Os estudantes querem um outro Brasil e um outro tipo de política

Seria ingênuo pensar que o movimento dos estudantes ocupando escolas e universidades se esgota na crítica de um dos mais vergonhosos projetos já havidos, da reforma do ensino médio ou no protesto contra a PEC 241 da Câmara e agora PEC 55 do Senado, PEC da brutalização contra os mais vulneráveis da nação. O que se esconde atrás das críticas é algo mais profundo: a rejeição do tipo de Brasil que até agora construimos e de política, corrupta feita por parlamentares em proveito próprio. Junto vem o lado mais positivo: a demanda por uma outra forma de construir o Brasil e de reinventar uma democracia, não de costas para o povo, mas com ele particpando nas discussões e decisões das grandes questões nacionais.

Já abordei neste espaço este tema, a propósito do movimento dos jovens de 2013. Este movimento retorna com mais vigor e mais capacidade de se impôr aos responsáveis pelos destinos de nosso  país. Três autores continuam a nos inspirar, pois sempre lutaram por um outro Brasil e sempre foram derrotados.

O primeiro é Darcy Ribeiro num texto de 1998 como prefácio ao meu livro O caminhar da Igreja com os oprimidos:”Nós brasileiros surgimos de um empreendimento colonial que não tinha nenhum propósito de fundar um povo. Queria tão-somente gerar lucros empresariais exportáveis com pródigo desgaste de gentes”. Esta lógica do ultraliberalismo atual se radicalizou no Brasil.

O segundo é de Luiz Gonzaga de Souza Lima na mais recente e criativa interpretação do Brasil:”A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada (São Carlos 2011):”Quando se chega ao fim, lá onde acabam os caminhos, é porque chegou a hora de inventar outros rumos; é hora de outra procura; é hora de o Brasil se refundar; a refundação é o caminho novo e, de todos os possíveis, é aquele que mais vale a pena, já que é próprio do ser humano não economizar sonhos e esperanças; o Brasil foi fundado como empresa. É hora de se refundar como sociedade”(contra-capa). Essa hora chegou.

O terceiro é um escritor francês François-René de Chateaubriand (1768-1848):”Nada é mais forte do que uma ideia quando chegou o momento de sua realização”. Tudo indica que este momento de realização está a caminho.

Os jovens que estão ocupando os lugares de ensino estão revelando mais inteligência, a exemplo da jovem Ana Júlia Ribeiro, falando na Câmara Legisliva do Paraná, do que a maioria dos representantes sentados em nossas casas parlamentares, interessados mais em seus negócios e na própria reeleição do que no destino do povo brasileiro.

Sem definição partidária, com seus cartazes incisivos ,os estudantes nos querem dizer:: estamos cansados do tipo de Brasil que vocês nos apresentam, com democracia de baixa intensidade, que faz políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres, na qual as grandes maiorias são feitas invisíveis e jogadas nas periferias, sem estudo, sem saúde, sem segurança e sem lazer Queremos outro Brasil que esteja à altura da nossa consciência, feito de povo misturado e junto, alegre, sincrético e tolerante.

Efetivamente, até hoje o Brasil foi e continua sendo um apêndice do grande jogo econômico e político do mundo. Mesmo politicamente libertados, continuamos sendo reconolizados, esta é a palavra exata, recolonizados, pois as potências centrais antes colonizadoras, nos querem manter colonizados, condenando-nos a ser uma grande empresa neocolonial que exporta commodities: grãos, carnes, minérios. Desta forma nos impedem de realizarmos nosso projeto de nação independente, soberana e altiva.

Diz com fina sensibilidade social Souza Lima:”Ainda que nunca tenha existido na realidade, há um Brasil no imaginário e no sonho do povo brasileiro. O Brasil vivido dentro de cada um é uma produção cultural. A sociedade construíu um Brasil diferente do real histórico, o tal país do futuro, soberano, livre, justo, forte mas sobretudo alegre e feliz”(p.235). No movimento atual renasce este sonho exuberante de Brasil.

Caio Prado Júnior em sua A revolução brasileira (Brasiliense 1966) acertadamente escreveu: ”O Brasil se encontra num daqueles momentos em que se impõem de pronto reformas e transformações capazes de reestruturarem a vida do país de maneira consentânea com suas neessidades mais gerais e profundas e as espirações da grande massa de sua população que, no estado atual, não são devidamente atendidas”(p. 2).

Com os personagens que estão aí na cena política, grande parte acusada de corrupção ou feita réu ou condenada, não podemos esperar nada senão mais do mesmo. Devem ser democraicamente alijados da história para termos campo limpo para o novo.

Sobre que bases se fará a Refundação do Brasil? Souza Lima nos diz que é sobre aquilo que de mais fecundo e original que temos: a cultura nacional tomada no seu sentido mais amplo que envolve o econômico, o politico e o especificamente cultural: ”É através de nossa cultura que o povo brasileiro passará a ver suas infinitas possibilidades históricas. É como se a cultura, impulsionada por um poderoso fluxo criativo, tivesse se constituído o suficente para escapar dos constrangimentos estruturais da dependência, da subordinação e dos limites acanhados da estrutura socioeconômica e política da empresa Brasil e do Estado que ela criou só para si. A cultura brasileira então escapa da mediocridade da condição periférica e se propõe a si mesma com pari dignidade em relação a todas as culturas, apresentando ao mundo seus conteúdos e suas valências universais”(p.127).

Por este texto,  Souza Lima se livra da crítica justa de Jessé Souza, feita à maioria de nossos intérpretes do status quo histórico: “A tolice da inteligência brasileira”(Leya 2015), completada com “A readiografia do golpe”(Leya 2016).

A maioria destes clássicos intérpretes, olharam para trás e tentaram mostrar como se construíu o Brasil que temos. Souza Lima, como os jovens de hoje, olha para frente e tenta mostrar como podemos refundar um Brasil na nova fase planetária, ecozóica, rumo ao que ele chama “uma sociedade biocentrada”.

Ou o Brasil diferente nascerá destes jovens estudantes, ou corremos o risco de perdermos novamente o carro da história. Eles podem ser os protagonistas daquilo que deve nascer.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor.

Como explicar a vitória de Trump e a derrota de Hillary: Naomi Klein

 Se há uma pessoa que se coloca claramente do lado das vítimas do atual sistema financeiro mundial e que tem autoridade e credibilidade esta é seguramente a jornalista e ativista canadense Naomi Klein. Sem complicados argumentos nos oferece as razões pelas quais Donald Trump venceu as eleições presidenciais nos USA e porque Hillary Clinton, por alegadas razões, perdeu apesar de todo o apoio   do establishment norte-americano e mundial. Sua análise confirma aquela que publiquei neste blog sob o título:Hillary e Trump:entre o pior e o ruim. O momento  atual com repercussões mundiais merece reflexão. Por isso é recomendável ler várias interpretações a partir de distintos pontos de vista para termos uma leitura mais adequada da história que nos toca viver nos próximos anos. O artigo de Noemi Klein foi publicado em Outras Palavras de 10/11/2016 e reproduzido por IHU de 11/11/2016:  LBoff
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Eis o artigo.

Eles irão culpar, pelo derrota de Hillary Clinton, o FBI e seu chefe, James Comey [que reabriu o caso sobre os emails possivelmente criminosos da candidata]. Vão culpar a supressão de eleitores e o racismo. Vão por a culpa na atitude Bernie or bust (ou Bernie Sanders ou nada) e na misoginia. Vão apontar para candidatos independentes e terceiros: a mídia corporativa, por dar a Trump uma tribuna; a mídia social por ser um megafone; e o WikiLeaks por expor a roupa suja em público.

Mas estas avaliações deixam de fora o maior responsável por criar o pesadelo em que agora nos encontramos: o neoliberalismo. Essa visão de mundo – totalmente incorporada por Hillary Clinton e sua máquina – não é páreo para o estilo extremista de Trump. O fato de a disputa ter colocado um contra o outro é o que selou nossa sorte. Se não aprendermos mais nada, podemos por favor aprender com esse erro?

Eis o que precisamos entender: um enorme contingente de pessoas está sofrendo, nos Estados Unidos. Sob políticas neoliberais de desregulação, privatização, austeridade e comércio corporativo, seu padrão de vida despencou. Perderam seus empregos. Perderam suas aposentadorias. Perderam muito da rede de segurança que costumava tornar essas perdas menos apavorantes. Veem para seus filhos um futuro ainda pior do que o seu precário presente.

Ao mesmo tempo, testemunharam a ascensão da classe de Davos — uma rede hiperconectada de bilionários do setor financeiro, que elegeu líderes espantosamente próximos de seus interesses, e celebridades de Hollywood que fazem tudo parecer insuportavelmente glamourosas. O sucesso é uma festa à qual eles não foram convidados, e eles sabem que essa riqueza e poder crescentes está de alguma forma diretamente ligada às suas dívidas e impotência progressivas.

Para as pessoas que viam segurança e status como direitos de nascença – e isso significa homens brancos, principalmente – essas perdas são insuportáveis. Donald Trump fala diretamente para essa dor. A campanha do Brexit falou para essa dor. Também o fazem os partidos de extrema direita que crescem na Europa. Eles respondem a isso com um nacionalismo nostálgico e raiva das remotas burocracias econômicas – seja Washington, o Acordo Norte-americano de Livre Comércio (Nafta), a Organização Mundial de Comércio ou a União Europeia. E claro, respondem a isso batendo nos imigrantes, latinos e negros, vilipendiando muçulmanos e degradando as mulheres. O neoliberalismo de elite não tem nada a oferecer para essa dor, porque o neoliberalismo lançou a classe de Davos. Pessoas como Hillary e Bill Clinton são o brinde da festa de Davos. Eles são, na verdade, a própria festa.

A mensagem de Trump era: “Está tudo um inferno.” Clinton respondeu: “Está tudo bem.” Mas nada está bem – longe disso.

As respostas neofascistas à insegurança e à desigualdade generalizadas não vão desaparecer. Mas o que sabemos dos anos 1930 é que, para lutar contra o fascismo, é preciso uma esquerda de verdade. Uma boa parte do apoio a Trump poderia ser afastada se houvesse sobre a mesa uma agenda redistributiva genuína. Uma agenda para tributar da classe bilionária com mais do que retórica, e usar o dinheiro para um New Deal verde. Esse plano poderia criar uma onda enorme de empregos sindicalizados bem pagos, trazer recursos e oportunidades extremamente necessários para as comunidades negras e insistir em que poluidores deveriam pagar pelas ações de formação necessárias para que os trabalhadores sejam inteiramente incluídos nesse futuro.

Tal plano poderia desenhar políticas que lutassem ao mesmo tempo contra o racismo institucionalizado, a desigualdade econômica e as mudanças climáticas. Ele poderia enfrentar maus acordos de comércio e violência policial, e honrar o povo indígena como os protetores originais da terra, da água e do ar.

As pessoas têm direito de estar com raiva, e uma agenda de esquerda poderosa e multitemática pode dirigir essa raiva para onde ela deve ser dirigida, enquanto luta por soluções globais que unirão uma sociedade desgastada.

Essa articulação é possível. No Canadá, começamos a pavimentar essa união sob a bandeira de uma agenda popular denominada The Leap Manifesto (O Manifesto do Salto), endossado por mais de 220 organizações, do Greenpeace do Canadá ao “Black Lives Matter” de Toronto e alguns dos nossos maiores sindicatos.

A surpreendente campanha de Bernie Sanders percorreu um longo caminho na direção de construir esse tipo de coalizão, e demonstrou que há espaço, nos EUA, para o socialismo democrático. Mas Sanders não foi capaz de se comunicar com os eleitores negros mais velhos e latinos que são, demograficamente, os que sofrem mais abuso do nosso modelo econômico atual. Esse fracasso impediu a campanha de atingir seu potencial. Aqueles erros podem ser corrigidos e uma coalizão forte e transformadora pode ser construída.

Essa é a tarefa que temos à frente. O Partido Democrata precisa ser, ou decididamente arrancado dos neoliberais pró-corporações, ou abandonado. De Elizabeth Warren a Nina Turner aos membros do Occupy que tocaram a campanha inovadora de Bernie, há hoje — mais do que em qualquer outro momento — um campo de líderes progressistas inspiradores para uma coalizão mais forte. Estamos cheios de líderes, como dizem muitos do Movimento pelas Vidas Negras.

Então, vamos sair do estado de choque o mais rápido possível e construir o tipo de movimento radical que tem uma resposta genuína ao ódio e medo representados pelos Trumps neste mundo. Vamos deixar de lado tudo o que está nos mantendo separados e começar já.

NOTA DE SOLIDARIEDADE E DENÚNCIA CONTRA INVASÃO DA ESCOLA DO MST

NOTA DE SOLIDARIEDADE E DENÚNCIA   –  ABAIXO A DEMOCRADURA

Nós abaixo assinados, filósofos, teólogos, cientistas sociais, assessores e agentes de pastoral de diversas Igrejas, manifestamos nossa irrestrita solidariedade aos professores, alunos, funcionários e visitantes da Escola Nacional Florestan Fernandes em Guararema SP, vítimas de violenta ação policial na manhã de 04 de novembro, operação ocorrida em outros estados do país contra assentamentos do MST. Tiros foram disparados contra as pessoas ali presentes, como se fossem bandidas. Algumas foram feridas e outras conduzidas à força para a delegacia.

Denunciamos com indignação essa escalada repressiva dos governos Temer e Alkmin, responsáveis pela ilegal ação policial, e invasão da Escola, sem mandato judicial.

A criminalização dos movimentos sociais é um grave sintoma de subversão do Estado democrático de direito.

O Brasil não merece nem admite que cidadãos e cidadãs participantes de movimentos sociais, excluídos de sagrados direitos como Terra Teto e Trabalho, reiteradamente defendidos pelo papa Francisco, sejam violados em sua dignidade, por forças policiais que agem com violência e ao arrepio da lei.

Petrópolis , 05 de novembro de 2016

A nota foi assinada pelas seguintes pessoas:

FREI BETTO – Assessor movimentos populares
LEONARDO BOFF – Teólogo, membro  da Carta da Terra
AFONSO MURAD – Teólogo e ambientalista
ROMI MÁRCIA BENCKE – Pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana (IECLB)
MARIA TEREZA SARTORIO – Movimento Fé e Política – Educadora Popular
FRANCISCO DE AQUINO JUNIOR – Teologo – CE
LUIZ CARLOS SUSIN – Teólogo – PUC – Porto Alegre RS, teólogo, Fórum Social Mundial
OLINTO PEGORARO – Professor de filosofia política e ética na UERJ – Rio de Janeiro RJ
TEREZA MARIA POMPEIA CAVALCANTI – teóloga PUC – Rio de Janeiro RJ
BENEDITO FERRARO – Professor de Teologia – PUC – Campinas, SP
Ir. ANTONIO CECCHIN irmão marista e catequista da libertação, Porto Alegre, RS
MANFREDO ARAÚJO DE OLIVEIRA – Professor de Filosofia da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE
LUIZ ALBERTO GOMEZ DE SOUZA – Sociólogo – Universidade Candido Mendes, Rio de Janeiro RJ
JOSE OSCAR BEOZZO, teólogo, educador e historiador – CESEEP – Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular, São Paulo SP
MARCELO BARROS – teólogo e assessor dos movimentos sociais – Recife PE
ANDREA GUIMARAES – bióloga, pesquisadora e professora universitária
EDWARD GUIMARAES – Professor da FAJE – Belo Horizonte MG
SINIVALDO S. TAVARES – teólogo – professor Belo Horizonte MG
PEDRO RIBEIRO DE OLIVEIRA -sociólogo, Movimento Fé e Política – Juiz de Fora MG
ROSILENY SCHWANTES – Psicóloga, doutora em Ciências da Religião, professora universitária, São Paulo, SP
TEOFILO CAVALCANTI – Economista, Rio de Janeiro, RJ
ALESSANDRO MOLON – professor e parlamentar federal – Rio de Janeiro RJ
LÚCIA RIBEIRO – Sociólogo – Rio de Janeiro, RJ
EDWARD NEVES MONTEIRO DE BARROS GUIMARÃES – Professor e teólogo, Belo Horizonte MG
ROSEMARY FERNANDES COSTA – Professora e teóloga – Rio de Janeiro, RJ
CELSO PINTO CARIAS – Teólogo, assessor das CEBs – Duque de Caxias, RJ
IVO LESBAUPIN – sociólogo – professor, Rio de Janeiro, RJ
AURELINA DE JESUS CARIAS – Educadora, Duque de Caxias, RJ
MARIA HELENA ARROCHELLAS – Teóloga – Petrópolis, RJ

Reflexão para o dia de finados: a passagem pela clínica de Deus

               A passagem pela clínica de Deus

                      Entrevista a João Vitor Santos
                             IHU n. 493 1/11/2016
A morte é um acabar de nascer. Como dizia José Marti: ‘morrer é fechar os olhos para ver melhor’, ver Deus e as realidades bem-aventuradas que desde sempre Ele nos preparou”. É assim que o teólogo Leonardo Boff apresenta seu entendimento sobre a morte.
“A vida se estrutura dentro de duas linhas: numa, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo até acabar de nascer. É o momento da morte.
Na outra, a vida começa a morrer, pois lentamente o capital vital vai se consumindo ao longo da vida até acabar de morrer”, explica. Nessa sua perspectiva, está incrustado o conceito de ressurreição. “No cruzamento das duas linhas se dá a passagem para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: a vida que chega, na morte, àplena realização de suas potencialidades”.
Assim, o teólogo se propõe a olhar a experiência do Cristo para ampliar o entendimento sobre a morte.
“Como todos os humanos, ele temeu a morte porque amava esta vida”, pontua. “Mas Jesus superou o momento da desesperança. Triunfou uma entrega serena ao Mistério sem nome”, completa, ao lembrar que a resposta à en- trega foi a ressurreição. O teólogo ainda recupera a história de São Francisco de Assis para falar da cosmologia da morte. Lembra que o frei não toma a morte como algo sinistro, “mas uma irmã que nos conduz aonosso destino derradeiro e benaventurado”. Para Francisco, “morrer é entrar também em comunhão com a Mãe Terra”. Foi, segundo Boff, por isso que ele pediu que o colocassem nu sobre a terra, num “arquetípico de uma profunda comunhão coma irmã e Mãe Terra”.
Na entrevista a seguir, concedida por e- -mail à IHU On-Line, Boff ainda lembra como a atual vida moderna, presa ao material, tende a entender a morte como perda, uma desgraça. O que, para ele, é uma pers- pectiva reducionista diante da potência de vida que há na humanidade. Por isso, pro- voca: “precisamos é acolher a morte como parte da vida. Não como uma desgraça, mas como a passagem alquímica para outro estágio do mistério da vida”.
Leonardo Boff é teólogo. Sobre o tema da morte, escreveu dois livros publicados pela Editora Vozes: Vida para além da morte (1973) e A ressurreição de Cristo – a nossa ressurreição na morte (1974), além de artigos para congressos de médicos e psicanalistas. Durante 22 anos, foi professor de Teologia Sistemática no Instituto Franciscano de Petrópolis e, posteriormente, professor de Ética e de Ecologia Filosófica na Universidade do Rio de Janeiro. Sua bi-bliografia é composta por cerca de 100 livros que tratam de temas ligados à teologia, à mística, espiritualidade, filosofia, ética e ecologia.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – A morte pode ser entendida como um fim da vida?
Leonardo Boff – Não considero a morte como o fim da vida. Morrer é um acabar de nascer. A vida vai para além da morte. Por isso meu livro sobre o tema não se intitu- la: “Vida depois da morte”, mas “Vida para além da morte”. A vida se estrutura dentro de duas linhas:
Numa, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo até acabar de nascer. É o momento da morte. Na outra, a vida começa a morrer,no momento mesmo em que nascemos, pois lentamente o capital vital vai se consumindo ao longo da vida até acabar de morrer.
No cruzamento das duas linhas se dá a passagem para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: a vida que chega, na morte, à plena realização de suas potencialidades, ao irromper para dentro de Deus. Mas não de qualquer jeito, pois somos imperfeitos e pecadores. Passaremos pela clínica de Deus na qual amadureceremos até chegar à nossa plenitude. É o juízo purificador. Outros chamam de purgatório.
Em todos os casos não vivemos para morrer, como diziam os existencialistas. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor.
IHU On-Line – Como podemos relacionar morte e juízo final? Em que medida esse temor ao juízo se transforma no medo da morte, limitando uma compreensão mais ampla?
Leonardo Boff – Para a pessoa que morre, o mundo se acabou. Deixou-o para trás. Começa outro tipo de mundo. Depois do tempo vem a eternidade. Mas entre um e outro há o juízo, não medido pelo tempo do relógio, sempre igual, mas pelo tempo existencial, próprio de cada pessoa. Por esse juízo nos é concedida a oportunidade de uma visão global de nossa vida, dentro da corrente da vida universal e de nosso lugar dentro do universo. E também dentro do plano de Deus.
Nessa cisão entre o tempo e a eternidade se cria a oportunidade de uma “de-cisão” derradeira, uma adesão ao projeto de Deus sobre nossa existência. Creio que será sempre positiva, tal é a intensidade da visão de amor e de atração da divina realidade.
A pessoa pode custar em desfazer-se de laços desordenados que não o alinhavam à lógica global do universo e de Deus. Mas o fará, pois fomos criados para sermos companheiros do infinito Amor. Morrer é voltar à casa a qual sempre pertencemos e que, depois de um penoso caminhar, purificados, chegaremos felizes a ela.
IHU On-Line – Como o conceito de morte pode nos evocar co- munhão? E como compreender o conceito de ressurreição a partir da morte?
Leonardo Boff – Morrer é penetrar no coração do universo, onde todas as coisas são um, quer dizer, onde todas as teias de relação, que constituem a realidade universal, encontram o seu nó de origem e de sustentação. É a possibilidade de comunhão de tudo com tudo e a iden- tificação de nosso lugar e de nossa importância para o todo e no todo. Nós mesmos nos tornamos cósmicos.
Esse é o conceito teológico de res-surreição. Não se trata da reanimação de um cadáver como o de Lázaro1 que, no final, acabou novamente morrendo. Trata-se da superação da morte e do ter que morrer.
Ressurreição comporta a realização de todas as potencialidades escondidas dentro de cada pessoa. Somos um projeto infinito, somos seres feitos de utopias e de sonhos. Agora eles podem vir à tona e conhecer uma ridente e plena concretização. Aí surge aquilo que São Paulo2 diz ao se referir, na Epístola aos Coríntios3, à ressurreição de Jesus: é irrupção do “novissimus Adam”, do ser novo, que recém acabou de nascer. Ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs. Conosco acontecerá o mesmo,

1 O entrevistado se refere ao texto de João 11, 38-57. (Nota da IHU On-Line)
2 Paulo de Tarso (3–66 d.C.): nascido em Tarso, na Cilícia, hoje Turquia, era origina- riamente chamado de Saulo. Entretanto, é mais conhecido como São Paulo, o Apóstolo. É considerado por muitos cristãos como o mais importante discípulo de Jesus e, depois de Jesus, a figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente. Paulo de Tarso é um apóstolo diferente dos demais. Primeiro porque, ao contrário dos outros, Paulo não conheceu Jesus pessoalmente. Antes de sua conversão, se dedicava à perseguição dos primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém. Em uma dessas missões, quando se dirigia a Damasco, teve uma visão de Jesus envolto numa grande luz e ficou cego. A visão foi recuperada após três dias por Ananias, que o batizou como cristão. A partir deste encon-tro, Paulo começou a pregar o Cristianismo. Ele era um homem culto, frequentou uma escola em Jerusalém, fez carreira no Templo (era fariseu), onde foi sacerdote. Era educado em duas culturas: a grega e a judaica. Paulo fez muito pela difusão do Cristianismo entre os gentios e é considerado uma das principais fontes da doutrina da Igreja. As suas Epístolas formam uma seção fundamental do Novo Tes- tamento. Afirma-se que ele foi quem verdadeiramente transformou o cristianismo numa nova religião, superando a anterior condição de seita do Judaísmo. A IHU On-Line 175, de 10-04-2006, dedicou sua capa ao tema Paulo de Tarso e a contemporaneidade, disponível em http://bit.ly/ihuon175, assim como a edi- ção 286, de 22-12-2008, Paulo de Tarso: a sua relevância atual, disponível em http:// bit.ly/1o5Sq3R. Também são dedicadas ao religioso a edição 32 dos Cadernos IHU em formação, Paulo de Tarso desafia a Igreja de hoje a um novo sentido de realidade, dis- ponível em http://bit.ly/ihuem32, e a edição 55 dos Cadernos Teologia Pública, São Paulo contra as mulheres? Afirmação e de- clínio da mulher cristã no século I, disponí- vel em http://bit.ly/ihuteo55. (Nota da IHU On-Line)

3 Primeira Carta aos Coríntios, 15, 1-57. (Nota da IHU On-Line)

cada um conforme a sua identidade que é singular e única. Mas todos res- suscitaremos, pois essa é a mensagem derradeira da ressurreição de Jesus. Não é apenas algo que ocorreu somente com ele. É o Messias que ressuscita. E segundo a tradição judaica ele não ressuscita sozinho mas com a sua comunidade. E a comunidade é a humana e também a cósmica.
IHU On-Line – O que a história do Cristo ensina e inspira a pensar sobre a morte?
Leonardo Boff – Jesus morreu
não porque todos morrem. Ele foi
sentenciado e condenado à morte.
A morte lhe foi imposta. A forma
como ele acolheu a morte nos é
inspiradora.
Como todos os humanos, ele temeu a morte porque
amava esta vida e seus amigos e
amigas com quem compartilhava
uma comunidade de destino. Mas
como diz a Epístola aos Hebreus,
“Jesus dirigiu preces e súplicas entre clamores e lágrimas àquele que
o podia salvar da morte” (5,8). O
texto continua dizendo “e foi atendido por sua piedade”. Exegetas 59 de renome como Bultmann4 e Har-nack5 afirmam que aqui havia um “não” (ouk): “e não foi atendido embora fosse Filho de Deus” (5, 8). Isso é coerente com a sequência do texto e com a história real de Jesus. Ele não foi libertado, ao contrário, sofreu a execução. A mesma angústia face à morte mostrou no jardim das Oliveiras:

4 Rudolf Karl Bultmann (1884-1976): foi um teólogo alemão. Em 1912 começou a tra- balhar como docente na área de Bíblia – Novo Testamento em Marburg; em 1916, tornou-se professor em Breslau; em 1920 foi para Gies- sen e, em 1921, transferiu-se para Marburg, onde criou um seminário seminal com Martin Heidegger, Friedrich Gogarten onde aplicavam as categorias de sua filosofia da existência à mensgem crista e à igreja. Lá viveu e trabalhou até o final de sua vida. Ocupou-se com muitos temas da teologia, filologia e arqueologia. Levantou questões importantes que dominaram a discussão te- ológica do século passado e são relevantes até hoje, como, por exemplo, o problema da de- mitologização. (Nota da IHU On-Line)

5 Adolf von Harnack (1851-1930): teólogo alemão, além de historiador do cristianismo. Suas duas obras mais conhecidas são o Lehr- buch der Dogmengeschichte (“Manual de his- tória do dogma”, em três volumes) e a série de palestras Das Wesen des Christentums (“A essência do cristianismo”), texto clássico da teologia liberal. Harnack recebeu diver- sas condecorações, entre outros, em 1902 a Ordem Pour le Mérite para as Ciências e as Artes, da qual foi chanceler de 1920 até a sua morte em 1930. (Nota da IHU On-Line)

“Pai, afasta de mim este cálice”. O texto diz que suou sangue. Médicos afirmam que condenados à morte, diante do pavor, suam sangue. Mas a maior expressão, de quase desespero, manifestou no alto da cruz, clamando em sua língua materna conservada na versão de São Marcos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste (Mc 15, 34)?6” E o texto termina de uma forma aterradora: “Dando um imenso grito, Jesus expirou” (Mc 15,37).
Superação da desesperança
Mas Jesus superou o momento da desesperança. Triunfou uma entrega serena ao Mistério sem nome, embora sempre o chamasse na linguagem da ternura infantil de Abba, “meu querido paizinho”: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. A resposta desta entrega confiante, para além de toda a tentação da desesperança, foi a sua ressurreição. O Pai o ressuscitou inaugurando uma nova humanidade, finalmente, redimida.
Qual a lição? Temeu a morte como todos a temem. Bebeu o cálice do temor e do pavor até ao fundo. Gritou ao céu. Mas, por fim, resignado e livre, acolheu o desígnio misterioso- do Pai, aceitando a morte. Bem diz no evangelho de João. “Ninguém me tira a vida, eu a dou por mim mesmo”.
Essa doação e entrega pode nos inspirar. A morte per- tence à vida e devemos integrá-la. Nós não sucumbimos à morte, mas nos transfiguramos através da morte, como foi o caso de Jesus. Em outras palavras: a palavra derradeira pronunciada por Deus sobre o nosso destino não é a morte, mas a vida em plenitude, a vida ressuscitada.
IHU On-Line – Como a experiência de São Francisco7 pode nos inspirar a pensar sobre a morte? Em que medida é possível afirmar que essa experiência atualiza a do próprio Cristo?

6 Sobre esse tema, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU possui diversos textos publicados disponíveis seu sítio. Destacamos, O grito de Jesus na cruz e o silêncio de Deus, artigo de Francine Bigaouette, Alexander Nava e Carlos Arthur Dreher, publicado em Cadernos de Teologia Pública, número 89, disponível em http://bit.ly/2dUWJBN. (Nota da IHU On-Line)

7 São Francisco de Assis (1181-1226): frade católico e leigo, fundador da “Ordem dos Frades Menores”, mais conhecidos como Franciscanos. Foi canonizado em 1228 pela Igreja Ca- tólica. Por seu apreço à natureza, é mundial- mente conhecido como o santo patrono dos animais e do meio ambiente. Sobre Francisco de Assis confira a edição 238 da IHU On-Li- ne, de 01-10-2007, intitulada Francisco. O santo, disponível para download em http:// bit.ly/1NLAtl7 e a entrevista com a medieva- lista italiana Chiara Frugoni, intitulada Uma outra face de São Francisco de Assis, na re- vista IHU On-Line número 469, de 03-08- 2015, disponível em http://bit.ly/2erAzUq. (Nota da IHU On-Line)

Leonardo Boff – São Francisco viveu uma experiência singular da morte. Como se havia reconciliado com todas as coisas, chamando- as com o doce nome de irmãos e irmãs, o mesmo fez com a morte. Ela é irmã que nos leva para a Casa do Pai. Não é uma figura sinistra que nos vem arrebatar a vida. Mas uma irmã que nos conduz ao nosso destino derradeiro. Morrer é ir ao encontro do Pai, sem medo, pois Ele é pura bondade, misericórdia e amor. Morrer é cair em seus braços para o abraço infinito da paz e do amor.
Em São Francisco não há angústia como notamos em Jesus, pois seguramente tinha diante dos olhos o fato da ressurreição. Há acolhida e total entrega. Morrer é entrar também em comunhão com a Mãe Terra. Pediu que o desnudassem e o colocassem, nu, sobre a terra. Isso é arquetípico e de uma profunda comunhão coma irmã e Mãe Terra que ele cantou no “Cântico ao Irmão Sol”8. Somos Terra, dela viemos e para ela vamos, entregando o cor- po que ela nos deu.
8 Cântico das Criaturas (em italiano: Cantico delle creature; em latim: Laudes Creaturarum), também conhecido como Cântico do Irmão Sol, é uma canção religiosa cristã composta por Francisco de Assis. Escrita no dialeto úmbrio do italiano, acredita-se que esteja entre as primeiras obras escritas no idioma. Ao contrário de outras canções re- ligiosas da época, o Cântico das Criaturas é quase infantil na maneira em que louva Deus agradecendo-o por criações como o “Irmão Fogo” e a “Irmã Água”. A letra é uma afir- mação da teologia pessoal de Francisco de Assis. Ele frequentemente se referia aos ani- mais como irmãos e irmãs da Humanidade, rejeitava qualquer tipo de acúmulo material e confortos sensuais, em troca da “Senhora Pobreza”. Francisco teria composto a maior parte do cântico no fim de 1224, enquanto se recuperava de uma doença em San Da- miano, em uma pequena cabana construída para ele por Clara de Assis e outras mulheres pertencentes à sua ordem. De acordo com a tradição, ela teria sido cantada pela primeira vez por São Francisco e pelos irmãos Angelo e Leo, dois de seus companheiros originais, no leito de morte de Francisco, com o verso final que louva a “Irmã Morte” tendo sido acres- centado apenas alguns minutos anteriormen- te. (Nota da IHU On-Line)
Talvez, a única semelhança seja a total e serena entrega ao Pai, no supremo momento, como final- mente e depois de muita luta, o fez Jesus. Por isso que os franciscanos, guardando a tradição de São Fran- cisco, sempre que um frade falece, fazem festa na comunidade, com comes e bebes, pois celebram a entrada do confrade no Reino da Trindade.
IHU On-Line – No livro Vida para além da morte (Petrópolis: Vozes, 1973), apresenta uma perspectiva de que o purgatório pode se constituir na terra, em vida, a partir das dores e sofrimentos a que se é submetido. Gostaria que recuperasse essa ideia e refletis- se como essa perspectiva pode contribuir para dissociar a ideia de morte e dor.
Leonardo Boff – A categoria “purgatório” é tardia na reflexão teológica. Como Jacques Le Goff9 o mostrou, ela surgiu no mundo medieval no contexto das hierarquias da nobreza e das correspondents ofensas que podem ocorrer con- tra elas. Para cada ofensa, o seu merecido castigo. O purgatório foi incorporado à teologia, a partir de algumas referências de Santo Agos- tinho10, que insinuava o fato de que não se pode chegar a Deus imper- feitos. Temos que nos aperfeiçoar para sermos adequados ao mundo da absoluta perfeição divina na eternidade. O purgatório cumpriria essa função de purgação.
A tendência da moderna teologia ecumênica é dispensar o purgatório como construção teológica e não mais como doutrina oficial. A vida, vivida com virtudes, superando di- ficuldades e padecimentos, mas principalmente, vivendo amor e a compaixão fazem com que vamos nos purificando. A grande purifi- cação viria no momento do juízo quesedáentreofimdotempoe o começo da eternidade. No juízo nos damos conta de nossos benfei- tos e malfeitos, de qual foi o nosso projeto fundamental. Somos colo- cados diante de Deus-amor e bon- dade e de nossa missão no desígnio do Mistério dentro da história e do próprio universo. É o momento de fazermos um ato de amor e de total entrega a Deus. Alguns o farão com dificuldades, dada a sua adesão a um tipo de vida que não se alinhava ao propósito do Criador. Mas face a tanta bondade, amor e misericórdia do Deus-Trindade, nos rendemos em arrependimento e ação de graças. Sairemos purificados.
E então participaremos do mun- do para o qual fomos destinados desde toda a eternidade. Bem dis- se o Papa Francisco: para Deus não há condenação eterna. Há miseri- córdia. Seguramente se revelará a justiça no juízo. Mas passamos pelo juízo e, transfigurados, goza- remos e cantaremos, cantaremos e celebraremos, celebraremos e co- mungaremos a vida infinita, terna e eterna do Deus-comunhão-de- -divinas Pessoas.

9 Jacques Le Goff (1924): medievalista francês, formado em história e membro da Escola dos Annales. Presidente, de 1972 a 1977, da VI Seção da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), foi diretor de pesquisa no grupo de antropologia histórica do Ocidente medieval dessa mesma institui- ção. Entre outras altas distinções, Le Goff re- cebeu a medalha de ouro do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), pela primeira vez atribuída a um historiador. Boa parte de sua obra está ao alcance do leitor brasileiro, como por exemplo, Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente (Lisboa: Estampa, 1980); Mercadores e banqueiros da Idade Média (Lisboa: Gradiva, 1982); e A civiliza- ção no Ocidente Medieval (Lisboa: Estampa, 1984). Le Goff concedeu a entrevista Roma, alimento e paralisia da Idade Média à edi- ção 198 da revista IHU On-Line, de 02-10- 2006, disponível em http://bit.ly/ihuon198. Entre seus livros, destacamos O nascimento do purgatorio (Lisboa: Estampa, 1995) (Nota da IHU On-Line)

10 Santo Agostinho (Aurélio Agostinho, 354-430): bispo, escritor, teólogo, filósofo, foi uma das figuras mais importantes no desenvolvimento do cristianismo no Ocidente. Ele foi influenciado pelo neoplatonismo de Plo- tino e criou em diálogo com São Jerônimo, os conceitos de pecado original e guerra justa. (Nota da IHU On-Line)

IHU On-Line – Muitas pessoas que se anunciam católicos – e por vezes até professam sua fé no ca- tolicismo – acabam buscando refe- rência em outras religiões quando confrontadas pela experiência da morte. Como compreender esses movimentos? Em que medida isso revela os limites do catolicismo na construção que faz da morte?
Leonardo Boff – A teologia oficial que entrou nos catecismos é mais devedora da cosmovisão grega do que da leitura cristã da vida e da morte. Ainda se manejam os con- ceitos antropologicamente pobres de corpo e alma ao invés de captar o ser humano como o faz a visão originária e bíblica: o ser humano em suas várias situações existenciais. Um dos maiores reducionismos da encarnação da fé cristã na cultura greco- -latina foi praticamente o abandono da mensagem revolucionária da ressurreição. Ela ficou como uma espécie apologetic, de milagre para mostrar que Jesus era Deus, quando na verdade, mostrava a verdadeira leitu- ra cristã sobre o destino humano, chamado à transfiguração.
Em seu lugar entrou o tema fácil de origem platônica, da imortalidade da alma, entregando o corpo ao pó da terra. A ressurreição ficou algo para o fim do mundo. Como não sabemos quando ele acontecerá, o tema ressurreição perdeu relevância existencial.
Graças a Deus que a moderna teologia ecumênica resgatou a centralidade da ressurreição e permitiu uma nova leitu- ra do destino final do ser humano. Ressuscitaremos no fim do mundo, vale dizer, no momento em que para cada um o mundo acabou e se inicia a eternidade. Quer dizer, ressuscitaremos na morte. Vamos inteiros com toda nossa realidade, purificada pelo juízo, ao seio do Pai e Mãe de infinita bondade.
Entretanto, essa ressurreição não é completa. Nem a de Jesus é complete. Apenas o núcleo pessoal ressuscitou. Enquanto nossa Casa Comum, o inteiro universo também não participa da ressurreição, vivemos uma ressurreição ainda por completar. No final, tudo será transfigurado. Será como o corpo da Trindade.
IHU On-Line – Em que medida a morte, numa perspectiva escatológica11, pode suscitar uma reflexão sobre a esperança cristã?
Leonardo Boff – Se entendermos a escatologia não como algo que acontece no termo da história, mas como a presença antecipada dos bens do Reino, como o perdão, a graça e, especialmente, a ressurreição na morte, podemos nos encher de alegria e de desafogo existencial. Morrer é atender a um chamado de Deus. E vamos felizes ao encontro dele. Na passagem se dá a nossa transfiguração. Não morremos, nos transfiguramos. Nietzsche12 comentava
11 Escatologia (do grego antigo εσχατος, “último”, mais o sufixo -logia): parte da teo- logia e filosofia que trata dos últimos eventos na história do mundo ou do destino final do gênero humano, comumente denominado como fim do mundo. Em muitas religiões, o fim do mundo é um evento futuro profetiza- do no texto sagrado ou no folclore. De forma ampla, escatologia costuma relacionar-se com conceitos tais como Messias ou Era Mes- siânica, a pós-vida, e a alma. (Nota da IHU On-Line)

12 Friedrich Nietzsche (1844-1900): fi- lósofo alemão, conhecido por seus concei- tos além-do-homem, transvaloração dos valores, niilismo, vontade de poder e eterno retorno. Entre suas obras figuram como as mais importantes Assim falou Zaratustra (9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998), O anticristo (Lisboa: Guimarães, 1916) e A genealogia da moral (5. ed. São Paulo: Centauro, 2004). Escreveu até 1888, quando foi acometido por um colapso nervoso que nunca o abandonou até o dia de sua morte. A Nietzsche foi dedicado o tema de capa da edição número 127 da IHU On-Line, de 13-12-2004, intitulado Nietzsche: filósofo do martelo e do crepúsculo, disponível para do- wnload em http://bit.ly/Hl7xwP. A edição 15 dos Cadernos IHU em formação é intitu- lada O pensamento de Friedrich Nietzsche, e pode ser acessada em http://bit.ly/HdcqOB. Confira, também, a entrevista concedida por Ernildo Stein à edição 328 da revista IHU On-Line, de 10-05-2010, disponível em http://bit.ly/162F4rH, intitulada O biologis- mo radical de Nietzsche não pode ser mini- mizado, na qual discute ideias de sua confe- rência A crítica de Heidegger ao biologismo de Nietzsche e a questão da biopolítica, parte integrante do Ciclo de Estudos Filosofias da diferença – Pré-evento do XI Simpósio Inter- nacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana. Na edição 330 da revista IHU On-Line, de 24-05-2010, leia a entrevista Nietzsche, o pensamento trágico e a afirma- ção da totalidade da existência, concedida pelo Prof. Dr. Oswaldo Giacoia e disponível para download em http://bit.ly/nqUxGO. Na edição 388, de 09-04-2012, leia a entrevista O amor fati como resposta à tirania do sen- tido, com Danilo Bilate, disponível em http:// bit.ly/HzaJpJ. (Nota da IHU On-Line

que os cristãos andam tão tristes como se não tivesse havido redenção nem tivesse eclodido a ressurreição. Temos mil razões para vi- vermos felizes e serenos, mesmo dentro das maiores dificuldades, pois o fim é bom e significa a plenificação de todos os nossos sonhos e desejos, a irradiação total da vida.
IHU On-Line – Quais caminhos são necessários percorrer para dissociar a ideia de morte da ideia de perda – de alguém – e associar a ideia de integração com o todo da criação, quase que como uma perspectiva cosmológica de povos originais?
Leonardo Boff – O que precisamos é acolher a morte como parte da vida. Não como uma desgraça, mas como a companheira que nos conduz à Casa Paterna. Ela significa uma espécie de passagem alquímica para outro estágio do mistério da vida. Os mortos não são ausentes. São apenas invisíveis. E podem ser invocados e senti-los como compa nheiros em nossa caminhada.
É o conteúdo concreto do que está no Credo13: “creio na comunhão dos santos”. Isso não tem nada a ver com os santos e santas que estão nos altares. Mas tem a ver com todos e todas que estão em Deus, onde cremos que estarão nossos entes queridos. Ficamos tristes com a partida. Mas podemos ficar alegres com a chegada deles na suprema felicidade.

13 Credo também chamado de Símbolo é a profissão de fé cristã expressa no Símbolo Apostólico e no Símbolo Niceno-Constanti- nopolitano. (Nota da IHU On-Line)

IHU On-Line – Em que medida a lógica desses nossos tempos nos levam a falar da morte de uma maneira exterior a nós mesmos? Quais as implicações dessa perspectiva?
Leonardo Boff – Para os modernos, vítimas da cultura materialista e consumista do capital, a morte significa a maior desgraça. Pois para a maioria tudo acaba no pó cósmico. Então não vale a pena fazer qualquer sacrifício em função de uma vida que vai para além da morte. Tudo se realiza aqui. Esta visão é pequena e equivocada e não corresponde aos impulsos do coração, aos sonhos que nos habitam, de querer vida e mais vida, e a eternidade da vida.
Por isso existe nos países ricos como nos Estados Unidos todo um disfarce da morte, uma indústria de preparação dos cadáveres para que pareçam vivos e sejam colocados até de pé. Estimo que esta visão é pobre demais para se adequar com aquilo que de fato ocorre em nossa interioridade, em nossos anelos mais profundos. Ela é contra vida, pois a vida comporta a morte.O futuro é da vida que chama à vida e não da morte. Por isso de-vemos sempre defender a vida em sua dignidade, a partir daqueles condenados a ter menos vida. Estes serão os primeiros a herdar a vida no Reino da Trindade.■

Outras referências a textos de Leonardo Boff

—  Ecologia integral. A grande novidade da Laudato Si’. “Nem a ONU produziu um texto desta natureza’’. Entrevista especial com Leonardo Boff, publicada nas Notícias do Dia de 18-7- 2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eq6Hwb.

  • —  O amor e a misericórdia são categorias centrais da teologia e prática de Francisco. Entre- vista com Leonardo Boff, publica na revista IHU On-Line número 465, de 18-5-2015, dispo- nível em http://bit.ly/2eqOV9l.
  • —  Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada. Entrevista com Leonardo Boff, publicada em Notícias do Dia de 16-10-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eZz17B.
  • —  “Com Francisco, diálogo contínuo embora a distância”. Entrevista com Leonardo Boff, pu- blicada em Notícias do Dia de 17-9-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2dtYRAB.
  • —  Ser mais com menos: eis o futuro da humanidade. Entrevista com Leonardo Boff, publicada em Notícias do Dia de 24-6-2009, no sítio do Instituto Humanitas Unisnos – IHU, disponível em http://bit.ly/2e80cdZ.
  • —  Apoio ao Papa Francisco contra um escritor nostálgico. Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 07-1-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2eTJoXy.
  • —  Realmente não existem verdades absolutas a não ser Deus. Artigo de Leonardo Boff, Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 28-7-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http://bit.ly/2f4xWcg.
  • —  Como reproduzimos a cultura do capital. Artigo de Leonardo Boff, publicado nas Notícias do Dia de 20-4-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, disponível em http:// bit.ly/2eMbAhe.