O Padre Cícero à luz do Papa Francisco

Acompanhando, lendo e ouvindo as palavras e especialmente os gestos do bispo de Roma, como gosta de ser chamado, o Papa Francisco e a imagem que ele se faz do padre para os dias de hoje logo me veio à mente, o Padre Cicero Romão Batista.

Surpreso disse para mim mesmo: o que ele está apresentando é exatamente aquilo que o Padre Cícero fazia. O estilo de padre vivido pelo Padre Cicero agradaria, seguramente, o atual Papa.

         1.Características do Papa Francisco

Para começar, permitam-me dizer algumas palavras sobre Francisco, porque é uma das melhores bençãos que aconteceu para a Igreja e para a Humanidade nos últimos anos.

Em primeiro lugar ele trouxe uma primavera para a Igreja depois de um longo inverno que significaram os pontificados de João Paulo II e de Bento XVI. Papas da de volta à grande disciplina e às doutrinas severas

Em segundo lugar, fez da Igreja uma casa com portas e janelas abertas no lugar de uma fortaleza fechada e imaginriamente cercada de inimigos.

Em terceiro lugar, ele quis se chamar bispo de Roma, em vez de Papa. Propô-se dirigir a Igreja com a caridade e não com o direito canônico. Disse claramente, excetuando os pedófilos e os ladrões do Banco Vaticano, não quer condenar ninguém.

Em quarto lugar, deixou o palácio papal e foi morar numa hospedaria onde os padres que vem a Roma se hospedam. Ele quis um quarto comum como o dos hóspedes. Come junto com todos, na fila, dizendo, com humor: “assim é mais difícil que me envenenem”.

Em quinto lugar, prefere o encontro existencial com Cristo do que a proclamação de doutrinas sobre Cristo. E disse: é a pessoa de Cristo que nos salva não as doutrinas.

Em sexto lugar deve-se passar da exclusão para a inclusão. A Igreja Católica deve incluir e reconhecer as outras Igrejas que também levam avante a herança de Jesus e juntas porem-se a serviço do mundo, especialmente dos mais pobres. E dialogar com total abertura com as demais religiões e caminhos espirituais.

Em sétimo lugar, o centro não é ocupado pela Igreja mas pelo mundo que precisa de esperança, de alegria e de salvação. A Igreja deve ser uma espécie de hospital de campanha que não olha se o ferido é muçulmano, negro ou cristão. Basta saber que está sangrando e que deve ser cuidado.

Em oitavo lugar, devemos passar do mundo aos pobres. Francisco deseja “em saida para as periferias existenciais”, antes de tudo uma Igreja dos pobres, com os pobres e para os pobres. Para onde chega, sempre vai visitar os pobres, entra em suas casas, abraça-os, beija-os e toma um cafezinho com eles.

Em nono lugar, quer que os pastores, padres e bispos tenham cheiro de ovelhas, quer dizer, que andam no meio do povo, que” tenham sempre um sorriso de um pai que contempla os seus filhos e os seus netos, que não tenham cara de vinagre, nem tristes como se fossem ao próprio enterro”. Que sejam testemunhos da alegria do evangelho, uma categoria essencial de sua pregação.

Em décimo lugar quer que todos façam a revolução da ternura e da misericórdia, acolhendo a todos com o coração aberto, exercendo a misericórdia ilimitada diante dos que fracassaram e pecaram, mostrando-se como o pai do filho pródigo que se alegrou com o filho que se perdeu e voltou à casa paterna.

Estes são os pontos mais relevantes da figura de Francisco que veio do fim do mundo, do caldo cultural e eclesial que se criou na nossa América Latina.

Depois de ouvir as lições da teologia da libertação na versão argentina, que é a teologia do povo oprimido e da cultura silenciada, isso o diz seu professor ainda vivo, Juan Carlos Scannone, ficou tão impressionado que já como estudante fez uma opção pelos pobres e prometeu visitar toda semana uma favela.

Como Cardeal, não morava no palácio, ia de ônibus, de metro ou a pé. E fazia sua própria comida. Como bispo de Roma, se despojou de todos os títulos de honra e glória, especialmente o manto sobre os ombros cheio de joias, simbolo do poder absoluto dos imperadores e dos papas e começou a usar um mantozinho branco. A cruz é de prata barata sem qualquer adorno. E vai sozinho ao barzinho perto do Vaticano comer um pastel que gosta.

E coisa espantosa, que nunca ocorreu antes na história da Igreja: por quatro vezes, tres em Roma e uma em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia convocou os representantes dos movimentos sociais populares do mundo inteiro. Queria saber da boca deles os sofrimentos que padacem e que indicassem quem no mundo coloca essa cruz nas costas deles. Nenhum Papa antes deles condenou tanto a idolatria do dinheiro, e aqueles que saqueiam os escassos bens e serviços da Mãe Tera. Pensa sempre no capitalismo como um sistema anti-vida.

É dele a encíclica “Laudato Si: cuidando da Casa Comum” que o colocou, segundo os especialistas, na ponta da discussão ecológica integral, do mundo inteiro.

  1. O Padre Cícero antecipador do tipo de padre querido pelo Papa Francisco

Vamos agora refletir rapidamente sobre a prática pastoral do Padre Cícero, o grande Patriarca do Nordeste, o Padrinho Universal, o Intercessor junto a Deus em todos os problemas da vida, o Santo cuja intercessão nunca falha. Os devotos e os romeiros sabem disso.

Não vou resumir sua história que todos conhecem. Apenas digo que, para mim, há três fases principais na vida dele que têm a ver com aquilo que ensina o Papa.

A primeira é a fase de Juazeiro que começa no dia 11 de abril de 1872. Quando era jovem sacerdote de 28 anos foi chamado rezar uma missa em Juazeiro, uma vilazinha com duas ruas, 36 casas e uma capelinha dedicada a Nossa Senhora das Dores. Atendeu aquele povo mas não gostou do lugar. Pensava ser professor no seminário da Prainha em Fortaleza.

Foi quando, cansado de ouvir confissões, foi tirar uma soneca na escolinha próxima. E ai teve um sonho que mudou a sua vida. Como sabemos, o sonho é uma forma como Deus se comunica, como com São José que nunca disse uma palavra mas que teve sonhos, nos quais acreditou. O Padre Cícero viu em sonho o Sagrado Coração de Jesus, sentado à mesa com os 12 Apóstolos. De repente entrou na sala uma multidão de retirantes, famintos e maltrapilhos. Jesus começou a falar com eles. E de repente voltou-se ao Padre Cícero e disse:”E você Padre Cícero tome conta deles”.

O Padre Cícero, perplexo e até assustado, logo entendeu a mensagem: devia ficar em Juazeiro. Foi para Crato, trouxe a mãe, as duas irmãs e uma jovem escrava liberta e se mudou definitivamente para Juazeiro.

A segunda é a fase do milagre do sangue na hóstia, fase da Maria de Araújo. Começa no dia primeiro de março de 1889. Às 5 da manhã o Padre Cícero deu a comunhão, antes da missa, às várias mulheres piedosas, chamadas de beatas. Deu a comunhão a Maria de Araújo, negra, costureira e lavadeira, de 28 anos. Sem nenhuma explicação ela caiu por terra e junto foi a hóstia consagrada. De repente viu que a hóstia estava tingida de sangue. O mesmo se repetiu por dezenas de vezes, sempre recolhendo o sangue num paninho.

Para o Padre Cícero e assistentes, não havia dúvida: era o sangue sagrado de Cristo. Os panos foram colocados numa urna de vidro. Durante dois anos multidões do vale do Cariri começaram a chegar a Juazeiro par ver os panos e tocar na urna. Contam que aconteciam muitos milagres.

O bispo de Fortaleza Dom Joaquim José Vieira mandou por duas vezes analisar a situação. Na primeira se concluiu tratar-se realmente de um milagre. Mas esse resultado não agradou o Bispo. Mandou teólogos ao lugar que acabaram concluindo tratar-se de um embuste. Esta versão foi acolhida pelo bispo.

Devido a ocorrência cada vez maior de romeiros, o Bispo Dom Joaquim intepretrou aquele fenômeno como um cisma, quer dizer, uma divisão na Igreja. De forma muito autoritária suspendeu o Padre Cícero, proibindo-o de pregar, confessar e orientar os fiéis. Mas podia celebrar a missa.

O bispo Joaquim, temeroso, mandou toda uma documentação para o Santo Ofício, a antiga Inquisição, em Roma. Esta não reconheceu o milagre. Ao contrario disse     que se tratava de “gravíssima e detestável irreverência e ímpio abuso à Santíssima Eucaristia”. Bastou esta declaração para o Bispo Joaquim interditar todos os atos religiosos em Juazeiro e proibir o Padre Cícero de celebrar Missa.

Mais tarde em 1916 veio de Roma a excomunhão mas que nunca foi aplicada e nem o Padre Cícero teve conhecimento dela, creio que por medo do bispo Dom Joaquim da reação dos romeiros.

Deixando para trás estes fatos, perguntamos: como agia pastoralmente o Padre Cícero? Aqui, me parece que ele se coloca na linha do que o Papa Francisco gostaria que todos os pastores fizessem. O Padre Cícero usava três métodos:

1) Convivência direta com o povo, cumprimentado a todos.

2) Visita a todas as casas dos sítios, falando com todos, abraçando as crianças e abençoando a casa, os animais e as pessoas. Andava quase sempre a pé com o seu bastão.

3) Orientar o povo nas pregações e nas novenas; ao anoitecer, diante da casa fazia reuniões diárias com povo onde incentivava a vivência dos bons costumes, o estudo nas escolinhas, encaminhava para os vários ofícios e dava dicas de ecologia como veremos logo a seguir.

A fama correu pelo sertão todo. De longe vinham receber seus conselhos e suas bençãos, porque era inteiramente dedicado ao povo, sempre disponível, atento em ouvir, carinhoso em receber a todos até ricos que vinham conhecê-lo. Era impecável em sua vida pessoal, vivendo pobremente e não cobrava nada por seu trabalho pastoral (José Comblin, O Padre Cícero do Juazeiro, Paulus 2011).

Era extremamente obediente. Nunca se queixou dos castigos pesados que recebeu. Amava profundamente a Igreja e respeitava a figura do Papa e dos bispos.

De todas as partes vinham romeiros pedir-lhe conselhos. Tinha a fama de pacificador e de resolver todos os conflitos; conhecia as ervas e remedios caseiros para as doenças e até tinha a fama de bom casamenteiro.

Ele se interessava pelo bem estar do povo: criou centros onde se aprendiam as profissões de marcineiro, ferreiro, alfaiate, artesão com couro ou palha e outros ofícios. Até criou uma relogoaria que fabricava bons relógios. Abriu 12 escolinhas particulares e duas publicas além de um orfanato e a primeira Escola Normal Rural..

A Terceira fase é do Padre Cícero politico. As portas da Igreja se fecharam para ele. Mas para continuar a servir o povo entrou na política.

Aqui cabe lembrar uma frase do Papa Francisco quando esteve no Brasil: “É uma obrigação para o cristão envolver-se na política. Devemos envolver-nos na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade”. Vai mais longe o Papa Francisco ao afirmar: ”Atualmente, se um cristão não é revolucionário não é cristão. Deve ser revolucionário da graça.”

Importa esclarecer que o Padre Cícero entrou na política a contragosto, com a idade de 67 anos, mas aceitou para ser o mediador-conciliador entre vários coronéis em litígio. Por 20 anos até 1927 foi prefeito de Juazeiro, comparecendo como a figura mais respeitada do Cariri. Em 1912 foi eleito vice-governador do Ceará por dois mandatos. Mas cansado se retirou da política pública e atendia os romeiros e politicos em sua casa.

Sua preocupação maior era poder continuar com sua missão pastoral e voltar a celebrar missa. Chegou ir a Roma em 1898 ficando lá oito meses. Conheceu os salesianos e entusiasmou-se com o seu caarisma a ponto de herder a eles quase tudo o que possuia em Juazeiro. Pôde encontrar-se rapidamente com o Papa Leão XIII que lhe permitiu rezar missa em Roma e na volta novamente em Juazeiro. Mas foi em vão. O bispo manteve a proibição.

Mas vendo as multidões que vinham pedir conselho, ele, por amor ao povo, exerceu a desobediência leal: desobediência a uma lei eclesiástica e humana em função de uma lealdade ao mandamento maior do amor e do serviço aos pobres que ela amava do fundo do coração.

Era tido como o pai dos pobres. Foi padrinho de batismo de dezenas de crianças (daí a expressão “meu padim Padre Cícero),o consolador dos abandonados dos sertões. Distribuía com calma e serenidade, por horas a fio, conselhos e bençãos a todos os que o procuravam. Essa desobediência não era opor-se pura e simplesmente às autoridades eclesiásticas, mas etendender que o amor ao pobre e vulnerável possui autoridade maior, pois vem do Evangelho e de Jesus.

O Padre Cícero, pai dos pobres, incansavelmente dedicou 62 anos de sua vida à causa dos deserdados do Nordeste. Faleceu a 20 de julho de 1934.

3.Qualidades do sacerdote pregadas pelo Papa e vividas pelo Padre Cícero.

Muitas vezes o bispo de Roma falou aos sacerdotes e aos estudantes dos vários colégios pontificios. Ai delineia qualidades para o sacerdote, qualidades essas que o Padre Cícero viveu em antecipação.

-Ao Espiscopado italiano em 16 de maio de 2016 diz”O padre não pode ser burocrático mas alguém que é capaz de sair de si, caminhando com o coração e o ritmo dos pobres”. Não viveu a vida inteira assim o Padre Cicero?

-Na missa do crisma na Basílica Vaticana no dia 17 de abril de 2014 afirma:”a disponibilidade do sacerdote faz da Igreja a casa dos pobres, o lar dos que andam pelas ruas, o acampamento dos jovens e o lugar da cura dos doentes”. Na vida inteira o Padre Cícero não fez outra coisa.

-Aos bispos recém sagrados em 18 de setembro de 2016 proclama:”o pastor deve ser capaz de escutar e de encantar e atrair as pessoas pelo amor e pela ternura”. Essa era uma qualidade eminente do Padre Cicero, testemunhada por todos.

– Falando aos seminaristas lombardos lhes diz:”busquem o caminho da simplicidade que facilita encontrar o outro, simplicidade na linguagem e evitar doutrinas complicadas de modo que todos os possam entender e encontrar o Cristo vivo, morto e ressuscitado”. A simplicidade extrema do Padre Cícero era notória e permitia que todos se aproximassem confiantes de serem abraçados por ele.

-Num sermão de 6 de março de 2014 o Papa Francisco foi enfático ao dizer:” o sacerdote está chamado a ter um coração que se comove; deve ser uma pessoa de compaixão e de misericórdia. Deve ser como Jesus que se comovia diante do povo disperso e desalentado; deve estar cheio de ternura para com os excluidos e fracos; por amor é preciso consolar e curar as feridas dos machucados”.

Foi o que o Padre Cícero viveu a vida inteira em seu contacto com o povo.

  1. O Padre Cícero, antecipador da ecologia integral

Como é sabido, o Papa Francisco publicou uma importantíssima encíclica Laudato Si: cuidando da Casa Comum (2015). Não se trata de uma encíclica verde, meramente ambientalista, mas uma encíclica sobre a ecologia integral que incorpora a natureza, a sociedade, a política, a educação e a espiritualidade. Com grande surpresa nossa, o Padre Cícero publicou seus 10 famosos mandamentos ecológicos que me permito transcrever mas enfatizando apenas alguns, válidos até hoje:

não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau.

não toque fogo nem no roçado nem na caatinga.

-não cace mais e deixe os bichos viverem.

-não crie o boi nem o bode soltos: faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer.

-não plante em serra acima, nem faça roçado em ladeira   muito em pé;

deixe o mato protegendo a terra para que a   água não a arraste e não se perca a sua riqueza.

faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água da chuva.

represe os riachos de cem em cem metros ainda que seja  com pedra solta.

plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer até que o sertão seja uma mata só.

Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca.

Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer.

-Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só”. (Pensamento vivo do Padre Cícero, Ediouro, Rio de Janeiro 1988).

5.Conclusão: a atualidade do modelo sacerdotal do Padre Cícero.

Para a Igreja popular, o Padre Cícero sempre foi reconhecido como santo. Padeceu sob a mão dura do bispo de Fortaleza e da Inquisição, sem queixa e livre de qualquer amargura e sem deixar de amar a Igreja e seus pastores. Nunca se rebelou.

Mas está chegando o o tempo de a Grande Igreja se reconciliar com com os romeiros que o veneram e com o Padre Cícero, tido como pastor ideal.

Vale uma Igreja que distribui sacramentos, missas, confissões, batismos, casamentos e enterra mortos embora corra o risco de se fazer burocrática. Mas é importante que a Igreja seja, além disso, a grande companheira do povo, participando de seus padecimentos e alegrias, acolhendo com ternura a todos, dando conselhos e benções.

É esse tipo de Igreja, preferida pelo atual Papa, sem deixar de dar valor ao outro tipo mais tradicional. E é dessa Igreja popular que o povo mais aprecia e mais precisa não só no Nordeste mas no Brasil todo.

Graças ao bispo local, Dom Fernando Panico, beneficiado com uma cura de um cancer incurável, pela intercessão do Patriarca do Nordeste e do Brasil, tudo está tomando o rumo da reconciliação. Dom Frei Luiz Cappio, meu ex-aluno em Petrópolis, conversou em 2010 com o Papa Francisco sobre a figura excepcional de sacerdote e de santo que foi o Padre Cícero. O Papa conhecia o caso e prometeu acelerar o processo de reabilitação e de reconciliação.

A Congregação da Doutrina da Fé de 27 de outubro de 2014 afirmou num documento “não poder proceder à solicitação de reabilitação do sacerdote” Padre Cícero Romão Batista (primeiro Omnes). Mas, quase de forma contraditória assevera que “julga oportuna uma certa forma de reconciliação histórica…que coloque em luz também os lados positivos de sua figura”(segundo Omnes).

Para entender esta aparente contradição devemos entender a forma como esta instância doutrinária profere suas sentenças. Estas são de suas ordens: de tuto e de vero. Afirmação de tuto significa afirmação de “segurança” e de “prevenção” sem querer decidir acerca da verdade do fato analisado. De vero é quando se quer decidir sobre a “verdade” do fato. Esta é a sentença mais peremptória. Tudo leva a entender, dada a segunda observação (Omnes 2) que a Congregação para a Doutrina da Fé se ateve ao aspecto da segurança (de tuto) que possui um valor menor e não ao aspecto da verdade(de vero) que fecharia totalmente a questão.

Isso fica mais claro na carta do Secretário de Estado do Vaticano, a primeira pessoa depois do Papa em autoridade, o Card. Pietro Parolin, enviada ao bispo Dom Fernando Panico, bispo diocesano do Crato em 20 de outubro de 2015.

Este documento vem de uma instância mais alta que aquela da Congregação da Doutrina da Fé. O Card. Parolin como Secretário de Estado é a primeira pessoa após o Papa. Explicitamente escreve em nome do Papa Francisco. Deixa para trás a discussão do passado, e vai logo ao centro da questão que é pastoral:”põe em realce a figura de Padre Cícero Romão Batista e a nova Evangelização, procurando concretamente ressaltar “os bons frutos que hoje podem ser vivenciados pelos inúmeros romeiros que, sem cessar, peregrinam a Juazeiro atraíados pela figura daquele sacerdote”. Insiste que se deve “por em evidência aspectos positivos de sua vida e figura, tal como atualmente é percebida pelos fiéis”.

O ponto alto da afirmação do Card Parolin se encontra no númer 5 de sua carta onde afirma:”No momento em que a Igreja inteira é convidada pelo Papa Francisco a uma atitude de saída, ao encontro das periferiais existenciais, a atitude do Padre Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui, sem dúvida,um sinal importante e atual”.

Por fim enfatiza que “a presente mensagem foi redigida por expressa vontade de sua Santidade o Papa Francisco”.

Temos aqui, portanto, um pronunciamento da autoridade papal, a mais alta da Igreja, abrindo o caminho para a reconciliação. E dadas as virtudes eminentes do Padre Cícero e a conclamação a “agradecer ao Senhor por todo bem que ele suscitou por meio do Padre Cícero” se criam as condições para a sua beatificação e, por graça do Altíssimo e por amor dos romeiros, seja também oficialmente canonizado para ser santo não apenas do Nordeste, mas de toda a Igreja Universal, podendo ser venerado em todos os países onde há católicos.

O Padre Cícero será o grande santo do novo estilo de caminhar com o povo, com “cheiro de ovelha” porque o ama e sabe conduzi-lo pelo caminho das verdes campinas e das águas límpidas como o diz o Bom Pastor do salmo 23.

Que nossa geração possa ainda ver esta glória como veremos no dia 15 de agosto de 2017 a canonização pelo Papa Francisco, do bispo Dom Oscar Arnulfo Romero de El Savador, mártir dos direitos humanos e da libertação dos oprimidos.

Estou seguro de que o dia chegará para o Padre Cícero Romão Batista: será beatificado e canonizado como um santo original e típico de nossa terra, batida pela seca e terra dos homens e das mulheres fortes e invencíveis e cheios de fé.

Leonardo Boff, teólogo e escritor.

Bibliografia essencial

-José Comblin, O Padre Cícero do Juazeiro, Paulus,    2011.

-Ralph della Cava, Milagre em Juazeiro, Paz e Terra   1985.

-Amália Xavier de Oliveira, O Padre Cícero que eu     conheci, Editora Massangana, Recife 1981.

-Azarias Sobreira, O Patriarca de Juazeiro, Vozes,      Petrópolis 1968.

-Therezinha Stella Guimarães e Anne Dumoulin, O Padre Cícero por ele mesmo, Edições INESP, Fortaleza 2015.

-Annette Duloulin, Em sonho.. Uma boa conversa entre o romeiro Sebastião e Padre Cícicero, Paulinas 2017.

-Antônio Romero Siqueira Dodou, De Tabuleiro a Juazeiro. Reflexões sobre Cícero:o homem,o padre e o líder, Edição do autor 2016.

-Ercíclia Maria Braga de Olinda, Adriana Maria Simão da Silva (org.) Vidas em romaria, Ed UECE, Fortaleza 2016.

-Pe. Neri Feitosa, Análise juridica das Pastorais de Dom Joaquim sobre o Padre Cícero e o milagre de Juazeiro, Canindé 2005.

-Carlos Alberto Tolovi, Mito, religião e política: Padre Cícero e Juazeiro do Norte, Editora Primas, Curitiba 2017.

-Maria do Carmo Pagan Forti, Padre Cícero e Dom Fernando: uma relação que deu certo, edição da autora, Juazeiro 2013.

-Pe.José Oscar Beozzo, Pe. Cicero nos textos e no contexto do seu tempo Anaes do II Simpósio Internacional de 12 de outubro de 2004.

-Pe. José Oscar Beozzo, Uma cronologia comparada da vida do Pe.Cícero com os eventos eclesiásticos e civis de seu tempo, pesquisa inédita, São Paulo 2004.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um padre com cheiro de ovelhas: o Pe.Cicero Romão Batista

Nos dias 20-24 de março se realizou em Juazeiro do Norte, Ceará, o V­º Simpósio Internacional Padre Cícero com o tema “Reconciliação…e agora?” Fiquei admirado pelo alto nível das exposições e das discussões com a presença de pesquisadores nacionais e estrangeiros. Tratava-se da reconciliação da Igreja com o Pe. Cícero que sofreu pesadas penas canônicas, hoje questionáveis, sem jamais se queixar, num profundo respeito às autoridades ecclesiasticas e reconciliação com os milhares de romeiros que o consideram um santo.

Indiscutivelmente o Pe. Cícero Romão Batista (1844-1034), por suas múltiplas facetas, é uma figura polêmica. Mas mais e mais as críticas vão se diluindo para dar lugar àquilo que o Papa Francisco através do Secretário de Estado Card. Pietro Parolin, numa carta ao bispo local Dom Fernando Panico de 20 de outubro de 2015, expressamente diz que no contexto da nova evangelização e da opção pelas periferias existenciais a “atitude do Pe. Cícero em acolher a todos, especialmente aos pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui, sem dúvida, um sinal importante e atual”.

O Pe. Cicero corporifica o tipo de padre adequado à fé de nosso povo, especialmente nordestino. Existe o padre da instituição paróquia, classicamente centrada no padre, nos sacramentos e na transmissão da reta doutrina pela catequese. É um tipo de Igreja que se autofinaliza e com parca incidência social em termos de justiça e defesa dos direitos humanos especialmente dos pobres.

Entre nós surgiu um outro tipo de padre como o Pe. Ibiapina (1806-1883), que foi magistrado e deputado federal, tendo abandonado tudo para, como sacerdote, colocar-se a serviço dos pobres nordestinos, como o Pe. Cícero, o Frei Damião, Pe. José Comblin entre outros. Eles inauguraram um outro tipo ação religiosa junto ao povo. Não negam os sacramentos, porém, mais importante é acompanhar o povo, defender seus direitos, criar por toda parte escolas e centros de caridade (de atendimento), aconselhá-lo e reforçar sua piedade popular. Esse é o tipo de padre adequado à nossa realidade e que o povo aprecia e necessita.

Esse era também o método do Pe. Cícero que se desdobrava em três vertentes: primeiro conviver diretamene com o povo, cumprimentando e abraçando a todos; em seguida visitar todas as casas dos sítios, abençoando a todos, a criação dos animais e as plantações; por fim orientar e aconselhar o povo nas pregações e novenas; ao anoitecer reunia as pessoas diante de sua casa e distribuía bons conselhos e encaminhava para o aprendizado de todo tipo de ofícios para tornarem independents.

Neste contexto o Pe. Cícero se antecipou ao nosso discurso ecológico com seus 10 mandamentos ambientais, válidos até os dias de hoje (“não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau” etc).

O Pe. Comblin, eminente teólogo, devoto do Pe. Cícero e que quis ser enterrado ao lado do Pe. Ibiapina escreveu com acerto:”O Padre Cícero adotou amorosamente os pobres e advogou a causa dos nordestinos oprimidos, dedicando-lhes incansavelmente 62 anos de vida. E o povo pobre o reconheceu, o defendeu e o consagrou, continuando a expressar-lhe o seu devotamento, porque viu e vê nele o Pai dos Pobres. Antecipou em muitos anos as opções da Igreja na América Latina. É impossível negar a sincera opção pelos pobres, como foi dito por um deles:”Meu padrinho é padre santo/como ele outro não há/ pois tudo o que ele recebe/ tudo de esmola dá”(O Padre Cícero de Juazeiro, 2011 p.43-44).

Curiosamente, se recolhermos os muitos pronunciamentos do Papa Francisco sobre o tipo de padre que projeta e quer, veremos que o Pe. Cícero se enquadra. à maravilha, ao modelo papal. Não há espaço aqui para trazer a farte documentação que se encontra no meu blog (www.leonardoboff. wordpress.com) que recolhe minha intervenção em Juazeiro: “O Padre Cícero à luz do Papa Francisco”.

Repetidas vezes enfatiza o Papa Francisco que o padre “deve ter cheiro de ovelha”, quer dizer, alguém que está no meio de seu “rebalho” e caminha com ele. Cito apenas dois textos emblemáticos, um proferido ao episcopado italiano no dia 16 de maio de 2016 onde diz:”O padre não pode ser burocrático mas alguém que é capaz de sair de si mesmo, caminhando com o coração e o ritmo dos pobres”. O outro aos bispos recém sagrados no dia 18 de setembro de 2016:”o pastor deve ser capaz de escutar e de encantar e atrair as pessoas pelo amor e pela ternura”.

Estas e outras qualidades foram vividas profundamente pelo Pe. Cícero, tido como o Grande Patriarca do Nordeste, o Padrinho Universal, o Intercessor junto a Deus em todos os problemas da vida, o Santo cuja intercessão nunca falha. Os romeiros e devotos sabem disso. E nós secundamos esta convicção.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu A nova evangelização: a perspectiva dos pobres, Vozes 1991.

 

Eine Ethik für Mutter Erde

Es ist eine wissenschaftlich anerkannte Tatsache, dass zu 95%iger Wahrscheinlichkeit der Klimawandel, der sich vor allem in der globalen Erwärmung ausdrückt, auf den Einfluss des Menschen zurückzuführen ist. D. h. die Herkunft dieser Veränderungen liegt in gewalttätigem menschlichen Verhalten gegenüber der Natur. Ein solches Verhalten befindet sich nicht in Harmonie mit den Zyklen und Rhythmen der Natur. Die Menschen passen sich nicht der Natur an, sondern zwingen diese, sich den Menschen und ihren Interessen anzupassen. Ihr Hauptinteresse, das nun seit zwei Jahrhunderten dominiert, dreht sich um die Anhäufung von Reichtum und Vorteile für den Lebensstandard einiger Weniger, beginnend bei der systematischen Ausbeutung von Gütern und Dienstleistungen und vieler Völker, vor allem der indigenen Völker.

Die Staaten, die diesen Prozess anführen, gaben den Grenzen des Erdsystems nicht die angemessene Bedeutung. Sie unterwerfen noch immer Natur und Erde einem wahren Krieg, obwohl sie wissen, dass sie besiegt sein werden.

Mutter Erde äußert sich auf den Druck, der auf ihre vorgegebenen Grenzen ausgeübt wird, durch extreme Ereignisse (verlängerte Trockenperioden einerseits und zerstörerische Überflutungen andererseits, unvorhergesehene Schneestürme hier und unerträgliche Hitzewellen dort).

Angesichts solcher Ereignisse wurde die Erde zu einem deutlichen Gegenstand menschlicher Sorge.

Die diversen Klima-Konferenzen, die von der UNO organisiert wurden, erreichten niemals eine Übereinstimmung. Lediglich die Konferenz von Paris 21 (30.11.-13.12.2015) erreichte erstmalig einen Minimal-Konsens, der von allen unternommen wurde: die globale Erwärmung auf 2 Grad Celsius zu beschränken.

Bedauerlicherweise ist dieses Abkommen nicht bindend. Jeder Staat kann sich ihm anschließen, aber es ist nicht von zwingender Natur, wie sich im Nordamerikanischen Kongress zeigte, der die ökologischen Maßnahmen des Präsidenten Barack Obama rückgängig machte. Nun bezichtigt Präsident Donald Trump diese als sinnlos und betrügerisch.

Es wird immer klarer, dass es eher um eine ethische denn um eine wissenschaftliche Frage geht. D. h. die Qualität unseres Verhältnisses zur Natur und zu unserem Gemeinsamen Haus war und ist nicht adäquat. Tatsächlich ist es zerstörerisch.

Ich zitiere Papst Franziskus aus seiner inspirierenden Enzyklika Laudato Si von 2015 zum Thema Achtsamkeit für das Gemeinsame Haus: „Niemals haben wir unser gemeinsames Haus so schlecht behandelt und verletzt wie in den letzten beiden Jahrhunderten.Diese Situationen rufen das Stöhnen der Schwester Erde hervor, die sich dem Stöhnen der Verlassenen der Welt anschließt, mit einer Klage, die von uns einen Kurswechsel verlangt.“ (Nr. 53)

Wir brauchen dringend eine regenerative Ethik für die Erde, die ihre beschädigte Vitalität wiederherstellt, sodass sie uns weiterhin geben mag, was sie uns schon immer gab. Dabei muss es sich um eine Ethik der Achtsamkeit handeln, des Respekts für ihre Rhythmen und der gemeinsamen Verantwortung.

Doch eine Ethik für die Erde ist nicht ausreichend. Sie muss mit Spiritualität einhergehen.

Diese Spiritualität wurzelt in der Vernunft des Herzens und der Empfindsamkeit. Von dort kommt die Leidenschaft für Achtsamkeit und einer ernsthaften Hingabe zur Liebe, zur Übernahme von Verantwortung und zu Mitgefühl für unser Gemeinsames Haus, wie es am Ende der Enzyklika von Franziskus, dem Bischof Roms, ausgedrückt wird.

Der bekannte und allgemein bewunderte Antoine de Saint-Exupéry bekräftigt nachdrücklich in einem posthum veröffentlichten, 1943 geschriebenen Text „Brief an General X“: „Es gibt ein Problem und nur dies eine: zu entdecken, dass es ein Leben des Geistes gibt, das sogar über dem Leben der Intelligenz steht. Es ist das einzige, das den Menschen zufriedenstellen kann“ (Macondo Libri 2015, S. 31).

In einem anderen Text von 1936, als er Korrespondent des Paris Soir während des spanischen Bürgerkriegs war und der den Titel trägt „Es ist wichtig, dem Leben Bedeutung zu geben“, kommt Saint-Exupéry auf das Leben des Geistes zurück. Hier bekräftigt er: „Der Mensch verwirklicht sich nur in Gemeinschaft mit anderen Menschen, in Liebe und Freundschaft. Jedoch vereinen die Menschen sich nicht nur, indem sie einander nahe stehen, sondern durch ihren Zusammenschluss in derselben Gottheit. In einer Welt, die zur Wüste gemacht wurde, dürsten wir danach, Kum-panen zu finden, Kameraden, mit denen wir das Brot teilen können“ (Macondo Libri, S. 20).

Am Ende des Briefs an den General X schließt er mit den Worten: „Oh, wie sehr brauchen wir einen Gott!“ (a.a.O. S. 36).

In der Tat verleiht nur das Leben des Geistes dem Menschen die Fülle. Dies ist eine schöne Synthese von Spiritualität, die oft mit Religiosität identifiziert oder verwechselt wird. Das Leben des Geistes ist mehr. Es ist eine ursprüngliche und anthropologische Wirklichkeit wie die Intelligenz und die Willenskraft. Es ist etwas, das zu unserer essentiellsten Tiefe gehört

Wir wissen, wie wir uns um das Leben des Körpers zu kümmern haben. Dies ist inzwischen ein wahres Kulturphänomen, mithilfe so zahlreicher sportlicher Fitness-Center. Psychoanalytiker verschiedener Strömungen helfen uns, uns um das Leben der Seele zu kümmern, ein Leben relativen Gleichgewichts ohne Neurosen oder Depressionen zu führen.

Doch unsere kulturelle Praxis vergisst, das Leben des Geistes zu pflegen, d. h. unsere radikalste Dimension. Es ist der Ort, an dem die großen Lebensfragen, die waghalsigsten Träume verweilen und wo die größten Utopien entstehen. Das Leben des Geistes wird genährt durch Mitgefühl, Achtsamkeit und Offenheit für das Unendliche. Ohne das Leben des Geistes irren wir ziellos umher und ohne eine Richtung, die uns leitet und das Leben einladend und dankbar gestaltet.

Eine Ethik für die Erde ist nicht selbsterhaltend, nicht ohne den Zusatz der Seele, d. h. das Leben des Geistes. Es lässt uns fühlen, dass wir ein Teil von Mutter Erde sind, der wir Liebe und Achtsamkeit schulden.

Leonardo Boff  Theologe, Philosoph und von derErdcharta Kommission

 

 

O que significa uma “Igreja em saída” segundo o Papa Francisco

Eduardo Hoornaert é um belga radicado há muitos anos no Brasil. É um reconhecido historiador com vários livros publicados sobre a história a Igreja nos primórdios e do Brasil. Ultimamente se tem dedicado a uma original leitura dos evangelhos, enfatizando a linguagem e o que nela se esconde em termos de visão de Deus, de mundo e da figura de Jesus. O atual texto que publicamos pode ajudar a muitos que procuram uma orientação religiosa a partir dos comportamentos inusitados e das palavras corajosas do atual Papa Francisco. Aqui temos um belo resumo dos principais pontos a serem considerados: LBoff

 *****************************

 O Papa Francisco sabe o que está dizendo.

O Papa Francisco sabe o que está dizendo e é exatamente isso que faz com que encontre oposição em determinados setores da igreja. No início não se dava muita atenção ao que ele dizia, pois ele tem um jeito manso e calmo de falar sem levantar tempestades. Assim, por exemplo, não se prestou muita atenção à fala do então Cardeal Bergoglio diante de seus colegas cardeais, no dia 9 de março de 2013, poucos dias antes do início do conclave que o elegeria papa:

A igreja deve sair de si mesma, rumo às periferias existenciais.

Uma igreja auto-referencial prende Jesus Cristo dentro de si

 e não o deixa sair.

É a igreja mundana, que vive para si mesma.

O texto se encontra no livro ‘Grandes Metas do Papa Francisco’, escrito pelo Cardeal Hummes (Paulus, São Paulo, 2017). Aqui já se prenuncia a expressão ‘igreja em saída’, que, imagino, muita gente não entende bem. Aqui procuro colocar esse modo de falar diante de um amplo painel histórico, pensando que isso ajuda a compreender sua importância.

Como se comporta a igreja católica, da Idade Média para cá?

Quando colocadas diante do amplo painel da história da igreja católica, as palavras do papa ganham sua verdadeira dimensão. Temos de recuar até os séculos XII e XIII, ir até os três grandes papas da Idade Média: Gregório VII (1073-1085), Inocêncio III (1198-1216) e Bonifácio VIII (1294-1303). Assim entenderem de que se trata. Esses três papas eram grandes organizadores e fizeram com que a igreja virasse uma grande empresa, que exercia controle sobre a vida das pessoas e as instituições públicas. Quem não seguia as regras era excomungado (condenado ao inferno). Esses papas, e toda corte que os rodeava, se imaginava que o crescimento da instituição cristã implicava automaticamente na maior divulgação do evangelho. Esse era o postulado. As autoridades se compraziam em verificar que a empresa da igreja sobre as sociedades se consolidava sempre mais. Desse modo, a igreja se tornava sempre mais auto-referencial (para falar como Papa Francisco), autocentrada, triunfalista, narcisista (outro termo do Papa Francisco). Líderes eclesiásticos eram valorizados na medida em que se mostravam bons empresários, como comprova a história dos três pontificados acima mencionados. Sempre mais se valorizava a eficiência administrativa. A igreja estava num círculo vicioso e não se dava conta. Olhava para si mesma e só enxergava o mundo a partir de si mesma. O clericalismo crescia exponencialmente, seu controle sobre a população aumentava sempre mais. Quando autoridades eclesiásticas falavam em ‘reforma da igreja’ (e falavam muito), era sempre no sentido de aperfeiçoar os instrumentos de controle sobre a sociedade. Tudo era direcionado para esse fim: os sacramentos, as paróquias, as indulgências, as devoções, as peregrinações. Orgulhosa de seus grandes feitos de engenharia administrativa, a igreja alimentava, em seus colaboradores, tendências ao carreirismo. Clérigos eficientes podiam contar com um futuro esplendoroso, inclusive com aceitação garantida por parte do ‘povo fiel’.

Tudo isso acabou criando uma neurose que se expressou de forma aguda na tão falada Inquisição. Essa decorria da extremada vontade de controlar tudo, até os recônditos da consciência e da imaginação. Durante séculos, uma mentalidade inquisicional se instalou na igreja e se apoderou da hierarquia. A mentalidade inquisicional virou um mostro, devorava tudo e nem poupava os próprios inquisidores. Pois, não raramente, os inquisidores morriam de medo uns dos outros, já que todos eram potencialmente suspeitos de heresia (os pais, os avós, algum dia, andaram com um herege ou ouviram alguma palavra herética?). Era um inferno. Todos tinham medo de todos, ninguém confiava em ninguém. A história da igreja virou um emaranhado inextricável de tramas, histórias, intrigas, conspirações e corrupções.

Movimentos históricos contrários a essa situação.

Graças a Deus, nos mesmos séculos XII e XIII surgiram movimentos contrários à igreja auto-referencial, que prende Jesus Cristo dentro de si, que ‘sequestra’ Jesus Cristo. O realce aqui é o movimento franciscano, que tomou o cuidado em não se indispor com a hierarquia, sob pena de ser considerado suspeito de heresia e desse modo exposto a procedimentos de repressão. Os frades que acompanham Francisco se apresentam como auxiliares do clero e assim conseguem a bênção do Papa Inocêncio III em 1215. Mas nem todos os movimentos têm essa sorte. Os valdenses, por exemplo, se recusam a colaborar com o clero e logo ficam expostos à crueldade da Inquisição. Eram seguidores de Pedro Valdés, um rico comerciante de Lyon que renunciou à sua fortuna e se tornou pregador da pobreza evangélica. Os valdenses são excomungados em 1182 e dois anos mais tarde formalmente declarados ‘hereges’.

Até hoje, o franciscanismo permanece um bom exemplo de um movimento que reage contra uma igreja ‘ensimesmada’. Não é por acaso que o atual papa escolheu o nome de Francisco.  Claro, é preciso adaptar o espírito franciscano aos dias de hoje, pois não se pode esquecer que a ‘vida religiosa’, em geral, até bem recentemente, se organizava em torno do paradigma monástico (os ‘votos evangélicos’ de celibato, pobreza e obediência, a vida em casas separadas, como mosteiros, priorados, conventos e casas religiosas). Esse paradigma orientou praticamente todos os movimentos evangélicos por longos séculos. Será preciso repensar isso, pois fica patente, para quem observa o mundo de hoje, que o paradigma monástico não funciona mais. Oriundo de experiências fortes, entre os séculos VII e XII (os Padres do Deserto), esse paradigma está assentado sobre alguns princípios: o isolamento, o ‘desprezo pelo mundo’ (contemptus mundi, como rezam os livros espirituais), o distanciamento diante da vida dos casados. Fica claro, para quem observa as coisas hoje, que esse paradigma não funciona mais. O princípio monástico está em queda livre, embora permaneça muito respeitado. A ‘vida religiosa’ pode contar com a simpatia da população, mas não tem mais a força de antes. Parece algo do passado, um tipo de vida que pode até suscitar saudades, mas carece de significância para os dias de hoje. O mesmo acontece, até certo ponto, com a igreja em geral. Fora dos limitados círculos eclesiásticos não se presta mais atenção ao que o papa ou o bispo dizem. Não que exista um clima de hostilidade ou rejeição por parte da sociedade, mas não se pode fugir da impressão que os modos eclesiásticos, aos olhos de muitos, simplesmente estão ‘fora do tempo’.

Um fato inesperado.

Embora houvesse, desde a Idade Média, esses movimentos em prol da vida evangélica que acabei de evocar, o papado não arredou pé. Durante todos esses séculos, não se falava em pobreza nos altos escalões da igreja. Era tabu. O papa não tomava posição. É dentro dessa história ‘de longa duração’ que, inesperadamente, duas semanas antes da abertura do Concílio Vaticano II (setembro 1962), numa emissão radiofônica, foi pronunciada, pelo Papa João XXIII, a seguinte frase: A igreja é de todos, mas é antes de tudo uma igreja de pobres. Dita sem alarde e sem elevação de voz, como se fosse a coisa mais normal do mundo, essa frase, na realidade, rompeu um silêncio de séculos.  Era a primeira vez que a mais alta autoridade eclesiástica declarava que a pobreza evangélica era um desafio para a igreja. De repente, a fala de Jesus na sinagoga de Nazaré ressoava no Vaticano:

Um Sopro do Senhor está sobre mim:

Por ele fui escolhido para anunciar uma boa notícia aos pobres.

Enviado por ele, declaro aos prisioneiros sua libertação,

Aos cegos a recuperação da vista,

Aos oprimidos a soltura (Lc 4, 18-19).

A reação no Concílio Vaticano II.

Acontece que as palavras papais de setembro 1962 passam largamente despercebidas. Não são comentadas nas dioceses e nas paróquias, não são divulgadas pela grande imprensa ou pela TV, não alcançam o grande público católico, Mesmo os Padres Conciliares, reunidos em Roma ao longo de três anos, entre 1962 e 1965, mostram pouco interesse. Há, decerto, a fala do Cardeal Lercaro que, num discurso na Assembleia, declara que o tema da pobreza mereceria ser o ‘único tema do Concílio’. O Cardeal é profusamente aplaudido. Mas logo depois desce o manto do silêncio. Não se fala mais em pobreza na Aula Conciliar. Os bispos continuam com os temas que lhes interessam: reforma litúrgica, ecumenismo, modelo de igreja, dogma, luta contra o comunismo, seminários e casas de formação, moral, perigo da secularização, do protestantismo e do espiritismo. A pobreza não é um tema do Concílio Vaticano II.

Desse modo podemos dizer que o posicionamento do Papa João pertence à ‘história fraca’ do cristianismo, a história da fragilidade evangélica que, mesmo num Concílio que reúne os bispos do mundo inteiro, apenas forma uma corrente subterrânea.

A opção pelo pobre.

É na América Latina que essa corrente subterrânea que aflora à superfície. Se o Concílio em Roma atribui pouca atenção à questão da pobreza de largos setores da humanidade, não se pode dizer o mesmo da Conferência Geral dos Bispos da América latina que se realiza em Medellin (na Colômbia) no ano 1968. Os bispos latino-americanos não se deixam mais teleguiar pelo ‘Primeiro Mundo’ (principalmente Europa e Estados Unidos), mas assumem corajosamente uma postura de ‘Terceiro Mundo’. Enfrentam a realidade social, econômica e política do continente sul-americano. Fazem uma ‘opção pelo pobre’. Esse slogan não é puro palavreado, mas representa ações concretas: alguns dos bispos mais atuantes em Medellin passam efetivamente a manter uma vida em consonância com o modo de viver comum dos povos de suas terras. Na América Latina, a opção pelo pobre continua sendo assumida pela mais alta autoridade eclesiástica ao longo das últimas décadas, como se verifica em textos proferidos nas sucessivas Conferências Episcopais: Puebla 1979; Santo Domingo 1992 e Aparecida 2007.

O vocabulário do Papa Francisco.

Será que os cardeais reunidos em Roma para eleger um novo papa, em 2013, entenderam mesmo as palavras que o Cardeal Bergoglio tinha proferido poucos dias antes? Será que eles se lembravam que ele já foi um ator importante na Conferência do Episcopado Latino-americano em Aparecida, no ano 2007, quando era arcebispo de Buenos Aires? Naquela oportunidade, ele já se revelou adepto da linha de Medellin 1968. Seja como for, esses cardeais elegeram Bergoglio como novo papa.

Logo depois de eleito, o Papa Francisco assumiu o posicionamento do Papa João XXIII em 1962. Exclamou, três dias depois de eleito: Ah! Como eu queria uma igreja pobre e para os pobres. As mesmas palavras voltam no documento Evangelii Gaudium (EG), um dos primeiros por ele assinados: uma igreja pobre e para os pobres, uma igreja que faz opção pelo pobre (EG, 198). Ao longo de sucessivas falas, em diversas ocasiões, o papa vai criando um vocabulário todo próprio: igreja que se move, que faz opção pelos últimos, que vai à periferia, que sai de si mesma (audiência de 23/03/2013), que anda pela rua (os ‘sacerdotes callejeros’), igreja inclusiva, não excludente, não autocentrada, não narcisista, que não vive para si mesma, não é cartório, igreja inteiramente missionária (EG 34), discípula missionária (EG 40), hospital de campanha, campo de refugiados. Ainda se pode citar EG 195, 197, 198 ou 199.

A expressão de maior realce, dentro desse novo vocabulário, é ‘igreja em saída’:

Sonho com uma opção missionária

capaz de transformar tudo:

os estilos, os horários, a linguagem,

numa atitude constante de saída (EG 26-27).

‘Igreja em saída’, eis a expressão que resume o posicionamento do Papa Francisco frente à ideologia ‘auto-centrada’ que predominou na igreja católica durante séculos e às práticas originadas por essa ideologia.

Um novo tipo de sacerdote.

Tudo isso ainda é muito frágil e corre o risco de ser levado pela poeira dos tempos, se não aparecer um novo tipo de padre. Será que, nos dias que correm, esse tipo está se gestando? Depende largamente do futuro das comunidades de base, pois, como diz com argúcia Carlos Mesters, ‘não há comunidade de base sem padre’. Então o importante consiste em substituir aos poucos a imagem do sacerdote que aparece na comunidade para celebrar missa, administrar sacramentos, abençoar casamentos, executar ritos e liturgias, pela imagem de um sacerdote que fica no círculo, ao lado de leigos e leigas, escuta e interfere de vez em quando, como orientador ou mesmo como simples companheiro. Uma passagem difícil, que exige lucidez e determinação, pois sempre é mais fácil voltar ‘às panelas do Egito’. Para um sacerdote, entenda-se, não é fácil viver essa experiência, pois mesmo os sacerdotes de hoje ainda foram formados, nos seminários, para atuar numa Igreja ‘auto-referencial’. Muitos não conseguem mudar de visão, embora a situação do mundo, das sociedades e das igrejas tenha mudado nos últimos 50 anos. Mesmo sabendo que a igreja católica perde aos poucos uma posição dominante na sociedade, os sacerdotes experimentam dificuldade em se engajar numa ‘igreja em saída’. Eis o primeiro ponto.

Um novo tipo de leigo/leiga.

Será que está aparecendo, na igreja católica, um novo tipo de leigo/leiga, que corresponda aos ditames de uma ‘igreja em saída’? Nos últimos anos houve diversas iniciativas que visavam ativar a colaboração de leigos e leigas na qualidade de catequistas, professoras, animadores e animadoras, cantoras e cantores, secretários e secretárias paroquiais, ministros da Eucaristia, diáconos, ministros do dízimo, legionários, etc. São iniciativas de valor, mas, para quem enxerga a perspectiva de uma ‘igreja em saída’, fica claro que elas têm um caráter passageiro. Constituem a passagem entre um laicato totalmente passivo e o laicato que a igreja missionária do Papa Francisco necessita. Cedo ou tarde, o(a) leigo(a) terá de sair de sua posição de inferioridade e dependência em relação ao clero.  Para tanto, ele (ela) terá de questionar o caráter corporativo da atual organização eclesiástica.

Aqui, de novo, um mergulho nas profundezas da memória cristã pode ajudar. Trabalhei esse tema amplamente em meu livro ‘Origens do Cristianismo’ (Paulus, São Paulo, 2016). Já antes do surgimento do movimento de Jesus existia, no seio do judaísmo, uma tensão entre a estrutura laical das sinagogas e a estrutura sacerdotal do Templo. O movimento de Jesus não adotou o sistema sacerdotal, mas optou resolutamente por um modelo leigo de organização. As primeiras lideranças (bispo, presbítero, diácono) eram leigas, assim como o próprio Jesus fora um leigo. Nos primeiros documentos cristãos encontramos casais, homens e mulheres que trabalham em solidariedade e se reúnem em casas familiares. Para Paulo, um ‘presbítero’ é um pai de família que tem a confiança da comunidade porque governa bem sua casa (Tit 1, 6-8).

Hoje não verificamos, dentro da igreja católica, senão poucas formações leigas independentes e autônomas, capazes de atuar na sociedade como associações de direito civil e de defender, dentro daquela sociedade, os valores cristãos. Nisso, igualmente, a colaboração daqueles sacerdotes que se mostram dispostos a reassumir a antiquíssima imagem do ‘mestre’, do ‘profeta’ ou do ‘presbítero’, dos primeiros tempos do cristianismo, é preciosa. Mas o importante mesmo consiste em formar grupos fortes e coesos, alimentados por leituras bíblicas e outras leituras espirituais (como as Cartas de Dom Helder ou de Mons. Romero, por exemplo), pois não é fácil enfrentar sociedades permeadas de valores capitalistas. No mundo em que vivemos, fica difícil viver o evangelho sem o apoio de uma comunidade forte.

Em: eduardohoornaert.blogspot.com.br/ 17/3/2017