O genocídio israelense: suprema expressão do paradigma moderno? 

Vamos direto ao assunto. A retaliação do estado de Israel ao ato de terror de sete de outubro perpetrado pelo Hamas, da Faixa de Gaza, foi profundamente desproporcional. Tinha o direito de autodefesa garantido legalmente. Mas a pretexto de caçar e matar terroristas acionaram seu sofisticado arsenal bélico. Foram destruídos centenas de edifícios, assassinados milhares de inocentes: crianças, mulheres e um sem número de civis. Não se trata de uma guerra, mas de um verdadeiro genocídio e limpeza étnica como foi denunciado pelo secretário da ONU António Guterres. Ele afirmou “que a Faixa de Gaza se transformou num cemitério de crianças”. Hoje já é consenso entre os melhores analistas e notáveis humanistas. 

Nenhum órgão internacional e nenhum país saíram em defesa dos desesperados palestinos, revelando a completa insensibilidade, particularmente da União Europeia, aliada e súcuba dos Estados Unidos da América. Imbuída do espírito do poder/dominação, nada faz, como se pertencesse à guerra, todo tipo de crimes, inclusive o genocídio, como durante séculos o fizeram mundo afora. O presidente Joe Biden declarou apoio incondicional a Israel, o que equivale a dar carta branca para este fazer uma guerra de  autodefesa ilimitada, usando todos os meios. A humanidade está aterrorizada face ao quadro de extermínio e de morte na Faixa de Gaza. 

Estamos face à total irracionalidade e assustadora desumanidade. Por mais que nos custe aceitar, devemos suspeitar, especialmente nós que vivemos do Grande Sul, outrora colonizado e hoje submetido à  uma recolonização, que o presente genocídio estaria inscrito no DNA ocidental moderno e mundializado.
Este perdura já há séculos e é ainda vigente. Por que este questionamento tão duro? 

Sigam o seguinte raciocínio: qual é o sonho maior e a grande utopia que davam e dá ainda sentido ao mundo moderno já há mais de três séculos? Era e continua sendo o desenvolvimento ilimitado, a vontade de poder como dominação sobre os outros, as classes, as terras a conquistar, sobre outras nações, sobre a natureza, a matéria até o último topquark e a própria vida no seu derradeiro gene e sobre toda a natureza nos seus biomas e em sua biodiversidade. A centralidade é ocupada exclusivamente pela razão. Só é aceito o que passar por seus critérios. Mais que o “cogito, ergo sum” (penso, logo sou) de Descartes é o “conquero, ergo sum”(conquisto, logo sou) de Hernan Cortez, conquistador e destruidor do México que expressa a dinâmica da modernidade.  

Os Papas da época: Nicolau V (1447-1455) e Alexandre VI (1492-1503) conferiram legitimação divina ao espírito de dominação dos europeus. Em nome de Deus, concederam às potências coloniais da época, aos reis de Espanha e de Portugal “a faculdade plena e livre para invadir, conquistar, combater, vender e submeter os pagãos e se apropriar e aplicar para uso e utilidade sua, a reinos, domínios, possessões e bens deles descobertos e a descobrir… pois é obra bem aceita pela divina Majestade que se abatam as nações bárbaras e sejam reduzidas à fé crista” (Paulo Suess, A conquista espiritual da América Espanhola, documentos, Petrópolis: Vozes, 1992, p.227). 

Francis Bacon e René Descartes, entre outros fundadores do paradigma da modernidade, não pensavam outra coisa que os Papas: o ser humano deve ser “mestre e dono da natureza” que não possui propósito nenhum, pois, é apenas uma mera coisa extensa (“res extensa” de Descartes) colocada à nossa disponibilidade. Deve-se “meter a natureza numa cama de força, pressioná-la para que entregue seus segredos; devemos colocá-la a nosso serviço como uma escrava” (Francis Bacon).  

Para que tudo isso? Para nos desenvolvermos e sermos felizes, pretendiam! A ciência e a técnica, a tecnocracia, foram e ainda são os grandes instrumentos do projeto de dominação. Para submeter à dominação, tinham que desqualificar os submetidos e colonizados: estão mais do lado dos animais do que dos humanos, são sub-humanos. Recordemos a famosa discussão do grande Bartolomeu de Las Casas com Sepúlveda, o educador dos  reis espanhóis. Este último sustentava que os povos originários da América Latina não eram humanos e duvidava que possuíssem razão. Algo parecido afirmou o ministro da Defesa israelense, Y. Gallant acerca dos terroristas de Gaza: são “animais-humanos e como tais devem ser tratados”. Os nazistas comparavam os judeus a ratos a serem erradicados. 

O homem ocidental europeu, filho do paradigma do poder/dominação, possui imensa dificuldade de conviver com o diferente. A estratégia costumeira é marginaliza-lo ou incorporá-lo ou eventualmente, eliminá-lo. Nesta visão de mundo deve-se sempre definir quem é amigo e quem é inimigo. A este cabe difamar, combater e liquidar (o jurista de Hitler, Carl Schmitt). Não admira que os europeus cristianizados produzissem as principais guerras no continente ou nas colônias, causando mais de 200 milhões de mortos. Seu cristianismo foi apenas um ornato cultural, nunca uma inspiração do Nazareno para uma relação fraterna e para uma ética humanitária. 

Todos, com razão, se horrorizam com o Holocausto que levou seis milhões de judeus às câmaras de gás dos nazistas. Mas vejamos o pavoroso Holocausto ocorrido na América Latina (Abya-Yala na linguagem dos povos centro-americanos). No espírito de conquista-dominação da América Latina, entre os anos de 1492-1532 e nos USA a partir de 1607, os  colonizadores europeus cometeram o  maior extermínio jamais feito: os mortos por doenças dos brancos ou mortos em guerras, algumas de extermínio total como em Haiti, foram cerca de 61 milhões de representantes dos povos originários: do Caribe (4 milhões), do México (23 milhões), dos Andes (14 milhões), do Brasil (4  milhões) e dos Estados Unidos (16 milhões). É o que comprova a pesquisa mais recente de Marcelo Grondin e Moema Viezzer,Abya Yala: genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários das Américas” (Rio de Janeiro: Ed. Bambual, 2021). Este nosso Holocausto, segundo o historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), deslegitima qualquer credibilidade aos europeus e à Igreja  associada ao projeto colonial, de falar em dignidade humana e em seus direitos.  Matou-se com a espada e com a cruz. 

À base deste tipo de dominação surgiu o capitalismo anglo-ssxão hoje mundializado, como modo de produção excludente, sua financeirização atual e sua cultura. É crime contra a natureza e contra a humanidade que 8 pessoas individualmente, segundo relatório da Oxfam Internacional de 2022, possuam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial. Essa absurda acumulação tolera que se deixem anualmente morrer de fome ou de doenças derivadas da fome, milhares e milhares de crianças. 

É neste contexto, penso, que deve se entender o atual genocídio perpetrado pelo Estado sionista de Benjamin Netanyahu. Estaria inscrito no DNA do paradigma ocidental? Depois da última guerra (1939-1945), construíram-se armas de destruição em massa, a ponto de ter-se criado o princípio de autodestruição. A razão tornou-se totalmente irracional. A marcha da irracionalidade está tomando conta do curso do mundo para além do que está ocorrendo entre Israel e a Faixa de Gaza. Com lucidez o Papa Francisco em sua encíclica Como cuidar da Casa Comum (Laudato Si’ de 2015) viu no paradigma tecnocrático dominante, a raiz da atual e ameaçadora crise ecológica mundial (n.101s). 

Qual foi a grande errância do paradigma da vontade de poder-dominação? Foi a de colocar exclusivamente todo o peso e todo o valor na razão instrumental-analítica. Recalcou as demais formas de conhecimento, exercidas pela humanidade: a sensibilidade, o amor, a razão simbólica entre outras. Essa exclusão gestou a ditadura da razão. Irrompeu o racionalismo e a demência da razão. Pois, somente uma razão demente pode devastar a Terra, irmã e Mãe que tudo nos dá, a ponto de ela mostrar seus limites intransponíveis. Pior ainda, a razão enlouquecida criou para si os meios de seu completo extermínio. 

Mas qual foi a errância maior? Foi ter recalcado e eliminado a parte mais ancestral e essencial de nossa realidade. Em nome da objetividade do olhar da razão, eliminou a emoção e o coração. Com isso, deslegitimou a nossa dimensão de sensibilidade, nossa capacidade de afetos. É o coração que sente, ama e estabelece laços de cuidado para com os outros e para com a natureza. Não se ouve o pulsar do coração que identifica valores e funda uma ética cordial e humanitária.  

Bem dizia o Papa Francisco em sua primeira viagem à Lampedusa, para onde chegavam os fugitivos da guerra do Oriente Médio ou de África: “o homem moderno perdeu a capacidade de chorar e de sentir o outro como seu semelhante”. Pelo fato de Netanyahu e seu governo não reconhecerem humanidade nos  terroristas do Hamas, decidiu, praticamente, exterminar estes últimos com os meios letais mais modernos. Não chegamos assim ao extremo do paradigma da modernidade? Ela está propensa a deslanchar uma guerra global na qual a humanidade pode desaparecer e grande parte da natureza. 

Como sair desse impasse? Antes de mais nada, precisamos resgatar os direitos do coração. Não basta o logos (a razão)  precisamos também do pathos (o sentimento). Devemos nos encher de veneração face à grandeur do universo e de respeito diante do mistério de cada ser humano, feito irmão e irmã e companheiro/a de aventura terrenal. Não negamos a razão, necessária para dar conta da complexidade das sociedades contemporâneas. Mas recusamos o despotismo da razão.  Esta deve ser enriquecida pela razão sensível e cordial. Mente e coração unidos podem mutuamente se equilibrar e, destarte, evitar as tragédias das guerras e os genocídios de nossa sangrenta história, particularmente, este que, estarrecidos, estamos vivenciando seja na Terra Santa e, em especial, o genocídio cometido na Faixa de Gaza. Que o céu ouça o choro das crianças que sob os escombros perderam pai, mãe, irmãos e irmãs. Fizeram-se sobreviventes da grande tribulação (cf. Apocalipse 7,14) e nos enchem de compaixão. 

Leonardo Boff escreveu Direitos do coração, São Paulo: Paulus, 2015. 

La inhumanidad actual: ¿se ha perdido la humanidad del ser humano?

         Leonardo Boff*

Nietzsche repitió muchas veces que lo inhumano (allzumenschlich) forma parte también de lo humano. Esto se deriva del hecho de que nuestra condición humana es a la vez racional e irracional, caótica y armoniosa. No como un defecto de creación, sino como dato de nuestra realidad histórica. El proceso cosmogénico muestra también la misma característica, pues caos y cosmos andan juntos. Por lo tanto, se trata de una constante cosmológica, social e individual. Vemos que esto es verdad en la pérfida guerra de Israel y Hamas. Este último llevó a cabo horribles actos de terrorismo, matanza indiscriminada de habitantes de Israel y secuestro de dos centenares de personas. Israel ha tomado represalias con doble violencia, matando también indiscriminadamente a personas de Palestina, especialmente niños y madres, arrasando hospitales y lugares sagrados. En ambos lados verdaderos crímenes de guerra, pero Israel roza, con sus ataques terribles e invasión terrestre de Gaza, el genocidio real.

Todos estamos consternados: ¿cómo es posible tanta inhumanidad? ¿Qué somos al fin y al cabo? ¿Por qué calla Dios ante tanta maldad? Son muchos los que han perdido la esperanza en la humanidad. ¿Seguimos mereciendo vivir en este planeta? Una sombra de tristeza y pesadumbre marca los rostros de jefes de Estado, periodistas y prácticamente de todos los que aparecen en las pantallas de televisión y entre nosotros. Las figuras ensangrentadas de palestinos, llevando en sus brazos a niños y niñas asesinadas, nos conmueven hasta las lágrimas.

Nos hemos quedado abatidos e indignados porque dentro de nosotros se hace oír el otro lado de nuestra realidad: somos principalmente seres de amor, de empatía, de solidaridad, de compasión y de renuncia a toda venganza. Contra toda la maldad (sombra), reafirmamos la dimensión de la bondad (luz). Poco antes de morir bajo los escombros de Gaza, la novelista y poeta palestina Heba Abu Nada de forma impactante dejó escrito: “somos personas justas y del lado de la Verdad”.

Sí, ella nos confirma que somos principalmente justos y del lado de la verdad, del amor y de la compasión. Sin embargo, cabe reconocer, que el lado irracional y perverso (aunque nunca se pierde totalmente el momento racional perteneciente a la naturaleza humana) predomina en aquellos que dirigen la guerra, especialmente Israel, USA y sus aliados europeos, la comunidad internacional (¿quiénes son?) que se mantiene callada e inerte ante la muerte de miles de civiles, niños inocentes en los bombardeos israelíes. Parece que hubieran decretado su muerte lenta con el cierre de todas las fronteras, de la comida, del agua, de los medicamentos y de la energía.

Este es el escenario de los poderes dominantes, de los señores de la guerra, más interesados en la disputa geopolítica y en el multimillonario negocio de las armas que en salvar vidas humanas. Al final, dicen, “son palestinos, sub-humanos”, considerados por grupos extremistas de Israel, incluido su ministro de defensa, como “animales”, que deberían ser tratados como tales y eventualmente exterminados.

Este escenario contrasta con las manifestaciones multitudinarias en todo el mundo: en el mundo árabe, Estados Unidos, Francia, Alemania, Reino Unido, otros países y también en Brasil, que llenan las calles y se ponen al lado de los castigados colectivamente, de los más débiles, de los palestinos de la Franja de Gaza, mostrando que quieren humanidad y no ataques inhumanos. Incluso en una situación de guerra hay leyes (ius in bello) que, si se violan, constituyen crímenes de guerra, como matar a niños inocentes, atacar hospitales, escuelas y lugares sagrados.

Esto es lo que está ocurriendo sistemáticamente en los bombardeos. ¿Qué nos dice la mejor ciencia contemporánea, la ciencia de la vida, de la Tierra y del cosmos? Nos convence de que nuestro lado humano y luminoso pertenece al ADN (manual de instrucciones de la creación humana) de nuestra naturaleza. James Watson y Francis Crick describieron en 1953 la estructura en hélice de la molécula de ADN. Watson, en su libro “ADN, el secreto de la vida” (Companhia das Letras 2005), confirmando lo que San Pablo escribió sobre el amor en la primera epístola a los Corintios, afirma: «el amor es tan consustancial a la naturaleza humana que estoy seguro de que la capacidad de amar está inscrita en nuestro ADN, un San Pablo secular diría que el amor es la mayor dádiva de nuestros genes a la humanidad… ese impulso, creo, salvaguardará nuestro futuro» (p.434).

Los neurocientíficos y los biólogos no sostienen otra cosa (véanse las opiniones recogidas por Michael Tomasello en su libro “Por qué cooperamos” (Warum wir kooperieren, Berlín 2010): «En el altruismo, uno se sacrifica por otro. En la cooperación, muchos se unen por el bien común» (p.14). El conocido neurobiólogo Joachim Bauer, del famoso Instituto Max Plank, en su libro “El principio de humanidad: por qué cooperamos por naturaleza y entre nosotros” (Das cooperative Gen. Hamburgo 2006 y 2008), afirma: «Los genes no son autónomos y en ningún caso ‘egoístas’ (como afirma falsamente Richard Dawkins), sino que se agregan entre sí en las células de todo el organismo… todos los sistemas vivos se caracterizan por una cooperación permanente y una comunicación molecular hacia dentro y hacia fuera» (p.183-184).

Tales afirmaciones que podríamos multiplicar con las de otros grandes científicos, muestran que toda violencia y guerra son contrarias a nuestra naturaleza más esencial, hecha de cooperación, amor, solidaridad y compasión, aunque como afirmamos anteriormente, exista también el impulso de muerte y de agresión. Pero este, mediante la civilización, las religiones, la ética y la participación política de todos (democracia ecológico-social), el deporte y el arte, puede ser mantenido bajo control, como sugería Sigmund Freud respondiendo a Albert Einstein.

Lo que estamos presenciando es una total falta de control sobre esta dimensión oscura e inhumana (es también demasiado humana) que está produciendo muerte y destrucción. Quienes podrían comprometerse a contener la inhumanidad y mantener nuestra mínima humanidad se muestran vergonzosamente inertes ante la limpieza étnica perpetrada por el Estado de Israel. Mientras tanto, miles de personas mueren bajo los escombros producidos por los incesantes ataques de la aviación israelí. Curiosamente, Estados Unidos gasta 100.000 millones de dólares en producir armas de muerte y sostener la guerra en Ucrania y la guerra Israel-Hamas, apoyando incondicionalmente al Estado de Israel, dando luz verde a un contraataque desproporcionado.

Al mismo tiempo, China promete 100.000 millones de dólares para poner en marcha pacíficamente la Ruta y el cinturón de la Seda. Se trata de dos formas opuestas de hacer política, una que favorece la mejora de los países, especialmente de los más pobres a través de la paz y la otra, a través de la guerra, que EEUU ha utilizado en lrak, Afganistán, Siria, Libia y muchos otros lugares para asegurar su excepcionalidad y su poder unipolar.

Basta. Lo que las mayorías de la humanidad desean desesperadamente es un mundo en paz donde todos puedan caber, con lo suficiente y lo decente para todos, en la misma Casa Común, ahora en guerra y bajo fuego.

*Leonardo Boff ha escrito Fundamentalismo, terrorismo, religión y paz, Vozes 2009; Hombre: Satán o Àngel bueno, Record, RJ 2008.

Der Irrsinn des Krieges: Wir sind kriegslüstern

Der verheerende und tödliche Angriff auf das von Anglikanern unterstützte Al-Ahli Baptist Hospital im Zentrum des Gazastreifens ist nach internationalem Recht ein eindeutiges Kriegsverbrechen. Es herrscht ein Krieg der Versionen darüber, wer ihn verursacht hat. Was wirklich zählt, sind die Hunderte von Menschenleben (471?), die auf verbrecherische Weise getötet wurden. Die Tatsache und die Szenen haben uns mit Entsetzen, Empörung und Solidarität mit den Betroffenen und mit dem palästinensischen Volk, dem Opfer einer Kollektivstrafe, erfüllt.

In der schmerzhaften Geschichte der Palästinenser auf der Suche nach einer Heimat gab es unzählige Massenmorde in Hebron (1929), Dier Jassin (1948), Kufer Qassem (1956), Hebron (1994) und das Massaker beim Marsch der Rückkehr (2018). Der perverse Terrorakt der Hamas in Israel am 7. Oktober, bei dem wahllos mehr als tausend Israelis, darunter Kinder und zweihundert Geiseln, ermordet wurden, darf niemals vergessen und muss verurteilt werden.

Die Vergeltungsmaßnahmen des israelischen Staates mit der skandalösen bedingungslosen Unterstützung der USA sind grausam und gnadenlos und treffen Tausende von Zivilisten, darunter 50 Prozent Kinder und Jugendliche. Israels totale Belagerung mit dem Abschneiden von Wasser, Nahrung und Energie stellt ein humanitäres Verbrechen dar.

Dieser völlig asymmetrische Krieg wirft die große Frage auf: Warum töten oder ermorden sich Menschen gegenseitig? Was sind die Ursachen für diese Perversität? Ist Frieden zwischen den Menschen und mit der Natur möglich?

Es würde zu weit führen, über die verschiedenen Interpretationen des dementen und kriegerischen Charakters des Menschen nachzudenken, was wir im vorherigen Artikel versucht haben. Hier fassen wir das Thema im Briefwechsel zwischen Albert Einstein und Sigmund Freud zusammen.

Am 30. Juli 1932 fragte Einstein Freud: “Gibt es einen Weg, den Menschen von der Fatalität des Krieges zu befreien? Gibt es eine Möglichkeit, die psychische Entwicklung so zu lenken, dass der Mensch fähiger wird, der Psychose des Hasses und der Zerstörung zu widerstehen?” (Natan & Norden, Einstein on Peace, 98).

Freud verwendet diese beiden Trieb-Begriffe, die er sein ganzes Leben und Werk hindurch beibehalten hat: Wir haben in uns den Todestrieb (Thanatos) und den Lebenstrieb (Eros). Beide koexistieren in jedem menschlichen Wesen. Der Todestrieb ist verantwortlich für alle Arten von Gewalt und Kriegen, die die persönliche und kollektive Geschichte der Menschheit prägen. Der Lebenstrieb äußert sich in Liebe, Freundschaft, Solidarität und Mitgefühl, die ebenfalls in jedem Menschen vorhanden sind.

Freud antwortete Einstein realistisch: “Es gibt keine Hoffnung, die Aggressivität des Menschen direkt unterdrücken zu können, aber man kann zu indirekten Mitteln greifen, indem man den Eros, das Prinzip des Lebens, gegen den Thanatos, das Prinzip des Todes, stärkt. Alles, was emotionale Bindungen zwischen den Menschen schafft, wirkt gegen den Krieg; alles, was den Menschen zivilisiert, wirkt gegen den Krieg” (Sämtliche Werke, III:3,215). Aber er warnt uns, dass diese beiden Triebe aufeinanderprallen und versuchen, sich gegenseitig auszugleichen, aber wir wissen nicht, welcher von ihnen den Vorrang vor dem anderen haben wird. Er endet mit einem geheimnisvollen und resignativen Satz: “Wenn wir hungern, denken wir an die Mühle, die so langsam mahlt, dass wir vor Hunger sterben könnten, bevor wir das Mehl erhalten“. Hier zeigt sich Freuds Pessimismus über den Verlauf unserer Geschichte. Wir erleben jetzt mit Entsetzen, was der große Psychoanalytiker geahnt hat.

Dennoch suchen wir weiterhin hartnäckig nach Frieden und werden niemals aufgeben. Wenn auch nicht als Dauerzustand, so doch zumindest als ein Geist, der uns den Dialog der Konfrontation vorziehen lässt, die herzliche Suche nach Gemeinsamkeiten der kriegerischen Konfrontation.

Die Grundvoraussetzung für den Frieden ist die Bejahung der Menschlichkeit in jedem einzelnen Menschen, unabhängig von seinem ethnischen, kulturellen, religiösen oder geschlechtlichen Status. Wir alle sollten uns gegenseitig menschlich behandeln. Leider ist dies nicht der Fall. So erklärte der israelische Verteidigungsminister Yoav Gallant in einem Interview mit internationalen Journalisten in einer typisch rassistischen Haltung: “Wir kämpfen gegen Tiere und handeln dementsprechend … wir setzen unsere gesamte Kriegsmacht ein, um Gaza-Stadt in Schutt und Asche zu legen”. Dies ist nur möglich, wenn man den Bewohnern des Gazastreifens die Menschlichkeit abspricht, da sie zu Unmenschen und, schlimmer noch, zu Tieren degradiert wurden.

So hinterlässt jede Unterwerfung eines Volkes durch Gewalt und Krieg eine Spur von Verbitterung, Hass und Rachegelüsten, die zu gewalttätigen Reaktionen, Angriffen und neuen Konflikten führen. Wie Prof. Oren Yiftachel, ein israelischer Jude von der Universität für Urbanistik der Ben-Gurion-Universität des Negev, sagte, hat Israel in den letzten zehn Jahren etwa 15 Mal mehr Zivilisten getötet als die Palästinenser getöten haben.   Wir müssen eine vertrauensvolle und herzliche Begegnung zwischen den verschiedenen Völkern anstreben. Daniel Barenboim, ein jüdischer Orchesterdirigent, gibt uns ein gutes Beispiel: In seinem Orchester und seiner Schule in Israel leben Israelis, Palästinenser und Juden zusammen und pflegen die Musik. Er sagt: “Das bestärkt mich in meiner Überzeugung, dass es nur eine Lösung für den Konflikt geben kann: auf der Grundlage von Humanismus, Gerechtigkeit und Gleichheit und ohne Waffengewalt und Besatzung”. Frieden ist das Ergebnis und die Konsequenz einer solchen Haltung, die in der Erd-Charta gut zum Ausdruck kommt, wenn sie “anerkennt, dass Frieden die Fülle ist, die sich aus rechten Beziehungen zu sich selbst, zu anderen Menschen, zu anderen Kulturen, zu anderem Leben, zur Erde und zu dem größeren Ganzen ergibt, von dem wir ein Teil sind” (IV,16f).

Es ist traurig zu sehen, dass im Land des Friedensfürsten Jesus von Nazareth so brutale Gewalt und verheerende Kriege herrschen, deren Opfer meist Zivilisten und unschuldige Mütter und Kinder sind.

Letztendlich liegt es an uns, Shalom, Salam, Pax et Bonum, Frieden und Güte zu verkünden.

Leonardo Boff ist Autor von: Cultura da paz num mundo em conflito, em Virtudes para outro mundo possível vol. III, Vozes 2006,73-131; Oração de São Francisco:uma mensagem de paz para o mundo atual,Vozes 2014.

A insanidade da guerra: somos belicosos

     O devastador e letal  ataque ao hospital batista Al-Ahli,sustentado pelos anglicanos, no centro de Gaza é um claro crime de guerra segundo leis internacionais. Há uma guerra de versões sobre quem foi o causador. O que, na verdade, importa são as centenas vidas humanas (471?) ceifadas criminosamente.O fato e as cenas nos tomaram de horror,indignação e solidariedade para com os atingidos e com o povo palestino,vítima de uma punição coletiva.

   Na penosa história dos palestinos em busca de uma pátria,  houve inúmeros assassinatos em massa em Hebron (1929), Dier Yassin (1948), Kufer Qassem (1956), Hebron (1994) o massacre da Marcha do Retorno (2018). Jamais deve ser esquecido e condenado o perverso ato terrorista do Hamas em Israel no dia 7 de outubro, assassinando aleatoriamente mais de mil israelenses, entre eles crianças e duas centenas de reféns.

   O revide do Estado de Israel, com o escandaloso apoio incondicional dos USA, está sendo cruel e sem piedade, atingindo milhares de civis,sendo 50% da população de crianças e de jovens. O cerco total com o corte de água,alimentos e energia, por parte de Israel, constitui um crime humanitário.

   Esta guerra, totalmente assimétrica, nos levanta a grande questão: por que os seres humanos se matam ou se assassinam reciprocamente? Quais são as raízes desta perversidade? É possível a paz entre os humanos e com a natureza?

   Seria longo refletir sobre as várias interpretações do caráter demente e belicoso do ser humano,coisa que tentamos fazer no artigo anterior.Aqui resumimos a questão na troca de cartas entre Albert Einstein e Sigmund Freud.   

   Em 30 de julho de 1932 perguntava Einstein a Freud:” há um modo de libertar os seres humanos da fatalidade da guerra? Existe a possibilidade de dirigir a evolução psíquica a ponto de tornar os seres humanos mais capazes de resistir à psicose do ódio e da destruição”(Natan&Norden,Einstein on Peace,98).

   Freud recorre a esta duas pulsões que sustentou durante a sua toda a sua vida e obra: temos em nós a pulsão de morte (Thánatos) e a pulsão de vida (Eros). Ambos coexistem em cada ser humano. A pulsão de morte responde por todo tipo de violência e guerras que marcam a história pessoal e coletiva da humanidade. A pulsão de vida se expressa pelo amor, pela amizade, pela solidariedade, pela compaixão, também coexistindo em cada ser humano.

   Realisticamente respondeu Freud a Einstein:”Não existe a esperança de poder suprimir de modo direto a agressividade dos seres humanos.Contudo, podem-se recorrer  a vias indiretas, reforçando o Eros, princípio de vida contra o Thánatos, princípio de morte. Tudo o que faz surgir laços emocionais entre os seres humanos age contra a guerra;tudo o que civiliza o ser humano trabalha contra a guerra”(Obras Completas,III:3,215). Mas nos adverte que estas duas pulsões se enfrentam e buscam se equilibrar mas não sabemos qual será a predominância de uma sobre a outra. Termina com uma frase misteriosa e resignada:”esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que podemos morrer de fome antes de receber a farinha”. Aqui aparece certo pessimismo de Freud face ao curso de nossa história. Agora estamos, horrorizados, assistindo ao que o grande psicanalista intuiu.

   Não obstante, continuamos a buscar teimosamente a paz e nunca desistiremos. Se não pode ser como estado permanente pelo menos como um espírito que nos faz preferir o diálogo ao confronto, a busca cordial de pontos em comum ao enfrentamento belicoso.

   O pressuposto básico para a paz consiste em afirmar a humanidade em todos e em cada ser humano,independente, de sua condição étnica, cultural, religiosa e de gênero. Devemos todos tratar-nos humanamente. Isso, lamentavelmente, não ocorre. Há supremacistas raciais (de brancos), religiosos e todo tipo de exclusivismos.Por exemplo, o ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, numa atitude tipicamente supremacista declarou numa entrevista a jornalistas internacionais:”nós estamos lutando contra animais e agindo de acordo… utilizando todo o poder bélico para reduzir a Cidade de Gaza a escombros”. Isso só é possível negando humanidade aos habitantes da Faixa de Gaza, feitos não-humanos e, pior, reduzidos a animais.

   Desta forma, todo submetimento de um povo pela violência e pela guerra deixa neste um rastro de amargura, de ódio e de desejo de vingança, que dará origem a reações violentas, a atentados e a novos conflitos. Há de se considerar que Israel matou cerca de 15 vezes mais civis do que palestinos durante a última década como afirmou o prof.Oren Yiftachel, judeu israelense da Universidade Urban  Studies da Ben Gurion University of Negev.   Há que se buscar o encontro confiado e cordial entre todos os diferentes povos. Belo exemplo nos dá o regente de orquestra, o judeu Daniel Barenboim que em sua orquestra e escola em Israel convivem e cultivam a música israelenses,palestinos e judeus juntos. Afirma:”Isso reforça a minha convicção de que só pode haver uma solução para o conflito: com base no humanismo, na justiça e na igualdade e sem força armada e ocupação”. A paz é resultado e consequência deste tipo de atitude, bem expressa na Carta da Terra quando “reconhece que a paz é a plenitude que resulta de relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(IV,16f).

   É triste constatar que na terra do Príncipe da Paz, Jesus de Nazaré,ocorram tais violências brutais e guerras devastadoras,cujas vítimas são na maioria civis e  inocentes mães e crianças.

   No final nos cabe proclamar Shalom,Salam, Pax et  Bonum, Paz e Bem.

Leonardo Boff escreveu Virtudes para outro mundo possível, vol.III, Beber e comer juntos e viver em paz, Vozes 2006; Oração de São Francisco:uma mensagem de paz para o mundo atual,Vozes 2014.