O eclipse da ética na atualidade

Entre os dias10-13 de julho realizou-se em Belo Horizonte um congresso internacional organizado pela Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) em torno dos temas: Religião, Ética e Política. As exposições foram de grande atualidade e de qualidade superior. Refiro-me apenas à discussão acerca do Eclipse da Ética que me coube introduzir.

A meu ver dois fatores atingiram o coração da ética: o processo de globalização e a mercantilização da sociedade.

A globalização mostrou os vários tipos de ética, consoante as diferenças culturais. Relativizou-se a ética ocidental, uma entre tantas. As grandes culturas do Oriente e as dos povos originários revelaram que podemos ser éticos de forma muito diferente.

Por exemplo, a cultura maia coloca tudo centrado no coração, já que todas as coisas nasceram do amor de dois grandes corações, do Céu e da Terra. O ideal ético é criar em todas as pessoas corações sensíveis, justos, transparentes e verdadeiros. Ou a ética do “bien vivir y convivir” dos andinos assentada no equilíbrio com todas as coisas, entre os humanos, com a natureza e com o universo.

Tal pluralidade de caminhos éticos teve como consequência, uma relativização generalidade. Sabemos que a lei e a ordem, valores da prática ética fundamental, são os pré-requisitos para qualquer civilização em qualquer parte do mundo. O que observamos é que a humanidade está cedendo diante da barbárie rumo a uma verdadeira idade das trevas mundial, tal é o descalabro ético que estamos vendo.

Pouco antes de morrer em 2017 advertia o pensador Sigmund Bauman:”ou a humanidade se dá as mãos para juntos nos salvarmos ou então engrossaremos o cortejo daqueles que caminham rumo ao abismo”. Qual é a ética que nos poderá orientar como humanidade vivendo na Casa Comum?

O segundo grande empecilho à ética é aquilo que Karl Polaniy chamava já em 1944 de “A Grande Transformação”. É o fenômeno da passagem de uma economia de mercado para uma sociedade puramente de mercado. Tudo se transforma em mercadoria, coisa já prevista por Karl Marx em seu texto A miséria da Filosofia de 1848, quando se referia ao tempo em que as coisas mais sagradas como a verdade e a consciência seriam levadas ao mercado; seria “tempo da grande corrupção e da venalidade universal”. Pois vivemos este tempo. A economia especialmente a especulativa dita os rumos da política e da sociedade como um todo. A competição é sua marca registrada e a solidariedade praticamente desapareceu.

O que é o ideal ético deste tipo de sociedade? É a capacidade de acumulação ilimitada e de consumo sem peias, gerando uma grande divisão entre um pequeníssimo grupo que controla grande parte da economia e as maiorias excluídas e mergulhadas na fome e na miséria.   Aqui se revelam traços de barbárie e crueldade como poucas vezes na história.

Precusamos refundar uma ética que se enraíze naquilo que é específico nosso, enquanto humanos e que, por isso, seja universal e possa ser assumida por todos.

Estimo que que em primeiríssimo lugar é a ética do cuidado que segundo a fabula 220 do escravo Higino e bem interpretada por Martin Heidegger em Ser e Tempo constitui o substrato ontológico do ser humano, aquele conjunto de fatores sem os quais jamais surgiria o ser humano e outros seres vivos. Pelo fato de o cuidado ser da essência do humano, todos podem vive-lo e dar-lhe formas concretas, consoantes suas culturas.. O cuidado pressupõe uma relação amigável e amorosa para com a realidade, da mão estendida para a solidariedade e não do punho cerrado para a dominação. No centro do cuidado está a vida. A civilização deverá ser bio-centrada.

Outro dado de nossa essência humana é solidariedade e a ética que daí se deriva. Sabemos hoje pelo bio-antropologia que foi a solidariedade de nossos ancestrais antropoides que permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. Buscavam os alimentos e os consumiam solidariamente. Todos vivemos porque existiu e existe um mínimo de solidariedade, começando pela família. O que foi fundador ontem, continua sendo-o ainda hoje.

Outro caminho ético, ligado à nossa estrita humanidade é a ética da responsabilidade universal, Ou assumimos juntos responsavelmente o destino de nossa Casa Comum ou então percorreremos um caminho sem retorno. Somos responsáveis pela sustentabilidade de Gaia e de seus ecossistemas para que possamos continuar a viver junto com toda a comunidade de vida.

O filosofo Hans Jonas que,por primeiro, elaborou “O Princípio Responsabilidade”, agregou a ele a importância do medo coletivo. Quando este surge e os humanos começam a dar-se conta de que podem conhecer um fim trágico e até de desaparecer como espécie, irrompe um medo ancestral que os leva a uma ética de sobrevivência. O pressuposto inconsciente é que o valor da vida está acima de qualquer outro valor cultural, religioso ou econômico.

Por fim importa resgatar a ética da justiça para todos. A justiça é o direito mínimo que tributamos ao outro, de que possa continuar a existir e dando-lhe o que lhe cabe como pessoa. Especialmente as instituições devem ser Justas e equitativas para evitar os privilégios e as exclusões sociais que tantas vítimas produzem, particularmente nosso país, um dos mais desiguais, vale dizer, mais injustos do mundo. Daí se explica o ódio e as discriminações que dilaceram a sociedade, vindos não do povo mas daquelas elites endinheiradas que sempre viveram do privilégio. Atualmente vivemos sob um regime de exceção, no qual tanto a Constituição e as leis são pisoteadas ou mediante o Lawfare (a interpretação distorcida da lei que o juiz pratica para prejudicar o acusado)

A justiça não vale apenas entre os humanos mas também para com a natureza e a Terra que são portadores de direitos e por isso devem ser incluídos em nosso conceito de democracia sócio-ecológica.

Estes são alguns parâmetros mínimos para uma ética, válida para cada povo e para a humanidade, reunida na Casa Comum. Devemos incorporar uma ética da sobriedade compartida para lograr o que dizia Xi Jinping, chefe supremo da China “uma sociedade moderadamente abastecida”.Isto significa um ideal mínimo e alcancável. Caso contrario poderemos conhecer um armagedon social e ecológico.

Leonardo Boff escreveu: “Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2018.

 

El eclipse de la ética en la actualidad

Entre el 10 y el 13 de julio de 2018 se celebró en Belo Horizonte un congreso internacional organizado por la Sociedad de Teología y Ciencias de la Religión (SOTER) en torno a los temas Religión, Ética y Política. Las exposiciones fueron de gran actualidad y de nivel superior. Voy referirme solamente a la discusión sobre el Eclipse de la Ética que me tocó introducir.
A mi modo de ver dos factores han alcanzado el corazón de la ética: el proceso de globalización y la mercantilización de la sociedad.
La globalización ha mostrado los diferentes tipos de ética, según las diferencias culturales. Se ha relativizado la ética occidental, una entre tantas. Las grandes culturas de Oriente y las de los pueblos originarios han revelado que podemos ser éticos de forma muy diferente.
Por ejemplo, la cultura maya centra todo en el corazón, ya que todas las cosas nacieron del amor de los dos grandes corazones del Cielo y de la Tierra. El ideal ético es crear en todas las personas corazones sensibles, justos, transparentes y verdaderos. O la ética del “bien vivir y convivir” de los andinos, asentada en el equilibrio de todas las cosas, entre los humanos, con la naturaleza y con el universo.
Tal pluralidad de caminos éticos ha tenido como consecuencia una relativización generalizada. Sabemos que la ley y el orden, valores de la práctica ética fundamental, son los prerrequisitos para cualquier civilización en cualquier parte del mundo. Lo que observamos es que la humanidad está cediendo ante la barbarie rumbo a una verdadera era mundial de las tinieblas, tal es el descalabro ético que estamos viendo.
Poco antes de morir en 2017 advertía el pensador Sigmund Bauman: “o la humanidad se da las manos para salvarnos juntos o si no, engrosaremos el cortejo de los que caminan rumbo al abismo”. ¿Cuál es la ética que nos podrá orientar como humanidad viviendo en la misma Casa Común? El segundo gran impedimento a la ética es la mercantilización de la sociedad, lo que Karl Polanyi llamaba ya en 1944 “La Gran Transformación”. Es el fenómeno del paso de una economía de mercado a una sociedad puramente de mercado. Todo se transforma en mercancía, cosa ya prevista por Karl Marx en su texto La miseria de la Filosofía de 1848, cuando se refería al tiempo en el que las cosas más sagradas como la verdad y la conciencia serían llevadas al mercado; sería el “tiempo de la gran corrupción y de la venalidad universal”. Pues estamos viviendo ese tiempo. La economía especialmente la especulativa dicta los rumbos de la política y de la sociedad como un todo. La competición es su marca registrada y la solidaridad prácticamente ha desaparecido.
¿Cuál es el ideal ético de este tipo de sociedad? La capacidad de acumulación ilimitada y de consumo sin límites, que genera una gran división entre un pequeñísimo grupo que controla gran parte de la economía mundial y las mayorías excluidas y hundidas en el hambre y la miseria. Aquí se revelan rasgos de barbarie y de crueldad como pocas veces en la historia.
Tenemos que volver a fundar una ética que se enraíce en aquello que es específico nuestro como humanos y que, por eso, sea universal y pueda ser asumida por todos.
Estimo que en primerísimo lugar está la ética del cuidado, que según la fábula 220 del esclavo Higinio, bien interpretada por Martin Heidegger en Ser y Tiempo, constituye el sustrato ontológico del ser humano, aquel conjunto de factores sin los cuales jamás surgirían el ser humano y otros seres vivos. Por pertenecer el cuidado a la esencia de lo humano, todos pueden vivirlo y darle formas concretas, conforme a sus culturas. El cuidado presupone una relación amigable y amorosa con la realidad, de mano extendida para la solidaridad y no de puño cerrado para la dominación. En el centro del cuidado está la vida. La civilización deberá ser biocentrada.
Otro dato de nuestra esencia humana es la solidaridad y la ética que de ella se deriva. Sabemos hoy por la bioantropología que fue la solidaridad de nuestros ancestros antropoides la que permitió dar el salto de la animalidad a la humanidad. Buscaban los alimentos y los consumían solidariamente. Todos vivimos porque existió y existe un mínimo de solidaridad, comenzando por la familia. Lo que fue fundacional ayer, lo sigue siendo todavía hoy.
Otro camino ético ligado a nuestra estricta humanidad es la ética de la responsabilidad universal, O asumimos juntos responsablemente el destino de nuestra Casa Común o vamos a recorrer un camino sin retorno. Somos responsables de la sostenibilidad de Gaia y de sus ecosistemas para que podamos seguir viviendo junto con toda la comunidad de vida.
El filósofo Hans Jonas que fue el primero en elaborar “El Principio de Responsabilidad”, le agregó la importancia del miedo colectivo. Cuando este surge y los humanos empiezan a darse cuenta de que pueden conocer un fin trágico e incluso llegar a desaparecer como especie, irrumpe un miedo ancestral que los lleva a una ética de supervivencia. El presupuesto inconsciente es que el valor de la vida está por encima de cualquier otro valor cultural, religioso o económico.
Por último, es importante rescatar la ética de la justicia para todos. La justicia es el derecho mínimo que tributamos al otro de que pueda continuar a existiendo y recibiendo lo que le toca como persona. Las instituciones especialmente deben ser justas y equitativas para evitar los privilegios y las exclusiones sociales que tantas víctimas producen, particularmente en nuestro país, uno de los más desiguales, es decir, más injustos del mundo. De ahí se explica el odio y las discriminaciones que desgarran a la sociedad, venidos no del pueblo sino de las élites adineradas, que siempre viven del privilegio y no aceptan que los pobres puedan subir un peldaño en la escala social. Actualmente vivimos bajo un régimen de excepción en el que tanto la Constitución como las leyes son pisoteadas o mediante el Lawfare (la interpretación distorsionada de la ley que el juez practica para perjudicar al acusado).
La justicia no vale solo entre los humanos sino también con la naturaleza y con la Tierra, que son portadoras de derechos y por eso deben ser incluidas en nuestro concepto de democracia socio-ecológica.
Estos son algunos parámetros mínimos para una ética válida para cada pueblo y para la humanidad, reunida en la Casa Común. Debemos incorporar una ética de la sobriedad compartida para lograr lo que decía Xi Jinping, jefe supremo de China: “una sociedad moderadamente abastecida”. Esto significa un ideal mínimo y alcanzable. En caso contrario podremos conocer un armagedón social y ecológico.

*Leonardo Boff escribió: Cómo cuidar de la Casa Común, Vozes 2018.

Traducción de Mª José Gavito Milano

The karmic weight of Brazilian history

The grave magnitude of the Brazilian crisis is such that we lack means of explaining it. Trying to go beyond the classic approaches of critical sociology or history, I have invoked the explanatory capacity of the psychoanalytical categories of “light” and “shadow;” generalized as personal or collective anthropological constants. I tried out a possible understanding that comes to us from the theory of chaos, an important chapter of the new cosmology, because from this chaos, in a situation of the highest complexity and relationship interaction, life as we know it arose, including our life. This has proven to be capable of identifying that Powerful and Loving Energy that sustains everything, the Generating Principle of all Beings, and of opening to Him with veneration and respect.

I ask myself what other category in the repository of human wisdom could shed light on the darkness in which we all are now submerged. Then I remembered a telling dialogue between the great British historian Arnold Toynbee and eminent Japanese philosopher Daisaku Ikeda, that took place over several days in London. (cf. Choose life, Elige la vida, Emece. Buenos Aires 2005) Toynbee and Ikeda both believe that karma is real, be it personal or collective. Putting aside the different interpretations that have been given to karma, it seemed to me that this is a category of the highest antiquity, used by Buddhism, Hinduism, Jainism and Spiritualism to explain personal and collective phenomena.

Originally, Karma was a Sanskrit term meaning strength and movement, centered in the word “action” that provokes a corresponding“reaction”. This collective aspect seemed important, because I do not know (I could be wrong) of any conceptual category in the West that explains the historic evolution of entire communities and their institutions in their positive and negative dimensions. Perhaps, given the strong individualism that is typical of the West, the conditions needed to give rise to a sufficiently embracing concept have not yet been present.

Each person is marked by the actions taken in life. This affects not only people, but the whole environment. It is about a sort of ethical current account whose balance is in constant flux, according to the good or bad actions realized; the “debits” and “credits”. Even after death, the person, in Buddhist belief, carries this account into all future rebirths, until the negative ledger diminishes to zero.

Toynbee gives it another twist that is illuminating and seems helpful in understanding our history. History is comprised of inter-related networks, into which each person is inserted, linked to those that preceded the person and those in the present. There is a karmic functioning in the history of a people and its institutions, according to the levels of goodness and justice, or evil and injustice they produced over time. This is a kind of a heritage that remains, impregnating everything. The hypothesis of the many rebirths is not necessary, because the network of connections guarantees the continuity of a people’s destiny (p.384). The karmic realities impregnate institutions, landscapes, shape the people and mark the singular style of a people. This karmic force operates throughout history, marking the facts, be they beneficial or malignant. C.G.Jung somehow noted that in his archetypical psychology.

Let’s apply this karmic law to our situation. It is not hard to recognize that we carry a very heavy karma, derived in great part from the genocide of the Native nations, the super exploitation of the slave work force, the injustices perpetrated against large parts of the Black and Mestizo populations, relegated to the peripheries with families destroyed and corroded by hunger and disease. The Way of the Cross of suffering of those sisters and brothers of ours has more stations than the Way of the Cross of the Son of Man, when He lived and suffered among us. There is no need to mention the other evils.

Both Toynbee and Ikeda agree: “modern society (us included) can only be cured of its karmic charge through a spiritual revolution in the mind and heart” (p.159), along the line of compensatory justice and healing politics with just institutions. Without this minimal justice the karmic charge will not be dissolved. But that alone is not enough. There must be love, solidarity, compassion and a profound humanity for the victims. Love will be the most effective motor because, deep down, “love is the last reality” (p.387). A society that is not capable of effectively loving and of being less perverse will never overcome a history so marked by its karma. This is the challenge of our present crisis.

This is what the masters of humanity teach, such as Jesus of Nazareth, Saint Francis of Assisi, the Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Jr, the Dalai Lama and Pope Francis. Only good karma redeems the reality of the force of evil karma..

If Brazil does not make this karmic reversion, Brazil will keep struggling from crisis to crisis, destroying her own future.

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosopher Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

El peruano Gustavo Gutiérrez,padre de la Teología de la Liberación,cumple 90 años

Publicamos aquí este homenaje de Frei Betto, hecho de muchos recuerdos sobre Gustavo Gutiérrez, el padre de la Teología de la Liberación. El texto es bellísimo y conmovedor, justo homenaje a quien tanto se dedicó a los pobres, poniéndolos en el centro de la reflexión teológica, como los principales representantes de Cristo crucificado. Ellos están crucificados y su teología es un esfuerzo junto con ellos para bajarlos de la cruz y hacerlos plenamente humanos. El propio Papa Francisco le escribió una carta personal que publicamos en este blog, reconociendo sus méritos y la riqueza que ha traído a la Iglesia y a la humanidad, siempre a la luz de la fe liberadora. Nos unimos a las palabras de Frei Betto. Lboff

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Gustavo Gutiérrez cumplió 90 años el pasado 8 de junio. En los cinco continentes proliferan libros, tesis y artículos suyos, y críticas sobre su obra, así como de otros teólogos como Leonardo Boff, Hugo Assmann, Juan Bautista Libanio, Juan Luis Segundo, José Míguez Bonino, Elsa Támez y muchos otros, identificados con los principios y la metodología de la teología de la liberación.

La teología de la liberación ocupa una posición de prima donna en la teología actual. Gracias a las “ Instrucciones “ (1984) del Cardenal Ratzinger, se convirtió en asunto de interés hasta para nada menos que la Academia de Ciencias de la Unión Soviética, como lo pude comprobar al visitar el país integrando un grupo de teólogos brasileños en junio de 1987 .

Las dos “Instrucciones” emitidas por la Congregación para la Doctrina de la Fe, y los procedimientos contra el libro Iglesia, Carisma y Poder y su autor, Leonardo Boff, llevaron el debate teológico hacia los muros sagrados de las instituciones eclesiásticas, y le dieron un amplio espacio en los medios de comunicación, las universidades y los movimientos políticos.

Las obras de los teólogos provocan más interés que las personalidades de sus autores. Este sesgo epistemológico tiene sus ventajas: siempre que el trabajo sea riguroso, según los criterios de su campo específico, no hay necesidad de perturbar al autor, seguro en su privacidad conquistada. Sin embargo, el divorcio entre autor y obra no ha sido siempre un mero capricho de la razón moderna. Algunas veces ha servido como instrumento ideológico -en el sentido primitivo en que Marx usó la expresión “ideología” – precisamente para encubrir la contradicción entre autor y obra. Basta recordar el reciente impacto de las revelaciones de que Heidegger colaboró con el régimen nazi.

En el caso de autores muertos, las biografías son siempre de gran interés para aquellos que buscan un mejor entendimiento del texto dentro del contexto. ¿Quién lee hoy a Althusser con la misma atención que provocaron sus obras antes del 15 de noviembre de 1980, cuando el filósofo marxista estranguló a su esposa? En contraste, la muerte del teólogo alemán Dietrich Bonhoeffer, en un campo de concentración nazi, dio a sus obras un nuevo carácter, así como el asesinato del arzobispo Oscar Romero garantizó una amplia distribución de sus sermones.

Aunque el objetivo principal sea siempre las obras que producen, la persona de los teólogos de la liberación siempre ha suscitado una polémica considerable. De todos modos, estamos acostumbrados a vivir en situaciones de conflicto, sea la ocupación de tierras que llevó a los hermanos Leonardo y Clodovis Boff a la cárcel, en Petrópolis, el 4 de marzo de 1988, sean las censuras y los castigos impuestos por los que gobiernan nuestras iglesias.

Una cierta incomodidad se crea en algunos sectores teológicos del Primer Mundo precisamente por ese criterio que confiere a la teología de la liberación un nuevo carácter: en ella el discurso teológico no puede separarse del compromiso pastoral. El teólogo de la liberación no es un intelectual de sillón, confinado en bibliotecas y salas de lectura, dedicado a un rigor académico, protegido de los conflictos actuales.

No se escribe teología de la liberación sin insertarse profundamente, porque el punto de partida del teólogo de la liberación no es su mente, supuestamente iluminada, sino la práctica pastoral de comunidades cristianas pobres, comprometidas con la causa de la liberación popular.

Por esa razón, la teología de la liberación no existe sin vínculo con su fuente, la práctica liberadora de comunidades cristianas oprimidas del Tercer Mundo. Gramsci nos ayuda a comprender ese nuevo status de la teología con su concepto de “intelectual orgánico”, que define la relación del teólogo con el movimiento popular. Esto explica por qué la teología de la liberación es representativa de grupos populares a través del apoyo que recibe de una inmensa red de Comunidades Eclesiales de Base y un número incontable de mártires y confesores cuya vida eclesial y profecía son fuentes para el pensamiento y la producción de los teólogos.

Una teología “ilegítima”

En América Latina, el hecho de ser “hijo ilegítimo” no afecta necesariamente a la imagen social de alguien. Todos somos hijos e hijas de las relaciones entre españoles y amerindios, portugueses y mestizos, blancos y negros, mestizos y mulatos. Nuestro racismo es sólo para efecto social: se diluye en el calor de los trópicos, en que la sexualidad es poder y fiesta, negociación y sumisión, fantasía y transgresión. En esta parte del mundo, la familia es un concepto tan reciente como su constitución. Para parafrasear a Santo Tomás de Aquino, aquí la vida extrapola el pensamiento. Ni siquiera la teología escapa de un árbol genealógico de raíces inciertas y ramas torcidas. Interrogar a la teología de la liberación sobre sus ancestros legítimos es como preguntar a un indígena mexicano o a un plantador de café colombiano sobre la verdad histórica detrás de su tradición familiar.

Gustavo Gutiérrez puede, con razón, ser considerado el padre de la teología de la liberación, pues fue el primero en publicar un libro con ese título, en 1971, por la editorial española Ediciones Sígueme. Pero él mismo no niega la importancia, para su trabajo, de la visita que hizo en 1969 a Brasil, cuando tuvo contacto con nuestras comunidades eclesiales de base y experimentó de cerca el drama del asesinato -aún hoy impune- del asesor de la juventud de dom Helder Camara, el padre Henrique Pereira Neto, estrangulado y baleado por la dictadura militar brasileña en Recife, el 26 de mayo de 1969. Gutiérrez dedicó su “Teología de la liberación” a él y al novelista peruano José María Arguedas. A pesar de ello, no es posible negar las raíces europeas provenientes del humanismo integral de Jacques Maritain, del personalismo comprometido de Mounier, del evolucionismo progresivo de Teilhard de Chardin, de la dogmática social de De Lubac, de la teología del laicado de Congar, de la teología del desarrollo de Lebret, de la teología de la revolución de Comblin, o de la teología política de Metz.

El Concilio Vaticano II alentó las condiciones para cortar el cordón umbilical que mantenía a la teología de América Latina dependiente del útero de la madre Europa. Al iniciarse la década de 1960, la revolución cubana, el fracaso de la Alianza para el Progreso, la crisis del modelo desarrollista y el crecimiento de movimientos de izquierda no ligados a los partidos comunistas tradicionales, fueron algunos de los factores que llevaron a los teólogos latinoamericanos a enraizar el pensamiento en el suelo que pisaban. No es que fuera una cuestión de buscar categorías que permitieran una reinterpretación de hechos sociales y políticos. El motor de la teoría era la práctica de las comunidades populares cristianas, arraigada en la lucha; conforme transformaban el mundo, también alteraban el modelo de la Iglesia. El cambio social y la eclesiogénesis están, en última instancia, ligadas.

La construcción de un proyecto político alternativo no deja a la Iglesia intacta, como si fuera una comunidad de ángeles situada por encima de las contradicciones que atraviesan la trama de la sociedad. El elemento nuevo era la conciencia, conseguida en la vida en común de las Comunidades Eclesiales de base, de que la Iglesia no es sólo el papa o los obispos, sino el pueblo de Dios en marcha en la historia. Y la presencia de este pueblo creyente y oprimido en los movimientos sociales de América Latina marcó la fe con un carácter crítico que hizo nacer la teología de la liberación.

Un teólogo indígena

En la séptima conferencia internacional de la Asociación Ecuménica de Teólogos del Tercer Mundo (ASETT), en Oaxtepec, México, en diciembre de 1986, el teólogo negro norteamericano James Cone se quejó de que la teología de la liberación latinoamericana era demasiado blanca. Lo extraño es que a su lado estaba Gustavo Gutiérrez, de apariencia típicamente indígena: piel marrón, rostro redondo, bajo y gordito, con ojos ligeramente almendrados, revelando su ascendencia quechua. En casa, su padre hablaba ese idioma del antiguo imperio inca. Pero, más que la lengua y la apariencia, Gutiérrez heredó el estilo de los amerindios andinos. Y eso es lo que sorprende a cualquier persona que lo conozca: él combina -no sin algunos conflictos- la mente dotada de inteligencia rápida y racional, magisterial, que se expresa en un lenguaje construido como las partes de un instrumento de precisión, y una sensibilidad que desmiente todos los modelos de la moderna racionalidad.

En él coexisten el intelectual entrenado en Lovaina -donde fue compañero de Camilo Torres y defendió una tesis basada en Freud- y el amerindio del altiplano peruano. Esto es lo que le permite entrar en un aula sin ser notado -como deslizándose sobre sus propios pies- o visitar a su amigo Miguel d’Escoto sin que nadie más perciba su presencia en Managua. Es como si pudiera viajar, no sólo por las carreteras accesibles a los viajeros urbanizados, sino también por los senderos y trochas que sólo los habitantes de la selva conocen. Este don ancestral le permite dominar una nueva lengua, un nuevo campo de conocimiento, o pasar a través de Nueva York, París o Bonn, como un amerindio que se escurre entre árboles y hojas, observando sin ser visto, rápido como un pájaro y discreto como una llama.

Esta característica permitió que trabajara en el borrador del famoso Documento de Medellín, aprobado por la Conferencia Episcopal Latinoamericana, en 1968, un texto que se volvería fundamental para la práctica y teoría de la Iglesia de los pobres en América Latina.

En cierta ocasión, Gutiérrez llegó a Roma justamente cuando los obispos peruanos estaban discutiendo sus trabajos con los más altos dignatarios de la Curia. ¿Quién podría jurar que el texto final, más favorable a él que el borrador original, no haya sido redactado por la propia pluma de Gutiérrez?

Discreto como un capuchino, se mueve en el dominio político de los conflictos teológicos con toda la sutileza de un jesuita. Aunque su expresión a veces revele aquella angustia metafísica característica de las personas para quienes la línea estrecha que separa la muerte de la vida es familiar, nunca entra en pánico, y su aguda intuición es capaz de presentar soluciones inmediatas a problemas complicados, como si hubiera meditado durante años sobre una cuestión que acaba de surgir. Puede estar sentado durante horas en un banco de aeropuerto, escribiendo un artículo o escuchando a alguien, mordiendo nervioso todo el tiempo un palillo con sus dientes fuertes, ligeramente separados. Sus respuestas son casi siempre irónicamente divertidas, como si estuviera proponiendo una adivinanza.

Al dar clases y conferencias sigue un patrón rígido tan cuidadosamente montado que da la impresión de haber adornado su texto. Sus bromas confieren a las palabras un sabor muy suyo, porque es siempre capaz de manifestar esa rara virtud que tanto lo encanta: el humor. Su sentido del humor le permite mantener cierta distancia crítica respecto de cualquier hecho. Es de él la observación de que los políticos normalmente piensan solamente en una sola intención, es decir, en la segunda. No se permite ser traicionado por la emoción, porque sabe que nada humano merece ser tomado demasiado en serio.

Conviví con Gustavo Gutiérrez en Puebla, en enero y febrero de 1979, durante la Tercera Conferencia Episcopal Latinoamericana. En aquella ocasión, su nombre, al igual que el de otros teólogos de la liberación, había sido excluido de la lista de asesores oficiales. No tenía acceso directo al lugar de encuentro de los obispos, pero muchos prelados venían a él en busca de ayuda, lo que le obligaba a pasar noches enteras elaborando borradores y propuestas.

Estábamos todos alojados precariamente en dos apartamentos sin muebles, que rara vez tenían agua y en cuyos baños faltaba luz. Sobrevivíamos con algún maná caído del cielo, porque no teníamos cocina, y en los restaurantes de la ciudad seríamos presas fáciles de la prensa internacional, siempre en busca de un teólogo para descifrar el lenguaje eclesiástico de los textos, o para dar una entrevista exclusiva que confirmara la naturaleza rebelde o herética de la teología de la liberación…

Después de esquivar a todos los corresponsales extranjeros durante días, la tarde del domingo 4 de febrero de 1979, Gutiérrez aceptó la sugerencia del Centro Mexicano de Comunicación Social (Cencos) de realizar una rueda de prensa en el hotel El Portal. En sus comentarios, él enfatizó que la teología de la liberación no había planeado comenzar por una reflexión sobre los pobres. Los propios pobres, agentes de la transformación histórica, iniciaron esa reflexión teológica. El objetivo de la teología de la liberación es dar a los pobres el derecho de pensar y expresarse teológicamente. Cuanto más lo presionaban los periodistas para dejar escapar algo que pudiera sonar como herejía, tanto más Gutiérrez se mostraba fiel a los pobres y a la Iglesia. Él es maestro en reconciliar (conciliando) los polos aparentemente opuestos, presentando síntesis que nos animan a reinterpretar la tradición y el mundo que nos rodea.

Me encontré con él en diferentes ocasiones en su oficina, la “torre” de Rimac, barrio pobre de Lima. Decididamente era una de las oficinas más desordenadas que jamás he visto. Esparcidas y mezcladas por el suelo había latas de Coca-Cola y libros del cardenal Ratzinger. También botellas encima de documentos papales, hilos eléctricos desgarrados deambulaban entre papeles polvorientos. No había el menor indicio de que un plumero hubiera estado allí desde la llegada de Francisco Pizarro a Perú.

A pesar de ello, esa confusión tenía lógica para él. Sabía exactamente dónde encontrar cada cosa. Y en medio de aquel montón de papeles, devoraba los libros que recibía. Cuando sentía hambre, comía alguna comida común indefinida, junto con desempleados y subempleados.

Gutiérrez siempre prefirió leer a escribir. Tiene su propio método de lectura dinámica, como si una antena le indicase la calidad del contenido de una obra. Escribir, para él, es un acto doloroso. Y cuando escribe, admitir que alcanzó la versión final es un sacrificio. Siempre considera provisional un texto, que puede ser revisado y mejorado. Por eso, casi todas sus obras comenzaron como conferencias mimeografiadas. Es muy probable que sea autor de más obras no publicadas, conocidas sólo por un pequeño círculo de lectores, que publicadas. En general, ni siquiera firma los textos mimeografiados, que incluyen una excelente introducción a las ideas de Marx y Engels y su relación con el cristianismo.

En enero de 1985, la víspera de la visita del Papa Juan Pablo II a Lima, lo encontré en la “torre” de Rimac, escribiendo una serie de artículos vinculados a ese importante evento eclesial. Mientras conversábamos, Gutiérrez intentaba desenredar un largo cable de teléfono, que más parecía una bola de lana en la boca de un gato juguetón. Él siempre mantiene las manos ocupadas cuando está nervioso, sea retorciendo un elástico o jugando con un bolígrafo. Y en aquel momento tenía razones más que suficientes para estar tenso, pues el cardenal Ratzinger había anunciado para septiembre una respuesta a la defensa que Leonardo Boff había hecho de su libro Iglesia, Carisma y Poder, contra las críticas de Roma. La Navidad había pasado y la Curia aún permanecía en silencio. La segunda “Instrucción” sobre la teología de la liberación, basada en una consulta a los obispos de América Latina, prometida para noviembre o diciembre, tampoco había aparecido.

Tal vez se hubiera decidido que el Papa hiciera una declaración más oficial sobre la teología de la liberación en el lugar. Nada podría ser más oportuno que un pronunciamiento durante una visita a la tierra natal del padre de la teología de la liberación. Gutiérrez temía que el Papa dijera algo que pudiera ser interpretado como una condena a su teología. Sería desastroso. A pesar de eso, estaba listo para dejar la “torre” que lo protegía del acoso de la prensa y aparecer en el encuentro del Papa con sacerdotes y laicos en la plaza. Una vez más parecía seguro de que, debido a sus raíces indígenas, como persona capaz de caminar por la noche en la selva sin despertar la naturaleza de su sueño, su presencia sería discreta como la llovizna que cubre los tejados de Lima antes del amanecer.

Admiradores e inspiradores

Camino de Cuba, los hermanos Leonardo y Clodovis Boff y yo pasamos por Lima, al final de la tarde del 4 de septiembre de 1985. Encontramos a Gutiérrez en la parroquia obrera donde el teólogo, junto con el padre Jorge, director de la Pastoral Obrera de Lima, ejercía su ministerio sacerdotal. Insistimos en que fuera con nosotros a La Habana, porque Fidel Castro había demostrado gran deseo de encontrarse con él. Gutiérrez fue evasivo, objetando que, en ese mismo momento, un grupo de obispos peruanos, encabezados por don Durán Enríquez, estaba preparando un libro didáctico criticando sus escritos, lo que significaba que tendría que concentrarse en producir una especie de defensa anticipada.

Algún tiempo después, Gutiérrez confirmó que no había ido a Cuba atendiendo una petición del padre Carlos Manuel de Céspedes, entonces secretario general de la Conferencia Episcopal Cubana, que fuera su colega en Roma. El sacerdote cubano tenía miedo de que la presencia del teólogo peruano en Cuba fuera explotada políticamente.
La noche siguiente a nuestro encuentro en Lima, los hermanos Leonardo y Clodovis Boff, y yo, nos encontramos con Fidel Castro en La Habana. Le entregamos la carta que el teólogo le había mandado. Al terminar, Fidel comentó que acababa de leer “Teología de la Liberación” y se dijo impresionado por su base científica y su impacto ético. Mencionó especialmente la honestidad con que Gutiérrez trata la cuestión de la lucha de clases y la dimensión de la pobreza. Y añadió, con énfasis: “Necesitamos distribuir libros como éste al movimiento comunista. Nuestro pueblo no sabe nada al respecto”. “Para vosotros es más difícil escribir un libro como éste, que para nosotros producir un texto sobre marxismo”. Algunos días después, Fidel declaró, en presencia de don Pedro Casaldáliga, de Brasil, en visita a Cuba, que “la teología de la liberación es más importante que el marxismo para la revolución en América Latina”.

Pero quien piensa que la política habla más alto en el corazón de Gustavo Gutiérrez está engañado. Él es por encima de todo un místico. Sus libros más conocidos, El Dios de la Vida, sobre Job: Hablar de Dios, desde el sufrimiento del Inocente y Beber de nuestro propio pozo, son fundamentalmente espirituales, con el fin de alimentar la vida de fe y oración de cristianos comprometidos con la lucha popular.

Para Gutiérrez, la teología es secundaria. Lo esencial es hacer la voluntad de Dios en la acción liberadora. Y su aguda visión teológica capta la presencia del Señor, solidario allí donde Él parece estar más ausente, en el sufrimiento de los pobres. Este sufrimiento impregna la vida del propio Gustavo Gutiérrez, pues su salud delicada exige cuidados constantes. Pero él no se queja. Prefiere gritar por los pobres. En un gran encuentro de teólogos progresistas en Lovaina en 1985 él tenía una de las conferencias principales. Se produjo una grave enfermedad entre los pobres de su barrio y él escribió una pequeña carta explicando por qué no podía presentarse. Termina diciendo: hay momentos en que el teólogo debe entender que vale mil veces más quedarse con los pobres sufrientes que pronunciar una conferencia entre doctos.

En una ocasión, pasé un día entero con él en el Curso de Verano, en Lima, al que acudían miles de militantes de comunidades cristianas de base en busca de fundamentación teológica. Me di cuenta de que estaba triste, aunque había presentado su curso con la habitual vivacidad había una sombra en aquel rostro que se ilumina, feliz, cuando está rodeado de personas sencillas, pobres, dedicadas a la utopía del Reino. Conversamos, y ni una palabra de autopiedad salió de sus labios. Sólo más tarde me enteré de que su madre había muerto ese día.

El libro sobre Job es una autobiografía disfrazada de Gustavo Gutiérrez. De sus páginas surge la profunda convicción de que toda la teología de la liberación deriva del esfuerzo de dar sentido al sufrimiento humano. En la búsqueda de ese sentido, el teólogo sabe que, como dice Clodovis Boff, todo es político, pero la política no lo es todo. La solidaridad con el pobre no se agota en la causa de la justicia; nos conduce a la esfera de la gratuidad, donde el despojamiento espiritual abre el camino para la comunión con Dios

Así como en América Latina la vida de fe no puede ser separada de las exigencias de la política, también el proyecto revolucionario debería encontrar en la mística cristiana el modelo para la formación de mujeres y hombres nuevos. En consecuencia, la teología de la liberación sólo puede ser acusada de despreciar la dimensión espiritual por alguien que no conozca la larga lista de obras que nacieron de la contemplación y de las manos de Segundo Galilea, Juan Bautista Libanio, Elsa Támez, Carlos Mesters, Arturo Paoli, Raúl Vidales, Pablo Richard o Leonardo Boff.

Los estigmas divinos queman las entrañas de Gustavo Gutiérrez. Es imposible aprehender la profundidad total de su inspiración intelectual, su papel profético y su alma mística sin conocer a los tres peruanos que están en la raíz de su genialidad: José Carlos Mariátegui, César Vallejo y, sobre todo, José María Arguedas.

Del comunista Mariátegui, autor del clásico Siete Ensayos Peruanos, Gutiérrez aprendió la técnica de canibalismo cultural necesaria para latinoamericanizar todo el bagaje teórico de sus años de estudios en Roma, Bélgica, Francia y Alemania. Del poeta César Vallejo, autor de Trilce, poesía tan importante para la literatura moderna como el Ulises, heredó el lamento nostálgico de la criatura sufriente ante el silencio del Creador: “Dios mío, si hubieras sido humano hoy, tú serías capaz de ser Dios” (Los datos eternos). “Nací en un día en que Dios estaba enfermo” (Espergesia).

Sin embargo, la influencia mayor fue del novelista José María Arguedas, de quien Gutiérrez era amigo, y a quien rinde tributo en muchas de sus conferencias y escritos. Es interesante que él haya escogido, como epígrafe de su obra Teología de la Liberación, una página del libro Todas las Sangres de este autor quechua, específicamente aquella en que el sacristán indígena de Lahuaymarca le dice al sacerdote: “Su Dios no es lo mismo. Él hace que las personas sufran sin consuelo …”

“¿Puede Dios estar en el corazón de aquellos que desgarran el cuerpo del inocente Maestro Bellido? ¿Puede Dios estar en el cuerpo de los ingenieros que están matando La Esmeralda? ¿En el corazón de las autoridades que quitaron a sus dueños aquel campo de maíz donde, en cada cosecha, una virgen acostumbraba a jugar con su pequeño hijito?”

En noviembre de 1981 encontré a Gustavo Gutiérrez en Managua. Allí, entre discusiones teológicas con los dirigentes sandinistas, en un intento de ayudarles a entender las diferentes posiciones de los cristianos en cuanto a la revolución, nació lo que más tarde se convertiría en su libro sobre Job. En él plantea la cuestión fundamental y se pregunta a sí mismo: ¿Cómo podemos hablar de Dios en medio de tanta opresión? Si queremos hacer teología, hablar de Dios, dijo, necesitamos primero permanecer en silencio ante Dios. De ese silencio, que envuelve los corazones de los pobres, nace la sabiduría. Y necesitamos repetir con Job, en medio de tantas cruces latinoamericanas y profunda sed de amor: “Antes yo te conocía sólo de oídas; pero ahora te han visto mis ojos”. Todo en Gustavo Gutiérrez, su obra y su vida, converge hacia esa visión.

Hoy, Gustavo Gutiérrez es cofrade mío en la Orden Dominicana.

*Frei Betto es asesor de movimientos pastorales y sociales, autor de “Fidel y la Religión”, entre otros libros.

Traducción de Mª José Gavito Milano