Ernesto Cardenal(1925-2020) poeta,místico,revolucionário

Este belo artigo de Frei Betto sobre Ernesto Cardenal apresenta o que pode ser um cristão lididamente atual e comprometido com um mundo a transformar até que o amor impere de vez. Foi monge da linha de Thomas Merton, místico e genial poeta. As circunstâncias fizeram-no revolucionário contra a feroz ditadura de Somoza da Nicaragua. E soube unir mística e luta, oração e compromisso político. Sofreu incompreensões por parte das autoridades romanas até ser suspenso a divinis. O Papa Francisco entendeu o equívoco e logo lhe restituíu o uso de ordens. Vivia no meio dos pobres e pescadores. Com eles fazia círculos bíblicos, comparando página da vida com página da Bíblia. E dai resultava um novo cristão com nova consciência. Vale a pena ler esse belo artigo que honra o autor e honra o homenageado. LBoff

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Em 1987, Afonso Borges promoveu, como primeira atividade do Projeto Sempre Um Papo, de Belo Horizonte, o lançamento do meu romance O dia de Ângelo, no restaurante La Taberna, em Belo Horizonte. Contei a Afonso que, ano seguinte, Ernesto Cardenal iria a Minas. Afonso o convidou para proferir conferência no Cabaré Mineiro, restaurante que, de cabaré, só tinha o nome, e passara a receber o Sempre Um Papo. Cardenal, ex-monge trapista, reagiu: “Mas num cabaré?…”

Encontrei Cardenal, pela primeira vez, em 1978, em sua trincheira de guerrilheiro Sandinista: os fundos de uma das seis livrarias que circundavam a Universidade Nacional da Costa Rica. Já o admirava por sua obra. Seu En Cuba, relato de viagem à ilha em 1970, havia passado de cela em cela em meus tempos de cárcere em São Paulo, entre 1969 e 1973.

Filho de uma das famílias mais ricas da Nicarágua, Cardenal preferiu não seguir o caminho de seu irmão Fernando, que ingressou na Ordem dos jesuítas. Em 1957, o jovem poeta tornou-se monge trapista nos EUA. Durante dois anos, teve como mestre de noviço o místico e escritor Thomas Merton. Ao deixar a vida monástica, estudou teologia em Medellín e, em 1965, foi ordenado sacerdote em Manágua. Identificado com a Teologia da Libertação, passou a viver na paradisíaca Ilha de Solentiname, no lago ao sul da Nicarágua, onde partilhava a vida comunitária de pescadores e camponeses.

Ernesto nada tinha da figura estereotipada de um revolucionário. Baixa estatura, ombros largos e um jeito tímido de se aproximar das pessoas, olhos vivos por trás das lentes brancas acima do sorriso suave, dir-se-ia tratar-se de um monge ingênuo e despreocupado não fosse a boina azul, semelhante à do Che, derramando cachos prateados sobre as orelhas e a nuca. Sua jaqueta verde, sobre a bata branca, assemelhava-se à dos oficiais cubanos.

Sua função na Frente Sandinista era viajar pelo mundo a fim de denunciar os crimes de Somoza e obter apoio político. Perguntei-lhe como conciliava a contemplação com a atividade revolucionária. “Não se opõem. Pode-se trabalhar pela revolução sendo contemplativo. No sentido tradicional, há uma dicotomia entre ação e contemplação. Porém, vivo a contemplação na ação.” E frisou: “A única mensagem do Evangelho é a revolução, que ele chama de Reino de Deus, exigência de superação de todas as marcas de pecado, injustiça e opressão, até que só o amor seja possível.”

Indaguei-lhe sobre o caráter de sua obra poética. “Em um poema que dediquei a Dom Pedro Casaldáliga, digo que escrevo pela mesma razão dos profetas bíblicos, que faziam da poesia uma forma de denúncia de injustiças e anúncio de um novo tempo.”

Em fevereiro de 1979, voltamos a nos encontrar em Puebla, no México, durante a Conferência Episcopal Latino-Americana. Ele convenceu bispos de todo o continente a assinarem uma carta contra a ditadura somozista.

A 19 de julho de 1980, participei como convidado oficial das comemorações do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Ali reencontrei Cardenal, nomeado ministro da Cultura. Cinco anos depois ele participaria, em Havana, da solenidade na qual lancei Fidel e a Religião, ao lado de Fidel, Gabriel García Márquez e Chico Buarque.

Durante a década de 1980, assessorei o movimento sandinista, que reunia cristãos e comunistas ateus nas questões de educação popular e na relação marxismo e cristianismo. Foi, então, que Cardenal me propôs organizarmos um movimento de jovens denominado MIRE (Mística e Revolução). A ideia nunca prosperou, exceto no Brasil, onde o movimento teve sua fase expressiva no início da década de 2000 e ainda hoje mantém núcleos em algumas regiões do país, principalmente no Nordeste. A proposta é vincular a espiritualidade mística, cultivada pela meditação, ao compromisso de transformação da sociedade.

Em sua visita à Nicarágua, em 1983, o papa João Paulo II se recusou a estender à mão a Cardenal, ministro da Cultura, que integrava o cortejo oficial para recepcioná-lo. E, em público, o repreendeu, humilhou e, 1985, suspendeu-o de suas funções sacerdotais. O papa Francisco o reabilitou em 2019.

Em 1994, Cardenal rompeu com a Frente Sandinista, por considerar que o governo de Daniel Ortega já não mantinha coerência com os princípios revolucionários nem atendia os anseios populares

A última vez que nos vimos foi em La Paz, em 2008, quando intelectuais e artistas latino-americanos se reuniram para manifestar apoio ao governo de Evo Morales.

Cardenal era um poeta consagrado internacionalmente, merecedor de vários prêmios literários importantes. Um de seus versos mais famosos é este epigrama dedicado a Cláudia, que reproduzo em tradução livre: “Ao perder eu a ti, tu e eu perdemos: / eu, porque tu eras a quem eu mais amava / e tu, porque eu era quem te amava mais. / Porém, de nós dois, tu perdeste mais que eu: / porque poderei amar a outras como amei a ti, / mas a ti não te amarão como eu te amava.”

Seu poema, Cântico Cósmico, publicado em 1990, se estende por 600 páginas! É um primor de descrição da evolução do Universo e de toda a magnitude estética da Criação, o que levou o escritor Sérgio Ramirez a qualificar a obra de Cardenal de “poesia científica”.

A obra se inicia com estes versos: “No princípio não havia nada / nem espaço, nem tempo. / O Universo inteiro concentrado no espaço do núcleo de um átomo / e, antes, ainda menor, muito menor que um próton, / e, todavia, menor ainda / um infinitamente denso ponto matemático. / E ocorreu o Big Bang. / A Grande Explosão.

E assim termina seu mais extenso poema: “E o que vemos quando olhamos o céu noturno? / De noite vemos apenas a expansão do Universo. / Galáxias e galáxias, e além mais galáxias e quasares. / E por detrás do espaço não veríamos nem galáxias nem quasares, mas um Universo no qual nada ainda se havia condensado, / um muro escuro, / antes do instante em que o Universo se tornou transparente. / E antes ainda, o que afinal veríamos? / Quando não havia nada. / No princípio…”

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

 

 

L.Boff: “Le pedí al Papa Francisco por carta que ordene a las mujeres”

Leonardo Boff: “Le pedí al Papa Francisco por carta que ordene a las mujeres”

El teólogo Leonardo Boff

El teólogo Leonardo Boff

“Hoy es difícil vivir en Brasil. El ministro de Economía, Paulo Guedes, es uno de los “Chicago Boys”, formados en la Universidad de Chicago, que trabajaron en el Chile de Pinochet”

“El gobierno de Bolsonaro está desmontando las políticas sociales de Lula”

“La jerarquía eclesiástica está orientada hacia “áreas” como el poder, el orden, los dogmas, el derecho canónico, en una condición constante de autorreferencia”

“Sólo con el Espíritu es posible superar el Antropoceno y llegar al Ecoceno, a una sociedad sostenible, vital, abierta a la convivencia”

(Blog de Leonardo Boff).- De un Brasil en crisis, esclavizado, “campo de batalla en la guerra fría entre Estados Unidos y China”, de un continente explotado “para satisfacer a las superpotencias”, humillado, pisoteado, llega un mensaje de esperanza. De renovación. Que toca los temas del ambiente “rumbo a un nuevo Ecoceno” y de la igualdad social. Que habla del papel de la mujer, del nuevo rostro de la Iglesia, la del Papa Francisco. Un mensaje libre, “como el Espíritu Santo”.

Leonardo Boff, exponente destacado de la teología de la liberación, incómodo cuando era sacerdote y también después (abandonó el hábito en 1992; en 1985 había sido advertido por la Congregación para la Doctrina de la Fe), activista de los derechos humanos, profesor universitario, está confiado: “En toda gran crisis hay la posibilidad de un cambio, pueden nacer nuevas fuerzas. Y Brasil es mayor que esa crisis”. LO entrevistan en el Corriere della Sera

¿Profesor Boff, es usted optimista o no?

En realidad, estoy preocupado. La situación en Brasil es trágica: el ultraliberalismo de Jair Bolsonaro, la extrema derecha política que hace apología de la violencia y de los regímenes dictatoriales, que exalta a los torturadores como héroes nacionales… Nunca vivimos nada semejante.

¿Cuál es la explicación?

Detrás de eso, está el proyecto de recolonizar América Latina y obligarla a ser solamente exportadora de commodities (carne, alimentos, minerales…). Y, en esa estrategia perversa, Brasil es central.

“Brasil tendrá un papel primordial en el juego economía-ecología”

¿Por qué?

Porque es un país riquísimo, una reserva de bienes naturales que faltan en el mundo. Como dijo varias veces el premio Nobel Joseph Stiglitz, en los próximos años toda la economía dependerá de la ecología. Y Brasil tendrá un papel primordial en ese juego.

¿Es difícil vivir en Brasil hoy?

Mucho. El ministro de Economía, Paulo Guedes, es uno de los “Chicago Boys”, formados en la Universidad de Chicago, que trabajaron en el Chile de Pinochet. El ultraliberalismo de derecha está haciendo una política de los ricos para los ricos, está privatizando todo. Guedes está trayendo la política de Pinochet a Brasil. ¿Y sabes por qué nadie protesta, por qué la gente no sale a la calle como está pasando ahora en Chile?

No.

¡Porque el gobierno anunció que reprimirá cualquier protesta con el ejército! Aquí todos tienen miedo, aunque el descontento crezca. Pero dentro de las paredes de casa. Asistimos a una triste forma de inercia popular.

En América Latina presidentes como Evo Morales y Lula cerraron su era. Ahora, nuevas fuerzas orientan la opinión pública. ¿El impulso reformista acabó?

Tuvimos gobiernos que hicieron mucho por los pobres. En Brasil, 36 millones de personas fueron incluidas en el welfare. Pero el año pasado, un millón de familias pasaron de la pobreza a la miseria. El gobierno está desmontando las políticas sociales de Lula. Estamos tratando con una élite reaccionaria y esclavista que nunca aceptó que un obrero –en el caso de Brasil, Lula, o un indígena en el caso de Bolivia, Evo Morales– llegase a la presidencia del país. Esa élite ha hecho de todo con los medios más brutales. Pero a esta ola de violencia se le está oponiendo un movimiento de grupos progresistas, de afro-latino-americanos, de indígenas. Son los brotes de una realidad que veremos. Esa es la esperanza que nutrimos.

Futuro incierto para los indígenas de Brasil en la era Bolsonaro

Futuro incierto para los indígenas de Brasil en la era Bolsonaro

¿Ve usted algún nuevo líder político?

Lamentablemente no. Estamos en un momento de vacío, faltan figuras carismáticas, principalmente en Brasil. Tal vez,en parte también por culpa de Lula, gran carismático, pero que no supo formar una clase dirigente con nuevos carismas.

Su nuevo libro en italiano, “Soffia dove vuole” (Sopla donde quiere) habla del Espíritu Santo. ¿Por qué?

Los tiempos inquietantes que estamos viviendo exigen una reflexión seria sobre el Spiritus Creator.

Que quedó al margen de la teología.

Eso no es cierto. Existen estudios grandiosos sobre el Espíritu, desde el de Yves Congar hasta el de Jürgen Moltmann, en diálogo con el nuevo paradigma cosmológico. Pero lo que podemos decir es esto: el Espíritu Santo ha estado casi siempre al margen de la jerarquía eclesiástica. Y con razón.

¿Cómo es eso?

La jerarquía está orientada hacia “áreas” como el poder, el orden, los dogmas, el derecho canónico, en una condición constante de autorreferencia. Son todos aspectos que sirven para mantener el statu quo y que tienen su razón de ser, no niego eso. Del mismo modo, sin embargo, ellos no pueden ser predominantes. El Espíritu es más carisma que poder, más movimiento que estabilidad, más innovación que permanencia. Él sigue una lógica diferente a la de la jerarquía de la Iglesia. Por eso, casi todos los predicadores del Espíritu Santo fueron marginados o perseguidos. Los hechos confirman eso. Mi libro juzgado en 1985 por la Congregación para la Doctrina de la Fe (cuyo prefecto era Joseph Ratzinger), se titulaba Iglesia: carisma y poder. En Roma sin embargo lo leyeron como “Iglesia: carisma o poder”. Por esa confusión, me condenaron.

Leonardo Boff y Francisco

Leonardo Bof                        Jen Yves Congar

¿En vez de eso, que es lo que usted quería decir?

Yo quería crear un equilibrio entre carisma y poder. Pero ese equilibrio debe comenzar por el carisma. Si se comienza con el poder, se corre el riesgo de que este sofoque al carisma. En vez de eso, si se comienza con el carisma se impide que el poder sea ejercido de forma autoritaria, se le imponen límites, y se le obliga a ser poder-servicio y ponerse al servicio de la comunidad.

¿Cuál es el papel del Espíritu Santo hoy?

Estamos en un momento histórico, el Antropoceno, en el que las bases que sustentan la vida y la Tierra han sido profundamente atacadas. O cambiamos o morimos. El Espíritu es Spiritus Creator, Spiritus Vivificans. Sólo el Espíritu puede restaurar el equilibrio destruido por la voracidad del hombre. Sólo con el Espíritu es posible superar el Antropoceno y llegar al Ecoceno, a una sociedad sostenible, vital, abierta a la convivencia de todos con todos donde lo ecológico ocupará la centralidad. De ahí, ecoceno.

¿Por qué, en su elaboración teológica, usted insiste en enfatizar el papel de la ciencia?

No es posible hacer una teología actualizada sin un diálogo profundo con la nueva visión del mundo proveniente de las ciencias de la vida, de la Tierra, del cosmos. Esa lectura tiene ya un siglo, pero no es hegemónica. Son pocos los teólogos que han aceptado este desafío.

“Si se comienza con el carisma se impide que el poder sea ejercido de forma autoritaria”

¿Por qué?

Porque obliga a estudiar ciencias diferentes: la física cuántica, la nueva biología, la astrofísica, la teoría del caos y de la complejidad. Después de tal camino, digo esto por experiencia, es más fácil hacer teología, porque con esos datos, Dios aparece inmediatamente como la energía misteriosa y amorosa que sustenta todo y que lleva adelante todo el proceso cosmogénico. La categoría teológica del Espíritu Santo es más adecuada para esa nueva forma de teología.

¿La conciencia ecológica qué tiene que ver con el Espíritu Santo?

El principal objetivo de mi libro es afirmar que el diálogo con la ecología y con la nueva cosmología nos obliga a cambiar el paradigma. El paradigma de la filosofía y de la teología occidentales es de raíz griega, esencialista, basado en naturaleza, sustancia, esencia y otros términos semejantes que pertenecen al área de la permanencia, de la estabilidad. En vez de eso, cuando se habla de Espíritu, todo es dinamismo, innovación. Hay que cambiar la forma de pensar a Dios, la historia, la Iglesia. Dios es dinamismo de tres personas divinas en comunicación entre sí y con la creación.

¿Teología de la ecología, entonces?

Yo he tratado de hacer una teología con un nuevo horizonte de comprensión. El mismo que el Papa Francisco indica en la encíclica Laudato si’: todo es relación; nada existe fuera de la relación. Poéticamente Francisco escribe: “El sol y la luna, el cedro y la florecilla, el águila y el gorrión: el espectáculo de sus incontables diversidades y desigualdades significa que ninguna criatura se basta a sí misma. Ellas existen solo en dependencia unas de otras, para completarse mutuamente en el servicio de unas a otras”. La tesis de la ecología es precisamente esta: todo está conectado para formar la gran comunidad de vida, el todo de la naturaleza y del universo. Y este modo de pensar corresponde a la naturaleza del Espíritu Santo.

“Hay que cambiar la forma de pensar a Dios, la historia, la Iglesia”

¿Le parece a usted que la Iglesia católica está lista para aceptar estas reflexiones suyas?

La situación es diferente en cada país, pero en todas partes faltan profetas. Con Wojtyla y Ratzinger asistimos al retorno de la gran disciplina, vimos una Iglesia cerrada en sí misma, preocupada con la ortodoxia, atenta a combatir enemigos como la modernidad, las nuevas libertades. Y, sobre todo distante del pueblo, con una teología erudita pero pobre en innovación y una liturgia ajena a la sensibilidad moderna.

Mientras que ahora…

Con el Papa Francisco surge otro tipo de Iglesia, abierta como un hospital de campaña, donde la centralidad no es tanto la ortodoxia, sino la pastoral del encuentro, de la ternura, de la convivencia. Para el Papa Francisco las doctrinas son importantes, pero lo más importante es entender que Cristo vino para enseñarnos a vivir los bienes del reino como el amor incondicional, la misericordia, la solidaridad, la compasión por quien sufre, por los últimos en total apertura al Padre de bondad y misericordia.

¿Mensaje recibido?

No siempre. Muchos católicos tradicionalistas no se han dado cuenta de que estamos ante otro tipo de papa, menos doctor y más pastor en medio de su pueblo. Un papa que lleva menos los símbolos paganos de los emperadores romanos y más la sencillez de un párroco de aldea, sencillo, humilde, amigo de todos. Un hombre que viene de lejos, por eso es libre. Si no fuese así, ¿por qué el nombre de Francisco? Sería una contradicción pensar en San Francisco de Asís en un palacio pontificio. Pero tenemos a Francisco de Roma que vive y come con todos los demás, no él solo.

Lula da Silva, con un ejemplar de Laudato Si

Lula da Silva, con un ejemplar de Laudato Si

¿El aumento de las protestas públicas en la Iglesia contra el Papa Francisco le preocupa?

No me preocupa, porque no le preocupa. ¿Cómo sé esto? Un amigo suyo, Carlo Petrini, con el cual al Papa le gusta dialogar porque es agnóstico y que me visitó aquí en Petrópolis-Rio, reveló que el papa duerme desde las 21h30 hasta las 5h30 como un tronco, bebe su mate y lleva adelante, franciscanamente, su misión, con una irradiación mundial en sentido religioso, ético y político. Nos conocemos desde 1972. Intercambié con él algunas cartas sobre temas de ecología y sobre el Sínodo para la Amazonia de octubre pasado.

¿A propósito, qué espera usted de la exhortación apostólica pos-sinodal de Francisco, que se espera en breve?

Algo bueno. Sobre todo sobre la defensa del rostro indígena de la Iglesia y sobre las mujeres. En mis cartas le pedí que hiciese un gesto profético sin pedir nada a nadie, como hizo Juan XXIII cuando convocó el Concilio Vaticano II.

¿Qué gesto?

Ordenar a las mujeres.

Misa conclusiva del Sínodo de la Amazonía

Misa conclusiva del Sínodo de la Amazonía

¿Y le respondió?

Me agradeció la carta sin comentar nada.

Usted dedica su libro a las mujeres.

Yo digo que la primera Persona divina en entrar en este mundo, o en irrumpir en el proceso de la evolución, no fue el Hijo, como dice la Iglesia. Fue el Espíritu Santo. Esto está muy claro en el texto de Lucas: “El Espírito vendrá sobre ti… y te cubrirá con su sombra”. Hice una búsqueda de meses en patrología: no hay ningún rastro de la centralidad del Espíritu. Ni siquiera en los grandes teólogos. De acuerdo con una lectura predominantemente masculina, prevalece el Hijo. Pero el Hijo vino después de la aceptación (“fiat”) de María, por lo tanto después del Espíritu. Y digo más aún: el Espíritu asumió a María, la divinizó. En el proyecto del Altísimo, hombre y mujer son igualmente divinizados. Forman parte de Dios.

Hoy la teología de la liberación es ecoteología, teología feminista, teología afro. Los pobres siguen siendo muchos y oprimidos. ¿La teología de la liberación tiene todavía un largo camino por delante?

La existencia de los pobres, de los oprimidos me hace pensar siempre en Jesús, en San Francisco y en tantos otros que tuvieron misericordia de ellos. Mientras existan pobres, especialmente en la medida en que su número aumenta, más necesaria se hace una teología de liberación. Es la situación actual en todo el mundo.

Le acusaron de ser pro-marxista.

Marx nunca fue padre ni padrino de la teología de la Liberación, como insinuaban los dictadores latinoamericanos. Pero hoy, más que nunca, la teología de la liberación es urgente. El ejército de los pobres ha aumentado terriblemente. Si la teología, sea la que sea, no toma en serio la situación actual difícilmente se librará de la crítica de cinismo y de irrelevancia histórica. Es preciso leer los signos de los tiempos. El Espíritu nos invita a tomar una posición del lado de las víctimas, de aquellos que el sistema imperante ha hecho invisibles.

liberacion

Fuente: Religión Digital de 17/2/2020

“Dos Papas”: two types of man, two models of the Church

 I just saw the movie, Dos Papas, by Fernando Meirelles, the consecrated Brazilian filmmaker.

In my opinion the movie is technically and aesthetically well made, reproducing the grandiose spaces of the Vatican and its gardens. The movie is based on historical events, with the logical creativity this art form allows, especially in the construction of the dialogues, which reflect their respective theologies and their well known positions.

What I say here is a strictly my personal opinion. I have had the privilege of personally knowing the two Popes, with whom I maintained and maintain close relations and friendship.

 Pope Ratzinger: rigorous and refined

I owe a debt of gratitude to Professor Joseph Ratzinger for having valued positively my doctoral thesis about “The Church as a Fundamental Sacrament in the Secularized World.” It was voluminous, with more than 500 printed pages. Professor Ratzinger helped me financially with a considerable amount of money, and found an editor to publish it when no one wanted to risk publishing a book of such dimensions. The reception in the international theological community was excellent. It is considered a fundamental work, especially by the French Dominican Jean Yves Congar, a well known specialist in the theme, Church.

Professor Ratzinger is a person of a very refined manner, and extremely intelligent. Never have I heard him raise his voice, he is very timid and reserved

When I leaned that he had been elected Pope, I immediately thought: “He is a Pope who will suffer much because he perhaps has never embraced the people, least of all a woman, nor has he ever been exposed to multitudes”. 

Our friendship was strengthened by the fact that for five years, beginning in 1974, in Easter week, (which often happens around May), some 25 well known progressive men and women theologians from around the world used to gather in the city of Nimega, in the Low Countries or in other European cities.  For a week we would carry on ecumenical discussions, accompanied by a small group of scientist, even Paulo Freire, about topics relevant to the world and to the Church.  We published the magazine, Concilium, that appeared in 7 languages and is still being published, (in Brazil by Editora Vozes). In that magazine the best minds of the world collaborate in different fields of knowledge, from sexuality and Liberation Theology to modern cosmology.

Professor Ratzinger almost always would sit by my side.  After lunch, while everyone else took a nap, Professor Ratzinger and I would stroll through the gardens, discussing theological themes; our favorites were Saint Augustine and Saint Bonaventure, practically all of whose books I have read.

Each one in his role without breaking the relationship

Made Cardinal and president of the Congregation for the Doctrine of the Faith, in 1984 he had the thankless task of questioning me about my book Church: Charisma and Power. Cardinal Ratzinger fulfilled his institutional role of questioner, and I, that of the defender of my opinions. It was a strong dialogue, but was always elegant on his part, even when, after the interrogatory, there was a second part, namely, an even more difficult encounter with him and Brazilian Cardinals Don Paulo Evaristo Arns and Don Aloysio Lorscheider, who accompanied me in Rome and testified in my favor. We were three against one. I must admit, Cardinal Ratzinger felt uncomfortable.

A year later, I received the culmination of the doctrinal process, resulting in my removal from the chair of theology, from my position in Editorial Vozes, and the imposition of a “silencio obsequioso” that precluded me from talking, teaching, giving interviews or publishing anything. The final decision after the interrogation was conducted by 13 Cardinals (13 to break a tie). Later on, I learned from an emissary of his private secretary that Cardinal Ratzinger had voted in my favor, but it was the losing vote. It must be said that whenever news reporters asked Cardinal Ratzinger about me, he would answer with humor that I am “ein frommer Theologe” (a pious theologian) that one day I would deepen my true theological path.

The movie does not show the refined and elegant figure that characterizes Cardinal Ratizinger.  In one scene he raises his voice and almost shouts, which appears to me totally improbable and inconsistent with his character.

In spite of finding ourselves in different situations, he as Pope and I, a theologian promoted to laity, our friendship was never broken. In his ninety years, when  a Festschrift (a book in homage) was organized, in which many notable persons made contributions, at the request of Pope Benedict himself, I was asked to write my testimony about him, which I did with pleasure.  Friendship is stronger than any doctrine, always human.

 Pope Francis: tender, fraternal and an innovator

With reference to Jorge Mario Bergoglio, now Pope Francis, I would say the following: we met in 1972 in the Colegio Maximo de San Miguel, in Buenos Aires, Argentina. He was exposing the singularity of the spiritual path of Saint Ignatius of Loyola, and I, the spiritual path of Saint Francis. We discussed the hermeneutics of a French writer, whose name I don’t recall, and also aspects of the liberation theology of Argentina (the silenced people and the oppressed culture), and that of our Brazil and of Peruvian (the social injustice and the historical oppression of the poor and the Afro descendants). There is a photo of that gathering that Pope Francis kindly sent me from Rome.  That photo shows the entire group of women and men theologians who were in attendance, most of whom are no longer with us, some of them persecuted and tortured by the barbaric repression of the Argentinian or Chilean military.  After that meeting we lost track of each other.

Pope Francis: theologian of the integral liberation 

Juan Carlos Scannone, recently deceased, the main representative of the theology of liberation in Argentina and Pope Francis’ professor of theology, told me that Bergoglio entered the Jesuit Order as an adult vocation (he was a chemist before, as the movie shows). He immediately liked the theology of liberation of the Argentinian type and he made a promise he always fulfilled even as the Cardinal of Buenos Aires: each week he spent an afternoon and even a day in a slum, always alone, he would walk into the houses and would speak with everyone. He did not live in the Cardinal’s Palace, did not have a car, used the bus or the subway.  He lived alone in an apartment, and prepared his own meals.

Bergoglio was General Superior of the Jesuits from Argentina, acting especially in the region of Buenos Aires. As a young man, he was very rigorous. He had to confront a grave situation that until now he carries in his heart: two Jesuits, Father Francisco Jalics and Father Orlando Yorio (I personally met Yorio in Quilmes) lived in a shantytown with the poor and marginalized. All those who worked with the people, as in Brazil in 1964 (and perhaps even today under the new authoritarian government of Bolsonaro) were considered Marxists and subversives. They were watched by the organs of military security. Bergoglio was informed that these two Jesuits were going to be kidnapped with the accompanying torture. He tried to save them, even appealing to the vote of obedience.  It is typical of the Jesuit Order, and means that they should leave the favela in order not to be victims of violent repression.

They argued in an evangelical form: “A pastor never abandons his flock, his people; he shares their destiny; it is better to obey the God of the poor, than to obey a human religious superior”.

Ultimately, they were kidnapped and harshly tortured. Jalics reconciled with Bergoglio and lives in Germany, while Yorio felt abandoned and distanced himself from the Cardinal (Yorio died in Uruguay years ago). I could feel his personal bitterness as I tried to understand the impasse that responsible religious authority faces in extreme situations. Even then, Bergoglio hided many in the Colegio Máximo de San Miguel or helped them reach the border of another country to escape certain death.

Pope Francis: caring for the Common Home

Once he was elected Pope, we communicated again. Knowing that I had been intensely occupied with the theme of integral ecology, including the Common Home, Mother Earth, Pope Francis asked for my cooperation, which I gave assiduously. But he warned me: “do not send the texts to the Vatican, because they will not give them to me (the famous papal Curia’s sottoseder: to sit over and forget), but rather, to send them directly to me in care of the Argentinian Ambassador to the Holy See, because every day very early he takes the mate with me”. I always did that. The word goes around that my thoughts and themes are noticeable in the Encyclical letter,Laudato Si: on the Caring for the Common Home (2015). But the encyclical is the Pope’s and he can have whatever advisers he wants. I also sent him texts to the 2019 Pan Amazonic Synod  He replied giving thanks.

On selecting the name Francis, at the suggestion of his Brazilian friend, Cardinal Claudio Hummes, who whispered the name Francis to him, and on making a clear option for the poor, he was transformed. The Jesuit rigor was united with the Franciscan tenderness. He is extremely strict with the internal problems of the Vatican Curia, the pedophilia, and the financial corruption of the Vatican Bank. On the other hand, he is visibly tender and fraternal.

No Pope before him has harshly reproved the system that has lost its sensibility, its solidarity with the millions of poor and hungry, its capacity to cry and instead worships the idol of money.  Predator of nature, against life and against Mother Earth. We need not say what system he talks about. His option for the poor is strong. Due to his courageous stands on the Earth’s ecological emergency, global warming and the dehumanizing of the human relationships, Pope Francis has become a religious and political leader. His voice is listened to and respected around the world.

 Two types of man and two models of Church 

The purpose of the movie is to show two types of religious persons and two models for the Church.

First it shows that Ratzinger and Bergoglio, both human, profoundly human. In this sense, they both have their positive side, and also their dark side. For Pope Benedict XVI, it is his indulgence and lenience with the pedophiles. We must not forget that he wrote to all the bishops, under pontifical secrecy that never can be broken, not to turn the pedophile priests and bishops over to the civil tribunals. This would demoralize the institutional Church. They should confess their sin and be transferred somewhere else. Pope Benedict did not realize that it was not only about a sin that could be forgiven by confession. It was a crime against innocent human beings that the civil justice had to investigate and punish. Thought was not given to the victims, but only to safeguarding the image of the Church as an institution. That omission was strongly criticized by Cardinal Bergoglio, as is clearly shown in the movie.

Pope Benedict XVI followed the line of John Paul II, who was a moral and doctrinal conservative.  He attempted to relativize the aggiornamento of the Vatican Council II (1962-1965). He saw the Church as a fortress besieged from all sides by enemies, that is, by the errors and deviations of modernity. The proposed solution was to return to the previous great discipline from the Councils of Trent (1545-1563) and Vatican I (1869-1870). The centrality was the orthodoxy and the sane doctrine, as if preaching was what saved, and not the practices. In this line, Cardinal Joseph Ratzinger was strict: more than 110 men and women theologians were condemned, deposed from their chairs, silenced (in Brazil, Yvone Gebara and myself) or punished in some form. One of them, an excellent theologian, was condemned with no explanation.  He became so depressed that he thought of suicide.  He was cured only when he went to Central America to work with the Comunidades Eclesiales de Base, (Ecclesial Base Communities). The life of faith of the simple and poor people returned to him the meaning of life.

There was a severe ecclesial winter. A whole generation of priests was formed in this doctrinal style, with their eyes on the past, using the symbols of clerical power. In the same way, many bishops were consecrated who were more nearly orthodox authoritarian ecclesiastics than pastors in the midst of their people.

Pope Francis is a different type of religious personality. He comes from the ends of the Earth, far from the old and almost agonizing European Christianity. And he has brought Spring to the Church and the political world.

Pope Francis first innovated the habits. He refused to use the “mozzeta”, that small white cape filled with brocades that popes carried on their shoulders, a symbol of the absolute power of the pagan Roman emperors. In the movie Francis clearly says: “the carnival is over”. He does not accept the cross of gold and continues with his cross of iron, rejects the red Prada shoes and continues with his old black shoes. He does not declare himself as the Pope of the Church, but as the Bishop of Rome, and only from there, Pope of the universal Church. When he was presented as the new Pope, Francis asked the people to pray for him. Only after that did the new Pope bless the people. Here there clearly appears a new theological vision, according to Vatican Council II: first comes the People of God and thereafter comes the Pope and all other ecclesiastic authorities at the service of the People of God.

Pope Francis inspires the Church not with Cannon Law, but with love and collegiality, (consulting with the community of Bishops).  In his first public speech, Pope Francis said: “how I would like a Church that is poor, and for the poor”. He does not live in the papal palace, that would be an offense to the poverello from Assisi, but in a boarding house. At meal time, he stands in line like everyone else and comments with humor: “This way it is more difficult to be poisoned”.

Francis foregoes a special automobile and a body of personal protection. He mixes with the people, gives his  hand to whomever extends his to him and kisses the children. He is a father and grandfather loved by the multitudes.

His model of Church is of a “field hospital” that cares for all without asking whence they come and what is their moral situation. It is a “Church on the go” towards the human and existential peripheries. He respects dogmas and doctrines, but clearly affirms that he prefers to position himself before the historical Jesus, opting for direct encounters with the people and for the pastoral caring of tenderness. He insists that Jesus came to teach us to live unconditional love, solidarity and forgiveness. To Francis, God’s infinite mercy is central. And he says more: “God does not know eternal condemnation because God would lose in the face of evil.  And God can not lose.  His mercy has no limit”. Consequently, He calls all, once purified from their wickedness, to the home the Father and Mother of goodness have prepared for all from eternity. To die is to feel called by God; and one happily goes to the Great Encounter.

As for Ecumenism, he emphasizes that the different churches must recognize each other and together be at the service of the Kingdom of justice, solidarity, fraternity and of love, nourishing the sacred flame of spirituality hidden within every person.

It is another type of pontificate, another form of being human; one that recognizes that he lost patience when a woman grabbed his hand and forcefully pressed it. Annoyed, he slapped her hand two or tree times. But the following day, he apologized publicly.  He is naturally humble and acknowledges his weaknesses.

Two Popes: different and complementary

Pope Francis opened up all his humanity, allowing himself the right to experience the joy of living, of encouraging his favorite  team, the San Lorenzo, of enjoying the music of the Beatles; and even of getting Pope Benedict XVI to dance a tango with him… something unthinkable in a severe German academician. Here he appears not as the Pope, but as the man, Bergoglio who unravels the shy humanity of the man, Ratzinger. The two are different, but they come together as one in a tango of adult persons.

The movie is a beautiful metaphor of the human condition, with two different forms of realizing humanity, which do not oppose but compose and complete each other, one with tenderness and the other with vigor.

The movie is worth seeing, because it makes us think and offers us lessons of mutual listening, of open dialogue, of truths spoken without beating about the bush and of a friendship that grows as the relationship is extended in each encounter. The forgiveness that each gives the other, and the final embrace, long and loving, enlarges the humanity and spirituality that is present in each one of us.

 Leonardo Boff  Eco-Theologian-Philosopher, of the Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

 

Leonardo Boff: a nova teologia do Ecoceno

A nova teologia do Ecoceno: entrevista a Leonardo Boff

Revista IHU on-line 27 janeiro 2020

De um Brasil em crise, escravizado, “campo de batalha na guerra fria entre Estados Unidos e China”, de um continente explorado “para satisfazer as superpotências”, humilhado, pisoteado, chega uma mensagem de esperança. De renovação. Que toca os temas do ambiente “rumo a um novo Ecoceno” e da igualdade social. Que fala do papel da mulher, do novo rosto da Igreja – a do Papa Francisco. Uma mensagem livre, “como o Espírito Santo”.

A reportagem é de Annachiara Sacchi, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 26-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Leonardo Boff, expoente de destaque da teologia da libertação, incômodo quando era sacerdote e também depois (abandonou a batina em 1992; em 1985, havia sido advertido pela Congregação para a Doutrina da Fé), ativista dos direitos humanos, dos direitos da natureza e da Terra, professor universitário, está confiante: “De toda grande crise, surge a possibilidade de uma mudança, podem irromper novas forças. E o Brasil é maior do que sua crise atual”.

Eis a entrevista.

Professor Boff, então o senhor está otimista ou não?

Na realidade, estou preocupado. A situação no Brasil é trágica: o ultraliberalismo de Jair Bolsonaro, a extrema direita política que faz apologia da violência e dos regimes ditatoriais, que exalta os torturadores como heróis nacionais… Nunca vivemos nada semelhante.

Qual a explicação?

Por trás disso, está o projeto de recolonizar a América Latina e obrigá-la a ser somente exportadora de commodities (carne, alimentos, minerais…). E, nessa perversa estratégia, o Brasil é central.

Por quê?

Porque é um país riquíssimo, uma reserva de bens naturais que faltam no mundo. Como disse várias vezes o prêmio Nobel Joseph Stiglitz, nos próximos anos toda a economia dependerá da ecologia. E o Brasil terá um papel primordial nesse jogo.

É difícil viver no Brasil hoje?

Muito. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é um dos “Chicago Boys”, formado na Escola de Chicago, que trabalhou no Chile de Pinochet. O ultraliberalismo de direita está fazendo uma política dos ricos para os ricos, está privatizando tudo. Guedes está trazendo a política de Pinochet ao Brasil de privatização de tudo o que pode. E você sabe por que ninguém protesta, por que as pessoas não saem às ruas como está acontecendo agora no Chile?

Não.

Porque o governo anunciou que reprimirá qualquer protesto com o exército! Aqui todos têm medo, pois o exército usa de violência e de brutalidade, mesmo que a discordância cresça. Mas dentro das paredes de casa. Assistimos a uma triste forma de inércia popular.

Na América Latina, presidentes como Evo Morales e Lula encerraram a sua era. Agora, novas forças orientam a opinião pública. Acabou o impulso reformista?

Tivemos governos que fizeram muito pelos pobres. No Brasil, 36 milhões de pessoas foram incluídas no welfare. Mas, no ano passado, um milhão de famílias passou da pobreza para a miséria. O governo está desmontando as políticas sociais de Lula. Estamos lidando com uma elite reacionária e escravista que nunca aceitou que um operário – no caso do Brasil, Lula, ou um indígena no caso da Bolívia, Evo Morales – chegasse à presidência do país. Essa elite fez de tudo, com os meios mais brutais. Mas essa onda violenta está sendo oposta por um movimento de grupos progressistas, de movimentos populares, como o MST, o Movimento dos Sem Teto, de descendentes afro-latino-americanos, de indígenas. São os brotos de uma realidade que pode irromper. Essa é a esperança que alimentamos.

O senhor vê algum novo líder político?

Infelizmente não, estamos em um momento de vazio, faltam figuras carismáticas, principalmente no Brasil. Talvez também por culpa de Lula, grande carismático, mas que não soube formar uma classe dirigente também com novos carismas.

O seu novo livro, “Soffia dove vuole” [Sopra onde quer] (no prelo, pela editora Emi), fala do Espírito Santo. Por quê?

Os tempos inquietantes que estamos vivendo, exigem uma séria reflexão sobre o Spiritus Creator.

Que ficou à margem da teologia.

Isso não é verdade. Existem estudos grandiosos sobre o Espírito, desde o de  Yves Congar até o de Jürgen Moltmann, este, em diálogo com o novo paradigma cosmológico. Mas o que podemos dizer é isto: o Espírito Santo esteve quase sempre à margem da hierarquia eclesiástica. E com razão.

Como assim?

A hierarquia está orientada para “áreas” como o poder, a ordem, a ortodoxia, os dogmas, o direito canônico, em uma constante condição de autorreferência. São todos aspectos que servem para manter o status quo e que têm a sua razão de existir, eu não nego isso. Do mesmo modo, porém, eles não podem ser predominantes e ocupar toda a cena. O Espírito é mais carisma do que poder, mais movimento do que estabilidade, mais inovação do que permanência. Ele segue uma lógica diferente da hierarquia da Igreja. Por isso, quase todos os portadores do Espírito Santo foram marginalizados ou perseguidos. Os fatos confirmam isso. O meu livro, julgado em 1985 pela Congregação para a Doutrina da Fé (cujo prefeito era Joseph Ratzinger), intitulava “Igreja: carisma e poder”. Em Roma, porém, leram-no como “Igreja: carisma ou poder”. Por causa dessa confusão, me condenaram.

Ao invés disso, o que o senhor queria dizer?

Eu queria criar um equilíbrio entre carisma e poder. Mas esse equilíbrio deve começar pelo carisma. Se se começa pelo poder, corre-se o risco de que o poder sufoque o carisma. Em vez disso, se se começa do carisma, impede-se que o poder seja exercido de forma autoritária, limites são-lhe impostos, e ele é obrigado ser poder-serviço e a se colocar a serviço da comunidade.

Qual é o papel do Espírito Santo hoje?

Estamos em um momento histórico, o Antropoceno, em que as bases que sustentam a vida e a Terra foram profundamente atacadas,as bases físicas, químicas e ecológicas. Ou mudamos ou morremos. O Espírito é Spiritus Creator, Spiritus Vivificans. Só o Espírito pode restaurar o equilíbrio destruído pela voracidade do homem. Só com o Espírito é possível superar o Antropoceno e chegar ao Ecoceno, a uma sociedade sustentável, vital, aberta à convivência de todos com todos e onde o ecológico ocupará a centralidade. Daí ecoceno.

Por que, na sua elaboração teológica, o senhor insiste em enfatizar o papel da ciência?

Não é possível fazer uma teologia atualizada sem um diálogo profundo com a nova visão do mundo proveniente das ciências da vida, da Terra, do cosmos. Essa leitura já tem um século, mas não é hegemônica. São poucos os teólogos que aceitaram esse desafio.

Por quê?

Porque obriga a estudar ciências diferentes: a física quântica, a nova biologia, a astrofísica, a teoria do caos e da complexidade. Depois de tal caminho, digo isto por experiência, é mais fácil fazer teologia, porque. com esses dados, Deus aparece imediatamente como a Energia misteriosa e amorosa que sustenta o todo e que leva em frente todo o processo cosmogênico. A categoria teológica do Espírito Santo é mais adequada para essa nova forma de teologia.

O que a consciência ecológica tem a ver com o Espírito Santo?

O principal objetivo do meu livro é afirmar que o diálogo com a ecologia e com a nova cosmologia nos obriga a mudar o paradigma. O paradigma da filosofia e da teologia ocidentais é de raiz grega, essencialista, baseado em natureza, substância, essência e outros termos semelhantes que pertencem à área da permanência, da estabilidade. Em vez disso, quando se fala de Espírito, tudo é dinamismo, inovação. É preciso mudar a forma de pensar Deus, a história, a Igreja. Deus é dinamismo de três pessoas divinas em comunicação eterna entre si e com a criação,  envolvendo tudo, Deus, o ser humano, a vida, o universo.

Teologia da ecologia, então?

Eu tentei fazer uma teologia com um novo horizonte de compreensão. O mesmo que o Papa Francisco indica na encíclica Laudato si’: tudo é relação; nada existe fora da relação. Poeticamente, Francisco escreve: “O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras”. A tese da ecologia é precisamente esta que eu antas vezes  ouvi no último semestre de aulas dado por Werner Heisenberg, um dos formuladores da mecânica quântica, por volta de 1967, na Universidade de Munique, onde fazia meu doutorado em teologia sistemática: tudo está conectado com tudo para formar a grande comunidade de vida, o todo da natureza e do universo. E esse modo de pensar corresponde à natureza do Espírito Santo.

O senhor acha que a Igreja Católica está pronta para aceitar essas suas reflexões?

Em cada país, a situação é diferente. Mas em toda parte faltam profetas. Com Wojtyla e Ratzinger, assistimos ao retorno à Grande Disciplina, vimos uma Igreja fechada em si mesma, preocupada com a ortodoxia, atenta a combater inimigos como a modernidade, as novas liberdades. E, acima de tudo, distante do povo, com uma teologia erudita mas pobre em inovação e uma liturgia alheia à sensibilidade moderna.

Enquanto agora…?

Com o Papa Francisco, emerge outro tipo de Igreja, aberta como um hospital de campanha, em que a centralidade não é tanto a ortodoxia, mas sim a pastoral do encontro, da ternura, da convivência. Para o Papa Francisco, as doutrinas são importantes, mas, acima de tudo, importa entender que Cristo veio para nos ensinar a viver os bens do Reino como o amor incondicional, a misericórdia, a solidariedade, a compaixão por quem sofre, pelos últimos em total abertura ao Pai de bondade e de misericórdia.

Mensagem recebida?

Nem sempre. Muitos católicos tradicionalistas não se deram conta de que estamos diante de outro tipo de papa, menos doutor e mais pastor no meio do seu povo. Um papa que carrega menos os símbolos pagãos dos imperadores romanos e mais a simplicidade de um pároco de aldeia, simples, humilde, amigo de todos. Um homem que vem de longe e, por isso, livre. Se não fosse assim, por que o nome de Francisco? Seria uma contradição pensar um São Francisco de Assis em um palácio pontifício. Mas temos outro Francisco de Roma que vive numa casa de hóspedes, se serve em fila e come junto com os outros, e não sozinho.

O crescimento de protestos públicos na Igreja contra o Papa Francisco lhe preocupa?

Não me preocupa, porque não o preocupa. Como eu sei disso? Contou-me um amigo dele, Carlo Petrini, um agnóstico que escreveu uma espécie de prefácio à encíclica Laudato Sí e com o qual o Papa Francisco gosta de dialogar, exatamente por não se confessar cristão, mas um agnóstico. O Papa contou-lhe (ele me visitou em dezembro em Petrópolis) que  dorme às 21h30, até as 5h30 como uma pedra, bebe o seu mate e leva em frente, franciscanamente, a sua missão, com uma irradiação mundial em sentido religioso, ético e político. Nós nos conhecemos desde 1972. Troquei com ele algumas cartas sobre temas de ecologia e sobre o Sínodo para a Amazônia de outubro passado.

A propósito, o que o senhor espera da exortação apostólica pós-sinodal de Francisco, prevista para breve?

Algo de bom. Acima de tudo, sobre a defesa do rosto indígena da Igreja e sobre as mulheres. Nas minhas cartas, eu pedi a ele que fizesse um gesto profético sem pedir nada a ninguém, como João XXIII fez quando convocou o Concílio Vaticano II.

Que gesto?

Ordenar as mulheres ao sacerdócio.

Ele lhe respondeu?

Agradeceu-me pela carta.

O senhor dedica seu livro às mulheres.

Eu digo que a primeira Pessoa divina a entrar neste mundo, ou a irromper no processo da evolução, não foi o Filho, como diz a Teologia comum e a Tradição. Foi o Espírito Santo. Isso está muito claro no texto de Lucas: “O Espírito virá sobre ti… E te cobrirá com a sua sombra”. Eu fiz uma pesquisa de meses na patrologia: não há nenhum rastro da centralidade do Espírito. Nem sequer nos grandes teólogos. De acordo com uma leitura predominantemente masculina, prevalece o Filho e se esquece do Espírito que gera em Maria o Filho. Portanto, o Filho veio depois da aceitação (“fiat”) de Maria, quer dizer, depois da vinda do Espírito. Digo mais: o Espírito assumiu Maria, divinizou-a. No projeto do Altíssimo, homem e mulher são igualmente divinizados. Fazem parte de Deus. As mulheres deveriam se conscientizar desta sua dignidade e assumir sua porção divina.

Hoje, a teologia da libertação é ecoteologia, teologia feminista, teologia afro. Mas os pobres continuam sendo muitos e oprimidos. A teologia da libertação ainda tem um longo caminho pela frente?

A existência dos pobres, dos oprimidos sempre me faz pensar em Jesus, em São Francisco e em tantos outros que tiveram misericórdia deles.Enquanto existirem pobres especialmente na medida em que seu número aumenta, mais necessária se faz uma teologia de libertação. É a nossa situação atual,mundo afora.

Acusaram-no de ser pró-marxista.

Marx nunca foi pai ou padrinho da teologia de Libertação, como insinuavam os ditadores latino-americanos e os conservadores entre os bispos e os leigos. Mas hoje, mais do que nunca, a teologia da libertação é urgente. O exército dos pobres aumentou assustadoramente. Se a teologia, seja ela qual for, não levar a sério a situação atual, de verdadeura crucificação da maioria da humanidade, dificilmente se livrará da crítica de cinismo e de irrelevância histórica. É preciso ler os sinais do tempo. O Espírito nos convida a tomar uma posição, dos lados das vítimas, daqueles que pelo sistema imperante são feitos invisíveis.

Há em portugues o livro: “O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres” Vozes 2013.