O inimigo principal na atual conjuntura do país

Jean Marc von der Weid, Julho de 2022

Publcamos este texto de Jean Marc que se tem distinguido por suas análises profundas, bem pensadas sobre a situação brasileira e sobre as ameaças reais que pesam sobre o destino político de nosso país. O poder central no Brasil é ocupado por um dirigente energúmeno, cercado de assessores inescrupulosos, a maioria militares, que contra a constituição, se metem na política e estão dispostos a apoiar um grande caos social. Este daria ao Inominável que está levando o povo à fome e ao desespero a à esta porção de militares conservadores, reacionários, incultos e ainda reféns de fantasmas que estão apenas em suas cabeças como a ameaça comunista internacional travestida de globalização a uma interrupção de nossa democracia. O fanatismo criado em seus seguidores, verdadeira seita violenta potencialmente sanguinária, poderá provocar assassinatos e atentados terroristas durante as eleições. Jean Marc nos alerta por esta eventualidade, até a suspensão das eleições e o prolongamento do atual poder já com conotações terroristas. Temos que estar atentos, participar das reações, tomar as ruas em protesto para bloquear este ato de insanidade política. Nunca como antes, o destino de nosso país está em nossas mãos, impedindo a dominação pelo ódio, pela violência (até armada) e pela destruição das bases de uma democracia minimamente representativa dos anseios das grandes maiorias por pão, casa,, trabalho,justiça social e educação. LBoff

Nos meus tempos de militante da Ação Popular, organização de esquerda que lutou contra a ditadura militar, discutíamos muito quem era o “inimigo principal”, conceito muito usado para orientar as estratégias e táticas a serem empregadas. Havia um debate, muitas vezes estéril, sobre o alvo maior a ser atacado, se os militares no poder ou seu mandante, o imperialismo americano.

Ao risco de cair na esterilidade que critiquei acima vou pôr em debate a aplicação do conceito no quadro político atual. Vamos ver se vai fazer sentido.

Intuitivamente, o alvo maior das forças progressistas atualmente é o energúmeno que preside o nosso triste Brasil, Bolsonaro. O inominável ameaça as eleições, quer pela derrama de dinheiro distribuído para ganhar apoio entre os mais pobres em uma situação de imensa miséria e fome no país, quer pela mais que evidente preparação de um golpe contra as próprias eleições. É a tática que descrevi em um artigo anterior como de “bola ou búlica”.

Analisando o quadro político desenhado nos últimos dias, em particular as votações do Congresso que permitiram a derrama de dinheiro para distribuição eleitoreira, temos que avaliar se a ameaça maior não está no presidente da Câmara, Artur Lira.

Está cada vez mais claro que Bolsonaro entendeu que precisa da colaboração do Congresso para suspender as eleições. Sua tentativa de setembro passado foi um fiasco tamanho que mostrou a fragilidade da sua base de fanáticos, de policiais militares e das próprias forças armadas para gerar o evento político e social de descontrole que justificasse um estado de exceção, com a suspensão da vida democrática. O presidente vem pelejando com sucesso para fortalecer esta base, envolvendo as FFAA no esforço de emparedar o TSE e o STF, trocando comandos para colocar generais mais bem dispostos em relação aos seus arreganhos liberticidas; ampliando a sua militância armada nos Clubes de Tiro; acirrando seus apaniguados nas polícias militares e excitando ao paroxismo seus fanáticos, o que está multiplicando atentados contra os eleitores de Lula e até chegando ao primeiro assassinato político destas eleições. Mas o perigo maior parece estar na facilidade com que Lira atropelou a Constituição, o regimento da Câmara e a legislação eleitoral.

Lira fez votar, até com um mais que suspeito apagão na energia da Câmara, o estado de emergência nacional. Estado de emergência? Ele não foi aventado na votação do Auxílio Brasil, meses atrás, para enfrentar a real emergência da fome que assola já 33 milhões de pessoas em todo o país, sem falar nas outras mais de 90 milhões em estado de insegurança alimentar em graus variados de gravidade. Pensando apenas nos efeitos eleitorais, Bolsonaro propôs e fez aprovar uma distribuição de recursos mal elaborada tanto nos valores como na definição dos beneficiários, resultando em poucos recursos para os mais pobres e acesso a outros menos mal aquinhoados. Quando viu que a derrama não estava dando certo do ponto de vista das intenções de voto, Bolsonaro aumentou a aposta visando aportar mais 200,00 reais para os já inscritos e acrescentando dois milhões de beneficiários.

Soma-se a esta derrama de dinheiro, supostamente para os mais pobres, uma série de outras medidas que arrombam totalmente a lei eleitoral, facilitando a distribuição de recursos do orçamento secreto sem qualquer controle para as bases do Centrão.

O resultado desta operação, que estoura completamente o erário e que prejudica todos os outros setores da administração ao longo deste ano, talvez não garanta a virada de votos que Bolsonaro necessita para ficar competitivo nas eleições de outubro. Entretanto, uma coisa é mais provável: os candidatos à reeleição vinculados ao Centrão vão ter um forte estímulo para garantir seus votos entre os mais pobres. Lira e seus apaniguados ganham, com ou sem a vitória de Bolsonaro. A perspectiva de ser eleito um Congresso ainda mais lamentável do que o atual vai ficando cada dia mais concreta.

Se a derrama de dinheiro não resultar em uma virada de expectativa de votos para Bolsonaro e/ou não garantir a reeleição da maioria fisiológica do Congresso, o que vão fazer Bolsonaro e Lira? Suponhamos que as pesquisas de opinião indiquem em setembro a perspectiva de derrota para estas forças da direita. A alternativa de suspender as eleições e prorrogar todos os mandatos passa a ser a solução.

Votar a derrama para fortalecer uma vitória eleitoral foi fácil para Lira, mas a suspensão das eleições é um passo muito mais grave a ser dado por esta corja. Como já disse em outros artigos, votar um estado de exceção a seco, sem uma situação de tumulto político e social generalizado é bem mais difícil, mas não impossível. Tudo depende da reação da sociedade ao quadro de descalabro que estamos vivendo.

Não acredito em uma reação espontânea da população desesperada pela pobreza e pela fome. Pensei que isto ia acontecer com o horror vivido pelo país durante a pandemia, com uma forte colaboração do governo para que este estado se instalasse. Mas as pessoas morreram sem ar e sem atendimento nas portas e corredores de hospitais repletos. O sofrimento atroz dos enfermos, contados aos milhões e com quase 700 mil mortos, não foi suficiente par promover reações populares. As pessoas sofreram e morreram e seus familiares choraram suas perdas ao som do riso escarninho do presidente. Seus fanáticos arrogantemente desprezaram as medidas de controle da pandemia, deixando de usar máscaras como forma de afirmação da sua adesão ao negacionismo de Bolsonaro e favorecendo a contaminação pelo vírus. O horror não foi suficiente para provocar reações de massa. Não houve manifestação por vacinas, sequer por oxigênio no caso de Manaus. Foi um extremo sofrimento vivido solitariamente por cada família afetada.

Pensei que a fome crescente em uma escalada que acrescenta milhões de novos sofredores mês a mês levaria a uma reação popular com saques a supermercados e feiras. Também nada ocorreu de relevante. Cenas de famintos precipitando-se para pegar restos de frigoríficos, pelanca e ossos, chocaram o país, mas não se multiplicaram. Bolsonaro mostrou-se frustrado com esta falta de reação, indicando que contava com o desespero do sofrimento para gerar o estado de instabilidade social e política que permitisse a adoção de medidas de força pelo executivo.

Este histórico aponta para a improbabilidade de uma convulsão social para a qual não faltam razões objetivas. Neste quadro, como Bolsonaro vai justificar o seu pedido de estado de exceção e a suspensão das eleições?

É aqui que entra em jogo a provocação do bolsonarismo. Uma campanha eivada de ódio, com milhares de extremistas fanáticos armados dispostos a tudo tem toda a possibilidade de gerar uma situação de confronto entre eleitores de Lula e os de Bolsonaro. Por enquanto o energúmeno está só criando o clima de provocações com resultados ainda pontuais embora dramáticos, como o assassinato do militante do PT, Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu. Mas não se pode descartar algo muito mais pesado, em particular atentados com tiros e bombas nos comícios de Lula e dos candidatos progressistas. Isto é muito fácil de fazer. Basta Bolsonaro e/ou seus filhotes darem o sinal para os grupos organizados da extrema direita atacarem.

Outro cenário de enorme perigo é a mobilização destes mesmos grupos para atacarem os comícios da oposição com agressões e pancadaria, com ou sem tiros e bombas. A reação dos apoiadores de Lula levaria à uma intervenção das polícias militares, fiéis bolsonaristas em grande parte, sentando o cacete na massa de oposição. Quanto mais pancadaria, quanto mais gás lacrimogênio, feridos e mortos, melhor para a criação do “clima de instabilidade política”. Este desenho de provocações está mais do que inscrito na estratégia de Bolsonaro e deve ir se aguçando até setembro, sendo que o dia sete está anunciado como o momento do grande confronto. Isto pode ser evitado, neste dia, se a oposição decidir não se manifestar na ocasião e deixar para outro dia seus atos de massa, que não deixarão de acontecer, nem que seja no encerramento da campanha. Mas, se for interessante para Bolsonaro, o confronto existirá, seja qual for o momento escolhido pela oposição para se manifestar.

Ou seja, estamos diante de um processo eleitoral explosivo e cheio de riscos, exacerbado pelo discurso de ódio e pelas provocações dos grupos organizados do bolsonarismo. Sempre com a tática do “bola ou búlica”, se Bolsonaro não conseguir reagir nas pesquisas de opinião ele vai acionar suas “tropas” para culminar a campanha com uma superprovocação às manifestações da oposição. Com um quadro de violência generalizada ele vai pedir ao Lira para votar um estado de exceção e suspender as eleições. Lira sabe que, mesmo se tiver uma base ampliada do Centrão no Congresso, um governo Lula não vai facilitar a sua vida. Com Bolsonaro ele sabe que o estado atual das relações com o executivo vai se prolongar e a dependência do energúmeno em relação ao seu aliado parlamentar vai, se possível, aumentar. É claro que o risco existe, para Lira, do energúmeno achar que o estado exceção poderá dispensar este apoio do Congresso. Se for o caso, Bolsonaro vai ter que dar mais um passo na direção do golpe explícito, para dominar o legislativo como os generais da ditadura o fizeram ao longo de 21 anos.

E o que fazer para enfrentar estes riscos enormes? Defendo que os candidatos contra Bolsonaro busquem um acordo republicano pela defesa das eleições, do TSE, das urnas eletrônicas e da posse dos eleitos. E que se busque um acordo de todos os partidos não bolsonaristas no Congresso afirmando o mesmo princípio. E que partidos e sociedade civil se organizem e se manifestem da mais ampla forma contra a violência nas eleições e pelo respeito às urnas e seus resultados. Entidades de todas as classes devem ser convocadas a se manifestarem neste sentido, cobrando, sobretudo das patronais, uma posição pela democracia.

Fica a questão de a oposição ir ou não ir às ruas durante a campanha. Uma tática mais defensiva, evitando dar ocasião para as provocações do bolsonarismo, parece a mais prudente e razoável. Entretanto, ceder as ruas para as manifestações de Bolsonaro vai acuar a oposição na campanha e não garante evitar os confrontos. Não podemos excluir uma operação terrorista do bolsonarismo no próprio dia da eleição, com sabotagem da rede elétrica (seguindo o modelito de Lira na votação da PEC) nos locais onde haja uma clara probabilidade de uma votação forte para Lula. Ou com atentados a bomba nestes mesmos locais. Ou agressões a eleitores lulistas por bandos de provocadores com o beneplácito das polícias militares. Multiplique isto por todo o país e teremos o pretexto para o estado de exceção. A sabotagem dos TREs e do TSE no dia da eleição teria o mesmo efeito.

Por todos estes argumentos continuo achando que teremos que correr o risco dos enfrentamentos de rua, em paralelo com a campanha pela paz nas eleições e esperar que esta combinação empurre o eleitorado contra o energúmeno e a derrota seja de tal ordem que iniba o Congresso a aceitar melar o jogo.

Jean Marc von der Weid

Ex-presidente da UNE (69/71)

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (1983)

Ex-membro do CONDRAF/MDA (2004/2016)

Militante da Geração 68 Sempre na Luta

Só o amor vence o ódio anti-vida do bolsonarismo

                                             Leonardo Boff

Foi eleito presidente do Brasil um figura sinistra, claramente possuída pela pulsão de morte e de ódio. Parece ter sofrido uma lobotomia pois estão estranhamente ausentes nele quaisquer sentimentos de empatia face às milhões de famílias enlutadas pela ação mortal do Covid-19 de quem se fez aliado, pois o minimizou, ridicularizou e combateu, sendo responsável por grande parte dos mais de 600 mil de vítimas. Fez da distorção da realidade, da fake news e da mentira método de governo. Semeou ódio e espírito de vingança entre seus seguidores e apoiou práticas criminosas com referência à Amazônia e discriminatórias à população indígena, negra, quilombola, de outra condição sexual e, em geral, aos pobres e marginalizados.

Esta triste figura que não possui um centro, conseguiu trazer à toma as várias sombras que acompanham a nossa sociedade, desde o genocídio indígena, da colonização, do escravismo e da dominação das  elites opulentas que sempre ocuparam o estado e seus aparelhos em benefício próprio e à custa do bem estar das  grandes maiorias. Liberou a dimensão dia-bólica (que divide) que habita nos porões escuros da psiqué pessoal e coletiva, a ponto de escantear a dimensão sim-bòlica (a que une), aquela que nos faz verdadeiramente humanos e sociáveis. O assassinato por razões políticas em  Foz do Iguaçu por um bolsonarista, não exime de responsabilidade moral o presidente, pois ele deu  a senha para o uso da violência.

A essa onda de ódio que está tomando várias nações no mundo mas de forma exponencial entre nós fez com que o eminente intelectual norte-americano Noam Chomsky, casado com uma brasileira, dissesse recentemente:”O Brasil é uma espécie de caso especial; raramente vi um país onde elementos da elite têm tanto desprezo e ódio pelos pobres e pelo povo trabalhador”.

A esse ódio devemos contrapor o amor, a amorosidade, na linguagem de Paulo Freire: promover aqueles valores que ele,seus filhos  e seus seguidores jamais poderão usar: como o amor, a solidariedade, a fraternidade, o cuidado de uns para com os outros e para com a natureza, o direito de cada um de possuir um pedacinho de Terra, a Casa Comum, que Deus destinou a todos, uma moradia decente, o cultivo da compaixão para com os sofredores, o respeito,  a compreensão, a renúncia a todo espírito de vingança, a transparência dos atos governamentais e o direito de ser feliz . Todos estes valores são negados teorica e praticamente pela verdadeira seita bolsonarista.

Abordarei o tema do amor não no sentido ético/moral,  filosófico e    teológico. Basear-me-ei somente em sua base biológica, tão bem formulada pelos cientistas Humberto Maturana e James D.Watson que junto com Francis Crick em 1953 descoficou o código genético.

O biólogo chileno Humberto Maturana, em seus estudos sobre a autopoiesis, vale dizer, sobre a auto-orgnização da matéria da qual resulta a vida,  mostrou como o amor irrompe de dentro do processo evolucionário. Na natureza, afirma ele, se verificam dois tipos de conexões (ele chama de acoplamentos) dos seres com o meio e entre si: um necessário, ligado à própria subsistência e outro espontâneo, vinculado a relações gratuitas, por afinidades eletivas  e por puro prazer, no fluir do próprio viver.

Quando esta última ocorre, mesmo em estágios primitivos da evolução há bilhões de anos, ai surge a primeira manifestação do amor como fenômeno cósmico e biológico. Na medida em que o universo se inflaciona e se complexifica, essa conexão espontânea e amorosa tende a incrementar-se. No nível humano, ganha força, faz-se um projeto consciente de vida  e se torna o móvel principal das ações humanas (Cf.A árvore da vida: a base biológica do entendimento humano,1955).

O amor se orienta sempre pelo outro. Significa uma aventura abraâmica, a de deixar a sua própria realidade e ir ao encontro do outro, homem ou mulher, e estabelecer uma relação de afetividade, de aliança vital e de amor.

Whatson, em seu volumoso livro DNA:o segredo da vida (2005) afirma explicitamente:

No  DNA, o manual de instruções da vida humana, o amor pertence à essência do ser humano.Embora eu não seja religioso não deixo de ver elementos profundamente verdadeiros,  escritos por São Paulo na sua primeira Carta aos Coríntio (13,1-13):’ainda que eu falasse  línguas, a dos homens e as dos anjos…ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todo os mistérios e de toda a ciência…se não tivesse o amor nada seria”. Continua Whatson: “Paulo, no meu entendimento, revelou com clareza a essência de nossa humanidade; o amor, esse impulso que nos faz ter cuidado com o outro, foi o que permitiu a nossa sobrevivência e sucesso no planeta; é esse impulso, creio, que salvaguardará nosso futuro…tão fundamental é o amor à natureza humana, estou certo de que a capacidade de amar  está inscrita em nosso DNA; um Paulo secular como eu diria que o amor é a maior dádiva de nossos genes à humanidade”(p.413-414).

Como se depreende, quem faz tais afirmações são cientistas da maior seriedade e de reconhecimento internacional. O amor pertence à nossa natureza essencial. Agindo contra ele, como o faz o presidente e o bolsonarismo, se colocam na contramão da humanidade e da lógica do universo. Daí sua maldade e perversidade.

A sociedade brasileira não pode se construir sobre esta barbárie e anti-humanismo. O  povo deverá  rejeitar sua reeleição, não só por razões ético-morais-políticas e de bom senso, mas também por razões científicas.

De sua boca ouvi e de seu exemplo aprendi o que meu pai legou a toda família: “Quem não vive para servir, não serve para viver”. O atual presidente não serve o povo brasileiro, pior,  nega aquela única energia que cresce e se renova quanto mais é vivida e doada: o amor. Amor, repito, negado ao povo brasileiro, à natureza e à Mãe Terra.

Leonardo Boff é teólogo,filósofo e escreve: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018; A busca da justa medida, Vozes 2022.

“Una guerra mundial a pedazos”

Leonardo Boff

El día 29 de junio del corriente año de 2022 tuvo lugar en Madrid la Cúpula de los países que componen la Organización del Tratado del Atlántico Norte (OTAN) de la cual forma parte como actor principal Estados Unidos. De hecho, la relación entre estos países europeos y Estados Unidos es de humillante subordinación. 

En esta Cúpula se estableció un “Nuevo Compromiso Estratégico” que en cierta forma va más allá de los límites europeos y alcanza a todo el mundo. Para reforzar esta estrategia globalista se hicieron también presentes Japón, Corea del Sur, Australia y Nueva Zelanda. Allí se declaró algo extremadamente peligroso y provocador de una eventual tercera guerra mundial. Se reafirmó como enemigo directo a Rusia y a China como enemigo potencial de mañana. La OTAN ya no se presenta solo como defensiva, ha pasado a ser ofensiva.

Se introdujo la categoría perversa del “enemigo” a quien hay que enfrentarse y derrotar. Eso nos remite al jurista nazi-fascista de Hitler, Carl Schmitt (1888-1985). En su Concepto de lo Político (1932, Vozes 1992) dice: “la esencia de la existencia política de un pueblo es su capacidad de definir al amigo y al enemigo” (p.76). Definido el enemigo, combátelo, “trátalo como malo y feo y derrótalo”, eso instaura la identidad de un pueblo.

Nuevamente Europa se vuelve víctima de su propio paradigma de voluntad de poder y del poder como dominación sobre los otros, incluso sobre la naturaleza y la vida. Este paradigma hizo que sólo en el siglo XX se produjeran dos grandes guerras con 100 millones de víctimas. Parece que ella no aprendió nada de la historia y mucho menos de la dura lección que la Covid-19 está dando, pues ha caído como un rayo sobre el sistema y sus mantras.

Hoy se sabe que detrás de la guerra que se está desarrollando en Ucrania se está produciendo el enfrentamiento entre Estados Unidos y Rusia/China, en el sentido de ver quién puede conseguir el dominio geopolítico del mundo. Hasta ahora había un mundo unipolar con predominio completo de Estados Unidos sobre el curso de la historia, no obstante las derrotas sufridas en varias intervenciones militares, siempre brutales y destructoras de antiguas culturas.

Nuestro maestro en geopolítica Luiz Alberto Moniz Bandeira (1935-2017) en su minucioso libro El desorden mundial: el espectro de la dominación total (Civilização Brasileira, RJ 2016) señaló claramente los tres mantras fundamentales del Pentágono y de la política exterior norteamericana: (1) un mundo-un imperio (USA); (2) full spectrum dominance: dominar todo el espectro de la realidad, en la tierra, en el mar y en el aire, con cerca de 800 bases militares distribuidas por todo el mundo; (3) desestabilizar todos los gobiernos de los países que resisten o se oponen a esta estrategia. No más vía golpe de estado con tanques en la calle, sino mediante la difamación de la política como el mundo de lo sucio y lo corrupto, la destrucción de la fama de los líderes políticos y una articulación político-mediático-jurídica para alejar a los jefes de estado resistentes. Efectivamente así ocurrió en Honduras, en Bolivia y en Brasil, con el golpe de esta naturaleza contra Dilma Rousseff en 2016 y posteriormente con la injusta prisión de Lula. Ahora el Nuevo Compromiso Estratégico de la OTAN obedece a esta orientación, impuesta por Estados Unidos, válida para todos bajo el pretexto de la seguridad y estabilidad del mundo.

Ocurre que el imperio norteamericano está a la deriva por más que se apele aún a su excepcionalismo y al “destino manifiesto” según el cual Estados Unidos sería el nuevo pueblo de Dios que llevará a las naciones la democracia, la libertad y los derechos (entendidos siempre dentro del código capitalista). Sin embargo, Rusia se rehízo de la erosión del imperio soviético, se ha armado con armas nucleares potentes, con  misiles inatacables y disputa un amplio espacio en el proceso de globalización. China ha irrumpido con proyectos nuevos como la ruta de la seda y como una potencia económica tan poderosa que, dentro de poco, sobrepasará a la norteamericana. Paralelamente a esto surgió en el Sur Global, el grupo BRICS de países en el que participa Brasil. En otras palabras, ya no hay un mundo unipolar, sino multipolar.

Este hecho exaspera la arrogancia de los norteamericanos, especialmente la de los supremacistas neocons, que afirman que es necesario continuar la guerra en Ucrania para desangrar y eventualmente arrasar a Rusia y neutralizar a China para enfrentarse a ella en una fase posterior. De esta forma –esta es la pretensión neocon– se volvería al mundo unipolar.

Estos son los elementos que pueden producir una tercera guerra mundial, que será suicida. El Papa Francisco con su clara intuición ha dicho repetidas veces que estamos ya dentro de la “tercera guerra mundial a pedazos”. Por esta razón dice en tono casi desesperado (aunque personalmente esperanzado) que “estamos todos en el mismo barco; o nos salvamos todos o no se salva nadie” (Fratelli tutti n.32). No denuncia otra cosa, y lo hace con frecuencia, el eminente intelectual Noam Chomsky. Enfáticamente afirma que hay suficientes locos en el Pentágono y en Rusia que quieren esa guerra que puede poner fin a la especie humana. Es la razón que se ha vuelto  irracional y enloquecida.

De esta forma se refuerza el paradigma letal del dominus (dueño y señor) de la modernidad y se debilita la alternativa del frater (hermano y hermana), propuesta por el Papa Francisco en su encíclica Fratelli tutti, inspirado en el mejor hombre de Occidente, Francisco de Asís. O nos confraternizamos todos entre nosotros y con la naturaleza o si no, estamos, en palabras del secretario de la ONU António Guterrez, cavando nuestra propia sepultura.

¿Por qué se optó por la voluntad de poder y no por la voluntad de vivir de los pacifistas Albert Schweitzer, Leon Tolstói y Mahatma Gandhi? ¿Por qué Europa, que produjo tantos sabios y santos y santas, escogió este camino que puede devastar todo el planeta hasta hacerlo inhabitable? ¿Acogió como orientador el más peligroso de los arquetipos, según C.G.Jung, el del poder capaz de autodestruirnos? Dejo abierta esta pregunta que Martin Heidegger se llevó sin respuesta a la tumba. Apesadumbrado dejó escrito para ser publicado después de su muerte: “Sólo un Dios podrá salvarnos”.

En ese Dios vivo y fuente de vida ponemos nuestra esperanza. Esto sobrepasa los límites de la ciencia y de la razón instrumental-analítica. Es el salto de la fe que también representa una virtualidad presente en el proceso global cosmogénico. La alternativa a esta esperanza son las tinieblas. Pero la luz tiene más derecho que las tinieblas. En esa luz creemos y esperamos.

*Leonardo Boff ha escrito La busca de la justa medida: el pescador ambicioso y el pez  encantado, Vozes 2022, y Habitar la Tierra: ¿cuál es el camino para la fraternidad universal?, Vozes 2021.

Traducción de MªJosé Gavito Milano

              “Uma guerra mundial em pedaços”  

                                                   Leonardo Boff

No dia 29 de junho do corrente ano de 2022 aconteceu a Cúpula de Madrid dos países que compõem a Organização do Tratado  do Atlântico Norte  (Nato) à qual pertence como ator  principal os USA. Aliás a relação entre estes países europeus e os USA é de humilhante subordinação.

Nesta Cúpula se estabeleceu um “Novo Compromisso Estratégico” que de certa forma vai além dos limites europeus e recobre todo mundo. Para reforçar esta estratégia globalista se fizeram presentes também o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Ai declarou-se algo extremamente perigoso e provocador de uma eventual terceira guerra mundial. Reafirmou-se  a Rússia como o inimigo direto e a China como inimigo potencial de amanhã. A Nato não se apresenta apenas defensiva, passou a ser ofensiva.

Introduziu-se a perversa categoria do “inimigo” a quem deve-se enfrentar e derrotar. Isso nos  remete ao jurista  nazi-fascista de Hitler Carl Schmitt (1888-1985). Em seu O Conceito do Político (1932, Vozes 1992) diz: “a essência da existência política de um povo é sua capacidade de definir o amigo e o inimigo”(p.76). Definindo o inimigo,combatê-lo,”tratá-lo como mau e feio e derrotá-lo”, isso  instaura a identidade de um povo.

Novamente a Europa se faz vítima de seu próprio paradigma da vontade de poder e do poder como dominação sobre os outros inclusive sobre a natureza e a vida. Este paradigma fez com que só no século XX se fizessem duas grandes guerras com 100 milhões de vítimas. Parece que ela não aprendeu nada da história e muito menos da lição que o Covid-19 está duramente dando pois caiu como um raio sobre o sistema e seus mantras.

Sabe-se hoje que por detrás da guerra que ocorre na Ucrânia está se dando o confronto entre os USA e a Rússia/China  no sentido de quem detém o domínio geopolítico do mundo. Até agora vigorava um mundo unipolar com a predominância completa dos USA sobre o curso da história não obstante as derrotas sofridas em várias intervenções militares,sempre brutais e destruidoras de antigas culturas.

O nosso mestre em geopolítica Luiz Alberto Moniz Bandeira (1935-2017) em seu minucioso livro A desordem mundial:o espectro da total dominação (Civilização Brasileira,RJ 2016) apontou, claro, os três mantras fundamentais do Pentágono e da política externa norte-americana: (1)um  mundo- um império (USA); (2) full spectrum dominance: dominar todo o espectro da realidade, na terra, no mar e no ar com cerca de 800 bases militares distribuídas no mundo inteiro;(3) desestabilizar todos os governos dos países que resistem ou se opõem a esta estratégia. Não mais via golpe de estado com tanques na rua, mas mediante a difamação da política, como o mundo do sujo e do corrupto, destruição da fama das lideranças políticas e uma articulação político-midiático-jurídica para afastar os chefes de estado resistentes. Efetivamente isso ocorreu em Honduras, na Bolívia e no Brasil com o golpe desta natureza contra Dilma Rousseff em 2016 e posteriormente com a injusta prisão de Lula. Agora o Novo Compromisso Estratégico da Nato obedece a esta orientação,imposta pelos USA, valendo para  todos sob a pretexto de segurança e estabilidade do mundo.

Ocorre que o império norte-americano está à deriva por mais que ainda se apele ao seu excepcionalismo e ao “destino manifesto”  segundo o qual os USA seriam o novo povo de Deus que irá levar para as nações a democracia, a liberdade e os direitos (sempre entendidos dentro do codigo capitalista).  No entanto, a Rússia se refez da erosão do império soviético, armou-se com armas nucleares potentes, com  misseis inatacáveis e disputa um forte espaço no processo de globalização. Irrompeu a China com projetos novos como o camino da seda e como uma potência econômica tão potente a ponto de, dentro de pouco,  ultrapassar a norte-americana. Paralelamente a isso surgiu no Sul Global, um grupo de países do BRICS do qual o Brasil participa. Em outras palavras, já não há um mundo unipolar, mas multipolar.

Este fato exaspera a arrogância dos norte-americanos especialmente os supremacistas neocons que afirmam ser necessário continuar a guerra na Ucrânia para sangrar e eventualmente  arrasar a Rússia e neutralizar a China para confrontá-la numa fase posterior. Desta forma – esta é a pretensão neocon – se voltaria ao mundo unipolar.

Eis aqui postos os elementos que podem gerar uma terceira guerra mundial que será suicida. O Papa Francisco em sua intuição clara tem falado repetidas vezes que estamos já dentro da “terceira guerra mundial em pedaços”. Por esta razão conclama em tom quase desesperado (mas sempre pessoalmente esperançoso) de que “estamos todos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(Fratelli tutti n.32).Não denuncia outra coisa e com frequência o  eminente intelectual Noam Chomsky. Enfaticamente afirma que há suficiente loucos no Pentágono e na Rússia que querem essa guerra que pode colocar um fim à espécie humana.É a razão tornada irracional e enlouquecida.

Desta forma se reforça o letal paradigma do dominus(senhor e dono) da modernidade e se debilita a alternativa do frater (irmão e irmã),proposto pelo Papa Francisco em sua encíclica Fratelli tutti, inspirado no melhor homem do Ocidente, Francisco de Assis. Ou nos confraternizamos todos entre nós e com a natureza ou então estamos,nas palavras do secretário da ONU António Guterrez, cavando a nossa própria sepultura.

Por que se optou pela vontade de poder e não pela vontade de viver dos pacifistas Albert Schweitzer, Leon Tolstói e Mahatma Gandhi? Por que a Europa que produziu tantos sábios e santos e santas escolheu  este caminho que pode devastar todo o planeta até fazê-lo inabitável? Acolheu como orientador o mais perigoso dos arquétipos, segundo C.G.Jung, aquele do poder,capaz de nos auto-destruir? Deixo aberta esta questão que Martin Heidegger levou sem resposta à sepultura.Pesaroso deixou escrito para ser publicado na pós-morte:”Só um Deus nos poderá salvar”.

Pois é nesse Deus vivo e fonte de vida que colocamos nossa esperança. Isso ultrapassa os limites da ciência e da razão instrumental-analítica. É o salto da fé que também representa uma virtualidade presente no processo global cosmogênico.A alternativa a esta esperança são as trevas. Mas a luz tem mais direito que a trevas. Nessa luz cremos e esperamos.

Leonardo Boff escreveu A busca da justa medida:o pescador ambicioso e o peixe encantado,Vozes 2022 e Habitar a Terra:qual o caminho para a fraternidade universal? Vozes 2021.