Reflexões sobre um futuro governo enredado em suas contradições

 

Luiz Alberto Gómez de Souza é um cientista político com larga experiência no Brasil e no exterior. Suas análises se caracterizam pela ampla visão nacional e internacional, mas mais que tudo por sua sensatez. Procura distanciar-se das várias tendências partidárias, pois, junto com Betinho, fez uma clara opção pela sociedade civil. Há muito que propõe uma ampla frente ddemocrática de oposição, no sentido de salvaguardar a democracia que ainda temos, embora de baixa intensidade. Todos estamos interessados sobre como será o governo que saiu eleito das eleições deste ano. É uma incógnita, pois o projeto de Brasil não foi explicitado e está sendo montado com figuras discutíeveis e marcadas por algo grau de conservadorismo e de estranhas ideias sobre questões ecológicas e de política internacional. Vale ler este texto, pois poderá nos orientar face àqulo que ainda virá. LBoff

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Tanto no México com o novo presidente Obrador como aqui, os vencedores brandiam aparentemente as mesmas propostas: contra a corrupção e pela segurança. Elas correspondem a uma demanda real da sociedade e assumi-las tem uma forte resposta eleitoral. López Obrador soube captá-las e isso o levou à vitória. Aqui também a candidatura Bolsonaro partiu delas e isso o fez, em parte, crescer nas semanas que antecederam o primeiro turno. Por outro lado, a esquerda e o centro, do PT ao PSDB, não souberam avaliar sua importância, presos a uma posição negativa de defender-se da pecha de corruptos ou o primeiro a esgotar suas energias na liberdade de Lula. Ora, isso os colocou em desvantagem, frente a uma posição positiva e agressiva. Ficar na defensiva é já começar perdendo. Até agora eles não se põe de acordo em que fazer diante do novo governo. Uma parte do PSDB, com João Dória, tende a aderir; outra poderá criar outro partido, com pretensões social-democratas. PSB e PDT ainda não definiram uma estratégia ou como posicionar-se diante da óbvia exigência de formar uma frente opositora. Boulos, do PSOL, é quem acena sobre a necessária frente. O PT continua centrando suas forças na luta por Lula livre. E assim, nessas indefinições e posições limitadas, poderiam deixar caminho aberto para as propostas do futuro governo.

Se esse fosse coerente, com um programa claro, poderia sair fortalecido nos próximos meses, atravessando tranquilo um 2019. O início de um mandato costuma ter boa aceitação na sociedade. Mas eis que, antes mesmo de chegar ao governo, Bolsonaro já se fragiliza diante de enormes contradições e tensões internas, além disso corroído nas entranhas por um implacável fogo amigo.

Uma contradição bem visível está entre a proposta neo-liberal pura de Paulo Guedes, com uma política acelerada de privatizações e, do outro lado, uma resistência de setores militares no tocante a empresas estatais estratégicas (Petrobras, Eletrobras, BB, Caixa…) e defesa da Amazônia, em nome da preservação da soberania. Pensando no passado, é como se tivéssemos lado a lado, juntos num governo esquizofrênico, Roberto Campos e Ernesto Geisel.

Além disso, para piorar ainda mais as coisas, nos encontramos com uma situação inédita no cenário político brasileiro: não chega apenas um novo mandatário, mas uma família se prepara para aboletar-se no governo, Bolsonaro e seus três filhos. Todos quatro tremendamente despreparados e o trio ávido de poder. Como uma família que recebera uma capitania a reger, ou uma grande fazenda a administrar.

O futuro presidente, graças a um atentado que terminou por favorecer-lhe enormemente, não teve necessidade de participar da campanha eleitoral, o que o teria obrigado a precisar suas intenções e propostas. Estas ficaram em intenções gerais e vagas, compensadas por algumas afirmações contundentes, na linha de uma extrema-direita desenhada lá fora por Steve Bannon, ex-assessor estratégico de Trump e por seu recém criado The Movement e alinhadas ideologicamente com os vídeos que o pseudo pensador Olavo de Carvalho envia de sua residência em Petersburg, na Virgínia.

Já os filhos, afoitamente, partiram para ocupar espaços. Assim, vejamos de perto a atuação de cada um deles.

Eduardo, o mais jovem (34 anos), capitão da reserva, deputado federal desde 2015 sem destaque, à sombra do pai, que sai desta eleição como o deputado mais votado da história. Isso lhe dá apetite para tomar posições em vários âmbitos, sem maior experiência. Assim, vai tentar ocupar um espaço ao nível internacional, como uma espécie de chanceler antecipado, deixando de lado o ministro escolhido para o cargo pelo pai. Viajou aos Estados Unidos, por fora do circuito tradicional do Itamarati, encontrando personagens de segundo e terceiro escalão, para prestar vassalagem a um Trump que não o recebeu, mas enfiando um gorro com o nome deste, numa ação absurda para o filho de futuro presidente de uma nação soberana. Foi festejar o aniversário de Bannon, considerado por ele, “ícone no combate ao marxismo cultural”(!). Organizou um encontro de políticos de extrema direita em Foz do Iguaçu, com relativamente baixa representatividade e sem maior impacto. Explicitou a intenção paterna de mudar a embaixada brasileira para Jerusalém, para espanto da futura equipe econômica, que avalia o resultado negativo diante dos clientes do mundo árabe. O próprio Bolsonaro indicou que era uma proposta ainda em estudo. Posicionou-se pela pena de morte, mas logo o pai assinalou que também era um tema em análise. Em declarações informais afirmou num despropósito que, para fechar o STF, bastariam um cabo e um soldado. Retratou-se depois, mas o mal tinha sido feito.

Carlos, o filho do meio (36 anos), vereador desde 2001, foi o mais próximo ao pai durante as eleições. Temperamento irascível, entrou em forte colisão pelo twitter com outros parlamentares do PSL e acabou deixando a equipe de transição. O pai o chama de “meu pitbull”.

O maior problema vem do mais velho, Flávio (37 anos), no quarto mandato na Assembleia Legislativa carioca (ALERJ) e que agora foi eleito senador. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) acaba de denunciar um amplo sistema de empreguismo na ALERJ, com funcionários de seu gabinete repassando boa parte de seus salários a um assessor, Fabrício Queiroz, da polícia militar, que num ano movimentou mais de um milhão de reais, quantia incompatível com seus bens e entradas. De maneira muito amadorista, nos dias de pagamento, entravam em sua conta, em dinheiro vivo, enormes quantias. Há inclusive um cheque seu para a futura primeira dama. A COAF já tinha essa informação durante o período eleitoral, mas só deixa aparecer agora. Quem estaria interessado nesse vazamento? As organizações Globo e a Folha de São Paulo, no noticiário e por seus articulistas, estão dando um enorme destaque ao fato, que fragiliza Bolsonaro pai, um político que fizera campanha denunciando corrupção.

Assim, temos a futura “família real” exposta à crítica violenta. Numa atitude defensiva, Olavo de Carvalho propõe um forte ataque aos meios de comunicação, retirando patrocínios em retaliação. Isso é desconhecer, lá do seu retiro nos States, o poder da mídia, quarto poder, só piorando a situação do futuro presidente, exposto ainda mais negativamente diante da opinião pública.

Em momentos idênticos, no desprestígio de Jânio e de Collor, eleitos também com sua vassoura moralista e a luta contra os marajás, o caminho ficara aberto aos vices, Jango e Itamar, de opções diferentes. E neste caso? Vemos o vice, general Mourão, tomar cuidadosamente distância.

Como essas contradições irão enfraquecer um governo que chega vítima de tantas confusões? Assim, Bolsonaro se esvai antes mesmo de assumir o governo. Seus problemas não advêm de atos de uma oposição, mas de suas próprias fragilidades. Como agirá quando terá de tomar decisões? Dá a impressão de que até bem pouco atrás não imaginava ganhar e que não teve tempo para treinar de ser presidente.

Esse futuro governo se manterá em 2019, ou poderá ter uma crise terminal durante os próximos meses? Para permanecer, provavelmente terá que entrar em acordo com os setores dominantes e as velhas raposas políticas, que procurarão assessorá-lo e que poderão deixá-lo sob tutela.

Na hipótese de não se sustentar no poder, fica a pergunta: quem viria depois? Mourão não é Jango nem Itamar, opções diferentes dos presidentes. Ou se o vice cair junto, qual seria a alternativa “legal” aberta, para um golpe semicamuflado? Uma certa legalidade formal deveria ser preservada, nascendo porém com uma ilegitimidade de origem. Vimos isso no impeachment de Dilma e na condenação preventiva de Lula.

Nesse último caso, não pareceria surgir no horizonte um golpe militar clássico, mas, uma vez mais, um sinuoso golpe de aparências legais, como tentaram depois da queda de Jânio, enfrentado na ocasião pelo movimento da legalidade de Brizola. Talvez pudessem pensar num governo provisório. Daí a importância da eleição para presidentes da Câmara e do Senado, na linha sucessória. Pelas primeiras sondagens, Rodrigo Maia e Renan Calheiros tem boas possibilidades de manter-se nos postos, apesar da forte oposição de Bolsonaro a Calheiros. O vice já se mostrou favorável a Rodrigo Maia. Numa forte crise de poder, o sistema talvez apostasse num destes políticos tradicionais, experientes em manobras nas sombras.

E depois, no caso de um possível interinato? Não há no horizonte, do lado do sistema, alguém sendo preparado para o que viria adiante? Ou melhor, haveria talvez um, o juiz Sérgio Moro, indicado para a pasta da justiça. Ele sempre esteve pronto a cumprir papéis que lhe têm sido designados. Teria o apoio do mercado e dos Estados Unidos, onde teve sua obediente formação.

E num caso destes, qual seria a força das oposições? Infelizmente parecem, até o momento, à margem.

Tenho insistido na necessidade de uma frente ampla nacional, democrata e popular. Entretanto estas eleições deixaram muitas feridas. Uma frente destas seria impossível sem o PT, que saiu das eleições com a maior bancada na Câmara e poder em alguns estados e no nordeste. Mas um dos maiores empecilhos seria o mesmo PT, avesso a alianças em pé de igualdade, com a tendência de se autodeclarar a força opositora hegemônica. A hegemonia não se proclama, se conquista no processo. Ou melhor ainda, uma frente deveria apagar hegemonias e aceitar o pluralismo. A “geringonça” portuguesa nos trás lições interessantes.

Se Bolsonaro se mantiver, veremos a implementação de medidas antinacionais, autoritárias e antidemocráticas. Se cair, haverá o esforço do sistema dominante para preservar seus privilégios.

Tudo indica que uma alternativa ao sistema deveria construir-se, pacientemente, num processo mais ou menos longo, a partir da sociedade civil e de suas forças sociais mais dinâmicas. Isso exigiria saber escutar o país e suas demandas. As forças populares saberão entrar em sintonia profunda com o país real? Para isso teriam de pôr de lado posições tradicionais e isoladas ou superar bandeiras parciais e colocar-se na escuta no amplo espaço de uma sociedade com dinamismos latentes e enormes carências.

O que acontece neste momento com os jilet jaunes na França traz alguns ensinamentos que merecem uma análise séria.

Luiz Alberto Gómez de Souza é cientista político e ocupou vários pontos em organismos internacionais da ONU como na FAO e em outros.

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E A ECOLOGIA UNIDAS EM UMA LUTA COMUM

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E A ECOLOGIA UNIDAS EM UMA LUTA COMUM

Claudia Fanti é uma conhecida jornalista italiana, especialista em teologia latino-americana da libertação. Participou dos principais congressos mundiais desta teologia. Traduz perfeitamente do português e do espanhol. Traduziu com muita exatidão meu A Imitação de Cristo e o Seguimento de Jesus de Tomás de Kempis e a minha parte que é a última. É  extremamente inteligente e engajada na reflexão teológica mais avançada e militante de movimentos sociais. É uma das melhores conhecedoras de meu pensamento na área italiana. Agradecemos por este testemunho:Lboff 

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Querido Leonardo,

Era 1996, quando, na casa de Antonio Vermigli, nosso amigo em comum, eu o entrevistei pela primeira vez. Ao longo dos anos, muitas outras entrevistas se sucederam. Mas aquela foi especial. Era a primeira vez em que entrevistava o grande Leonardo Boff, um dos pais e principais expoentes daquela Teologia da Libertação que já modificara profundamente meu olhar sobre a vida e marcava meu trabalho como jornalista.

O tema da entrevista também foi especial: acabava de sair em italiano o seu livro Ecologia: Grito da Terra, grito dos pobres – Para uma ecologia cósmica. A emoção que os astronautas sentiram ao ver, pela primeira vez na história, a Terra do espaço sideral, descobrindo-a como uma única entidade indivisível Terra-humanidade, tomou for- ma em suas páginas, também me instigando a olhar de modo dife- rente para o nosso luminoso planeta branco-azul sempre grávido de vida e ele mesmo ser vivente.

Graças a você, descobri o quanto a Teologia da Libertação e a ecologia estavam unidas em uma luta comum. Ambas a partir de um único grito: “o grito dos pobres que querem vida, liberdade e beleza” e “o grito da Terra que geme sob a opressão”. Ambos orientados para a liber- tação: “o primeiro grito, dos pobres partindo de si mesmos, como sujeitos históricos organizados e conscientizados, em aliança com outros sujeitos de- terminados a abraçar sua causa e sua luta”; o segundo, do Planeta Ter- ra, através de um novo paradigma centrado na inter-relação de todos os seres humanos entre si, com a natureza e com toda a criação.

Desde então, sua pesquisa – conduzida por tanto tempo, quase por um tempo demasiado grande, como em uma solidão total, até que a gravidade da crise ambiental forçou a teologia latino-ameri- cana a considerar a questão como uma de suas prioridades – essa sua pesquisa sempre foi uma fonte extraordinária de inspiração para mim, para a minha vida e o meu trabalho.

Lembro-me de ter traduzido e publicado na Itália a sua confe- rência no Congresso Continental de Teologia na Universidade Jesuíta do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, em outubro de 2012. O tema atribuído a você foi “O lugar e o papel da teologia nos processos de mudança do continente no contexto mundial”, mas você decidiu tra- tar um outro, insistindo na relação entre Teologia da Libertação e preocupação ecológica.

Naquela ocasião, você havia falado sobre como articular Teolo- gia da Libertação e ecologia, colocando o discurso ecológico de uma maneira orgânica, sem limitar, ou seja, adicionando “apenas um capítulo ecológico” ao corpo da TL. De certa forma, você chegou a isso depois das suas dolorosas dificuldades com Roma. Você contava:

Depois de me ter imposto o obsequioso silêncio, João Paulo II mandou-me uma carta, na qual escrevia duas coisas. A pri- meira é que eu deveria me mostrar mais sério (mas, eu pensei, se eu estudei na Alemanha, claro que sou sério!). A segunda é que eu deveria enfrentar os temas realmente importantes da teologia. Pensei: Já que é o papa que diz isso, é preciso levá-lo a sério. E então percebi que o grande tema sobre o qual começar uma reflexão era pensar na Terra e nas filhas e filhos condenados da Terra. E ver como garantir o futuro da nossa civilização. É por isso que comecei a estudar ecologia. Porque uma teologia que não lida com esse problema não é séria.

Aquilo era válido também para mim. Se eu quisesse que meu trabalho jornalístico fosse sério, eu deveria gastar mais tempo e dar mais espaço possível à questão da nossa salvação junto com o plane- ta, o Grande Pobre, devastado e oprimido. É a Terra crucificada, que também precisa ser retirada da cruz. Por isso, essa questão se tornou um dos principais tópicos da minha atividade jornalística e também da minha militância social e política.

Já em 2009, não por acaso, achei necessário participar pessoalmente do 4o Fórum Mundial de Teologia e Libertação, em Belém, PA, sobre o tema “Terra, água e teologia para outro mundo possível”, nos dias que antecederam ao 9o Fórum Social Mundial. E o fato de que a pri- meira conferência do fórum foi entregue a você não poderia deixar a menor dúvida: era uma “honra” que você, por seu trabalho, merecia.

Lembro-me que, embora assediado como uma estrela por fotó- grafos e jornalistas, você encontrou tempo para me dar uma longa entrevista, abordando, entre outras questões, a dificuldade que a Teologia da Libertação tinha de assumir o paradigma ecológico, devendo incorporar conhecimentos científicos de não fácil aquisi- ção, como a física quântica, a nova cosmologia, a astrofísica.

Precisamente, então, comecei a voltar minha atenção para aquele imenso espaço de pesquisa, oferecido pela nova “história sagrada”, transmitida pelas ciências à humanidade. E nesse caminho tropecei em uma de suas maiores obras-primas: o Tao da Libertação, escrito junto com o cosmólogo canadense Mark Hathaway. A busca apaixonada “da sabedoria necessária para fazer profundas transforma- ções no mundo”, realizadas através de uma releitura da Teologia da Libertação a partir das fronteiras mais avançadas da ciência e dos valores da tradição taoista.

Uma pesquisa resumia, da melhor maneira, o título do livro. Nele, a antiga palavra chinesa Tao (“estrada, caminho rumo à harmonia, à paz e a relações justas”), com a qual você indicava “a sabedoria que reside no próprio coração do universo e que contém a essência do seu propósito e da sua direção”, está unida ao termo “libertação”, que ex- pressa esse processo que visa “remediar o terrível dano que infligimos um ao outro e ao nosso planeta “, na direção de um mundo “em que todos os seres humanos possam viver com dignidade e em harmonia com a grande comunidade que compõe Gaia, a Terra viva”, dentro de um universo que está a caminho da realização de suas próprias potencialidades.

Dessa forma, partindo do reconhecimento da extensão e da gravidade da crise atual, nos encontramos diante das duas únicas alternativas possíveis: optar por não realizar qualquer transforma- ção real, perpetuando o atual sistema global de dominação e, assim, deslizando para “um futuro de infelicidade, pobreza e degradação ecológi- ca ainda pior”, ou “pôr-se em busca do Tao da libertação”, realizando assim uma “revolução da consciência”, uma reinvenção de nós mesmos como espécie, na direção de uma “nova civilização global na qual a beleza, a dignidade, a diversidade e o respeito absoluto pela vida estarão no centro de tudo: uma autêntica grande virada”.

Daí a necessidade de uma nova compreensão da realidade e uma nova concepção do lugar que a humanidade ocupa no cosmos. No livro, você define isso como a “cosmologia da libertação”, em oposição àquela “cosmologia da dominação”, que, em grande parte, autorizou “a submissão da Terra”, substituindo a visão do cosmo como “uma moradia viva, rica em mistério” por aquela de um universo “como uma imensa máquina composta de simples tijolos”, que funcionam de maneira determinista. Esse é um universo morto, feito de matéria inanimada, que pode, portanto, ser explorado sem remorsos, em nome do desenvolvimento econômico e social.

Essa é uma visão superada pela pesquisa científica contemporânea. Ao contrário dessa, emerge a natureza profundamente holística e relacional do cosmos, mais como rede de relações na qual “cada parte recebe seu significado e sua existência apenas do lugar que ocupa no interior do todo” e no qual “todas as comunidades evoluíram como se fossem um grande organismo”. O cosmo é como uma “entidade viva com sua liberdade e sua dinâmica criativa”. É como uma espécie de super-organismo vivo que a Terra se revela. São muito sólidas as provas da atividade autorreguladora da ecosfera. É a teoria de Gaia, cuja versão “forte” sustenta “que os organismos vivos, trabalhando juntos, de alguma forma regulam ou controlam o seu ambiente para conservar, ou talvez até para otimizar, as condições necessárias à vida”.

Aquele livro, Leonardo, continha uma mensagem extraordinária de esperança. De uma esperança que nunca foi tão necessária como hoje, uma vez que, olhando para o mundo que construímos, não podemos deixar de nos sentir desanimados com a nossa capa- cidade de nos fazer mal diante da crueldade com que tratamos a comunidade da vida deste planeta, diante da cegueira e da loucura da qual a nossa espécie, imerecidamente autodenominada de sa- piens – que você definiu como “a maior ameaça à vida” – está dando prova de destruir a sua própria casa.

A esperança de que o cenário atual, embora tão dramático, seja apenas, como você escreveu, uma crise que “põe à prova, purifica e leva à maturação”, anunciando “um novo começo, uma dor de parto cheia de promessas e não a dor de um aborto da aventura humana”. Em suma, o nosso destino deve ser o de nos tornar mais plenamente huma- nos, capazes de sentir uma compaixão que inclui tudo, criar, como você escreveu, a nova civilização da Era da Terra, em cuja porta, ao contrário do que está escrito na porta do Inferno de Dante, possa ser lido, em todas as línguas existentes: “Vós que entrais aqui, nunca abandonai a esperança”.

De acordo com a ideia de Teilhard de Chardin, a evolução é “plasmada de modo a convergir para um estágio superior e final, que ainda é para ser alcançado e pode ser chamado de “ponto ômega”. Embora não seja possível dizer exatamente como será, ou com que parecerá, o fato é que implica “níveis de complexidade, de inter-re- lação, de diversidade e de autoconsciência sempre maiores”. Assim, você sublinhava no seu livro que é possível afirmar: o cosmos “ainda está em processo de gênese” e que, portanto, “cada ser e cada entidade estão cheios de potencialidades ainda não realizadas”.

Caro Leonardo, em todos esses anos você não somente nunca me negou uma entrevista, como sempre respondeu generosamente a todos os meus pedidos de artigos, comentários e contribuições. Até aceitou escrever para mim o belo capítulo que aparece no livro O cosmo como revelação, que editei juntamente com José María Vigil. Esse livro deve muito mais a você, Leonardo, do que apenas esse capítulo. Ao longo de todo esse caminho de pesquisa e de aprofundamento sobre o novo paradigma ecológico, você desempenhou um papel essencial, do qual sempre lhe serei agradecida.

Os 80 anos que você viveu com tanta plenitude e com tanto amor pela vida, e que nós todos e todas estamos aqui celebrando, tornaram esse mundo, que algumas vezes é tão inóspito e violen- to, um lugar melhor e mais acolhedor. Uno o meu mais profundo agradecimento a você ao agradecimento de tantos amigos e amigas

Claudia Fanti. Jornalista italiana, engajada na reflexão teológica mais avançada e militante de movimentos sociais

Apesar das tribulações ainda é Natal

Vivemos no mundo e no nosso país tempos sombrios. Há muita raiva e até ódio. Mais que tudo reina falta de sensibilidade para nossos semelhantes, especialmente para com as crianças, como o Menino Jesus, vivendo nas ruas e sofrendo abusos. Mesmo assim vivemos a humanidade de nosso Deus que assumiu nossa condição humana tão contraditória.

O cristianismo não anuncia a morte de Deus, mas a humanidade, a benevolência e o amor misericordioso de Deus. Olhemos para o Menino entre o boi e o asno: nele sorri a jovialidade e a eterna juventude do próprio Deus.

Passei por Belém de Judá e ouvi um sussurro terno. Era a voz de Maria embalando o filhinho:”Sol, meu filho, como vou cobrir-te de panos? Como vou amamentar-te, se és tu, que nutres todas as criaturas”?

Do presépio também veio uma voz angelical que me dizia: “Oh criatura humana, por que tens medo de Deus? Não vês que sua mãe enfaixou seu corpinho frágil? Uma criança não ameaça ninguém. Nem condena ninguém. Não escutas seu chorinho doce? Mais que ajudar, ela precisa ser ajudada e carregada no colo”.

Não deixemos que seja verdade o que escreveu o evangelista São João:“Ele veio para o que era seu e os seus não o receberam”. Nós queremos estar entre aqueles que O recebem como irmão e companheiro de caminhada.

A entrada de Deus no mundo não foi estrepitosa. Deu-se à margem da história oficial, fora da cidade, no meio da noite escura, numa gruta de animais. Em Roma, capital do império e em Jerusalém, o centro religioso do Povo de Israel, ninguém soube de nada. Quase ninguém o percebeu. Somente aqueles que tinham um coração simples como os pastores de Belém, estes seguiram até a gruta, onde tiritava de frio a Divina Criança.

O Natal nos oferece a chave para decifrar alguns mistérios insondáveis de nossa atribulada existência. Os seres humano sempre se perguntaram e perguntam: por que a fragilidade de nossa existência? Por que a humilhação e o sofrimento? E Deus silenciava. Eis que no Natal nos vem uma resposta: Ele se fez frágil como nós. Ele se humilhou e sofreu como os humanos. Esta foi a resposta de Deus: não por palavras mas por um gesto de identificação. Não estamos mais sós na nossa imensa solidão. Ele está conosco. Seu nome é Jesus.

O Natal nos descortina também uma resposta derradeira ao sentido do ser humano. Somos um projeto infinito. Só um Infinito pode realizar nossa plena humanidade. Eis que o Infinito se faz humano para que o humano realizasse seu projeto Infinito. O infinito se fez ser humano para que o ser humano se fizesse Infinito.

Para concluir nada mais comovedor do que estes versos de Fernando Pessoa, o grande poeta português, sobre o Menino Jesus::

Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É por isso que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

É a criança tão humana que é divina.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro.

Mas vivemos juntos os dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro de tua casa.

Despe meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Feliz Natal a todos e a todas. Confiemos: há uma Estrela como a de Belém a iluminar o nosso caminho por mais sombrio que se apresente. E se eu não souber o caminho, Menino, tu o sabes e bem certo.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Natal: a humanidade e a jovialidade de nosso Deus, Vozes, 8.edição 1976.

 

 

 

A emergência planetária e a irresponsabilidadeo do Governo Bolsonaro

Em dezembro de 2108 realizou-se na cidade de Katowice, na Polôniaa a COP 24 da ONU sobre as Mudanças Climáticas (COP24). O Brasil por causa de suas florestas úmidas, especialmente da Amazônia, por ser a potência mundial de água doce (12% do total) e pela maior biodiversiade do planeta e por outras qualidades ecológicas é decisivo para o equilíbrio dos climas da Terra especialmente  pelos seus rios volantes (umidade lançada na atmosfera), pela capacidade de  absorção do dióximo de carbono, do metano e de outros gazes de efeito estufa, produtores de aquecimento global. Estava escandalosamente ausente desse magno evento. A razão é que seu governo e alguns ministros, de parquíssima inteligência, são contra o  fato  do crescente aquecimento planetário. As pesquisas científicas mais sérias nos advertem que estamos face à uma  Emergência Planetária. Outros falam de um Armagedon ecológico. Vale dizer: temos pouco tempo para mudar nosso modo de produção, de consumo e de exploração irracional dos escassos bens e serviços da Mãe Terra. Diz-se que temos apenas uma geração para fazer essas mudanças fundamentais. Caso contrário, engrossaremos o cortejo dos que caminham rumo a seu abismo. Devemos fazer nossa parte. Senão seremos corresponsáveis pelo desaparecimento de milhares de espécies de seres vivos e, o que é pior, de seres humanos que não conseguiriam adaptar-se ao aumento da temperatura e seriam condenados a sofrer terrivelmente e até a morrer. Nosso governo, por ignorante e desinformado, não toma estas ameaças a sério. Põe em risco o sistema-Terra e o sistema-vida, além de não amar o nosso povo, particularmente, os mais vulneráveis (as maiorias) que serão muito atormentadas com as mudanças climáticas. Voltaremos mais vezes a este tema do qual depende nosso futuro. Publicamos aqui um artigo de um especialista na área o Prof.José Eustáquio Diniz Alves que nos fornece os dados básicos e as opiniões de figuras científicas mais reconhecidas desta área. Lboff

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              COP24 diante da emergência planetária e do Armageddon ecológico

                          Fonte: Revista ihu on-line19 Dezembro 2018

Emergência Planetária – A afluência e a influência humana sobre a Terra nos tempos modernos têm sido tão significativas (e ambientalmente tão negativas) que pôs fim à estabilidade climática existente nos cerca de 12 mil anos do Holoceno“, escreve José Eustáquio Diniz Alves, Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências EstatísticasENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, em 17-12-2018.

Eis o artigo. 

“É triste pensar que a natureza fala e que o ser humano não a ouve” – Victor Hugo

A Terra é a nossa casa comum. A humanidade é uma das inúmeras formas de vida que compartilham a riqueza natural gerada por milhões de anos de diversificação biológica e evolução das espécies. O Homo Sapiens – que surgiu há cerca de 200 mil anos – é, portanto, uma das espécies mais recentes na teia da vida planetária. Mas é a espécie que mais impactou negativamente a saúde dos ecossistemas e que tem provocado um holocausto biológico, uma grande redução da biodiversidade e mudanças climáticas sem precedentes e com enorme rapidez.

Nossos ancestrais distantes, nos últimos 3 milhões de anos, viveram múltiplos ciclos de temperatura, passaram por mudanças climáticas graduais e eras geladas, porém, nunca experimentaram “idade quente” alguma. O Homo sapiens sobreviveu a duas eras glaciais. Em cada era glacial, as temperaturas globais ficaram até 4º C mais baixas. O período mais quente já experimentado pelos humanos foi cerca de 1º C mais quente (média global) do que hoje. Esse período ocorreu entre as duas mais recentes eras glaciais, 120.000 anos atrás (Eemian).

Nos 100 mil anos seguintes, as temperaturas diminuíram gradualmente para uma nova era glacial. Durante esse período mais frio, os humanos começaram a se expandir para fora da África e para todas as partes do mundo. Desde o Eemian, as temperaturas mais baixas têm sido a norma.

A civilização humana tem cerca de 12.000 anos, conforme estabelecido pelo início dos assentamentos permanentes e da agricultura. O cultivo da terra se estabeleceu quando as geleiras recuaram da última era glacial. A sociedade moderna desenvolveu-se inteiramente em nossa época geológica atual, o Holoceno. As temperaturas globais não variaram mais do que ± 1º Celsius desde então. Houve mudanças regionais no clima (Período Medieval Quente, Pequena Idade do Gelo, etc.), mas desde que a civilização começou, os humanos nunca experimentaram um clima global mais quente do que o atual.

Desta forma, a temperatura não mudou muito desde que nos instalamos em cidades, avançamos com a agricultura e a pecuária, inventamos a manufatura e começamos a nos chamar de sapiens civilizados. Nos últimos 400 mil anos, o nível de concentração de CO2 na atmosfera nunca ultrapassou 300 partes por milhão (ppm), conforme os gráficos da NASA demonstram.

Considerando apenas os últimos 1000 anos, nota-se uma grande estabilidade nos níveis globais de dióxido de carbono na atmosfera em torno de 275 a 280 ppm até o final do século XVIII. Todavia, desde a invenção da máquina a vapor, desenvolvida por James Watt, e com o início da Revolução Industrial e Energética, as emissões de gases de efeito estufa disparam e a concentração de CO2 atingiu 300 ppm em 1950, ultrapassou 400 ppm em 2015 e deve ultrapassar 411 ppm em 2019.

Existe uma relação muito forte entre as emissões de carbono e o aumento da temperatura global. Entre 1880 e 1900 a temperatura estava 0,2°C abaixo da média da temperatura do século XX. Entre 1901 e 1950 a média da temperatura ficou 0,15°C abaixo da média do século passado e entre 1951 a 2000 ficou 0,15°C acima da média. Portanto, houve um aumento de temperatura, mas que alguns céticos consideravam como efeito natural.

Porém, o ano de 1998 foi o mais quente do século XX e ficou 0,63°C acima da média secular. E o que estava ruim, piorou muito no século XXI, pois a temperatura ficou 0,74º C acima da média do século XX em 2014, 0,90º C em 2015, 0,94º C em 2016, 0,84º C em 2017 e deve ficar em torno de 0,80º C em 2018. Os últimos 5 anos foram os mais quentes já registrados e foram também os anos com maiores níveis de emissões de gases de efeito estufa. Tudo isto acende o alerta e confirma o que os ambientalistas chamam de emergência climática.

A afluência e a influência humana sobre a Terra nos tempos modernos têm sido tão significativas (e ambientalmente tão negativas) que pôs fim à estabilidade climática existente nos cerca de 12 mil anos do Holoceno. Por conta disto, o cientista Paul Crutzen recomenda declarar o início de uma nova era na escala de tempo geológico da Terra: o Antropoceno. O termo Antropoceno foi cunhado levando em consideração que a atividade humana provocou mudanças profundas sobre o Planeta, nomeadamente o aquecimento global, a subida do nível do mar, a acidificação dos oceanos, a extinção de espécies, a transformação do solo e das fontes de água doce, a deflorestação e da defaunação em massa e a incidência de fenômenos climáticos extremos cada vez mais danosos para a civilização e os demais seres da vida natural.

O mundo vive hoje no Antropoceno o que John B. Foster (01/12/2012) chama de “Emergência Planetária”: “A ciência nos diz hoje que temos uma geração no máximo para realizar uma transformação radical em nossas relações econômicas e nossas relações com a Terra, se quisermos evitar um grande ponto de inflexão ou “ponto sem retorno”, após o qual grandes mudanças no clima da Terra provavelmente estarão além de nossa capacidade de prevenir e serão irreversíveis”.

A noção de emergência não é nova, pois no final da década de 1960, Robert Heilbroner (23/04/1970) já alertava para o “Armageddon ecológico”, pois como ele dizia: “Estamos atingindo o limite da capacidade de carga da Terra, não em uma base local, mas global. De fato, estamos bem além dessa capacidade, desde que ultrapassamos o Portanto, a humanidade já ultrapassou, em muito, os limites da resiliência do Planeta (Alves, 25/09/2018).

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado no início de outubro de 2018, considera que uma temperatura global acima de 1,5º C, em relação ao período pré-industrial, poderá ter efeitos catastróficos para os ecossistemas, a biodiversidade, a produção de alimentos e para o modo de vida rural e urbano de toda a população mundial. Para o IPCC, a “Emergência planetária” é agora e o “Armageddon ecológico” pode vir em 12 anos, que é o tempo que a humanidade tem para reduzir emissões em 45% se quiser ter alguma chance de evitar um aquecimento descontrolado.

Segundo artigo publicado por Christiana Figueres e colegas, na prestigiosa revista Nature (05/12/2018), o tempo para evitar o “Armageddon Ecológico” é ainda mais curto e as ações precisam ser mais efetivas e ambiciosas do que aquelas do Acordo de Paris: “Para voltar ao caminho certo, as metas revisadas devem ser mais ambiciosas do que as prometidas em 2015. Como argumentamos no ano passado na Nature, as emissões globais de CO2 devem começar a cair até 2020 se quisermos atingir as metas de temperatura do acordo de Paris”.

Estes parâmetros deveriam orientar as resoluções da 24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP24), realizada na cidade de Katowice, na Polônia, em dezembro de 2018. Contudo, depois de reuniões tensas, posicionamentos antiecológicos de algumas nações e do adiamento de um dia para o fim da Conferência, os representantes de 197 países concordaram com o chamado “livro de regras” que governará a luta contra o aquecimento global nas próximas décadas e regulará os compromissos voluntários de cada país para reduzir os gases de efeito estufa — as chamadas “Contribuições Nacionalmente Determinadas”.

Mas a COP24 apenas incluiu uma referência ao relatório científico do IPCC, em vez de tomar medidas “urgentes e sem precedentes” para limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC. Várias decisões importantes foram procrastinadas e não é de se estranhar que os grandes produtores de combustíveis fósseis, como os EUA de Donald Trump, a Rússia e a Arábia Saudita, reforçam as chances do “Armageddon ecológico”. O estranho é a posição do Brasil, que a partir do posicionamento do governo eleito, passou a marcar gol contra o multilateralismo e pode sair perdendo duplamente, pois não se beneficiará dos investimentos para a transição para a economia de baixo carbono, mas, certamente, irá sofrer as consequências das mudanças climáticas.

Como disse o prof. Richard Betts, do centro de monitoramento meteorológico da Grã-Bretanha, o aumento da temperatura da Terra ultrapassou a zona de conforto e agora ameaça a humanidade e vida no Planeta. Para ele, em vez de falar de “aquecimento global” (global warming) deveríamos falar de “esquentamento global” (global heating), pois trata-se de mudanças no balanço de energia do planeta. Ele completa: “Deveríamos estar falando sobre risco, em vez de incerteza.”

O nível de CO2 na atmosfera já é o maior em pelo menos 3 milhões de anos e as emissões de GEE continuam aumentando. A possibilidade de a temperatura global ultrapassar 2º C nas próximas décadas é enorme. Enfim, os resultados da COP24 não foram desprezíveis, mas ficaram muito aquém das necessidades requeridas para evitar o fenômeno “Terra estufa” e o “Armageddon ecológico”. Neste sentido, a ausência de um senso de urgência foi evidente na COP24, que manteve as negociações vivas, mas sem o engajamento necessário para fazer as transformações “urgentes e sem precedentes”.

Artigo de John Sutter (CNN, 16/12/2018) diz que depois de 13 dias de discussão produziu uma distração irritante, pois os quase 200 países da COP24 tomaram nota do relatório do IPCC, mas não deram as boas-vindas ao documento. Essa diferença aparentemente pequena é enorme no mundo hiper-sutil e hiper-educado da diplomacia climática. A questão é que o relatório do IPCC trata as mudanças climáticas como uma “emergência planetária”, enquanto o governo Trump e os produtores de energia fóssil estão colocando o Planeta em risco ao colocar os interesses das companhias petrolíferas e de carvão acima dos interesses de toda a humanidade. O que está acontecendo deve ser considerado como crimes climáticos contra a humanidade.

Artigo de Fiona Harvey (The Guardian, 16/12/2018) considera que a COP24 atingiu um acordo parcial e que fica aquém das necessidades. Ela cita o posicionamento do cientista Johan Rockstrom; “Minha maior preocupação é que as negociações da ONU não tenham alinhado as ambições políticas com a ciência. Continuamos a seguir um caminho que nos levará a um mundo muito perigoso de 3 a 4º C neste século. Eventos climáticos extremos já atingiram pessoas em todo o planeta, com apenas 1º C de aquecimento”.

A atual geração é a última que pode salvar clima. A jovem vegetariana sueca Greta Thunberg, de 15 anos de idade, foi uma das palestrantes da COP24, desde agosto a adolescente decidiu fazer uma greve em frente ao parlamento sueco, em Estocolmo. Seu protesto é pelo clima. Ela argumenta que seu país e o mundo precisam fazer mais. Ela disse:

“Não viemos aqui para implorar aos líderes mundiais que se preocupem com nosso futuro. Eles nos ignoraram no passado e irão nos ignorar novamente. Viemos até aqui para informá-los que a mudança está a caminho queiram eles ou não. As pessoas se unirão a este desafio. E já que nossos líderes se comportam como crianças, teremos que assumir a responsabilidade que eles deveriam ter assumido há muito tempo”.

Referências:

ALVES, JED. Os limites da resiliência do Planeta e o decrescimento demoeconômico, XXI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, da ABEP, Poços de Caldas, 25/09/2018

https://pt.scribd.com/document/389557293/A-humanidade-ja-ultrapassou-os-limites-da-resiliencia-do-Planeta

Sarah. We’ve been through climate changes before, Skeptical Science, 09/03/2012

https://skepticalscience.com/humans_survived_previous_changes.html

John Bellamy Foster and Brett Clark. The Planetary Emergency, Monthly Review, 01/12/2012

https://monthlyreview.org/2012/12/01/the-planetary-emergency/

Robert Heilbroner. Ecological Armageddon, New York Review of Books, n.14, 23/04/1970

https://www.nybooks.com/articles/1970/04/23/ecological-armageddon/

IPCC. Global Warming of 1.5 °C http://www.ipcc.ch/report/sr15/

Christiana Figueres, et. al. Emissions are still rising: ramp up the cuts, NATURE, 05/12/2018

https://www.nature.com/articles/d41586-018-07585-6

Jonathan Watts. Global warming should be called global heating, says key scientist, The Guardian, 13/12/2018 https://www.theguardian.com/environment/2018/dec/13/global-heating-more-accurate-to-describe-risks-to-planet-says-key-scientist

John Sutter. Planetary emergency: After 30 years, leaders are still fighting about basic truths of climate science, CNN, 16/12/2018

https://edition.cnn.com/2018/12/16/health/sutter-cop24-climate-talks/index.html

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