Carta do Papa Francisco a Gustavo Gutiérrez,fundador da Teologia da Libertação pelos seus 90 anos de vid

Eis o artigo.

Gustavo Gutiérrez Merino, Frade Dominicano, nasceu em Lima, no Peru, no dia 8 de junho de 1928. É considerado o “Pai da Teologia da Libertação”. Hoje, ele reside no Convento dos Dominicanos de Lima. Dedica-se ao trabalho pastoral, à pregação de Retiros, à administração de Cursos de Teologia na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA) e no “Studium” Dominicano de Lille (França), e de Conferências em Cursos e Encontros.

Com todo carinho e apreço – como um irmão que de coração aberto escreve a outro irmão – o Papa Francisco envia uma Carta ao teólogo Gustavo Gutiérrez Merino, parabenizando-o pelo seu aniversário de 90 anos (8 de junho de 2018) e agradecendo o seu serviço teológico e o seu amor aos pobres. Por fim, encoraja-o a seguir adiante. Associo-me aos votos do Papa Francisco:Lboff

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Vejam que carta bonita e singela: “Estimado irmão: Por ocasião do seu 90º aniversário, escrevo para parabenizá-lo e assegurá-lo de minha oração neste momento significativo de sua vida.

Uno-me à sua ação de graças a Deus, e agradeço-lhe pela sua contribuição à Igreja e à humanidade através do seu serviço teológico e o seu amor preferencial pelos pobres e descartados da sociedade. Obrigado por todos os seus esforços e pela sua maneira de interpretar a consciência de cada um, para que ninguém seja indiferente ao drama da pobreza e da exclusão”.

Conclui o Papa: “Com esses sentimentos encorajo você a continuar a sua oração e o seu serviço aos outros, dando testemunho da alegria do Evangelho. E por favor, peço-lhe que reze por mim. Que Jesus te abençoe e que a Virgem Santa te cuide!. Fraternalmente, Francisco”.

 (Foto: LaRepublica)

Por ser uma pessoa despojada de qualquer formalismo, o que nos toca mais profundamente nas palavras do Papa é sua simplicidade e sua sinceridade.

Francisco já tinha recebido Gustavo Gutiérrez no Vaticano em 14 de setembro de 2013 e também em 22 de novembro de 2014, por ocasião da audiência aos missionários italianos que participaram do 4º Encontro Missionário Nacional em Roma, no qual Gutierrez foi um dos conferencistas.

A manifestação de um carinho e de uma gratidão toda especial do Papa Francisco ao teólogo Gustavo Gutiérrez “foi celebrada como um gesto de reconhecimento do Santo Padre em relação à Teologia da Libertação por uma série de teólogos, intelectuais e lideranças ligadas a esta tradição que nasceu na América Latina”. Frei Betto declarou: “Ao felicitar nosso confrade e meu dileto amigo Gustavo Gutiérrez por seus 90 anos, o Papa Francisco reconhece o valor da Teologia da Libertação e reforça na Igreja a Opção pelos Pobres”.

Na verdade, toda Teologia é da Libertação. Se não for da Libertação, não é verdadeira Teologia. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). “Eu vim para que todos e todas tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

A expressão “da Libertação” – de alguma forma – é uma redundância, mas serve de lembrete. Convida-nos a “fazer teologia” sempre a partir da realidade (da práxis: prática e teoria) e à luz da Palavra, para que o a reflexão teológica nos ajude a entender – melhor e mais profundamente – o sentido da vida e nos comprometa – cada vez mais conscientemente – na luta pela libertação de tudo aquilo que impede a construção de outro mundo possível, que é a sociedade do Bem Viver, que é o Reino de Deus. A Teologia da Libertação é – podemos dizer – o “jeito bíblico” e, de maneira especial, “evangélico” de fazer toda a Teologia.

Uma das críticas que se faz à Teologia da Libertação é a de que – ao menos até agora – ela tratou, quase que exclusivamente, da realidade social e política. Ora, como o ser humano é histórico (um “vir-a-ser”, um ser em construção), seus conhecimentos – meramente racionais (científicos e filosóficos) ou racionais à luz da Fé (teológicos) – são também históricos, situados (no espaço) e datados (no tempo).

Aconteceu (e poderá sempre acontecer) que – em determinadas situações, para dar sua contribuição na resposta aos prementes desafios apresentados – a Teologia da Libertação aprofundou mais alguns aspectos da realidade (como o social e o político) e deixou na sombra, outros aspectos (como o cultural). Com isso, a Teologia da Libertação deu a impressão que tratava somente de temas sociais e políticos.

Isso é humano e compreensivo quando “se faz teologia” a partir de situações concretas. Aspectos da realidade, que ficaram aparentemente esquecidos, poderão ser aprofundados em outros momentos. Só não se deve apresentar uma parte da verdade como se fosse toda verdade.

Por ser, pois, a história do ser humano no mundo um processo dialético (contraditório) entre libertação e opressão, entre vida e morte (não-vida), infelizmente – além da Teologia da Libertação (a verdadeira Teologia) – temos também a Teologia da Opressão (a falsa Teologia), que procura justificar e legitimar o mal, o pecado – social e pessoal – que existe no mundo, não só racionalmente, mas também em nome de Deus. É a hipocrisia religiosa, que – lamentavelmente – continua presente em nossas Igrejas, sobretudo hoje.

Como seguidores e seguidoras de Jesus – que vivem em Comunidades (Igrejas) – devemos estar sempre inseridos e inseridas (encarnados e incarnadas) na vida do povo, entranhadamente solidários e solidárias com todos e todas que sofrem e organicamente unidos e unidas a todos e todas que lutam pela Vida Humana e por todas as formas de Vida.

“Como Cristo, por sua Encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve (reparem “deve” e não “pode”) a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja – AG, 10).

Os cristãos e cristãs têm, portanto, o dever de participar (ser militantes) dos Movimentos Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Foruns de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, Conselhos de Direitos e outras Organizações Populares, comprometidas na construção de “outro mundo possível”, que é a sociedade do Bem Viver, que é o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.

Parabéns, meu Irmão Dominicano, Frei Gustavo Gutiérrez. Continue a “fazer Teóloga da Libertação”, oferecendo-nos “novas luzes” para entender o mundo no qual vivemos e cumprir nossa missão de seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Unidos na oração.

La crisis brasilera a la luz de la teoría del caos

Hace ya muchos años, algunos científicos venidos de las ciencias de la vida y del universo empezaron a trabajar con la categoría del caos. Inicialmente también Einstein participaba de la visión de que el universo era estático y regulado por leyes deterministas. Pero siempre escapaban algunos elementos que no se encuadraban en este esquema. Para armonizar la teoría Einstein creó el “principio cosmológico”, del que se arrepentiría más tarde porque no explicaba nada pero mantenía inalterada la teoría estándar del universo lineal. Con la llegada de la nueva cosmología cambió completamente de idea y empezó a entender el mundo en proceso ininterrumpido de mutación y autocreación.

Todo comenzó con la observación de fenómenos aleatorios como la formación de las nubes y particularmente lo que se vino a llamar el efecto mariposa (pequeñas modificaciones iniciales, como el aleteo de las alas de una mariposa en Brasil, pueden provocar una tempestad en Nueva York) y la constatación de la creciente complejidad que está en la raíz de la emergencia de formas de vida cada vez más altas (cf.J.Gleick Caos: creación de una nueva ciencia,1989).

El sentido es este: detrás del caos presente se esconden dimensiones de orden. Y viceversa, detrás del orden se esconden dimensiones de caos. Ilya Progrine (1917-2003), premio Nobel de Química en 1977, estudió particularmente las condiciones que permiten la emergencia de la vida. Según este gran científico, siempre que existe un sistema abierto, siempre que haya una situación de caos, (lejos del equilibrio) y haya una no-linealidad, la conectividad entre las partes es la que genera una nuevo orden vital (cf. Order out of Chaos,1984).

Ese proceso conoce bifurcaciones y fluctuaciones. Por eso el orden nunca es dado a priori. Él depende de varios factores que lo llevan en una dirección o en otra.

He hecho esta reflexión sumarísima (exigiría muchas páginas) para ayudarnos a entender mejor la crisis brasilera. Innegablemente vivimos en una situación de completo caos. Nadie puede decir hacia donde vamos. Hay varias bifurcaciones. Toca a los actores sociales determinar una bifurcación que no represente la continuidad del pasado que creó el caos. Sabemos que dentro de él hay oculto un orden más alto y mejor. ¿Quién va a desentrañarlo y hacer superar el caos?

Aquí se trata, a mi modo de entender la crisis, de liquidar el perverso legado de la Casa Grande traducido por el rentismo y por unos pocos millonarios que controlan gran parte de nuestras finanzas. Ellos son el obstáculo mayor para la superación de la crisis. pues antes bien, ganan con ella. No ofrecen ningún subsidio para superarla. Y tienen aliados fuertes, comenzando por el actual ocupante de la Presidencia y parte del sistema judicial, poco sensible a la cruel injusticia social y a su superación histórica.

Necesitamos formar un amplio frente de fuerzas progresistas y enemigas de la neocolonización del país para desentrañar, escondido en el caos actual, el nuevo orden que quiere nacer. Tenemos que llevar a cabo ese parto aunque sea doloroso. De lo contrario, continuaremos rehenes y víctimas de aquellos que piensan corporativamente sólo en sí mismos, de espaldas y, como ahora, contra el pueblo.

El caos nunca es solo caótico. Es generador de un nuevo orden. El universo se originó de un tremendo caos inicial (big bang). La evolución se hizo y se hace para poner orden en este caos. Debemos imitar al universo y construir un nuevo orden que incluya a todos, a partir de los últimos.

* Leonardo Boff escribió Brasil: concluir la refundación o prolongar la dependencia, Vozes 2018.

Traducción de María José Gavito Milano.

90 anos do fundador da Teologia da Libertação:Gustavo Gutiérrez

No dia 6 de junho em Lima será celebrado em Lima no Peru, o 90 anos de Gustavo Gutiérrez, o primeiro a dar forma sistemática à Teologia da Libertação em 1971.É um descendente de indígenas, até aos 17 anos ficou em carrinho de rodas por causa de poliomelite, depois foi operado, possui uma perna bem mais curta que a outra. Vive com um pé no meios dos mais pobres e outro pé na reflexão teológica. Faz juz a uma homanagem que vem do mundo inteiro. Amigo de muitos anos, temos trabalhado junto muitas vezes. Talvez o melhor dele seja a sua profunda espiritualidade de onde nasce seu engajamento para com aqueles que morrem antes do tempo e sua fecunda teologia. Aqu vai minha pequena homenagem:Lboff

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Querido amigo y compañero en las tribulaciones y en las alegrías, Gustavo Gutiérrez.

Al llegar a tus 90 años, quiero antes de más nada, agradecer a Dios que nos ha dado tu existência y tu sevicio a los pobres, a la Iglesia y aún a la Humanidad.

Juntos, el Espíritu nos ha permitido articular el discurso pertinente de la teología con el universo de los pobres y excluídos de nuestro Continente. De este encuentro nació una espiritualidad de los ojos abertos y de las manos operosas. Hemos podido participar de los dos mundos: del conociento teológico más lúcido y de la sabedoria de los humildes de la Tierra, en los cuales hemos encontrado y seguimos encontrando el Cristo crucificado que quiere resuscitar. Fuiste tú el primero a inaugurar este kairós del pensamento teológico y de la práctica que vienen bajo el nombre Teología de la Liberación.

Lo que escribiste son joyas del espíritu que honran a la inteligência de la fe y que magnifican la eminente dignidad de los hijos y hajas de la pobreza.

Por ti la humanidad puede orgullarse por que encontró un hijo suyo que amó la vida desde las victimas y se puso al servcio l de los que menos vida tienen.

Sé, que en esta altura de la vida, tu recuerdas los dias passados pero tienes los ojos volcados hacia la eternidad.

Recibe, querido y entrañable amigo,de tu amigo y compañero en las tribulaciones y mucho más en las alegrias, nuestro abrazo fraterno y los mejores votos por tu cumpleaños,por tus 90 años de vida, con nuestras plegárias delante del Señor. Lo hago en nombre de tantos amigos y amigas tuyos y mios de Brasil que siempre te hemos acompañado y aprendido tanto de ti.

Leonardo Boff, teologus peregrinus.

Petrópolis 31 de mayo, fiesta de Corpus Christi.

O Mistério na tessitura da vida: a espiritualidade de Gilberto Gil:F.Teixeira

Faustino Teixeira  da PPCIR/UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora – MG) é um teólogo leigo formado na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Ajudou a fundar, com reconhecimento oficial, a Faculdade de Estudos das Religiões com acento no Islamismo. Sua especialidade é a mística, particularmente do sufismo (Rumi) e de outras vertentes. É especialista também no diálogo ecumênico entre as religiões (macro-ecumenismo). Por causa de seu saber é muito requisitado para conferências e cursos. Publicamos este texto singular que é um diálogo entre a música e a espiritualidade na produção musical do cantor Gilberto Gil. Estimo que esta abordagem poderá interessar a muita gente e animar a busca de uma espiritualidade aberta. Lboff

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Trata-se de tarefa desafiante de tentar captar a experiência espiritual na trajetória criativa de Gilberto Gil. Foi o desafio que busquei responder nas breves notas que seguem, a partir de um convite de conferência realizado pelo Programa de Pós-graduação em Letras da UFJF. Foi um mergulho nas canções desse compositor singular e inaugural, assim como nas biografias disponíveis e entrevistas realizadas pelo compositor baiano. O panorama geral é convidativo, descortinando dimensões singulares da visão espiritual de Gil.

 

O amor pela vida

 

De início, podemos destacar o profundo amor pela vida alimentado por Gil e cantado em diversas canções, como na estrofe de Amo tanto viver (1980):

 

Todas as vezes que eu canto é amor

Transfigurado na luz

Nos raios mágicos de um refletor

Na cor que o instante produz[1] (CR, 282)

 

O que vislumbramos é um canto de alegria, temperado pela fé na vida e nas forças que dinamizam o tempo:

 

Tudo que eu sei aprendi

Olhando o mundo dali

Do patamar da canção (…)

 

Tudo que eu canto é a fé, é o que é

É o que há de criar mais beleza

Beleza que é presa do tempo

E, a um só tempo, eterna no ser (CR, 282).

 

Num ritmo de otimismo que encanta, Gil vai tecendo o seu canto com as marcas da alegria, como um hino de celebração da vida. É o que vemos também na canção Cores vivas (1980):

 

Tomar pé

Na maré desse verão

Esperar

Pelo entardecer

Mergulhar

Na profunda sensação

De gozar

Desse bom viver (CR, 293).

 

A canção tinha sido encomendada para a trilha de uma novela, Água viva, e o compositor aproveitou o ensejo para destacar esse seu “encanto de viver”, essa densa simpatia pela dinâmica vital que envolve todos os fenômenos. A canção, de fato, virou um “hino da vida oferecido à vida”[2]. Com base em Oswald de Andrade, Gil indica que “a alegria é a prova dos nove”, traduzido também no verso da canção “Geleia Geral” (1968 – CR, 105), expressa poeticamente por Torquato Neto. Trata-se de algo “irrecusável”, assinala Gil, que deve compor o ritmo do coração:

 

Seja lá qual for a grande ou pequena vicissitude, seja lá qual for a grande ou a pequena tristeza, a grande ou a pequena decepção, o grande ou o pequeno flagelo, tem de achar um jeito de alegrar o coração[3]. E alegrar no sentido bem suave, moderado, a alegria na dose suficiente para a satisfação do equilíbrio interno, para o estabelecimento do silêncio obsequioso que a gente tem de ter em relação à loucura do mundo[4]

 

O mundo espiritual

 

Gilberto Gil foi alguém sempre marcado pela vida espiritual, mas curiosamente o passo de abertura para a experiência interior ocorreu por ocasião de sua prisão, em dezembro de 1968. Antes mesmo desta época já estava em curso o movimento tropicalista, com presença destacada do compositor, e que foi um traço de vanguarda na música popular brasileira[5]. Em 1967 tinha sido lançada a canção inaugural, Domingo no parque, com a presença dos Mutantes; e em 1968, o disco tropicalista Gilberto Gil, com outras canções de destaque como “Procissão”. Nesta canção, em particular, manifestava-se um pensamento mais sintonizado com o marxismo, em conexão com o engajamento de Gil no Centro Popular de Cultura (CPC). A religião aparecia ali como um dado de alienação, e Gil chega mesmo a ironizar o cristianismo:

 

E Jesus prometeu vida melhor

Pra quem vive nesse mundo sem amor

Só depois de entregar o corpo ao chão

Só depois de morrer neste sertão

Eu também tô do lado de Jesus

Só que acho que ele se esqueceu

De dizer que na Terra a gente tem

De arranjar um jeitinho pra viver (CR, 60).

 

A prisão de Gil aconteceu no final de dezembro de 1968, junto com Caetano Veloso. Os dois foram libertados em 19 de fevereiro de 1969, uma Quarta-Feira de Cinzas. Seguem então para Salvador, permanecendo em estado de confinamento até a partida para o exílio, em julho de 1969. Gil ficará no exílio até janeiro de 1972, quando retorna com sua mulher Sandra e o filho Pedro. Caetano e sua mulher, Dedé, tinham retornado antes.

 

A experiência na cadeia foi decisiva no desenvolvimento de sua vida espiritual. Como ele mesmo diz, foi ali que sua busca manifestou uma “face mais visível”, bem como sua “ânsia mística”. E argumenta: “Todo esse primeiro polimento, essa primeira retirada da poeira da superfície do meu ser foi feita ali dentro da prisão” (CR, 113). Na prisão, Gil faz suas primeiras leituras sobre a alimentação macrobiótica e dá início a um “vegetarianismo incipiente”. Acessa também informações sobre ioga e dá início a exercícios de relaxamento e respiração. Naquele espaço limitado, restritivo, Gil busca caminhos de libertação, na linha de uma “visão ascética da vida” e de um “voo mais alto”[6]. Algumas canções nasceram no período, como “Vitrines”, “Futurível” e “Cérebro eletrônico”. Nesta última, aborda contrastes e ensaia diálogos entre o mundo dos homens e o mundo de Deus. O tempo era de modernização, do avanço cibernético, das primeiras viagens espaciais e da afirmação da ficção científica, exemplificada no filme de sucesso: 2001, uma odisseia no espaço. Com “Cérebro eletrônico”, Gil reconhece a força das máquinas, com seus “botões de ferro” e “olhos de vidro”, mas sublinha também sua limitação. Elas comandam e fazem “quase tudo”, mas permanecem penúltimas:

 

Só eu posso pensar se Deus existe

Só eu

Só eu posso chorar quando estou triste

Só eu

Eu cá com meus botões de carne e osso

Hum, hum

Eu falo e ouço

Hum, hum

Eu penso e posso (CR, 112)

 

Naquela situação-limite da prisão, de seu encurtamento programado, firma-se um “sonho” que é real, do “conhecimento da condição divina” e da mudez das máquinas. São as primícias de um processo de interiorização e meditação que vai se irradiar posteriormente em outras canções, como “Preciso aprender a ser só” (1973) e “Realce” (1979). Mediante o recurso a uma brincadeira linguística, Gil revela a potencialidade do mundo interior: “Eu preciso aprender a só ser” (CR, 156).

 

Uma verdade deve ser dita. Os caminhos desbravados pelo tropicalismo produziram uma aproximação à contracultura e, com ela, às formas e práticas extra-ocidentais de cultura. É o que sublinha Antonio Risério em entrevista publicada na Coleção Encontros[7]. Ele acrescenta: “E agora estávamos de volta, por assim dizer, ao Brasil. Fomos de Krishna aos babalaôs. Do I-Ching ao Xingu”[8]. Outro companheiro de Gil, Rogério Duarte, fala deste mergulho interior[9]. Ele também esteve preso, sentindo igualmente um “chamado interno”, com um processo que reconhece como “paralelo ao de Gil”. Ao voltar do exílio em Londres, Gil foi morar com Rogério, e juntos começaram a estudar a Eubiose. Ele relembra um trecho da canção de Gil, “Objeto sim, objeto não” (1969), reconhecida como “panfleto neomitológico” que busca refundar a aliança da ciência com o mito:

 

Eubioticamente atraídos

Pela luz do Planalto Central

Das Tordesilhas

Fundarão o seu reinado

Dos ossos de Brasília

Das últimas paisagens

Depois do fim do mundo (CR, 124)

 

Esta dimensão sincrética do tropicalismo, abraçada por Gil, veio reconhecida por Caetano Veloso na nova edição de Verdade Tropical: “O Brasil é religioso. Eu posso ser ateu, mas o tropicalismo não o é – e o Brasil muito menos”[10].

 

O clima que circundava o campo do tropicalismo era pontuado pela aura do Oriente, com pontuações precisas: de hare-krishnas, tarôs e I Chings. Daí as referências contidas na canção “Oriente” (1971):

 

Se oriente, rapaz

Pela constelação do Cruzeiro do Sul

Se oriente rapaz

Pela constatação de que a aranha

Vive do que tece

Vê se não se esquece

Pela simples razão de que tudo merece

Consideração (CR, 143).

 

Junto com a busca interior, o processo de despojamento pessoal, que vai circundando Gilberto Gil a partir daquele momento. Ele lembra disto numa entrevista concedida a Cissa Guimarães:

 

À medida que você se desprende de si próprio, a ideia de interiorização muda. Eu cada vez me desprendo mais de mim mesmo. Cada vez quero saber menos o que sou, o que significo, o que importo para os outros. Cada vez mais me atribuo menos importância. Então, a interiorização de Deus vai junto com isso. É aí que está Deus, para mim, exatamente onde já se diluíram quase todas as possibilidades de individuações[11].

 

Com a volta do exílio, a partir de 1972, Gilberto Gil toma contato mais próximo com o candomblé. Isso não tinha ocorrido antes, em dimensão de profundidade. O campo espiritual vem, assim, enriquecido com a nova presença. Junto com esta aproximação, a descoberta do profundo significado do carnaval da Bahia[12]. A vaidade de ser baiano já tomava conta de suas composições anteriores, como “Eu vim da Bahia” (1965):

 

Porque na Bahia tem mãe Iemanjá

De outro lado o Senhor do Bonfim

Que ajuda o baiano a viver

Pra cantar, pra sambar pra valer

Pra morrer de alegria (CR, 63).

 

Depois do exílio esse sentimento ganha vigor, somando-se à consciência vibrante da herança africana: “Não há brasilidade possível sem nossa ascendência africana em todos os sentidos: cultura, pulsação espiritual, herança genética, tudo”[13]. Nas canções, percebe-se agora a presença recorrente dos Orixás: de Iansã, a “Senhora do Mundo” (CR, 152); de Aganju e Xangô (CR, 218), de Logunedé, filho de Oxum (CR, 271) e do pai Oxalá, com seu toque de felicidade (CR, 294). Gil reconhece que “toda menina baiana tem um santo, que Deus dá” (CR, 270), e que em cada canto da Bahia há uma conta e “pra cada santo uma mata, uma estrela, um rio, um mar” (CR, 331). E cada conta vai montando um colar singular de religiosidade, proteção e alegria:

 

Hoje já ninguém duvida

Está na alma, está na vida

Está na boca do país

É o gosto da comida

É a praça colorida

É assim porque Deus quis (CR, 331).

 

O vínculo é forte e firma-se como rocha no coração. E quando as coisas titubeiam, é a eles que vem pedir ajuda ou consolo:

 

Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré

Todo o pessoal

Manda descer pra ver

Filhos de Gandhi (CR, 169).

 

Em jogo de Búzios, pelas mãos de Mestre Di, Gil descobre que era de Xangô, e numa linda canção, “Babá Alapalá” (1976), reverencia o orixá Aganju, que é um Xangô menino:

 

Alapalá, egum, espírito elevado ao céu

Machado astral, ancestral do metal

Do ferro natural

Do corpo preservado

Embalsamado em bálsamo sagrado

Corpo eterno e nobre de um rei nagô

Xangô (CR, 218).

 

Gil recorda também sua amizade com Mãe Menininha, a quem visitou várias vezes e para ele jogou os búzios. Foram anos de singela aproximação, nas festas em Gantois e outras situações diversificadas. Daí a tristeza de acompanhar sua travessia, compondo para ela um réquiem:

 

Foi

Minha mãe se foi

Minha mãe se foi

Sem deixar de ser – ora iêiê, ô (…)

 

Ouve nossa oração

Escuta a demanda de cada um

Manda teu doce axé

Recomenda ao santo o teu candomblé

Fala com cada um

Fala com cada um

Fala com cada filho fiel

Canta pra todos nós

Derrama sobre todos o teu mel (CR, 393).

 

Por todo canto, o Mistério

 

Envolvida por tantos aprendizados, a fé de Gil foi ganhando a forma de um mosaico, onde se arregimentam várias coisas. Uma fé que abraça as diferenças e que vibra sob o toque da sede de Unidade. Sublinha em entrevista esta vinculação: “A ideia de unidade, pra mim, é uma coisa do universo. O universo pra mim é uno, é integral”[14]. Esta unidade, porém, convive bem com a diversidade: “A minha fé ficou assim, um apanhado, um mosaico dessas coisas todas. Tenho respeito por elas e por quem, digamos assim, se confina num desses territórios religiosos por vontade própria, por natureza e índole”[15].

 

O que muitas canções de Gil buscam expressar, todo o tempo, é a presença do mistério, e por toda parte. Seu canto reflete este pasmo diante da grandeza do mistério. É o que está claro na canção “Esotérico” (1976): “Mistério sempre há de pintar por aí” (CR, 213). E os olhos precisam ser educados para captar essa beleza, que se irradia pelos fenômenos da natureza, como o luar:

 

O luar

Do luar não há mais nada a dizer

A não ser

Que a gente precisa ver o luar (CR, 287)

 

Tudo o que brilha na natureza é uma prolongação do nosso corpo, e ainda mais, é parte integrante de nosso corpo. É o que reverbera em Gil: “Nós somos natureza”. Tudo que acontece no tempo reverbera, irradia, provocando uma singular ressonância. Mesmo o movimento distante de uma folha na relva, em qualquer lugar do universo, tem um impacto sobre nós. Estamos todos inseridos numa malha de relações, como num rizoma, onde as linhas remetem-se umas às outras. E a canção é capaz de expressar essa dinâmica:

 

 

 

De surgir

Uma estrela no céu cada vez que ocê

Sorrir (CR, 286).

 

O fascínio pelo mistério perdura nas canções de Gil e ganha um conteúdo vivo em todo o trabalho que antecedeu o CD Quanta, de 1996, que foi sendo gestado desde 1992. Captou a “ideação do mistério em ação” em suas leituras sobre o quantum da matéria. E revela: “Quando descobri o mundo quântico, eu disse: ´Ah, olha aí: dobraram-se finalmente`. Descobriram que não são nada sem o mistério”[16]. O mistério envolve o mundo das pessoas[17], e também o mundo transcendente:

 

Seu sou algo incompreensível

Meu Deus é mais” (CR, 213).

 

O que dardeja ocultamente na natureza vem captado de forma singular pelo artista e torna-se expressão poética:

 

Debaixo do barro do chão da pista

onde se dança

Suspira uma sustança sustentada por

um sopro divino

Que sobe pelos pés da gente e de

repente se lança

Pela sanfona afora até o coração do

menino (CR, 227).

 

A canção das coisas

 

O que encanta nas canções de Gil é a leveza, a sutil percepção dos pequenos e simples detalhes da vida. O cotidiano ganha um colorido particular. São construções poéticas delicadas e reveladoras:

 

Vamos fugir

Pronde haja um tobogã

Onde a gente escorregue

Todo dia de manhã

Flores que a gente regue

Uma banda de maçã

Outra banda de reggae (CR, 347)

 

O compositor arma sua tenda no chão da vida, atento ao ritmo do dia-a-dia. A cabeça é leve e os pés firmam-se no chão:

 

Eu estou onde tudo esteja

Ou seja

Onde quer que esteja em mim

O céu, o chão, o não, o sim

A vontade de Deus (CR, 173)

 

A vida e seu rumo são pontuados por desígnios gratuitos. O decisivo é a disposição de escuta, com leveza: “Agora calo, calço o chinelo, reparo a flor” (CR, 190). Ou então, como na canção “Refazenda” (1975):

 

Abacateiro

Serás meu parceiro solitário

Nesse itinerário

Da leveza pelo ar (CR, 196).

 

E o bonito é poder demorar-se entre as coisas, captando as suas formas e o seu fragor, como expresso na canção “Retiros espirituais” (1975). O momento irredutível de “estar defronte de uma coisa e ficar” (CR, 202). Aqui notamos o influxo positivo da fórmula Wu Wei (não ser, não fazer, não agir), tomada da tradição taoísta. Trata-se de um “deixar-ser”, sem que isto signifique passividade, mas disponibilidade ativa ao canto das coisas. É o tempo que se inaugura na cadência de cada instante (CR, 225). Gil, em estilo único, que faz lembrar a sétima Elegia de Duíno (Rilke), celebra a grandiosidade do momento: “O melhor lugar do mundo é aqui e agora” (CR, 234)[18]. E o compositor comenta a respeito: “O ´aqui e agora` reivindicado pelos místicos: a situação confortável, que deveria ser buscada e atingida pelo homem, de integridade na vivencia de cada momento, de cada centímetro de espaço ocupado” (CR, 234). É um convite que se apresenta para todos, de refestança:

 

Só não pode quem não quiser

Ver que o céu da Terra é azul

Ver que o verde é verde

Que a vida viaja

E com a vida a gente vai

Vai, vai, vai (CR, 240).

 

No rastro da canção, a percepção alerta dos passos que marcam o dia, dos dias lindos que tornam “mais branca a roupa no varal”. Sem dúvida, “o sentido desta vida é ao invés, azular a cor do branco e clarear” (CR, 252). Tudo que brota e vibra no tempo é rebento:

 

Rebento, tudo que nasce é rebento

Tudo que brota, que vinga, que medra

Rebento raro como flor na pedra

Rebento farto como trigo ao vento (CR, 269).

 

O sussurro do Deus Mu-dança

 

Em meio ao ritmo do mistério, a presença do Deus Mu-dança, utilizando aqui o recurso linguístico adotado por Gil para caracterizar o traço essencial da transformação, que também opera no mundo da divindade: “O eterno Deus Mu-dança” (1989 – CR, 390). Para além dos códigos rígidos que operam em muitas tradições religiosas, das reflexões sensatas, o recorte de um Deus que “está solto”[19], diluído e irradiado no tempo; de um Deus que convoca à transformação.

 

O clima espiritual que acompanha uma tal reflexão é de singular otimismo, de acolhida simpática, de esperança num horizonte benfazejo. Num ângulo um pouco distinto do “niilismo essencial” defendido por Caetano na canção “Oração ao tempo”, Gil manifesta sua esperança na permanência e na transformação. Não se trata de deixar de ser, como aponta Caetano, mas ser de uma forma distinta, integrada:

 

Não me iludo

Tudo permanecerá do jeito que tem sido

Transcorrendo

Transformando

Tempo e espaço navegando todos os

Sentidos (CR, 344)

 

Com “Tempo rei” (1984), Gil deixa aberta uma porta para algo pós, sempre embalado pelo toque de otimismo. Assinala em entrevista que prefere “os corpos que ressuscitam e se levantam apesar de tudo”[20]. Daí sua tranquilidade de lidar com a questão da morte, entendida como deusa, como “rainha que reina sozinha” (CR, 153). E retoma a ideia em canção:

 

Se a gente teve o tempo para crescer

Crescer para viver de fato

O ato de amar e sofrer

Se a gente teve esse tempo

Então vale a pena morrer (CR, 250),

 

Numa espiritualidade de semblante feminino, regida pela busca da leveza, da ternura, do equilíbrio e da paz, Gil celebra a força da fé, do impulso que move as pessoas, as criaturas e as montanhas; de uma fé que “não costuma faiá” (CR, 311). E assinala: “Uma das características básicas da fé é a possibilidade dessa manutenção do elã vital, do gosto de viver, que é no que consiste a fé”[21].

 

Ao afirmar sua espiritualidade, ao defender o elã da fé, Gil entende que essa entrega não se compagina, em hipótese alguma, com qualquer seiva de intolerância ou exclusão. Trata-se de uma espiritualidade que é ponte que acolhe e abraça as diferenças. Se há algo que não suporta é a intolerância com os outros. E a experiência requer do sujeito disposições que estão sempre ligadas ao desapego e à gratuidade. Para “falar com Deus” é necessário “ficar a sós”, “calar a voz”, “encontrar a paz” e “folgar os nós”. É antes de tudo uma grande “aventura”, que exige muita coragem para quem se dispõe, pois não há “cordas para segurar” (CR, 291). O acesso à “realidade última” não é algo simples. Há que enfrentar, delicadamente, os passos de uma travessia que implica a realidade do nada, de um “vazio-Deus”. Daí a sequência ilustrativa de treze nãos presentes na canção de Gil.

 

Ao final desse itinerário onde se buscou sinalizar os traços que marcam a experiência espiritual de Gil, fica a presença de uma sensação positiva, de energia singular, onde as expressões mais presentes são vida e alegria. Trata-se de uma espiritualidade bem terrenal, de integralidade, pontuada pelo sabor dos frutos da terra, como “um cesto de alegria de quintal” (CR, 290). Uma espiritualidade que traz consigo um convite que é para todos:

 

Amarra o teu arado a uma estrela

E os tempos darão

Safras e safras de sonhos

Quilos e quilos de amor (CR, 385).

 

…..

[1] Todas as letras das canções de Gil foram recolhidas da obra: Carlos Rennó (Org). Gilberto Gil. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Para facilitar as referências, vamos utilizar o código CR.

[2] Gilberto Gil & Regina Zappa. Gilberto bem perto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, p. 392.

[3] Expresso também por Gil na canção “Se eu quiser falar com Deus” (1980): “E apesar de um mal tamanho, alegrar meu coração” (CR, 291).

[4] Gilberto Gil & Ana de Oliveira. Disposições amorosas. São Paulo: Iyá Omin, 2015, p. 118.

[5] Na visão de Gil, o Tropicalismo fazia uma síntese entre espiritualidade e marxismo: Sergio Cohn. Rogério Duarte. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2009, p. 218.

[6] Gilberto Gil. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2008, p. 247-248.

[7] Antonio Risério. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2009, p. 152.

[8] Ibidem, p. 152.

[9] Rogério Duarte. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2009, p. 217.

[10] Caetano Veloso. Verdade tropical. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 32.

[11] Cissa Guimarães & Patrícia Guimarães. Viver com fé. Histórias de quem acredita. Rio de Janeiro: GNT/Casa da Palavra, 2012, p. 261.

[12] Gilberto Gil. Encontros, p. 253.

[13] Gilberto Gil & Ana de Oliveira. Disposições amorosas, p. 79.

[14] Miguel Jost & Sergio Cohn. Entrevistas Bondinho. Rio de Janeiro: Azougue, 2008, p. 107.

[15] Cissa Guimarães & Patrícia Guimarães. Viver com fé, p. 259.

[16] Gilberto Gil & Ana de Oliveira. Disposições amorosas, p. 40

[17] Gilberto Gil. Encontros, p. 164.

[18] E o que mais impressiona é o fato de uma afirmação tão expressiva ter sido composta na prisão: Gilberto Gil. Encontros, p. 144.

[19] Gilberto Gil. Encontros, p. 163.

[20] Ibidem, p. 163.

[21] Cissa Guimarães & Patrícia Guimarães. Viver com fé, p. 256.

Prof.Dr.Faustino Teixeira  da PPCIR/UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora – MG)