene scarso e sempre desiderato

All’inizio di ogni anno si fanno e si ricevono auguri di pace e felicità. Se guardiamo con realismo la situazione attuale del mondo e anche dei singoli paesi, Brasile compreso, quello che manca è proprio la pace. Un bene così prezioso è sempre desiderato. E dobbiamo mettercela tutta (quasi quasi dicevo: bisogna lottare, il che sarebbe contraddittorio) per avere quel minimo di pace, che rende la vita desiderabile: pace interiore, pace in famiglia, pace nelle relazioni di lavoro, pace nei rapporti politici, pace tra i popoli, pace con la Madre Terra e pace con Dio. E come è necessaria! Senza contare gli agguati terroristici, esistono al mondo 40 focolai di guerra o conflitti, generalmente devastanti.

Sono molte e a volte misteriose le cause che distruggono la pace o ne impediscono la costruzione. Mi limito alla prima di queste: la profonda diseguaglianza sociale mondiale. Thomas Piketty ha scritto un libro intero sulle Disuguaglianze (Università Bocconi, 2014). Il solo fatto che circa l’1% di questi multimiliardari controllino gran parte delle rendite dei popoli; e, in Brasile, secondo lo specialista del ramo Marcio Pochmann, sei famiglie si dividono il 46% del PNL mostra il livello della diseguaglianza. Piketty riconosce cha “la maggior parte delle rendite da lavoro sono forse diventate il problema centrale della diseguaglianza dei nostri tempi e forse addirittura di tutti i tempi (Op.cit.p.12). Reddito altissimo di pochi, infame miseria di sterminate maggioranze.

Non dimentichiamo che diseguaglianza è una categoria analitico-descrittiva. Essa è fredda, perché non lascia trasparire il clamore della sofferenza che nasconde. Etico-politicamente si traduce come ingiustizia sociale. E teologicamente, come peccato sociale e strutturale che coinvolge il disegno del creatore che ha fatto gli esseri umani a sua immagine e somiglianza con uguale dignità e stesso diritto ai beni della vita. Questa giustizia originale (patto sociale e creaturale) si è spezzata nel corso della storia e ci ha lasciato in eredità l’attuale stato di una ingiustizia clamorosa, perché riguarda chi non sa difendersi da solo.

Una delle parti più dirompenti dell’enciclica di papa Francesco su La Cura della Casa Comune è dedicata alla “diseguaglianza planetaria” (nn.48-52). È bene citare le sue parole:

“Gli esclusi sono la maggioranza del pianeta, migliaia di milioni di persone. Oggi sono menzionate nei dibattiti politico-economici internazionali, ma molto frequentemente pare che i loro problemi siano relegati in una specie di appendice, come un problema che si aggiunge quasi per obbligo o perifericamente quando addirittura non sono considerati puri danni collaterali. Di fatto nella implementazione concreta rimangono spesso all’ultimo posto… è necessario che il tema della giustizia completi sempre i dibattiti sull’ambiente, perché sia ascoltato il grido della Terra insieme a quello dei poveri” (n.49)

È qui che sta la causa principale delle distruzione delle condizioni per la pace, sia tra i singoli esseri umani, sia con la Madre Terra: trattiamo ingiustamente i nostri consimili; non coltiviamo il sentimento di equità e solidarietà con quelli che hanno meno e affrontano ogni tipo di bisogno, condannati a morire prima del tempo. L’enciclica va al punto nevralgico quando dice: “è necessario rinvigorire la coscienza che siamo una unica famiglia umana. Non ci sono frontiere o barriere politiche o sociali che permettano di isolarci e, per ciò stesso, non c’è spazio per la globalizzazione dell’indifferenza” (n. 52).

L’indifferenza è assenza di amore, espressione di cinismo e di mancanza di intelligenza cordiale e sensibile. Argomento sempre ripreso nelle mie riflessioni, poiché senza di queste non abbiamo voglia di tendere la mano all’altro né di curare la Terra, essa pure sottomessa a gravissima ingiustizia ecologica: le facciamo guerra su tutti i fronti fino al punto che essa è entrata in un processo di caos, con il riscaldamento globale e i suoi effetti estremi.

Riassumendo: o saremo persone sociali e ecologicamente giuste, oppure mai arriveremo a godere una pace serena.

A mio modo di vedere, la miglior definizione di pace sta scritta nella Carta della Terra, dove si dice: “La pace è la pienezza che risulta dai rapporti corretti con se stessi, con le altre persone, con altre culture, con altre vite, con la Terra e con il Tutto di cui facciamo parte” (n. 16, f). A questo punto è chiaro che la pace non è una realtà a se stante; essa è il risultato di relazioni corrette con le differenti realtà che ci circondano. Senza queste relazioni corrette (questo è giustizia), mai avremo pace.

Per me è chiaro che nel quadro di una società produttivistica, consumistica, competitiva e assolutamente non cooperante, indifferente e egoista, organizzata mondialmente, non potrà esserci pace. Al massimo qualche rappacificazione. Dobbiamo creare un altro tipo di società che prenda posizione in relazioni giuste fra tutti, con la Natura, la Madre Terra e con il Tutto (Il mistero del mondo, o Dio) a cui apparteniamo. Allora fiorirà la pace, che la tradizione etica ha definito come “opera della giustizia” (Opus justitiae, pax).

*Leonardo Boff, teologo e columnist del JB on line

Traduzione Romano Baraglia e Lidia Arato