Habitar a Terra

Faz-se uma constatação triste: o tipo de mundo no qual vivemos é tudo menos fraternal. O que predomina é o poder que, logo de início, estabelece uma divisão entre quem tem poder e quem não tem poder. Trata-se do poder-dominação, político, econômico, ideológico, midiático, também familiar e outros. Desta divisão nasce toda sorte de desigualdades: uns se sobrepondo aos outros, a maioria colocada no andar de baixo e uns poucos no andar de cima.

A desigualdade significa injustiça social que é eticamente inaceitável. Para as pessoas de fé, a injustiça social representa um pecado contra o Criador porque ofende a Ele e a seus filhos e filhas. Portanto, estamos submetidos a uma situação que não agrada a nós e também não agrada a Deus.

Grande é a busca humana por uma sociedade livre, igualitária, justa e fraterna. Em nome dela se fizeram as grandes revoluções, sempre derrotadas, mas nunca definitivamente vencidas, pois o anelo humano por liberdade, igualdade e fraternidade é imorredouro. Haverá sempre pessoas e movimentos sociais que manterão vivo este sonho e procurarão concretizá-lo na história.

Muitos são os motivos que fundam a fraternidade. Primeiramente somos todos portadores da mesma humanidade, pouco importa a origem, a cor da pele, a religião e a visão de mundo. Todos possuímos o mesmo código genético de base, presente em todos os seres vivos: os vinte aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas. Dito numa linguagem pedestre: somos construídos por 20 tijolinhos diferentes e por quatro tipos de cimento. Combinados os tijolinhos e amalgamados pelos vários tipos de cimento, emerge a biodiversidade. Quer dizer, existe um laço de fraternidade real entre todos os seres vivos e especialmente entre os humanos. A fraternidade é universal, a natureza incluída.

Outra razão da fraternidade é o fato de todos os seres, também os humanos, possuírem algo em comum: viemos do barro da Terra. Homo, ser humano, procede de humus terra boa e fértil. Da mesma forma, o nosso ancestral bíblico Adam  se deriva de adamah que quer dizer: terra arável e fecunda. Desse barro o Criador nos tirou e moldou como suas criaturas, todos irmanados entre si.

Estas raízes comuns clamam para vivermos em fraternidade universal e ilimitada. Este foi o sonho de Jesus advertindo que ninguém seja chamado de mestre, poque todos somos irmãos e irmãs. A fraternidade sem fronteiras foi a busca ardente de São Francisco de Assis que chamava a todos os seres da natureza com o doce nome de irmãos e irmãs. Foi conversar com o sultão muçulmano no Egito porque queria uma fraternidade universal que implicava incluir cristãos e não cristãos. É o grande sonho de Francisco de Roma, o atual Papa que escreveu uma corajosa encíclica Fratelli tutti, “todos irmãos e irmãs” como resposta a um mundo globalizado que cria sócios, mas não irmãos e irmãs, nos faz virtualmente próximos, mas realmente distantes por causa da riqueza de alguns à custa da pobreza de muitos.

Dentro do mundo atual, fundado sobre o poder-dominação sobre pessoas, sobre povos e sobre a natureza, a fraternidade universal não possui condições de realização. No entanto, se não conhece viabilidade, ela pode ser uma atitude permanente, um modo de ser, um espírito que impregna todas as relações entre as pessoas e também as institucionais, de participação igualitária e cooperativa. Tudo isso à condição de renunciarmos ao poder-dominação e de termos humildade, não como uma virtude ascética, mas como um molhar nossas raízes no mesmo humus de onde a natureza e nós garantimos nossa existência, vendo cada ser e cada pessoa um irmão e uma irmã, com a mesma origem e o mesmo destino. Entre irmãos e irmãs vigora amor, cuidado e um profundo sentimento de pertença.

Devido às ameaças sérias que pesam sobre a Mãe Terra super-explorada e a dilaceração do tecido social das nações, a fraternidade sem fronteiras, como um novo tipo de presença no mundo, nos poderá salvar. Este livro Habitar a Terra: qual o caminho para a fraternidade universal quer trazer ao debate a urgência do amor social e da fraternidade universal, pelo menos como um modo de ser terno e despojado da vontade de poder-dominação, criando um laço de afeto e de cuidado entre todos do mundo natural e do mundo humano.


Leonardo Boff, 1938, doutorou-se em Munique em teologia sistemática. Foi professor de teologia por 22 anos no Instituo Teológico Franciscano de Petrópolis, posteriormente doutorou-se em filosofia na UERJ e foi professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia Filosófica na Universidade do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em várias universidades europeias. Foi editor religioso por muitos anos da Editora Vozes e coordenou a publicação da obra completa de C.G.Jung.  É portador do prêmio Nobel alternativo da Paz de 2001 pelo Parlamento sueco. É detentor de vários títulos de doutorado honoris causa de distintas Universidades. Escreveu cerca de cem livros nas áreas da teologia, da filosofia, da espiritualidade e da ecologia.

Adquira já

A humanidade na encruzilhada: a sepultura ou…

O Covid-19, ao afetar todos os humanos, deu-nos um sinal que cabe interpretar. Na  natureza nada é fortuito. É superada a visão mecanicista de que a natureza e a Terra não têm propósito. Sendo vivos,são portadores de sentido e se inserem no quadro geral do processo cosmogênico que já possui 13,7 bilhões de anos. Se todos os elementos não se tivessem sutilmente articulado,durante bilhões de anos, não estaríamos aqui para escrever sobre estas coisas.

Qual o sentido mais imediato que a natureza nos está revelando com a intrusão do coronavírus? O sentido nos vem em forma de pergunta:

”Parem com o assalto sistemático e depravador dos ecossistemas, das florestas, dos solos, das aguas, da biodiversidade; as suas megacorporações industrialistas e extrativistas, as mineradoras, o agronegócio empresarial em parceria  com a indústria de agrotóxicos, os ejetores de giga-toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera, os causadores da erosão da biodiversidade, vocês estão destruindo as bases que sustentam a sua própria vida; estão cavando a própria sepultura no quadro de um tempo previsível; não os camponeses familiares, os pobres da terra, mas vocês estão destruindo os habitats de milhares de vírus presentes nos animais; buscando sobreviver, encontraram nos humanos um hospedeiro para a sua sobrevida à custa da vida de vocês mesmos; o falso projeto de crescimento/desenvolvimento ilimitado de sua cultura consumista, já não é suportado pela natureza e pela Terra, planeta velho e limitado em bens e serviços; como reação à violência contra mim – a natureza e a Mãe Terra –  já lhes enviei vários vírus que os atacaram; mas não viram neles um sinal;  não aprenderam a lê-lo, nem tiraram a lição contida neles; vocês só pensam na volta à velha e perversa normalidade; digo-lhes: ou vocês mudam de relação para com a natureza e para com a Mãe Terra, relação de cuidado, de respeito a seus limites, de autolimitação da voracidade de vocês, sentindo-se efetivamente parte da natureza e não seus pretensos donos, ou serão assolados por vírus ainda mais letais;  advirto: um deles pode ser tão resistente que mostraria a total ineficácia das vacinas atuais e grande parte da humanidade seria consumida pelo Next Big One, o derradeiro e o fatal. A Terra e a vida nela, especialmente, a microscópica, não perecerão. A Terra viva continuará a girar ao redor do Sol e a se regenerar, mas sem vocês. Portanto, cuidem-se, pois, os tempos estão em contagem regressiva. A natureza é uma escola, mas vocês não quiseram se matricular nela e por isso, irracionalmente, estão sedimentando o caminho que os poderá à própria autodestruição. E mais não digo”.

A pandemia afetou, de forma global, a humanidade. Já que a forma é global, obviamente, a solução  deveria ser também global: discutida e decidida globalmente. Onde está um centro plural e global para pensar e encaminhar soluções para os problemas globais? A ONU não cumpre seus objetivos fundacionais, pois, se transformou numa agência que defende os interesses das nações poderosas que possuem direito de veto, particularmente no organismo maior que é o Conselho de Segurança. Somos reféns da obsoleta visão de soberania nacional, que ainda não se deu conta da nova fase da história humana, a planetização que faz com que todas  as nações estejam interconectadas e que o conjunto delas possui um mesmo destino comum. Estamos todos dentro do mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva, advertiu o Papa Francisco. Esse é verdadeiro sentido da globalização  ou da planetização. O tempo das nações passou. Temos que construir a Casa Comum dentro da qual cabem as várias nações culturais, sempre entrelaçadas formando a única Casa Comum,incluída a natureza.

A pandemia deixou claro o quanto desumanos e cruéis podemos ser: os ricos aproveitaram a situação e se enriquecem muito mais enquanto os pobres ficaram muito mais pobres. A cultura vigente é competitiva e muito pouco cooperativa. O lucro conta mais que a vida. As vacinas foram desigualmente distribuídas,ficando os pobres expostos à contaminação e à morte. Um continente inteiro,com mais de um bilhão de pessoas, a África, foi esquecida. Apenas 10% de sua população foi vacinada. A morte campeia especialmente  entre crianças devido à insensibilidade e desumanidade de nossa civilização mundializada. É o império da barbárie que nega qualquer sentido de civilização humana. Com razão, analistas, especialmente, biólogos, se perguntam: temos direito ainda de viver sobre este planeta? Nossos modos de ser,de produzir e de consumir ameaçam todas as demais espécies. Inauguramos uma nova era geológica, o antropoceno e até o necroceno, vale dizer: a grande ameaça mortal à vida no planeta não vem de um meteoro rasante mas do ser humano barbarizado, especialmente, entre os estratos mais opulentos da população. Entre os pobres e marginalizados se conserva ainda humanidade, solidariedade,mútua ajuda,cuidado das coisas comuns como se tem comprovado durante este tempo sombrio de pandemia mundial.

A intrusão do Covid-19 representa um convite à reflexão: por que chegamos até ao atual ponto, ameaçados por um vírus invisível que pôs de joelhos as potências militaristas e seu fantasioso impulso imperial? Para onde vamos? Que mudanças devemos operar se quisermos garantir um futuro para nós e para nossos descendentes? Os trilhardários globais (0.1% da humanidade) sonham com uma radicalização total da ordem do capital, impondo a todos um despotismo cibernético que vigiará e reprimirá todos os opositores e que garantiria suas fortunas. O estômago da Mãe Terra não digerirá tal monstruosidade. Junto com a resistência humana, indispensável,  anulará suas pretensões, negando-lhes as bases ecológicas,incontroláveis por eles, para esse perverso projeto.

Como nunca antes na história o destino de nossas vidas depende das decisões que coletivamente devemos tomar. Caso contrário, conheceremos o caminho já percorrido pelos dinossauros. Não queremos isso. Mas estamos numa encruzilhada

Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra – proteger a vida como escapar do fim do mundo,Record, Rio de Janeiro 2010; com J.Moltmann, Há esperança para a criação ameacada? Vozes, Petrópolis 2013.

S.O.S, planeta en crisis

La pandemia, la creciente crisis de los alimentos y el calentamiento climático global definieron la agenda de 2021. 2022 se perfila, nuevamente, como un año desafiante para los movimientos sociales y la humanidad entera.

11/01/2022

Versión para impresión
Español
Français
Publicamos esta análise séria e objetiva sobre os atuais desafios que a humanidade enfrenta.É de um jornalista argentino,radicado na Suiça e conhecido por fazer a ponte entre o Grande Sul e os países ricos do Norte do mundo. Vale tomar a sério as advertências que faz a partir dos movimentos sociais mundiais com alternativa às projeções das grandes corporações que pretendem se enriquecer ainda mais, pondo em risco o futuro da vida nesta planeta, ameaçado pelo Covid-19 e pela gripe Influenza.

Ómicron

No había terminado la “ola Delta” en Europa cuando Ómicron irrumpió con una contagiosidad hasta ahora desconocida. El Covid-19, que se instaló a inicios del 2020, multiplica mutaciones y continúa condicionando la “normalidad” cotidiana de todo el planeta.

Junto con su golpeteo sanitario agresivo, la pandemia devela un entramado de contradicciones civilizatorias. Una de ellas, denunciada por las estadísticas más verificables: los más ricos continúan enriqueciéndose sin pausa. La actual crisis ha jugado y continúa jugando como un disparador de las brechas sociales. Hoy, el mundo está aún más polarizado en términos de desigualdad que antes de la aparición de este virus. Mientras que la riqueza de los multimillonarios ha aumentado más de 3.6 billones de euros, otros 100 millones de personas han pasado a engrosar las filas de la pobreza extrema a causa de la crisis sanitaria actual.

La otra contradicción no menos significativa es la que resulta de la mala distribución de las diferentes vacunas, radiografía de un planeta a dos velocidades. Mientras que en el norte “desarrollado” se aplican este fin de año la 3era y 4ta dosis entre la población que quiera inmunizarse, en una buena parte de los países *periféricos* las vacunas disponibles cubren apenas un escaso porcentaje de su población. Poco más del 7 % de las personas en los países de ingreso bajo han recibido una dosis, mientras ese porcentaje se eleva hasta un 75 % en los países de ingreso alto. En África, menos del 10% de la población ha sido vacunada, mientras que en Europa y Estados Unidos más de un 70% ya fue inmunizada. Desigualdad que se acentúa por la decisión de los países ricos y las multinacionales que producen las vacunas de impedir que éstas se produzcan libremente en distintos lugares del mundo, tal como le exigen importantes actores de la sociedad civil mundial que proponen una excepción temporal del derecho de patentes.

El hambre en aumento

El 23 de septiembre del 2021 no fue una jornada esplendorosa. Para el 10% de la población mundial, es decir unos 800 millones de seres humanos que hoy padecen hambre, la Cumbre sobre Sistemas Alimentarios convocada por las Naciones Unidas en Nueva York ni siquiera existió.

Para los movimientos sociales que buscan soluciones cotidianas a este cataclismo mundial, la cumbre fue un poco más de lo mismo. Es decir, pura retórica sin que exista una real voluntad política para encontrar soluciones estratégicas.

“La Cumbre de Sistemas Alimentarios de la ONU es despreciable y representa una amenaza para la Soberanía Alimentaria de los pueblos”, señalaba La Vía Campesina al pronunciarse sobre el evento de Nueva York. Esa red mundial — que aglutina a más de 200 millones de campesinos de 81 países– junto con casi 600 movimientos sociales de pequeños productora-es, trabajadora-es, pueblos indígenas y ONG del sector, habían decidido ya en julio boicotear la convocatoria de Nueva York. Los movimientos populares constituyeron un frente unido de denuncia de la ilegitimidad de la Cumbre y de los intentos de parte de las corporaciones transnacionales de apropiarse del debate y de las propuestas futuras.

Para dichos movimientos, la solución a la crisis climática, el hambre, la migración forzada y la pobreza extrema reside en los pueblos, no en el gran poder corporativo multinacional. Debe surgir de los principios de la soberanía alimentaria y de la justicia social y debe considerar a la alimentación como un derecho humano fundamental y no como una mercancía para la especulación comercial. Es innegociable respetar los sistemas alimentarios a pequeña escala, diversos y agroecológicos que existen en nuestros territorios, según los movimientos sociales.

Y concluía afirmando que la Cumbre de Sistemas Alimentarios de la ONU de 2021 se encuentra en las antípodas de estos principios. El hambre sigue siendo una realidad dramática, aunque las soluciones, según dichos actores, podrían ser simples: bastaría con priorizar la agroecología sobre el agronegocio y apostar a la soberanía alimentaria para reemplazar el paradigma inaceptable de alimentos=mercancías.

Se incendia el planeta

A los fracasos derivados en 2021 por el hambre creciente y la desigualdad en la lucha contra el Covid-19, se le suma un tercer factor desequilibrante:  el agravamiento de la crisis climática.

La Cumbre Climática Mundial de Glasgow de noviembre pasado no logró avances sustantivos en la meta de asegurar un calentamiento máximo de 1.5 ° hasta 2030, tal como lo exige el mundo científico y la sociedad civil planetaria.

Dicha cumbre desnudó, además, el choque de dos concepciones confrontadas. La de las grandes potencias que controlan, vetan o bloquean a las mismas Naciones Unidas, con propuestas tibias e insuficientes, a pesar de que el mundo científico viene diagnosticando, desde años, la gravedad extrema de la enfermedad. Enfrente, la visión de una buena parte de la sociedad civil planetaria –movimientos ambientalistas, ONG de desarrollo, sindicatos, redes y plataformas–, que se movilizaron críticamente en las calles de Glasgow y de decenas de ciudades del mundo durante la COP26 para enfatizar que la “urgencia climática” debe ser la clave de interpretación de una sociedad humana en carrera acelerada hacia su autodestrucción.

Se acaba de cerrar el 2021 con tres frustraciones civilizatorias superpuestas: la no resuelta lucha contra el hambre; el perdido combate por el clima y la crisis pandémica. Trilogía de un sistema mundial en crisis, expresión de un planeta cada día más fragilizado. Las perspectivas para este año que acaba de comenzar son inciertas. Los múltiples niveles de crisis superpuestas continuarán vigentes. Los actores sociales con su movilización cotidiana pueden ser el factor determinante para revertirlas. Exigiendo justicia climática y social, así como alternativas agroecológicas y soberanas para confrontar el hambre creciente. Y movilizándose para liberar patentes de producción de medicamentos y democratizar universalmente la lucha desigual contra la pandemia.

https://www.alainet.org/es/articulo/214698

¿Cuánta tierra necesita un hombre? La mente capitalista

Sentado en círculo con los rústicos peones de su hacienda Yásnaya Poliana, Leo Tolstói (1828-1910) el gran escritor ruso, les contó la siguiente historia que me permito resumir para ejemplificar cómo funciona la cabeza de un capitalista.

Había un campesino pobre, pero muy deseoso de poseer cada vez más tierra para cultivar y hacerse rico. Pensó: “Voy a hacer un pacto con el diablo. Este me va a dar suerte”, dijo a su mujer, que torció el gesto y le advirtió: “Marido mío, cuidado con el diablo, nunca sale nada bueno de un pacto con él; ese deseo tuyo de hacerte rico puede echarte a perder”.

Pero, ante la insistencia de su marido, resolvió acompañarlo. Así que partieron, llevando unas pocas pertenencias.

Supieron que lejos de allí había un grupo de gitanos que vendían tierras baratas. Y se encaminaron hacia aquel lugar. Cuando llegaron, allí estaba de pie el diablo, bien trajeado, dándose aires de rico comerciante de tierras. El campesino y su mujer saludaron educadamente a los gitanos. Cuando iban a expresar su deseo de adquirir tierras, el diablo sin ceremonias se anticipó y dijo:

“Buen señor, veo que viene de lejos y tiene un gran deseo de hacer fortuna. Tengo una excelente propuesta para usted, mejor que la de los gitanos. Le propongo lo siguiente: usted pone una cantidad razonable de dinero en una bolsa aquí a mi lado. Todo lo que usted recorra a lo largo de un día, desde el amanecer hasta la puesta del sol, siempre que esté de vuelta antes de ponerse el sol, esa tierra recorrida será suya. En caso contrario, perderá las tierras y el dinero de la bolsa”.

Los ojos del campesino, ávido de riqueza, brillaron de emoción y dijo:

“Me parece una propuesta excelente. Tengo piernas fuertes. Acepto. Mañana bien temprano, al amanecer, me pondré a correr y todo el territorio que mis piernas consigan alcanzar será mío”.

El diablo, siempre malicioso, sonrió contento.

Y así fue. Bien temprano, apenas el sol despuntó en el horizonte, el campesino, lleno de codicia, echó a correr. Corría y corría mucho. Saltó cercas, atravesó riachuelos y, no contento, ni siquiera se paró a descansar. Veía delante de sí una encantadora planicie verde y pensó: “aquí voy a plantar trigo en abundancia”. Mirando a la izquierda, se abría un valle muy plano y pensó: “aquí puedo hacer una plantación de lino para dar y vender”.

Subió, con dificultad, una pequeña colina y vio que allá abajo había un campo de tierra virgen. Y pensó: “quiero también aquella tierra. Ahí voy a criar ganado y ovejas y voy a llenar las alforjas de las burras con mucho dinero”.

Y así recorrió muchos kilómetros, nunca satisfecho con lo que había conquistado, pues los lugares que veía le atraían y alimentaban aún más su deseo incontrolado de poseerlos también.

De repente miró al cielo y se dio cuenta de que el sol se estaba ocultando detrás de una montaña. Se dijo a sí mismo:

“No hay tiempo que perder. Tengo que volver corriendo, si no, pierdo todos los terrenos recorridos y, encima, el dinero. “Un día de dolor, una vida de amor”, pensó, como decía su abuelo.

Se puso a correr con una velocidad desmedida para sus cansadas piernas, pero tenía que correr sin reparar en los límites de sus tensos músculos. Miraba siempre la posición de sol, cerca ya del horizonte, enorme y rojo como la sangre. Pero aún no se había ocultado totalmente.    Cansadísimo, corría sin parar y ya ni sentía las piernas. Con tristeza pensó: “tal vez abarqué demasiadas tierras y puedo perder todo. Pero sigamos adelante”.

Viendo, a lo lejos al diablo, solemnemente de pie y a su lado la saca de dinero, recobró un poco el ánimo, seguro de que llegaría antes de ponerse el sol. Reunió todas las energías que tenía e hizo un último esfuerzo. Saltó una cerca, atravesó un riachuelo y corría, casi volando. No muy lejos de la llegada, se tiró hacia delante perdiendo casi el equilibrio. Recuperado, dio todavía unos pasos largos.

Y entonces, extenuado y ya sin fuerzas, se desplomó en el suelo. Sangraba por la boca y todo su cuerpo estaba cubierto de arañazos y de sudor. Y murió.

El diablo, malvadamente, solo sonrió y tomó la bolsa de dinero. Indiferente al destino del muerto, aun se dio el trabajo de hacer una fosa del tamaño del campesino y lo metió dentro. Eran solo siete palmos de tierra, la parte menor que le tocaba de todos los terrenos recorridos. No necesitaba más que eso. Su mujer, petrificada, presenciaba todo hecha un mar de lágrimas».

Este cuento nos recuerda al poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) que nos dejó la conmovedora obra Muerte y Vida Severina (1995). En el funeral del labrador dice:

“Esta cueva en que estás, con palmos medida, es la cuenta menor que sacaste en vida; es la parte que te cabe de este latifundio”.

La mujer del campesino tenía razón al advertir : “Cuidado con el diablo, pues te impulsa a tener más dinero cada vez y luego acaba contigo y toma todo tu dinero”. Es la lógica del capital. En él vivimos y sufrimos. Avanzando sobre los bosques y las selvas él nos trajo la Covid-19.

¿Cómo nos libraremos de él?

*Leonardo Boff es escritor y ha escrito: Habitar la Tierra:¿cuál es el camino para la fraternidad universal? Vozes 2021.

Traducción de Mª José Gavito Milano