Amor em tempos de ira e de ódio

Vivemos no Brasil bolsonariano e no mundo afora tempos de ira e de ódio, fruto do fundamentalismo e da intolerância como se viu em Siri Lanka onde centenas de cristãos foram assassinados no momento em que celebravam a vitória do amor sobre morte na festa de ressurreição.
Este cenário macabro nos faz renovar a esperança de que, apesar de tudo, o amor é mais forte do que a morte.
A palavra amor foi banalizada. É amor daqui é amor daí, amor em todos os anúncios que apelam mais para os bolsos do que para os corações. Temos que resgatar a sacralidade do amor. Não dispomos de um nome melhor ou maior para imaginar a Última Realidade, Deus, senão dizendo que ela é amor.
Precisamos inovar nosso discurso sobre o amor para que sua natureza e amplitude resplandeça e nos acalente. Para isso, importa incorporar as contribuições que nos vêm das várias ciências da Terra (Fritjof Capra), especialmente da biologia (Humberto Maturana) e dos estudos sobre o processo cosmogênico (Brian Swimme). Mais e mais fica claro que o amor é um dado objetivo da realidade global, um evento feliz da própria natureza da qual somos parte.
Dois movimentos, entre outros, presidem o processo cosmogênico e biogênico: a necessidade e a espontaneidade. A necessidade está em função da sobrevivência de cada ser; por isso um ajuda o outro, numa rede de relações includentes. A sinergia e a cooperação de todos com todos constituem as forças mais fundamentais do universo, especialmente, entre os seres orgânicos. É a dinâmica objetiva do próprio cosmos.
Junto com essa força de necessidade comparece também a espontaneidade. Seres se relacionam e interagem por pura gratuidade e alegria de conviver. Tal relação não responde a uma necessidade. Ela se instaura para criar laços novos, em razão de certa afinidade que emerge espontaneamente e que produz o deleite. É o universo do surpreendente, do fascínio, de algo imponderável. É o advento do amor.
Esse amor se dá desde os primeiríssimos elementos basilares, os quarks, que se relacionaram para além da necessidade, espontaneamente, atraídos uns pelos outros. Surge um mundo gratuito, não necessário mas possível, espontâneo e real.
Desta forma, irrompe a força do amor que perpassa todos os estágios da evolução e enlaça todos os seres dando-lhes estremecimento e beleza. Não há razão que os leve a se comporem em laços de espontaneidade e de liberdade. Fazem-no por puro prazer e por alegria de estarem juntos.
Trata-se do amor cósmico que realiza o que a mística sempre intuiu: vigência da pura gratuidade. Diz o místico Angelus Silesius: “A rosa não tem por quê. Ela floresce por florescer. Ela não cuida se a admiram ou não. Era floresce por florescer”.
Não dizemos que o sentido profundo da vida é simplesmente viver? Assim o amor floresce em nós como fruto de uma relação livre entre seres livres e com com todos os demais seres.
Mas como humanos e autoconscientes, podemos fazer do amor que pertence à natureza das coisas, um projeto pessoal e civilizatório: vive-lo conscientemente, criarmos as condições para que a amorização aconteça entre os seres inertes e vivos. Podemos nos enamorar de uma estrela distante e fazer uma história de afeto com ela.
O amor é urgente nos dias atuais onde a força do negativo, do anti-amor, parece prevalecer. Mais que perguntar quem pratica atos de terror é perguntar por que foram praticados? Seguramente o terror surgiu porque faltou o amor como relação que enlaça os seres humanos na bem-aventurada experiência de se abrir e acolher jovialmente um ao outro.
Digamo-lo com todas as palavras: o sistema mundial imperante não ama as pessoas. Ele ama bens materiais, ama a força de trabalho do operário, seus músculos, seu saber, sua produção artística e sua capacidade de consumo. Mas não ama gratuitamente as pessoas como pessoas.
Pregar o amor e gritar: “amemo-nos uns aos outros como nós mesmos nos amamos” é ser revolucionário. É ser absolutamente anti-cultura dominante.
Façamos do amor aquilo que o grande florentino, Dante Alignieri, testemunhava: “o amor que move o céu e todas as estrelas” e nós acrescentamos: o amor que move nossas vidas, amor que é o nome sacrossanto da Fonte Originária de todo o Ser, Deus.

Leonardo Boff é filósofo e teólogo e escreveu:Reflexões de um velho teólogo e pensador, Vozes 2019.

Uma menina nos alerta sobre o futuro sombrio da Casa Comum.

Publicamos aqui o texto completo do discurso que Greta Thunberg proferiu aos deputados das Casas do Parlamento britânico.  O discurso foi publicado por The Guardian, 23-04-2019 e no Brasil pela  IHU de 25/4/19.

O texto dispensa comentários. Pela voz de uma menina de 16 anos fala a inteira  humanidade, preocupada com o futuro que nos está sendo roubado ou com a civilização que pode terminar miseravelmente devido à irresponsabilidade humana de não cuidar da condições que tornam habitável  Casa Comum, a Mãe Terra. Neste espaço do blog abordamos muitas vezes o risco de uma catástrofe ecológico-social de dimensões ameaçadoras para o sistema-Terra e o sistema-Vida. Usamos as fontes científicas mais seguras, até por sermos membros da Iniciativa Internacional da Carta da Terra (2000) que foi um dos primeiro documentos a lançar o alarme ecológico. Talvez sejam as crianças aqueles protagonistas de um novo despertar da humanidade. Se não ouvirmos mais as crianças, nossos filhos e filhas e nossos netos e netas, perderemos a capacidade de nos mobilizarmos para salvar o que podemos e devemos salvar. Devemos fazê-lo pelo menos por amor a nossos familiares para os quais não queremos entregar-lhes uma Casa Comum arruinada e prestes a cair. Lboff.

Eis o texto da menina sueca.

Meu nome é Greta Thunberg. Eu tenho 16 anos. Eu venho da Suécia. E falo em nome das futuras gerações.

Eu sei que muitos de vocês não querem nos ouvir – vocês dizem que somos apenas crianças. Mas estamos apenas repetindo a mensagem da ciência climática unida.

Muitos de vocês parecem preocupados com o fato de estarmos desperdiçando um valioso tempo de aula, mas garanto que voltaremos à escola assim que vocês começarem a ouvir a ciência e a nos dar um futuro. Será que isso é realmente pedir muito?

No ano 2030 eu terei 26 anos. Minha irmãzinha Beata terá 23. Assim como muitos dos seus próprios filhos ou netos. Essa é uma grande idade, foi o que nos disseram. Quando você tem toda a sua vida pela frente. Mas eu não tenho tanta certeza de que será tão boa para nós.

Eu tive a sorte de nascer em um tempo e lugar onde todos nos diziam para sonhar alto; eu poderia me tornar o que quisesse. Eu poderia morar onde quisesse. Pessoas como eu tinham tudo o que precisávamos e muito mais. Coisas com as quais os nossos avós nem podiam sonhar. Tínhamos tudo que poderíamos desejar e, no entanto, agora podemos não ter nada.

Agora, provavelmente nós nem temos mais um futuro.

Porque esse futuro foi vendido para que um pequeno número de pessoas pudesse ganhar quantias inimagináveis de dinheiro. Ele foi roubado de nós todas as vezes que vocês disseram que o céu era o limite e que você só vive uma vez.

Vocês mentiram para nós. Vocês nos deram falsas esperanças. Vocês nos disseram que o futuro era algo para se esperar. E o mais triste é que a maioria das crianças nem sequer têm consciência do destino que nos espera. Nós não vamos entender isso até que seja tarde demais. E, no entanto, nós somos os sortudos. Aqueles que serão mais afetados já estão sofrendo as consequências. Mas as suas vozes não são ouvidas.

O meu microfone está ligado? Vocês podem me ouvir?

Por volta do ano 2030, daqui a 10 anos, 252 dias e 10 horas, estaremos em uma posição onde desencadearemos uma reação em cadeia irreversível para além do controle humano, que provavelmente levará ao fim da nossa civilização como a conhecemos. Ou seja, a menos que, nesse tempo, mudanças permanentes e sem precedentes em todos os aspectos da sociedade ocorram, incluindo uma redução de emissões de CO2 em pelo menos 50%.

E, por favor, notem que esses cálculos dependem de invenções que ainda não foram inventadas em escala, invenções que deveriam limpar a atmosfera de quantidades astronômicas de dióxido de carbono.

Além disso, esses cálculos não incluem pontos de inflexão imprevisíveis e ciclos de realimentação como o extremamente poderoso gás metano que escapa do permafrost ártico em rápido derretimento.

Esses cálculos científicos também não incluem o aquecimento oculto já aprisionado da poluição atmosférica tóxica. Nem o aspecto da equidade – ou da justiça climática – claramente expressado em todo o Acordo de Paris, que é absolutamente necessário para que isso funcione em escala global.

Também devemos ter em mente que esses são apenas cálculos. Estimativas. Isso significa que esses “pontos de não retorno” podem ocorrer um pouco mais cedo ou mais tarde do que 2030. Ninguém pode ter certeza. No entanto, podemos ter certeza de que eles ocorrerão aproximadamente nesses prazos, porque esses cálculos não são opiniões ou suposições selvagens.

Essas projeções são sustentadas por fatos científicos, concluídos por todas as nações por meio do IPCC. Quase todos os principais órgãos científicos nacionais de todo o mundo apoiam sem reservas o trabalho e as conclusões do IPCC.

Vocês ouviram o que eu acabei de falar? O meu inglês está bom? O microfone está ligado? Porque estou começando a me questionar sobre isso.

Durante os últimos seis meses, eu viajei por toda a Europa durante centenas de horas em trens, carros e ônibus elétricos, repetindo várias e várias vezes essas palavras que mudam a vida. Mas ninguém parece estar falando sobre isso, e nada mudou. De fato, as emissões ainda estão aumentando.

Quando eu viajo para falar em diversos países, sempre me oferecem ajuda para escrever sobre as políticas climáticas específicas em países específicos. Mas isso não é realmente necessário. Porque o problema básico é o mesmo em todos os lugares. E o problema básico é que basicamente nada está sendo feito para deter – ou mesmo retardar – o colapso climático e ecológico, apesar de todas as belas palavras e promessas.

O Reino Unido, no entanto, é muito especial. Não apenas pela sua impressionante dívida histórica de carbono, mas também pela sua atual e muito criativa contabilidade de carbono.

Desde 1990, o Reino Unido alcançou uma redução de 37% em suas emissões territoriais de CO2, de acordo com o Global Carbon Project. E isso soa muito impressionante. Mas esses números não incluem as emissões da aviação, da navegação e aquelas associadas às importações e exportações. Se esses números forem incluídos, a redução é de cerca de 10% desde 1990 – ou uma média de 0,4% ao ano, segundo o Tyndall Manchester.

E a principal razão para essa redução não é uma consequência das políticas climáticas, mas sim uma diretriz da União Europeia de 2001 sobre a qualidade do ar que essencialmente obrigou o Reino Unido a fechar as suas antigas e extremamente poluentes usinas de carvão e a substituí-las por usinas de gás menos poluentes. E mudar de uma fonte de energia desastrosa para outra menos desastrosa, é claro, resultará em uma redução das emissões.

Mas talvez o equívoco mais perigoso sobre a crise climática é que temos que “reduzir” as nossas emissões. Porque isso está longe de ser suficiente. As nossas emissões precisam parar se quisermos ficar abaixo de 1,5-2ºC de aquecimento. A “redução das emissões” é obviamente necessária, mas é apenas o começo de um processo rápido que deve levar a uma parada dentro de algumas décadas, ou menos. E por “parada” eu me refiro a zero líquido – e depois rapidamente para números negativos. Isso exclui a maioria das políticas de hoje.

O fato de estarmos falando de “reduzir” em vez de “parar” as emissões talvez seja a maior força por trás do contínuo “business as usual”. O atual apoio ativo do Reino Unido à nova exploração de combustíveis fósseis – por exemplo, a indústria de fracking de gás de xisto no Reino Unido, a expansão dos seus campos de gás e petróleo do Mar do Norte, a expansão dos aeroportos, assim como a permissão de planejamento de uma nova mina de carvão – ultrapassa o absurdo.

Esse comportamento irresponsável continuado, sem dúvida, será lembrado na história como um dos maiores fracassos da humanidade.

As pessoas sempre dizem a mim e aos outros milhões de grevistas nas escolas que devemos nos orgulhar de nós mesmos pelo que conseguimos. Mas a única coisa que precisamos olhar é para a curva de emissões. E, sinto muito, mas ela ainda está subindo. Essa curva é a única coisa para a qual devemos olhar.

Todas as vezes que tomamos uma decisão, deveríamos nos perguntar: como essa decisão afetará essa curva? Não deveríamos mais medir a nossa riqueza e o nosso sucesso no gráfico que mostra o crescimento econômico, mas sim na curva que mostra as emissões de gases de efeito estufa. Não deveríamos mais simplesmente perguntar: “Temos dinheiro suficiente para continuar com isso?”, mas também: “Já poupamos o suficiente do orçamento de carbono para gastar com isso?”. Esse deveria e deve se tornar o centro da nossa nova moeda.

Muitas pessoas dizem que não temos soluções para a crise climática. E elas têm razão. Porque como poderíamos? Como vocês “solucionam” a maior crise que a humanidade já enfrentou? Como vocês “solucionam” uma guerra? Como vocês “solucionam” uma ida à Lua pela primeira vez? Como vocês “solucionam” a invenção de novas invenções?

A crise climática é tanto a questão mais fácil quanto a mais difícil que já enfrentamos. A mais fácil, porque sabemos o que devemos fazer. Temos que parar as emissões de gases de efeito estufa. A mais difícil, porque a nossa economia atual ainda depende totalmente da queima de combustíveis fósseis e, assim, da destruição dos ecossistemas, a fim de criar um crescimento econômico duradouro.

“Então, exatamente, como solucionamos isso?”, vocês nos perguntam – nós, as crianças das escolas que estão em greve pelo clima.

E nós dizemos: “Ninguém sabe ao certo. Mas temos que parar de queimar combustíveis fósseis e restaurar a natureza e muitas outras coisas que talvez ainda não tenhamos descoberto”.

Então, vocês dizem: “Isso não é uma resposta!”.

Então, nós dizemos: “Temos que começar a tratar a crise como uma crise – e a agir mesmo que não tenhamos todas as soluções”.

“Isso ainda não é uma resposta”, vocês dizem.

Então, começamos a falar sobre a economia circular e a recuperação da natureza e a necessidade de uma transição justa. Então, vocês não entendem sobre o que estamos falando.

Nós dizemos que todas essas soluções necessárias não são conhecidas por ninguém e, portanto, devemos nos unir atrás da ciência e encontrá-las juntos ao longo do caminho. Mas vocês não escutam isso. Porque essas respostas servem para resolver uma crise que a maioria de vocês não entende completamente. Ou não quer entender.

Vocês não ouvem a ciência porque estão interessados apenas em soluções que lhes permitirão seguir em frente como antes. Como agora. E essas respostas não existem mais. Porque vocês não agiram a tempo.

Evitar o colapso do clima exigirá um “pensamento de catedral”. Devemos lançar as fundações enquanto ainda não podemos saber exatamente como construir o teto.

Às vezes, temos simplesmente que encontrar um caminho. No momento em que decidimos realizar alguma coisa, podemos fazer qualquer coisa. E tenho certeza de que, no momento em que começarmos a nos comportar como se estivéssemos em uma emergência, poderemos evitar a catástrofe climática e ecológica. Os humanos são muito adaptáveis: ainda podemos consertar isso. Mas a oportunidade de fazer isso não durará muito tempo. Devemos começar hoje. Não temos mais desculpas.

Nós, crianças, não estamos sacrificando a nossa educação e a nossa infância para que vocês nos digam o que vocês consideram como politicamente possível na sociedade que vocês criaram. Nós não fomos às ruas para vocês tirarem selfies conosco e nos dizerem que vocês realmente admiram o que fazemos.

Nós, crianças, estamos fazendo isso para acordar os adultos. Nós, crianças, estamos fazendo isso para que vocês ponham suas diferenças de lado e comecem a agir como se vocês estivessem em uma crise. Nós, crianças, estamos fazendo isso porque queremos as nossas esperanças e os nossos sonhos de volta.

Eu espero que o meu microfone esteja ligado. Eu espero que todos vocês tenham me ouvido.

 

São Jorge: os pobres matam todo santo dia um dragão

Tempos atrás escrevi dois estudos sobre São Jorge, um histórico e outro interpretativo. A situação atual da maioria do povo empobrecido e humilhado tem que matar um dragão cada dia para poder sobreviver. Vale invocar a força e a coragem de São Jorge.Por isso atualizo o escrito anteriormente publicado e válido especialmente para o atual momento.

A história de São Jorge e o combate feroz com o dragão são dados de grande significação. Vamos tentar interpretar sua figura, o dragão e a sua luta.Veremos que tem a ver com a existência de cada ser humano, especialmente dos que precisam lutar muito para viver. Primeiramente, o dragão é dragão, portanto, uma serpente. Mas é apresentada alada, com enorme boca que emite fogo e fumaça e um cheiro mortífero. É um dragão simbólico.

No Ocidente representa o mal e o mundo ameaçador das sombras. No Oriente é positivo, símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade (long). Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), símbolo positivo de  sua cultura. Para nós ocidentais o dragão é sempre terrível e representa a ameaça à vida ou as dificuldades duras da sobrevivência. Os pobres dizem: “tenho que matar um dragão por dia tal é a luta pela sobrevivência”.

Mas o dragão, como o mostrou a tradição psicanalítica de C. G. Jung com Erich Neumann, James Hillmann. Etienne Perrot e outros, representa um dos arquétipos (elementos estruturais do inconsciente coletivo ou imagens primordiais que ordenam a psique) mais ancestrais e transculturais da humanidade.

Junto com o dragão sempre vem o cavaleiro heroico que com ele se confronta numa luta feroz. Que significam essas duas figuras? À luz de categorias de C. G. Jung e discípulos, especialmente de Erich Neumann que estudou especificamente este arquétipo (A história da origem da consciência, Cultrix 1990) e da psicoterapia existencial-humanística de Kirk J. Schneider (O eu paradoxal, Vozes 1993) procuremos entender o que está em jogo nesse confronto. Ele ensina e nos desafia.

O caminho da evolução leva a humanidade do inconsciente ao consciente, da fusão cósmica com o Todo (Uroboros) para a emergência da autonomia do ego. Essa passagem é dramática, nunca totalmente realizada; por isso, o ego deve continuamente retomá-la caso queira gozar de liberdade e se impor na vida.

Mas importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano, de cada um de nós.  O dragão em nós é o nosso universo ancestral, obscuro, nossas sombras de onde imergimos para a luz da razão e da independência do ego. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono) o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro São Jorge. Numa gravura de Rogério Fernandes o dragão aparece envolvendo o corpo do Santo, que o segura pelo braço e tendo o rosto, nada ameaçador na altura do de São Jorge. É um dragão humanizado formando uma unidade entre o ser humano e São Jorge. Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão) o dragão aparece como um animal domesticado sobre o qual São Jorge de pé o conduz, sereno, não com a lança mas com um bastão.

A atividade do herói, no caso de São Jorge, na sua luta com o dragão mostra a força do ego,da consciência, corajoso, iluminado e que se firma e conquista autonomia, mas sempre em tensão com a dimensão escura do dragão. Eles convivem mas o dragão não consegue dominar o ego.

Diz o psicanalista Neumann:”A atividade da consciência é heroica quando o ego assume e realiza por si mesmo a luta arquetípica com o dragão do inconsciente, levando-a a uma síntese bem sucedida”(Op.cit. p.244), A pessoa que fez esta travessia não renega o dragão, mas o mantem domesticado e integrado como seu lado de sombra.

Por esta razão, em muitas narrativas, São Jorge não mata o dragão. Apenas o domestica e o reinsere no seu lugar, deixando de ser ameaçador. Ai surge a síntese feliz dos opostos; o eu paradoxal encontrou seu equilíbrio pois alcançou a harmonização do ego com o dragão, do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra,  da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e com a religião.

A confrontação com as oposições e a busca da síntese constitui a característica de personalidades amadurecidas, que integraram a dimensão de sombra e de luz. Assim o vemos em Buda, Francisco de Assis, Jesus, em Gandhi, em Luther King e no Papa Francisco.

Os cariocas tem grande veneração por São Jorge tão forte quanto a de São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”.Por isso há um movimento para faze-lo o segundo patrono do Rio de Janeiro.

O povo sente necessidades de um santo guerreiro corajoso “vencedor” das adversidades. Ai São Jorge representa o santo ideal. Numa famosa  novela “Salve Jorge”ele é o herói que salva as mulheres traficadas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.

Por certo, aqueles que veneram São Jorge diante do dragão não saibam nada disso. Não importa. Seu inconsciente sabe; ele  ativa e realiza neles sua obra: a vontade de lutar, de se afirmar como egos autônomos que enfrentam e integram as dificuldades (os dragões) dentro de um projeto positivo de vida (São Jorge, herói vitorioso). E saem fortalecidos para a luta da vida.

Leonardo Boff coordenou a publicação da obra completa de C. G. Jung junto à Editora Vozes.

 

 

 

Hass zu verbreiten und dabei „Gott über alles“ zu verkünden ist Blasphemie

Ich wünschte, ich bräuchte diesen Artikel nicht zu schreiben. Doch die akute gegenwärtige politische Krise und der Missbrauch, der in Gottes Namen begangen wird, fordern die öffentliche Funktion der Theologie heraus. Wie in jedem anderen Bereich hat auch die Theologie eine soziale Verantwortung. Es gibt Zeiten, zu denen der Theologe von seinem Katheder herabsteigen und ein paar Worte in die politische Arena richten muss. D. h. Missbräuche anzuprangern und gute Taten publik zu machen, selbst wenn diese Rolle des Theologen von manchen Gruppierungen missverstanden oder als Parteilichkeit angesehen werden kann, obwohl dies nicht der Fall ist.

Ich sehe mich demütig in der Tradition solch prophetischer Bischöfe wie Dom Helder Camara oder der Kardinäle Dom Paulo Evaristo Arns (denken wir an das Buch „Brasilien nie wieder“, das zum Sturz der Diktatur beigetragen hat) und Dom Aloysio Lorscheider, Bischof Dom Waldir Calheiros und andere, die in den düsteren Zeiten der Militätdiktatur von 1964 den Mut hatten, ihre Stimme zu erheben für die Verteidigung der Menschrechte und gegen das Verschwindenlassen und gegen Folter durch Staatsbedienstete.

Wir leben derzeit in einem Land, das zerrissen ist durch tief sitzenden Hass, durch gegenseitige Anschuldigungen mit einer Wortwahl untersten Niveaus und vielen Fake News, die selbst von den höchsten Autoritäten des Landes, dem derzeitigen Präsidenten, verbreitet werden. Auf diese Weise zeigen sich sowohl die fehlende Gelassenheit in seinem hohen Amt und die desaströsen Konsequenzen seiner Interventionen als auch die Absurditäten, die er im In- und Ausland von sich gibt.

Sein Wahlkampfslogan lautete und ist immer noch „Gott über allem und Brasilien vor allem“. Wir müssen diese Verwendung des Namens Gottes anprangern. Das zweite göttliche Gebot ist da eindeutig: „Du sollst den Namen des Herrn, deines Gottes, nicht missbrauchen. Nur ist die Verwendung des Namens Gottes hier nicht nur Missbrauch, sondern wahre Gotteslästerung. Warum? Darum, weil es nicht möglich ist, Gott in Beziehung mit Hass zu bringen, mit dem Anpreisen von Folter und Folterknechten und mit Bedrohungen seiner Gegner, so wie Bolsonaro und seine Angehörigen es tun. In den heiligen jüdisch-christlichen Schriften offenbart Gott seine göttliche Art als „Liebe“ und „Barmherzigkeit“. „Bolsonarismus“ betreibt eine Politik der Konfrontation mit den Gegnern, ohne Dialog mit dem Kongress, versteht Politik als Konflikt nach faschistischer Art. Dies hat nichts mit der Liebe und der Barmherzigkeit Gottes zu tun. Folglich propagiert und legitimiert er von oben eine wahre Kultur der Gewalt, die es jedem Bürger erlaubt, bis zu vier Waffen zu besitzen. Eine Waffe ist kein Kinderspielzeug, sondern ein Mittel zum Töten oder zur Verteidigung, indem man seinen Nächsten verstümmelt oder tötet.

Bolsonaro erachtet sich selbst als religiös, doch hier handelt es sich um eine gehässige Religiosität. Sie scheint jeglicher Heiligkeit beraubt und offenbart einen verstörenden Mangel an Spiritualität oder Sinn für Engagement, weder für das menschliche Leben noch für die anderen Geschöpfe, insbesondere nicht für diejenigen, die weniger besitzen. Völlig zu recht sagt Papst Franziskus oft, dass er einen Atheisten guten Willens und mit einer ethischen Einstellung lieber mag als einen heuchlerischen Christen, der weder Liebe noch Mitgefühl für seinen Nächsten hat und keine humanistischen Werte pflegt.

Ich zitiere aus einem Text von einem der größten Theologen des vergangenen Jahrhunderts, der am Ende seines Lebens zum Kardinal ernannt wurde, dem französischen Jesuiten Henri de Lubac:

Wenn es mir an Liebe oder Gerechtigkeit mangelt, entferne ich mich unweigerlich von Dir, mein Gott, und mein Gottesdienst ist nichts anderes als Götzenanbetung. Um an Dich zu glauben, muss ich an Liebe und Gerechtigkeit glauben. Es ist tausendmal wertvoller, an Liebe und Gerechtigkeit zu glauben, als Deinen Namen auszusprechen. Es ist mir unmöglich, Dich zu finden, wenn ich von Liebe und von Gerechtigkeit getrennt bin. Diejenigen, die sich an Liebe und Gerechtigkeit orientieren, sind auf dem Weg, der zu Dir führt.“ (Sur les chemins de Dieu, Aubier 1956, S. 125).

Bolsonaro, sein Clan und seine Anhänger (wenn auch nicht alle von ihnen) orientieren sich weder an der Liebe noch schätzen sie die Gerechtigkeit. Aus diesem Grund sind sie von dem „göttlichen Milieu“ getrennt (Teilhard de Chardin), und ihr Weg führt sie nicht zu Gott. Es gibt Neupfingstliche Pastoren, die Bolsonaro als von Gott gesandt ansehen, doch das ändert nichts an der Haltung des Präsidenten, der im Gegensatz dazu den heiligen Namen Gottes umso mehr beleidigt, insbesondere wenn sie auf Youtube einen pornografischen Beitrag gegen den Karneval posten.

Was für ein Gott beraubt die Armen ihrer Rechte und erteilt den Reichen Privilegien? Was für ein Gott demütigt die alten Menschen, degradiert Frauen und verachtet die Bauern, indem er ihnen die Hoffnung auf eine Rentenversorgung nimmt?

Das Projekt der Sozialversicherung schafft zutiefste soziale Ungleichheiten, und doch haben sie die Stirn zu sagen, dass sie damit Gleichheit schaffen. Ungleichheit ist ein neutrales analytisches Konzept. Aus ethischer Perspektive bedeutet sie soziale Ungerechtigkeit. Theologisch betrachtet bedeutet Ungleichheit Sünde, die Gottes Plan der großen geschwisterlichen Gemeinschaft aller zuwiderläuft.

Der französische Ökonom Thomas Piketty, der berühmt ist für sein Buch „Das Kapital im 21. Jahrhundert“ (FCE 2014), schrieb auch ein ganzes Buch über die Ökonomie der Ungleichheiten (2015). Gemäß Piketty offenbart sich unsere soziale Ungerechtigkeit in der simplen Tatsache, dass 1 % der Menschen als Multimillionäre einen Großteil des Einkommens der Menschen weltweit unter ihrer Kontrolle haben und dass, laut Marcio Pochmann, ein Spezialist auf diesem Gebiet, in Brasilien die sechs reichsten Milliardäre so viel besitzen wie die 100 Millionen ärmsten Brasilianer (JB 25.09.2017).

Unsere Hoffnung ist, dass Brasilien größer ist als die herrschende Irrationalität und dass wir aus der aktuellen Krise in einem besseren Zustand hervorgehen.

Leonardo Boff Ökologe-Theologe-Philosoph und Mitglied der Erdcharta-Kommission