O PT como bode expiatório de todos os males:Leneide Duarte-Plon

                  O bode expiatório: sempre eficaz nas horas de crise
Na História e em alguns mitos, René Girard viu uma repetição do recurso ao bode expiatório, ideal para momentos de crise.

Leneide Duarte-Plon é uma conhecida jornalita brasileira vivendo na França. Acompanha nossa trajetória política com um olhar de longe mas certeiro. Seus textos sempre muito bem fundados nos fazem entender melhor a crise atual. Desta vez usa a teoria do bode expiatório de René Girard, objeto de artigos meus anteriores à luz deste pensador que veio ao Brasil para fazer um seminário com teólogos e sociólogos ligados à teologia da libertação,impressionado que ficara pela ação não vingativa desse pensamento mas de libertação da vontade de dominação e de afirmação da solidariedade e da liberdade. Seu artigo escrito no dia 10/1/2019 nos reforça o que que muitos já há tempos percebiam a criação de um bode expiatório mediante estratégias de perseguição e de culpabilização do PT de todos os males de nosso país, esquecidos dos benefícios que possibilitou a milhões de pobres esquecidos de nossa história. Lboff

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O antropólogo e filósofo francês René Girard (1923-2015) estudou em sua obra mais conhecida ”La violence et le sacré” o fenômeno do bode expiatório para explicar a violência em determinados momentos da História humana.

Num rito da religião judaica narrado no livro de Levítico, na Bíblia, o sacerdote impunha as duas mãos na cabeça de um bode.

Desta forma, acreditava-se que todos os pecados cometidos pelo povo eram transferidos ao animal que, em seguida, era expulso para o deserto para purgar os erros do povo hebreu.

Na História e em alguns mitos que estudou, Girard viu uma repetição do recurso ao bode expiatório, ideal para momentos de crise.

Assim, diante da violência que se instala numa determinada sociedade primitiva, escolhe-se espontaneamente uma vítima que vai canalizar para si, como uma espécie de para-raios, todos os males do grupo. Esse bode expiatório vai recolher toda a agressividade, aliviar e transformar o ”todos contra todos” em ”todos contra um”.

Na realidade, o mecanismo do bode expiatório é baseado numa mentira coletiva que serve aos interesses da comunidade, explica Girard. Na História francesa, Alfred Dreyfus foi um exemplo de bode expiatório num processo que durou doze anos. Nele, o militar judeu acusado de traição da França foi vítima de um complô resultante do ódio que os antissemitas tinham dos judeus. Em 1906, o capitão Alfred Dreyfus foi totalmente inocentado da acusação, no processo que dividiu a França. O escritor e jornalista Émile Zola foi um dos grandes defensores de Dreyfus e seu texto ”J’accuse” é hoje um clássico.

Caça a bodes expiatórios

No Brasil, vivemos desde a reeleição de Dilma Rousseff um processo de caça a bodes expiatórios para transferir para eles todo o mal da crise econômica que o país começava a viver.

Não contentes em odiar um partido e seus eleitos, os inimigos do Partido dos Trabalhadores iniciaram uma verdadeira campanha de incitação ao ódio a tudo o que os presidentes Lula e Dilma Rousseff representaram na história recente de 2003 a 2014.

A partir do dia seguinte à reeleição de Rousseff os vencidos designaram o PT e a presidenta como bode expiatório de todos os problemas do país, que só reencontraria a paz e a redenção com a condenação deles. A escalada verbal transformou-se em violência real, no campo e nas cidades.

Impedida de governar desde sua reeleição, Dilma Rousseff foi destituída por um processo de impeachment iníquo que não conseguiu provar crimes de responsabilidade.

Desde então, o país vive uma caça a bodes expiatórios chamados de ”vermelhos”, ”comunistas”, ”petralhas” e tutti quanti. Os adversários políticos passaram a ser apontados como ”inimigos” a serem exterminados.

Restauração do regime militar

Hoje, o país está em plena restauração do regime militar por um governo eleito pelo povo (!), intoxicado durante anos por uma imprensa partidária e comprometida com os adversários do PT.

O Brasil tem atualmente mais ministros militares no poder do que no primeiro governo formado depois do golpe de 1964, como relembrou na semana passa o jornal ”Le Monde”.

Em tese, a Constituição de 1988 ainda está em vigor e o país não fez nenhum golpe.

Mas o novo governo promete uma mudança radical de mentalidade, de volta a valores de um passado idealizado como idílico ”quando os militares asseguravam segurança a todos e não havia corrupção”, como repetem os seguidores do ex-capitão Jair Messias.

Encarnado pelo irado ex-militar, o poder promete eliminar os ”inimigos” e resgatar os valores supostamente perdidos, resumidos em três palavras: família, pátria e propriedade.

Todos os brasileiros sabem que os quatro governos eleitos pelo povo e que governaram de 2003 a 2016 não ameaçaram nem a família nem a propriedade. E menos ainda a pátria, defendida por políticas fortes de afirmação da soberania do Brasil em todas as instâncias internacionais.

É justamente agora que a soberania do Brasil corre risco.

Os Estados Unidos voltaram a ter uma influência digna dos tempos da ditadura militar e causa espanto ver a bandeira brasileira nas ruas do país, estranhamente entrelaçada à dos Estados Unidos, quando não à de Israel.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cartas-do-Mundo/Carta-de-Paris-O-bode-expiatorio-sempre-eficaz-nas-horas-de-crise/45/42919

 

Desafios para os próximos tempos: Ivo Lesbaupin

 Ivo Lesbaupin é um conhecido sociólogo, com doutorado na França e sempre inserido nos movimentos sociais. Esta análise publicada em 10 de janeiro de 2019, é pertinente face ao que estamos vendo e  vivendo. Objetivo, crítico mas também com indicações práticas para a resistência e o avanço na sociedade brasileira, submetida a um governo claramente de ultra-direita e fundamentalista de cariz religioso e com projetos governamentais que ferem direitos e ameaça os mais vulneráveis. Este texto serve para a reflexão e como preparação de como devemos nos comportar daqui para frente. LBoff

 http://fepolitica.org.br/editoriais/desafios-para-os-proximos-tempos

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Um novo governo se instala em Brasília e a partir das medidas já anunciadas pode-se conhecer sua real linha política. Tomar consciência das ameaças que elas trazem para os setores empobrecidos ou vulneráveis do nosso povo, é condição fundamental para elaborarmos uma política que os defenda.

Os primeiros atingidos foram os povos indígenas e os quilombolas. Dentre as novas medidas, o Ministério da Agricultura – que está nas mãos do agronegócio – é quem passa a ter o poder de demarcar terras indígenas e delimitar comunidades quilombolas. Enquanto isso, o órgão que deveria defendê-los – a FUNAI – foi esvaziado, ao ser transferido do Ministério da Justiça para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Na prática, o direito dos povos indígenas e quilombolas a suas terras está suspenso. Mais: o novo secretário especial de Assuntos Fundiários, Luiz Nabhan Garcia, ex-líder da UDR (União Democrática Ruralista), promete rever as demarcações feitas nos últimos dez anos. O novo governo quer livrar-se dos limites que impedem a continuação da destruição do meio ambiente, particularmente na Amazônia.

Além disso, não tem qualquer apreço pelos direitos dos trabalhadores. Ele pretende aprofundar a Reforma Trabalhista aprovada em 2017, reforma esta que nos fez retroceder aos anos 1930-40, quando foram introduzidas leis em defesa dos trabalhadores, especialmente a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), criada em 1943. Voltamos 70 anos atrás, a um período em que o trabalhador dependia do beneplácito do patrão para ter alguma coisa, porque não tinha direitos. A extinção do Ministério do Trabalho deixa os trabalhadores entregues à própria sorte. Ainda não se sabe como ficará a fiscalização do trabalho escravo, feita por esse Ministério, que libertou 50 mil pessoas em condições análogas à escravidão entre 2003 e 2016.

Foi extinto também o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), órgão criado no governo Itamar Franco em 1993, extinto durante o governo FHC e recriado pelo governo Lula em 2003. Instância de participação da sociedade civil junto com membros do governo na discussão das políticas públicas para a alimentação, propôs medidas que alcançaram grande sucesso.

O novo governo afirma que vai reduzir o Estado e adotar a política de “austeridade”. Isso significa que as políticas sociais – saúde, educação, assistência social, transporte, entre outras – sofrerão novos cortes. Elas vêm sendo cortadas desde 2015, com o ajuste fiscal iniciado por Dilma, e mais ainda pelo governo Temer e sua política de teto dos gastos, que por 20 anos reduzirá os recursos para saúde, educação e assistência. Temer promoveu uma redução drástica de recursos nas políticas sociais, mas não para os banqueiros e rentistas: graças à taxa de juros, que é uma das mais altas do mundo, o Brasil pagou 500 bilhões de reais de juros da dívida pública em 2015, 400 bilhões em 2016 e o mesmo em 2017. Isto equivale a 3 vezes o que gastou com saúde e 4 vezes o que gastou com educação. São recursos públicos, destinados aos mais ricos do país, aos que têm dinheiro investido em títulos da dívida pública. Se a taxa de juros no Brasil fosse baixa, semelhante à de vários outros países, haveria dinheiro suficiente para saúde, educação, previdência, cultura e muitas outras coisas.

Portanto, quando o governo Bolsonaro fala de “redução do tamanho do Estado”, está falando de gastar menos com a grande maioria da população, mas continuar pagando o que paga aos mais ricos, garantindo para estes o “Estado máximo”.

O novo governo quer estabelecer o controle sobre organizações não governamentais (ONGs), apesar de a Constituição garantir a liberdade de associação e de expressão. Essa medida enfraqueceria quem defende os direitos dos povos indígenas e das comunidades quilombolas e facilitaria o uso de seus territórios para a mineração e o agronegócio. Por isso ele quer calar sua voz.

O novo governo não aceita críticas, só quer aprovação. Por isso, até agora optou pela hostilidade aos meios de comunicação (exceto os que o apoiam incondicionalmente). Qualquer que seja nossa avaliação crítica da imprensa brasileira (que é, até hoje, um oligopólio), não há democracia sem imprensa livre. Se não se pode fazer crítica aos que exercem o poder – Executivo, Legislativo, Judiciário – e se não se pode investigar sua prática, não há liberdade.

Enfim, a extinção das Secretarias responsáveis por políticas de proteção a grupos que sofrem discriminação – como negros e LGBTI – indica que livrar-se do “politicamente correto” equivale a retirar direitos destas pessoas. Dezenas de casos de agressão como o assassinato de Moa do Katendê, em Salvador, e a execução da vereadora Marielle Franco – negra, favelada, homossexual, defensora dos direitos humanos – foram tratados com desdém pelos apoiadores do candidato, numa demonstração de quase-aprovação ao assassinato.

Concluindo

As políticas anunciadas nestes primeiros dias expressam ataques ao que mais valorizamos: os direitos humanos, os direitos trabalhistas, dos povos indígenas, dos quilombolas, à igualdade racial, à dignidade da população LGBTI.

Diante disso, precisamos nos manter unidos – “ninguém larga a mão de ninguém” – denunciar as ameaças de violação à Constituição, resistir – para impedir retrocessos – e exigir.

Neste sentido, precisamos reforçar a articulação entre pessoas, entre entidades, reforçar as redes. Articulação física: grupos, associações, etc. E virtual: estreitar a comunicação entre nós e tornar visível para o mundo o que está acontecendo aqui. (Sem ingenuidade: devemos estar atentos às iniciativas de controle/vigilância que querem exercer sobre a nossa liberdade de opinião e de expressão).

Acompanhar atentamente e monitorar o respeito às garantias democráticas, aos direitos humanos. Precisamos reagir imediatamente a qualquer ameaça ou violação de direito. Devemos reforçar as medidas de segurança e solidariedade para proteger os grupos sociais vulneráveis.

Devemos organizar debates, rodas de conversa, seminários, publicações, textos e vídeos sobre estas temáticas: democracia, riscos para a democracia, direitos humanos, meio ambiente, ecologia, Amazônia, história da ditadura, as Igrejas e a ditadura, totalitarismo, fascismo, nazismo, “1984” (George Orwell), “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) – obras críticas aos regimes autoritários.

Organizar uma frente ampla em defesa da democracia, organizar “Comitês de Defesa da Democracia”, “Núcleos pela Democracia” ou coisa semelhante: o que for melhor, mais viável, mais prático.

Denunciar, resistir, defender, sim. Mas temos de ir além: lutar pela sociedade justa e sustentável que queremos, não ficar limitados pela pauta deste governo (desgoverno), organizarmo-nos para ir adiante, construir um outro Brasil possível, um outro mundo possível. Os 89 milhões de eleitores que não votaram nele esperam isso de nós (e muitos dos 58 milhões que votaram nele vão ser animados por nós, quando perceberem o desastre que estamos vivendo).

Ivo Lesbaupin é doutor em sociologia pela Universidade de Toulouse-le-Mirail, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador da ONG Iser Assessoria, do Rio de Janeiro.
É autor e organizador de diversos livros, entre os quais: Para evitar o desastre: Como construir a sociedade do bem viver (2017).

Contro il nuovo governo di ultra-destra san Giorgio ci aiuti

Contro il nuovo governo di ultra-destra, furioso e persecutore, che già tocca i diritti fondamentali dei cittadini, in particolare i salari e le persone di un diverso orientamento sessuale, dobbiamo unire le nostre forze di resistenza e di critica, per l’imperativo etico di salvaguardare la democrazia e i beni comuni, che appartengono al popolo brasiliano.

Oltre a questo sforzo civico, abbiamo bisogno dell’aiuto del santo preferito dai cariocas, San Giorgio. La sua storia leggendaria può darci coraggio e forza.

Un terribile drago minacciava una piccola città nel Nord Africa. Richiedeva vite umane scelte a sorte. Un giorno, la sorte cadde sulla figlia del re. Questa con l’abito di sposa andò incontro alla morte. Ecco che San Giorgio irruppe con il suo cavallo bianco e la sua lunga lancia. Ferisce il drago e lo doma. Lega la sua bocca con la cintura della principessa e lo guida, docile come un agnello, fino al centro della città.

Dobbiamo interpretare questa leggenda in quanto può migliorare la nostra consapevolezza di chi siamo veramente. Seguo qui le riflessioni sulla psicologia analitica di Jung, soprattutto del suo allievo preferito, Erik Neumann (vedi la “Storia della origini della coscienza”, Astrolabio 1978). Secondo lui, il drago spaventoso e il cavaliere eroico sono due dimensioni dello stesso essere umano. Il drago in noi è il nostro inconscio, la nostra oscura ancestralità, le nostre ombre, la nostra rabbia e odio. Da questo sottofondo, la coscienza, l’indipendenza dell’ego e la nostra capacità di amare e vivere insieme, rappresentati da San Giorgio, irrompono nella luce. Ecco perché in alcune iconografie, in particolare in Catalogna (il suo patrono), appare il drago che circonda tutto il corpo del cavaliere San Giorgio, così come in quella del brasiliano Rogério Fernandes.

Noi siamo questa contraddizione vivente: abbiamo dentro di noi la parte di San Giorgio e la parte del drago. La sfida della vita che ci accompagna sempre e non ha mai una fine definitiva è San Giorgio, che tiene sottomesso il drago. Non si tratta di ucciderlo, ma di domarlo e placarne la sua ferocia.

La gente sente il bisogno di un guerriero santo e vittorioso, come mostra il teleromanzo “Salve Jorge”, la cui sceneggiatura è stata fatta da una grande devota del santo, Malga di Paolo. San Giorgio salva le donne prostitute contro il drago del traffico internazionale di donne.

Quello che abbiamo visto ultimamente in Brasile e soprattutto durante la campagna elettorale e ora, purtroppo, nell’attuale governo è l’irruzione del drago. Qui è stato liberato ed ha espresso ogni tipo di violenza verbale e persino fisica contro omofobi, indigeni, avversari e donne. Come ho scritto in questo sito, è l’emergenza della dimensione perversa della nostra “cordialità” che, secondo Sergio Buarque de Holanda, può manifestarsi anche come odio e inimicizia. Era ed è sempre presente in noi. Ma nella condizione psico-sociale-politica che si è creata potrebbe uscire dall’oscurità e manifestarsi in modo distruttivo.

Di fronte al drago che è apparso, cosa faremo? Dobbiamo svegliare San Giorgio in noi. Ha sempre sconfitto il drago. Useremo le armi che loro non possono usare. Risponderemo alla discriminazione includendo tutti senza distinzione. All’odio diffuso contro gli avversari, risponderemo con amore e compassione. Alla creazione di capri espiatori, risponderemo con la difesa degli innocenti emarginati e ingiustamente condannati. Alle menzogne e alle visioni fantasiose che vogliono portarci nel Medioevo risponderemo con la forza dei fatti e affermeremo il senso della contemporaneità.

È importante vincere il male con il bene. Non rispondere con i metodi e le ideologie sbrigative che presentano, con la pretesa di non avere ideologia. Quello che la maggior parte dei membri del partito e molti ministri hanno davvero è una strana ideologia tale da far sorridere le persone di tanta superficialità, antiquata e ridicola.

In questo sforzo, facciamo nostra la preghiera popolare: “Camminerò vestito e armato con le armi di San Giorgio in modo che i miei nemici, avendo i piedi non mi raggiungano, avendo le mani, non mi prendano e avendo gli occhi non mi vedano … Possano i miei nemici essere umili e sottomessi a Te. Amen”.

*Leonardo Boff è teologo e coordinatore della traduzione della opera completa di C.G.Jung presso alla edittrice Vozes.

Traduzione di S. Toppi & M. Gavito.

A estupidez social e ambiental condena toda a vida: Eduardo Gudynas

Eduardo Gudynas, uruguaio, é um dos grandes ecólogos mundiais. Está entre os primeiros a formular uma ecologia social.Este artigo é um balanço de 2018 sobre os dramas ecologicosocias que se aproximam, se não mudarmos a nossa relação para com a Mãe Terra -tema central da encíclica do Papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum – e para com a natureza em geral. Bem afirmou um dos maiores cosmólogos vivos e também grande ecogoista Brian Swimme:”Os poderes determinantes de nossas formas culturais manifestam uma preocupação mínima pela situação catastrófica diante de nós.O remédio seria um golpe que significaria a escolha entre a morte ou o abandono de nosso modo  vicioso de viver.O golpe que nos aguarda não é simplesmente do humano; é um golpe dos biossistemas da Terra. O golpe, na verdade, seria da própria Terra”(The universe story,1999,292). Essa advertência De Swimme é grave pois o atual Presidente e alguns ministros dão prova do que Gudynas constata: a estupidez social e ambiental que pode levar não só o Brasil mas a inteira humanidade a uma situação de alto risco e de proporções  imponderáveis. LBoff

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A estupidez social e ambiental condena toda a vida: Eduardo Gudynas

Revista ihu on-line   08/01/2019

No artigo a seguir Eduardo Gudynas faz um balanço de 2018 e também uma reflexão sobre a situação continental e mundial, em parte recordando a teoria crítica de Frankfurt. Gudynas é analista no Centro Latino Americano de Ecologia Social (CLAES), de Montevidéu.

O texto foi publicado por www.ambiental.net, 26-12-2018, e enviado para o IHU pelo autor. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis o artigo.

Há circunstâncias nas quais parece que a esperança some e ficamos presos em uma estagnação onde “tudo o que vive está sob condenação”. Essa foi a dura advertência que há mais de meio século escreveram Max Horkheimer e Theodor Adorno nas últimas linhas de sua “Dialética do Iluminismo” (1). No contexto da segunda guerra mundial e da revelação do holocausto, os dois filósofos alertaram que essa humanidade que abraçou a ciência e a razão, ao contrário de suas aspirações, caminhava até a barbárie e a destruição.

Os aspectos centrais dessa questão persistem na atualidade e merecem ser analisados ao finalizar o ano de 2018. Somos testemunhas de uma crise social e ambiental em todas as escalas, desde a planetária, passando à continental e chegando em cada país. A pobreza está de volta em cada esquina, e pode ser vista claramente nas grandes cidades (2). Estamos atravessados por uma fratura cultural que faz com que aqueles que vivem de um lado muitas vezes não possam compreender o castelhano dos que estão do outro lado. Comemos alimentos cheios de química, bebemos águas muitas vezes contaminadas, e respiramos um ar tóxico.

Estamos imersos em um mar de impactos, uns pequenos outros maiores, mas quase todos persistentes e repetidos. A situação é tão dramática que parece que os que hoje são os mais jovens podem perder anos de esperança de vida devido à contaminação (3). A riqueza ecológica latino-americana desaparece diante de nossos olhos; calcula-se uma perda aproximada de 89% nas populações de espécies na América Latina nas últimas cinco décadas, o que é o pior registro para todo o planeta (4).

Nas comunidades campesinas e indígenas estas degradações são particularmente dolorosas, já que elas estão localizadas no centro da articulação entre a sociedade e a natureza, e sofrem simultaneamente com todos esses problemas.

Nenhuma destas questões são desconhecidas. Tudo foi analisado, medido, experimentado, contabilizado e descrito. Sabemos disso. Está explicado em castelhano, inglês e muitos outros idiomas; em milhares de artigos, livros e vídeos. Cada semana se somam novos relatórios que reafirmam a gravidade da situação social e ambiental. Mas toda essa acumulação de informação científica e os alertas das organizações civis que se especializam nesses temas, continuam sendo insuficientes ou incapazes para uma mudança substantiva nos caminhos de nossa civilização. É difícil sustentar a esperança sob estas circunstâncias.

O congelamento da esperança, na análise de Horkheimer e Adorno, estava enquadrado na estupidez. Recordemos que essa palavra alude, em castelhano, a uma “estupidez notável” em compreender as coisas, e isto é justamente o que acontece. Apesar de ter toda a evidência em mãos sobre as severíssimas consequências do que está acontecendo, os governos, as empresas e boa parte da sociedade parecem não compreender, como se não temessem o que os rodeia, e persistem em manter estilos de vida que reproduzem a deterioração.

Este componente da estupidez já não pode ser negado graças aos delírios que observamos com Donald Trump nos Estados Unidos, dizendo entre outras coisas que a mudança climática não existe ou que é uma invenção dos chineses. Isso continua mais evidente nas declarações de Jair Bolsonaro e membros de sua equipe no Brasil. Mas sendo sinceros, já temos outros exemplos dessas tolices em praticamente todos os países, onde sempre é possível encontrar declarações infelizes de presidentes, ministros, empresários ou acadêmicos que desnudam sua ignorância sobre os problemas ambientais ou a crise social. Neles se mistura a estupidez com a ignorância, mas tampouco é raro que a mentira que busca alguma vantagem seja disfarçada de tolice. De um modo ou outro, a estupidez já não se dissimula.

Navegamos na estranha condição onde são milhões os que se divertem em ver quem é mais estúpido, se os Trumps ou os Bolsonaros em cada um de nossos países. Enquanto isso a crise avança, sem pausa. Denunciamos ou festejamos o estúpido, mas com ele ficamos imóveis e em alguma medida nós também fazemos o papel de bobo. Por mais que se coloquem os vídeos das besteiras no Facebook ou se encaminhem aos amigos no WhatsApp, nada disso garante solucionar os problemas, nem está servindo para evitar votar em outro estúpido na próxima eleição.

Sob essa imobilidade, os problemas sociais e ambientais continuam acumulando. Diferente das avaliações econômicas, o início do próximo ano não implica reiniciar do zero os indicadores ou a contabilidade, mas, por exemplo, o desmatamento deste ano se soma ao dos anos passados, os atrasos educativos são agregados entre si, e desta maneira, cada impacto social ou ambiental se acumula sobre os anteriores. Como são tantos e sua acumulação já se aproxima a dois séculos, a atual discussão científica agora aponta para a possibilidade de um colapso ecológico em escala planetária em um futuro próximo (5). Se justificam então as falas de Horkheimer e Adorno de que tanta estupidez termina em condenar a tudo o que está vivo.

É evidente que o vizinho da esquina não tem que ser um especialista em políticas sociais, nem a vizinha da próxima quadra ser expert em conservação da biodiversidade. Todos eles de uma ou outra maneira esperam, e em muitos casos confiam, que exista uma liderança política para enfrentar estes temas. Nesse esquema ideal são os políticos, como legisladores ou ministros, que devem promover mudanças nas políticas e na gestão, articular-se com os saberes de acadêmicos e atuar sobre o mundo empresarial. Devemos aceitar que essa estrutura não funciona por muitos e diversos fatores, sem deixar de reconhecer que há uma derrota da política em vários países (ainda que de tipo diferente, possivelmente os casos mais extremos ao finalizar 2018 se encontrem sobretudo na Nicarágua e na Venezuela).

A estupidez em entender a problemática socioambiental assola não só os políticos profissionais como também boa parte do empresariado e inclusive a academia. Estamos diante de uma estupidez sistêmica, já que ao estar tão disseminada termina arrastando quase todos. Inclusive quem aparenta ser inteligente e sagaz pode terminar em conflitos políticos que levam a resoluções erradas na gestão governamental, como alertava Rick Lewis, editor da revista “Filosofia Agora” (6). Inclusive onde realmente prevalecem os tolos, serão aproveitados para que sobre eles se enfoque a atenção, enquanto que os que não têm nada de estúpidos controlam a economia e a política escondidos nas penumbras.

A estupidez contribuiu ao giro que converteu a razão em uma antirrazão, para seguir com a lógica de Horkheimer e Adorno, e que em seus tempos descreviam como uma luta no alto pelo poder fascista enquanto que o resto devia se adaptar a qualquer custo à injustiça para sobreviver. Se poderá argumentar que aquele diagnóstico da dupla de filósofos era adequado para um mundo imerso em uma guerra mundial, mas não seria de todo aplicável à atualidade. Mas vale a pena se perguntar se aquele contexto é realmente muito diferente do que aconteceu neste jovem século XXI.

A paralisia da estupidez sistêmica atual também combina com outro significado da palavra “estúpido”, um pouco mais antigo, e que invoca o ficar aturdido, paralisado. 2018 é encerrado em um atordoamento generalizado em múltiplos campos e temas; o último deles ocorreu com o encontro governamental de mudança climática, onde não se conseguiu nenhum acordo concreto e efetivo, e ao contrário, se repetiu todo tipo de bobagens.

Sem dúvida há muitas resistências e conflitos, e eles têm uma enorme importância em salvaguardar comunidades ou naturezas. São, além disso, exemplos de alternativas possíveis. Mas apesar deles, neste ano como nos anteriores, a situação se agravou um pouco mais. Se somam às circunstâncias das quais já não é possível um retorno, como ocorre com o assassinato de jovens em bairros populares, o mercúrio acumulado no corpo das crianças amazônicas, ou a extinção de uma espécie em uma selva tropical. Não existe reparação, compensação ou remediação possível para a morte, seja a da natureza como a dos humanos, não podem ser separadas uma da outra. Quando morre a Natureza também morre parte de nossa essência como humanos. Estamos tão aturdidos ou somos tão tolos que não nos damos conta disso. É tempo de reagir.

Notas:

  1. Dialética do iluminismo, M. Horkheimer y T.W. Adorno, Sudamericana, Buenos Aires, (1944) 1987.
  2. A pobreza em número absoluto de latino-americanos vem crescendo desde um mínimo recente em 2014, com 168 milhões de pessoas, a 187 milhões em 2017; em porcentagem da população passou de 28,5% a 30,7% no mesmo período; Panorama Social da América Latina 2017, CEPAL, Santiago.
  3. Air pollution reduces global life expectancy by nearly two years, 20 de novembro de 2018, Phys.org,
  4. Calculado para 1040 populações de 689 espécies (mamíferos, aves, anfíbios, repteis e peixes); é o pior indicador em todo o mundo; Living planet report 2018: aiming higher, Zoological Society London y WWF, Gland.
  5. Por exemplo Trajectories of the Earth system in the Anthropocene, W. Steffen e colab., Proceedings National Academy Sciences 115 (33): 8252-8259.
  6. The world’s biggest problem is stupidity, R. Lewis, Telegraph, 15 de dezembro de 2011