Não basta ser bom, há que ser misericordioso

A lei áurea, presente em todas as religiões e caminhos espirituais é:”ame o próximo como a ti mesmo”. Ou dito de outra forma: “não faças ao outro o que não queres que te façam a ti”.

O Cristianismo incorpora essa ética mínima e assim se inscreve dentro desta tradição ancestral. Entretanto, ele abole todos os limites ao amor para que seja realmente universal e incondicional. Afirma:”amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem para serdes filhos de vosso Pai. Pois Ele faz nascer o sol para bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes a quem vos ama, que vantagem tereis? Não o fazem também os cobradores de impostos? Se saudardes apenas vossos irmãos, que extraordinário há nisso? Não fazem também os pagãos?(Mt 5,44-47).

Instrutiva é a versão que São Lucas dá em seu evangelho:”Amai vossos inimigos. Assim sereis filhos e filhas do Altíssimo porque é bondoso para com os ingratos e maus; sede misericordiosos como o Pai é misericordioso”(6,35-36).

Essa afirmação é profundamente consoladora. Quem não se sente, por vezes, “ingrato e mau”? É então que nos conforta estas animadoras palavras: o Pai é bondoso, apesar de nossas maldades.E assim aliviamos o fardo de nossa consciência que nos persegue por onde quer que vamos. Aqui ressoam as consoladoras palavras da primeira epístola de São João:”se nosso coração nos acusa, saiba que Deus é maior do que seu coração”(1Jo 3,20). Estas palavras deveriam ser sopradas ao ouvido de todo o moribundo com fé.

Tanta compreensão divina nos reporta às palavras de um dos mais alentadores salmos da Bíblia, o salmo 103:”O Senhor  é rico em misericórdia. Não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre. Quanto se elevam os céus sobre a terra, tanto prevalece sua misericórdia. Como um pai sente compaixão pelos filhos e filhas, assim o Senhor se compadece dos que o amam, porque conhece a nossa natureza e sabe de que somos pó (9-14).

Uma das características do Deus bíblico é sua misericórdia, porque sabe que somos frágeis e fugazes “como as  flores do campo; basta o bafejar do vento para não existirmos mais”(103,15). Mesmo assim nunca deixa de nos amar como filhos e filhas queridos e de se compadecer de nossas debilidades morais.

Uma das qualidades fundamentais da imagem do Deus que o Mestre nos comunicou foi exatamente sua misericórdia ilimitada.  Para ele não basta ser bom. Tem que ser misericordioso. A parábola do filho pródigo o ilustra com rara ternura humana. O filho saíra de casa, malbaratou toda a herança numa vida dissoluta e, de repente, saudoso, resolveu voltar para casa. O pai ficava longo tempo, esperando-o, olhando para a esquina da estrada para ver se ele aparecesse. Eis  que:”ainda longe” como diz o texto, “o pai  viu o filho e, comovido, lhe correu ao encontro e se lançou ao pescoço cobrindo-o de beijos”(15,20). Eis o supremo amor que se faz misericórdia.Nada lhe cobra. Basta com estar de volta à casa paterna. E preparou-lhe, cheio de alegria, uma grande festa.

Esse pai misericordioso representa o Pai celeste que ama os ingratos e maus. Acolheu com infinita misericórdia o filho que se havia perdido na vida. O único filho que é criticado é o filho bom. Serviu o pai em tudo, trabalhou, observou todos os mandamentos. Era bom, muito bom. Mas para Jesus não bastava ser bom. Tinha que ser misericordioso. E não o foi. Por isso é o único a receber uma reprimenda por não compreender o irmão que regressou.

Mas releva enfatizar um ponto que mostra a singularidade da mensagem do Nazareno. Ele quer ir além de simplesmente amar o próximo como nos amamos a nós mesmos. Quem é o próximo para Jesus? Não  é o meu amigo, nem aquele que está próximo, ao meu lado. Próximo para Jesus é todo aquele de quem eu me aproximo.Pouco importa sua origem ou sua condição moral. Basta ser um humano.

A parábola do bom samaritano é emblemática (Lc 10,30-37). Jaz à beira da estrada, ”semi-morto” um joão-ninguém, vítima de um assalto. Passa um sacerdote, talvez atrasado no seu serviço no templo; passa também um levita, apressado, na preparação do altar. Ambos o viram e “passaram ao largo”. Passa um samaritano, um hereje para os judeus; “teve cuidado dele e teve misericórdia para com ele”, curando-lhe as feridas e levando-o a uma hospedaria e ainda deixando tudo pago e mais que fosse preciso. “Quem dos três foi o próximo”? pergunta o Mestre. Foi o hereje que se aproximou da vítima dos assaltantes. O amor não discrimina, cada ser humano é digno de amor e de misericórdia. Seguramente o sacerdote e o levita eram gente boa, mas lhes faltava o principal: a misericórdia, o coração que se comove diante da dor do outro.

Resumindo,quando Jesus manda amar o próximo, significa amar esse desconhecido e discriminado; implica amar os invisíveis, os zeros sociais, aqueles que ninguém olha e passam ao largo, amar aqueles que no momento supremo da história, quando tudo será tirado a limpo, ele os chama de “os meus irmãozinhos menores”.”Quando amastes a um desses, foi a mim que o fizestes”(Mt 25,40).

A Covid-19 está mostrando,especialmente, nas periferias, junto aos criticados membros do Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto e de outros,que a mensagem do amor misericordioso, vivida pelo Filho do Homem não se apagou e está ainda viva e acesa.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Jesus Cristo Libertador,Vozes 1971, várias edições.

Comer o mundo ou salvaguardar o mundo?

“Comer o mundo” ou “salvaguardar o mundo” representam uma metáfora,frequente na boca de lideranças indígenas, questionando o paradigma de nossa civilização, cuja violência os fez quase desaparecer. Agora  ele foi posto em xeque pelo Covid-19. O vírus caiu como um raio sobre o paradigma do “comer o mundo”, vale dizer, explorar ilimitadamente  tudo que existe na natureza na perspectiva de um crescimento/enriquecimento sem fim. O vírus destruiu os mantras que o sustentam: centralidade do lucro, alcançado pela concorrência o mais feroz possível, acumulado privadamente, à custa da superexploração dos recursos naturais. A obedecer estes mantras, estaríamos seguramente em maus lençóis. O que nos está salvando é  o ocultado e feito invisível no paradigma do “comer o mundo”: a vida, a solidariedade, a interdependência entre todos e o cuidado da natureza e de uns para com os outros. É o paradigma imperioso do “salvaguardar o mundo”.

Este paradigma do “comer o mundo” tem alta ancestralidade. Vem de Atenas do século V aC quando irrompeu o espírito crítico, abandonando os mitos, que permitiu perceber a dinâmica intrínseca do espírito que é a ruptura de todos os limites e a busca do infinito.Tal propósito  foi pensado pelos grandes filósofos, pelos artistas, aparecendo também nas tragédias de Sófocles,Ésquilo e e Eurípides e praticado pelos políticos. Não é mais  “medén ágan”do templo de Delfos: “nada em excesso” mas agora é a expansão espacial ilimitada (criação de colônicas e de um  império) e a expansão temporal abrir-se ao futuro sem fim (perspectiva ilimitada para a frente).

Tal projeto de “comer o mundo” ganhou corpo na própria Grécia pela criação do império de Alexandre,o Grande (356-323) que com a idade de apenas 23 anos fundou um império que se expandia do Adriático até o rio Indo na Índia.

O “comer o mundo”se aprofundou no vasto império romano, se reforçou na idade moderna colonial e industrial e culminou no mundo contemporâneo com a globalização da tecno-ciência ocidental, expandida para todos os rincões do planeta. É o império do ilimitado, traduzida no propósito (ilusório) do capitalismo/neoliberalismo do crescimento sem limites em direção ao futuro. Basta dar como exemplo desta busca do crescimento ilimitado, o fato de que na última geração se queimou mais recursos energéticos do que todas as gerações anteriores da humanidade. Não há lugar que não tenha sido explorado, visando a acumulação de bens.

Mas eis que irrompeu um limite intransponível: a Terra limitada como planeta, pequena, superpovoada, com bens e serviços limitados não suporta um projeto ilimitado.Tudo tem limites. No dia 22 de setembro de 2020 as ciências da Terra e da vida identificaram a Sobrecarga da Terra (The Earth Overhoot). Quer dizer, o limite dos bens e serviços naturais renováveis, básicos para a sustentação da vida. Eles se esgotaram. O consumismo, ao não aceitar limites, leva a fazer violência, arrancando da Mãe Terra aquilo que ela já não pode mais dar. Estamos consumindo o equivalente a uma Terra e meia. As consequências desta extorsão se mostram na reação da Mãe Terra exausta: o aumento do aquecimento global, a erosão da biodiversidade (cerca de cem mil espécies eliminadas por ano e um milhão sob risco), a perda da fertilidade dos solos e a desertificação crescente  entre outros eventos extremos.

A ultrapassagem de algumas das nove fronteiras planetárias (mudanças climáticas, extinção de espécies, acidificação dos oceanos e outras) podem provocar um efeito sistêmico, derrubando todas as nove e assim induzir a um colapso da nossa civilização. A intrusão do Covid-19 pôs de joelhos todas as potências militaristas,tornando inúteis e ridículas as armas de destruição em massa. A gama de vírus preanunciados, caso não mudarmos a nossa relação destruidora da natureza, poderá sacrificar vários milhões de pessoas e afinar a biosfera, essencial para todas as formas de vida.

Presentemente a humanidade está sendo tomada pelo  terror metafísico face aos limites intransponíveis e à possibilidade do fim da espécie. È ilusório o pretendido Great Reset do sistema do capital. A Terra o fará fracassar.

É neste contexto dramático que emerge o outro paradigma do “salvaguardar o mundo”. Ele é suscitado particularmente por lideranças indígenas como Ailton Krenak, Davi Kopenawa Yanomani, Sônia Guajajara, Renata Mchado Tupinambá, Cristine Takuá, Raoni Metuktire entre outros. Para todos eles vigora uma profunda comunhão com a natureza da qual se sentem parte. Não precisam pensar a Terra como a Grande Mãe,Pachamam e Tonantzin porque a sentem assim.  Naturalmente salvaguardam o mundo porque é uma extensão de seu próprio corpo.

A ecologia do profundo e integral como vem exposta na Carta da Terra (2000), nas encíclicas do Papa Francisco Laudato SI: como cuidar da Casa comum (2015) e Fratelli tutti (2020) e no programa Justiça, Paz e Preservação do Criado do Conselho Mundial de Igrejas, entre noutros grupos, assmiram o “salvaguardar o mundo”. O propósito comum é garantir a condições físico-químico-ecológicas que sustentam e perpetuam a vida em  todas as suas formas,especialmente, a humana. Já estamos dentro da sexta extinção em massa e pelo antropoceno a aprofundamos.Se não lermos emocionalmente, com o coração, os dados da ciência sobre as ameaças que pesam sobre nossa sobrevivência, dificilmente nos engajaremos para “salvaguardar o mundo”.

Severamente alertou o Papa Francisco na Fraterlli tutti: ”ou nos salvamos todos juntos ou ninguém se salva”(n.32). É uma advertência quase desesperada se não quisermos “engrossar o cortejo dos que rumam na direção de sua sepultura” (S.Bauman). Damos o salto da fé e cremos no que se diz no Livro da Sabedoiia:”Deus é o apaixonado amante da vida”(11,26). Se assim é, Ele não permitirá que desapareceramos tão miseravelmente da face da Terra. Assim cremos e esperamos.

Leonardo Boff  escreveu: Cuidar da Terra-Proteger a vida: como evitar o fim do mundo, Record 2010; Covid-19, a Mãe Terra contra-ataca a Humanidade: advertências da pandemia,  Vozes 2020.

Indignación, fatalismo, fe, esperanza y aprendizaje: Covid-19

La aparición de la Covid-19 ha traído grandes cuestionamientos para la existencia humana. Para frenar su propagación se han impuesto varias medidas restrictivas que han provocado impaciencia, indignación, desesperanza y fatalismo. Pero han creado también la oportunidad de fe, de esperanza y sobre todo de reflexión acerca del sentido de nuestra presencia en este planeta y un aprendizaje para la vida, que debe continuar mejor, más tierna y fraterna.

El virus invisible ha desenmascarado la arrogancia del ser humano moderno que se juzgaba un pequeño dios, capaz de dominar las fuerzas de la naturaleza con la tecnociencia y someterlas a su servicio. La Covid-19 ha demostrado que solamente somos señores de la naturaleza si la obedecemos. No somos dueños sino parte de la naturaleza junto a y no encima de los demás seres.

La Covid-19 nos ha revelado como seres expuestos a la imprevisibilidad y la vulnerabilidad, es decir, no dominamos las condiciones que garantizan o amenazan nuestra vida. ¿Quién, exceptuando epidemiólogos, como uno de los mayores, David Qammen, previó la llegada amenazadora del virus? Son pocos los países que tienen un SUS (Sistema Único de Salud) como nosotros en Brasil. No lo tienen Estados Unidos, Italia, España y México entre otros. Además somos seres que no poseen ningúnórgano especializado (Mangelwesen de Arnold Gehlen) que asegure nuestra existencia ni poseemos un hábitat propio, como tienecada especie de la naturaleza. Tenemos que construir, mediante la interacción con la naturaleza y el trabajo. nuestro hábitat, o sea, un lugar hospitalario en el cual podemos vivir sin mayores amenazas y en paz.

El virus ataca a personas, ricas y pobres, clases, religiones y todas las naciones del planeta. Las armas de destrucción masiva sobre las que se funda el poder de los imperios de hoy en busca de hegemonía mundial e incluso del dominio sobre otros pueblos, se han vuelto ineficaces e incluso ridículas. Lo que nos está salvando no son los mantras de la cultura del capital (lucro, competencia, individualismo, asalto a los bienes y servicios de la naturaleza, dominio del mercado sobre la sociedad) sino los valores casi ausentes en este sistema capitalista y neoliberal: la centralidad de la vida, la interdependencia entre todos, la solidaridad, la generosidad, el cuidado de unos a otros y de los escasos bienes naturales, las relaciones sociales más amigables frente a la insaciable voracidad del mercado, un estado social que atiende las demandas básicas de sus ciudadanos Este es un aprendizaje que estamos haciendo; hay que interiorizarlo y fundar un nuevo paradigma de comportamiento, para que no se traduzca en unos pocos actos sino en una actitud permanente, ya que esto es lo que transforma.

La indignación y la impaciencia son comprensibles porque somos seres sociales. No poder convivir, abrazar y besar a nuestros seres queridos y amigos es doloroso y triste. Asumimos las renuncias como cuidado de nosotros mismos y como solidaridad con los demás para no contaminarlos ni contaminarnos nosotros mismos. Importa que la indignación se transforme en empatía por los que sufren, ya sea en los hospitales, o con las familias que han perdido a sus seres queridos.

El fatalismo significa aceptar un hecho como inevitable ante el cual no podemos hacer nada. Esta es una visión negacionista que nos lleva a la inercia y al abatimiento. Olvida que el ser humano fue creado creador; tiene energías ocultas en su interior que son más fuertes que la dureza de los acontecimientos. Podemos resistirlos, evitarlos y, aunque ocurran, siempre es posible sacar lecciones de ellos y así superarlos. Nada es fatal en este mundo. Solo la muerte lo es. Pero la muerte no tiene por qué significar el fin de nuestra peregrinación, sino el momento de transfiguración, el ejercicio de la libertad suprema al no permitir que nos quiten la vida, sino entregársela a un Mayor, y despedirnos de este mundo agradecidos por el hecho de haber existido. La última palabra de Santa Clara, compañera de San Francisco de Asís, es inspiradora: “Señor, te doy gracias por haberme creado”. Inclinó la cabeza hacia un lado y expiró y así cayó en los brazos de Dios-Padre-y-Madre de bondad que la esperaban.

Ante la pandemia avasalladora, es urgente suscitar la fe y alimentar la esperanzaLa fe, en su sentido bíblico, significa más que acoger verdades y adherirse a doctrinas. Es sobre todo confiar en Alguien que acompaña nuestros pasos, conoce todos nuestros altibajos, sabe de qué polvo estamos hechos y se apiada de nosotros. Por eso, como dice de forma consoladora el Salmo 103: “Él no está siempre acusando ni guarda rencor para siempre; como un padre tiene compasión de sus hijos, así el Señor se compadece de los que confían en él, porque conoce nuestra naturaleza y recuerda que somos polvo” (v. 9-14). Tener fe significa que la vida, por penosa que sea, tiene sentido y vale la pena asumirla y amarla. Hoy la asumimos en su fragilidad y confiamos en que ese Alguien pueda compadecerse de nosotros y salvarnos del virus letal

La esperanza nos hace comprender que lo invisible es parte de lo visible. La realidad empírica y dada no es toda la realidad. Oculta algo invisible que pertenece a nuestra condición humana: las innumerables posibilidades y virtualidades escondidas dentro de nosotros. Podemos desentrañarlas inventando una nueva solución a nuestros problemas. La esperanza nos permite soñar y pensar en mundos aún no vividos y ensayados pero que nos desafían a darles forma. Mientras haya esperanza, no habrá callejones sin salida. Por la esperanza nos convencemos de que la Covid-19 no será el Next Big One, el gran virus terminal, contra el que ninguna vacuna sería eficaz y que podría liquidar gran parte de la biosfera y acabar con millones de seres humanos. Pero el virus es misterioso, desconocemos las consecuencias y su posible permanencia endémica entre los humanos. Todo indica que el mundo pre-pandemia definitivamente ha pasado. Debemos prepararnos para algo nuevo en la humanidad: una nueva forma de vivir y convivir entre nosotros los humanos y con la naturaleza a ser regenerada.

Nuestra esperanza es que aún tenemos futuro. Nacidos en el corazón de las grandes estrellas rojas, hace miles de millones de años, seguiremos irradiando. Alimenta nuestra esperanza una de las últimas frases de la Laudato Si: cómo cuidar de la Casa Común delPapa Francisco: “Caminemos cantando; que nuestras luchas y nuestra preocupación por este planeta no nos quiten la alegría de la esperanza” (n.244).

*Leonardo Boff es filósofo y teólogo y ha escrito: El doloroso parto de la Madre Tierra: una sociedad de fraternidad sin fronteras y de amor social, que saldrá publicado en breve por la Editorial Vozes 2021.

Traducción de Mª José Gavito Milano

Heutezutage erleidet die Menschheit einen sträflichen Mangel an Tischgemeinschaft

Gründonnerstag, das Letzte Abendmahl des Herrn, erinnert uns an die Tischgemeinschaft, die heute den Millionen Hungernden in Brasilien und weltweit verwehrt wird als Folge des Eindringens von Covid-19. Leider ist es offensichtlich, dass es eine schmerzhafte Abwesenheit von Solidarität angesichts der hungrigen Massen gibt, die uns daran hindert, zusammen zu essen (Tisch-Gemeinschaft).

Eines der Verdienste von MST (Landlosen-Bewegung) ist, dass sie sich in all ihren Siedlungen nach der Ethik der Solidarität unter ihren Mitgliedern und sogar mit denen außerhalb ihrer Siedlungen organisiert hat. Sie sind vorbildlich darin, ihre ökologisch angebauten Lebensmittel mit Hilfe von vielen Lebensmittelpaketen zu teilen, die an Tausende von Familien an den Peripherien unserer Städte verteilt werden. Sie praktizieren einen der ältesten Träume der Menschheit: Die Tisch-Gemeinschaft, das heißt, jeder kann ausreichend essen und zusammen essen, an einem Tisch sitzen und die Geselligkeit und die Früchte der großzügigen Mutter Erde genießen.

Essen ist mehr als ein materielles Objekt. Es ist ein Sakrament und Symbol der Großzügigkeit von Mutter Erde, die uns zusammen mit menschlicher Arbeit alles bietet, was wir brauchen. Es geht nicht um Ernährung, sondern um Gemeinschaft mit der Natur und mit anderen, mit denen wir Brot teilen. Im Rahmen des gemeinsamen Tisches wird das Essen geschätzt, und es wird darüber gesprochen. Die größte Freude der Köche, die das Essen zubereiten, ist es, die Zufriedenheit derer wahrzunehmen, die es essen und genießen. Eine wichtige Geste am Tisch ist es, das Essen zu servieren oder an den anderen weiterzugeben. Zivilisiertes Verhalten erleichtert jeder und jedem, sich selbst zu helfen, und sorgt dafür, dass es genug Nahrung für alle gibt.

Die zeitgenössische Kultur hat die Logik des Alltags so verändert und sie in Funktionen der Arbeit und Produktivität verwandelt, dass sie den symbolischen Bezug des Tisches geschwächt hat. Er war für Sonntage oder für besondere feierliche Anlässe oder Geburtstage reserviert, wenn Familienmitglieder sich trafen und sich zusammensetzten. Aber in der Regel ist es nicht mehr der Ort, an dem die Familie zusammenkommt.

Der Familientisch wurde durch andere Tische ersetzt, die absolut entweiht wurden: der Verhandlungstisch, der Spieltisch, die Diskussions- und Debattentische, ein Währungswechseltisch und ein Tisch für die Interessenvermittlung u. a. Auch wenn sie entweiht werden, haben diese verschiedenen Tische eine unbestreitbare Referenz: Sie sind ein Treffpunkt für Menschen, egal welche Interessen sie dazu bringen, an diesem Tisch zu sitzen. Sie sitzen am Tisch für Austausch, Verhandlung, Konsultation und Verfassen von Lösungen, die den beteiligten Parteien gefallen. Aber den Tisch zu verlassen, kann auch das Scheitern der Verhandlungen und die Anerkennung des Interessenkonflikts bedeuten.

Trotz dieser schwierigen Dialektik ist es wichtig, dem Tisch Zeit zu reservieren in seinem vollen Sinn für Koexistenz und die Zufriedenheit, gemeinsam essen zu können. Es ist eine der ewigen Quellen, um unser Wesen als Beziehungs-Wesen zu rekonstruieren. Wie sehr wird dies heute den Armen und Hungrigen verwehrt!

Lassen Sie uns ein wenig die Erinnerung an die Tischgemeinschaft wiedererlangen, die in allen Kulturen vorhanden ist und die Jesus beim Letzten Abendmahl mit seinen Aposteln praktiziert hat.

Beginnen wir mit der jüdisch-christlichen Kultur, weil sie uns vertrauter ist. Es gibt ein zentrales Thema – das Reich Gottes, der Hauptinhalt der Botschaft Jesu –, das durch ein Bankett repräsentiert wird, zu dem jeder und jede eingeladen ist.

Jede und jeder, unabhängig von ihrer/seiner moralischen Situation, sitzt am Tisch und wird willkommen geheißen. Der Meister sagt: “Das Himmelreich ist wie ein König, der ein Bankett für die Hochzeit seines Sohnes vorbereitet hat. Er schickte seine Diener, um die Gäste herbeizurufen und sagte zu ihnen: “Geh an die Kreuzung und lade alle, die du triffst, zur Feier ein. Die Knechte gingen die Wege entlang und sammelten alle, die sie fanden, Gute und Böse, und der Raum war voll von Gästen “(Mt 22,2-3; 9-10).

Eine andere Erinnerung kommt aus dem Osten zu uns. Darin stellt das gemeinsame Essen, in Solidarität miteinander, die höchste menschliche Erfüllung dar, den Himmel. Das Gegenteil, der Wunsch zu essen, aber egoistisch, jeder für sich selbst, zeigt die höchste menschliche Frustration, genannt Hölle.

Es gibt eine Legende, die Folgendes besagt: “Ein Schüler fragte den Seher:

-Meister, was ist der Unterschied zwischen dem Himmel mit seiner Gemeinschaft unter allen und seinem Gegenteil?

Der Seher antwortete: “Der Unterschied ist sehr gering, hat aber schwerwiegende Folgen.“

-“Ich sah die Essenden am Tisch sitzen, auf dem es eine sehr große Schüssel Reis gab. Alle waren hungrig, fast verhungert. Jeder versuchte es, konnte aber nicht an den Reis kommen. An ihren Händen befestigt hatten sie lange Gabeln von mehr als einem Meter Länge und versuchten, den Reis einzeln in den eigenen Mund zu bringen. So sehr sie sich auch bemühten, sie schafften es nicht, weil die Gabeln zu lang waren. Und so hungrig und einsam wegen ihres unersättlichen und endlosen Hungers blieben sie unterernährt. Das war die Hölle, die Verweigerung aller Tischgemeinschaft.

“Ich sah ein weiteres wunderbares Szenario”, sagte der Seher. Menschen saßen am Tisch um eine große Schüssel mit dampfendem Reis. Alle hatten Hunger. Aber es ist etwas Wunderbares passiert! Jeder nahm die Gabel mit Reis und führte sie an den Mund des anderen. Sie dienten einander in immenser Herzlichkeit, gemeinsam und solidarisch. Alle ernährten sich gegenseitig. Sie fühlten sich wie Brüder und Schwestern am großen Tisch, wie es im Tao heißt.

Und das war der Himmel, die ganze Tischgemeinschaft der Söhne und Töchter der Erde.“

Diese Parabel bedarf keines Kommentars. Leider ist heute, in der Zeit von Covid-19, ein großer Teil der Menschheit hungrig und verzweifelt, weil es nur sehr wenige Menschen gibt, die ihre Gabeln ausstrecken, um sich gegenseitig mit der reichlichen Nahrung auf dem Tisch der Erde zu sättigen. Die Reichen besitzen dieses Essen als Privateigentum und essen allein, ohne zu schauen, wer ausgeschlossen ist. Es gibt einen kriminellen Mangel an Gemeinschaft unter den Menschen. Deshalb fehlt es uns so an Menschlichkeit. Aber soziale Isolation schafft uns die Möglichkeit, unsere individualistischen Praktiken zu überprüfen und grenzenlose Geschwisterlichkeit und Tischgemeinschaft zu entdecken: Jede und jeder kann essen und in Gemeinschaft essen.

Traduzido por Bettina Goldharnack