Um novo conceito ecológico: “humanicídio”

https://aterraeredonda.com.br/wp-content/uploads/2020/03/michael.jpgUm novo conceito ecológico: “humanicídio”

Por MICHAEL LÖWY*

O autor deste artigo, Michael Löwy, professor na Sorbone é um sociólogo da religião mas que vai muito além de sua especialidade. É um dos fundadoes do ecosocialismo e um profundo conhecedor da teologia da libertação latino-americana. É autor de vasta obra, de um marxismo límpido e nada escolar, aberto à discussão de questões que tem a ver com o futuro da Terra e o destino da espécie humana. Publicamos aqui este seu artigo que revela especialmente esta sua preocupação, numa lnguagem moderada e sempre cientificamente bem fundada. Considero-o um dos grandes intelectuais públicos a  nivel mundial e também brasileiro pois está sempre acompanhando a situação de nosso país. Leonardo Boff

1.

O Institute and Faculty of Actuaries (IFoA) da Exeter University (Reino Unido) acaba de publicar, em janeiro de 2025, seu novo relatório sobre as mudanças climáticas, “Current climate policies risk catastrophic societal and economic impacts”. Este documento, de indiscutível teor científico, suscitou muitos comentários na imprensa, que se referiam, quase exclusivamente, a uma das previsões do documento: a possibilidade, no pior dos cenários, de que, a partir da década de 2050, o PIB mundial caia para 50% de seu nível atual. Para a grande mídia, o PIB é o único critério que, de fato, conta, a medida de todas as coisas.

Para aqueles que, como o filósofo humanista grego Protágoras (séc. V a.C.), acreditam que “o ser humano é a medida de todas as coisas”, o relatório da Institute and Faculty of Actuaries contém outra informação mil vezes mais importante e preocupante: no pior dos cenários – com temperaturas 3° acima dos níveis pré-industriais – a mortalidade humana poderá atingir a metade da humanidade, cerca de quatro bilhões de pessoas, vítimas da fome, da falta de água, de doenças, de catástrofes “naturais” (incêndios, inundações, etc.) e de conflitos.

O relatório da Institute and Faculty of Actuaries pode ser considerado muito pessimista ou muito otimista, mas dá uma ideia aproximada da ordem de grandeza dos riscos decorrentes das mudanças climáticas. E não em um século: em algumas décadas.

Em direito internacional, conhecemos o conceito de “ecocídio”: a destruição ou o dano irreparável de um ecossistema por um fator antropogênico, especialmente por um processo de superexploração desse ecossistema, intencional ou não (utilizarei a definição da Wikipédia). Também conhecemos muito bem o conceito de genocídio: um crime que consiste na eliminação concreta intencional, total ou parcial, de um grupo nacional, étnico ou religioso enquanto tal.

Penso que é necessário introduzir agora um novo conceito no debate sobre o direito internacional: o “humanicídio”, o extermínio concreto, total ou parcial, da humanidade enquanto tal. É claro que não é intencional: os criminosos não planejam o humanicídio, eles são simplesmente indiferentes às consequências humanas de suas ações. Conduzindo suas práticas de acordo com um único critério – a maximização do lucro –, são eles os responsáveis pelas mudanças climáticas. Quem são eles? A oligarquia fóssil – os formidáveis interesses ligados ao petróleo, ao carvão e ao gás, incluindo não só a exploração dos recursos fósseis, mas também a indústria automobilística, petroquímica e muitos outros ramos da produção capitalista, incluindo os bancos que os financiam, assim como sua expressão política: os governos negacionistas ou inativos.

2.

A associação Attac utiliza o conceito de “criminalidade climática organizada” para se referir aos responsáveis pelas catástrofes climáticas mortais que ocorrem atualmente em todo o mundo. Mas se as previsões da Exeter University se confirmarem, seremos confrontados com um grau de “criminalidade climática” de natureza infinitamente mais grave.

O direito internacional ainda não incorporou o ecocídio, e é pouco provável que o faça em relação ao humanicídio. Entretanto, é urgente agir, aqui e agora, para interromper a corrida rumo ao abismo. O humanicídio não é inevitável, ainda podemos impedi-lo. Mas o tempo está acabando…

*Michae Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de Franz Kafka sonhador insubmisso (Editora Cem Cabeças) [https://amzn.to/3VkOlO1]

FILME: SOU NETA DOS ANTIGOS

                                    de Adriana Miranda

Hoje a Mãe Terra se encontra sob grave crise. O consumismo das classes opulentas está exigindo mais de uma Terra e meia para atender a suas demandas.

Entramos na fase do fogo, o PIROCENO (em greg Piros é fogo) a mais perigosa de todas as anteriores. Antes dominávamos o fogo. Agora o fogo nos domina. Em quase todas as partes do planeta se verificam devastadoras queimadas de milhares de hectares na Amazônia, no Pantanal, no Canadá, na Califórnia, na Austrália e em muitos outros países.

O aquecimento global, tido por irreversível, chegando perto de 2 graus Celsius torna inabitáveis muitas regiões,obrigando a migração de milhares de pessoas.

Onde encontramos inspiração para superar esta fase perigosa que ameaça a vida na Terra? É aqui que voltamos  para a sabedoria dos povos originários: eles sentem-se parte da natureza, respeitam-na e cuidam dela como cuidam de seu corpo. O nosso futuro, nos assevera o líder indígena Ailton Krenak, é a ancestralidade dos povos originários, presentes em quase todos os países.

O filme SOU NETA DOS ANTIGOS de Adriana Miranda e de sua competente equipe no alimenta esta esperança. O filme, verdadeira obra de arte, mostra os indígenas de Roraima com sua sabedoria ancestral, seus ritos, festas e casa de sementes guardas e trocadas, uma possível saída para a nossa crise.

Especialmente uma guardiã de sementes nativas percorre terras ancestras de Roraima para preservar o território e garantir a autonomia dos povos originários que lá vivem

Eu pude acompanhar a realização desse extraordinário filme. Foi uma honra para mim. Estarei presente na estreia, no dia 09 de outubro,  quarta-feira no  CINEMA ESTAÇÃO NET GÁVEA às 18h.15. Como gostaria que muitos e muitas vissem esse filme que encanta pela narrativa, pela beleza e pela SABEDORIA ECOLÓGICA dos povos originários de Roraima. Será uma experiência fundadora.

Leonardo Boff

Teses sobre o decrescimento:um saída para a atual crise?

Michael Löwy é um dos mais atentos observadores das questões sociais ligadas à questão ecológica. É diretor de pesquisa no CNRS de Paris,franco-brasileiro. É também um especialista em teologia da libertação latino-americana e co-fundador do ecosocialismo. Publicamos seu texto aqui porque é orientador nas buscas por uma saída possível da atual crise:LB

          

Por MICHAEL LÖWY*

Sem ilusões sobre um “capitalismo limpo”, é preciso tentar ganhar tempo, e impor, aos poderes constituídos, algumas medidas elementares de decrescimento

1.

A crise ecológica já é a questão social e política mais importante do século 21, e se tornará ainda mais importante nos próximos meses e anos. O futuro do planeta e, por conseguinte, da humanidade, será decidido nas próximas décadas. Como explica o IPCC, se a temperatura média ultrapassar a do período pré-industrial em 1,5°, há o risco de desencadear-se um processo de mudanças climáticas irreversível e catastrófico. Quais seriam as consequências disso?

Apenas alguns exemplos: a multiplicação de mega-incêndios que destruiriam a maior parte das florestas; o desaparecimento dos rios e o esgotamento das reservas subterrâneas de água; o aumento da seca e da desertificação das terras; o degelo e o deslocamento das placas polares e a elevação do nível do mar, que levaria à inundação das principais cidades da civilização humana – Hong Kong, Calcutá, Veneza, Amsterdã, Xangai, Londres, Nova Iorque, Rio.

Alguns destes eventos já estão acontecendo: a seca ameaça com a fome milhões de pessoas na África e na Ásia; o aumento da temperatura no verão atingiu níveis insuportáveis em algumas áreas do planeta; as florestas estão ardendo por todos os lugares em extensões cada vez maiores; poderíamos multiplicar os exemplos.

De certa forma, a catástrofe já começou – mas se tornará muito pior em poucas décadas, muito antes de 2100. Até que ponto a temperatura pode subir? A que temperatura a vida humana neste planeta estará ameaçada? Ninguém tem uma resposta para estas perguntas. Trata-se de riscos dramáticos sem precedentes na história da humanidade. Seria necessário voltar até o Plioceno, há alguns milhões de anos, para encontrar condições climáticas similares às que poderão tornar-se realidade no futuro, devido às alterações climáticas.

2.

Quem é responsável por esta situação? É a ação humana, respondem os cientistas. A resposta está correta, mas um pouco estreita: os seres humanos vivem na Terra há milhares de anos, mas a concentração de CO2 na atmosfera só começou a acumular-se após a Revolução Industrial, e apenas a partir de 1945 começou a tornar-se perigosa para a vida.

Como marxistas, a nossa resposta é: a culpa é do sistema capitalista. Sua lógica absurda e irracional de expansão e acumulação infinitas, seu produtivismo obcecado pela busca do lucro a qualquer preço são responsáveis por levar a humanidade à beira do abismo.

A responsabilidade do sistema capitalista na catástrofe iminente é amplamente reconhecida. O Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si, sem mencionar a palavra “capitalismo”, manifestou-se contra um sistema estruturalmente perverso de relações comerciais e de propriedade baseado exclusivamente no “princípio da maximização do lucro” como responsável tanto pela injustiça social como pela destruição de nossa casa comum, a natureza.

Uma palavra de ordem entoada universalmente em todo canto do mundo nas manifestações ecológicas é “Mudar o sistema, não o clima!”. A atitude dos principais representantes deste sistema, defensores dos negócios como de costume – bilionários, banqueiros, “especialistas”, oligarcas, políticos –, pode ser resumida pela frase atribuída a Luís XV: “Depois de mim, o dilúvio”. O fracasso total das dezenas de Conferências COP da ONU sobre mudanças climáticas em tomar as medidas mínimas necessárias para parar o processo ilustra a impossibilidade de uma solução para a crise nos limites do sistema vigente.

3.

O “capitalismo verde” pode ser uma solução? As empresas capitalistas e os governos podem estar interessados no desenvolvimento (lucrativo) de “energias sustentáveis”, mas o sistema é dependente das energias fósseis (carvão, petróleo, gás) nos últimos três séculos, e não mostra qualquer sinal de interesse em abandoná-las. O capitalismo não pode existir sem crescimento, expansão, acumulação de capital, mercadorias e lucros, e o crescimento não pode continuar sem uma utilização estendida das energias fósseis.

As pseudossoluções do capitalismo verde, como os “mercados de carbono”, os “mecanismos de compensação” e outras manipulações da chamada “economia de mercado sustentável” revelaram-se perfeitamente inúteis. Enquanto a “maquiagem verde” não para, as emissões de CO2 disparam e a catástrofe fica cada vez mais próxima. Não há solução para a crise ecológica no marco do capitalismo, um sistema inteiramente dedicado ao produtivismo, ao consumismo e à luta feroz por “fatias de mercado”. Sua lógica intrinsecamente perversa conduz inevitavelmente à ruptura do equilíbrio ecológico e à destruição dos ecossistemas. Como afirma Greta Thunberg, “é matematicamente impossível resolver a crise ecológica no marco do atual sistema econômico”.

A experiência soviética, independentemente de seus méritos ou limitações, também se baseou na lógica do crescimento, fundamentada nos mesmos recursos fósseis do Ocidente. E grande parte da esquerda, durante o século passado, compartilhou a ideologia do crescimento, em nome do “desenvolvimento das forças produtivas”. Um socialismo produtivista, que ignora a crise ecológica, é incapaz de responder aos desafios do século XXI.

4.

A reflexão sobre o decrescimento e o movimento que surgiu nas últimas décadas deram uma grande contribuição para uma ecologia radical, opondo-se ao mito de um “crescimento” ilimitado num planeta limitado. Mas o decrescimento em si não é uma perspectiva econômica e social alternativa: ele não define que tipo de sociedade substituirá o sistema atual. Alguns proponentes do decrescimento ignorariam a questão do capitalismo, concentrando-se apenas no produtivismo e no consumismo, e definindo o culpado como “O Ocidente”, “Iluminismo” ou “Prometeísmo”. Outros, que representam a esquerda do movimento anti-crescimento, designam claramente o sistema capitalista como responsável pela crise e reconhecem a impossibilidade de um “decrescimento capitalista”.

Nos últimos anos, tem havido uma aproximação crescente entre ecossocialismo e decrescimento: cada lado tem se apropriado dos argumentos do outro, e a proposta de um “decrescimento ecossocialista” começou a ser adotada como uma base comum.

5.

Os ecossocialistas aprenderam muito com o movimento do decrescimento. O ecossocialismo está, portanto, adotando cada vez mais a necessidade do decrescimento no processo de transição para uma nova sociedade socialista ecológica. Uma razão óbvia para isso é que a maioria das energias renováveis, como a eólica e a solar, (a) precisam de matérias-primas que não existem em escala ilimitada e (b) são intermitentes, dependendo das condições climáticas (vento, sol).

Por conseguinte, elas não podem substituir inteiramente as energias fósseis. Logo, é inevitável uma redução substancial do consumo de energia. Mas a questão tem um caráter mais geral: a produção da maioria dos bens é baseada na extração de matérias-primas, muitas das quais (i) estão se tornando cada vez mais limitadas e/ou (ii) criam sérios problemas ecológicos no processo de extração. Todos esses elementos apontam para a necessidade do decrescimento.

O decrescimento ecossocialista inclui a necessidade de redução substancial da produção e do consumo, mas não se limita a essa dimensão negativa. Ele inclui o programa positivo de uma sociedade socialista, baseada no planejamento democrático, na autogestão, na produção de valores de uso em vez de mercadorias, na gratuidade dos serviços básicos e no tempo livre para o desenvolvimento dos desejos e das capacidades humanas. Uma sociedade sem exploração, dominação de classe, patriarcado e todas as formas de exclusão social.

6.

O decrescimento ecossocialista não tem uma concepção puramente quantitativa do decrescimento como uma redução da produção e do consumo. Ele propõe distinções qualitativas. Algumas produções – por exemplo, energias fósseis, pesticidas, submarinos nucleares, publicidade – não devem ser reduzidas, mas suprimidas. Outras, como carros particulares, carne e aviões, devem ser substancialmente reduzidas. E outras, como alimentos orgânicos, meios de transporte públicos e moradias neutras em carbono, devem ser desenvolvidas.

A questão não é o “consumo excessivo” em abstrato, mas o modo de consumo predominante, baseado na aquisição conspícua, no desperdício em massa, na alienação mercantil, na acumulação obsessiva de bens e na compra compulsiva de pseudonovidades impostas pela “moda”. É preciso acabar com o monstruoso desperdício de recursos no capitalismo, baseado na produção, em larga escala, de produtos inúteis e/ou nocivos: a indústria de armamentos é um bom exemplo, mas grande parte dos “bens” produzidos no capitalismo – com sua obsolescência embutida – não tem outra utilidade a não ser gerar lucro para as grandes corporações.

Uma nova sociedade orientaria a produção para a satisfação de necessidades autênticas, começando por aquelas que poderiam ser descritas como “bíblicas” – água, comida, roupas, moradia – mas incluindo também os serviços básicos: saúde, educação, transporte, cultura.

Como distinguir as necessidades autênticas das artificiais, facciosas e provisórias? Estas últimas são induzidas pela manipulação mental, ou seja, pela publicidade. Embora a publicidade seja uma dimensão indispensável da economia de mercado capitalista, ela não teria lugar numa sociedade em transição para o ecossocialismo, em que seria substituída por informações sobre bens e serviços fornecidos por associações de consumidores.

O critério para distinguir uma necessidade autêntica de uma artificial é sua persistência após a supressão da publicidade (Coca Cola!). É claro que, durante alguns anos, os velhos hábitos de consumo persistiriam, e ninguém tem o direito de dizer às pessoas quais são suas necessidades. A mudança nos padrões de consumo é um processo histórico, bem como um desafio educacional.

7.

O principal esforço, num processo de decrescimento planetário, deve ser feito pelos países do Norte industrializado – América do Norte, Europa, Japão – responsáveis pela acumulação histórica de CO2 desde a Revolução Industrial. São também as áreas do mundo onde o nível de consumo – especialmente entre as classes privilegiadas – é claramente insustentável e perdulário. Os países “subdesenvolvidos” do Sul – Ásia, África, América Latina –, onde as necessidades básicas estão muito longe de serem satisfeitas, precisarão de um processo de “desenvolvimento” – construção de ferrovias, sistemas de água e esgoto, transporte público e outras infraestruturas.

Mas não há razão para que isso não possa ser feito com um sistema produtivo que não agrida o meio ambiente e seja baseado em energias renováveis. Esses países precisarão cultivar grandes quantidades de comida para alimentar sua população faminta, porém isso pode ser alcançado por uma forma melhor – como os movimentos camponeses organizados em todo o mundo na rede da Via Campesina vêm argumentando há anos –, através de uma agricultura biológica camponesa baseada em unidades familiares, cooperativas ou fazendas coletivistas, em vez dos métodos destrutivos e antissociais do agronegócio industrializado, baseados no uso intensivo de pesticidas, produtos químicos e OGMs.

Atualmente, a economia capitalista desses países baseia-se na produção de bens para suas classes privilegiadas – carros, aviões, artigos de luxo – e de commodities exportadas para o mercado mundial: soja, carne, petróleo. Um processo de transição ecológica no Sul, como argumentam os ecossocialistas do Tricontinental, reduziria e/ou suprimiria esse tipo de produção e, ao contrário, visaria a soberania alimentar e o desenvolvimento de serviços básicos, como saúde e educação, que precisam, acima de tudo, de trabalho humano em vez de mais mercadorias.

8.

Quem poderia ser o sujeito na luta por um decrescimento ecossocialista? O dogmatismo trabalhista/industrialista do século passado não é mais atual. As forças que agora estão na dianteira dos confrontos socioecológicos são os jovens, as mulheres, os povos indígenas e os camponeses. A resistência das comunidades indígenas no Canadá, EUA, América Latina, Nigéria e em outros lugares aos campos de petróleo, oleodutos ou minas de ouro capitalistas está bem documentada; ela decorre de sua experiência direta da dinâmica destrutiva do “progresso” capitalista e da contradição entre sua espiritualidade e cultura e o “espírito do capitalismo”.

As mulheres estão muito presentes na resistência indígena, bem como no formidável levante juvenil lançado pela convocação de Greta Thunberg – uma das grandes fontes de esperança para o futuro. Como explicam as ecofeministas, essa participação em massa das mulheres nas mobilizações deve-se ao fato de que elas são as primeiras vítimas dos danos causados pelo sistema ao meio ambiente.

Os sindicatos estão começando, aqui e ali, a se envolver também. Isso é importante, porque, em última análise, não podemos superar o sistema sem a participação ativa dos trabalhadores urbanos e rurais, que constituem a maioria da população. A primeira condição, em cada movimento, é associar metas ecológicas (fechamento de minas de carvão ou poços de petróleo, ou usinas elétricas movidas a carvão, etc.) com a garantia de emprego para os trabalhadores envolvidos. Os sindicalistas com mentalidade ecológica argumentaram que há milhões de “empregos verdes” que seriam criados num processo de transição ecológica.

9.

O decrescimento ecossocialista é, ao mesmo tempo, um projeto para o futuro e uma estratégia para a luta aqui e agora. Não se trata de esperar que “as condições estejam maduras”. É necessário provocar a convergência entre as lutas sociais e ecológicas e combater as iniciativas mais destrutivas dos poderes a serviço do “crescimento” capitalista. Propostas como o Green New Deal fazem parte dessa luta, em suas formas radicais, que exigem efetivamente a renúncia às energias fósseis, mas não naquelas limitadas à reciclagem do sistema.

Sem ilusões sobre um “capitalismo limpo”, é preciso tentar ganhar tempo, e impor, aos poderes constituídos, algumas medidas elementares de decrescimento, começando com uma redução drástica na emissão de gases de efeito estufa. Interromper um oleoduto XXL, uma mina de ouro poluente, uma usina a carvão, faz parte de um movimento de resistência maior chamado Blockadia por Naomi Klein. Igualmente significativas são as experiências locais de agricultura orgânica, energia solar cooperativa e gerenciamento comunitário de recursos.

Essas lutas em torno de questões concretas de “decrescimento” são importantes, não apenas porque as vitórias parciais são bem-vindas em si mesmas, mas também porque contribuem para aumentar a consciência ecológica e socialista e porque promovem a atividade e a auto-organização a partir de baixo: ambas são pré-condições decisivas e necessárias para uma transformação radical do mundo, ou seja, para a Grande Transição para uma nova sociedade e um novo modo de vida.

*Michael Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de O que é o ecossocialismo (Cortez).

This liberation theologian was once silenced by the Vatican. In the Laudato Si’ era, he’s getting a second look.

James T. KeaneJanuary 30, 2024- Review America

Leonardo Boff (Brasil TV/Wikimedia Commons)

Reflecting on more than 80 years of life in his 2022 book Thoughts and Dreams of an Old Theologian, Leonardo Boff summed up many of his theological and personal concerns in a clarion call for change. “Either we care for Mother Earth, our Common Home, and we join hands to work together in solidarity, or we join the procession of those headed for their own funeral. Here we see the importance and the urgency of nurturing good dreams that lead us to transformational activities and constantly nourish our hope,” he wrote, adding:

This is the dream I want to pass on, as my life nears toward its end, to the young people who will come after us. It is their task to take forward the dream of Jesus, of Pope Francis, of liberation theology at its broadest, and of so many others who also nurture dreams of a better humanity. These young people will have to be the leaders in shaping a better future for us, for nature, and for Mother Earth.

If those dreams and concerns sound somewhat familiar, even to a reader unfamiliar with Boff’s work, it is because many of them were also reflected in recent Vatican documents like “Laudato Si’” and “Querida Amazonia.” After the publication of the former, rumors circulated that Pope Francis had personally asked Boff for his input on the writing of the encyclical.

Leonardo Boff, the pope’s theologian?

After the publication of “Laudato Si’,” rumors circulated that Pope Francis had personally asked Leonardo Boff for his input on the writing of the encyclical.

It was not always thus. In a long and still-ongoing career, Boff was for many years one of the leading voices of liberation theology—and became a lightning rod for criticism of that theological school in the 1980s and 1990s.

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Born in Concórdia, Brazil, in 1938, Boff entered the Franciscans in 1959 and was ordained in 1964. He earned a doctorate in philosophy and theology from the University of Munich in 1970. In the years that followed, Boff joined scholars such as Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, S.J., and Juan Luis Segundo, S.J., in promoting the theology of liberation through books like Jesus Christ Liberator (1974). He was a strong proponent of comunidades de base, the small and local “base communities” which were championed by liberation theologians as centers of theological praxis in the face of economic injustice and structural sin. His 1987 book, Introducing Liberation Theology, co-written with his brother Clodovis, is still widely used in colleges and theological schools as a textbook.

In 1985, the Congregation for the Doctrine of the Faith (now the Dicastery for the Doctrine of the Faith) censured Boff for his book Church: Charism and Power and silenced him for a year. The C.D.F., then led by Cardinal Joseph Ratzinger, criticized Boff’s “ecclesiological relativism” in seeing both Protestant and Catholic church structures as incomplete, and also cited his praxis-based approach to theology (centered on the base communities) that, the C.D.F. argued, seemed to relativize the nature of truth.

In a 1988 book on the matter, The Silencing of Leonardo Boff: The Vatican and the Future of World Christianity, the theologian Harvey Cox suggested that the Vatican singled out Boff because it saw the “grass-roots religious energy” Boff represented as a threat to the church’s teaching authority.

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Cox, wrote the theologian Lamin Sanneh in America in 1988, placed Boff’s silencing “in the global context of world Christianity, in particular the potential scale of the fallout from the growing challenge of third-world Christianity to the accustomed privileges of Western religious hegemony.”

Harvey Cox suggested that the Vatican singled out Boff because it saw the “grass-roots religious energy” Boff represented as a threat to the church’s teaching authority.

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Cox saw Boff as “an evangelical radical, not a modernist” who did not want to bring the church up to date, necessarily, but to align it more closely with the Gospels, wrote America editor in chief George W. Hunt, S.J., in 1989. Cardinal Ratzinger, Hunt wrote, sought to recenter the church “intellectually and liturgically in its ancient homeland (Europe), and to achieve this his congregation must be ‘the protector not only of the integrity of the faith and the documents of Vatican II but also of their proper interpretation against cagey [non-European] theologians.’” Boff, on the other hand, found the solution to what ailed the church “not in ‘recentering’ but in ‘decentering,’ that is, a form of Catholicism ‘in which the Gospel can take root in a variety of disparate cultures and flourish especially among the poor.’”

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Boff continued to write and teach (he was a professor of theology at the Jesuit Institute for Philosophy and Theology in Petropolis, Brazil, for 22 years) after his silencing ended, publishing such books as Ecclesiogenesis and Cry of the Earth, Cry of the Poor. In 1992, Boff faced a potential silencing once again from the C.D.F. Recognizing that his status as a priest under obedience in a religious order was an issue in the C.D.F.’s repeated efforts to discipline him, he resigned from the Franciscans that June. The next year, he took a position at Rio de Janeiro State University in Brazil, where he is now the Professor Emeritus of Ethics, Philosophy of Religion and Ecology.

In 2000, Cardinal Ratzinger reflected on the contretemps in a speech at the Vatican that suggested Boff’s silencing stood as a warning to other theologians. “At a distance of 15 years, it is clearer than it perhaps was then that it was not so much a matter of a single theological author, but of a vision of the church which circulates with different variations and which is still very current today,” Ratzinger said. Boff was one of many theologians censured by the C.D.F. during the pontificate of John Paul II, a process America’s editors criticized in a 2001 editorial, “Due Process in the Church.”

In recent years, in addition to Thoughts and Dreams of an Old Theologian, Boff has also published such books as Christianity in a Nutshell, Come Holy Spirit and The Following of Jesus. His theological work has increasingly focused on the ecological crisis facing the world.

“Boff’s skillful use of the sociology of knowledge enables him to explain why theologians of other ages interpreted the faith within the total social, cultural, political and economic realities of their day,” wrote Joseph P. Fitzpatrick, S.J., in America in 1990. “It also prompts him to declare why the perspective of liberation theology is the only authentic interpretation of the faith in the presence of the massive inhumanity, oppression and injustice of our day.”

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Boff’s primary concern theologically and sociologically has always been the poor and marginalized, particularly in Latin America. But that might not be the audience needs to hear him the most. “The Christian slum-dweller in Lima or Sao Paulo does not need a Gustavo Gutiérrez or à Leonardo Boff in order to know that something is terribly wrong and has to change, or that the Gospel has plenty to say about the nature of that change,” wrote Kevin P. O’Higgins, S.J., in a 1990 essay for America.

“It is the comfortable Christian suburbanite—clerical, religious or lay—in North America or Western Europe who has [the] most difficulty in seeing what is wrong and what is demanded by an authentic faith.”

Boff’s 1987 book, Introducing Liberation Theology, co-written with his brother Clodovis, is still widely used in colleges and theological schools as a textbook.

James T. Keane

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James T. Keane is a senior editor at America.

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