A misericórdia dos dois Franciscos: de Assis e de Roma

A convite de confrades franciscanos escrevi a presente reflexão sobre a misericórdia que aqui publico.

É notória a presença da misericórdia na vida de São Francisco, para com os pobres, com os pecadores, com os confrades relapsos e para com os demais seres da criação, seus irmãos e irmãs. Caso se deva impôr alguma penitência, diz na Regra 7,2 que “se faça com misericórdia”. Na Carta aos fiéis 8,43 recomenda ao superior que “manifeste e pratique tal misericórdia como gostaria que se lhe aplicasse a ele”. Por fim na Admoestão 27,6 afirma com verdade:”onde há misericõrdia aí não há dureza de coração”.

Até hoje calam fundo na alma as palavras do Testamento:”O Senhor mesmo me conduziu entre os hansenianos (leprosos) e eu tive misericórdia com eles”. Quer dizer, colocou-se no lugar deles, conviveu com eles e participou de todas as discriminações que na época os hansenianos sofriam.

Para São Francisco é por misericórdia que Cristo se fez presépio, se escondeu sob as simples espécies de pão e de vinho e nos visita na roupagem dos pobres dos caminhos.

A mesma centralidade da misericórdia encontramos no outro Francisco, aquele de Roma. Instituíu 2015/2016 o “Ano da Misericórdia”e escreveu o belo opúsculo “O nome de Deus é misericórdia”.

Disse enfaticamente: “O Deus de misericórdia, o Deus misericordioso para mim esta é de fato a carteira de identidade do nosso Deus”.

Efetivamente, o Papa Francisco está na linha da Tradição de Jesus, para quem Deus é fundamentalmente amor mas amor misericordioso que chega a amar “os ingratos e maus”(Lc 6,35). A misericórdia é a nota distintiva do Deus de Jesus Cristo e de todo o cristianismo.

Para Jesus não basta ser bom e observar todas as leis como o irmão do filho pródigo que ficou em casa com seu pai. Precisamos ser misericordiosos. O filho bom e fiel é o único a ser criticado porque não mostrou misericórdia para com o irmão que se havia perdido no mundo mas que, arrependido, voltara à casa paterna (Lc 15, 11-32).

Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica coloca a misericórdia como a forma mais alta do amor. Afirma que “a misericórdia é a virtude maior. Pois, faz parte da misericórdia derramar-se sobre os outros e o que é mais ainda – ajudar a fraqueza dos outros e isto é uma coisa de quem se econtra mais elevado. Por isso a misericórdia é precisamente atribuída a Deus como sua característica essencai; e diz-se que é através dela que sua onipotência se manifesta de forma melhor”.

E conclui com palavras semelhantes:”Entre todas as virtudes que tem a ver com o próximo é a misericórdia a mais elevada e a mais importante, porque tem também um status mais elevado; pois ajudar a fraqueza do outro é, em si, algo de mais elevado e melhor”.

O Papa Francisco reafirmou numa de suas homilías: “A misericórdia é a atitude divina que abraça; é o doar-se de Deus que acolhe, que se predispõe a perdoar”.

Nietzsche que disse tantas irreverências, afirmou em seu Assim falou Zaratustra, algo que merece ser refletido:”Também Deus tem o seu inferno: é o seu amor pelos homens…Deus está morto, morreu por sua compaixão para com os homens”.

A invés de prolongar uma reflexão teológica mais acurada prefiro extender-me um pouco sobre os fundamentos antropológicos da misericórdia e a imagem de Deus que ela pressupõe.

                            A religião do Deus-Mãe: a misericórdia, a do Deus-Pai a justiça

         As imagens de Deus dominantes nas religiões atuais nasceram, em sua grande maioria, no quadro da cultura patriarcal. Nela a imagem predominante de Deus é aquele do Senhor do céu e da Terra, que dispõe de todos os poderes, justiceiro e Pai severo. Sua característica principal é a justiça.

Anteriormente vigorava a cultura matriarcal, uma das fases da história humana, vigente por volta de vinte mil anos atrás. A imagem de Deus era feminina, da Grande Mãe, da Mãe dos mil seios, geradora de toda vida. Produziu uma cultura mais em harmonia com a natureza e profundamente espiritual. A característica do Deus-mãe era a misericórdia.

O nosso inconsciente, pessoal e coletivo, guarda na forma de arquétipos e de grandes sonhos, estas experiências feitas sob as duas formas de organizar a experiência religiosa, sob a figura do pai e sob a figura da mãe. Como já Freud observou, elas constituem as bases psíquicas a partir das quais projetamos as nossas imagens de Deus seja como Deus-Pai, seja como Deus-Mãe.

Além disso, esta figuras estão presentes em nós sob a forma de arquétipos seminais que nos acompanham durante toda a vida, Elas sempre vêm à tona por uma ignota saudade, pelo imaginário, pelas grandes narrativas, pela arte, pela música e por símbolos de toda ordem.

Mas há uma outra imagem, presente na história das religiões e também na tradição judaico-cristã que nos remete ao tema da compaixão e da misericórdia. Era por onde São Francisco vivenciava a encarnação. Ela se manifesta pelo Deus que se faz criança, que não julga mas que choraminga e convive. Um Deus que se enche de compaixão e chora pela morte do amigo Lázaro; que “compadeceu-se de nossas fraquezas”(Hebr 4,15) e que “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo em solidariedade (compaixão) conosco”(Flp 2,7); que “soube compadecer-se dos que estão na ignorância e no erro, porque ele também está cercado de fraqueza”(Hbr 5, 5,2) e que “não obstante ser Filho de Deus teve que aprender a obedecer pelo sofrimento”(Hebr 5,8). Eis os sinais de sua compaixão e misericórdia para conosco: a forma que o Filho tomou ao encarnar-se.

William Bowling, místico inglês do século XVII, concretizava ainda mais a misericórdia de Cristo dizendo:”Cristo verteu seu sangue tanto pelas vacas e pelos cavalos quanto por nós homens”. É a dimensão transpessoal e cósmica da redenção.

O Papa Francisco numa audiência de 28 de outubro de 2015 enfatizou tambbém esta dimensão cósmica da misericórida: “A misericórdia para a qual somos chamados abraça toda a criação que Deus nos confiou para sermos cuidadores e não exploradores, ou pior ainda, destruidores”.

Há um comovente midrash judaico (um relato) sobre o choro de Deus. Quando viu os cavaleiros egípcios com seus cavalos serem tragados pelas ondas do Mar Vermelho depois da passagem a pé enxuto de todo o povo de Israel, Deus olhou para trás e não se conteve. Chorou. E fez-se ouvir com voz clara:

“Os egípcios não são também meus filhos e filhas queridos e não apenas os descendentes de Abraão e de Jacó”?

É rica a tradição bíblica que fala da misericórdia de Deus. Em hebraico misericórdia significa ter entranhas de mãe e sentir em profundidade, lá dentro do coração o sofrimento dos míseros (ter um coração(cor) para com os míseros como o explicou o Papa Francisco certa feita).

O Salmo 103, um dos que pessoalmente mais aprecio, é nisso exemplar   ao afirmar que “Deus tem compaixão, é clemente e rico em misericórdia; não está sempre nos acusando nem guarda rancor para sempre…porque como um pai, sente compaixão pelos seus filhos e filhas porque conhece a nossa natureza e se lembra de que somos pó; sua misericordia é desde sempre e para sempre”. Haverá palavras mais consoladoras do que estas para os tempos maus sob os quais estamos vivendo?

Somente um Papa, vindo do fim do mundo, ousou dizer o que muitos teólogos vinham pensando mas não podiam expressá-lo.

Diante dos novos cardeais surpreendemente lhes disse: ”Não atemorizeis os fiéis com o inferno como sempre foi feito na história da Igreja. Deus não conhece uma condenação eterna.”

Numa outra homilía reafirmou:“nenhum pecado humano, por mais grave que seja, pode prevalecer sobre a misericórdia ou limitá-la”.

                          A misericórdia da Santíssim Mãe de Jesus

Estas afirmações tão contundentes do Papa me remetem a um apócrifo tardio, do século IX, mas fundado numa tradição antiga, muito popular na piedade russa, chamado O apocalipse da Mãe do Senhor.

Como é sabido pela pesquisa, hoje em dia está em voga o interesse pelos apócrifos, aqueles evangelhos não oficiais que têm mais a ver com a cultura popular que utiliza antes a fantasia do que a razão para realçar o significado da mensagem de Jesus.

Não devemos menosprezar a fantasia porque ela traduz, à sua maneira, a verdade e, por isso, têm seus direitos.

O referido apócrifo é profundamente comovedor e mostra o triunfo da misericórdia divina sobre a justiça. Ele comprova, um vez mais, que para o Deus da misericórdia não existe uma condenação eterna. Ei-lo:

“A santa e gloriosíssima Senhora, mãe de Deus e mãe de Cristo se levantou e quis saber acerca das penas que sofrem os seres humanos, especialmente os condenados ao inferno.

Perguntou ao arcanjo Miguel: “Quantas penas existem lá onde é punido o gênero humano”? Ele respondeu:”As penas não têm número.”

Ele abriu o inferno pelo lado do ocidente. E a santíssima mãe de Cristo viu as muitas penas da humana gente e prantos de muito tormento. Do lugar da pena, os condenados gritaram em voz alta:”˙Há séculos que não vemos a luz. Mas agora vemos a ti que destes a luz ao Senhor”.

Os anjos, por sua vez, clamaram:”Alegra-te, Virgem, luz que nunca se apaga. Alegra-te também tu, arcanjo Miguel, justo intercessor das almas de todos”.

Os anjos também viram os condenados e choraram. A honorabilíssima Mãe do Senhor viu o lamento dos anjos por causa dos condenados. E ela também começou a chorar.

Novamente os condenados gritaram:”Bendita és tu porque vieste até nós que estamos nas trevas por toda a eternidade”.

Disse a santíssima Mãe ao arcanjo Miguel:”Diga aos anjos para levar-me diante do Pai invisível”.

Vieram então os querubins e os serafins e a levaram diante do Pai invisível. E ela estendeu as mãos diante do trono terrível e se inclinou profundamente (fez a proscrínese).

Depois dirigiu os olhos na direção de seu Filho, Senhor do céu e da terra. Suplicou: ”Tem piedade, ó Senhor dos cristãos! Vi tormentos impossíveis de serem suportados. Eu quero sofrer com eles.

Cristo respondeu:”Como poderia ter piedade deles quando eles não tiveram piedade de meus irmãos e irmãs menores, os pobres?”

Apesar disso, suplicou a honorabilíssima Senhora: ”Mesmo assim, ajuda-me, ó Senhor”. E o Filho lhe respondeu:

”Não há na terra ninguém que me invoque e que não seja ouvido por mim. Mas estes não quiseram invocar meu nome”.

E a virgem Maria se voltou para os anjos e santos e para os justos do Reino do céu e para todos os que têm a ousadia de pedir pelos condenados.

E o arcanjo Miguel incitou a todos e ele mesmo se ajoelhou, seguido pelos anjos e por toda a corte dos santos e das santas, com grande caridade. E disse a esplendidíssima Mãe a seu Filho:

”Filho meu amantíssimo, desce de teu trono e veja a oração que fazemos pelos condenados”. E o Filho do Pai, o Cristo Senhor, desceu de seu trono. Aproximou-se do lugar das penas eternas. Vendo-o gritaram os atormentados em alta voz:

”Tem piedade de nós, Filho de Deus.” E o Senhor disse então:

“Escutai todos. Por causa da piedade e da misericórdia de minha mãe e da oração dos anjos e dos santos e santas, a partir de minha ressurreição no dia de páscoa até o domingo de todos os santos, habitareis no paraíso.”

E todos os santos e santas glorificaram a Deus, ficando na expectativa da festa da ressurreição do Senhor. E quando ela chegou, todos os condenados entraram cantando no céu. E diz-se que de lá nunca mais saíram.”

Perguntei a um monge-teólogo ortodoxo russo, numa das viagens à Rússia no contexto do diálogo inter-religioso o que significavam aquelas datas. Ficariam no céu somente por um certo tempo? Ao que me respondeu: quem entrou não sai mais, pois seria invalidar a misericórdia da Mãe do Senhor. Por isso não se deve tomar as festas referidas no sentido temporal, mas no sentido espiritual: são as festas eternas no Reino da Trindade na qual todos os redimidos participam. Por isso é justo que se diga:”E de lá, do céu, nunca mais saíram”.

Com correção teológica asseverou o Papa Francisco:”com a misericórdia e o perdão, Deus vai além da justiça, a inclui e a supera numa dimensão superior na qual se experimenta o amor, que é o fundamento de uma verdadeira justiça”.

A narrativa do apócrifo russo, revela a vitória da misericórdia (religião da mãe) sobre a justiça (religião do pai).

Deus-Pai-e-Mãe não tem uma caixa de lixo

Dito numa linguagem do quotidiano: Deus, Pai e Mãe de bondade e de infinita misericórdia não têm uma caixa de lixo eterna, para onde jogam os que neste mundo não deram certo. Seria uma derrota eterna para Eles que jamais poderão ser vencidos pelas forças do Maligno.

A misericórdia que é o amor dolorido que se compadece dos padecimentos humanos, superou a justiça. No juízo individual no qual se darão conta de sua justiça, os pecadores, envergonhados, reconhecem o mal que fizeram. Sofrem terrivelmente (existencialmente não seria o purgatório?). Mas o sofrimento é purificador. Por isso, este não tem a última palavra. A última página do livro da vida é escrita pelo amor e pela misericórdia. É da natureza divina, toda amor e compaixão, perdoar e reconduzir a todos os seus filhos e filhas ao seu seio bem-aventurado.

Foi para isso que foram pensados e queridos por Deus desde toda a eternidade. E Jesus é o salvador universal, cujo poder de resgate das vítimas do mal não conhece limites. Seu gesto redentor é verdadeiramente universal e sempre vitorioso. Nenhum mal resiste ao amor e à misericórdia. Ele jamais poderá triunfar.

Pala justiça, o mal é reconhecido, faz sofrer de modo que este sofrimento funciona como uma clínica purificadora da Deus. Purificados pelo sofrimento e muito mais pela intensidade incomensurável do amor divino, todos saem transfigurados. Por causa da misericórdia são perdoados. E assim Deus é sempre e eternamente vitorioso contra todas as forças do Negativo da história.

O sentido último da encarnação não é outro que este: Deus vem, assume a nossa condição frágil e mortal e nos toma porque somos seus, leva-nos para a morada eterna que nos foi preparada antes do princípio da criação. E aí viveremos e festejaremos, festejaremos e nos alegraremos, nos alegraremos e conviveremos como irmãos e irmãos, junto com toda a comunidade de vida também ela transfigurada, no Reino bem-aventurado da Trindade, do Pai do Filho e do Espírito Santo.

Leonardo Boff,

Olim frater, franciscano de espírito, herdado da alma Província da Imaculada Conceição do Sul do Brasil.

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Little known facets of Fidel Castro

Each thing and each person has many facets. As I have said, each point of view is the view from a point. Everyone occupies a point on this planet and in the society of which we are a part. And from that point, each sees such reality as can be seen from that point. That is why we cannot treat any point of view as absolute, as if it were the only one. This is the origin of fundamentalism and discrimination.

That thought is worth keeping in mind with respect to the many points of view that are being expressed about the saga of Fidel Castro. No point can encompass all the views.

Something else must be considered. Each human possesses his share of light and his share of darkness. Spoken in the dialect of the new anthropology: each human being is sapiens and simultaneously demens. Thus, each human is a carrier of intelligence and of a sense of life. That is his sapiens moment. And he simultaneously displays deviations and contradictions. That is his demens moment.

Both always appear together. That is not a defect in our being. Is an objective fact of our human reality that must always be taken into account. It is also important when we evaluate Fidel Castro’s complex figure: his light and his darkness.

I want to make some points, beginning with those which enabled me to have a unique visit with Fidel Castro. The first is the negation of TINA (There is No Alternative ). The prevailing capitalist system maintains that “there is no alternative to capitalism,” that capitalism represents the pinnacle of human societies. Fidel Castro showed that socialism can offer a very distinct alternative to capitalism, which is now in a radical crisis of survival. The fury with which the United States attacked Cuba and Fidel, so as to destroy Cuban socialism, was intended to show that there can be no alternative to capitalism. Good or bad, with all its known defects, socialism is another possible means of organizing society.

A second point worth noting was Fidel Castro’s interest in the Theology of Liberation. He even confessed that if the Theology of Liberation had existed in his time, (it only began in 1970), he would have incorporated its lessons in the development of Cuban society. Under the pressure of the Cold War he was forced to side with the Soviet Union and from there to adopt Marxism. Fidel read and noted our principal works, those of Gustavo Gutierrez, Frei Betto, the works of my brother Fray Clodovis and my own. The books were all annotated with various colors. And in the margins were lists of questions and expressions about which he asked for clarification.

Another relevant point was his invitation, during the time of “polite silence” that was imposed on me in 1984 by the former Holy Office (the Inquisition). Fidel invited me to spend 15 days with him on the Island to explore questions of religion, Latin America and the world. He was a friend of the Apostolic Nuncio. As soon as I arrived he phoned the Nuncio, and in my presence, he told him: “Boff is here with me. I myself will ensure that he observes the polite silence. He will only talk with me”. In effect, we visited the whole island through our conversations, which lasted very late into the night. I recorded almost everything in three thick notebooks, because I wanted to turn them into material for a book. A few days after I returned from Cuba I left the three notebooks in the trunk of the car while I went to talk for a moment (some 15 minutes) with Don Aloisio, Cardinal, Lorscheider, who was the guest in the house of a friend in Copacabana. When I returned, I saw that the trunk of the car had been opened. Nothing was taken, except my three notebooks. I suspect that the security services of Brazil, or from the exterior, appropriated the material.

Another fact shows Fidel Castro’s tender dimension, to which many can attest.

I have a niece with a type of rheumatism that no physician could treat. I asked Fidel whether it was possible to treat her in Cuba. He asked me for all the medical information from Brazil, and he personally spoke with the Cuban doctors.

In effect, there was no cure. Each time Fidel saw me, the first thing he would ask was: “¿How is your niece Lola doing?” That affectionate and tender memory is not common in heads of state. Generally, where power predominates love does not prevail, nor does tenderness flourish. It was different with Fidel. He was extremely happy when I told him that a Brazilian physician had created a vaccine, of which a side effect was that it cured that type of rheumatism.

These are small gestures that show that power does not need to fatally undermine so profound a dimension as tenderness and concern for the destiny of the other.

The legacy of his charismatic persona will remain as a reference point for those who refuse to further the culture of capitalism, with all the injustices to the social and ecological order that accompany it.

Leonardo Boff Theologian-Philosopher and of the Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

Imitazione di Cristo”: il libro più letto dopo la Bibbia

Avendo compiuto più di 50 anni di lavoro teologico, mi sono proposto una sfida: ritradurre la “Imitazione di Cristo” dal latino medievale, ritoccando lo stile, nel senso di andare al di là del tradizionale dualismo della visione classica e, infine, aggiungendo una parte scritta secondo la cosmologia moderna che cerca di articolare e comprende tutte le dimensioni più adatte allo spirito contemporaneo. È stato un lavoro scrupoloso che mi è costato due anni di lavoro. Potrebbe essere il mio canto del cigno nel campo della teologia sistematica, il mio “Nunc dimittis, Domine” della Bibbia ( “Ora, Signore, posso andare”).

Il suo autore è il venerabile Tommaso da Kempis (1380-1471), nato in Germania. È stato per tutta la vita maestro spirituale dei giovani religiosi dei Canonici di S. Agostino. Ha prodotto un lavoro di profonda spiritualità che ha alimentato la cristianità fino ad oggi, letto, riflettuto e sempre citato da nomi di rilievo come Freud, Jung e Heidegger.

Ci sono più di mille edizioni della “Imitazione di Cristo” diffuse in tutto il mondo, essendone state raccolte nel British Museum più di centomila copie.
Il libro si compone di quattro parti, alle quali ho avuto l’ardire di aggiungerne una quinta con lo stesso stile dell’autore. Le ho dato il titolo “Seguendo Gesù lungo i sentieri della vita.” Questo seguito completa l’imitazione in modo che, per imitazione, si cerca di raggiungere il Monte Tabor dell’anima e, come prosecuzione, le pianure e le valli dove lottano e lavorano gli esseri umani.

Thomas da Kempis aveva una mente libera. Anche all’interno del modo di sentire della tendenza spirituale più diffusa del tempo, chiamata “Devozione moderna”, non si è lasciato influenzare da qualsiasi scuola teologica o tendenza mistica. Al contrario, egli mostra una distanza ed anche un velato sospetto su tutto il sapere teologico e teorico e su rivelazioni private. Ciò che conta per lui è l’esperienza dell’incontro con Cristo, la sua croce, la sua obbedienza al Padre, la sua umiltà, la sua misericordia, l’amore incondizionato e la sua passione e crocifissione coraggiosamente supportate. Il tema dello spogliarsi di se stesso e di tutte le dipendenze dell’ego acquista particolare importanza, al punto di avere attirato l’attenzione dei più acuti analisti della condizione umana.

Qual è la particolarità della “Imitazione di Cristo”? Il percorso della “Imitazione di Cristo”, sottolinea il Cristo della fede e le sue virtù: la sua umiltà, il suo amore per i poveri e i peccatori, la sua compassione per i malati e i discriminati, il loro atteggiamento verso la condizione umana che ha condiviso con noi. La Lettera agli Ebrei afferma chiaramente che egli “è stato messo alla prova in tutto” (4.15), “perché anche lui è un uomo debole” (5.2) e “imparò l’ubbidienza da quel che dovette patire“ (5,8) .
San Paolo va oltre quando ci ammonisce ad ” Abbiate in voi gli stessi sentimenti di Cristo Gesù: egli, pur essendo nella condizione di Dio, non ritenne un privilegio l’essere come Dio, ma svuotò se stesso assumendo una condizione di servo, diventando simile agli uomini. Dall’aspetto riconosciuto come uomo, umiliò se stesso facendosi obbediente fino alla morte e a una morte di croce.” (Fil 2, 5-8), una punizione infame nel suo tempo. Non ha avuto “vergogna di chiamarci fratelli” (Eb 2,11) e nel giudizio finale si riferisce ai poveri e emarginati chiamandoli i “più piccoli di questi miei fratelli e sorelle” (Mt 25,40).

Questi sono gli atteggiamenti che l’autore propone ai suoi ascoltatori per raggiungere un elevato livello di vita spirituale. Cristo parla alla soggettività della persona in cerca di un cammino spirituale e la porta a scoprire i meandri della malvagità umana, ma anche tutta la grandezza della possibilità di conquistare un alto livello di vita interiore.

Tommaso da Kempis, meglio di qualsiasi psicoanalista, capisce i segreti meandri dell’anima umana, le sollecitazioni del desiderio, l’angoscia che producono, ma indica anche modi di come trattarli, confidando sempre nella grazia di Dio, nella misericordia di Gesù e nello svuotamento completo di se stessi. Prova a confortare l’imitatore fedele con l’esempio di Cristo e mostra la gioia senza precedenti della intimità con Lui e, infine, la grandezza della ricompensa eterna preparata per lui nell’eternità.

Il libro offre una spiritualità cristallina come la fontana di acqua dietro casa. Orienta e nutre ancora oggi la ricerca umana di un incontro con il Mistero di tutte le cose: il Dio interiore ed esteriore che riempie tutto.

Leonardo Boff ha pubblicato nella Editora Vozes di Petropolis, 2016, la “Imitação de Cristo” e il “Seguimento de Jesús”.

Traduzione di S. Toppi e M.Gavito

Aspetti poco conosciuti di Fidel Castro

Ogni cosa, come ogni persona, ha molte facce. Come ho già detto una volta, ogni punto di vista è diverso. Ognuno di noi occupa un posto su questo pianeta e nella società in cui vive. E da quel posto si vede la realtà che questo permette di vedere. Quindi non possiamo assolutizzare nessun punto di vista come se fosse l’unico. Da questo nascono fondamentalismi e discriminazioni.

Questo modo di pensare si applica ai molti pareri che si sentono oggi sulla personalità di Fidel Castro. Ma nessuno di essi è in grado di esaurire tutti i diversi modi di vedere.

C’è un altro elemento da considerare. Ogni essere umano ha le sue zone di luce e di ombra. Oppure, detto come dice la nuova antropologia: ogni essere umano è allo stesso tempo sapiens e demens. Cioè, ogni essere umano è portatore di intelligenza e di un senso della vita. È la parte sapiens. E allo stesso tempo mostra deviazioni e contraddizioni. È il momento demens. Entrambi si presentano sempre insieme. Questo non è un difetto della nostra costituzione. Si tratta di un dato obiettivo della nostra realtà umana che deve essere sempre preso in considerazione. Si applica anche quando giudichiamo la complessa figura di Fidel Castro: le sue luci e le sue ombre.

Voglio fare riferimento ad alcuni aspetti che mi hanno permesso una visione particolare di Fidel Castro. Il primo punto è la negazione di TINA (There Is No Alternative = non c’è alternativa). Il sistema capitalistico predominante dice che “non c’è alternativa ad esso.” Questo rappresenta il punto più elevato delle società umane. Fidel Castro ha dimostrato che il socialismo può essere una alternativa diversa dal capitalismo, ora in crisi radicale di auto-riproduzione. La furia degli Stati Uniti contro Cuba e Fidel per distruggere il socialismo cubano c’è stata per dimostrare che non ci può essere un’altra alternativa. Giusto o sbagliato, con i difetti che conosciamo, il socialismo si presenta come un altro modo di organizzare la società.

Un secondo punto forte di Fidel è stato il suo interesse per la teologia della liberazione. Egli ha confessato che, se a suo tempo fosse esistita la Teologia della Liberazione (iniziata a partire dal 1970), lui avrebbe preso come riferimento questa lettura per costruire la società cubana. Sotto la pressione della guerra fredda è stato costretto a schierarsi dalla parte dell’URSS, e da qui deriva l’assunzione del marxismo a Cuba. Leggeva i nostri libri più importanti, di Gustavo Gutiérrez, di Frei Betto, del mio fratello frate Clodovis e miei. Questi libri erano stati tutti segnati da lui con matite di vari colori. E accanto una lista di domande ed espressioni sulle quali voleva chiarimenti.

Un altro punto importante è stato l’invito rivoltomi durante il periodo di “silenzio ossequioso”, che mi fu imposto nel 1984 dall’ex Sant’Uffizio. Mi invitò a trascorrere 15 giorni con lui sull’isola per approfondire i temi della religione, dell’America Latina e del mondo. Era amico del Nunzio Apostolico. Appena arrivato lo chiamò e davanti a me gli disse: “Boff è qui con me. Io stesso farò in modo che osservi il “silenzio ossequioso”. Parlerà solo con me”. In effetti abbiamo visitato insieme l’intera isola, avendo colloqui che andavano avanti fino a tarda notte. Avevo scritto quasi tutto questo in tre grossi quaderni perché volevo trasformare il materiale in un libro. Pochi giorni dopo il mio ritorno da Cuba, avevo lasciato i tre quaderni nel bagagliaio dell’auto per parlare brevemente con il cardinale dom Aloisio Lorscheider, ospite da un amico a Copacabana, non più di 15 minuti. Quando ritornai, vidi che il bagagliaio era stato forzato, non avevano preso niente, solo i tre quaderni. Il mio sospetto è che agenzie di sicurezza nazionali o straniere avevano portato via il materiale.

Un altro fatto dimostra la dimensione di tenerezza di Fidel Castro, qualcosa che molti testimoniano. Ho una nipote con un tipo di artrite che nessun medico era in grado di curare. Ne parlai con Fidel per capire se questa malattia potesse essere trattata a Cuba. Mi chiese tutti i referti medici che aveva. Lui stesso si incaricò di parlare con i medici cubani. Effettivamente non c’era alcuna cura possibile. Ogni volta che mi incontrava, la prima cosa che chiedeva era: “Come va Lola, sua nipote?” Questa memoria affettuosa e tenera non è comune nei capi di stato. Generalmente dove domina il potere non prevale l’amore né fiorisce la tenerezza. Fidel era diverso. Si rallegrò enormemente quando gli dissi che un medico brasiliano aveva scoperto un vaccino il cui effetto collaterale era quello di curare questo tipo di reumatismo.

Sono piccoli gesti che dimostrano che il potere non ha necessariamente bisogno di oscurare questa dimensione profonda che è la tenerezza e la preoccupazione per la sorte di un’altra persona.

L’eredità della sua persona carismatica rimarrà come un punto di riferimento per coloro che si rifiutano a riprodurre la cultura del capitale con le ingiustizie che lo accompagnano, di ordine sociale ed ecologico.

*Leonardo Boff è articolista del JB on-line e scrittore.

Traduzione di S.Toppi e M.Gavito