Inteligência Artificial, potência e terror: Antonio Martins

Um dos grandes desafios que a inteira humanidade deverá enfrentar proximamente e já está em algumas áreas enfrentando é a novíssima realidade da Intelêngia Artificial. Ela pode implicar numa grande libertação, passando  do regime da necessidade para o regima da liberdade. Mas pode significar também um terror e uma ameaça ao fim da espécie humana. Trata-se de uma forma de inteligência que supera em muito a humana. Ela poderá ocupar nossas mentes e tomar decisões superiores àquelas que nós comumente tomamos. Se grupos inimigos da vida se apropriarem deste tipo de inteligência poderão provocar um armagedom que significará não só a eliminação de toda a vida no planeta Terra. Esta continuará a girar ao redor do sol, mas sem nós.

Entre as muitas publicações nesta área escolhemos esta de um especialista, Antonio Martins, publicada no dia 27 de julho de 2019. Ela numa linguagem esclarecedora nos inicia neste mundo que simultaneamente è “potência e terror” .

Inteligência Artificial, potência e terror

      Antonio Martins

“Quando até os defensores icônicos do capitalismo manifestam incertezas e receios com os rumos do sistema e o futuro do mundo, vale a pena estar muito atento. Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, Eric Schmidt, ex-executivo-chefe da Google e Alphabet e Daniel Huttenlocher, reitor da área tecnológica da Universidade de Cornell acabam de publicar uma análise sobre as perspectivas e riscos da Inteligência Artificial (IA). Sóbrio, o texto, que estará na edição impressa de agosto da revista The Atlantic (mas já pode ser acessado online) não é alarmista na forma – e não sugere, nem de longe, ação de resistência. Chega a dizer que o advento da IA é “irrefreável” e pode ser “uma das revoluções mais significativas – e de maior alcance – na história da humanidade”. Mas quais os seus sentidos? Ao tentar responder a esta pergunta, os autores não escondem seu temor”.

“Kissinger, Schmidt e Huttenlocher são claros. O desenvolvimento da IA equivale a “transferência crescente de decisões, de seres humanos para máquinas”. Ao processar um volume de informações imensamente maior que o cérebro humano, os sistemas dotados de Inteligência Artificial podem “descobrir associações entre dados e ações, oferecendo soluções que são, para nós, difíceis ou impossíveis”. O resultado, nas palavras dos próprios autores, é que “este processo cria novas formas de automação e, com o tempo, poderá produzir formas inteiramente novas de pensamento”.

“Este passo já foi dado, em domínios aparentemente banais. Computadores programados para jogar xadrez haviam se tornado superiores aos campeões mundiais há vinte anos (vale ler a história dos confrontos Garry Kasparov x Deep Blue). Recentemente, porém, um passo muito mais espantoso foi dado. Máquinas associadas à Inteligência Artificial foram induzidas a aprender sozinhas a jogar xadrez. Ao invés de orientado por grandes jogadores (como sempre ocorrera antes) seu processo de aprendizado baseou-se em conhecer as regras; e desenvolver, por si, estratégias próprias. O método é rudimentar: tentativa e erro. Mas a capacidade de processar informações, descobrir e desenvolver padrões, é tão colossal que o AlphaZero, programa que realizou a proeza, tornou-se – em apenas 24 horas – capaz de vencer qualquer ser humano quando os mais sofisticados programas para jogar xadrez criados até então”1.

“O que acontece quanto ferramentas deste tipo são transportadas de tabuleiros inofensivos para as relações humanas, tão complexas e desiguais? Kissinger, Schmidt e Huttenlocher lembram que algumas aplicações podem, teoricamente, resultar em grandes ganhos – relacionados, por exemplo, à saúde e longevidade. Mas chamam atenção para ao menos duas aplicações em que os desequilíbrios resultantes podem ser catastróficos”.

“A primeira é a guerra – inclusive nuclear. Um armagedom foi evitado até agora, dizem eles, graças ao princípios do equilíbrio do terror e da dissuasão. As potências atômicas com capacidade de dizimar seus possíveis adversários (e o mundo) hesitam em fazê-lo por saberem que a consequência inevitável será sua própria, e idêntica, devastação. Mas e quando a Inteligência Artificial for aplicada à gestão dos arsenais atômicos? Que inusitadas estratégias – incluindo simulações, chantagens, emboscadas – os sistemas tentarão, reciprocamente, desenvolver para liquidar os do inimigo? Quais as consequências (não para as máquinas, mas para bilhões de humanos e o próprio planeta) de um passo em falso capaz de desencadear a grande avalanche”?

“A segunda consequência são as relações humanas – em especial a Educação. O advento de assistentes pessoais (como o Alexa e o Google Home) e a popularidade do celular entre as gerações mais jovens permitem antever um futuro, breve e aterrador, em que “a principal fonte de interação e conhecimento não serão os país, membros da família, amigos ou professores – mas ‘companheiros’ digitais”.

“Ocorre que os algoritmos de IA, embora ampliem o repertório de informações, também “estreitam as escolhas e multiplicam o poder de suprimir ideias novas ou desafiadoras”. Podem além disso, admitem os autores, “diminuir a capacidade inquisitiva”, já que a busca de conhecimento será progressivamente transferida para máquinas; abrir possibilidades muito mais vastas para o terrorismo de Estado e de grupos (pense na sabotagem digital das redes de infraestrutura); enfraquecer os sistemas democrático por meio de métodos como os da Cambridge Analytica”.

“Nos breves parágrafos propositivos do texto, Kissinger, Schimdt e Huttenlocher são muito menos profícuos e instigantes que nos trechos de alerta. Partidários da hegemonia capitalista, eles parecem descrer da possibilidade de ação transformadora sobre o mundo. Falam em trivialidades como “exigir envolvimento humano em ações onde há apostas altas em jogo (como a interpretação de exames médicos); fazer simulações e testes para testar a adequação da IA aos valores humanos; desenvolver um novo campo de escrutínio – a “ética de IA”. Parecem desconsiderar que vivemos sob um sistema em cuja essência estão a disputa, a rivalidade e a violência”.

“Ainda assim, o texto lança uma provocação perturbadora e indispensável. A Inteligência Artificial é um dos múltiplos campos em que o desenvolvimento das forças produtivas desafiará, muito em breve, relações sociais, comportamentos e visões de mundo consolidadas há séculos (pense também, por exemplo, na edição genética, nas nanotecnolgias, nas armas autônomas). Se o ambiente político e o controle do poder continuarem a se deteriorar, o resultado pode ser a desumanização radical. Reflita sobre isso quando se julgar desanimado pelos reveses da democracia brasileira. O desafio é mais vasto do que, às vezes, supõe nosso vão pessimismo”.

“Em 2015, outro programa – o AlphaGo – tornou-se, pela primeira vez, capaz de vencer seres humanos também no Go, outro jogo de lógica e estratégia, com variáveis e alternativas imensamente superiores às do xadrez”

Fontes.

https://outraspalavras.net/blog/inteligencia-artificial-potencia-e-terror/

https://www.alainet.org/es/node/201147

 

La ventaja de la imperfección

En tiempos de peligro para nuestra libertad es importante que pensemos en su relevancia. Nacemos completos pero imperfectos. No tenemos ningún órgano especializado, como la mayoría de los animales. Para sobrevivir, tenemos que trabajar e intervenir en la naturaleza. Los mitos iluminan esta situación.

Los indígenas guaicuru, del Mato Grosso del Sur, se preguntaban el por qué de la imperfección y del alto significado de la libertad. Tardaron mucho tiempo en llegar a una respuesta. La explicación vino a través del siguiente mito, portador de verdad.

El Gran Espíritu creó todos los seres. Puso gran cuidado en la creación de los humanos. Cada grupo recibió una habilidad especial para sobrevivir sin mayores dificultades. A unos les dio el arte de cultivar la mandioca y el algodón. Así podían alimentarse y vestirse. A otros les dio la habilidad de hacer canoas ligeras y el timbó. De esta forma podían moverse rápidamente y pescar.

Así hizo con todos los grupos humanos en la medida en que se distribuían por el mundo. Pero con los guaicuru no sucedió así. Cuando quisieron partir hacia las vastas tierras, el Gran Espíritu no les dio ninguna habilidad. Esperaron, suplicando durante mucho tiempo y nada les fue comunicado. Así y todo decidieron partir. Pronto sintieron muchas dificultades para sobrevivir. Resolvieron buscar intermediarios ante el Gran Espíritu para recibir también una habilidad.

Primero, se dirigieron al viento, soplando y rápido siempre: “Tío viento, tú que soplas por los campos, sacudes los bosques y pasas por encima de las montañas, ven a ayudarnos”. Pero el viento que sacudía las hojas, ni siquiera oyó la petición de los guaicuru. En seguida, se volvieron hacia el relámpago que estremece toda la tierra. “Tío relámpago, tú que te pareces al Gran Espíritu, ayúdanos”. Pero el relámpago pasó tan rápido que ni siquiera escuchó su pedido.

Así los guaicuru rogaron a los árboles más altos, a las cumbres de las montañas, a las aguas corrientes de los ríos, siempre suplicando:”Hermanos nuestros, intercedan por nosotros junto al Gran Espíritu para que no muramos de hambre”. Pero no pasaba nada.

Medio desesperados vagaron por varios parajes, hasta que pararon debajo del nido del gavilán real. Este, oyendo sus lamentos, resolvió intervenir y dijo: “Ustedes, guaicuru, están muy equivocados y son unos grandes bobos”. “Como así?” respondieron todos. “El Gran Espíritu se olvidó de nosotros. Tú eres feliz, recibiste el don de una mirada penetrante, puedes percibir un ratón en la boca de la cueva y cazarlo”.

“Ustedes no han entendido nada de la lección del Gran Espíritu”, respondió el gavilán real. “La habilidad que él les dio está por encima de todas las otras. El les dio la libertad. Con ella, ustedes pueden hacer lo que deseen”.

Los guaicuru se quedaron perplejos y llenos de curiosidad. Pidieron al gavilán real que les explicase mejor esta curiosa habilidad. El, lleno de garbo, les habló así: “Ustedes pueden cazar, pescar, construir malocas, hacer bellas flechas, pintar sus cuerpos y sus vasijas, viajar a otros lugares y hasta decidir lo que ustedes quieren de bueno para ustedes y para la propia naturaleza”.

Los guaicuru se llenaron de alegría y se decían unos a otros: “Qué tontos hemos sido, pues nunca discutimos juntos la ventaja de ser imperfectos. El Gran Espíritu no se olvidó nunca de nosotros. Nos dio la mejor habilidad, la de no estar sujetos a nada, sino la de poder inventar cosas nuevas, sabiendo las ventajas de nuestra imperfección.

El cacique guaicuru preguntó al gavilán: “Puedo experimentar la libertad?” “Puede”. El cacique tomó una flecha y derribó de lo alto del jaquero una gran fruta de jaca o yaca, deliciosa para todos.

Desde aquel momento, los guaicuru, ejercieron su libertad. Se volvieron grandes caballeros y nunca pudieron ser sometidos por ningún otro pueblo. La libertad les inspiraba nuevas formas de defenderse y de garantizar mejor la habilidad que les había dado el Gran Espíritu.

Los mitos nos inspiran grandes lecciones, especialmente en los días actuales cuando fuerzas poderosas, nacionales e internacionales, nos quieren someter, limitar y hasta quitarnos nuestra libertad. Debemos ser como los guaicuru: saber defender el mayor don que tenemos, la libertad. Debemos resistir, indignarnos y rebelarnos. Sólo así haremos nuestro propio camino como nación soberana y altiva. Jamás aceptaremos que nos impongan el miedo ni que nos roben la libertad.

*Leonardo Boff es escritor y ha escrito: Casamiento del Cielo y la Tierra: cuentos de los pueblos indígenas brasileros, Ed.Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Um desafio: a salvaguarda da unidade da família humana.

Há o risco real de que a família humana seja bifurcada, entre aqueles que se beneficiam dos avanços tecnológicos, da biotecnologia e nanotecnologia e dispõem de todos os meios possíveis de vida e de bem-estar, cerca de 1,6 bilhões de pessoas, podendo prolongar a vida até aos 120 anos que corresponde à idade possível das células. E a outra humanidade, os restantes mais de 5,4 bilhões, barbarizados, entregues à sua sorte, podendo viver, se tanto, até os 60-70 anos com as tecnologias convencionais num quadro perverso de pobreza, miséria e exclusão.

Esse fosso deriva do horror econômico que tomou a cena histórica sob a dominação do capital globalizado especialmente do especulativo sob a regência cruel do neoliberalismo radical. Considerando-se triunfante face ao socialismo real cuja derrocada se deu no final dos anos 80, exacerbou seus princípios como a competição,o individualismo, a privatização e a difamação de todo tipo de política e satanização do Estado, reduzido ao mínimo. Cerca de 200 megacorporações, cujo poder econômico equivale a 182 países, conduzem junto com os organismos da ordem capitalista como o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio a economia mundial sob o princípio da competição sem qualquer sentido de cooperação e de respeito ecológico da natureza. Tudo é feito mercadoria, do sexo à religião, numa volúpia de acumulação desenfreada de riquezas e serviços à custa da devastação da natureza e da precarização ilimitada dos postos de trabalho.

O risco consiste em que os muito ricos criem um mundo só para si, que rebaixem os direitos humanos a uma necessidade humana que deve ser atendida pelos mecanismos do mercado (portanto só tem direitos quem paga e não quem é simplesmente pessoa humana), que façam dos diferentes desiguais e dos desiguais dissemelhantes, aos quais se nega praticamente a pertença à espécie humana. São outra coisa, óleo gasto,zeros econômicos.

No Ocidente que hegemoniza o processo de globalização, a ideia de igualdade politicamente nunca triunfou. Ela ficou limitada ao discurso religioso-cristão, de conteúdo idialístico. Esse déficit de uma cultura igualitária impediria a bifurcação da família humana. Pode triunfar uma idade das trevas mundial que se abateria sobre toda a humanidade. Seria a volta da barbárie.

O desafio a ser enfrentado é fazer tudo para manter a unidade da família humana, habitando a mesma Casa Comum. Todos são Terra, filhos e filhas da Terra, para os cristãos, criados à imagem e semelhança do Criador, feitos irmãos e irmãs de Cristo e templos do Espírito. Todos têm direito de serem incluídos nesta Casa Comum e de participarem de seus dons.

Para dar corpo a este desafio precisamos de uma outra ética humanitária que implica resgatar os valores ligados à solidariedade, à empatia e à compaixão. Importa recordar que foi a solidariedade/cooperação que permitiu a nossos ancestrais, há alguns milhões de anos, darem o salto da animalidade à humanidade. Ao saírem para coletar alimentos, não os comiam individualmente como o fazem os animais. Antes, reuniam os frutos e a caça e os levavam para o grupo de co-iguais e os repartiam solidariamente entre todos. Deste gesto primordial nasceu a socialidade, a linguagem e a singularidade humana. Será hoje ainda a solidariedade irrestrita, a partir de baixo, a compaixão que se sensibiliza diante do sofrimento do outro e da Mãe Terra, que garantirão o caráter humano de nossa identidade e de nossas práticas. Foi o que vergonhosamente faltou aos grandes credores internacionais que face à tragédia do tsunami do sudeste da Ásia não perdoaram os 26 bilhões de dívidas daqueles países flagelados, Apenas protelaram por um ano, o seu pagamento.

Sem o gesto do bom samaritano que se verga sobre os caídos da estrada ou a vontade de infinita compaixão do bodhisatwa que renuncia penetrar no nirvana por amor à pessoa que sofre, ao animal quebrantado ou à árvore mirrada, dificilmente faremos frente à desumanidade cotidiana que está se naturalizando a nível brasileiro e mundial.

Na perspectiva dos astronautas, daqueles que tiveram o privilégio de ver a Terra de fora da Terra, Terra e Humanidade formam uma só entidade, complexa mas una. Ambas estão agora ameaçadas. Ambas possuem um mesmo destino comum e comparecem juntas diante do futuro. Sua salvaguarda constitui o conteúdo maior de um ancestral sonho: todos sentados à mesa, numa imensa comensalidade, desfrutando dos frutos da boa e generosa Mãe Terra.

Se o cristianismo e os demais caminhos espirituais não ajudarem a realizar esse sonho e não levarem as pessoas a concretizá-lo, não teremos cumprido a missão que o Criador nos reservou no conjunto dos seres, que é a de sermos o anjo bom e não o Satã da Terra. Nem teremos escutado e seguido Aquele que disse: “Vim trazer vida e vida em abundância”(Jo 10,10).

Importa conscientizarmo-nos de nossa responsabilidade, sabendo que nenhuma preocupação é mais fundamental do que cuidar da única Casa Comum que temos e de alcançar que toda a família humana, superando as contradições sempre existentes, possa viver unida dentro dela com um mínimo de cuidado, de solidariedade, de irmandade, de compaixão e de reverência que produzem a discreta felicidade pelo curto tempo que nos é concedido passar por esse pequeno, belo e radiante Planeta.

Uma utopia? Sim, mas necessária se quisermos sobreviver.

Leonardo Boff escreveu:Proteger a Terra- salvar a vida. Como escapar do fim do mundo, Record, Rio 2010.

A vantagem da imperfeição

Em tempos em risco de nossa liberdade, é importante pensarmos em sua importância. Nascemos completos mas imperfeitos. Não possuímos nenhum órgão especializado, como a maioria dos animais. Para sobreviver, temos que trabalhar e intervir na natureza. Os mitos esclarecem esta asituação.

Os indígenas guaicuru, do Mato Grosso do Sul, perguntaram-se o porquê da imperfeição e do alto significado da liberdade. Demoraram longo tempo para chegar a uma resposta. A explicação veio pelo seguinte mito, portador de verdade.

O Grande Espírito criou todos os seres. Colocou grande cuidado na criação dos humanos. Cada grupo recebeu uma habilidade especial para sobreviver sem maiores dificuldades. A alguns deu a arte de cultivar a mandioca e o algodão. Assim podiam se alimentar e se vestir. A outros deu a habilidade de fazer canoas leves e o timbó. Desta forma podiam se locomover rapidamente e pescar.

Assim fez com todo os grupos humanos na medida em que se distribuíam pelo mundo. Mas com os Guaicuru não aconteceu assim. Quando quiseram sair para as vastas terras, o Grande Espírito não lhe conferiu nenhuma habilidade. Esperaram, suplicando, por muito tempo e nada lhes foi comunicado. Mesmo assim resolveram partir. Sentiram logo muita dificuldade em sobreviver. Resolveram procurar intermediários do Grande Espírito para receber também uma habilidade.

Primeiro, dirigiram-se ao vento, sempre soprando e rápido: “Tio vento, tu que sopras pelas campinas, sacodes as matas e passas por cima das montanhas, venha-nos socorrer”. Mas o vento que sacudiu as folhas, sequer ouviu o pedido dos guaicuru. Em seguida, se voltaram para o relâmpago que estremece toda a terra. “Tio relâmpago, você que é parecido com o Grande Espírito, ajude-nos”. Mas o relâmpago passou tão rápido que sequer escutou o pedido deles.

Assim os guaicuru suplicaram às árvores mais altas, aos cumes das montanhas, às águas correntes dos rios, sempre suplicando:”Meus irmãos, intercedam por nós junto ao Grande Espírito para não morrermos de fome,” Mas nada acontecia.

Meio desesperados vagavam por várias paragens. Até que pararam debaixo do ninho de um gavião-real.

Este ouvindo seus lamentos resolveu intervir e disse:”Vocês, guaicuru, estão todos errados e são uns grandes bobos”. “Como assim? responderam juntos. “O Grande Espírito se esqueceu de nós. Você que é feliz, recebeu o dom de um olhar penetrante e perceber um ratinho no boca da toca e caçá-lo”.

“Vocês não entenderam nada da lição do Grande Espírito”retrucou o gavião-real. “A habilidade que ele lhes deu está acima de todas as outras. Ele vos deu a liberdade. Com ela vocês podem fazer o que desejarem fazer.”

Os guaicuru ficaram perplexos e cheios de curiosidade. Pediram ao gavião-real que lhes explicasse melhor esta curiosa habilidade. Ele, cheio de garbo, lhes falou: “Vocês podem caçar, pescar, construir malocas, fazer belas flechas, pintar os corpos, os potes, viajar para outros lugares e até decidirem o que vocês querem de bom para vocês e para a própria natureza”.

Os guaicuru se encheram de alegria e diziam uns aos outros:“que bobos nós fomos, pois nunca discutimos juntos a vantagem de sermos imperfeitos. O Grande Espírito nunca se esqueceu de nós. Deu-nos a melhor habilidade, de não estarmos presos a nada, mas de podermos inventar coisas novas, sabendo das vantagens de nossa imperfeição.

O cacique guaicuru perguntou ao gavião-real: “Posso experimentar a liberdade?” “Pode”. O cacique tomou uma flecha e derrubou do alto de uma jaqueira uma grande fruta de jaca. E todos se deliciaram.

Desde aquele momento, os guaicuru, exerceram a liberdade. Tornaram-se grandes cavaleiros e nunca puderam ser submetidos por nenhum outro povo. A liberdade lhes inspiravam novas formas de se defender e garantir a melhor habilidade dada pelo Grande Espírito.

Os mitos nos inspiram grandes lições, especialmente nos dias atuais quando forças poderosas, nacionais e internacionais, nos querem submeter, limitar e até tirar nossa liberdade. Devemos ser como os guaicuru: saber defender o maior dom que temos, a liberdade. Devemos resistir, nos indignar e nos rebelar. Só assim fazemos o nosso próprio caminho como nação soberana e altiva. E jamais aceitaremos que nos imponham o medo nem que nos roubem a liberdade.

Leonardo Boff é escritor e escreveu: Casamento do Céu com a Terra: contos dos povos indígenas brasileiros, Ed.Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014.